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A Superliga de 48 horas e uma nova posição sobre a polêmica de 1987

Imagine que um grupo de clubes europeus (uns 12 ou 16) encaminham, em conjunto, a seguinte mensagem para a UEFA:

“Não temos mais interesse em fazer parte do sistema sob a sua gestão. Vamos fundar uma liga à parte e passaremos o ano disputando um campeonato nosso. Podem excluir os nomes de nossos clubes de suas competições: Champions League, Europa League, FA Cup, Copa do Rei, etc”.

Evidentemente, é um direito deles.

Mas se esses clubes, ao fazerem isso, provocam uma onda de revolta em seus próprios torcedores, podemos concordar que trata-se de uma decisão pouco inteligente.

Foi mais ou menos o que aconteceu com o anúncio da superliga europeia, no último dia 18 de abril. 

Formar uma liga à parte, do modo como foi ensaiado, significa pôr-se fora de competições tradicionais, que despertam sentimentos poderosos nos torcedores. Foi essa perspectiva que fez eclodir até manifestações de rua (em especial, dos britânicos).

Tabela 1
Fonte: Imagem enviada pelo autor

Escrevi um artigo sobre a ideia de uma superliga global, que estava sendo cogitada. Foi publicado neste blog no dia 5 de abril. Nesse artigo, está dito que “a tendência na governança esportiva global é a da unidade” e, seguindo essa tendência, a superliga global “provavelmente não será afrontosa à FIFA”. De modo surpreendente, optaram por serem afrontosos. Muito afrontosos. Liderados pelo presidente do Real Madri, os doze clubes decidiram apressar a marcha e pisar duro. Repentinamente, anunciaram a criação de uma superliga europeia não negociada com a UEFA ou FIFA. A superliga global viria depois de algum tempo, talvez. 

Importante repetir: repentinamente e não negociada. Isto é, foram à guerra. Mas sem apoiadores poderosos que estivessem dispostos a se manifestar abertamente e, pior, sem contar sequer com a adesão de suas próprias torcidas. Parece que algum estrategista não calculou bem. O vídeo em que o proprietário do Liverpool se desculpa com torcida foi o momento mais constrangedor da derrocada dessa superliga, que existiu por 48 horas ou menos.

Tabela 2
Fonte: Imagem enviada pelo autor

Entre os atletas também houve preocupação. Perceberam que poderiam ser alijados de competições importantes, o que diminuiria a sua visibilidade e seus ganhos econômicos. Sentiram-se inseguros.O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, também se manifestou contra a superliga. Tudo desabou em torno de Florentino Perez, que permanece, insistente, acreditando no projeto que acalentou. 

As desistências dos clubes da superliga vieram rapidamente, uma após a outra. E essas desistências fizeram o projeto recuar, é claro. Mas recuar não é se extinguir. Não é impossível criar uma superliga europeia que consagre a superioridade quase permanente (vide tabelas 1, 2 e 3) dos maiores clubes do continente europeus. E quando se fala em maiores clubes do continente europeu é preciso incluir os alemães, que não estavam presentes nesse primeira tentativa de superliga. Mas criar essa superliga sem antes consolidar o apoio de seus torcedores, sem dar segurança aos atletas, sem garantir o apoio de empresas poderosas (grandes empresas internacionais de comunicação, principalmente) e sem uma boa negociação com a UEFA e a FIFA, será extremamente difícil. Florentino Perez escolheu justamente esse caminho mais difícil.

Tabela 3
Fonte: Imagem enviada pelo autor

* * *

No Brasil, uma repercussão interessante da confusão europeia: surgiu (mais uma vez) um debate sobre o polêmico ano de 1987.

Um número restrito de clubes decide criar uma liga com campeonato próprio e faz isso em afronta a uma entidade reconhecida pela FIFA. Eis o que se passou nesse caso da superliga europeia de 2021 e assim aconteceu também no caso da Copa União de 1987 no Brasil. Uma semelhança visível. Ou não?

Na internet, essa semelhança foi abordada em vários sites. O assunto ganhou visibilidade. E até a Rede Globo decidiu tocar no assunto.

No programa Esporte Espetacular do dia 25 de abril, após uma reportagem sobre o fracasso da superliga europeia, o apresentador Lucas Gutierrez anunciou uma “top 5 de ideias furadas de competições no futebol brasileiro e mundial”. O top 4 foi a Copa União.

A Globo, que por vários anos tratou o Flamengo como o campeão brasileiro oficial de 1987, assumiu outra postura no programa do dia 25. Lucas Gutierrez perguntou: “Diz aí: quem é o campeão brasileiro de 87?”. Logo depois, o mesmo Lucas Gutierrez completou: “Eu não vou meter o meu bedelho nessa história”.

E disse mais: “A verdade é que a Copa União de 1987 foi uma bagunça”. Isso foi dito em um programa da empresa televisiva que mais apoiou a Copa União. Seria uma autocrítica velada?

Foi citada até a esdrúxula situação do Guarani em 1987: o clube, que foi vice-campeão brasileiro de 1986, foi jogado pelo Clube dos Treze no módulo amarelo, que era tratado pelo próprio Clube dos Treze como uma segunda divisão. O apresentador Lucas Gutierrez também fez graça com esse absurdo: “Entendeu? Eu também não”.

E assim o Flamengo perdeu mais uma batalha nessa disputa que pode ser chamada de “Guerra de 87”. O clube de maior torcida do Brasil dizia-se campeão brasileiro daquele ano, mas não disputou a Taça Libertadores da América de 1988 (disputá-la era um direito do campeão brasileiro) e viu a Justiça confirmar, em diversas instâncias, o título de campeão dado pela CBF ao Sport Recife. O que ainda restava aos flamenguistas era o apoio da Rede Globo. Um apoio importantíssimo, por razões óbvias. O Esporte Espetacular nos mostrou que até isso se esvaiu.

Mas há algo que Florentino Perez pode aprender com Márcio Braga e Carlos Miguel Aidar, os dois dirigentes com maior destaque no Clube dos Treze em 1987. Antes de afrontarem a CBF, garantiram o apoio convicto de patrocinadores poderosos e da maior emissora de TV do país (enquanto a Confederação, por outro lado, estava em crise). Foi assim que a Copa União, mesmo em atrito com um órgão reconhecido pela FIFA, se mostrou tão relevante e por tanto tempo. Bem mais tempo que a superliga europeia de 48 horas.

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A Superliga global: o futuro do futebol está chegando?

Ao caminhar pela cidade de Manaus, não será difícil encontrar alguém usando a camisa de um clube de futebol europeu, como o Barcelona, o Juventus ou o Manchester United. Alguns, além de usar a camisa, se dirão até torcedores do clube, com seu modo próprio de torcer por uma agremiação que não se comunica em língua portuguesa e possui sede e estádio a milhares de quilômetros de distância.

O mesmo acontecerá em Teresina, Cuiabá, Uberlândia e milhares de outras cidades brasileiras. Mas o Brasil possui um futebol forte e o predomínio, entre os seus torcedores, ainda é dos clubes do próprio país. O apreço por clubes europeus mostra-se muito mais intenso em outras regiões, de futebol menos desenvolvido. A superpopulosa China, os riquíssimos países árabes e toda a África, por exemplo. 

É o futebol globalizado do século 21, com clubes globais, suas torcidas globais e acompanhamento diário por uma imprensa global, com destaque para os sites da internet e canais de TV internacionais (ESPN, Fox Sports e outros). Falta apenas que surja uma liga e um campeonato global de clubes. A ideia, pelo menos, já existe. A princípio, cogitou-se uma superliga de clubes europeus. Depois, a proposta evoluiu para uma superliga global, que seria disputada pelos clubes mais ricos da Europa, alguns grandes clubes da América do Sul e clubes convidados de outros continentes. A Associação Mundial de Clubes, recém-fundada, é a principal defensora do projeto.

Seria uma liga fechada, ou seja, participaria da competição promovida por essa entidade apenas os seus membros e convidados. Não haveria um direito assegurado à participação por razões de mérito. O clube campeão continental da África, por exemplo, não teria, em razão desse título, direito a ingressar no campeonato da superliga.

Que título deveria ser dado ao campeão dessa superliga global? O impulso óbvio é o de chamá-lo de campeão global ou de campeão mundial. Esse impulso, porém, se choca frontalmente com um princípio que se tornou inquestionável para a FIFA e pode ser expresso assim: campeão mundial é o vencedor de uma competição que incluiu todo o mundo. Uma liga fechada, que pode excluir por inteiro um ou mais continentes, está longe disso. É baseado nesse princípio da FIFA que são realizadas as fases preliminares continentais das Copas do Mundo (fases preliminares que são chamadas no Brasil de “eliminatórias”).

O princípio defendido pela FIFA tem lógica e é considerado “muito justo”, mas não se impôs em alguns casos históricos. Um exemplo é o da competição que foi a antecessora do atual campeonato mundial de clubes da FIFA. De 1960 a 2004, foi realizada uma disputa anual entre o campeão continental europeu e o campeão continental sul-americano. Era chamada oficialmente de Copa Intercontinental (denominada também de Copa Europeia-Sul-Americana). Na grande maioria das vezes, o vencedor dessa disputa foi tratado pela imprensa e pelos torcedores como campeão mundial de clubes. A ausência de clubes de outros continentes em uma disputa que se considerava “mundial” provocou críticas, mas elas não abalaram a sua relevância. A competição, aliás, ganhou prestígio renovado de 1980 em diante, principalmente entre os sul-americanos. Até a FIFA a tratava com respeito. Os títulos dos “campeões mundiais de clubes” (conquistados de 1960 a 2004) continuam sendo reconhecidos como tal, com algumas exceções apenas em alguns países europeus. Algo parecido pode acontecer com a superliga global.

Florentino Perez – Presidente do Real Madrid, primeiro presidente da Associação Mundial de Clubes e defensor da superliga global.

Outro caso que pode (e merece) ser citado: a fase final do campeonato promovido pela liga de beisebol dos Estados Unidos (MLB) é chamada até hoje de World Series (Série Mundial), embora seja a fase final de um campeonato nitidamente nacional, com a participação de apenas uma franquia canadense. Críticas podem ser feitas a essa designação, mas nenhum impacto tiveram até hoje. A World Series continua sendo uma das mais ricas e prestigiadas disputas esportivas do planeta.

Se a superliga global de futebol vier a alcançar poder econômico e prestígio semelhante ao da MLB, poderá chamar o seu campeão de “campeão mundial” e suportar as contestações (ou desprezá-las). Mas as contestações, nesse caso, provavelmente virão da FIFA. Essas, parece óbvio, não poderão ser ignoradas, suportadas ou desprezadas.

Outra situação possível: o surgimento de uma segunda liga global, com clubes que sejam relevantes em seus países e tenham alguma projeção internacional (mas não possam, apesar disso, ingressar de modo permanente na superliga, que será fechada, como já foi dito). Pode acontecer, então, de termos dois clubes tradicionais e poderosos sendo igualmente chamados de “campeões mundiais” no mesmo ano. Estabelece-se, então, uma disputa simbólica, às vezes sem vencedor consensual.

Mas o que começa com aparência de crise depois pode se transformar em oportunidade: caso haja muito interesse em decidir qual desses dois campeões globais é mais merecedor do título, uma disputa pode ser promovida, com boas perspectivas de divulgação e lucro. Caso semelhante pode ser citado na história esportiva dos Estados Unidos. De 1960 a 1969, o futebol americano teve duas ligas rivais (a AFL e a NFL). A cada ano, duas franquias festejavam o título de “grande campeã”, sem definir qual das duas deveria ser tratada como a autêntica campeã daquela temporada. Em janeiro de 1967, foi realizada pela primeira vez uma disputa entre as campeãs das duas ligas. A partida ganhou o nome de Super Bowl e é disputada até hoje. Tornou-se o evento esportivo de maior magnitude dos Estados Unidos e está entre os mais valiosos do mundo.

Para evitar desavenças, contestações e duplicidade de campeões (que geram dúvidas entre os espectadores e diminuem o prestígio das competições), a tendência na governança esportiva global é a da unidade. Poucos esportes ainda não possuem confederações internacionais e nacionais unificadas, como exige o COI. A superliga global, seguindo essa tendência, provavelmente não será afrontosa à FIFA. Também não deve ter interesse em ser tão fechada e excludente a ponto de estimular o surgimento de uma liga rival. Mesmo com todas essas cautelas, a superliga provocará mudanças gigantescas no futebol mundial, caso seja realmente instituída e conte com clubes que não disputem campeonatos nacionais. Será o futebol global chegando à sua plenitude. Um grande clube alemão que seja membro da superliga e não dispute o campeonato de futebol da Alemanha se tornará um clube do mundo, com torcedores de todo o planeta. E assim, em algumas décadas, poderá existir uma torcida organizada (e apaixonada) do Borussia na cidade de Maceió, que se reunirá para torcer por seu clube “do coração” em uma partida da superliga contra o brasileiríssimo Flamengo. Uma aberração para os tradicionalistas. Uma possibilidade que a interconexão global já anuncia?

As seis confederações continentais da FIFA.
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O retorno de Mato Grosso à primeira divisão do futebol nacional

Em 4 de agosto de 1968, o Operário de Várzea Grande estreou na Taça Brasil. Venceu o Atlético Goianiense por 2 a 0. Foi a primeira partida de futebol que um time de Mato Grosso disputou em uma competição nacional de clubes. Começou bem.

O Operário disputou mais três partidas naquela Taça Brasil. Venceu uma e perdeu duas. Ficou em segundo lugar no seu grupo. Classificou-se para a fase seguinte apenas o primeiro colocado (o Atlético Goianiense). O futebol de Mato Grosso teve que esperar cinco anos para voltar a disputar uma competição nacional de primeira divisão.

Vagas garantidas para Mato Groso até 1986

O Esporte Clube Comercial (da cidade de Campo Grande) foi incluído no Campeonato Brasileiro de 1973 porque a CBD queria ampliar o número de Estados com representantes na competição. O número de clubes participantes subiu para 40 em 1973, depois 42 em 1975, 54 em 1976, 62 em 1977. Chegou a 94 em 1979. Assim, os mato-grossenses tiveram vagas garantidas pela CBF na primeira divisão do Campeonato Brasileiro de 1973 a 1986.

Vagas garantidas, mas resultados nada animadores. Nenhum clube do Estado chegou a ficar entre os dez primeiros colocados durante todo esse período. O melhor desempenho foi o do Mixto Esporte Clube no campeonato de 1985. Ficou em 14º lugar. Já o Mato Grosso do Sul se destacava com o Operário de Campo Grande, que ficou em terceiro lugar no ano de 1977 e quinto em 1979. Os torcedores do Estado recém-criado podiam fazer galhofa: a separação de 1977 deixou o bom futebol no sul e os maus resultados no norte.

Jogadores do Mixto em 1985. 14º lugar no Campeonato Brasileiro. Fonte: Trivela

1987: o futebol de Mato Grosso fora da primeira divisão nacional

Em 1987, o futebol brasileiro passou por uma de suas maiores crises (a maior, na opinião do autor desse artigo) e o Campeonato Brasileiro teve o seu formato bruscamente modificado. Na Copa União (que a CBF também denominou de módulo verde), estavam os grandes clubes do país (congregados no Clube dos 13) e mais três clubes convidados. No módulo amarelo, estavam mais 16 clubes. Segundo a CBF, um desses 32 clubes (dos módulos verde e amarelo) seria o campeão brasileiro. E não havia nenhum clube de Mato Grosso entre os 32. Podia-se dizer, portanto, que pela primeira vez desde 1973 o futebol mato-grossense não estava incluído na primeira divisão nacional. E assim continuaria sendo por muito tempo após 1987.

No ano 2000, uma exceção. O Campeonato Brasileiro daquele ano foi realizado pelo Clube dos Treze e não teve divisão principal e divisão inferiores. Foi uma competição única com 116 participantes, em razão de uma outra crise que abalou o futebol nacional (a crise do rebaixamento do Gama em 1999). Ainda assim, esse campeonato excepcional, chamado Copa João Havelange, dividiu os clubes em quatro módulos e o único clube de Mato Grosso inscrito na competição (o União Rondonópolis) foi colocado em um dos módulos inferiores. Todos sabiam, de fato, que os módulos verde e branco equivaliam à terceira divisão e era no módulo branco que estava o representante do futebol mato-grossense.

Depois do ano 2000, Mato Grosso ficou vários anos sem representantes não só na primeira divisão (Série A), mas também na segunda (Série B). Além disso, os clubes mato-grossenses não conseguiam boas colocações na terceira divisão (Série C). Sequer chegavam à fase final. Foi assim até o campeonato de 2010. No campeonato de 2011, a situação começou a mudar.

Luverdense e Cuiabá: a nova geração do futebol mato-grossense

O Luverdense Esporte Clube ficou entre os oito melhores da Série C de 2011. Disputou a segunda fase, que era a fase semifinal, mas não conseguiu ficar entre os quatro clubes que ascenderam à Série B do ano seguinte. Em 2012, o Luverdense novamente superou a primeira fase e enfrentou a Chapecoense nas quartas-de-final. Caso vencesse essa disputa, subiria para a Série B de 2013. Não venceu, mas o acesso à Série B parecia estar cada vez mais perto.

Aconteceu, enfim, em 2013. O adversário nas quartas-de-final, dessa vez, foi o Caxias, do Rio Grande do Sul. O Luverdense venceu os dois jogos da disputa. Por 2 a 1 em Caxias do Sul e por 2 a 0 em Lucas do Rio Verde. “A cidade está em festa”, declarou o site do Globo Esporte de Mato Grosso.

O Luverdense ficou na Série B por quatro anos (2014 a 2017). Sua melhor colocação foi o nono lugar em 2016. No ano seguinte, foi rebaixado para a Série C. Mas o futebol mato-grossense não ficou muito tempo ausente da Série B. Já no ano de 2018 o Cuiabá Esporte Clube chegou às quartas-de-final da Série C. O adversário nessa fase decisiva da competição foi o Atlético do Acre. O Cuiabá, após vencer a primeira partida na Arena Pantanal e empatar a segunda no Estádio Florestão (Rio Branco), se classificou para a Série B de 2019.

Luverdense e Cuiabá, os dois clubes de Mato Grosso que chegaram à Série B na década de 2010, eram clubes novos, profissionalizados depois do ano 2000. Eram a nova geração do futebol profissional mato-grossense, que surgiu após a crise dos clubes tradicionais (Mixto, Dom Bosco e Operário de Várzea Grande).

Essa nova geração enfatizava a ideia de que um clube de futebol profissional precisava ser uma empresa desportiva eficiente e devia abandonar os improvisos típicos do amadorismo. O Cuiabá, por exemplo, foi comprado em 2009 pelo grupo empresarial Dresch e passou a ser tratado exatamente como uma empresa desportiva. Aliás, orgulha-se por ser o primeiro clube-empresa do futebol de Mato Grosso. Em entrevista à ESPN, o vice-presidente do Cuiabá, Cristiano Dresch, referiu-se à agremiação como uma “empresa saneada e enxuta”, não um clube saneado e enxuto. Uma empresa sem atraso no pagamento de salários, sem acúmulo de dívidas e sem outros problemas que marcaram os clubes tradicionais por tantos anos. As expectativas, então, eram boas.

Na Série B de 2019, o Cuiabá ficou em oitavo lugar com 52 pontos. Causou boa impressão e, no ano seguinte, a confiança cresceu. Thiago Mattos, do canal mato-grossense Chaco Bola (YouTube), arriscou que o Cuiabá chegaria a 60 pontos na Série B. Errou por pouco. O Cuiabá somou 61 pontos (17 vitórias e 10 empates em 38 partidas), ficou em quarto lugar e subiu à Série A de 2021.

Festa no vestiário: Cuiabá subiu à Série A. Fonte: G1 Mato Grosso

Cuiabá em festa

A grande festa do Cuiabá Esporte Clube aconteceu na penúltima rodada da competição. Em Maceió, o CSA enfrentou o Brasil de Pelotas. Esse jogo terminou com o placar de 1 a 1, o que garantiu a classificação do clube cuiabano entre os quatro melhores da Série B. A ótima notícia foi dada aos atletas do Cuiabá quando eles ainda estavam se aquecendo para enfrentar o Sampaio Corrêa naquela mesma noite. Jogadores e dirigentes comemoraram no gramado da Arena Pantanal e, minutos depois, o time estava pronto para mais uma partida oficial. Os torcedores, impedidos de entrar no estádio em razão da pandemia da Covid-19, vibraram e soltaram fogos de artifício nas ruas próximas ao local da partida.

O feito do Cuiabá foi tamanho que até os rivais o parabenizaram. Operário de Várzea Grande, Dom Bosco, União de Rondonópolis e Luverdense publicaram na internet as suas felicitações pelo êxito. O governador do Estado se manifestou entusiasmado: “Que alegria! Que alegria! Que alegria! (…) Estou muito alegre. Se Deus quiser, vamos fazer bonito no ano que vem”. O prefeito de Cuiabá também saudou a ascensão do clube da cidade à Serie A. A rede hoteleira cuiabana começou a rever suas projeções para 2021.

Dom Bosco parabeniza o Cuiabá. Fonte: internet

Em 5 de outubro de 1986, o Operário de Várzea Grande foi derrotado pelo Vasco da Gama no Estádio de São Januário. Derrotado com goleada: 6 a 0. Foi a última partida disputada por um time mato-grossense na primeira divisão nacional. A próxima será em breve. E o Cuiabá Esporte Clube acredita que pode obter resultado bem melhor.

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Relembrando a primeira Copa do Brasil

Ricardo Teixeira e as Federações Estaduais

Depois do polêmico Campeonato Brasileiro de 1987, consolidou-se a ideia de que a primeira divisão do futebol nacional deveria ter apenas 20 participantes (ou pouco mais do que isso). A CBF e os grandes clubes concordavam também que era preciso adotar o sistema de ascenso e descenso entre divisões. Assim surgiu o que hoje é a Série A. A própria CBF chegou a promover, um tanto constrangida, algumas viradas de mesa depois, mas aquela ideia básica permaneceu inabalável e acabou se impondo definitivamente após o ano 2000.

Para a maioria das Federações filiadas à CBF, a situação se mostrou dramática. Os seus campeonatos estaduais perderam o maior atrativo: não classificavam mais os campeões (e os vice-campeões, em alguns casos) para a grande disputa nacional. Qual seria a importância desses campeonatos, então? Apenas a tradição? Muitos temiam que aquelas antigas competições caíssem em decadência rápida e fulminante.

Os clubes menores também se viram em situação crítica. Quase todos entenderam que passariam vários anos tentando subir para a primeira divisão. Seriam anos de desprestígio, de jogos sem importância, de arquibancadas vazias, poucas rendas e apequenamento ainda maior. A falência talvez fosse inevitável em muitos casos.

Tudo isso foi resolvido (amenizado, pelo menos) com a criação da Copa do Brasil. Ricardo Teixeira assumiu a presidência da CBF em de 16 janeiro de 1989. No dia seguinte, as Federações estaduais apresentaram a proposta da nova competição, que seria disputada por 22 campeões estaduais e 10 vice-campeões. Proposta aceita rapidamente: o novo torneio foi anunciado oficialmente sete dias depois. Naquele mesmo ano, foi realizada a primeira Copa do Brasil. Todos sabiam, obviamente, que Ricardo Teixeira era muito grato às Federações estaduais pelo apoio que recebeu durante o processo eleitoral (um processo concluído com a sua vitória por aclamação).

O que mais impressionou foi a decisão de garantir ao campeão da Copa do Brasil a indicação para a disputa da Taça Libertadores da América. Na época, o Brasil só indicava dois clubes para aquela competição (o campeão e o vice-campeão do Campeonato Brasileiro). Era uma mudança radical: antes condenados a lutar arduamente pelo difícil acesso à primeira divisão nacional, agora os clubes pequenos e médios tinham diante de si um atalho para a principal competição da América do Sul.

19 de julho: o início

Apenas cinco Estados não tinham representantes na primeira Copa do Brasil. Os cinco ainda não haviam profissionalizado o seu futebol e eram da região Norte: Acre, Amapá, Rondônia, Roraima e Tocantins. Os outros 22 Estados inscreveram os seus campeões. Os 10 Estados que tiveram maior renda nos campeonatos estaduais de 1988 puderam inscrever também os seus vice-campeões.

As disputas eram eliminatórias. Havia confrontos diretos de duas partidas entre dois clubes. Assim eram eliminados na primeira fase 16 clubes, depois oito, quatro, dois e, por fim, havia a decisão. Foi adotado como critério de desempate nessas disputas eliminatórias o gol qualificado (gol no campo do adversário), que não era desconhecido do futebol brasileiro, pois já havia sido utilizado na Taça Libertadores da América.

A primeira rodada da fase inicial foi marcada para o dia 19 de julho. Todos os clubes participantes jogaram naquela data. Dezesseis partidas espalhadas pelo território nacional.

Houve surpresas. Em Manaus, o Rio Negro empatou com o Vasco da Gama por 1 a 1. O Internacional, jogando em Porto Alegre, empatou com o CSA em zero a zero. O Cruzeiro empatou com o Botafogo da Paraíba jogando em Belo Horizonte (zero a zero). O Corinthians, campeão paulista de 1988, foi a São Luís do Maranhão e perdeu para o Sampaio Corrêa, campeão maranhense, por 3 a 2. Mas todos esses grandes clubes conseguiram se classificar para a fase seguinte.

Classificação sofrida foi a do Cruzeiro, que empatou duas vezes com os botafoguenses paraibanos, mas passou à fase seguinte por ter marcado um gol em João Pessoa, isto é, classificou-se pelo critério do gol qualificado. O Corinthians se classificou pelo mesmo critério: após perder por 3 a 2 na capital do Maranhão, venceu em São Paulo por 1 a 0.

O surpreendente Goiás

Um time que surpreendeu foi o Goiás. Após superar, na primeira fase, o Ferroviário (do Ceará) com duas vitórias, o clube goianiense enfrentou dois gigantes do futebol nacional: o Internacional e o Atlético Mineiro

Contra os gaúchos, o Goiás empatou a primeira partida em 0 a 0 na cidade de Porto Alegre. Depois, venceu de modo arrasador. O placar final da segunda partida, no Estádio Serra Dourada, foi uma goleada de 4 a 0 com gols de Josué, Uidemar, Túlio e Péricles. Túlio, aliás, seria o jogador com mais gols marcados no Campeonato Brasileiro daquele ano de 1989, disputado de setembro a dezembro.

Na terceira fase, contra o Atlético Mineiro, o Goiás jogou a primeira partida em Goiânia e, mais uma vez, venceu com vantagem folgada: 3 a 0. O Atlético venceu a segunda partida, mas apenas por 2 a 0. Assim, o Goiás chegou à semifinal da competição cercado de respeito e como favorito para chegar à final. Mais ainda: a campanha do Goiás ajudou a derrubar a previsão de vitórias fáceis dos grandes clubes do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Logo ficou claro que, durante a Copa do Brasil, alguns clubes médios e pequenos se esforçariam ao máximo para surpreender. E alguns realmente surpreenderam. 

Sport x Guarani: coincidência

Um dos duelos da segunda fase foi entre Sport Recife e Guarani. Era a mesma partida que, para a CBF, havia sido a decisão oficial do Campeonato Brasileiro de 1987 (e que até hoje ainda é motivo de discussão). E o interessante é que os resultados foram exatamente os mesmos da decisão de dois anos antes. Em Campinas, houve empate em 1 a 1. Três dias depois, em Recife, o Sport venceu por 1 a 0.

A imprensa não comentou a coincidência. A crise em torno do Campeonato Brasileiro de 1987 repercutiu muito no ano de 1988, mas em 1989 o assunto esfriou. O Flamengo protestou por não ter podido participar da Taça Libertadores da América de 1988, mas contentou-se com o apoio da Rede Globo, que o tratava como o legítimo campeão brasileiro repetidas vezes. O Sport Recife, por sua vez, não discutia mais o assunto porque estava satisfeito: havia participado da Libertadores e era reconhecido oficialmente pela CBF como o campeão de 1987. Para a CBF, o imbroglio desmoralizava a sua imagem e era melhor evitar a polêmica. E como todos haviam se desinteressado de discutir o tema, a imprensa também se desinteressou.

Talvez uma disputa entre Flamengo e Sport Recife (que poderia acontecer na final da competição) pudesse recrudescer os ânimos e reavivar a polêmica naquele ano de 1989.

Flamengo x Corinthians: um jogo emocionante

Um dos jogos mais emocionantes daquela primeira Copa do Brasil (talvez o mais emocionante) foi a segunda partida entre Corinthians e Flamengo na terceira fase da competição.

Na primeira partida, realizada no Estádio do Maracanã, o Flamengo foi muito superior e venceu por 2 a 0 (gols de Zico e Nando). Uma semana depois, os dois times se enfrentaram no Estádio do Pacaembu.

O Corinthians marcou o primeiro gol, mas ainda no primeiro tempo o Flamengo empatou, com um gol de Zico. Os corinthianos, então, precisavam chegar ao placar de 4 a 1 para se classificarem. E chegaram. Foram três gols no segundo tempo: um de Giba, outro de Eduardo e o último de Neto, aos 39 minutos. A torcida foi ao delírio e a classificação já era dada como certa. Mas eis que o flamenguista Júnior, três minutos após o gol de Neto, recebe passe perfeito na grande área do time adversário e marca mais um gol. A torcida corinthiana, emudecida, viu os jogadores do Flamengo comemorarem eufóricos o gol salvador. Com o resultado final de 4 a 2, o Flamengo passou à semifinal.

Quem criticava a Copa do Brasil dizia que aquele seria um torneio de importância menor no futebol brasileiro. Uma competição cheia de times com nível técnico inferior e fadada a fracassar e a desaparecer em poucos anos. Não percebiam que as disputas eliminatórias em dois jogos (o sistema que é chamado de mata-mata) muitas vezes se convertiam em disputas com enorme carga de emoção, atraindo o interesse da torcida, da imprensa e dos patrocinadores. Aquele jogo entre Flamengo e Corinthians já mostrava que esse poderia ser o maior mérito da competição.

Júnior comemora o gol da classificação do Flamengo contra o Corinthians nas quartas-de-final (fonte: copadobrasil1989.blogspot.com)

Goleadas do Grêmio

O Grêmio se destacou por castigar três dos seus adversários com goleadas. Na primeira fase, os gremistas derrotaram o Ibiraçu, campeão do Espírito Santo, duas vezes: 1 a 0 na primeira partida (realizada na cidade de Cariacica) e 6 a 0 na segunda partida (em seu próprio Estádio, o famoso Olímpico). Na segunda fase, o clube gaúcho foi a Cuiabá e aplicou outra goleada: 5 a 0 no Mixto, o campeão mato-grossense. A segunda partida nem aconteceu. A diretoria do Mixto alegou que estava com dificuldade para se deslocar, por transporte aéreo, até a cidade de Porto Alegre. A CBF declarou o Grêmio vencedor por WO.

Na terceira fase, não houve goleada. Mas o Grêmio passou com certa facilidade pelo Bahia, que havia se sagrado campeão brasileiro seis meses antes. Os gremistas venceram em Salvador por 2 a 0 e em Porto Alegre por 1 a 0. Assim, o clube gaúcho chegou à semifinal com 15 gols marcados e nenhum sofrido (seis vitórias, incluindo o WO, e nenhum empate ou derrota).  

Foi na semifinal que o Grêmio impôs a goleada mais impressionante. A primeira partida contra o Flamengo, no Estádio do Maracanã, começou com o clube carioca fazendo 2 a 0, mas terminou empatada em 2 a 2. Jogo disputado. A expectativa era a de que seria assim também no Rio Grande do Sul. Mas aconteceu o que ninguém esperava: vitória gremista por 6 a 1. “Grêmio massacra Fla”, informou a Folha de São Paulo. “Flamengo sai humilhado do Olímpico”, noticiou o Jornal dos Sports.

Com sete vitórias em oito jogos, nenhuma derrota e uma goleada sobre um dos maiores clubes do país, o Grêmio chegou à decisão na condição de favorito, obviamente.

Na outra semifinal, Sport e Goiás se equilibraram: 2 a 1 para os goianos em Goiânia e 1 a 0 para os pernambucanos em Recife. O clube recifense se classificou pelo critério do gol qualificado. A decisão não realizada de 1987 (Sport X Flamengo) quase aconteceu em 1989, o que certamente provocaria novos debates sobre a grande crise de dois anos antes. Os gremistas, porém, não deixaram. Estavam interessados em escrever outra história naquela Copa do Brasil.

Assis, do Grêmio, vibra após marcar o primeiro gol da final contra o Sport
(fonte: pelotadetrapoblog.wordpress.com/)

A final

Apesar do favoritismo gremista, o Sport não podia ser menosprezado. Estava há quase um ano sem sofrer derrota em seu estádio. O Grêmio, por outro lado, tinha melhor retrospecto (em nove partidas contra o adversário recifense, havia vencido cinco e empatado quatro). E estava muito claro o que aconteceria naquela primeira partida da decisão: o Sport partiria ao ataque em busca de uma vitória para poder jogar em condições vantajosas sete dias depois, no Estádio Olímpico.

Foi exatamente assim. Principalmente no segundo tempo. O Grêmio, porém, soube se defender como queria o seu técnico, Cláudio Duarte. O resultado final foi zero a zero

No dia 2 de setembro de 1989, Grêmio e Sport Recife entraram em campo, no Estádio Olímpico, para decidir a primeira Copa do Brasil. O público era de 62.807 torcedores. Um número muito animador. Havia, de fato, um assunto futebolístico mais importante naquele fim de semana. Era o jogo entre Brasil e Chile, no dia seguinte, pelas eliminatórias para a Copa do Mundo de 1990 (caso fosse derrotado, a seleção brasileira estaria fora da Copa pela primeira vez na história). Mas era inegável a importância daquela final, que definiria o primeiro clube brasileiro classificado para a Taça Libertadores da América do ano seguinte. A Rede Globo transmitiu o jogo para todo o país.

Quando o primeiro tempo terminou, o placar era 1 a 1 e favorecia o Sport, que seria o campeão (pelo critério do gol qualificado), caso o resultado final fosse aquele. Por isso, o gol de Cuca, aos 7 minutos do segundo tempo, entrou para a história do Grêmio. Foi o gol da vitória, relembrada e comemorada pelos gremistas até hoje. O Grêmio participaria da Taça Libertadores da América pela quarta vez em sua história no ano de 1990. Em Recife, os jornalistas esportivos criticavam o ataque do Sport por não conseguir sufocar a defesa do Grêmio, mas ressaltavam que o clube pernambucano havia sido um finalista valente, não uma presa fácil.

A Copa e as críticas

Zico, o ídolo flamenguista, fez duras críticas à Copa do Brasil naquele ano de 1989. O presidente do Flamengo, Gilberto Cardoso, também criticou. O jogador disse que a competição era deficitária e que havia sido criada para “pagar” o que Ricardo Teixeira devia às Federações estaduais.

Zico chegou a dizer que o Vasco da Gama havia forçado a sua desclassificação diante do Vitória (vice-campeão baiano) para poder disputar um outro torneio, o Ramón de Carranza (Espanha), que era mais rentável. Mas negou ter chamado a Copa do Brasil de torneio “caça-níqueis”. Declaração muito grave: afirmar que um clube havia forçado a própria desclassificação, ou seja, se deixado vencer. Ricardo Teixeira reagiu dizendo que as acusações eram injustas, que os países da Europa realizavam copas semelhantes e que a competição havia sido criada com o intuito único de promover a integração futebolística das cinco regiões do país (poucos acreditaram nessa última afirmação). Em razão de suas declarações, Zico foi julgado pelo Tribunal de Justiça Desportiva do Rio de Janeiro, que o absolveu por nove votos a um.

As críticas à Copa do Brasil continuaram e a situação piorava quando a CBF tomava decisões desastradas, como a de marcar para junho o início da competição em 1990, ou seja, iniciá-la com a Copa do Mundo sendo disputada na Itália. Mas a competição já havia demonstrado seus méritos em 1989 e oferecia um prêmio que não podia ser menosprezado: a classificação para a Taça Libertadores da América. A revista Placar, em junho de 1990, foi certeira: “Apesar das reclamações, os clubes sabem que a Copa do Brasil vale muito”.

Ao longo da década de 1990, a Copa do Brasil se remodelou. O número de clubes inscritos começou a crescer em 1995 (a pressão para aumentar o número de participantes revelava um interesse cada vez maior na competição). Dez anos depois da primeira Copa do Brasil, não havia mais dúvidas: a competição havia ganhado prestígio e se consolidado. “Pode não ser a competição com o melhor nível técnico do país, mas ao se deparar com a campanha dos quatro semifinalistas de 1999, uma coisa é certa: nada supera a Copa do Brasil em emoção” (Placar, jun.1999). Emoção conhecida desde 1989 e que continuava a atrair os torcedores e a imprensa.

Havia tanto interesse em participar da Copa do Brasil que no ano 2000 surgiu a proposta de transformá-la em um grande torneio com 200 inscritos (um modelo inspirado na Copa da Inglaterra, que tem mais de 500 clubes inscritos). A ideia sofreu um bombardeio de críticas e foi abandonada. Mas o número de participantes, alguns anos depois, foi aumentado e chegou a 91 (esse é o número atual de clubes inscritos).

Em 2019, uma pesquisa da Sport Track mostrou que, entre os brasileiros, o apreço pela Copa do Brasil só perde para o Campeonato Brasileiro e para a Taça Libertadores da América. Está à frente de competições importantes, como a Champions League (UEFA) e o Mundial de Clubes da FIFA.

E tudo começou naquela criticada Copa do Brasil de 1989.

Quais campeonatos de futebol você prefere? (fonte: Pesquisa – Sport Track, 2019)
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O inusitado tira-teima brasiliense de 1969

Nas atividades institucionais do futebol profissional, não cabem improvisos. Como em uma empresa, o planejamento busca garantir eficiência e deve ser seguido à risca. Estão todos envolvidos em contratos, obrigações mútuas, segurança jurídica. Cumprir o que está previsto (porque assim foi acertado) é a ordem. Assim evitam-se contestações e crises. O calendário esportivo de cada campeonato, por exemplo, deve ser mantido intacto (alterações são admitidas apenas em casos excepcionais e devem ser limitadas).

Já no futebol amador, a comunidade futebolística se sente mais à vontade para fazer ajustes de última hora e tomar decisões repentinas, de modo improvisado. Há um caso interessante que é exemplo disso. Ocorreu em Brasília no ano de 1969.

O Campeonato Brasiliense daquele ano contou com a participação de clubes profissionais e amadores. O processo de profissionalização do futebol local, tentado de 1964 a 1968, havia fracassado e a CBD autorizou a realização de um torneio que mesclasse amadorismo e profissionalismo. Eram 24 clubes no total (o maior número de participantes de um Campeonato Brasiliense até hoje). A competição recebeu o nome de Taça Brasília.

Quando o campeonato estava perto do fim, o Grêmio Brasiliense liderava e parecia dificílimo que não fosse o campeão. Tinha dois jogos a disputar pela fase final e estava na primeira posição com apenas 3 pontos perdidos (na época, os pontos perdidos recebiam mais atenção do que os pontos ganhos). Já havia disputado 19 partidas em todo o campeonato e perdido apenas uma. Toda a sua torcida tinha certeza de que venceria mais duas vezes. Mas ao enfrentar seu penúltimo adversário, os gremistas foram surpreendidos. Perderam para o Flamengo de Taguatinga por 2 a 1 e caíram para a segunda colocação, com 5 pontos perdidos.

No mesmo dia, o Coenge, que tinha 4 pontos perdidos, disputou a sua última partida. Enfrentou o Brasília (que apesar desse nome, era de Taguatinga). Ao vencer por 5 a 1, o Coenge se manteve com 4 pontos perdidos e tornou-se o campeão de 1969. O Grêmio Brasiliense, mesmo que vencesse o seu último jogo, continuaria em segundo lugar com os 5 pontos perdidos.

COENGE
Brasão do Coenge

A reviravolta surpreendeu a quem acompanhava o campeonato. Segundo o jornal Correio Braziliense, “ninguém esperava a derrota dos gremistas diante dos rubro-negros” (Correio Braziliense, 21/10/1969) e falou-se repetidas vezes, nos dias seguintes, em falta de sorte, decepção e tristeza dos atletas e torcedores do Grêmio Brasiliense. Surgiu, então, a proposta de promover um tira-teima: Coenge e Grêmio Brasiliense enfrentando-se diretamente para definir “quem realmente é o melhor”, como disse o Correio Braziliense na edição de 28 de outubro. A proposta foi apresentada pelo dirigente Wilson Andrade, da Federação Desportiva de Brasília (FDB).

O título de campeão do Distrito Federal não estaria em jogo. O Coenge, caso fosse derrotado na disputa, continuaria sendo considerado o campeão da Taça Brasília, ou seja, o campeão brasiliense de 1969, embora o termo “tira-teima” pudesse indicar o contrário. Essa garantia dada ao Coenge não impedia a imprensa de dizer que o duelo tinha o objetivo de mostrar qual era o melhor time da capital federal naquele ano. A disputa se daria em uma melhor-de-três e o vencedor receberia o troféu Casa do Atleta. O Coenge aceitou.

Um torneio “inventado” repentinamente, sem qualquer planejamento. Os dirigentes da FDB pareciam não perceber que aquele duelo poderia desacreditar e deslegitimar a principal competição da própria FDB, já que lançava uma dúvida sobre o título de campeão do Coenge. Era uma iniciativa própria do amadorismo. Sua motivação era inteiramente sentimental: a estupefação pelo revés de um favorito na última rodada do campeonato brasiliense.

Deveria ser um torneio amistoso e de importância menor. A atitude dos dois clubes, porém, foi outra. A diretoria do Coenge prometeu um prêmio em dinheiro aos seus atletas em caso de vitória. Além disso, houve preocupação com o local de concentração antes das partidas (os dirigentes do Coenge tiveram o cuidado de pôr os seus jogadores em um hotel considerado mais tranquilo). Já o Grêmio Brasiliense reclamou da escolha do trio de arbitragem na terceira partida e declarou que jogaria “sob protesto contra a decisão da FDB” (Correio Braziliense, 22/11/1969). As disputas dentro de campo foram acirradas e, ao fim da segundo jogo, houve confusão:

(…) logo após o término da partida, registrou-se um tremendo “sururu”, sendo necessária a pronta intervenção da polícia para serenar os ânimos dos mais exaltados (Correio Braziliense, 11/11/1969).

A primeira partida foi realizada em 2 de novembro de 1969 no Gama (a cidade-satélite do Coenge). Foi uma peleja animada, “com as duas equipes se empenhando a fundo para a conquista do troféu” (Correio Braziliense, 09.11.1969). O resultado final foi 2 a 2. A segunda partida ocorreu sete dias depois, no Núcleo Bandeirante (cidade-satélite do Grêmio Brasiliense). Outra partida animada. Terminou empatada em 1 a 1 e, como já foi dito, houve confusão após o apito final do árbitro.

A terceira partida foi marcada para o estádio da FDB. Como o gramado estava em fase final de manutenção, o jogo só aconteceu duas semanas depois do segundo confronto. Foi um evento pomposo. O estádio, um dia antes, foi batizado como o nome de Pelé. Uma placa de acrílico (provisória) foi instalada em sua homenagem. A previsão era substituí-la em breve por outra, de bronze, que seria descerrada com a presença do próprio Pelé. O governador do Distrito Federal, Hélio Prates da Silveira, compareceu à partida e deu um pontapé inicial simbólico. O presidente da FDB estava tão animado que até cogitou um jogo da seleção brasileira na capital federal, em abril de 1970, pouco antes da viagem da delegação nacional para a disputa da Copa do Mundo no México.

GREMIO BRASILIENSE
Brasão do Grêmio Brasiliense

O Coenge venceu aquela terceira partida por 1 a 0 e se sagrou vencedor do tira-teima. Não podia haver mais dúvidas: era o melhor time do futebol brasiliense. Torcedores e jogadores comemoraram. Ficou acertado que o troféu seria entregue em um programa de televisão.

Mas ainda não era o fim da disputa. O Correio Braziliense noticiou no dia 26 de novembro: “TJD tira ponto do Coenge e vai haver quarto jogo”. A punição foi imposta porque o clube do Gama escalou, na primeira partida, um atleta considerado irregular. A quarta partida foi marcada para o dia 30 de novembro, novamente no estádio Edson Arantes do Nascimento.

Na quarta partida do tira-teima, o Grêmio Brasiliense venceu por 1 a 0. O gol foi de Ademir, de cabeça, aos 28 minutos do primeiro tempo. No segundo tempo, o destaque foi o goleiro gremista, Elizaldo, que garantiu com grandes defesas a vitória do seu time. “Embora superior ao seu adversário, o Coenge não conseguiu reproduzir em tentos essa superioridade, e deixou que o troféu lhe escapasse depois de ter demonstrado em todos os jogos melhor organização que o seu adversário” (Correio Braziliense, 02/12/1969).

Encerrado o tira-teima, os clubes logo passaram a se preocupar com os próximos amistosos que disputariam. A derrota do campeão de Brasília repercutiu pouco. Como previsto, o título de campeão do Coenge permaneceu intacto, sem contestações. Até hoje, todas as listagens sobre os campeonatos do Distrito Federal indicam o clube gamense como o campeão de 1969. Não há polêmica quanto a isso.

Foi um torneio de motivação claramente amadora. Improvisado, interessado em atiçar rivalidades e em pôr os times em movimento. De aspecto profissional, havia apenas a perspectiva de algumas rendas a mais oriundas das bilheterias. Foi quase um torneio-divertimento, apesar da supervisão da FDB, que lhe dava um caráter oficial. O tira-teima assemelhava-se ao caso de um time que, após ser derrotado com um gol no último minuto, provoca o vencedor: “Vamos jogar 30 minutos adicionais para ver se vocês confirmam a vitória ou se conseguimos empatar”.

Enquanto isso, no Rio de Janeiro e em São Paulo, o futebol profissional se dedicava às contratações para montagem de grandes times e à organização do Robertão (a competição que serviria de inspiração para o Campeonato Brasileiro instituído pela CBD em 1971).

O futebol brasiliense adotou o profissionalismo apenas em 1976 (dessa vez, com sucesso).

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Polêmica e Tapetão: o Campeonato Goiano de futebol no período 1979-1985

A bola saiu pela lateral aos 46 minutos do segundo tempo. O Vila Nova jogava contra o Atlético Goianiense pela rodada final do Campeonato Goiano de 1979. Era o encerramento do hexagonal decisivo. Quem vencesse seria campeão. O jogo estava empatado em 0 a 0 e o empate beneficiava o Vila Nova. E quando a bola saiu pela lateral no finzinho do segundo tempo, o árbitro apitou. Queria apenas marcar a saída de bola, mas apitou forte demais e a torcida entendeu que era o apito final. Invadiu o campo.

Depois de alguns minutos, o campo foi evacuado. Quase todo o time do Atlético, porém, havia corrido para o vestiário. Jefferson de Freitas, o árbitro, determinou aos atleticanos que voltassem a campo. Darci, o capitão do Atlético, respondeu: “Mas eles rasgaram as camisas do pessoal” (Placar, 17.08.1979). O time do Atlético não voltou ao jogo, o árbitro encerrou a partida e a torcida do Vila Nova comemorou (de novo) o tricampeonato. Mas a polêmica era inegável e a Federação Goiana de Futebol (FGF) deveria se posicionar.

Ali começou uma sequência de sete decisões em Goiás que seriam decididas sob o signo da polêmica. Em cinco dessas decisões a disputa extrapolou o campo de jogo e chegou ao famoso tapetão. Parecia uma maldição a pairar sobre o futebol goiano.

E o que foi decidido, afinal, pela FGF a respeito do jogo não encerrado entre Vila Nova e Atlético Goianiense no mês de agosto de 1979? A Federação confirmou o tricampeonato do Vila Nova. Segundo a revista Placar, o mando de campo naquela partida era do Atlético e, por isso, era obrigação do clube ter um conjunto reserva de uniformes em seu vestiário. Havia ainda um segundo argumento: “O estádio Serra Dourada é neutro, portanto não se deu a figura da invasão capaz de provocar anulação de jogo” (Placar, 17.08.1979).

  • 1980: “RESPOSTA AO CALUNIADOR”

A polêmica, no Campeonato de 1980, foram as declarações do técnico do Atlético Goianiense, José Calazans, que acusava os atletas do Vila Nova de jogarem dopados e serem subornáveis. As declarações poderiam suscitar investigações por parte da FGF e até de autoridades policiais. Mas não houve nada desse tipo.

Antes da última rodada do quadrangular final, o Vila Nova tinha sete pontos, enquanto Goiás, Anápolis e Atlético Goianiense tinham cinco. Bastava ao Vila Nova um empate para se tornar tetracampeão. A partida foi contra o Anápolis. Aos 24 minutos do segundo tempo, o vilanovense Roberto Oliveira marcou o único gol do jogo. O técnico campeão, Vail Motta, gritou aos prantos “que aquela era a resposta ao caluniador” (Placar, 05.12.1980).

José Calazans, dois anos depois, se viu envolvido no escândalo da máfia da loteria esportiva. Ficou tão mal visto que em 1989, quando o Atlético Goianiense o contratou novamente para o cargo de técnico, a torcida atleticana protestou. Alguns picharam o muro do estádio Antônio Accioly com frases condenando a contratação. Calazans voltou a atuar como técnico do Atlético em apenas um jogo. Foi demitido após sofrer uma derrota para o Goiás por 2 a 0.

  • 1981: ATLETA IRREGULAR

Em 1981, o Campeonato Goiano passou por uma das situações mais polêmicas de toda a sua história (talvez a mais polêmica). Até hoje o caso é lembrado por torcedores e pela imprensa do Estado.

A Anapolina era a melhor equipe da competição. De janeiro a março daquele ano, havia disputado a Taça de Prata (segunda divisão do Campeonato Brasileiro). Chegou à final, mas foi derrotada na decisão pelo Guarani, clube campeão brasileiro da primeira divisão em 1978. Em abril, quando começou o Campeonato Goiano, todos os torcedores já sabiam que a Anapolina estava entre os favoritos.

No primeiro turno, as expectativas em relação à Anapolina se confirmaram. O time venceu doze jogos, empatou cinco e perdeu apenas três. Ficou em primeiro lugar. Os seis melhores colocados se classificaram para a fase decisiva desse turno. Nessa fase decisiva, a Anapolina decepcionou. Ficou apenas em quarto lugar.

No segundo turno, a Anapolina novamente ficou em primeiro lugar (com treze vitórias, cinco empates e apenas duas derrotas). Dessa vez, não houve classificados para uma fase decisiva, como aconteceu no primeiro turno. Por ser a primeira colocada do segundo turno, a Anapolina se classificou para o quadrangular final.

No terceiro turno, o Goiás surpreendeu. O clube havia se classificado para aquela fase por ter sido o quarto melhor do campeonato após os dois primeiros turnos (empatado em número de pontos com quinto colocado, mas com melhor saldo de gols). Começou o terceiro turno com apenas dois empates, mas depois venceu três jogos seguidos. Em seguida, na sua última partida no turno, empatou com a Anapolina. Foi o bastante para ficar em primeiro lugar, empatado em número de pontos com a própria Anapolina, a segunda colocada. Goiás e Anapolina, assim, estavam classificados para a melhor-de-três que definiria o campeão estadual.

Os três jogos, realizados no estádio Serra Dourada, terminaram empatados. O primeiro em 2 a 2 e os dois últimos em 1 a 1. Encerrado o terceiro jogo, a torcida da Anapolina comemorou, pois seu time havia somado maior número de pontos do que o adversário ao longo do campeonato. O Goiás, porém, recorreu ao Tribunal de Justiça Desportiva. Descobriu que um jogador da Anapolina havia disputado a segunda partida da melhor-de-três em condição irregular e argumentou que, por isso, o empate deveria ser convertido em vitória do Goiás. Segundo a revista Placar, os dirigentes esmeraldinos haviam marcado “um gol de placa” no tribunal:

“(…) conseguiram uma fotocópia do contrato do armador Osmar Lima, da Anapolina, provando que seu vínculo terminara dois dias antes do segundo jogo entre ambos os clubes e que portanto, o atleta não tinha condições de atuar”. (Placar, 18.12.1981)

Goiás e Anapolina jogaram, em todo o campeonato, 54 partidas cada equipe. O Goiás teve 23 vitórias e 19 empates. A Anapolina teve desempenho melhor: 28 vitórias e 19 empates. Mas o campeão goiano de 1981, por decisão judicial, foi o Goiás.

Foto 1981 (1)
Goiás X Anapolina (Placar, 18.12.1981)

  • 1982: INVASÃO DE CAMPO

A última partida do Campeonato Goiano de 1982 teve o mesmo problema da decisão de 1979. A torcida do Vila Nova invadiu o campo no final do jogo. Uma festa que “quase melou a final” (Placar, 24.12.1982), mas que não provocou nenhuma disputa jurídica. Aquele foi o campeonato menos polêmico do período 1979-1985.

Quando teve início a invasão de campo, aos 42 minutos do segundo tempo, o árbitro José Roberto Wright correu para o seu vestiário, mas depois informou aos dirigentes que os últimos minutos deveriam ser jogados. O que parecia quase impossível foi feito: milhares de torcedores foram retirados do gramado e o jogo recomeçou. O placar era de 1 a 1. Poucos minutos depois, veio o apito final e o Vila Nova, que tinha a vantagem do empate naquela partida, se sagrou campeão.

“(…) foram jogados os três minutos finais para um estádio praticamente vazio: a torcida já estava toda nas ruas, iniciando o carnaval que explodiria de vez na tradicional Praça Tamandaré, no centro de Goiânia”. (Placar, 17.12.1982)

  • 1983: SEGUNDO TURNO DECIDIDO ANTES DO PRIMEIRO

O regulamento do Campeonato Goiano de 1983 previa dois turnos. O campeão do primeiro enfrentaria o campeão do segundo na decisão. Um modelo simples. O problema surgiu na semifinal do primeiro turno. A Anapolina, após vencer o primeiro jogo contra o Itumbiara por 2 a 0 e ser derrotada na segunda partida por 2 a 1, contestou essa derrota na Justiça Desportiva.

A final do primeiro turno, então, ficou em suspenso. E o segundo turno teve início.

Três meses depois de iniciado esse segundo turno, estavam definidos os seus finalistas: Anapolina e Goiás. Disputaram a final em duas partidas. Na cidade de Anápolis, a Anapolina venceu por 2 a 0. Em Goiânia, quatro dias depois, o Goiás venceu também por 2 a 0. Na decisão por pênaltis, o Goiás venceu por 5 a 4.

O campeonato já tinha o campeão do segundo turno, mas ainda não havia sido realizada a final do primeiro turno. Essa final seria disputada também por Goiás e Anapolina, já que a Justiça Desportiva decidiu punir o Itumbiara e classificar a Anapolina para a decisão da fase inicial. Assim, três dias depois de disputarem a final do segundo turno, os dois adversários voltaram a campo para disputar a final do primeiro turno. Para quem queria criticar a FGF, essa era a melhor oportunidade.

Na decisão atrasada do primeiro turno, o Goiás voltou a vencer a Anapolina em uma disputa emocionante. E como foi campeão dos dois turnos, sagrou-se campeão estadual daquele ano. Para azedar ainda mais um campeonato que teve andamento tão problemático, os torcedores da Anapolina diziam furiosamente que, no último jogo da competição, o gol do Goiás no tempo regulamentar foi marcado em impedimento, enquanto um gol regular da Anapolina havia sido injustamente anulado.

  • 1984: QUADRANGULAR INTERROMPIDO

No início de 1984, a FGF decidiu aumentar o número de clubes da primeira divisão do Campeonato Goiano (de 8 para 10). Um torneio seletivo foi realizado para definir os novos participantes. Ceres e Goianésia foram os melhores classificados, mas dois outros clubes (Rio Verde e Monte Cristo) recorreram ao Tribunal de Justiça Desportiva (TJD). A FGF, então, decidiu aumentar mais uma vez o número de participantes da primeira divisão. Passaram a ser doze. Um segundo torneio seletivo foi realizado. O Rio Verde, dessa vez, se classificou. O Monte Cristo, não.

Não foi um bom começo. E ficaria ainda pior.

Em julho, começou o campeonato da primeira divisão. Houve dois turnos iniciais. No primeiro, o Goiânia foi o melhor colocado. No segundo, o Vila Nova ficou em primeiro lugar. Além dessas duas equipes, o Atlético Goianiense e o Goiás (esse último beneficiado por uma decisão judicial) também se classificaram para o quadrangular final. O Rio Verde, porém, recorreu ao STJD. Queria ser incluído no quadrangular.

O campeonato passou a ser disputado também nos tribunais. Enquanto isso, os jogos da fase final estavam sendo realizados. No fim de novembro, após uma decisão judicial favorável ao Rio Verde, a FGF decidiu interromper o quadrangular, que já estava quase encerrado.

Concluídos os procedimentos judiciais, a situação ficou assim definida: o jogo Jataiense X Goiás deveria ser realizado novamente (em Jataí). Caso o Goiás vencesse, sua classificação para o quadrangular final estaria confirmada e a competição poderia seguir adiante. O Goiás, porém, foi derrotado por 3 a 1. Essa resultado tirou o time do quadrangular e colocou o Rio Verde em seu lugar. A fase final deveria ser reiniciada.

A partir daí, a competição se desmoralizou. O Jornal do Brasil disse que o campeonato estava “mais confuso do que nunca” (Jornal do Brasil, 05.12.1984) e a revista Placar afirmou que era o “mais bagunçado de todos os campeonatos já realizados em Goiás (Placar, 28.12.1984).

“É pouco provável que o público prestigie o caos em que se transformou o futebol goiano”. (Jornal do Brasil, 05.12.1984)

No novo quadrangular final, o Vila Nova jogou cinco partidas. Empatou a primeira e venceu as outras quatro. Tornou-se campeão goiano antecipadamente e, assim, a FGF aproveitou para cancelar a última rodada do quadrangular. Foi o fim deprimente de um campeonato que deixou lembranças melancólicas.

Foto 1984
Vila Nova X Rio Verde (Placar, 28.12.1984)

  • 1985: DESCONGESTIONANTE NASAL

No Campeonato Goiano de 1985, o primeiro turno teve doze equipes participantes. As seis melhores colocadas passaram à fase decisiva. As seis piores disputaram entre si quais seriam as duas rebaixadas.

Na fase decisiva, o Atlético Goianiense foi implacável. Venceu sete partidas, empatou três e não perdeu nenhuma. Ao vencer o seu penúltimo jogo, chegou a 16 pontos, enquanto o Goiânia (segundo colocado) tinha apenas 10. O Atlético não podia mais ser alcançado na tabela de classificação, mas precisou esperar mais alguns dias para comemorar o título de campeão estadual. Ainda havia um processo judicial a enfrentar.

O jogador Célio, do Atlético Goianiense, foi acusado de atuar dopado. O seu exame havia indicado a presença de substâncias proibidas.O Goiás foi à justiça desportiva. Célio dizia que havia usado um conhecido descongestionante nasal (chamado Afrin), que interferiu no exame.

A defesa de Célio alegava irregularidade na coleta do material para o exame. O TJD, por 7 votos a 0, acatou a alegação e decidiu arquivar o processo. Os torcedores atleticanos não perderam a oportunidade de fazer chacota com o rival: “O Goiás sempre ganhou no tapetão. (…) Mas até lá ele perdeu feio” (Placar, 13.12.1985). A comemoração da torcida campeã começou à noite, depois dessa decisão judicial, e não após uma vitória dentro de campo. No dia seguinte, Atlético Goianiense e Goiás se enfrentaram. Deu empate: 1 a 1.

Foto 1985
Atlético Goianiense X Goiás (Placar, 01.01.1986)

1986: “UM CAMPEONATO SE GANHA NO CAMPO”

Em 1986, o futebol de Goiás “voltou ao normal”. O Campeonato Goiano transcorreu normalmente, sem grandes disputas judiciais. As seis melhores equipes do primeiro turno se classificaram para o hexagonal final. Nessa última fase da competição, Goiás e Atlético Goianiense disputaram a taça de campeão até o fim. Na última rodada, defrontaram-se no estádio Serra Dourada. O Goiás tinha 13 pontos e o Atlético 12, ou seja, quem vencesse seria o campeão do hexagonal e o empate beneficiava o Goiás. O Atlético Goianiense precisava ser campeão do hexagonal para forçar uma decisão do campeonato (em melhor-de-três) contra o próprio Goiás, que havia sido campeão do primeiro turno.

Nesse jogo decisivo, os atleticanos marcaram o primeiro gol aos 10 minutos do segundo tempo. Mas o Goiás virou o placar. Venceu por 2 a 1 e, como campeão do primeiro turno e do hexagonal, sagrou-se campeão estadual de 1986. A revista Placar comentou com satisfação o bom andamento do campeonato: “Um campeonato se ganha no campo. Finamente, depois de três anos, este princípio básico do futebol foi respeitado em Goiás. Desde 1983, quem acabava decidindo o título eram os juízes dos tapetões. Agora, foi diferente” (Placar, 12.09.1986).

À medida que o futebol goiano avançasse em sua profissionalização, essas turbulências tendiam a desaparecer. Afinal, a profissionalização transforma clubes e Federações em empresas esportivas, de viés capitalista, o que leva à adoção de práticas menos instáveis. O padrão profissional é o do bom funcionamento empresarial, ou seja, da busca por maior eficiência, sem confusões e crises.

Esse desenvolvimento, porém, não seria dos mais rápidos em Goiás.

O futebol goiano adotou oficialmente o profissionalismo em 1962. Duas décadas depois, ainda se mostrava dramaticamente bagunçado do ponto de vista administrativo. Essa situação revela como era difícil implantar realmente o profissionalismo esportivo em uma região considerada atrasada e periférica. Dificuldade percebida até o primeiro ano do novo século.

Os vilanovenses não esquecem aquele ano de 2000, quando o seu clube decidiu não disputar o segundo jogo da final do segundo turno. Era um protesto contra a arbitragem do primeiro jogo daquela final. Atitude muito emocional (amadora) e pouco profissional. A FGF, alguns dias depois, determinou o cancelamento de todas as partidas do time na competição. Assim, o Vila Nova ficou em último lugar na classificação final do campeonato (com nenhum ponto) e foi rebaixado para a segunda divisão.

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Duas partidas especiais: como Bangu e Brasil de Pelotas chegaram à semifinal impensável de 1985

Em julho de 1985, duas partidas de futebol deram aspecto bizarro ao Campeonato Brasileiro daquele ano. A primeira partida foi disputada em 18 de julho, na cidade de Pelotas. A outra ocorreu três dias depois, em 21 de julho, na cidade de Porto Alegre. No dia 18, enfrentaram-se Brasil de Pelotas e Flamengo. No dia… Continuar lendo Duas partidas especiais: como Bangu e Brasil de Pelotas chegaram à semifinal impensável de 1985

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Bahia, Fortaleza e Náutico nas finais da Taça Brasil (1959-1968): o futebol nordestino emerge nacionalmente

Na década de 1950, o predomínio futebolístico do Rio de Janeiro e de São Paulo já era incontestável. Era como se já existisse o que hoje chamamos de eixo Rio-São Paulo. Nesse eixo estavam os melhores clubes e jogadores do país. Ali estava a base da seleção brasileira de futebol. A situação era tal que,… Continuar lendo Bahia, Fortaleza e Náutico nas finais da Taça Brasil (1959-1968): o futebol nordestino emerge nacionalmente

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