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O inusitado tira-teima brasiliense de 1969

Nas atividades institucionais do futebol profissional, não cabem improvisos. Como em uma empresa, o planejamento busca garantir eficiência e deve ser seguido à risca. Estão todos envolvidos em contratos, obrigações mútuas, segurança jurídica. Cumprir o que está previsto (porque assim foi acertado) é a ordem. Assim evitam-se contestações e crises. O calendário esportivo de cada campeonato, por exemplo, deve ser mantido intacto (alterações são admitidas apenas em casos excepcionais e devem ser limitadas).

Já no futebol amador, a comunidade futebolística se sente mais à vontade para fazer ajustes de última hora e tomar decisões repentinas, de modo improvisado. Há um caso interessante que é exemplo disso. Ocorreu em Brasília no ano de 1969.

O Campeonato Brasiliense daquele ano contou com a participação de clubes profissionais e amadores. O processo de profissionalização do futebol local, tentado de 1964 a 1968, havia fracassado e a CBD autorizou a realização de um torneio que mesclasse amadorismo e profissionalismo. Eram 24 clubes no total (o maior número de participantes de um Campeonato Brasiliense até hoje). A competição recebeu o nome de Taça Brasília.

Quando o campeonato estava perto do fim, o Grêmio Brasiliense liderava e parecia dificílimo que não fosse o campeão. Tinha dois jogos a disputar pela fase final e estava na primeira posição com apenas 3 pontos perdidos (na época, os pontos perdidos recebiam mais atenção do que os pontos ganhos). Já havia disputado 19 partidas em todo o campeonato e perdido apenas uma. Toda a sua torcida tinha certeza de que venceria mais duas vezes. Mas ao enfrentar seu penúltimo adversário, os gremistas foram surpreendidos. Perderam para o Flamengo de Taguatinga por 2 a 1 e caíram para a segunda colocação, com 5 pontos perdidos.

No mesmo dia, o Coenge, que tinha 4 pontos perdidos, disputou a sua última partida. Enfrentou o Brasília (que apesar desse nome, era de Taguatinga). Ao vencer por 5 a 1, o Coenge se manteve com 4 pontos perdidos e tornou-se o campeão de 1969. O Grêmio Brasiliense, mesmo que vencesse o seu último jogo, continuaria em segundo lugar com os 5 pontos perdidos.

COENGE
Brasão do Coenge

A reviravolta surpreendeu a quem acompanhava o campeonato. Segundo o jornal Correio Braziliense, “ninguém esperava a derrota dos gremistas diante dos rubro-negros” (Correio Braziliense, 21/10/1969) e falou-se repetidas vezes, nos dias seguintes, em falta de sorte, decepção e tristeza dos atletas e torcedores do Grêmio Brasiliense. Surgiu, então, a proposta de promover um tira-teima: Coenge e Grêmio Brasiliense enfrentando-se diretamente para definir “quem realmente é o melhor”, como disse o Correio Braziliense na edição de 28 de outubro. A proposta foi apresentada pelo dirigente Wilson Andrade, da Federação Desportiva de Brasília (FDB).

O título de campeão do Distrito Federal não estaria em jogo. O Coenge, caso fosse derrotado na disputa, continuaria sendo considerado o campeão da Taça Brasília, ou seja, o campeão brasiliense de 1969, embora o termo “tira-teima” pudesse indicar o contrário. Essa garantia dada ao Coenge não impedia a imprensa de dizer que o duelo tinha o objetivo de mostrar qual era o melhor time da capital federal naquele ano. A disputa se daria em uma melhor-de-três e o vencedor receberia o troféu Casa do Atleta. O Coenge aceitou.

Um torneio “inventado” repentinamente, sem qualquer planejamento. Os dirigentes da FDB pareciam não perceber que aquele duelo poderia desacreditar e deslegitimar a principal competição da própria FDB, já que lançava uma dúvida sobre o título de campeão do Coenge. Era uma iniciativa própria do amadorismo. Sua motivação era inteiramente sentimental: a estupefação pelo revés de um favorito na última rodada do campeonato brasiliense.

Deveria ser um torneio amistoso e de importância menor. A atitude dos dois clubes, porém, foi outra. A diretoria do Coenge prometeu um prêmio em dinheiro aos seus atletas em caso de vitória. Além disso, houve preocupação com o local de concentração antes das partidas (os dirigentes do Coenge tiveram o cuidado de pôr os seus jogadores em um hotel considerado mais tranquilo). Já o Grêmio Brasiliense reclamou da escolha do trio de arbitragem na terceira partida e declarou que jogaria “sob protesto contra a decisão da FDB” (Correio Braziliense, 22/11/1969). As disputas dentro de campo foram acirradas e, ao fim da segundo jogo, houve confusão:

(…) logo após o término da partida, registrou-se um tremendo “sururu”, sendo necessária a pronta intervenção da polícia para serenar os ânimos dos mais exaltados (Correio Braziliense, 11/11/1969).

A primeira partida foi realizada em 2 de novembro de 1969 no Gama (a cidade-satélite do Coenge). Foi uma peleja animada, “com as duas equipes se empenhando a fundo para a conquista do troféu” (Correio Braziliense, 09.11.1969). O resultado final foi 2 a 2. A segunda partida ocorreu sete dias depois, no Núcleo Bandeirante (cidade-satélite do Grêmio Brasiliense). Outra partida animada. Terminou empatada em 1 a 1 e, como já foi dito, houve confusão após o apito final do árbitro.

A terceira partida foi marcada para o estádio da FDB. Como o gramado estava em fase final de manutenção, o jogo só aconteceu duas semanas depois do segundo confronto. Foi um evento pomposo. O estádio, um dia antes, foi batizado como o nome de Pelé. Uma placa de acrílico (provisória) foi instalada em sua homenagem. A previsão era substituí-la em breve por outra, de bronze, que seria descerrada com a presença do próprio Pelé. O governador do Distrito Federal, Hélio Prates da Silveira, compareceu à partida e deu um pontapé inicial simbólico. O presidente da FDB estava tão animado que até cogitou um jogo da seleção brasileira na capital federal, em abril de 1970, pouco antes da viagem da delegação nacional para a disputa da Copa do Mundo no México.

GREMIO BRASILIENSE
Brasão do Grêmio Brasiliense

O Coenge venceu aquela terceira partida por 1 a 0 e se sagrou vencedor do tira-teima. Não podia haver mais dúvidas: era o melhor time do futebol brasiliense. Torcedores e jogadores comemoraram. Ficou acertado que o troféu seria entregue em um programa de televisão.

Mas ainda não era o fim da disputa. O Correio Braziliense noticiou no dia 26 de novembro: “TJD tira ponto do Coenge e vai haver quarto jogo”. A punição foi imposta porque o clube do Gama escalou, na primeira partida, um atleta considerado irregular. A quarta partida foi marcada para o dia 30 de novembro, novamente no estádio Edson Arantes do Nascimento.

Na quarta partida do tira-teima, o Grêmio Brasiliense venceu por 1 a 0. O gol foi de Ademir, de cabeça, aos 28 minutos do primeiro tempo. No segundo tempo, o destaque foi o goleiro gremista, Elizaldo, que garantiu com grandes defesas a vitória do seu time. “Embora superior ao seu adversário, o Coenge não conseguiu reproduzir em tentos essa superioridade, e deixou que o troféu lhe escapasse depois de ter demonstrado em todos os jogos melhor organização que o seu adversário” (Correio Braziliense, 02/12/1969).

Encerrado o tira-teima, os clubes logo passaram a se preocupar com os próximos amistosos que disputariam. A derrota do campeão de Brasília repercutiu pouco. Como previsto, o título de campeão do Coenge permaneceu intacto, sem contestações. Até hoje, todas as listagens sobre os campeonatos do Distrito Federal indicam o clube gamense como o campeão de 1969. Não há polêmica quanto a isso.

Foi um torneio de motivação claramente amadora. Improvisado, interessado em atiçar rivalidades e em pôr os times em movimento. De aspecto profissional, havia apenas a perspectiva de algumas rendas a mais oriundas das bilheterias. Foi quase um torneio-divertimento, apesar da supervisão da FDB, que lhe dava um caráter oficial. O tira-teima assemelhava-se ao caso de um time que, após ser derrotado com um gol no último minuto, provoca o vencedor: “Vamos jogar 30 minutos adicionais para ver se vocês confirmam a vitória ou se conseguimos empatar”.

Enquanto isso, no Rio de Janeiro e em São Paulo, o futebol profissional se dedicava às contratações para montagem de grandes times e à organização do Robertão (a competição que serviria de inspiração para o Campeonato Brasileiro instituído pela CBD em 1971).

O futebol brasiliense adotou o profissionalismo apenas em 1976 (dessa vez, com sucesso).

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Polêmica e Tapetão: o Campeonato Goiano de futebol no período 1979-1985

A bola saiu pela lateral aos 46 minutos do segundo tempo. O Vila Nova jogava contra o Atlético Goianiense pela rodada final do Campeonato Goiano de 1979. Era o encerramento do hexagonal decisivo. Quem vencesse seria campeão. O jogo estava empatado em 0 a 0 e o empate beneficiava o Vila Nova. E quando a bola saiu pela lateral no finzinho do segundo tempo, o árbitro apitou. Queria apenas marcar a saída de bola, mas apitou forte demais e a torcida entendeu que era o apito final. Invadiu o campo.

Depois de alguns minutos, o campo foi evacuado. Quase todo o time do Atlético, porém, havia corrido para o vestiário. Jefferson de Freitas, o árbitro, determinou aos atleticanos que voltassem a campo. Darci, o capitão do Atlético, respondeu: “Mas eles rasgaram as camisas do pessoal” (Placar, 17.08.1979). O time do Atlético não voltou ao jogo, o árbitro encerrou a partida e a torcida do Vila Nova comemorou (de novo) o tricampeonato. Mas a polêmica era inegável e a Federação Goiana de Futebol (FGF) deveria se posicionar.

Ali começou uma sequência de sete decisões em Goiás que seriam decididas sob o signo da polêmica. Em cinco dessas decisões a disputa extrapolou o campo de jogo e chegou ao famoso tapetão. Parecia uma maldição a pairar sobre o futebol goiano.

E o que foi decidido, afinal, pela FGF a respeito do jogo não encerrado entre Vila Nova e Atlético Goianiense no mês de agosto de 1979? A Federação confirmou o tricampeonato do Vila Nova. Segundo a revista Placar, o mando de campo naquela partida era do Atlético e, por isso, era obrigação do clube ter um conjunto reserva de uniformes em seu vestiário. Havia ainda um segundo argumento: “O estádio Serra Dourada é neutro, portanto não se deu a figura da invasão capaz de provocar anulação de jogo” (Placar, 17.08.1979).

  • 1980: “RESPOSTA AO CALUNIADOR”

A polêmica, no Campeonato de 1980, foram as declarações do técnico do Atlético Goianiense, José Calazans, que acusava os atletas do Vila Nova de jogarem dopados e serem subornáveis. As declarações poderiam suscitar investigações por parte da FGF e até de autoridades policiais. Mas não houve nada desse tipo.

Antes da última rodada do quadrangular final, o Vila Nova tinha sete pontos, enquanto Goiás, Anápolis e Atlético Goianiense tinham cinco. Bastava ao Vila Nova um empate para se tornar tetracampeão. A partida foi contra o Anápolis. Aos 24 minutos do segundo tempo, o vilanovense Roberto Oliveira marcou o único gol do jogo. O técnico campeão, Vail Motta, gritou aos prantos “que aquela era a resposta ao caluniador” (Placar, 05.12.1980).

José Calazans, dois anos depois, se viu envolvido no escândalo da máfia da loteria esportiva. Ficou tão mal visto que em 1989, quando o Atlético Goianiense o contratou novamente para o cargo de técnico, a torcida atleticana protestou. Alguns picharam o muro do estádio Antônio Accioly com frases condenando a contratação. Calazans voltou a atuar como técnico do Atlético em apenas um jogo. Foi demitido após sofrer uma derrota para o Goiás por 2 a 0.

  • 1981: ATLETA IRREGULAR

Em 1981, o Campeonato Goiano passou por uma das situações mais polêmicas de toda a sua história (talvez a mais polêmica). Até hoje o caso é lembrado por torcedores e pela imprensa do Estado.

A Anapolina era a melhor equipe da competição. De janeiro a março daquele ano, havia disputado a Taça de Prata (segunda divisão do Campeonato Brasileiro). Chegou à final, mas foi derrotada na decisão pelo Guarani, clube campeão brasileiro da primeira divisão em 1978. Em abril, quando começou o Campeonato Goiano, todos os torcedores já sabiam que a Anapolina estava entre os favoritos.

No primeiro turno, as expectativas em relação à Anapolina se confirmaram. O time venceu doze jogos, empatou cinco e perdeu apenas três. Ficou em primeiro lugar. Os seis melhores colocados se classificaram para a fase decisiva desse turno. Nessa fase decisiva, a Anapolina decepcionou. Ficou apenas em quarto lugar.

No segundo turno, a Anapolina novamente ficou em primeiro lugar (com treze vitórias, cinco empates e apenas duas derrotas). Dessa vez, não houve classificados para uma fase decisiva, como aconteceu no primeiro turno. Por ser a primeira colocada do segundo turno, a Anapolina se classificou para o quadrangular final.

No terceiro turno, o Goiás surpreendeu. O clube havia se classificado para aquela fase por ter sido o quarto melhor do campeonato após os dois primeiros turnos (empatado em número de pontos com quinto colocado, mas com melhor saldo de gols). Começou o terceiro turno com apenas dois empates, mas depois venceu três jogos seguidos. Em seguida, na sua última partida no turno, empatou com a Anapolina. Foi o bastante para ficar em primeiro lugar, empatado em número de pontos com a própria Anapolina, a segunda colocada. Goiás e Anapolina, assim, estavam classificados para a melhor-de-três que definiria o campeão estadual.

Os três jogos, realizados no estádio Serra Dourada, terminaram empatados. O primeiro em 2 a 2 e os dois últimos em 1 a 1. Encerrado o terceiro jogo, a torcida da Anapolina comemorou, pois seu time havia somado maior número de pontos do que o adversário ao longo do campeonato. O Goiás, porém, recorreu ao Tribunal de Justiça Desportiva. Descobriu que um jogador da Anapolina havia disputado a segunda partida da melhor-de-três em condição irregular e argumentou que, por isso, o empate deveria ser convertido em vitória do Goiás. Segundo a revista Placar, os dirigentes esmeraldinos haviam marcado “um gol de placa” no tribunal:

“(…) conseguiram uma fotocópia do contrato do armador Osmar Lima, da Anapolina, provando que seu vínculo terminara dois dias antes do segundo jogo entre ambos os clubes e que portanto, o atleta não tinha condições de atuar”. (Placar, 18.12.1981)

Goiás e Anapolina jogaram, em todo o campeonato, 54 partidas cada equipe. O Goiás teve 23 vitórias e 19 empates. A Anapolina teve desempenho melhor: 28 vitórias e 19 empates. Mas o campeão goiano de 1981, por decisão judicial, foi o Goiás.

Foto 1981 (1)
Goiás X Anapolina (Placar, 18.12.1981)
  • 1982: INVASÃO DE CAMPO

A última partida do Campeonato Goiano de 1982 teve o mesmo problema da decisão de 1979. A torcida do Vila Nova invadiu o campo no final do jogo. Uma festa que “quase melou a final” (Placar, 24.12.1982), mas que não provocou nenhuma disputa jurídica. Aquele foi o campeonato menos polêmico do período 1979-1985.

Quando teve início a invasão de campo, aos 42 minutos do segundo tempo, o árbitro José Roberto Wright correu para o seu vestiário, mas depois informou aos dirigentes que os últimos minutos deveriam ser jogados. O que parecia quase impossível foi feito: milhares de torcedores foram retirados do gramado e o jogo recomeçou. O placar era de 1 a 1. Poucos minutos depois, veio o apito final e o Vila Nova, que tinha a vantagem do empate naquela partida, se sagrou campeão.

“(…) foram jogados os três minutos finais para um estádio praticamente vazio: a torcida já estava toda nas ruas, iniciando o carnaval que explodiria de vez na tradicional Praça Tamandaré, no centro de Goiânia”. (Placar, 17.12.1982)

  • 1983: SEGUNDO TURNO DECIDIDO ANTES DO PRIMEIRO

O regulamento do Campeonato Goiano de 1983 previa dois turnos. O campeão do primeiro enfrentaria o campeão do segundo na decisão. Um modelo simples. O problema surgiu na semifinal do primeiro turno. A Anapolina, após vencer o primeiro jogo contra o Itumbiara por 2 a 0 e ser derrotada na segunda partida por 2 a 1, contestou essa derrota na Justiça Desportiva.

A final do primeiro turno, então, ficou em suspenso. E o segundo turno teve início.

Três meses depois de iniciado esse segundo turno, estavam definidos os seus finalistas: Anapolina e Goiás. Disputaram a final em duas partidas. Na cidade de Anápolis, a Anapolina venceu por 2 a 0. Em Goiânia, quatro dias depois, o Goiás venceu também por 2 a 0. Na decisão por pênaltis, o Goiás venceu por 5 a 4.

O campeonato já tinha o campeão do segundo turno, mas ainda não havia sido realizada a final do primeiro turno. Essa final seria disputada também por Goiás e Anapolina, já que a Justiça Desportiva decidiu punir o Itumbiara e classificar a Anapolina para a decisão da fase inicial. Assim, três dias depois de disputarem a final do segundo turno, os dois adversários voltaram a campo para disputar a final do primeiro turno. Para quem queria criticar a FGF, essa era a melhor oportunidade.

Na decisão atrasada do primeiro turno, o Goiás voltou a vencer a Anapolina em uma disputa emocionante. E como foi campeão dos dois turnos, sagrou-se campeão estadual daquele ano. Para azedar ainda mais um campeonato que teve andamento tão problemático, os torcedores da Anapolina diziam furiosamente que, no último jogo da competição, o gol do Goiás no tempo regulamentar foi marcado em impedimento, enquanto um gol regular da Anapolina havia sido injustamente anulado.

  • 1984: QUADRANGULAR INTERROMPIDO

No início de 1984, a FGF decidiu aumentar o número de clubes da primeira divisão do Campeonato Goiano (de 8 para 10). Um torneio seletivo foi realizado para definir os novos participantes. Ceres e Goianésia foram os melhores classificados, mas dois outros clubes (Rio Verde e Monte Cristo) recorreram ao Tribunal de Justiça Desportiva (TJD). A FGF, então, decidiu aumentar mais uma vez o número de participantes da primeira divisão. Passaram a ser doze. Um segundo torneio seletivo foi realizado. O Rio Verde, dessa vez, se classificou. O Monte Cristo, não.

Não foi um bom começo. E ficaria ainda pior.

Em julho, começou o campeonato da primeira divisão. Houve dois turnos iniciais. No primeiro, o Goiânia foi o melhor colocado. No segundo, o Vila Nova ficou em primeiro lugar. Além dessas duas equipes, o Atlético Goianiense e o Goiás (esse último beneficiado por uma decisão judicial) também se classificaram para o quadrangular final. O Rio Verde, porém, recorreu ao STJD. Queria ser incluído no quadrangular.

O campeonato passou a ser disputado também nos tribunais. Enquanto isso, os jogos da fase final estavam sendo realizados. No fim de novembro, após uma decisão judicial favorável ao Rio Verde, a FGF decidiu interromper o quadrangular, que já estava quase encerrado.

Concluídos os procedimentos judiciais, a situação ficou assim definida: o jogo Jataiense X Goiás deveria ser realizado novamente (em Jataí). Caso o Goiás vencesse, sua classificação para o quadrangular final estaria confirmada e a competição poderia seguir adiante. O Goiás, porém, foi derrotado por 3 a 1. Essa resultado tirou o time do quadrangular e colocou o Rio Verde em seu lugar. A fase final deveria ser reiniciada.

A partir daí, a competição se desmoralizou. O Jornal do Brasil disse que o campeonato estava “mais confuso do que nunca” (Jornal do Brasil, 05.12.1984) e a revista Placar afirmou que era o “mais bagunçado de todos os campeonatos já realizados em Goiás (Placar, 28.12.1984).

“É pouco provável que o público prestigie o caos em que se transformou o futebol goiano”. (Jornal do Brasil, 05.12.1984)

No novo quadrangular final, o Vila Nova jogou cinco partidas. Empatou a primeira e venceu as outras quatro. Tornou-se campeão goiano antecipadamente e, assim, a FGF aproveitou para cancelar a última rodada do quadrangular. Foi o fim deprimente de um campeonato que deixou lembranças melancólicas.

Foto 1984
Vila Nova X Rio Verde (Placar, 28.12.1984)
  • 1985: DESCONGESTIONANTE NASAL

No Campeonato Goiano de 1985, o primeiro turno teve doze equipes participantes. As seis melhores colocadas passaram à fase decisiva. As seis piores disputaram entre si quais seriam as duas rebaixadas.

Na fase decisiva, o Atlético Goianiense foi implacável. Venceu sete partidas, empatou três e não perdeu nenhuma. Ao vencer o seu penúltimo jogo, chegou a 16 pontos, enquanto o Goiânia (segundo colocado) tinha apenas 10. O Atlético não podia mais ser alcançado na tabela de classificação, mas precisou esperar mais alguns dias para comemorar o título de campeão estadual. Ainda havia um processo judicial a enfrentar.

O jogador Célio, do Atlético Goianiense, foi acusado de atuar dopado. O seu exame havia indicado a presença de substâncias proibidas.O Goiás foi à justiça desportiva. Célio dizia que havia usado um conhecido descongestionante nasal (chamado Afrin), que interferiu no exame.

A defesa de Célio alegava irregularidade na coleta do material para o exame. O TJD, por 7 votos a 0, acatou a alegação e decidiu arquivar o processo. Os torcedores atleticanos não perderam a oportunidade de fazer chacota com o rival: “O Goiás sempre ganhou no tapetão. (…) Mas até lá ele perdeu feio” (Placar, 13.12.1985). A comemoração da torcida campeã começou à noite, depois dessa decisão judicial, e não após uma vitória dentro de campo. No dia seguinte, Atlético Goianiense e Goiás se enfrentaram. Deu empate: 1 a 1.

Foto 1985
Atlético Goianiense X Goiás (Placar, 01.01.1986)

1986: “UM CAMPEONATO SE GANHA NO CAMPO”

Em 1986, o futebol de Goiás “voltou ao normal”. O Campeonato Goiano transcorreu normalmente, sem grandes disputas judiciais. As seis melhores equipes do primeiro turno se classificaram para o hexagonal final. Nessa última fase da competição, Goiás e Atlético Goianiense disputaram a taça de campeão até o fim. Na última rodada, defrontaram-se no estádio Serra Dourada. O Goiás tinha 13 pontos e o Atlético 12, ou seja, quem vencesse seria o campeão do hexagonal e o empate beneficiava o Goiás. O Atlético Goianiense precisava ser campeão do hexagonal para forçar uma decisão do campeonato (em melhor-de-três) contra o próprio Goiás, que havia sido campeão do primeiro turno.

Nesse jogo decisivo, os atleticanos marcaram o primeiro gol aos 10 minutos do segundo tempo. Mas o Goiás virou o placar. Venceu por 2 a 1 e, como campeão do primeiro turno e do hexagonal, sagrou-se campeão estadual de 1986. A revista Placar comentou com satisfação o bom andamento do campeonato: “Um campeonato se ganha no campo. Finamente, depois de três anos, este princípio básico do futebol foi respeitado em Goiás. Desde 1983, quem acabava decidindo o título eram os juízes dos tapetões. Agora, foi diferente” (Placar, 12.09.1986).

À medida que o futebol goiano avançasse em sua profissionalização, essas turbulências tendiam a desaparecer. Afinal, a profissionalização transforma clubes e Federações em empresas esportivas, de viés capitalista, o que leva à adoção de práticas menos instáveis. O padrão profissional é o do bom funcionamento empresarial, ou seja, da busca por maior eficiência, sem confusões e crises.

Esse desenvolvimento, porém, não seria dos mais rápidos em Goiás.

O futebol goiano adotou oficialmente o profissionalismo em 1962. Duas décadas depois, ainda se mostrava dramaticamente bagunçado do ponto de vista administrativo. Essa situação revela como era difícil implantar realmente o profissionalismo esportivo em uma região considerada atrasada e periférica. Dificuldade percebida até o primeiro ano do novo século.

Os vilanovenses não esquecem aquele ano de 2000, quando o seu clube decidiu não disputar o segundo jogo da final do segundo turno. Era um protesto contra a arbitragem do primeiro jogo daquela final. Atitude muito emocional (amadora) e pouco profissional. A FGF, alguns dias depois, determinou o cancelamento de todas as partidas do time na competição. Assim, o Vila Nova ficou em último lugar na classificação final do campeonato (com nenhum ponto) e foi rebaixado para a segunda divisão.

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Duas partidas especiais: como Bangu e Brasil de Pelotas chegaram à semifinal impensável de 1985

Em julho de 1985, duas partidas de futebol deram aspecto bizarro ao Campeonato Brasileiro daquele ano. A primeira partida foi disputada em 18 de julho, na cidade de Pelotas. A outra ocorreu três dias depois, em 21 de julho, na cidade de Porto Alegre. No dia 18, enfrentaram-se Brasil de Pelotas e Flamengo. No dia… Continuar lendo Duas partidas especiais: como Bangu e Brasil de Pelotas chegaram à semifinal impensável de 1985

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