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A eficiência do Brasil nas Olimpíadas

Com Juan Silvera.

Concluídas as Olímpiadas, autoridades e jornalistas começam o processo de avaliação. O Presidente do COB manifesta satisfação embora o total de medalhas obtidas seja bastante menor que o estimado ou planejado. A questão central passa por estabelecer aquilo que foi aprendido com as Olimpíadas em todas suas dimensões. A satisfação ou insatisfação com os resultados já se situa no passado. Trata-se, no presente, de elaborar o aprendido para operar sobre o futuro.

Um fato merece destaque: a participação nas Olimpíadas não é igualitária. Os países não participam com o mesmo número de atletas ou com um número proporcional a sua população, por exemplo. Brasil participou com mais atletas do que a China e o Reino Unido. Nas Olimpíadas do Rio de Janeiro, o Brasil, com 464 atletas, apenas foi superado, em termos absolutos, pelos Estados Unidos, com 550.

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Por ter sido o país-sede dos Jogos de 2016 e pelos investimentos feitos no Time Brasil no último ciclo olímpico, o Brasil teve inéditos representantes em algumas modalidades com pouca tradição no país, o que, por sua vez, levou a delegação brasileira a ser a maior de sua história em Olimpíadas.

Em algumas modalidades esportivas a diferença no número de participantes se baseia na diferença de desempenhos anteriores, comportando uma história das diferenças. O número de atletas participantes por país reflete desempenhos e classificações anteriores que parecem depender não apenas da riqueza nacional per capita mas, também, dos modos de seleção e treinamento de atletas em cada país.

Assim, surge a tentação de criar índices que reduzam a participação a valores comuns, mais ainda quando o tipo de medalha estabelece diferenças que merecem ser medidas. Índices, então, que aumentem a comparabilidade dos desempenhos.

Acreditamos que um deles pode ser o da relação entre medalhas e atletas. Ou seja, dividindo o total das medalhas pelos atletas participantes por país.

Vejamos os resultados:

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Quadro comparativo de medalhas por atletas nos Jogos Olímpicos de 2016

Se construirmos um índice de medalhas por atleta por país até chegarmos ao valor do ranking do Brasil, podemos observar a “eficiência da participação”. Os Estados Unidos seriam o país “mais eficiente”, com uma relação de 0,22 medalhas por atleta. O Brasil teria o respectivo índice de 0,04, menos da quinta parte de medalhas por atletas em comparação ao desempenho estadunidense.

A Rússia, apesar de ter caído para a quarta posição no ranking da Olimpíada e de ter enfrentado sérios problemas de exclusão a partir das acusações de doping, ainda conserva a segunda posição em termos de medalhas/atleta, 0,19. Embora o Reino Unido seja segundo no ranking de posições cai para o terceiro lugar no índice elaborado, com 0,17 medalhas por atleta. A China ocupa a mesma posição.

No índice, temos países que se igualam apesar das diferenças absolutas no número de atletas. França e Coreia do Sul com índice de 0,10; Alemanha, Itália e Hungria com 0,9. Austrália e Espanha parecem menos poderosas sob o ponto de vista do índice, 0,6 e 0,5 respectivamente. Observe-se que a Hungria está apenas uma posição acima do Brasil no ranking do COI, mas no índice obtém 0,9 medalhas por atleta, mais que o dobro do resultado do Brasil, que, para ocupar a posição número 10 no ranking, teria que aumentar em 100% seu valor no índice de medalhas/atletas. Em outros termos, para alcançar a posição da Hungria, teria que ter doblado o número de medalhas, isto é, obter 38. A Espanha, por sua vez, com um número de medalhas inferior ao Brasil, o supera no índice.

O Quênia merece um comentário especial. No ranking por países, ocupa o décimo-quinto lugar, com seis medalhas de outro, seis de prata e uma de bronze, embora também tenha enfrentado problemas de participação sob a acusação de doping. Entretanto, no índice por medalhas, sobe para a quinta posição, com 0,16 medalhas por atletas. Apenas os quatro primeiros países do ranking em medalhas a superam. No caso de Quênia podemos estar diante do êxito diferencial da especialização em modalidades esportivas, em seu caso, no atletismo. Brasil teria que ter obtido 76 medalhas para atingir o índice de Quênia.

Se realizarmos o cálculo dos índices de medalhas/atletas para o Brasil nos Jogos do Rio e também nas as três olimpíadas anteriores (Londres-12, Pequim-08 e Atenas-04), constatamos que o Brasil obtém o mesmo índice que em Atenas (0,04) e índice inferior aos de Londres e Atenas.

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Índices relativos de medalhas por atleta do Brasil nas três Olimpíadas antes da Rio-2016.

Se levarmos em consideração o fato de ser sede e os significativos investimentos realizados em infraestrutura e nos atletas no último ciclo olímpico (aproximadamente R$ 4 bi, segundo o Ministério do Esporte), pareceria que o desempenho do Brasil em termos do índice foi baixo. A hipótese de um desempenho baixo pode funcionar como um estímulo para pensar falhas, acertos e o peso do contexto nos resultados. O sentimento de satisfação poderia minar o esforço de aprendizado.

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Um comentário em “A eficiência do Brasil nas Olimpíadas

  1. Muito interessante, lembrei da mídia americana nas olimpiadas de Pequim que posicionava o país pela quantidade total de medalhas e não pelo número de ouros, como é a “tradição” para ficarem na frente da CHINA. CRITÉRIOS DE DIFERENCIACAO entre desiguais. Esse mar de diferenças contrasta com o apelo formal da igualdade e congracamento entre nações

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