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Vesti uma camisa listrada e saí por aí: Madureira x CRB e os futebóis do Brasil

Sábado, 18 de outubro, abri meu armário e pus pra fora a camisa listrada do Madureira Futebol Clube que comprei na última vez que estive no Estádio Aniceto Moscoso, há cerca de dois meses atrás

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Naquela ocasião fui assistir a Madureira X Guarani em jogo da terceira divisão.

Não….

Não sou torcedora do Madureira.

Sou apaixonada por futebol e pesquisadora que desde 2003 tanta unir essas duas dimensões no blog Caravana de Boleiros (http://caravanadeboleiros.blogspot.com.br/). Nesse espaço vou em busca dos futebóis que fazem parte daquilo que chamamos de o “futebol brasileiro”. Fazem parte, mas são pouquíssimos mencionados, especialmente, pela imprensa esportiva.

Nos jornais e nos programas esportivos de TV o que se percebe é o privilégio dado ao campeonato da Série A, Copa do Brasil e no máximo aos campeonatos estaduais. Mesmo assim a atenção recai sempre sobre os principais clubes dos estados de Rio, São Paulo, Minas e Rio Grande do Sul.

Há quatro divisões principais de futebol, sendo que grande parte das informações que circulam nos mais importantes veículos de comunicação se referem à Série A. É certo que a Série B tem merecido atenção, mas sobretudo porque nos últimos anos contou com a presença de clubes grandes como Botafogo, Palmeiras, Vasco e o Corinthians, dono da segunda maior torcida do país.

Quanto ao restante das séries, temos fragmentos de informação que geralmente se tornam mais frequentes quando os momentos decisivos vão chegando.

É o que aconteceu com o Madureira cujo jogo de sábado passado, dia 18 de outubro, contou com a presença da imprensa, chegando a merecer uma matéria – de menos de meia página – publicada no caderno de esportes da edição de domingo do jornal O Globo.

Isso significa que quando se fala em “o futebol brasileiro” em grande medida está se fazendo referência à seleção brasileira e a um conjunto limitado de clubes e torcedores, o que em parte se justifica dada a lógica mercadológica tanto do futebol quanto da própria imprensa.

Sendo assim quando se fala em “futebol brasileiro”, é importante indagar de qual futebol estamos falando?

Certamente não se está falando dos clubes que jogam frequentemente em campos pequenos, em estádios antigos e absolutamente longes do “padrão Fifa” – muitos dos quais sequer possuem uma sala de imprensa.  Clubes que lutam pela sobrevivência em um contexto altamente mercadorizado e financeiramente desigual do futebol brasileiro. Clubes muitos dos quais centenários e que por motivos variados ficaram de fora – ou nunca participaram – do menu principal do futebol brasileiro.

E o que nos dizem os jogos desses clubes que embora pertencentes ao futebol de “matriz espetecaluzarizada”[1] – guardam distância considerável do pequeno grupo seleto que compõe aquele “futebol brasileiro”, discutido e veiculado por grande parte da imprensa esportiva do país?

A torcida mista

O Madureira é um clube do subúrbio carioca homônimo. Em 2014 festeja-se seu centenário. Na verdade o Madureira Esporte Clube até a década de 1970 chamava-se Madureira Atlético Clube, resultado da fusão do Fidalgo Madureira Atlético Clube e do Magno Futebol Clube, clube de quem herdou a data de nascimento 08 de agosto de 1914.

Madureira Esporte Clube é nome que surge somente na década de 1970, após outra fusão, a do Madureira Atlético Clube com o Madureira Tênis Clube e por fim o Imperial Basquete Clube.

O Madureira detém uma interessante marca:  é o clube que mais tempo ficou em excursão pelo exterior. Foram ao total 36 jogos, realizados ao longo de 144 dias, no ano de 1961.  Além de ter ido em Cuba, o Madureira também fez “a viagem proibida” que consistiu em uma excursão feita na China:

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(Fonte: http://caravanadeboleiros.blogspot.com.br/2013/02/madureira-e-audax-futebol-samba-e.html)

Pelo Madureira passaram importantes jogadores como Jair da Rosa Pinto e Evaristo de Macedo cuja imagem é usada em uma bandeira de uma torcida Organizada do clube.

Sim… o Madureira tem torcida organizada – mais de uma, aliás – formada em sua maioria por jovens moradores do bairro e dos arredores.

Porém, torcer para um clube que não frequenta grandes campeonatos e que tem pouco convívio com momentos gloriosos pode adquirir feições diferentes das que estamos acostumados.

Embora logo na entrada das sociais do clube nos deparemos com a frase “aqui só se torce pelo Madureira”, é plenamente aceitável a presença de pessoas com camisas de Vasco, Flamengo, Fluminense, Botafogo etc. Trata-se de uma convivência que no caso do Madureira se dá de modo pacífico.

Torcer para dois times é realidade comum na composição das torcidas de alguns dos chamados times de baixo investimento. E esse fenômeno se evidenciou na promoção realizada pelo Madureira para o jogo contra o CRB na qual quem fosse vestido com a camisa de qualquer clube do Rio poderia adquirir um ingresso e entrar de graça no estádio.

Essa promoção foi posta em prática de modo confuso, com pouca informação ao público e pouca organização na troca de ingressos, o que provocou uma perigosa aglomeração de pessoas na porta de entrada do estádio.

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Um policial tentou por ordem na fila, porém ele estava visivelmente nervoso e despreparado para a situação:

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Há certas misturas que são fatais para o desencadeamento de tumultos em estádios: falta de informação, falta de organização, falta de entradas suficientes para o público (havia apenas uma pequena) e policiais despreparados. Se o público presente de fato fosse em sua maioria formada por torcedores do Madureira, ávidos por ver o jogo, teria havido muita confusão como aquelas que cansamos de ver antes de jogos em São Januário ou mesmo no Maracanã.

Entrei no estádio apenas no final do segundo tempo….

O estádio estava cheio. Um mosaico de camisas dos clubes cariocas compunha o público das arquibancadas. Mesmo na parte em que ficaram reunidos os agrupamentos das organizadas do Madureira, podia-se ver lado a lado indivíduos botafoguenses, vascaínos, flamenguistas e tricolores. Um dos instrumentos de percussão de uma das torcidas organizadas do Madureira era tocado por um rapaz que trajava uma camisa do Botafogo.

A ideia dessa promoção é compreensível dada a vontade de encher o estádio em um dos mais importantes dias da história do Madureira que tinha possibilidades reais de dar largos passos para a série B do Campeonato Brasileiro.

Encher o estádio também se justificava dada a péssima média de público dos jogos do Madureira. Contabilizando o público de toda a primeira fase da Série C – 18 rodadas – o Madureira foi dono da segunda pior média, perdendo apenas para o Duque de Caxias. Cerca de 274 pessoas em média assistiram aos jogos do tricolor suburbano (Fonte: http://globoesporte.globo.com/futebol/brasileirao-serie-c/publico-seriec.html)

Por outro lado a composição mista das arquibancadas no sábado, me causou certo estranhamento e me fez pensar que teria sido mais interessante uma promoção que objetivasse encher o estádio com as cores do Madureira, fortalecendo velhos e construindo novos laços de identificação com os símbolos do clube.

Essa composição mista seria interessante de ser futuramente investigada a fim de lançar novas perspectivas sobre os modos de torcer.

O galo maluco

Em relação ao time do CRB há de se destacar que um bom número de torcedores esteve presente no Aniceto Moscoso. Antes da partida era possível vê-los andando pelas ruas de Madureira ostentando bandeiras, camisas e cantando “nós somos  Galo, Gaaalo maluuuuuco”!

Resolvi seguir alguns que seguiram pelo Mercadão de Madureira, pelas ruas do bairro e acabei encontrando o bar onde a maioria se reunia. Lá fui recebida – e muito bem recebida – por torcedores e torcedoras que enfrentaram uma viagem de Alagoas ao Rio.

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No caso da torcida do CRB não vi mesclas de camisas de outros clubes. Vi camisas variadas comemorativas ao centenário do clube ou aquelas típicas retrôs, o que indicava que poderia haver um bom investimento na comercialização de produtos licenciados pelo CRB. E de fato parece que há. Fui ao site do clube onde podemos ser direcionados para a loja virtual na qual se pode adquirir uma variedade de roupas e objetos ligados ao CRB

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A estrutura mercadorizada e espetacularizada da qual participa os principais clubes do país também é apropriado pelos chamados clubes de “baixo investimento” se traduzindo em lojas virtuais e físicas, e no licenciamento de produtos vendidos ao torcedor, assim como oferecendo programas de sócio-torcedor.

No contexto atual globalizado em que jogadores de futebol se transformam em celebridades midiáticas consumidas mundialmente por públicos amplos, não é muito fácil – sobretudo para os clubes que estão fora do circuito principal futebolístico – a manutenção de seus torcedores.

Por outro lado, esse mesmo impulso globalizante é capaz de fortalecer os laços locais importantes para a manutenção do pertencimento clubístico, sentimento que move os torcedores independentemente da divisão às quais seu time joga. O CRB parece ter uma força local grande, com a conquista de diversos títulos estaduais e nutrindo com o CSA uma forte rivalidade de longa data.

Isso não ocorre com o Madureira, infelizmente

Debaixo do sol e ao lado e cercados por um “cordão de isolamento” a compacta massa vermelha dos torcedores do CRB assistiram à vitória do time por 2 x 1.

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Às vezes se ganha mesmo perdendo

O Madureira saiu de campo aplaudido pela maioria dos que estavam no estádio, seja pelos torcedores de ocasião, seja por aqueles que acompanham o time com mais frequência.

Em alguns jogos que fogem ao circuito principal do futebol brasileiro, a vitória e a derrota podem adquirir sentidos diferentes. Os aplausos dados ao Madureira se justificam em primeiro lugar porque o público não era formado exatamente pelo que convencionamos a chamar de torcedores, muito menos por indivíduos movidos pelo “pertencimento clubístico” já mencionado.

O horizonte de expectativas que cerca times como o Madureira é um tanto limitado e há um certo nível de consciência em relação à sua realidade difícil, o que faz com que muitas vezes o simples fato de se chegar às quartas de final de um campeonato da terceira divisão possa significar uma espécie de vitória.

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Entretanto a rotina de derrotas e a dificuldade em participar de competições mais regulares ao longo do ano pesa financeiramente para os clubes e torna ainda difícil sua manutenção assim como a formação de novos torcedores.

O abismo econômico entre os clubes no Brasil se evidencia quando frequentamos jogos que vão além daqueles que compões as primeiras páginas dos jornais esportivos.

Esse aspecto é bastante preocupante. O risco de desaparecerem do mapa futebolístico sempre ronda os chamados clubes de menor investimento.

Frequentar ou mesmo assistir a jogos como os de sábado passado também é uma oportunidade de se questionar a cara noção de “futebol-arte” como sendo elemento fundador do futebol brasileiro. Esses jogos “de contracapa”[2] evidenciam que grande parte do futebol brasileiro se movimenta à margem do tão exaltado “futebol-arte”, questão que já se mostra clara nos jogos da própria série A do Brasileirão e que no caso de times de pequeno investimento faz-se padrão dominante.

O futebol-arte é uma categoria historicamente construída, certamente que fundamentada na atuação hábil de jogadores excepcionais que fizeram parte de algumas seleções brasileiras.

Mas há de se pensar que mais do que uma regra, o futebol-arte pode ser uma exceção que foi tomada como uma espécie de essência do estilo brasileiro e que, muitas vezes, funciona como uma categoria que aprisiona e limita criticamente nossos olhares lançados sobre o futebol nacional.

Sendo assim, me questiono muito quando ouço as análises que se faz do “futebol brasileiro”, especialmente aquelas que se tornaram comuns após os 7 x 1 contra a Alemanha, na Copa do Mundo.

Como é possível propor uma análise menos superficial sobre algo que se conhece e que se divulga tão parcialmente.

Quando se fala em renovação do futebol brasileiro olhar para esse futebol buscando nele sua diversidade, oferecendo suporte para manutenção e crescimento de clubes que embora possam estar longe do circuito principal são parte constitutiva do futebol nacional.

[1] Arlei Sander Damo propõe que há diferentes maneiras de se praticar futebol que podem ser agrupadas em quatro matrizes denominadas: espetacularizada, bricolada, comunitária e escolar (cf. Damo, 2007, 40). A matriz espetacularizada que se caracterizaria por ser organizada de maneira “monopolista, globalizada e centralizada através da FIFA (…) Divisão social do trabalho dentro e  fora de campo. Não obstante a distinção clara e precisa entre quem pratica e quem assiste (..)” (2007, 43). Sobre esse aspecto ver DAMO, Arlei. Do Dom À Profissão – A Formação de Futebolistas no Brasil e na França. São Paulo: Editora Hucitec, 2007.

[2] Referência ao título do livro Oliveira, Allan de Paula, Souza, Hélder Cyrelli de e Castelo Branco, João. O futebol da contracapa: uma etnografia da Suburbana em Curitiba. Curitiba: Editora Máquina de escrever, 2012.

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