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Tipo alemão?

Embalados pelos acontecimentos que antecedem a Copa do Mundo de 2014 no Brasil, como os jogos amistosos da seleção canarinho, a troca de técnicos, obras de estádios quase finalizadas, gastos públicos exorbitantes e preços de ingressos excludentes, cabe ainda o questionamento de como será o futuro do futebol no país. A representação “pátria de chuteiras” anda em descrédito, quando hoje torcedores observam certa crise que toma conta do futebol brasileiro. Como afirmara Hugo Lovisolo em entrevista para o jornal O Globo em 2001, a pátria calça chuteiras cada vez menores.

bundesligaRecentemente, a exibição do programa Bola da Vez, na ESPN, com a participação do craque alemão e atual dirigente do Bayern de Munique, Paul Breitner foi para muitos uma verdadeira aula sobre o futebol enquanto esporte, entretenimento e negócios (veja vídeos do programa aqui). No programa, Breitner criticou o modelo do futebol brasileiro, falou sobre a tal “crise” e apontou o clube onde trabalha e o principal campeonato alemão, a Bundesliga, como exemplos de sucesso. Para notar o impacto da entrevista basta observar o burburinho que a mesma provocou nos blogs e redes sociais.

Confirmando o discurso de Paul Breitner, as primeiras partidas das semifinais da Liga dos Campeões refletem a atual fase do futebol alemão. O Bayern de Munique fez 4 a 0 no time de Messi, e o polonês Lewandowski comandou a vitória do Borussia Dortmund por 4 a 1 no Real Madri. Reverter os resultados pode não ser impossível para os espanhóis, mas o jogo ficou complicado para os galácticos e os favoritos do Barcelona.

Particularmente, sempre achei a Liga dos Campeões um dos melhores campeonatos, com a maioria dos jogos de alto nível técnico, muito disputados. Por aqui no Brasil, o campeonato também é destaque de audiência. Nessa edição, quando todos esperavam o grande clássico espanhol na decisão da competição, os alemães chegaram com tudo e ganharam com placares largos. Os dois clubes espanhóis, potências do futebol mundial em qualidade técnica e alto investimento financeiro, não resistiram à tática e ao eficiente futebol alemão. O sucesso dos alemães hoje tem reflexo também no interesse dos apaixonados pelo futebol, quando a Bundesliga passa a ser tão acompanhada em terras brasileiras quanto a Premier League e a Liga BBVA.

Na ESPN, Paul Breitner falou sobre o modelo alemão do futebol jogado e do futebol negócio que justifica o sucesso da Bundesliga, com recorde de público de 45 mil torcedores por jogo. Afirmou ainda que o futebol alemão passou por uma transformação em 2004, quando reconheceram que seu tipo de jogo estava completamente atrasado e passaram a discutir questões técnicas, organizacionais, táticas, mercadológicas e financeiras para iniciar uma revolução. A ideia é: Clubes fortes, seleção forte.

Breitner também falou que a reformulação do futebol começou com aquilo que todos parecem compreender, mas não se pratica aqui no Brasil: “o futebol atual é desenvolvido no plano das categorias de base com técnica, força e consciência tática. O técnico não deve ensinar o jogador a praticar o esporte”. Assim, os clubes alemães adotaram a estratégia de trabalho com garotos de 12 e 13 anos. O ídolo citou o Bayern de Munique como exemplo, sendo um clube autossuficiente, com alta margem de lucro, sem magnatas financiadores, com uma gestão baseada na seriedade e no comprometimento.

Na Alemanha, não existem “donos” de um time de futebol. Dos 36 clubes da primeira e segunda divisão, 34 são controlados por seus torcedores. Apenas o Bayer Leverkusen, da empresa Bayer, e o Wolfsburg , da Volkswagen, possuem “donos”, já que foram fundados e são bancados há mais de 60 anos por estas empresas. A regra é que a maior parte das ações dos clubes deve permanecer com seus sócios torcedores. (Blog Almanaque Esportivo – Revolução Alemã)

Paul Breitner aproveitou ainda para cutucar o futebol brasileiro, dizendo que paramos no tempo. Para ele, não adianta a seleção trocar de treinador. É preciso mudar a mentalidade, a forma de gestão do esporte. Criticou a baixa qualidade dos nossos gramados, a infraestrutura, a velocidade do jogo, a qualidade dos times, os dirigentes e a  forma como a imprensa vê o futebol. E questionou também a função de Neymar no Brasil, afirmando que ele precisa ir para a Europa jogar com os melhores e descobrir se realmente é um bom jogador.

breitner

Ao que tudo indica, parece que o modelo de futebol alemão é perfeito e tem resultado em campo. Está certo que o status de ídolo alemão e sua experiência como dirigente conferem a Paul Breitner um discurso de autoridade, de quem conhece e sabe do que está falando. E lógico, certa modéstia também.

Mas lanço a questão se o modelo alemão seria realmente adequado ao Brasil. Tenho minhas dúvidas. Investir na base dos times, na formação dos técnicos, nos clubes, nos estádios e gramados parece a solução para a tal “crise” do esporte no país. Deixar o espetáculo um pouco de lado para cobrar de autoridades públicas e dos dirigentes resultados efetivos para a evolução do futebol brasileiro pode ser o próximo passo para a concretização de uma Copa do Mundo bem sucedida no Brasil. Está em cima da hora, mas ainda dá tempo. De repente assim, não precisaremos de alguém de fora dando “aula” sobre como praticar e gerenciar nosso futebol.

Referências

As Novas Fronteiras do País do Futebol – Ronaldo Helal, 2010

Guerreiros não abandonam a batalha: publicidade e identidade do herói nacional no Mundial de Futebol de 2010 – Camila Augusta Pereira, 2012

Blog Almanaque Esportivo

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