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Os árbitros e as telas

Vai começar o julgamento. Advogados de defesa e promotoria posicionados. Vítima e acusado certos de que os seus respectivos pontos de vista estão corretos. Plateia atenta e tendenciosa. Todos eles terão chance de ver e rever as provas do crime, poderão parar e analisar o que procede, quem diz a verdade e quem age de má fé. Todos, exceto o juiz. Este será obrigado a se manifestar rapidamente, sem pestanejar. Sem ter tempo para refletir. Sem consultar nenhum auxiliar e sem poder rever nada. Um instante e a percepção de um cidadão será responsável por decidir o destino de todos os outros envolvidos.

Estranho? Injusto? Pois é assim que é o futebol atualmente. Apesar de homem de preto não usar mais preto e de estar acompanhado vários auxiliares é ele, sozinho, quem continua decidindo as partidas de futebol. Sempre foi assim, no entanto, temos agora novos ingredientes que, aliás, se entrelaçam com a comunicação. Afinal, são as novas tecnologias que permitem aos demais participantes terem a ajuda do olhar mecânico.

Os recursos eletrônicos já foram inseridos nas transmissões há um bom tempo. A novidade é a velocidade com que que a informação chega ao torcedor na arquibancada, ao técnico à beira do gramado e aos jogadores dentro de campo. O replay já mostra, há décadas, para o torcedor do sofá que o gol foi de mão. Mas o caminho dessa informação até o campo de jogo era longo e lento. Hoje é imediato. Da arquibancada é possível conferir o replay na tela do celular. Também pelo telefone, segundos depois, o técnico já foi informado pelo seu assistente, que vê o jogo da cabine, que o árbitro errou. No antigo Maracanã, a cada lance polêmico, os torcedores se viravam para os monitores dos camarotes para perceber se o houve erro.

As transmissões televisivas evoluem e os recursos gráficos elucidam lances cada vez de forma mais precisa e rápida. A inserção da tecnologia para auxiliar na decisão dos árbitros é cada vez mais necessária e talvez inevitável. Não é possível deixar o responsável por conduzir a partida tão desamparado.

Quem se opõe à utilização de recursos eletrônicos no futebol lança mão, geralmente, dos mesmos argumentos. O primeiro deles é que prejudicaria a dinâmica do jogo. Isso não é verdade. Com a rapidez dos equipamentos, a decisão tende a ser cada vez mais rápida. O juiz não precisa correr até a beira do gramado para olhar para um monitor. Haveria um juiz de TV escalado e treinado, assim como os auxiliares que estão no campo. Quando acionado, pela comunicação, ele daria o veredito que deveria ser acompanhado pelo árbitro do campo.

Há quem diga que o problema está na regra do jogo que exige a interpretação do árbitro. Isso é um fato e, caso a regra não possa ser mudada, bastaria delimitar em quais casos o recurso eletrônico seria utilizado. O impedimento, a bola que entrou ou ficou na em cima da linha, o gol de mão são eventos exatos, indiscutíveis. Um pênalti, uma falta dura podem sim ser discutidos, haverá dúvidas e isso é bom. Pois para outros tantos, a TV não deve participar das decisões justamente porque acabaria com as polêmicas, que seriam saudáveis e tornariam o futebol apaixonante. Apesar desse discurso nunca ter me convencido (afinal só quem já foi eliminado injustamente ou perdeu um título por um erro de arbitragem sabe o quanto a polêmica não é sadia), fiquem tranquilos os que gostam de discussões acaloradas, elas não terão fim.

Se o futebol era bom por conta da polêmica, não é mais. O mundo mudou, a nossa relação com o esporte mudou. A forma de assistir a um evento esportivo foi alterada radicalmente. Várias modalidades já se renderam aos benefícios do olho mecânico e as experiências têm se mostrado positivas. Não há como acabar com todos os erros e decisões polêmicas. Este não pode ser o objetivo. No entanto, a preguiça de não solucionar o que pode ser facilmente decifrado torna o espetáculo cada vez mais irritante e menos atraente. Com vários ecrãs nas mãos e um grande telão no meio do campo todos têm a chance de ver o que realmente aconteceu, menos o pobre coitado e despreparado (há aqui a crença de que não esteja mal intencionado) do juiz. Ele toma a decisão sozinho. E erra. Cada vez mais. Ou será que somos nós que, cada vez mais, temos condição de saber que ele está errado?

Os árbitros já estão acostumados às ofensas. Mas pelo menos uma delas, a Fifa poderia evitar. Afinal, com a ajuda da tecnologia, eles deixariam de ser o marido traído. Aquele que é o último saber. Coitados.

*Quem quiser mais razões para entender a fragilidade dos árbitros, pode conferir a exposição “Será que foi, seu juiz?”, no Museu do Futebol, no Pacaembu, em São Paulo. A mostra prova que o olhar humano pode ser engando e que algumas marcações dos árbitros não podem ser determinadas com precisão.

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3 comentários em “Os árbitros e as telas

  1. Muito bom e pertinente artigo João Paulo. Mas veja que impedimento pode ser também discutível mesmo com a ajuda da tecnologia, já que no momento em que o juiz marca o impedimento, a defesa tende a parar. Imagine que o árbitro volte atrás. Como ficaria o goleiro do time que levou o gol caso ele tivesse parado ao escutar o apito? Mas em nenhum momento este “fato discutível” tira o mérito da tua reflexão, pelo contrário. Por isso me manifesto aqui.
    Parabéns!

  2. Professor Helal, muito obrigado pelas considerações. O texto é uma provocação, até um pouco rasteira em alguns momentos. O meu maior incômodo é a preguiça dos que conduzem o futebol em discutir o assunto e testar as novas tecnologias. É bem possível que sejam necessárias mudanças nas regras para que seja viável o uso do olho eletrônico. O tema é polêmico.

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