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Sobre elogio e gratidão

Por Carolina Diniz

Há pouco mais de duas semanas, o Brasil conhecia o primeiro vencedor do campeonato nacional de futebol. Ele saiu da quarta divisão, a tão sofrida Série D. Na tarde de 21 de outubro, entrou em campo o octogenário Sampaio Corrêa do Maranhão tentando conquistar, contra o CRAC de Goiás, o título inédito daquela Série de forma invicta. O que não seria de todo uma novidade para o tricolor de São Pantaleão, que foi campeão invicto também no Campeonato Brasileiro da Série C em 1997.

Todo boliviano – como é conhecido o torcedor do Sampaio Corrêa, por esse ter sua bandeira com cores análogas às da bandeira da Bolívia – naquela tarde dava como certa a vitória do tricolor. Todos os 40 mil torcedores presentes no Castelão precisavam, antes, durante e depois do jogo, elogiar aquele time que não teve grandes dificuldades com os adversários durante a competição. O time demonstrava estar tomado por uma intensidade focada (Gumbretch, 2007) correspondendo em campo aos desejos da torcida que elogiava a beleza atlética das jogadas – fosse ela um drible em direção ao gol ou um chutão na defesa – como forma de manifestar essa gratidão.

Dentre as imagens daquela partida, está a de um senhor na torcida flagrado pelas câmeras com um cartaz que dizia: “Messi + Cristiano Ronaldo = Pimentinha”. Esse cartaz resumia toda aquela gratidão pela trajetória do atacante na competição, análoga e tão importante, para o torcedor, quanto a trajetória de Messi ou de Ronaldo pelos respectivos clubes espanhóis que defendem.

Pimentinha teve a difícil tarefa de substituir Edgar – ou Edgol – atacante que estava deixando a “Bolívia Querida” por conta de uma pendência judicial com o Maranhão Atlético Clube – o MAC – que o impediu de disputar a fase de mata-mata da Série D. E foi ele, Pimentinha, quem fez a confiança do torcedor tricolor crescer nas partidas decisivas. Sem medo de encarar a marcação adversária, sem medo de se machucar nos dribles mais agudos que poderiam levar o adversário à ira, ele foi crescendo no time e, na partida final, foi dele o gol da vitória tricolor. O gol seguiu a fórmula já manjada do estilo Pimentinha: ele recebeu o lançamento em profundidade e, numa penetração fantástica pelo lado esquerdo da defesa, tocou na saída do goleiro. Passava dos 25 minutos do segundo tempo, mas a torcida já cantava como campeã. Exatamente como em 1997.

A conquista do Sampaio Corrêa se deu menos pelo drama – muito menos, se observamos os placares elásticos da primeira fase – do que pela busca pela excelência. Durante a primeira fase, o time tricolor foi apelidado de “Barçampaio” em comparação óbvia ao timaço do Barcelona. Eis a primeira manifestação de gratidão. Depois de garantido o acesso à Série C de 2013, cada atleta e cada um dos milhares de torcedores bolivianos, desejavam nada menos que a excelência. A competição, no momento do acesso, estava superada. A partir da semifinal o objetivo passava a ser a conquista do título de forma invicta. Essa busca pela excelência foi definida por Gumbretch como Areté termo grego que significa “buscar a excelência com a conseqüência de levar algum tipo de performance a seus limites individuais ou coletivos” (GUMBRETCH, 2007, p. 56).

Chegar ao limite da Série D – ser campeão invicto – além de encher o torcedor do espírito de gratidão, deu a eles a sensação de que os limites desta competição foram alcançados e que não existe mais sentido em frequentar essa divisão do Campeonato Brasileiro. Nos últimos anos, todos os campeões da Série D voltaram a ela no ano seguinte. Sabemos que existe uma série de fatores para essas quedas, entre elas, a saída dos melhores jogadores, o desmanche da equipe campeã. Prefiro acreditar – me enganar – que a queda do time que foi campeão – mas que não o conquistou de forma invicta – se dê mais pela busca da excelência perdida do que pelo resultado consequente do excesso de elogio à beleza atlética. Se assim for, podemos continuar acreditando no Barçampaio na Série B de 2014.

 

Referências

GUMBRETCH, Hans Ulrich. Elogio da beleza atlética. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

______. Perdido numa intensidade focada: esportes e estratégias de reencantamento. Aletria. Belo Horizonte, vol. 15, jan-jun, 2007.

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