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O tal futebol moderno.

O novo inimigo do futebol brasileiro é o sinalizador.  Aquele artefato luminoso utilizado pelas torcidas para festejar nos estádios foi eleito pela CBF como nosso principal vilão. Basta que um seja ascendido para que aconteça a interrupção o jogo. É fundamental fazer a ressalva que os sinalizadores luminosos são inofensivos e não tem nenhuma relação ou similaridade com o sinalizador naval (utilizado de forma inadequada pela torcida do Corinthians na Bolívia e que matou de forma injustificável um garoto). No entanto, este artefato raramente é utilizado pelas torcidas, uma vez que não causa nenhum efeito visual.  Contudo, a miopia de quem conduz o futebol mundial e falta de sensibilidade para entender o universo do torcedor torna impossível que se faça essa simples distinção.

Este despretensioso manifesto em defesa da festa das arquibancadas tem uma só razão. Todas essas exigências que obrigam mudanças no comportamento do torcedor só têm dado um resultado: tornar o estádio um espaço cada vez menos interessante. Nenhuma dessas medidas, que pretendem inserir o futebol na modernidade, ajudam a atrair o público. Não aumentam a segurança dos torcedores, não melhoram o jogo em si, não inibem a violência recorrente entre setores das torcidas (via de regra, quem faz a festa não é quem briga).  E mais: não combatem os comportamentos arcaicos que ainda dominam as arquibancadas como o machismo e a homofobia. Querem uma transformação comportamental sem atacar os problemas reais.

Chama a atenção o despreparo da imprensa esportiva para tratar do assunto. Os jornalistas que cobrem o esporte diariamente e frequentam os estádios não estão atentos aos movimentos das arquibancadas e não sabem fazer diferenciações óbvias. Isso ficou evidente durante as transmissões da Eurocopa, que está sendo realizada na França. Os profissionais da mídia brasileira foram surpreendidos com o comportamento de uma parte dos torcedores europeus. A expectativa claramente era daquela plateia colorida e sorridente. Mas as manifestações dos Ultras do leste europeu e dos Hooligans britânicos destruíram o senso comum de que no Velho Continente tudo funciona e a baderna é exclusividade dos sul-americanos. Aqui cabe uma ressalva: os protestos realizados pelo Ultras croatas (sim, apesar da cobertura superficial, tratou-se de um protesto contra a corrupção na federação local) podem e devem ser questionados, mas precisam ser enxergados a partir da perspectiva adequada. Mas este é assunto para outro post.

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As brigas registradas entre torcidas de diversos países na Eurocopa mostraram que o hooliganismo ainda persiste e que a noção de civilidade tão atribuída aos povos europeus é caótica. Apesar das desconfianças quanto à segurança na Copa de 2014, nenhum incidente desta gravidade ocorrido na França foi registrado no Brasil 2 anos atrás.

A descoberta de que na Europa também há descontentamento com a pasteurização das torcidas poderia incentivar um debate mais profundo sobre no que estamos transformando nossos estádios. Para muitos, o Brasil se distanciou do nosso jeito de jogar e caminha a passos largos para acabar com o seu jeito de torcer. Confundir conforto com passividade e segurança com apatia não vai nos tornar mais europeus. Talvez até fiquemos mais parecidos com os norte-americanos. Com a diferença que lá eles já lotam os estádios para assistir o soccer. Aqui, nossas arquibancadas estão cada vez mais vazias.

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