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Tudo na mesma página

Pesquisas quantitativas geralmente apresentam conclusões interessantes também na Comunicação Social. Responder com números a uma pergunta pode ser uma forma interessante para se confirmar determinada teoria. Mas nem sempre apenas os números são suficientes. O noticiário esportivo tem chamado a atenção pelo espaço dedicado a assuntos que extrapolam o campo e a bola. Minha hipótese é que, proporcionalmente, a quantidade dessas notícias nunca foi tão grande.

Fala-se cada vez mais de eleições em clubes e federações, escândalos políticos, impactos econômicos do esporte, racismo… Além disso, a proximidade com a Copa do Mundo tornou as editoria de esporte um prolongamento das editorias de Economia e Política. Os assuntos se entrelaçam principalmente em função do fato do Brasil ser o país sede, a bola da vez.

As editorias de esporte se viram obrigadas a cobrir assuntos que não eram rotineiros e, talvez por isso, em boa parte das vezes não estivessem preparadas. Se antes os números que ocupavam as manchetes se referiam aos enfadonhos esquemas táticos, agora eles se referem às cifras empregadas em obras para o campeonato da Fifa. O entrevistado era o jovem jogador de futebol recém revelado por um grande clube, que tinha muita dificuldade com as palavras. Agora, quem está do outro lado do microfone é o político experiente e sempre pronto para encontrar a melhor resposta.

Esse deslocamento obriga uma mudança do perfil do profissional. Aquele jornalista que só enxergava a realidade das quatro linhas, agora precisa ter conhecimento para falar das obras da mobilidade urbana necessárias para melhorar o acesso ao estádio. Isso exige uma alteração no olhar e também um investimento para conhecer assuntos que tradicionalmente não eram (ou apenas em menor quantidade) discutidos pelos cadernos esportivos.

Obviamente essa guinada pode provocar distorções. Afinal, toda apuração exige tempo e um conhecimento mínimo sobre o assunto. É comum ver jornalistas esportivos se arriscando e opinando sobre outros temas. Sem ter o domínio completo, eles cometem erros ao veicular a informação final. Muitas vezes, não se trata de falha na apuração, mas sim da falta de compreensão do assunto. Não se aprende a traduzir informações complexas do mercado financeiro da noite para o dia.

Para alguns talvez nem seja obrigação do noticiário esportivo cobrir essas áreas mais complexas. Acreditam que falar de esporte é apenas tratar o universo que envolve os jogos e as disputas, deixando as discussões sobre o que rodeia as pelejas para outros departamentos. Não acredito que seja esse o melhor caminho, principalmente porque tudo se relaciona de forma muito íntima. Ou você acha que as atuações do Neymar não são influenciadas pela descoberta do escândalo financeiro que envolveu sua transferência?

Os jornalistas precisam se aprofundar para conseguir estabelecer essas conexões sem cometer tantos erros. Mais do que isso, é preciso identificar se o leitor ainda está interessado em notícias exclusivamente “esportivas” ou se essa barreira também já caiu e estamos falando de tudo ao mesmo tempo. Esporte, economia, política e cultura talvez não precisem mais ficar em páginas diferentes.

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