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Foquemos o juiz de futebol: o FDP que fora do campo tem outro nome.

Recentemente escrevemos sobre os juízes de futebol, (Sobre os Juízes do futebol; competência, imparcialidade e influência) motivados por Luiz Rohden, Marco Antonio Azevedo e Celso Cândido de Azambuja que bancaram o desafio de produzir um livro sobre Filosofia e Futebol: troca de passes, publicado pela editora Sulina (2012). Devo reconhecer que meu interesse sobre os juízes de futebol surgiu em um seminário organizado pelo programa de Pós-graduação em Educação Física da UFRGS. Houve na oportunidade uma interessante exposição de um orientando de Marco P.  Stigger, cujo nome se apagou em minha memória, e que sugeria o tema do árbitro e da arbitragem como central para, desde ele, pensar aspectos da sociedade e da cultura.

No artigo mencionado acima, tentamos colocar como centro teórico a ambivalência da influência: todos tentam influenciar o árbitro (dinheiro, ameaças, promessas, insultos e ataques diretos de dirigentes e torcedores entre outras técnicas não muito éticas ou pelo menos distante do modelo de ação comunicativa proposto por Habermas e que teve ampla repercussão no campo da comunicação) e todos reclamam da influência, vista como negativa, sobre o mesmo. Desde a filosofia grega se entende que o animal político resulta do convívio na politeia ou na cidade. Contudo, em algum momento, ou em vários, surgiu a ideia, por certo revolucionária, do dever de “pensar por si mesmo”. Passamos a entender que a autonomia do pensar e do agir era um valor central na construção da modernidade e no processo emancipador. Isto nos levou a uma espécie de contradição central: somos resultados da influência social ou socialização e ao dever agir com autonomia. De fato, o valor interiorizado da autonomia também poderia ser entendido como produto da influência de um tipo específico de socialização. No fundo, estamos diante de um paradoxo semelhante àquele que obriga coagir os homens para que sejam livres ou de pensarmos que a representação da sociedade como interação de indivíduos é um produto da própria sociedade, de suas representações coletivas.

Deixando nosso problema teórico de lado, temos que reconhecer que a televisão passou a tornar um juiz de futebol, Juarez Gomes da Silva, interpretado por Evair de Souza, personagem central da série FDP, produzida no Brasil, a partir do ano passado, e gerida pela HBOMAX. O juiz Juarez, de linhagem paulista e popular, enfrenta desde os problemas familiares até as coações e demandas enquanto profissional do apito nos episódios do seriado, dirigidos por quatro diretores.

No domingo 6 de janeiro, a Folha de São Paulo, caderno Ilustríssima, páginas 4 e 5, publicou um conto de futebol, Uma questão moral, escrito por Cristovão Tezza e ilustrado por Marcelo Comparini. No belo conto de Tezza, a história pessoal do árbitro se entremeia, no fluxo da consciência, durante um especial jogo de futebol, com seu papel profissional. Não contarei o conto que deve ser lido.

Interessa destacar que a figura social do juiz de futebol deveria se tornar em centro de reflexões densas e de produção de evidências. Eu diria que poderia ser quase uma linha de pesquisa de uma pós-graduação. Eu diria que a mídia, televisão e jornal, e o mundo acadêmico se estão voltando para o FDP, esse ser que fora do campo tem outro nome, como se diz no site da HBO. Espero que alguém comece a enfrentar o desafio de entendermos um papel central para o desenvolvimento natural do jogo de futebol e que, ao mesmo tempo, é centro de acusações de responsabilidade sobre os resultados adversos.

*Já publicamos previamente outro post sobre a série FDP. Confira aqui.

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