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No Engenhão sem Bourdieu ou Maffesoli[1]

No dia 22 de novembro este espaço foi dedicado a um texto do meu polêmico amigo Carmelo (tão polêmico que até descobrir seu sobrenome não é tarefa fácil). Ele narrou como foi traumático assistir a um jogo do seu time no Estádio Olímpico João Havelange – reforço a indignação dele sobre a homenagem a um senhor que acaba de admitir que recebeu propina. Para Carmelo não vale a pena andar até o estádio, ser praticamente coagido a comprar ingresso de um cambista e ter que se espremer entre milhares de pessoas. Mas, pior que isso, é precisar abandonar o conforto do sofá e a facilidade dos replays da transmissão televisiva. Carmelo se diz tubista, mas desconfio que ele já tenha trocado o velho tubo por uma tecnologia mais moderna. Quem gosta tanto de futebol na TV “precisa” de um aparelho que o permita acompanhar as partidas em alta definição.

O texto me obrigou a refletir sobre o motivo dos nossos estádios andarem tão vazios. A média de público do último Campeonato Brasileiro foi de 14.976 torcedores por jogo. A comparação com as principais ligas da Europa não faz mais sentido. Todas elas tem médias superiores a 40 mil pessoas. Sendo que os principais times da Espanha, Alemanha e Inglaterra levam, pelo menos, 75 mil torcedores por partida. Já fomos, inclusive, ultrapassados pela Major League Soccer (MLS). A “poderosa” liga norte-americana terminou a temporada de 2011 com incríveis 17.872 de média de assistência.

Vendo os números, é inevitável compactuar com o tom apocalíptico de Carmelo. Trata-se de uma “prova inequívoca de incapacidade gerencial” de quem comanda o futebol brasileiro. Mesmo no estádio mais moderno do Brasil é difícil chegar, comprar ingresso, ir ao banheiro… Ao mesmo tempo em que a há pessoas que gostariam de acompanhar seu time favorito e não conseguem, há também os que já abriram mão desta possibilidade de forma definitiva e se tornaram torcedores de poltrona.

Carmelo já apresentou as razões para ficar em casa. Pretendo ressaltar as emoções de ir ao estádio. Meu adversário citou a dramaticidade de Nelson Rodrigues que valorizava a simples travessia da Baía de Guanabara para assistir aos jogos do Fluminense em Niterói. Grande coisa! Todos conhecemos torcedores que fazem loucuras verdadeiras pelos seus times e não se arrependem. Mesmo após uma derrota. Porque fazemos isso? Não sei. Como explicar? Certamente Pierre Bourdieu ou Michel Maffesoli podem te confundir sobre o assunto. Mas não serão uteis na narrativa que se seguirá.

O fato é que eu decidi ir ver meu time nas últimas duas rodadas do Campeonato Brasileiro. Dois clássicos contra rivais locais que poderiam dar o título a minha equipe, caso vencesse ambos e o adversário paulista tropeçasse ao menos uma vez. Missão improvável. Um convite ao sofá. Mas para explicar o motivo de ter ido ao jogos, preciso me apresentar.

Sempre fui um torcedor fanático pelo meu time. Derrotas seguidas para o rival ou escassez de vitórias nunca me desanimaram. No entanto, com o pouco tempo de experiência profissional como jornalista somado ao início da caminhada na área acadêmica, percebi que havia me tornando um chato. Ofender o juiz passou a ser coisa de quem não consegue ter distanciamento. Reclamar das mancadas do meu time durante uma partida só era permitido após uma análise criteriosa. A todo momento, eu precisava reconhecer a grandeza e o valor do meu nobre adversário. Acredito que o leitor agora entenda o motivo de eu poder ser considerado um chato.

Resolvi voltar a me divertir com o futebol. Brincar com os rivais, torcer com fervor, gritar, xingar e balançar minha bandeira. Aceitar as gozações e sofrer com as eventuais derrotas estão no pacote. A independência eu levo apenas para as atividades profissionais ou trabalhos acadêmicos.

Vamos então ao Engenhão. Diferente do Carmelo, que sofreu para comprar ingresso, eu tive mais sorte. Bem mais. Me informei sobre a hora exata em que iriam começar as vendas dos ingressos pela internet. Às 10h da manhã eu já estava cadastrado no site de vendas e pronto para efetuar as compras. Nas duas oportunidades (dias diferentes para cada um dos dois jogos), entrei no site e selecionei o ingresso para o setor que eu desejava. Comprei usando o cartão de crédito que foi o único documento necessário para a minha entrada no estádio. Ao me deparar com a catraca precisei apenas passar o meu próprio cartão e a entrada foi liberada, após a emissão de um comprovante. Fiquei espantado com a eficiência o que só aumentou minha repulsa pelo fato do sistema não ser mais utilizado (apenas 30% da carga de ingressos é disponibilizada pela internet e, em ambos os casos, se esgotaram em menos de meia-hora).

Mas antes de chegar até a roleta, há o desafio de achar o estádio. Estacionar o carro a alguns quilômetros foi uma dica unânime. Após uma caminhada por ruas estreitas onde o clima de tensão pelas constantes brigas de torcida era flagrante, chegamos ao estádio. Uma pausa para a última cerveja e vamos para o jogo. Como lembrou Carmelo, já há algum tempo não se vende bebida alcoólica dentro dos estádios. Sempre achei uma grande besteira esta proibição, mas as estatísticas sobre a redução de tumultos após a mudança, me provam o contrário.

Uma vez dentro, era preciso me ajeitar. Nada de achar um lugar vazio. O ideal é ficar onde a torcida estiver mais vibrante. E de pé. A tensão me impede de sentar. Gritos, gols, vaias… e o mundo lá fora parado. Ópio das massas? Claro que não. Mas o fato é que há vários momentos da vida em que faço questão de não pensar em mais nada. Esquecer o que é relevante e tornar o instante fundamental. Aliás, gostaria até de ter mais oportunidades de viver esses momentos.

Demora para sair do estádio, banheiro com mau cheiro, comida ruim e num preço inaceitável. Tudo isso é preciso e possível melhorar. Não podemos fechar os olhos para o que há de errado. Mas existe algo maior quando se fala em futebol. E, seja lá o que for, eu não quero deixar esquecido no sofá.

O time do Carmelo venceu e ele garante que na próxima ficará em casa. O meu empatou e não foi campeão. Mas garanto, da próxima vez estarei lá novamente.

[1] Não sabe quem são? Pesquise. Mas evite o Google.

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8 comentários em “No Engenhão sem Bourdieu ou Maffesoli[1]

  1. Excelente texto, João. Vc só esqueceu de falar que pela internet só é possível comprar ingresso “inteiro” (não há meia-entrada) e que existe uma taxa de conveniência a ser paga. Em Portugal, pelo que sei, a venda por meios digitais não tem nenhum valor a mais embutido.
    E só para incrementar a polêmica: caberia agora uma tréplica do Carmelo, já que, por enquanto, o João está ganhando o “jogo” argumentativo rs

    1. Fausto, eu comprei uma meia-entrada via internet na reta final do Brasileiro sem quaisquer problemas. Já ouvi reclamações a respeito anteriormente, mas encontrei a opção sem grandes dificuldades no site – ao menos no jogo em questão ela estava disponível. Quanto à taxa de conveniência, o caso português é louvável, mas por aqui ela não passa de R$2, salvo engano. O serviço ainda pode – e deve – melhorar bastante, mas, na única vez em que o utilizei, não encontrei estorvos e acabei surpreendido de forma positiva.

      1. Nos dias que comprei, realmente não estava disponível meia-entrada. Mas em outros jogos, já vi essa possibilidade. A taxa foi de R$5 e realmente é questionável. Mas é, no mínimo, o preço de duas conduções que eu precisaria pegar para comprar o ingresso. É evidente que o serviço tem que melhorar, mas já temos um avanço.

  2. Não entro em polêmicas, pois já sou uma polêmica ambulante. Gostei do texto, principalmente por ficar explícito que foi inspirado no meu escrito e por instigar o debate sobre o acesso ao entretenimento esportivo no Brasil: caro, complicado e assustador (como o próprio autor acima reconhece: “Após uma caminhada por ruas estreitas onde o clima de tensão pelas constantes brigas de torcida era flagrante,”).
    Então é mais fácil usar os modernos meios de pagamento para ver o seu time jogar? que pena que eu não uso o tal dinheiro de plástico. E nem a rede mundial de computadores com finalidades financeiras… apenas para troca de experiências, como aqui neste e em outros espaços virtuais. Isso é o que me atrai no meio virtual… sua capacidade de superar as distâncias físicas e conectar idéias.
    Muitos (eu diria que a maior parte dos pobres torcedores) também não têm cartão de crédito nem usam computadores.
    Mas as autoridades esportivas não devem saber disso. Não conhecem ainda o perfil dos torcedores. E o Pague-Pra-Ver? vamos continuar tendo que comprar o campeonato todo só pra assistir aos 19 jogos que nos interessam?

  3. Pouco entendo sobre os percalços de uma ida ao estádio. Duas partidas da seleção brasileira foram suficientes para compreender a sensação do “estar-junto”. Também não sou adepta aos jogos na TV. A não ser, é claro, que seja a final e meu time esteja jogando. Mas, por incrível que pareça, acompanho futebol. Primeiro, por que seria impossível não acompanhar; mesmo quando resistimos, os vizinhos nos lembram dos resultados. Os gritos de gol, chup@, uhhhhhh!!! associados aos nomes dos times simulam as emoções de uma partida. Discussões travadas entre prédios tornam-se, no mínimo, intrigantes (Ihhh, foi Gol, xiiii…. O vizinho do nono gritou…. Eita, lá vem a resposta do sétimo…..E agora?). Mas, além da discussão “de rua”, outro meio tornou-se palco para as manifestações: o facebook. Jogo é descrito pelos próprios usuários – nada parciais, óbvio. Talvez, menos emocionante (dirão uns), mas para aqueles que participam das acirradas discussões online, atualizadas a cada lance, com repercussão pública e possibilidades de adesões positivas ou reações contrárias, me pergunto: seriam mesmos menos emocionantes? Bom para pensar…. Nem no estádio, nem pela tv. Uma terceira via – que não compete com as demais, complementa a torcida e a forma de estar-junto.

    Ahhh….e para contribuir… Já que o assunto passa por cartão de crédito, vamos aos números: de acordo com recente estudo publicado pela Visa, 80% das pessoas da Classe C que foram entrevistadas contam com algum serviço bancário e a penetração do cartão de crédito chegou a 51%. (Se depender das empresas de tecnologia de pagamento esse número ainda cresce -e muito. Estimular o uso dos meios de pagamento eletrônicos via o futebol não seria uma estratégia a ser descartada, logo, não seria surpresa se em breve todos os ingressos tivessem que ser comprados pelo dinheiro plástico – estas empresas não são grandes patrocinadoras do evento?).

  4. Vivi, obrigado pelas considerações. Acho que o estudo das reações exageradas dos torcedores nas redes sociais é algo que realmente precisa ser estudado. Ainda que de maneira superficial, escrevi sobre o assunto aqui no blog (https://comunicacaoeesporte.com/2011/06/14/consideracoes-e-comemoracoes/).

    Interessante os dados sobre o dinheiro de plástico. Também não duvido que o futuro da venda de ingressos passe exclusivamente por eles. Não sei se vai te interessar diretamente, mas também já encarei o estádio de futebol como um espaço de consumo.
    (https://comunicacaoeesporte.files.wordpress.com/2010/10/simposio-museu-do-futebol-estadios-de-futebol-e-espacos-de-consumo.pdf)

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