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Quem foi o primeiro ídolo dos 4 grandes cariocas? Por que os pioneiros do processo da idolatria no futebol são desconhecidos por torcedores, imprensa, dirigentes e pesquisadores?

Garrincha, Zico, Roberto Dinamite e Castilho ou Telê ou Fred. Com a solitária exceção do Fluminense, que não forjou um claro ocupante do ponto mais alto do Olimpo, torcedores dos demais clubes grandes do Rio de Janeiro não têm dúvidas em apontar o maior ídolo da história, respectivamente, de Botafogo, Flamengo e Vasco. Tal reconhecimento é acolhido pela imprensa e, inclusive, pelos fãs dos times adversários. No entanto, se – feita a ressalva à singular situação do Fluminense – inexistem dúvidas sobre o mais importante ídolo histórico dos clubes cariocas, a coisa muda muito de figura se a pergunta tiver como alvo quem foi o primeiro ídolo de cada um.

Tal apagamento não se resume a mera questão esportiva. Ele parece dar pistas importantes sobre a formação, e a retenção, da memória e das identidades na sociedade brasileira. O ídolo histórico reúne, no nosso entendimento, ao menos três características comuns: excelência técnica, conquistas históricas e identificação com o clube. Esta última ajuda a entender por que um mesmo jogador identificado como ídolo numa agremiação não merece o mesmo reconhecimento em outra, ainda que, nesta, possa ter atuado tão ou mais tempo e cumprido papel relevante.

Garrincha: ídolo histórico
Fonte: ebiografia

E como explicar que os mesmos torcedores que, em sua grande maioria, sequer viram seus ídolos históricos atuar garantirem um continuum à idolatria de gerações precedentes e incorporarem aqueles aos pavilhões que constituem a memória coletiva afetiva dos estádios, mas não terem pálida noção dos ídolos inaugurais dos seus clubes? Que pistas essa amnésia coletiva pode nos dar sobre como foi constituído incialmente o futebol no Brasil? Seria a origem aristocrática dos primeiros sportmen e do próprio futebol razão suficiente para esse apagamento? Mas não foi justamente o espetáculo inicial proporcionado por aqueles sujeitos que inspirou milhares de outros atores sociais excluídos dos clubes e das arquibancadas pelos valores elevados das mensalidades e dos preços dos ingressos a observarem, apreenderem e se apropriarem da novidade que se desenvolvia nos gramados?

Ainda que tenha tido seus sentidos ressignificados por esses outros sujeitos, a inspiração inicial para que os cariocas lotassem estádios e quaisquer lugares acessíveis ao redor deles vinha das façanhas dos primeiros jogadores dos clubes. Então, por que temos escasso material empírico, inclusive entre pesquisadores da área, que nos permita avançar para além das subjetividades? Foi para tentar responder essas complexas questões que iniciamos a nossa pesquisa “O primeiro ídolo”, o trabalho inaugural do Grupo de Pesquisa Esportes, Ídolos E Identidades (GEII), coordenado por mim, e integrado por um aguerrido e dedicado grupo de alunos da graduação do Departamento de Jornalismo da Uerj.

Como recorte, escolhemos o período que vai de 1900, poucos anos antes da criação de Fluminense e Botafogo, respectivamente, em 1902 e 1904, e seis anos antes do primeiro Campeonato Carioca, em 1906, até 1932, última edição antes da instituição do profissionalismo no Brasil. Como o quarteto não teve origem simultânea, o período inicial captura a historiografia de Botafogo e Fluminense, além de revisitar, em suas linhas mais gerais, o ambiente do país pré-surgimento do futebol por aqui. Para acompanhar a do Flamengo, o intervalo inicia-se em 1915, quando dissidentes do Fluminense fundam o Departamento de Futebol rubro-negro; enquanto a do Vasco foi escrutinada a partir de 1923, quando, ao tornar-se campeão da segunda divisão, o clube conquista o direito de participar, pela primeira vez, da primeira divisão, amplificando as luzes da imprensa sobre a agremiação, que, até então, recebia escassa cobertura jornalística.

A principal fonte foram jornais da época, que foram submetidos à análise crítica, considerando particularmente o quadro socioeconômico e cultural do início do século XX. Também recorreremos a material dos arquivos dos clubes e, complementarmente, a entrevistas com historiadores das quatro agremiações. Embora a pesquisa ainda esteja em desenvolvimento, o material já coletado indica algumas pistas e sinaliza para duas hipóteses iniciais não necessariamente excludentes.

A primeira está ligada à má memória nacional de um país de cultura imediatista e a histórica, em que, não raro, os fenômenos sociais, dentro e fora do futebol, são tratados aos saltos, sem que os sujeitos consigam identificar continuidade entre eles e/ou espaços dialógicos. Essa hipótese, a ser confirmada ou não pelo avanço da análise do material empírico e à luz da leitura crítica, pode explicar porque ídolos iniciais que deram contribuição decisiva para os primeiros pontapés que transformaram o futebol em parte integrante da identidade nacional não são identificados por torcedores, dirigentes e o jornalismo esportivo contemporâneos como ícones fundadores dessa paixão.

A segunda hipótese, também a ser confirmada ou não pela continuidade do trabalho, parece insinuar, pela análise do material empírico já acessado, que, por ser encarado inicialmente mais como entretenimento do que como esporte pelos sportmen pioneiros, tal condição desfavoreceria a condição de idolatria. Ressalve-se que essa percepção não impediu que alguns jogadores em especial, como Mimi Sodré (Botafogo), Kunz (Flamengo), Marcos Carneiro (Fluminense) e Nelson (Vasco), merecessem maior ênfase na cobertura da imprensa, e admiração dos torcedores do período pré-profissionalismo.

Os quatro, porém, não foram os únicos a serem menções mais enfáticas da imprensa, por isso, por enquanto, não nos sentimos autorizados a identificá-los como os primeiros ídolos do quarteto dos grandes clubes cariocas. Será preciso avançarmos mais para reduzirmos nossas incertezas.

Compartilhamos o entendimento de que, em analogia com o processo do percurso do herói, como acompanhado por Campbell, ídolos, também, precisam passar por um processo de decantação que permita que sua condição se cristalize para muito além das conquistas observadas por seus contemporâneos. Ao menos três características comuns são necessárias para que a subida ao Olimpo dos deuses do futebol seja alcançada e lá permaneçam: excelência técnica, conquistas históricas e identificação com o clube.

Nesse sentido, é preciso verificar, se, ao fim da pesquisa, os nomes aqui mencionados sustentam a condição que a cobertura contemporânea da imprensa parece insinuar até aqui. Ou se, em sequência, outros jogadores do período pré-profissional os suplantam na idolatria inaugural, assim como jogadores que pareciam destinados a serem os ídolos históricos foram substituídos por outros capazes de façanhas percebidas como mais elevadas e alcançaram uma identificação mais profunda com as suas agremiações.

Umas das pré-condições alçadas pelos primeiros ídolos já confirmada pelo material coletado foi contribuírem para que o nascente futebol brasileiro se sobrepusesse ao remo e ao turfe, amplamente dominantes na cobertura do início do século passado nas páginas dedicadas aos esportes pelos jornais da época. Vista em perspectiva, essa comparação parece não fazer sentido, tal a hegemonia avassaladora do futebol masculino na cobertura esportiva em todas as plataformas já há longas décadas.

No entanto, na origem, a atenção dedicada pela imprensa nacional ao futebol limitava-se a mero registro dos resultados das partidas ou, no máximo, da súmula com as escalações e os autores dos gols. E, sempre, em espaços secundários em comparação aos outros dois esportes, então, favoritos dos brasileiros. Foi justamente a relação construída com os ídolos pelos torcedores, incluindo as extensas camadas populares excluídas dos estádios pelo valor elevado do preço dos ingressos, que foi indicando à imprensa que o novo esporte devia merecer cobertura mais nobre se os donos dos veículos quisessem atrair a atenção dos leitores aficionados em esportes.

Os ídolos pioneiros tiveram papel-chave nessa constituição dos primeiros torcedores, ainda que, já na origem, houvesse diferentes apropriações e ressignificações no modo torcedor. Identificar e tentar constituir padrões metodológicos e analíticos são as próximas metas da pesquisa à medida que nos aproximamos do período limite previamente fixado: o fim – ainda que formal – do período do amadorismo. Nosso trabalho detém-se, assim, em 1932, por considerarmos que, ainda que passível de releituras e aportes de material empírico inédito, o período do profissionalismo é bem mais coberto pelas pesquisas do campo e pela imprensa do que a fase sobre a qual nos debruçamos.

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