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Competições olímpicas de arte e a história das mulheres no esporte

A trajetória das mulheres no esporte durante algum tempo foi contada a partir da ênfase naquilo que não foi ou naquilo que poderia ter sido. Trata-se de uma perspectiva importante e justa que chamou a atenção para o longo silêncio sobre uma parte importante da história do esporte. Essa parte cabe às mulheres e ela é composta de inúmeros eventos e ações que precisam ser trazidos à cena, montando assim um quadro não de lacunas somente, mas de atos e gestos movidos por esforços solitários e coletivos. Esforços que possuem laços com diferentes esferas da cultura e da sociedade, entre as quais a arte.

Diversas foram as vezes em que o esporte foi artisticamente representado. As vanguardas europeias são um exemplo dessa aproximação. A ânsia por tematizar o frenesi da modernidade e seus ícones – entre os quais o esporte – moveu a tinta de artistas futuristas como Giacomo Balla, Umberto Boccioni e Carlo Carrà[1].

Porém, uma das mais fortes demonstrações da relação entre arte e esporte está nas Olympic Art Competitions (Competições Olímpicas de Arte) quase esquecidas hoje em dia, mas que já fizeram parte do programa dos Jogos Olímpicos. Essas competições começaram oficialmente, em 1912, nos Jogos de Estocolmo e terminaram em 1948, em Londres. Elas surgiram da vontade de Pierre Coubertin de relacionar esporte, arte e literatura, pois essa união representaria o que Coubertin considerava como a verdadeira essência dos Jogos Olímpicos, do modo como acreditava terem sido concebidos na Antiguidade.

Essas disputas artísticas foram um momento importante para as mulheres no esporte. Em 1928, o mexicano Ángel Zárraga levou para as competições seus quadros La Futebolista Rubia e La Futebolista Morena nos quais são retratadas jogadoras de futebol parisienses que atuavam nos gramados franceses em uma época considerada como a “idade de ouro” do futebol feminino[2].

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La futebolista morena, obra pintada, em 1926, por Ángel Zárraga e inscrita nas Competições Olímpicas de arte de 1928

Porém, as mulheres, também, se destacaram como artistas. E várias delas conseguiram medalhas.

Competições Olímpicas de arte e as mulheres

Pelo menos desde a metade dos anos de 1910, Pierre Coubertin não mediu esforços para a organização de uma conferência consultiva que visava convencer o Comitê Olímpico Internacional sobre a necessidade de se integrar ao Jogos, manifestações que fossem além dos esportes e abarcassem as artes. Richard Stanton, em seu livro The forgotten Olympic Art Competitions, nos mostra o empenho de Coubertin em convidar importantes artistas da época para comporem a conferência, enviando-lhes cartas individuais.

Em 1906, na abertura desse evento, Coubertin fez a leitura intitulada “A Grand Merriage” na qual enfatiza a necessidade de unir músculo e mente[3]. Seu esforço gerou resultado:

A conferência aprovou por unanimidade a ideia de instituir cinco concursos, arquitetura, escultura, pintura, literatura e música, que se juntarão a seguir as Olimpíadas e farão parte delas com o mesmo status das provas atléticas. Os trabalhos apresentados devem ser inspirados na ideia do esporte ou referir-se diretamente ao esporte. Eles seriam examinados por um júri internacional. As obras vencedoras seriam, na medida do possível, exibidas, publicadas ou executadas (como se fossem pictóricas, arquitetônicas, escultóricas ou literárias, ou finalmente, musicais ou dramáticas) ao longo dos Jogos. (tradução minha) [4]

Após alguns percalços, finalmente nos Jogos Olímpicos de Estocolmo, em 1912, as competições artísticas foram oficializadas. As principais categorias incluíam Arquitetura, Escultura, Pintura, Música e Literatura[5] tendo sua organização orientada pela nacionalidade. Assim como nos jogos esportivos, as premiações se dividiam em medalhas de ouro, prata e bronze. Em 36 anos foram concedidas 147 medalhas, sendo no total 24 para a Alemanha, 14 para Itália e 13 para a França.

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Competições Olímpicas de arte, 1932, Los Angeles. Júri observando as obras. Fonte: Olympic Museum

O único representante de destaque da América do Sul foi o Uruguai que obteve uma menção honrosa, em 1948, na categoria literatura, prêmio obtido por Clotilde Luisi, uma advogada, escritora e militante do direito das mulheres[6].

Várias foram as mulheres que participaram das Competições Olímpicas de Arte e que ganharam medalha como é o caso da escultora alemã Renée Sintenis que, em 1928, recebeu prata pela obra Footballeur. René era uma mulher que chamava atenção em sua época por seu estilo andrógino e por uma vida pública agitada, sendo com frequência vista em eventos esportivos ou dirigindo carros pelas ruas de Berlim.

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Footballeur, 1928, Renée Sintenis, medalha de bronze. Fonte: Playing Pasts

Outro destaque pode ser dado a Laura Knight que, em 1913, impactou a crítica e o público com seu Self-portrait with nude (Autorretrato com nu). Essa composição mostra uma cena ambientada em um estúdio no qual aparece Knight – vestida – em frente a uma tela em que pinta a modelo nua, Ella Naper.  Ao lado de Laura podemos ver um espelho refletindo o corpo real dessa modelo que posava para a artista. É uma pintura complexa que ao duplicar a imagem, atinge três planos de representação feminina: pintora, modelo e figuração.

Vale lembrar que no período de formação artística de Laura Knight, nas escolas de arte, era desaconselhado e até mesmo vedado que mulheres pintassem diretamente modelos nus, tendo que se limitar a trabalhar a partir de moldes ou copiar desenhos preexistentes. O quadro Autorretrato com nu, em grande medida, pode ser interpretado como uma provocação a essa sanção sofrida pela própria artista.

Knight foi alvo de críticas negativas de quem a considerou imoral e com uma postura considerada como incompatível com uma mulher. Entretanto com o passar do tempo, sua técnica que conjugava realismo e traços de impressionismo, a tornaram um dos principais nomes das artes plásticas da Inglaterra em sua época.  Uma artista muito popular, também, devido às suas pinturas sobre o cotidiano do circo. Laura Knight, em 1936, tornou-se a primeira mulher eleita para membro efetivo da Royal Academy desde sua fundação.

Antes disso, em 1928, Laura Knight foi medalhista das Competições Olímpicas de Arte ganhando a prata com a pintura Bouxeurs. Essa modalidade esportiva, aliás, já havia recebido atenção da artista em obras anteriores como é o caso de Physical Training at Witley Camp (1918), inspirada em cenas presenciadas pela própria artista no campo de treinamento militar Witley, onde soldados canadenses, francês e Belgas se preparavam para a primeira guerra mundial. Desde, então, a pintora costumava representar o boxe em suas produções como é o caso de Youngsters at the ring, Blackfriars (1937). Ainda em relação à temática esportiva, a artista fez o famoso cartaz Rugby at Twickenham by Tram, em 1921.

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Boxeurs, Medalha de prata, Competições Olímpicas de Arte 1932. Fonte: Olympic Museum
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Physical Training at Witley Camp (1918), Laura Knight. Fonte: Allpainter
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Youngsters at the ring, Blackfriars (1937), Laura Knight. Fonte: Artnet
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Rugby at Twickenham by Tram, cartaz feito por Laura Knight
Fonte: London Transport Museum

Agora é a vez de falar de Ruth Miller, nascida em Chicago, em 1904, filha de uma família abastada e conservadora da qual tentou desvencilhar-se e ir em busca de mais liberdade. Ruth chegou a fingir um colapso nervoso para não ser matriculada no tradicional Vassar College. Viajou para a Europa, casou-se sem autorização dos pais e estudou artes plásticas durante a efervescência das vanguardas europeias. Provavelmente desse contato surgiram os traços surrealistas que acompanham muitas de suas obras.

Já de volta aos Estados Unidos, em 1932, nos Jogos de Los Angeles, Ruth ganhou a medalha de prata nas competições artísticas com a interessantíssima pintura The Struggle, em que é possível observarmos dois homens, um negro e um branco, cuja luta corpórea pode ser interpretada como uma alusão ao embate racial comum à sociedade americana da época.

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Ruth Miller Kempster, The Struggle, Medalha de prata. Competições Olímpicas de Arte de 1932.
Fonte.: http://lacmaonfire.blogspot.com/

A pintora não deixou de lançar um olhar crítico também sobre os padrões femininos de sua época, como ocorre na bela e provocativa obra Housewife, de 1935. Nela, a partir da técnica de enquadramento usada, nos é passada uma forte impressão do enclausuramento do cotidiano doméstico das mulheres.

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Housewife, 1935, Ruth Miller Kempster. Fonte: Los Angeles Times.

As pintoras aqui mencionadas, de algum modo, deram mostras tanto na arte quanto em suas vidas de que havia espaços mais amplos a serem ocupados pelas mulheres na sociedade. E esse é um dos motivos que norteou a escolha delas para compor este texto. Além desse aspecto, o destaque dessas artistas, nesta postagem, também se justifica pela maior quantidade de informações acessíveis sobre suas carreiras e as obras que as levaram a ser premiadas nas Competições Olímpicas de Arte.

Foram 148 mulheres artistas que concorreram nessa disputa, sendo que 10 ganharam medalhas e cinco conseguiram menção honrosa. São números que dão mostras de uma participação exitosa. Desde a primeira edição oficial, em 1912, foi permitida a presença de mulheres, o que dá mostras de que pelo menos nas competições artísticas dos Jogos, essa questão não foi um problema. Nas regras das Competições Olímpicas de Arte não há passagens que façam alusão a regulações específicas em relação a artistas mulheres, assim como não se encontrava menção à sua exclusão das competições[7].

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Quadro de medalhistas mulheres nas Competições Olímpicas de Arte nas Fonte.: Natalia Camps Y Wilant. A Female Medallist at the 1928 Olympic Art Competitions: The Sculptress Renée Sintenis. The International Journal of the History of Sport. Volume 33, 2016

Tudo bem diferente do que ocorria com os Jogos Olímpicos esportivos cuja presença feminina foi algo contra o qual o próprio Barão de Coubertin manifestou-se explicitamente diversas vezes. Essa e outras oposições dificultaram sobremaneira a participação de mulheres atletas, mas como já disse, no início desta postagem, a trajetória das mulheres no esporte é fascinante devido ao seu caráter alternativo e em certa medida desobediente.

Afinal enquanto Barão de Coubertin dizia não, a francesa Alice Milliat, criou, e depois dirigiu, a Fédération Sportive Féminine Internationale (F.S.F.I.). Essa instituição durou 15 anos – (1921-1936) – e no decorrer desse esse tempo foi responsável pela organização de quatro edições dos Jogos Olímpicos Femininos.

Mas esse é tema para a próxima postagem.

[1] Sobre a relação arte e esporte há livros e artigos de Victor Andrade de Melo que podem ser consultados

[2] Uso a expressão de Xavier BREUIL no seu Histoire du football féminin en Europe. Paris.: Nouveau Monde Editions, 2011

[3] “to reunite a long-divorced couple – Muscle and Mind”, assim consta no discurso original que pode ser lido no livro de Richard Stanton The forgotten Olympic Art Competitions

[4] Pérez-Aragón, P. y Gallardo-Pérez, J. (2017). Coubertin and the Artistic Competitions in the Modern Olympic Games. Revista Internacional de Medicina y Ciencias de la Actividad Física y el Deporte vol. 17 (68) p.633-649.

[5] Com o tempo outras subdivisões foram acrescentadas

[6] Clotildi Luisi foi uma artista atuante no cenário político da América Latina saindo em defesa de ideias anti-imperialistas. Ela foi amiga de Alfonso Reys, poeta e diplomata Mexicano, com quem manteve intercâmbio intelectual frequente. Sobre a atuação de Luisi ver Mariana Moraes Medina. Crónica de una efusión: Alfonso Reyes, Luisa Luisi y el Comité Uruguay-México. Revista de Historia de América núm. 156, 2019.

[7] Ver  Natalia Camps Y Wilant. A Female Medallist at the 1928 Olympic Art Competitions: The Sculptress Renée Sintenis. The International Journal of the History of Sport. Volume 33, 2016 – Issue 13: Special Issue: Women and Sport

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Para não dizer que não falei de futebol: menos cem mil torcedores

Por Antonio Jorge Gonçalves Soares*

Roberto DaMatta demonstrou que o futebol como drama permite ler nossas tramas e dilemas culturais, nossa moralidade, nosso autoritarismo, nossa camaradagem, nossos valores não- igualitários e, ao mesmo tempo, esse esporte fornece uma das poucas experiências na qual a regra vale para todos. O futebol se tornou uma instituição nacional. O futebol é tão brasileiro quanto “Deus”. Ele se tornou um elemento simbólico, uma espécie de gramática popular que permite falar, debater e brigar, até certo ponto, sempre até certo ponto, sobre os temas sociais e políticos. Pois, quando o debate chega à certa fervura, surge o velho ditado popular que “futebol, política ou religião não se discute!”. Essa é mais uma expressão que revela nossa moralidade política, pois tal adágio surge nos momentos de divergência e conflito pela turma “do deixa disso”, isto é, “deixa como está e nada se resolve”. Essa não-resolução, esse “empurrar com a barriga”, é a forma de abolição de consensos civilizados e provisórios, como exigiria a moralidade numa cultura democrática.

Conflito aqui não é visto como espaço de debate que produz acordos, conflito aqui é motivo de ruptura, de ressentimento, de exclusão ou de desejo da morte do “outro”. Somos a democracia do Flamengo e Vasco, do Fla-Flu, do Corinthians e Palmeiras, só a vitória importa! O vice no futebol é o “primeiro dos últimos”. Na política é o inútil que não tinha capital simbólico para se tornar presidente. O empate é sempre algo não desejado. Aqui o “tudo ou nada” é a regra que anima espíritos e mentes da democracia brasileira e do nosso futebol. Ao derrotado, resta a humilhação e o ritual de luto, não importa a luta. Todavia, o futebol também permite um “flash de espírito democrático”, pois pode haver alternância de poder: no próximo jogo (ou campeonato), a derrota pode ser transformada em vitória. Quando isso acontece, a chance do escárnio é revertida, pois, como diria Chico Buarque, “Quando chegar o momento; Esse meu sofrimento; Vou cobrar com juros”. No campeonato da política, aqueles que pareciam ter ido para a quarta divisão, entraram em campo na primeira liga como azarões, ganharam e estão cobrando com juros os poucos avanços dados na direção de um estado de proteção social.

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Aqui, os vitoriosos são venerados mesmo por aqueles que não partilharam os ganhos reais da vitória e nem das rachadinhas. O vitorioso apenas divide a glória simbólica com os personagens figurantes que estiveram ao seu lado no jogo das eleições. Já cansei de ouvir nas rodas populares a seguinte sentença: “Meus candidatos foram campeões, não adianta chorar”. A política aqui difere um pouco do futebol, pois o torcedor é ensinado a ser Flamengo ou qualquer outro time desde pequeno, às vezes ainda no berço. Infelizmente, o interesse pela política não recebe o mesmo tratamento socializatório em nossas terras. Com isso, o debate da política se transforma numa contenda de futebol apenas durante as partidas eleitorais. Depois, a vida volta ao normal e ninguém quer saber de política; afinal, isso “não se deve discutir isso nessas paragens”, não é? Se o debate não existe, as torcidas continuam ativas nas redes sociais, temos a “Força Jovem Cloroquina” e “Torcida Organizada Antifascista”.

Não é à toa que o protestantismo neopentecostal, com incorporação de elementos mágicos de cura, prosperidade e salvação, se expandiu tanto no Brasil. A gramática do futebol é a mesma da religião. Nisso essas instituições se aproximam. Você está do lado de “Deus ou do diabo?”; “Você quer ser um derrotado ou um vencedor?”. Essas questões, sem dúvida, não subestimam a eficácia simbólica que tais religiões tenham na vida dos indivíduos, até porque a expansão delas tem a ver com a experiência de sucesso individual de parte de seus adeptos. Tais religiões também fornecem uma rede de apoio, dão sentido a vida dessas pessoas e conferem algum nível de dignidade pela existência. Afinal, Deus está olhando por eles e observando seus sacrifícios nessa “vida”. A contrapelo desse sentimento o estado não fornece essa sensação ao cidadão comum.

A expansão do evangelismo mágico-religioso se relaciona com a cultura de desesperança e desproteção que o Estado brasileiro fornece ao cidadão comum. Aqui temos a adjetivação corrente de “cidadão comum”, porque outros são “incomuns”, se tornam “superpessoas” (no sentido damattiano) ou já são de berço escolhidos por “Deus”. Quem nunca ouviu: “Eu dei a sorte de ter nascido numa família rica, que culpa tenho?” Existem outros caminhos, porém, para se tornar uma superpessoa no Brasil. Observe que nosso craque bilionário Neymar e seu pai, saídos do “brejo da cruz”, se tornaram cidadãos incomuns. Não mais pertencem à ralé, podem tratar de suas tramoias de sonegação fiscal diretamente no Palácio do Planalto. Se qualquer um “comum” cair na malha fina do Imposto de Renda não será recebido pelo superministro da economia Paulo Guedes e nem pelo presidente da República. Até porque o “leão” sabe quem vai devorar, quem ele vai mordiscar e quem merece ser adulado; em geral, cidadãos incomuns e o capital financeiro. A naturalização da hierarquia, “cada coisa no seu lugar” e “cada qual com seu cada um “, são expressões da “sorte dos escolhidos”, daqueles que receberam a “bênção de Deus” com o aval do Estado brasileiro.

Lúcio Kowaric** observa que, nos Estados Unidos, os vulneráveis são vistos pelos conservadores e progressistas, respectivamente, como culpados ou não-culpados da própria desgraça que estão submetidos. A critica conservadora indica que o suporte do estado gera preguiça, marginalidade e alimenta o “Welfare dependency”. Na França, independentemente dos setores da direita conservadora ou da esquerda progressista, o Estado francês e a sociedade são vistos como responsáveis por todos os cidadãos e devem fornecer meios de sobrevivência dentro do espírito universalista republicano aos vulneráveis.

Jair Bolsonaro em jogo do Palmeiras
nexojornal.com.br

A questão é: quem deve ser protegido pelo estado? Para direita, apenas os “franceses”, os imigrantes devem ser excluídos e deportados; para a esquerda, todos os vulneráveis que vivem no território merecem políticas de proteção. Enfim, a responsabilidade é do Estado. No Brasil, teríamos dois mecanismos de controle e acomodação social em relação aos vulneráveis, além da baixa capacidade de proteção social. Os excluídos não são responsabilizados pela própria desgraça, mas pelo inevitável azar. Kowaric nomeia esse mecanismo de naturalização dos acontecimentos, a desgraça individual ou de grupos excluídos é produto da má sorte que recai aleatoriamente sobre uns e não sobre outros. Ser cidadão comum, um “descidadão” ou um supercidadão é uma inevitabilidade aleatória e histórica. O outro mecanismo é nomeado como neutralização. Refere-se aos processos sociais que legitimam a hierarquia e a subalternização dos vulneráveis no Brasil. Isso ocorre através das formas sutis ou explícitas de evitação e apartação dos vulneráveis da vida cotidiana, dos bens econômicos, culturais e de consumo.

Com a lição de DaMatta e de Kowarick, podemos entender a voz de nossos representantes no governo diante da pandemia nesse futebol da política. A fala do presidente representa a ausência de responsabilidade do Estado diante da pandemia. Diz ele sobre as mortes, “lamento, mas é o destino de todo mundo”, “lamento, eu sou Messias, mas não faço milagres”, “Não sou coveiro”, “vamos tocar a vida”. Assim, Bolsonaro ratifica que o destino do cidadão comum é uma questão de sorte ou de azar, “o vírus tá aí, o que posso fazer, pô?!”, diz o presidente, ausentando-se de responsabilidade sobre o inevitável destino de cada um. Os cemitérios e os negócios funerários estão em alta, passamos dos cem mil mortos e os estádios de futebol se transformaram num teatro sem plateia. No sábado, dia 8, os torcedores do Palmeiras se aglomeraram na porta do estádio para comemorar, com e sem máscara, o título paulista. No clima da alegria palmeirense, o presidente da república usou a redes sociais para parabenizar seu suposto time. Sobre os cem mil mortos, nenhuma palavra em rede nacional. Afinal na lógica do presidente estamos apenas diante de uma fatalidade ao perdermos cem mil torcedores.

*Antonio Soares é professor titular da Faculdade de Educação da UFRJ

**Artigo “Sobre a vulnerabilidade socioeconômica e civil…”, publicado em 2003 na Revista Brasileira de Ciências Sociais.

Esse artigo foi publicado originalmente no Quarentena News.

Eventos · Parcerias

Jornada de pós-graduandos recebe inscrições de pesquisas sobre Comunicação e Futebol no Nordeste

Divulgar as pesquisas que estão sendo desenvolvidas por estudantes de mestrado e
doutorado nordestinas/os em programas pós-graduação que versam sobre futebol no
campo da Comunicação e em áreas afins. Esse é o objetivo da Jornada nordestina de
pós-graduandas/os em Comunicação e Futebol, que será realizada de 9 a 11 setembro
de 2020 de maneira virtual, com transmissão online pelo canal do portal Ludopédio no
Youtube.

A partir desta segunda-feira, 10 de agosto, está aberta a chamada de inscrições de
resumos de pesquisas em desenvolvimento ou que tenham sido concluídas como
dissertação ou tese em 2019 ou 2020, tendo como objeto de estudo o Futebol. A
inscrição é gratuita e pode ser feita com o preenchimento do formulário que deve
conter um resumo de 15 linhas, em que o discente deve informar, pelo menos, objetivo
e metodologia de sua pesquisa. Todos os congressistas que apresentarem trabalhos
receberão certificados de participação.

As submissões seguem abertas até o dia 21 de agosto (sexta-feira). Após essa data, a
organização do evento formará as mesas de apresentação dos trabalhos de acordo
com as temáticas e suas relações com o campo do futebol, comunicação e áreas afins.
Após as apresentações orais das pesquisas, haverá um tempo reservado ao debate,
com participação aberta do público, que poderá interagir através do chat da
transmissão no Youtube.

O evento é uma iniciativa da Rede nordestina de Estudos em Mídia e Esporte
(ReNEme), que será lançada oficialmente por ocasião da jornada. O grupo já conta
com representações de discentes e docentes vinculados a universidades públicas de
estados como Alagoas, Ceará, Paraíba, Pernambuco e Sergipe. A Jornada conta ainda
com a organização do grupo de pesquisa Crítica da Economia Política da
Comunicação (CEPCOM), da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), e tem também os apoios do capítulo Brasil do União Latina de Economia Política da Informação, Comunicação e da Cultura (Ulepicc-Brasil), com a jornada sendo um dos pré-eventos do 8° Encontro Ulepicc-Brasil; Laboratório de Estudos em Esporte e Mídia (LEME), da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ); e do Ludopédio, portal de produção e divulgação científica sobre futebol.

SERVIÇO

Jornada nordestina de pós-graduandas/os de estudos de futebol na Comunicação e
áreas afins
Data: 9 e 11 de setembro
Local: canal do Youtube do portal Ludopédio (https://bit.ly/3ilCvxV)
Período de inscrições: 10 a 21 de agosto de 2020
Link de submissão de resumos: https://bit.ly/2C8F7zT

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A Invenção das Barras

A série “Porta 7” quis ficcionar um mundo e ficou na metade do caminho. Alguns de seus personagens não parecem barras: usam tacos de hóquei e não entram em “paravalanchas”. Tampouco convence o abecedário sem “eses“. Mas, ainda assim, sem “reflexão”, chega-se ao estereótipo.

Aí está o coração deste artigo. Não em criticar o conteúdo do último produto argentino para exportação, mas sim em reconstruir suas condições de previsibilidade. Importa o processo, não o produto. Proponho um percurso histórico sobre como as barras tem sido descritas, e, portanto, prescritas, pelos discursos de poder. Quando digo poder aponto para os meios de comunicação, as ficções artísticas ou literárias e para o Estado e suas leis. Porque as “barras bravas” são uma invenção nascida de um pânico moral tão antigo quanto a bola de couro.

Nico1
panamarevista.com

No dia 21 de outubro de 1922, aconteceu o primeiro homicídio em um estádio argentino. No campo de Tiro Federal, Rosario, Francisco Campá, dirigente do Newell’s Old Boys, e Enrique Battcock, trabalhador e ex-jogador do Tiro Federal, brigaram no intervalo. Minutos depois o primeiro dispara uma bala letal sobre o segundo. A violência convertida em morte, no futebol argentino masculino, está em sua própria origem.

A crescente violência da década de vinte leva que grande parte da imprensa comece a chamar os “torcedores fanáticos”, que protagonizavam tumultos ou episódios “antidesportivos”, de “barras” ou “muchachada”. O historiador Julio Frydenberg assinala que, a partir de 1920, o jornal Última Hora começa a utilizar o termo “barra”. Em fevereiro de 1925, o jornal Crítica publica uma nota intitulada “Barras Bravas” definindo esse grupo de torcedores como “energúmenos que só vão aos campos com o objetivo de manifestar seus instintos primitivos”. De sua parte, o jornal La Cancha, em novembro de 1928, propõe a expulsão dos sócios identificados como “torcedores selvagens, os barras mais agressivos, brutais, fanáticos e antidesportivos”.

A mesma cobertura midiática acontece com o segundo homicídio vinculado ao futebol argentino. Em 1924, depois de um Argentina x Uruguai, pela Copa América, que terminou 0 a 0, na Cidade Velha de Montevideo, houve uma briga entre as torcidas de cada país. A confusão se torna tragédia quando o uruguaio de 22 anos, Pedro Demby, sangra até a morte com o cheiro de pólvora. A imprensa aponta como responsável um tal de “Petiso”, líder de “uma barra argentina” residente em La Boca.

É entre os anos vinte e trinta do século XX, então, quando a imprensa constrói a noção de “barras”. Isso é feito em meio a um pânico moral pela crescente violência. Nessa conjuntura nasce uma associação que existe até hoje: os “barras” são os criadores de todos os males que afligem o futebol argentino. Aquele pânico moral começa a se expandir como uma mancha de tinta por todo tecido social, tanto que Roberto Arlt, o “literário do submundo”, nas suas  “aguasfuertes porteñas” de 1931, escreveu “são como esquadrões rufiões, brigadas de bandidos, quintos de canalhas, barras que como expedições punitivas semeiam o terror nos estádios… esses barras são os que em alguns bairros chegaram a constituir uma máfia, algo assim como uma “camorra”, com suas instituições, suas lutas armadas”.

A origem do pânico moral que associa “violência”, “máfia” e “barras” deve ser entendida como uma reação das classes dominantes diante da iminente popularização do futebol masculino. Não é por acaso que se inicia na década de vinte, quando as classes populares – em sua maioria homens – se juntam em massa nos estádios; e que se expande definitivamente nos anos trinta, momento em que a apropriação “desde baixo” é concluída, como disse o sociólogo Pablo Alabarces. Se por um lado as elites se resguardam em cargos de dirigentes, associações ou imprensa desportiva; as classes populares se incorporam ao futebol como jogadores ou torcedores. Há condições materiais que possibilitam esse fato. Primeiro, a profissionalização do futebol masculino em 1931, que permite que jogadores, de origem pobre, façam daquele esporte um trabalho. Posteriormente, a institucionalização do “sábado inglês” em 1932 possibilita que o tempo livre do trabalhador seja tingido com as cores de algum clube.

O pânico moral que origina a invenção das barras não é outra coisa senão um espanto de classe. O pavor das elites diante de uma invasão “bárbara”. Os barras serão, desde há um século até hj, os “selvagens inadaptados de sempre”, não só pelo seu comportamento, mas também por estarem onde não pertencem.

Nico2
panamarevista.com

Outro momento crucial em torno das narrativas sobre as barras se dá entre a década de cinquenta e sessenta do século passado. Nesses anos emergem os primeiros grupos de torcidas organizadas que se autoidentificam como barras de alguma equipe: Boca, Racing, San Lorenzo, Huracán, Rosario Central e Belgrano de Córdoba são alguns exemplos. Quem lê esse artigo já notará uma obviedade histórica nem sempre dita: as mortes violentas no futebol se contam desde a década de vinte e os grupos que se autorreconhecem barras aparecem nos anos cinquenta e sessenta. Em outras palavras: a “violência no futebol” não nasce com as “barras bravas”.

São por esses mesmos anos que a indústria cinematográfica nacional estreia vários filmes centrados na “torcida” de futebol: El hincha (1951); Somos los mejores (1968); Pasión dominguera (1969); Vamos a soñar con el amor (1971) y Tango desde el tablón (1971). Essas produções vão moldando um “verdadeiro torcedor” associado à fidelidade incondicional, o amor desinteressado, o sacrifício, o trabalho honrado, o clube como herança familiar e um comportamento tão passional quanto pacífico. Forja-se um protótipo ideal de torcedor – onde as mulheres não têm lugar – que tem como antagonismo moral “as barras”, e a imprensa ecoa tal divisão. O jornal Crítica, em 1959, ao mesmo tempo que define o “torcedor” como aquele “que vai com o simples e puro propósito de passar uma tarde sã de emoção, realizando por ele  mil sacrifícios”; também diz que nos estádios estão aqueles que “se dizem torcedores, mas na realidade são fanáticos perigosos que amalgamam essa condição com a de delinquentes e se mostram perversos quando vão ao jogo”. O “são” e “puro” nos torcedores, o “perigo” e a “delinquência” nas barras. Diferenças que se tornam desigualdades alimentando um perdurável pânico moral.

Amílcar Romero, precursor nas investigações sobre a “violência do futebol” e as “barras”, diz que, na década de sessenta, nasce o “Futebol Espetáculo”. É o começo da “violência institucional”, ou seja, de formas autoritárias que encontram em matar ou morrer um desenlace possível. Romero destaca a morte de Alberto Linker, em 19 de outubro de 1958, em um “Vélez x River”, como sintoma de uma época. Por um lado, o caso expõe a impunidade de uma repressão policial que se torna moeda corrente nos estádios argentinos, porque Linker morre por bombas de gás lançadas pela guarda de infantaria. Por outro lado, o caso resulta em um editorial do jornal La Razón no qual se denuncia a existência de “barras fortes” vinculadas com dirigentes de clubes e políticos influentes.

No entanto, sem dúvida, o caso mais emblemático desta era é o do torcedor do Racing de Avellaneda, Héctor Souto, assassinado por barras do Huracán, em 1967. Para começar, a morte de Souto é resultado de uma emboscada da barra do Huracán a torcedores do Racing como consequência do roubo de um guarda-chuva por parte dos segundos aos primeiros. Naquela “armadilha”, Souto é atacado por uma dezena de barras do Huracán. A investigação judicial descobre que os responsáveis pelo homicídio haviam entrando no jogo sem ingressos, com cartões de jogadores da Associação de Futebol Argentino (AFA). Romero também conta, analisando o caso, que a certidão de óbito de Souto expedida por um médico de Huracán e a perícia forense não registram nenhuma marca de golpe no cadáver. Além disso, os barras envolvidos contaram com um staff de advogados importantes. As condenações foram mínimas: o autor principal recebeu seis anos e os instigadores, dois.

Amílcar Romero traça uma linha interpretativa de enorme impacto nas narrativas futuras: há um tom de denúncia em relação às “barras bravas”, que já não atuam sozinhas ou isoladas, mas sim dentro de uma complexa trama de favores e atores que pactuam para garantir a impunidade e extrair recursos econômicos dentro de um futebol cada vez mais mercantilizado e violento. Assim, em um de seus últimos trabalhos, Romero afirmava que “um barra brava por excelência vive disso. Vive dos bilhetes, dos ganhos ou lucros que tiram dos bilhetes, a segunda fonte de ingressos, embora punhais sejam esfaqueados, é a porcentagem que os jogadores e diretores técnicos lhes passam, além disso são um fator de decisão política, decidem até turnês de jogos.. decidem até a compra de jogadores… decidem a vida e a morte de diretores técnicos. Tem um poder efetivo real”.

A Boca Juniors' fan holds a flare during their Argentine First Division soccer match against River Plate in Buenos Aires
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O retorno à democracia e a década de noventa são outras variáveis no que diz respeito às representações sobre as barras. O pânico moral contra “as máfias do futebol” chega ao seu ápice. Em parte, porque o registro de mortes dispara rapidamente. Entre a segunda metade dos anos oitenta e durante todo os anos noventa, se concentram mais da metade do total de vítimas fatais vinculadas ao futebol até aquele período. Em outras palavras, nos 17 anos que vão desde 1983 até 2000, se mata e se morre mais do que em todo o período que vai desde o primeiro assassinato em 1922 até o retorno da democracia.

Nessa época também há uma reação contra as barras porque percebe-se os restos de um autoritarismo em revisão diante da nova “primavera democrática” alfonsinista. Dois exemplos. O primeiro é a estreia do filme Las Barras Bravas dirigido por Enrique Carreras e lançado em 1985. O filme condensa todos os prejuízos e estereótipos sedimentados contra esses grupos. A primeira cena mostra recortes de jornais que retratam as diferentes barras sob os títulos “terror e sangue”, “o retorno da violência” ou “incêndio, roubos e caos”. Na cena seguinte, uma barra de uma equipe qualquer é filmada indo a uma partida em um vagão, cantando “Evita, el bombo, el tren es un quilombo” e “los vamos a reventar, los vamos a reventa”. Esse mesmo grupo, minutos depois, irá atacar homens, estuprar mulheres, amassar carros, romper alambrados, vender drogas, portar armas e roubar idosas. Os barras dos anos oitenta são retratados como estupradores, violentos, traficantes, ladrões, assassinos, saqueadores e… peronistas.

O outro exemplo vem do Estado, são as primeiras leis destinadas a intervir no “flagelo da violência do futebol”. Em 21 de junho de 1985, é aprovada a normativa 23.184 intitulada “Regime penal e contravencional para a violência em espetáculos esportivos, conhecida como ‘Lei da Rua’”. O regulamento inaugura marcadas continuidades que perdura até hoje. A “violência no futebol” passa a ser vista menos como um fenômeno a ser regulado e mais como um problema a ser erradicado, e para isso o que se deve fazer é extinguir os “grupos” responsáveis. O diagnóstico é centrado na rivalidade entre torcidas de diferentes equipes sem mencionar, por exemplo, a repressão policial que havia sido uma das principais causas de morte na época. Com as primeiras intervenções pontuais do Estado na questão, se instaura um modelo de segurança repressivo e focado de vez em quando na prevenção.

A norma 23.184 não apenas não surte nenhum efeito nos índices de violência, como também durante toda a década de noventa os números atingem níveis inéditos. A resposta estatal é insistir, com mais tolamente que diagnosticamente, pelo mesmo caminho. Em março de 1993, é sancionada a lei 24192 que modifica parcialmente o regulamento anterior. A culpa das barras é acentuada, definindo-as como um tipo social que “atenta contra a harmonia e a paz nos estádios de futebol”. Ao mesmo tempo, avança-se na criação de um Registro Nacional de Infratores à Lei do Esporte. Busca-se proibir o ingresso dos jogos aos torcedores com antecedentes penais. Enfatiza-se a associação entre violência no futebol e delinquência social.

Na virada do século as barras são o que sempre foram: as principais culpadas de uma “violência no futebol” crescente e letal. A novidade está no fato de que, desde o retorno à democracia, elas se tornaram objeto de legislação, e sempre sob o selo de um punitivismo tão declarado na retórica como inviável na prática, pois, apesar das proibições, detenções, julgamentos, adjetivações midiáticas, as barras continuam povoando os campos argentinos.

Hinchas de Boca agreden con gas pimienta a los jugadores del River
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Nos primeiros anos do novo século, aparecem alguns casos de fortes enfrentamentos entre “facções” internas de barras do mesmo time. Algumas brigas são dentro dos estádios e outras fora. A violência anterior não desaparece. As mortes entre torcedores de equipes diferentes e a repressão policial continuam, ainda que se veja uma diminuição em seu peso relativo em relação às mortes intra-barras.

Entre 2007 e 2013, com os vai-e-vem típicos de uma agenda de Estado espasmódica e improvisada, chega-se à proibição da torcida visitante. Como vários trabalhos acadêmicos têm demonstrado, nos últimos anos os cenários dos enfrentamos e seus protagonistas mudaram. Observa-se uma relação inversamente proporcional entre as brigas de barras de times diferentes e as brigas de barras de um mesmo clube. Se os enfrentamentos entre torcedores – não só barras – com camisas diferentes foi a principal causa de morte desde o retorno da democracia até o princípio do século XXI, as brigas entre barras do mesmo clube representam 56% do total de mortes vinculadas ao futebol entre 2006 e 2017, como demonstraram Diego Murzi e Ramiro Segura. E essas brigas se desenvolvem principalmente em espaços e tempos alheios ao cenário do futebol público por excelência: os estádios durante os dias de jogo. A violência é “privatizada”: acontece em bares, praças, esquinas, boliches, recitais, atos políticos e em dias sem partidas de futebol. Ao desenvolverem-se longe das operações de segurança, aumentam as possibilidades de arma de fogo. Resultado: maior letalidade.

Esse último cenário, marcado por uma sensação de onipresença e imprevisibilidade da violência, e, portanto, das barras, leva o pânico moral a níveis estratosféricos. Um contexto propício para a expansão sem limites da “Grabiologia”, uma fobia travestida de análise que caminha sobre dois pés: por um lado, todas as barras e os barras são reduzidos a um mesmo modelo, o de mafiosos, milionários e violentos. A figura de Di Zeo o Bebote é universalizada. Por outro lado, essa mesma fobia leva a encontrar esse modelo de barras em qualquer grupo organizado dos setores populares – sindicatos, movimentos sociais, “piqueteros”, economias populares -. É daí que surge a expressão “uma sociedade barra brava”. E então voltamos, mais uma vez, à origem: um pânico moral que nunca deixou de ser um espanto de classe.

Este olhar tornou-se comum. Predomina na imprensa desportiva com as colunas cotidianas do jornalista de mesmo nome; as editorias mais famosas publicam ficções como “El Barra Brava” de Fernando Gonzales, no qual todas as ações desses grupos se reduzem ao código penal; os deputados e senadores propõem como única política pública integral para enfrentar o complexo fenômeno da “violência no futebol”  uma monstruosidade legal chamada… “lei anti-barra”. A Netflix simplesmente se juntou a um trem em marcha e encontrou um pacote de exportação perfeito.

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Ninguém nega que algumas “barras bravas” argentinas encontram na violência uma experiência tão agradável quanto útil; nem que façam de certos mercados ilegais uma caixa de poupança. O problema é o recorte e suas consequências. Primeiro, porque ao sobredimensionar sua responsabilidade, outros atores são eximidos de culpa. Segundo, porque em toda descrição sempre há uma prescrição. Como dizia Norbert Elias, “dê a um grupo um nome ruim, e viverá segundo ele”. Terceiro porque este olhar julga mais do que compreende. Definir as barras pela violência é confundir a parte com o todo, em qualquer desses grupos há muito mais que ataques, tiros ou pontapés. Caracterizá-las como “máfias” é forçar um círculo dentro de um quadrado. Bebote não é Vitor Corleone. E reduzir uma filiação à busca de dinheiro é mais uma confissão projetada do que uma escolhe alheira. Assim, chega-se a uma noção de “barra” mais acusatória do que explicativa. O resto é previsível, porque até os algoritmos têm uma história.

Texto originalmente publicado no site Panamá.

Tradução: Leticia Quadros.

Artigos

Medo e coragem em tempos de pandemia: lições desportivas de 1987

Por David M. K. Sheinin* e César Torres**

Em 1987, se conhecia o suficiente da síndrome da imunodeficiência adquirida (AIDS) e sua causa, o vírus da imunodeficiência humana, para saber que se sabia muito pouco. Mundialmente, os casos de AIDS cresciam de forma exponencial. Enquanto se discriminavam os homossexuais, como suposta fonte da doença, novos temores surgiram. Até pouco tempo atrás, muitas pessoas acreditavam estar à margem da pandemia, já que a AIDS era considerada uma doença de homossexuais, confinada a seus círculos em uns poucos centros urbanos. Em 1987, porém, com novidades sobre a transmissão entre mãe e filho/a e entre casais heterossexuais, o perigo mudou. Paulatinamente, a sociedade se deu conta da sua proximidade com o perigo. E o medo aumentou.

Os Estados Unidos estão hoje na “1987” da pandemia da Covid-19. Não é mais uma infecção chinesa, ou de alguns poucos bairros do Queens e Brooklyn em Nova York. Cada notícia de como o vírus assola o corpo promove mais medo em algumas pessoas, fantasias insistentes de isenção em outras e novas buscas por “culpados” – desde políticos a enfermeiras asiáticas – pela crise.

O 1987 da AIDS tem eco na Covid-19 do presente. Naquele ano o mundo desportivo tinha medo e desconfiança. Desde Seul advertia-se sobre as medidas que seriam implementadas para evitar a chegada de esportistas portadores de AIDS durante os Jogos Olímpicos de 1988 (e assim impedir um desastre econômico e desportivo quase equivalente a um potencial cancelamento definitivo dos Jogos Olímpicos de 2020 em Tóquio). Na Iugoslávia, a organização dos Jogos Universitários colocou preservativos à disposição dos 4.500 esportitas como parte de uma campanha anti-AIDS. O boxeador japonês Akiro Kameda pediu que Terry Marsh fosse submetido a um exame de AIDS antes da luta no Royal Albert Hall de Londres (proposta esse rechaçada com indignação por Marsh).

Milhares de atletas de todo o continente viajaram à Indianápolis, em pleno meio-oeste estadunidense, para os Jogos Pan-americanos de 1987. Como no caso da Covid-19 atual, muitas pessoas naquela zona sentiram-se imunes à AIDS (uma enfermidade que se pensava estar confinada às duas costas do país), ainda que o medo gerado pelo desconhecimento sobre a doença estivesse aumentando. Assim, em janeiro, um jornal de Indianápolis se referiu à AIDS como “a nova lepra”, que, se não fosse tratada, poderia resultar em centenas de mortes e isolamentos na cidade. O alarme se propagou entre as delegações presentes.

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Jogos Pan-americanos de Indianápolis 1987. Fonte:  Wikipedia

José Soca Montero, técnico da equipe uruguaia de judô, reclamou que a organização dos Jogos Pan-americanos de 1987 não forneceu informações sobre a AIDS e nem sobre como iriam controlar a doença. O técnico argumentou que a maioria dos casos de AIDS no Uruguai tinha vindo dos Estados Unidos e do Brasil. Por esse motivo, ele sustentava que os atletas desses países deveriam ser submetidos a exames obrigatórios. Nesse sentido, uma revista mexicana afirmou que, como a AIDS havia sido vinculada com as relações homossexuais, “não se descarta a possibilidade de submeter os atletas e participantes em geral nesses tipos de eventos internacionais a exames anti-AIDS”. Esses exames, prosseguia a revista, poderiam prevenir muitos problemas “(até que) seja encontrada uma vacina eficaz contra essa síndrome do terror”. Por sua vez, o remador mexicano Juan Carlos Ortiz sentia-se desinformado e confessava o medo de se contaminar no restaurante e nos banheiros da vila pan-americana.

No entanto, no meio do crescente pânico, houve um momento de redenção ainda sem equivalência em 2020, um simples ato de clemência de um grande desportista, que humanizou a crise, demonstrou um pouco de esperança e acalmou a ansiedade social ao redor da AIDS. Esse ato de bondade envolveu o americano Greg Louganis, o saltador mais conhecido da história, e Ryan White, um adolescente de Indiana. White, a vítima de AIDS mais famosa do momento, havia se contagiado através de uma transfusão de sangue no final de 1984. Em 1986, com 14 anos, as autoridades proibiram-lhe de frequentar a escola, já que havia um temor irracional de que ele contaminasse parte dos alunos. Louganis, ganhador de duas medalhas de ouro nos Jogos Olímpicos de 1984 em Los Angeles, soube de White e sua luta e o convidou para presenciar o Campeonato Nacional de Saltos de 1986 em Indianápolis. Louganis contou, depois da competição, que havia se sentido motivado pelo caso de White. No ano seguinte, de volta a Indianápolis para os Jogos Pan-americanos, Louganis ganhou duas medalhas de ouro e presenteou White com uma delas, colocando-a em seu pescoço como um campeão. A mãe de White declarou que o gesto havia significado muito para seu filho.

Seis meses depois dos Jogos Pan-americanos de Indianápolis, Louganis foi diagnosticado com AIDS. Ele suspeitava de algo quando deu sua medalha a White em agosto de 1987? Não sabemos. O medo, porém, forçou Louganis a manter em segredo sua doença (e sua homossexualidade) por muito tempo. Nos Jogos Olímpicos de 1988, em Seul, ele bateu sua cabeça contra o trampolim. Umas gotas de sangue caíram na piscina e Louganis ficou perplexo. Contaminaria os demais? O incidente não teve consequências.

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De campeão olímpico e pan-americano que consolou White, Louganis se transformou, em poucos meses, em todos os sentidos, em uma vítima da AIDS, que temia tanto pela sua carreira esportiva quanto por sua vida. White morreu aos 16 anos em 1990. Os dois, entretanto, mudaram a percepção social da AIDS e sua trajetória. A sociedade se deu conta do quão absurdo e discriminatório havia sido negar a White seu direito à educação. Nunca mais nos Estados Unidos proibiram um(a) estudante com AIDS de ir à escola. Louganis e White promoveram um avanço na forma de se relacionar com a doença, não por meio de uma vacina ou uma medicação milagrosa, mas por meio de uma breve amizade que humanizou as vítimas, exemplificando a “simpatia solidária (e respeito) diante do sofrimento dos semelhantes”. Esses amigos entenderam, como diz o filósofo espanhol Fernando Savater, que “ou estou com e para os outros ou sou outra coisa” e que “os outros me permitem ser eu, me resgatam”. Assim, marcaram um caminho otimista possível em meio a uma doença devastadora. Sua história, tão vigente nos tempos atuais, nos recorda que a melhor maneira de enfrentar esse tipo de calamidade é resgatando-nos mutuamente em uma cumplicidade coletiva.

Texto originalmente publicado no site Página 12 no dia 01 de agosto de 2020.

* Doutor em História. Professor na Universidade de Trent.

** Doutor em Filosofia e História do Esporte. Professor na Universidade do Estado de Nova York (Brockport).

Tradução: Leticia Quadros

Produção audiovisual

Já está no ar o vigésimo episódio do Passes & Impasses

Acesse o vigésimo episódio do podcast Passes e Impasses no Spotify*, Deezer*, Apple PodcastsPocketCastsOvercastGoogle PodcastRadioPublic e Anchor.

O tema do nosso vigésimo episódio é “História das Torcidas Organizadas no Brasil”. Com apresentação de Filipe Mostaro e Mattheus Reis, recebemos o professor adjunto da Escola de Ciências Sociais da FGV, Bernardo Buarque de Hollanda, e com o docente do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura, da Universidade de Sorocaba, Felipe Lopes.

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O podcast Passes e Impasses é uma produção do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte em parceria com o Laboratório de Áudio da UERJ (Audiolab). O objetivo do podcast é trazer uma opinião reflexiva sobre o esporte em todos os episódios, com uma leitura aprofundada sobre diferentes assuntos em voga no cenário esportivo nacional e internacional. Para isso, contamos sempre com especialistas para debater conosco os tópicos de cada programa.

Você ama esporte e quer acessar um conteúdo exclusivo, feito por quem realmente pesquisa o esporte? Então não deixe de ouvir o vigésimo episódio do Passes & Impasses.

No quadro “Toca a Letra”, a música escolhida foi “Não quero dinheiro”, do saudoso Tim Maia.

Passes e Impasses é o podcast que traz para você que nos acompanha o esporte como você nunca ouviu.

ARTIGOS, LIVROS E OUTRAS PRODUÇÕES:

Equipe
Coordenação Geral: Ronaldo Helal
Direção: Fausto Amaro e Filipe Mostaro
Roteiro: Marina Mantuano e Carol Fontenelle
Produção: Marina Mantuano
Edição de áudio: Leonardo Pereira (Audiolab)
Apresentação: Filipe Mostaro e Mattheus Reis
Convidados: Bernardo Buarque de Hollanda e Felipe Lopes
Crédito da imagem da capa: Marina Mantuano

Eventos

Encontros LEME discute o diálogo entre Europa e América do Sul através das torcidas de futebol

O Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte realizará, no dia 14 de agosto às 17h, a sétima edição dos Encontros LEME em 2020. Dessa vez, contaremos com a presença do antropólogo Martin Curi para discutir o tema “Diálogo entre Europa e América do Sul através das torcidas de futebol”. Martin é doutor em Antropologia pela UFF e atualmente é assistente social no Projeto para Torcedores Fürth (Fanprojekt) da Kinderarche Fürth. A mediação fica por conta da pesquisadora do LEME Leda Costa.

Por conta da pandemia, os Encontros estão sendo realizados na modalidade virtual. Para essa edição, faremos uma transmissão ao vivo, em nosso canal no Youtube. Não será necessário se inscrever previamente, já que a transmissão será aberta.

Testeira Encontros LEME Martin Curi

Encontros LEME é uma proposta do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte que visa a partir da leitura de textos e análise de produções fílmicas realizar debates com professores, pesquisadores, graduandos e convidados interessados em estudar as interseções da Comunicação com o Esporte.

Artigos

O inusitado tira-teima brasiliense de 1969

Nas atividades institucionais do futebol profissional, não cabem improvisos. Como em uma empresa, o planejamento busca garantir eficiência e deve ser seguido à risca. Estão todos envolvidos em contratos, obrigações mútuas, segurança jurídica. Cumprir o que está previsto (porque assim foi acertado) é a ordem. Assim evitam-se contestações e crises. O calendário esportivo de cada campeonato, por exemplo, deve ser mantido intacto (alterações são admitidas apenas em casos excepcionais e devem ser limitadas).

Já no futebol amador, a comunidade futebolística se sente mais à vontade para fazer ajustes de última hora e tomar decisões repentinas, de modo improvisado. Há um caso interessante que é exemplo disso. Ocorreu em Brasília no ano de 1969.

O Campeonato Brasiliense daquele ano contou com a participação de clubes profissionais e amadores. O processo de profissionalização do futebol local, tentado de 1964 a 1968, havia fracassado e a CBD autorizou a realização de um torneio que mesclasse amadorismo e profissionalismo. Eram 24 clubes no total (o maior número de participantes de um Campeonato Brasiliense até hoje). A competição recebeu o nome de Taça Brasília.

Quando o campeonato estava perto do fim, o Grêmio Brasiliense liderava e parecia dificílimo que não fosse o campeão. Tinha dois jogos a disputar pela fase final e estava na primeira posição com apenas 3 pontos perdidos (na época, os pontos perdidos recebiam mais atenção do que os pontos ganhos). Já havia disputado 19 partidas em todo o campeonato e perdido apenas uma. Toda a sua torcida tinha certeza de que venceria mais duas vezes. Mas ao enfrentar seu penúltimo adversário, os gremistas foram surpreendidos. Perderam para o Flamengo de Taguatinga por 2 a 1 e caíram para a segunda colocação, com 5 pontos perdidos.

No mesmo dia, o Coenge, que tinha 4 pontos perdidos, disputou a sua última partida. Enfrentou o Brasília (que apesar desse nome, era de Taguatinga). Ao vencer por 5 a 1, o Coenge se manteve com 4 pontos perdidos e tornou-se o campeão de 1969. O Grêmio Brasiliense, mesmo que vencesse o seu último jogo, continuaria em segundo lugar com os 5 pontos perdidos.

COENGE
Brasão do Coenge

A reviravolta surpreendeu a quem acompanhava o campeonato. Segundo o jornal Correio Braziliense, “ninguém esperava a derrota dos gremistas diante dos rubro-negros” (Correio Braziliense, 21/10/1969) e falou-se repetidas vezes, nos dias seguintes, em falta de sorte, decepção e tristeza dos atletas e torcedores do Grêmio Brasiliense. Surgiu, então, a proposta de promover um tira-teima: Coenge e Grêmio Brasiliense enfrentando-se diretamente para definir “quem realmente é o melhor”, como disse o Correio Braziliense na edição de 28 de outubro. A proposta foi apresentada pelo dirigente Wilson Andrade, da Federação Desportiva de Brasília (FDB).

O título de campeão do Distrito Federal não estaria em jogo. O Coenge, caso fosse derrotado na disputa, continuaria sendo considerado o campeão da Taça Brasília, ou seja, o campeão brasiliense de 1969, embora o termo “tira-teima” pudesse indicar o contrário. Essa garantia dada ao Coenge não impedia a imprensa de dizer que o duelo tinha o objetivo de mostrar qual era o melhor time da capital federal naquele ano. A disputa se daria em uma melhor-de-três e o vencedor receberia o troféu Casa do Atleta. O Coenge aceitou.

Um torneio “inventado” repentinamente, sem qualquer planejamento. Os dirigentes da FDB pareciam não perceber que aquele duelo poderia desacreditar e deslegitimar a principal competição da própria FDB, já que lançava uma dúvida sobre o título de campeão do Coenge. Era uma iniciativa própria do amadorismo. Sua motivação era inteiramente sentimental: a estupefação pelo revés de um favorito na última rodada do campeonato brasiliense.

Deveria ser um torneio amistoso e de importância menor. A atitude dos dois clubes, porém, foi outra. A diretoria do Coenge prometeu um prêmio em dinheiro aos seus atletas em caso de vitória. Além disso, houve preocupação com o local de concentração antes das partidas (os dirigentes do Coenge tiveram o cuidado de pôr os seus jogadores em um hotel considerado mais tranquilo). Já o Grêmio Brasiliense reclamou da escolha do trio de arbitragem na terceira partida e declarou que jogaria “sob protesto contra a decisão da FDB” (Correio Braziliense, 22/11/1969). As disputas dentro de campo foram acirradas e, ao fim da segundo jogo, houve confusão:

(…) logo após o término da partida, registrou-se um tremendo “sururu”, sendo necessária a pronta intervenção da polícia para serenar os ânimos dos mais exaltados (Correio Braziliense, 11/11/1969).

A primeira partida foi realizada em 2 de novembro de 1969 no Gama (a cidade-satélite do Coenge). Foi uma peleja animada, “com as duas equipes se empenhando a fundo para a conquista do troféu” (Correio Braziliense, 09.11.1969). O resultado final foi 2 a 2. A segunda partida ocorreu sete dias depois, no Núcleo Bandeirante (cidade-satélite do Grêmio Brasiliense). Outra partida animada. Terminou empatada em 1 a 1 e, como já foi dito, houve confusão após o apito final do árbitro.

A terceira partida foi marcada para o estádio da FDB. Como o gramado estava em fase final de manutenção, o jogo só aconteceu duas semanas depois do segundo confronto. Foi um evento pomposo. O estádio, um dia antes, foi batizado como o nome de Pelé. Uma placa de acrílico (provisória) foi instalada em sua homenagem. A previsão era substituí-la em breve por outra, de bronze, que seria descerrada com a presença do próprio Pelé. O governador do Distrito Federal, Hélio Prates da Silveira, compareceu à partida e deu um pontapé inicial simbólico. O presidente da FDB estava tão animado que até cogitou um jogo da seleção brasileira na capital federal, em abril de 1970, pouco antes da viagem da delegação nacional para a disputa da Copa do Mundo no México.

GREMIO BRASILIENSE
Brasão do Grêmio Brasiliense

O Coenge venceu aquela terceira partida por 1 a 0 e se sagrou vencedor do tira-teima. Não podia haver mais dúvidas: era o melhor time do futebol brasiliense. Torcedores e jogadores comemoraram. Ficou acertado que o troféu seria entregue em um programa de televisão.

Mas ainda não era o fim da disputa. O Correio Braziliense noticiou no dia 26 de novembro: “TJD tira ponto do Coenge e vai haver quarto jogo”. A punição foi imposta porque o clube do Gama escalou, na primeira partida, um atleta considerado irregular. A quarta partida foi marcada para o dia 30 de novembro, novamente no estádio Edson Arantes do Nascimento.

Na quarta partida do tira-teima, o Grêmio Brasiliense venceu por 1 a 0. O gol foi de Ademir, de cabeça, aos 28 minutos do primeiro tempo. No segundo tempo, o destaque foi o goleiro gremista, Elizaldo, que garantiu com grandes defesas a vitória do seu time. “Embora superior ao seu adversário, o Coenge não conseguiu reproduzir em tentos essa superioridade, e deixou que o troféu lhe escapasse depois de ter demonstrado em todos os jogos melhor organização que o seu adversário” (Correio Braziliense, 02/12/1969).

Encerrado o tira-teima, os clubes logo passaram a se preocupar com os próximos amistosos que disputariam. A derrota do campeão de Brasília repercutiu pouco. Como previsto, o título de campeão do Coenge permaneceu intacto, sem contestações. Até hoje, todas as listagens sobre os campeonatos do Distrito Federal indicam o clube gamense como o campeão de 1969. Não há polêmica quanto a isso.

Foi um torneio de motivação claramente amadora. Improvisado, interessado em atiçar rivalidades e em pôr os times em movimento. De aspecto profissional, havia apenas a perspectiva de algumas rendas a mais oriundas das bilheterias. Foi quase um torneio-divertimento, apesar da supervisão da FDB, que lhe dava um caráter oficial. O tira-teima assemelhava-se ao caso de um time que, após ser derrotado com um gol no último minuto, provoca o vencedor: “Vamos jogar 30 minutos adicionais para ver se vocês confirmam a vitória ou se conseguimos empatar”.

Enquanto isso, no Rio de Janeiro e em São Paulo, o futebol profissional se dedicava às contratações para montagem de grandes times e à organização do Robertão (a competição que serviria de inspiração para o Campeonato Brasileiro instituído pela CBD em 1971).

O futebol brasiliense adotou o profissionalismo apenas em 1976 (dessa vez, com sucesso).

Artigos · Entrevistas

Coordenador do LEME discute o fenômeno “Copa do Mundo” em entrevista

A Copa do Mundo é um dos maiores eventos esportivos do mundo, seja pela sua atratividade mercadológica, pelo espetáculo, pela união de seleções ou pelo apelo das torcidas. Há noventa anos tinha início esse torneio que, de quatro em quatro anos, junta os amantes do futebol do mundo inteiro. Mas será que sempre foi assim?

A popularização do futebol na Europa fez com que, em 1930, fosse criada a primeira Copa do Mundo de futebol. A competição, que começou com apenas treze seleções, foi ganhando contornos maiores na medida em que o próprio futebol se profissionalizava e o mundo se modernizava. Hoje, para a Copa de 2022 no Qatar, estão previstas 48 seleções, e muitas outras questões, como as logísticas de viagens que eram impensáveis em 1930.

O coordenador do LEME, Ronaldo Helal, deu uma entrevista ao programa Noite Ilustrada da Rádio UFMG Educativa, da Universidade Federal de Minas Gerais, sobre esse fenômeno que é a Copa do Mundo. Helal lembra histórias e fatos de diversas Copas que aconteceram ao longo desses noventa anos de existência. Quer saber mais sobre esse torneio de magnitude mundial? Aperte o play no áudio abaixo e escute a entrevista completa.

1930 FIFA World Cup Uruguay ™ - FIFA.com
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Eventos

Encontros LEME sobre o Maracanazo nesta sexta-feira

LEME reúne pesquisadores para discutir o Maracanazo

16 de julho de 1950 – diante de mais de 200 mil pessoas, o Brasil se calava com os gols de Shiaffino e Ghiggia, no Maracanã. A épica derrota para o Uruguai, que fez o Brasil amargar o vice-campeoanto da Copa do Mundo, ficou conhecida por Maracanazo. Para debatermos esse episódio e suas implicações, o LEME – Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte realizará, nesta sexta (31/07) às 19h, um encontro virtual.

Para esta edição especial dos Encontros LEME, contaremos com os pesquisadores Alvaro do Cabo, Gastón Laborido, Francisco Brinati e Sergio Souto, com mediação do também pesquisador Filipe Mostaro.

Aguardamos vocês no canal do LEME no Youtube.

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