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A dramática volta do futebol alemão

(Torcidas de papelão na Bundesliga – Fonte: AFP)

No conto “Esse est percipi”, Adolfo Bioy Casares e Jorge Luis Borges indicam que a última partida de futebol foi disputada em 24 de junho de 1937. Desde então, o futebol é um gênero dramático a cargo de locutores, atores e jornalistas que não existem fora dos estúdios de gravação e das redações. Desconhece-se quem o inventou. Sim, sabe-se que foi o filósofo George Berkeley quem argumentou que só existe aquilo que percebemos. Bioy Casares e Borges afirmam, como comentou o jornalista Ariel Scher, que “o que temos em nossa percepção pode ser um nada disfarçado de algo e não há coincidências nas quais o futebol retrate isso”.

Questionado na matéria se ele não temia que a ilusão futebolística fosse descoberta, Tulio Savastano, presidente do clube Abasto Juniors, responde: “A raça humana está em casa, descansando, atenta à tela”. Hoje utilizaríamos o plural para descrever essa atenção intensa. Segundo Bioy Casares e Borges, a televisão constrói acontecimentos para que as pessoas os percebam e lhes deem existência. É notável, como resaltou o sociólogo Pablo Alabarces, que a história foi publicada em uma época (1967) em que “a televisão argentina começou a decolar em direção à massificação” e não ocupava “o espaço incomensurável com o qual atrai a vida cotidiana hoje”.

O fatídico retorno do futebol na Alemanha depois de uma parada de mais de dois meses para impedir a disseminação do coronavírus nos aproximou do cenário absurdo de “Esse est percipi”. Isso se vê claramente na reação da indústria do futebol – e particularmente da televisão – aos protocolos aprovados. O foco da preocupação está na proibição de que o público assista aos jogos nos estádios. As arquibancadas vazias se tornam insuportáveis para quem está na frente da televisão.

Com o objetivo de suprir a ausência do público e reproduzir, ao menos em parte, a atmosfera festiva gerada pelo público, várias equipes alemãs incluíram imagens de papelão de seus torcedores nas arquibancadas. Nesse espírito, um clube sul-coreano utilizou bonecas infláveis. Da mesma forma, uma das emissoras de televisão alemã encarregada de transmitir as partidas ofereceu um canal de áudio com “som da arquibancada” – incluindo os cânticos – que se sobrepõe à transmissão. Esse eco provém de partidas anteriores entre as equipes em questão. “Nosso engenheiro de som”, explicou um vice-presidente da emissora, “mescla o som autêntico, produzido no estádio, com o dito áudio artificial de fundo”. Além disso, a emissora também criou áudios com a reação do público para situações específicas: pênaltis, faltas, etc. A tarefa é realizada por especialistas em produção televisiva, que, inspirados nos videogames, tentam criar ambientes virtuais estimulantes.

O esforço para simular o público nas arquibancadas parece estar baseado, em parte, na questionável premissa de que “o futebol sem público não é futebol”. O treinador César L. Menotti exemplificou isso em uma coluna recente que levava precisamente esse título. Aqui há, ao menos, um debate conceitual: a estrutura e a lógica interna do futebol não mudam se for realizada com ou sem público nas arquibancadas. Não se trata em ambos os casos do mesmo jogo que consiste em colocar a bola no gol adversário? Não defendem e atacam as equipes utilizando as mesmas habilidades que constituem e definem o jogo? O futebol com arquibancadas vazias pode ser menos vistoso, mas não deixa de ser futebol, ainda que vivenciado de modo diferente.

Ao aproximar o futebol do gênero dramático, introduzindo público e reações apócrifas, a indústria do futebol indica que está disposta a produzir percepções disfarçando o nada de algo para incentivar seu consumo através de múltiplas telas. Aqui está mais um motivo para desejar o retorno aos estádios. No final das constas, nem tudo passa na televisão, como afirma Savastano em “Esse est percipi”, nem todos os nadas (futebolísticos) disfarçados de algo existem.

* Texto originalmente publicado em Página 12 no dia 04 de junho de 2020.

*Cesar Torres é doutor em filosofia e história do esporte. Docente na Universidade do Estado de Nova York (Brockport)

Produção audiovisual

Já está no ar o décimo sexto episódio do Passes & Impasses

Acesse o décimo sexto episódio do podcast Passes e Impasses no Spotify*, Deezer*, Apple PodcastsPocketCastsOvercastGoogle PodcastRadioPublic e Anchor.

O tema do nosso décimo sexto episódio é “Jornalismo esportivo e covid-19”. Com apresentação de Filipe Mostaro e Letícia Quadros, gravamos remotamente com o Sérgio Souto, jornalista e professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e o Guilherme Oliveira, jornalista e produtor da TV Globo.

O podcast Passes e Impasses é uma produção do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte em parceria com o Laboratório de Áudio da UERJ (Audiolab). O objetivo do podcast é trazer uma opinião reflexiva sobre o esporte em todos os episódios, com uma leitura aprofundada sobre diferentes assuntos em voga no cenário esportivo nacional e internacional. Para isso, traremos sempre especialistas para debater conosco os tópicos de cada programa. Você ama esporte e quer acessar um conteúdo exclusivo, feito por quem realmente pesquisa o esporte? Então não deixe de ouvir o décimo sexto episódio do Passes e Impasses.

No quadro “Toca a Letra”, a música escolhida foi  “O dia em que a Terra parou” a canção de Raul Seixas, apesar de ter sido lançada há quase 30 anos, representa exatamente o que estamos vivendo hoje.

Passes e Impasses é o podcast que traz para você que nos acompanha o esporte como você nunca ouviu.

ARTIGOS, LIVROS E OUTRAS PRODUÇÕES:

Equipe

Coordenação Geral: Ronaldo Helal

Direção: Fausto Amaro e Filipe Mostaro

Roteiro: Leticia Quadros e Carol Fontenelle

Produção: Marina Mantuano

Edição de áudio: Leonardo Pereira (Audiolab)

Apresentação: Filipe Mostaro e Leticia Quadros

Convidados: Sérgio Souto e Guilherme Oliveira.

Artigos

Mercado esportivo mundial e sua influência na formação de atletas brasileiros

O mercado esportivo deve ser pensado como ambiente social ou virtual propício às condições para a troca de bens, serviços e performances atléticas com vista a transformação desses em produtos econômicos (PRONI, 2000: 98). O mercado esportivo se caracteriza pela inserção de atletas profissionalizados de alto rendimento em um ambiente competitivo caracterizado por competições regulares e estáveis que cada vez mais se associam com o capital econômico para transformar o esporte em um produto de consumo e retorno financeiro para seus patrocinadores e investidores através da exposição midiática, do marketing e da publicidade.

O mercado esportivo é parte integrante de um mercado econômico global mais amplo de produção de bens e entretenimento. Por isso, o mercado esportivo é em determinadas características correlato ao mercado econômico mundial, possuindo também seus centros e suas periferias, seus fornecedores de commodities e os de produtos industrializados, bem como seus polos atrativos de mão-de-obra qualificada.

No tocante ao futebol, os países europeus como Inglaterra, Itália, Portugal, Espanha e Alemanha compõem o núcleo (centro do mercado), pois possuem os campeonatos mais valorizados, as melhores possibilidades de exposição midiática, o maior poder econômico e são o grande destino dos trabalhadores migrantes do futebol. Ao redor desse centro, existem as periferias mais próximas como é o caso da América do Sul e Central (sendo o Brasil parte dela) e as periferias mais distantes como o continente africano, a Ásia, a América do Norte e a Oceania respectivamente.

O funcionamento desse circuito faz com que muitos atletas brasileiros saiam do país rumo a Europa e que os clubes brasileiros se tornem fornecedores de pés-de-obra para esse mercado. Segundo dados do site da FIFA, o número de jogadores brasileiros que saíram do país em 2017 chegou a 806 e até o meio do ano de 2018 o dispositivo TMS já havia registrado 412 saídas de atletas para o exterior. Ainda segundo essas informações 397 tinham ido para a Europa ingressar nas ligas dos mais diversos tipos e apelos econômicos evidenciando que o mercado europeu ainda é o principal polo de migração dos jogadores brasileiros.

Fica claro que nesse mercado esportivo o Brasil ocupa papel homólogo ao seu no mercado econômico: exportador de matérias-primas. Essas matérias-primas no caso são os jogadores de futebol que servirão aos campeonatos mais valorizados. Essa exportação regular de jogadores de futebol, não se dá apenas pela discrepância entre os poderes econômicos dos clubes e o valor de suas ligas, mas também pela necessidade de muitos clubes brasileiros equacionarem dívidas e equilibrarem suas finanças. Depois das cotas de televisão e mais recentemente o valor dos patrocínios, a venda de jogadores ainda é o terceiro maior meio de obtenção de recursos financeiros como mostra o gráfico.

(Dados retirados de globoesporte)

O sucesso nas transferências se torna no futebol brasileiro condição básica para tentativa de equilíbrio das finanças dos clubes. Cabe lembrar que nesse mercado esportivo mundial, os atletas são mercadorias, ou seja, produtos e como em qualquer mercado o produto é mais valorizado à medida que engloba mais características valorizadas naquele circuito. Desse modo, No Brasil há um processo de formação calcado num número muito maior de horas e preparação porque desde pequenos esses atletas são encarados como possíveis produtos de exportação. Esse modelo brasileiro foi descrito por Damo, no seu livro “Do Dom a Profissão” como formação “à brasileira” e nele os clubes direcionam quase que exclusivamente o tempo dos atletas para as atividades físicas e internalizações de disposições futebolísticas renegando qualquer outra atividade para segundo plano.

O tempo de treino é então privilegiado e isso se reflete na alta carga horária de treinos e atividades relacionadas a prática esportiva tais como competições e deslocamentos. Estudos realizados por Melo (2010), Correia (2014) e Rocha (2017) expõem dados que mostram que o tempo semanal médio destinado ao futebol é em torno de 18 horas e 26 minutos. Esses números são referentes ao Rio de Janeiro como um todo.

O treinamento dos atletas brasileiros evidencia uma formação futebolística híbrida no Brasil, ou seja, uma formação que busca abastecer o mercado interno (produção endógena), mas que conforme conveniência do mercado privilegia sua exportação para outros países dos integrantes do mercado esportivo. Nesse cenário, os jovens brasileiros, desde muito cedo são submetidos a treinamentos diários – cinco vezes na semana – com carga horária muito semelhante àquela encontrada nos treinamentos dos atletas profissionais.

No processo de estruturação dessa jornada de treinamento, muitos atletas possuem dificuldades de construção de caminhos alternativos ao futebol, pois essa atividade demanda deles uma dedicação quase em tempo integral. Ao se dedicarem desde muito cedo a profissionalização no futebol e durante muitas horas ao dia, esses jovens acabam tendo dificultadas as chances de obtenção de outras credenciais formativas para além do esporte, como por exemplo, a escola. Diante disso, caso não consigam se profissionalizar, uma reconversão profissional para o mercado de trabalho ordinário passa a ser mais difícil e precarizada.

No Brasil a legislação para proteção dos jovens nos centros de formação foi aprovada somente no ano de 2011, com a responsabilização dos clubes sobre a formação esportiva e educacional desses atletas. Todavia não há qualquer regulamentação do Estado sobre os limites de carga horária dos treinos e sobre as estratégias de reforço na escolarização desses indivíduos. Dessa forma, a lei foi criada, mas ela pouco normatiza quais são os comportamentos necessários para os clubes respeitarem.

Diante desse cenário, os clubes tensionam os dispositivos legais e agem dentro das diversas interpretações existentes na legislação para que possam continuar exercendo suas atividades com vista a maximizar os resultados dos treinos e aumentar o valor de mercado dos seus atletas. Num cenário esportivo pautado principalmente por um viés econômico de lucro, os clubes tendem a privilegiar seus investimentos e patrimônios com a anuência das leis pouco específicas e dos legisladores pouco observadores do que acontece dentro dos centros de treinamento.

No caso do futebol a comparação do Brasil com outros países pode ajudar na compreensão das especificidades da formação dos futebolistas brasileiros e sua relação com a escola, bem como explicitar outros modelos de formação pelo mundo.

 

Referências

CORREIA, C. A. J. Entre a Profissionalização e a Escolarização: Projetos e Campo de Possibilidades em jovens atletas do Colégio Vasco da Gama. 2014. Dissertação (Mestrado em Educação) – Programa de Pós-graduação em Educação, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2014.

DAMO, A. S. Do Dom a Profissão: formação de futebolistas no Brasil e na França. São Paulo: Aderaldo e Rothschild Editora, Anpocs, 2007.

MELO, L. B. S. Formação e escolarização de jogadores de futebol do estado do Rio de Janeiro. Dissertação (Mestrado em Educação Física) – Universidade Gama Filho, Programa de Pós-Graduação em Educação Física. Rio de Janeiro, 2010.

 

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Polêmica e Tapetão: o Campeonato Goiano de futebol no período 1979-1985

A bola saiu pela lateral aos 46 minutos do segundo tempo. O Vila Nova jogava contra o Atlético Goianiense pela rodada final do Campeonato Goiano de 1979. Era o encerramento do hexagonal decisivo. Quem vencesse seria campeão. O jogo estava empatado em 0 a 0 e o empate beneficiava o Vila Nova. E quando a bola saiu pela lateral no finzinho do segundo tempo, o árbitro apitou. Queria apenas marcar a saída de bola, mas apitou forte demais e a torcida entendeu que era o apito final. Invadiu o campo.

Depois de alguns minutos, o campo foi evacuado. Quase todo o time do Atlético, porém, havia corrido para o vestiário. Jefferson de Freitas, o árbitro, determinou aos atleticanos que voltassem a campo. Darci, o capitão do Atlético, respondeu: “Mas eles rasgaram as camisas do pessoal” (Placar, 17.08.1979). O time do Atlético não voltou ao jogo, o árbitro encerrou a partida e a torcida do Vila Nova comemorou (de novo) o tricampeonato. Mas a polêmica era inegável e a Federação Goiana de Futebol (FGF) deveria se posicionar.

Ali começou uma sequência de sete decisões em Goiás que seriam decididas sob o signo da polêmica. Em cinco dessas decisões a disputa extrapolou o campo de jogo e chegou ao famoso tapetão. Parecia uma maldição a pairar sobre o futebol goiano.

E o que foi decidido, afinal, pela FGF a respeito do jogo não encerrado entre Vila Nova e Atlético Goianiense no mês de agosto de 1979? A Federação confirmou o tricampeonato do Vila Nova. Segundo a revista Placar, o mando de campo naquela partida era do Atlético e, por isso, era obrigação do clube ter um conjunto reserva de uniformes em seu vestiário. Havia ainda um segundo argumento: “O estádio Serra Dourada é neutro, portanto não se deu a figura da invasão capaz de provocar anulação de jogo” (Placar, 17.08.1979).

  • 1980: “RESPOSTA AO CALUNIADOR”

A polêmica, no Campeonato de 1980, foram as declarações do técnico do Atlético Goianiense, José Calazans, que acusava os atletas do Vila Nova de jogarem dopados e serem subornáveis. As declarações poderiam suscitar investigações por parte da FGF e até de autoridades policiais. Mas não houve nada desse tipo.

Antes da última rodada do quadrangular final, o Vila Nova tinha sete pontos, enquanto Goiás, Anápolis e Atlético Goianiense tinham cinco. Bastava ao Vila Nova um empate para se tornar tetracampeão. A partida foi contra o Anápolis. Aos 24 minutos do segundo tempo, o vilanovense Roberto Oliveira marcou o único gol do jogo. O técnico campeão, Vail Motta, gritou aos prantos “que aquela era a resposta ao caluniador” (Placar, 05.12.1980).

José Calazans, dois anos depois, se viu envolvido no escândalo da máfia da loteria esportiva. Ficou tão mal visto que em 1989, quando o Atlético Goianiense o contratou novamente para o cargo de técnico, a torcida atleticana protestou. Alguns picharam o muro do estádio Antônio Accioly com frases condenando a contratação. Calazans voltou a atuar como técnico do Atlético em apenas um jogo. Foi demitido após sofrer uma derrota para o Goiás por 2 a 0.

  • 1981: ATLETA IRREGULAR

Em 1981, o Campeonato Goiano passou por uma das situações mais polêmicas de toda a sua história (talvez a mais polêmica). Até hoje o caso é lembrado por torcedores e pela imprensa do Estado.

A Anapolina era a melhor equipe da competição. De janeiro a março daquele ano, havia disputado a Taça de Prata (segunda divisão do Campeonato Brasileiro). Chegou à final, mas foi derrotada na decisão pelo Guarani, clube campeão brasileiro da primeira divisão em 1978. Em abril, quando começou o Campeonato Goiano, todos os torcedores já sabiam que a Anapolina estava entre os favoritos.

No primeiro turno, as expectativas em relação à Anapolina se confirmaram. O time venceu doze jogos, empatou cinco e perdeu apenas três. Ficou em primeiro lugar. Os seis melhores colocados se classificaram para a fase decisiva desse turno. Nessa fase decisiva, a Anapolina decepcionou. Ficou apenas em quarto lugar.

No segundo turno, a Anapolina novamente ficou em primeiro lugar (com treze vitórias, cinco empates e apenas duas derrotas). Dessa vez, não houve classificados para uma fase decisiva, como aconteceu no primeiro turno. Por ser a primeira colocada do segundo turno, a Anapolina se classificou para o quadrangular final.

No terceiro turno, o Goiás surpreendeu. O clube havia se classificado para aquela fase por ter sido o quarto melhor do campeonato após os dois primeiros turnos (empatado em número de pontos com quinto colocado, mas com melhor saldo de gols). Começou o terceiro turno com apenas dois empates, mas depois venceu três jogos seguidos. Em seguida, na sua última partida no turno, empatou com a Anapolina. Foi o bastante para ficar em primeiro lugar, empatado em número de pontos com a própria Anapolina, a segunda colocada. Goiás e Anapolina, assim, estavam classificados para a melhor-de-três que definiria o campeão estadual.

Os três jogos, realizados no estádio Serra Dourada, terminaram empatados. O primeiro em 2 a 2 e os dois últimos em 1 a 1. Encerrado o terceiro jogo, a torcida da Anapolina comemorou, pois seu time havia somado maior número de pontos do que o adversário ao longo do campeonato. O Goiás, porém, recorreu ao Tribunal de Justiça Desportiva. Descobriu que um jogador da Anapolina havia disputado a segunda partida da melhor-de-três em condição irregular e argumentou que, por isso, o empate deveria ser convertido em vitória do Goiás. Segundo a revista Placar, os dirigentes esmeraldinos haviam marcado “um gol de placa” no tribunal:

“(…) conseguiram uma fotocópia do contrato do armador Osmar Lima, da Anapolina, provando que seu vínculo terminara dois dias antes do segundo jogo entre ambos os clubes e que portanto, o atleta não tinha condições de atuar”. (Placar, 18.12.1981)

Goiás e Anapolina jogaram, em todo o campeonato, 54 partidas cada equipe. O Goiás teve 23 vitórias e 19 empates. A Anapolina teve desempenho melhor: 28 vitórias e 19 empates. Mas o campeão goiano de 1981, por decisão judicial, foi o Goiás.

Foto 1981 (1)
Goiás X Anapolina (Placar, 18.12.1981)
  • 1982: INVASÃO DE CAMPO

A última partida do Campeonato Goiano de 1982 teve o mesmo problema da decisão de 1979. A torcida do Vila Nova invadiu o campo no final do jogo. Uma festa que “quase melou a final” (Placar, 24.12.1982), mas que não provocou nenhuma disputa jurídica. Aquele foi o campeonato menos polêmico do período 1979-1985.

Quando teve início a invasão de campo, aos 42 minutos do segundo tempo, o árbitro José Roberto Wright correu para o seu vestiário, mas depois informou aos dirigentes que os últimos minutos deveriam ser jogados. O que parecia quase impossível foi feito: milhares de torcedores foram retirados do gramado e o jogo recomeçou. O placar era de 1 a 1. Poucos minutos depois, veio o apito final e o Vila Nova, que tinha a vantagem do empate naquela partida, se sagrou campeão.

“(…) foram jogados os três minutos finais para um estádio praticamente vazio: a torcida já estava toda nas ruas, iniciando o carnaval que explodiria de vez na tradicional Praça Tamandaré, no centro de Goiânia”. (Placar, 17.12.1982)

  • 1983: SEGUNDO TURNO DECIDIDO ANTES DO PRIMEIRO

O regulamento do Campeonato Goiano de 1983 previa dois turnos. O campeão do primeiro enfrentaria o campeão do segundo na decisão. Um modelo simples. O problema surgiu na semifinal do primeiro turno. A Anapolina, após vencer o primeiro jogo contra o Itumbiara por 2 a 0 e ser derrotada na segunda partida por 2 a 1, contestou essa derrota na Justiça Desportiva.

A final do primeiro turno, então, ficou em suspenso. E o segundo turno teve início.

Três meses depois de iniciado esse segundo turno, estavam definidos os seus finalistas: Anapolina e Goiás. Disputaram a final em duas partidas. Na cidade de Anápolis, a Anapolina venceu por 2 a 0. Em Goiânia, quatro dias depois, o Goiás venceu também por 2 a 0. Na decisão por pênaltis, o Goiás venceu por 5 a 4.

O campeonato já tinha o campeão do segundo turno, mas ainda não havia sido realizada a final do primeiro turno. Essa final seria disputada também por Goiás e Anapolina, já que a Justiça Desportiva decidiu punir o Itumbiara e classificar a Anapolina para a decisão da fase inicial. Assim, três dias depois de disputarem a final do segundo turno, os dois adversários voltaram a campo para disputar a final do primeiro turno. Para quem queria criticar a FGF, essa era a melhor oportunidade.

Na decisão atrasada do primeiro turno, o Goiás voltou a vencer a Anapolina em uma disputa emocionante. E como foi campeão dos dois turnos, sagrou-se campeão estadual daquele ano. Para azedar ainda mais um campeonato que teve andamento tão problemático, os torcedores da Anapolina diziam furiosamente que, no último jogo da competição, o gol do Goiás no tempo regulamentar foi marcado em impedimento, enquanto um gol regular da Anapolina havia sido injustamente anulado.

  • 1984: QUADRANGULAR INTERROMPIDO

No início de 1984, a FGF decidiu aumentar o número de clubes da primeira divisão do Campeonato Goiano (de 8 para 10). Um torneio seletivo foi realizado para definir os novos participantes. Ceres e Goianésia foram os melhores classificados, mas dois outros clubes (Rio Verde e Monte Cristo) recorreram ao Tribunal de Justiça Desportiva (TJD). A FGF, então, decidiu aumentar mais uma vez o número de participantes da primeira divisão. Passaram a ser doze. Um segundo torneio seletivo foi realizado. O Rio Verde, dessa vez, se classificou. O Monte Cristo, não.

Não foi um bom começo. E ficaria ainda pior.

Em julho, começou o campeonato da primeira divisão. Houve dois turnos iniciais. No primeiro, o Goiânia foi o melhor colocado. No segundo, o Vila Nova ficou em primeiro lugar. Além dessas duas equipes, o Atlético Goianiense e o Goiás (esse último beneficiado por uma decisão judicial) também se classificaram para o quadrangular final. O Rio Verde, porém, recorreu ao STJD. Queria ser incluído no quadrangular.

O campeonato passou a ser disputado também nos tribunais. Enquanto isso, os jogos da fase final estavam sendo realizados. No fim de novembro, após uma decisão judicial favorável ao Rio Verde, a FGF decidiu interromper o quadrangular, que já estava quase encerrado.

Concluídos os procedimentos judiciais, a situação ficou assim definida: o jogo Jataiense X Goiás deveria ser realizado novamente (em Jataí). Caso o Goiás vencesse, sua classificação para o quadrangular final estaria confirmada e a competição poderia seguir adiante. O Goiás, porém, foi derrotado por 3 a 1. Essa resultado tirou o time do quadrangular e colocou o Rio Verde em seu lugar. A fase final deveria ser reiniciada.

A partir daí, a competição se desmoralizou. O Jornal do Brasil disse que o campeonato estava “mais confuso do que nunca” (Jornal do Brasil, 05.12.1984) e a revista Placar afirmou que era o “mais bagunçado de todos os campeonatos já realizados em Goiás (Placar, 28.12.1984).

“É pouco provável que o público prestigie o caos em que se transformou o futebol goiano”. (Jornal do Brasil, 05.12.1984)

No novo quadrangular final, o Vila Nova jogou cinco partidas. Empatou a primeira e venceu as outras quatro. Tornou-se campeão goiano antecipadamente e, assim, a FGF aproveitou para cancelar a última rodada do quadrangular. Foi o fim deprimente de um campeonato que deixou lembranças melancólicas.

Foto 1984
Vila Nova X Rio Verde (Placar, 28.12.1984)
  • 1985: DESCONGESTIONANTE NASAL

No Campeonato Goiano de 1985, o primeiro turno teve doze equipes participantes. As seis melhores colocadas passaram à fase decisiva. As seis piores disputaram entre si quais seriam as duas rebaixadas.

Na fase decisiva, o Atlético Goianiense foi implacável. Venceu sete partidas, empatou três e não perdeu nenhuma. Ao vencer o seu penúltimo jogo, chegou a 16 pontos, enquanto o Goiânia (segundo colocado) tinha apenas 10. O Atlético não podia mais ser alcançado na tabela de classificação, mas precisou esperar mais alguns dias para comemorar o título de campeão estadual. Ainda havia um processo judicial a enfrentar.

O jogador Célio, do Atlético Goianiense, foi acusado de atuar dopado. O seu exame havia indicado a presença de substâncias proibidas.O Goiás foi à justiça desportiva. Célio dizia que havia usado um conhecido descongestionante nasal (chamado Afrin), que interferiu no exame.

A defesa de Célio alegava irregularidade na coleta do material para o exame. O TJD, por 7 votos a 0, acatou a alegação e decidiu arquivar o processo. Os torcedores atleticanos não perderam a oportunidade de fazer chacota com o rival: “O Goiás sempre ganhou no tapetão. (…) Mas até lá ele perdeu feio” (Placar, 13.12.1985). A comemoração da torcida campeã começou à noite, depois dessa decisão judicial, e não após uma vitória dentro de campo. No dia seguinte, Atlético Goianiense e Goiás se enfrentaram. Deu empate: 1 a 1.

Foto 1985
Atlético Goianiense X Goiás (Placar, 01.01.1986)

1986: “UM CAMPEONATO SE GANHA NO CAMPO”

Em 1986, o futebol de Goiás “voltou ao normal”. O Campeonato Goiano transcorreu normalmente, sem grandes disputas judiciais. As seis melhores equipes do primeiro turno se classificaram para o hexagonal final. Nessa última fase da competição, Goiás e Atlético Goianiense disputaram a taça de campeão até o fim. Na última rodada, defrontaram-se no estádio Serra Dourada. O Goiás tinha 13 pontos e o Atlético 12, ou seja, quem vencesse seria o campeão do hexagonal e o empate beneficiava o Goiás. O Atlético Goianiense precisava ser campeão do hexagonal para forçar uma decisão do campeonato (em melhor-de-três) contra o próprio Goiás, que havia sido campeão do primeiro turno.

Nesse jogo decisivo, os atleticanos marcaram o primeiro gol aos 10 minutos do segundo tempo. Mas o Goiás virou o placar. Venceu por 2 a 1 e, como campeão do primeiro turno e do hexagonal, sagrou-se campeão estadual de 1986. A revista Placar comentou com satisfação o bom andamento do campeonato: “Um campeonato se ganha no campo. Finamente, depois de três anos, este princípio básico do futebol foi respeitado em Goiás. Desde 1983, quem acabava decidindo o título eram os juízes dos tapetões. Agora, foi diferente” (Placar, 12.09.1986).

À medida que o futebol goiano avançasse em sua profissionalização, essas turbulências tendiam a desaparecer. Afinal, a profissionalização transforma clubes e Federações em empresas esportivas, de viés capitalista, o que leva à adoção de práticas menos instáveis. O padrão profissional é o do bom funcionamento empresarial, ou seja, da busca por maior eficiência, sem confusões e crises.

Esse desenvolvimento, porém, não seria dos mais rápidos em Goiás.

O futebol goiano adotou oficialmente o profissionalismo em 1962. Duas décadas depois, ainda se mostrava dramaticamente bagunçado do ponto de vista administrativo. Essa situação revela como era difícil implantar realmente o profissionalismo esportivo em uma região considerada atrasada e periférica. Dificuldade percebida até o primeiro ano do novo século.

Os vilanovenses não esquecem aquele ano de 2000, quando o seu clube decidiu não disputar o segundo jogo da final do segundo turno. Era um protesto contra a arbitragem do primeiro jogo daquela final. Atitude muito emocional (amadora) e pouco profissional. A FGF, alguns dias depois, determinou o cancelamento de todas as partidas do time na competição. Assim, o Vila Nova ficou em último lugar na classificação final do campeonato (com nenhum ponto) e foi rebaixado para a segunda divisão.

Produção bibliográfica

LEME lança novo livro organizado por seus pesquisadores

O Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte (LEME) acaba de lançar um novo livro. Organizado pelo coordenador do grupo, Ronaldo Helal, e pelo pesquisador do LEME, Filipe Mostaro, o livro Narrativas do Esporte na Mídia – Reflexões e Pesquisas do LEME traz uma coletânea de dez artigos, todos assinados por mestres, doutores, pós-doutores e pesquisadores que fizeram ou fazem parte do Laboratório.

O livro começou a ser pensado em 2017, quando houve o convite de Helal e Filipe para os autores fazerem parte da coletânea. Com uma boa troca de passes e um time em sintonia, o resultado final ficou pronto agora, em 2020. Trazendo diferentes recortes dentro do universo da relação esporte-mídia, os artigos apresentam um conjunto de pesquisas denso, fruto de um trabalho sério de cada pesquisador, que contribuem para um debate mais profundo sobre esse campo, ajudando a compreender e ressignificar o papel do jornalismo esportivo na produção de narrativas.

Os textos fazem um percurso que vai desde o início do século até os dias atuais, passando por diferentes meios de comunicação e mostrando a intensa relação do esporte com a mídia. O time que compõe o livro é formado por Ronaldo Helal, Fausto Amaro, Francisco Brinati, Alvaro do Cabo, Juan Silvera, Leda Costa, Carol Fontenelle, Irlan Simões, Anderson Gomes, Tatiane Hilgemberg e Filipe Mostaro.

O lançamento presencial já está acertado com a editora Appris, mas ainda não tem data para acontecer, por conta da pandemia e das consequentes medidas de restrição.

Enquanto isso, os interessados podem comprar o livro direto no site da editora.

Serviço

Título: Narrativas do Esporte na Mídia – Reflexões e Pesquisas do LEME

Editora: Appris

Ano de Lançamento: 2020

Organizadores: Ronaldo Helal e Filipe Mostaro

Preço sugerido para venda: R$66,00 (versão impressa); R$29,00 (versão digital)

Sumário

  1. Futebol, mídia e nação: um breve relato do campo acadêmico
    Ronaldo Helal
  2. O olhar da imprensa carioca sobre o esporte olímpico nacional na década de 1910
    Fausto Amaro
  3. Maracanazo e Mineiratzen: imprensa e representação da Seleção Brasileira nas      derrotas das copas do mundo de 1950 e 2014
    Francisco Brinati
  4. Futebol força x futebol arte. O debate em torno do “estilo” brasileiro no mundial da Argentina em 1978
                Alvaro Vicente do Cabo
  5. O mito Pelé: nacionalismo, fanatismo ou religião, fatos bons para pensar
    Juan Silvera
  6. Quem diz não ao futebol moderno. Juventude, mídia, contracultura e imagens da resistência
                Leda Maria da Costa
  7. Futebol e consumo: hábitos e paixões de jovens da Baixada Fluminense
    Carol Fontenelle e Ronaldo Helal
  8. A invenção do “Nordestão” e o futebol-arte: investigações a partir do jornal dos      sports
    Irlan Simões e Anderson dos Santos
  9. Jogos Paralímpicos de 2012: a perspectiva individual dos atletas paralímpicos e          a sua representação na mídia
                Tatiane Hilgemberg
  10. De “professor” a “comandante”: os rumos narrativos sobre os técnicos da Seleção Brasileira de futebol na primeira metade do século XX
    Filipe Mostaro
Eventos

Encontros LEME virtual discute o futuro comunicação dos clubes

Com a impossibilidade de discussões presenciais, devido à pandemia da Covid-19, o Laboratório de Estudos em Mídia e Esportes realizará seu segundo Encontro virtual no dia 05 de junho (sexta-feira), às 19h, na modalidade on-line. Nosso convidado será Anderson Gurgel, doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP e professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Na ocasião, discutiremos o tema “O Futuro da comunicação dos clubes no pós-pandemia”.

O encontro será aberto a participação de estudantes da UERJ (graduação e pós-graduação) e de outras instituições de ensino superior, mediante inscrição prévia e condicionado ao limite de 50 participantes. Caso não seja aluno de graduação, é também possível realizar a inscrição, mas salientamos que será dada prioridade aos primeiros.

Para se inscrever, basta enviar para o nosso e-mail (lemeuerj@gmail.com) seu nome completo, curso de graduação, instituição de ensino e, caso possua, nome de usuário (@) em redes sociais (Facebook e/ou Instagram). Após o cadastro, o participante receberá o texto para leitura, bem como o link para reunião (via Zoom).

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Artigos

O direito à memória

Estamos sem futebol ao vivo. Sem esportes ao vivo. Temos o campeonato alemão, mas não temos nossos times/clubes jogando. O narrador Everaldo Marques saiu dos canais ESPN para o Sportv e em sua chegada anunciou a alegria de poder narrar os diversos esportes na nova emissora. Hoje, em função da pandemia, ele está narrando jogos de videogame entre jogadores de futebol… A discussão nesse texto não é se o e-sport é ou não é esporte ou o que se deveria transmitir agora (eu pensei que as emissoras poderiam transmitir o campeonato do “e se…”, os torcedores poderiam escolher um lance e mudar sua história… – tenho outras sugestões como o Brasileirão de meia-hora, mas estou perdendo o foco). Nas próximas linhas quero tentar pensar no direito à memória nos esportes em geral e no futebol em específico.

Nesse momento em que o futebol ao vivo não inclui nossos times/clubes ou mesmo a seleção, temos visto uma escolha por jogos específicos que autorizam algumas memórias e não outras. Sabemos que a memória não é algo qualquer:

(…) a memória, que implica reconhecer informações como sendo informações sobre o passado, precisa ser assumida como processo ativo de construção que se faz no presente e para atender a interesses do presente. Não se copia, nem se resgata, nem se descobre, nem se desvenda o passado, mas se constrói o passado. Assim, nossa relação com o passado é sempre de ruptura, é sempre lacunar, pois construímos determinadas memórias, inventamos determinadas tradições, lembramos de determinados episódios e de determinados heróis, e não de outros. É para o presente e no presente que se constrói a memória (SEFFNER, 2002, p. 370).

A memória não apenas é produzida por e para o tempo presente, ela também ensina sobre o tempo presente. Um dos ensinamentos facilmente verificáveis é a dimensão que a televisão, especialmente a aberta, ainda ocupa. É verdade que boa parte dos jogos transmitidos na televisão aberta e fechada estão disponíveis na internet, mas as audiências da televisão aberta na transmissão de jogos em que a Seleção Brasileira de futebol masculino conquistou títulos não é um dado insignificante.

Fonte: goal

Outro aprendizado importante é sobre os jogos que importam. Quase sempre os jogos que importam são aqueles que vencemos e, especialmente, em competições relevantes. Na televisão aberta, somente as vitórias. Na fechada apenas as grandes competições. Lembro de um golaço de Elivélton pela seleção em 1991 em amistoso contra a, hoje inexistente, Tchecoeslováquia. Esse jogo poderia ser reprisado? Aquele chocolate que demos na Argentina na Copa do Mundo de 1990, mas perdemos por 1 a 0 estaria na lista das possíveis exibições? Brasil e Paraguai pelas Eliminatórias para a Copa de 2002 faz algum sentido? México 1 a 0 no Brasil pela Copa Ouro, em 2003 (Thiago Mota jogando na Seleção Brasileira) poderia aparecer na televisão ou terá que ser relegado a minha memória individual por ter sido o único jogo da Seleção Brasileira que assisti fora de casa?

No cenário clubístico temos algo semelhante. Na televisão aberta alguns regionalismos aparecem, assim como alguns clubes nacionais. Parece existir times com direito à cidade, vide o exemplo dos paranaenses, times de estado, nós gaúchos estamos aqui e times nacionais, especialmente de Rio e São Paulo. Existem clubes grandes sem direito a transmissão no seu bairro… Alguém me dirá que isso é calculado pela audiência ou pelo número de torcedores. Eu sei, é verdade. Mas eu também sei que o “gosto” se constrói. Sabemos que o Flamengo campeão da Libertadores é mais brasileiro do que o Internacional campeão da mesma Libertadores. O imperativo da vitória também aparece. Está certo, meu time já perdeu algumas reprises no canal fechado, mas não eram os jogos que importavam para o meu time, mas os jogos que importavam para o adversário e que, por acidente, estivemos ali para preencher a narrativa.

A escolha dos jogos mostra algumas escolhas do que vem acontecendo desde muito, talvez especialmente a partir da virada do século ou se quisermos voltar um pouco mais podemos pensar na criação do Clube dos 13, que marcam não apenas os jogos, mas quais os clubes têm direito a memória. Na Copa do Brasil de 2004, XV de Novembro, de Campo Bom – interior do Rio Grande do Sul, e Santo André – do ABC Paulista, fizeram um grande enfrentamento com muitas viradas. Os gaúchos, então comandados pelo novato Mano Menezes venceram no Pacaembú por 4 a 3 e conseguiram ser eliminados pelos paulistas no estádio Olímpico ao serem derrotados por 3 a 1. Não me parece que esses jogos estejam sendo pensados para serem reprisados, nem mesmo para Campo Bom ou para Santo André.

Com um pouco de surpresa, vi que o Sportv transmitiu Grêmio 2 X 1 Sport pela Copa João Havelange, no ano 2000. Achei uma escolha um tanto curiosa, um enfrentamento de uma fase ainda não tão decisiva de uma competição em que o Grêmio não foi campeão. Voltei a programação e vi que aquele jogo era um da série de jogos especiais em função de Ronaldinho Gaúcho, que marcou dois gols naquela partida. Pelo Campeonato Brasileiro de 1999, o Grêmio venceu o Flamengo no Maracanã por 4 a 3 com 3 gols do atacante Zé Alcino. Apesar do feito, Zé Alcino não parece merecer a mesma reprise que Ronaldinho.

Em minha tese de doutorado ao conversar com os torcedores do Grêmio sobre o trânsito entre o estádio Olímpico e a Arena do Grêmio notei esse mesmo exercício na construção das memórias:

Conversando com torcedores sobre o estádio Olímpico, notei que as lembranças, as minhas e as deles, sempre tratavam das grandes vitórias, dos primeiros jogos e dos títulos. Boa parte das narrativas dos sujeitos sobre uma memória do estádio Olímpico era eleita em uma partida específica dos quase sessenta anos de atividades do estádio. Eu poderia ter lembrado do Gre-Nal em que perdemos por 2 a 5, da derrota no Campeonato Gaúcho de 2011, dentre outras. A história de um estádio de futebol se faz disso: de vitórias e de derrotas, de grandes jogos e de jogos ‘meia-boca’. Mas a seleção do que nós, gremistas, escolhemos quando vamos rememorar o estádio Olímpico, está quase sempre associada aos afetos de grandes jogos e vitórias (BANDEIRA, 2017, p. 17).

Na memória dos torcedores de estádio, geralmente ainda existe lugar para esse jogo de estreia. Lembro com carinho de dois jogos contra o Sport Recife no Olímpico, em 1994, estreia do meu irmão e 2012, estreia do meu afilhado. Não me parecem jogos elegíveis dessa memória coletiva.

Eu assisti 681 jogos do Grêmio no estádio. E minhas memórias não cabem apenas nas conquistas, nas grandes vitórias ou nos grandes jogadores. Assisti a 49 gloriosos empates sem gols. Vi grandes vitórias, empates e derrotas, mas também vi vitórias, empates e derrotas desimportantes que não deram mais do que o caminho de volta do estádio para casa para serem digeridos. Nosso espetacular futebol de espetáculo não é tão espetacular assim na maioria dos eventos, mas esses eventos também nos constituem torcedores. Eu sei que existem torcedores que preferem poder reclamar de uma atuação ruim do que gozar com uma grande goleada a favor.

Fonte: globoesporte

Qual o espaço para a criação do torcedor que perde nessa escolha de memórias? Todos os anos, quinze clubes perdem o campeonato brasileiro e apenas um vence (os quatro que caem é outro assunto), mas nossa formação nesse momento sem futebol parece seguir olhando apenas para os que vencem. Nossos times/clubes do futebol nos dão muito mais e muito menos do que os títulos. Sinto falta de ver os times médios do Grêmio ou aqueles que não ganharam campeonato, mas fizeram duas boas partidas no ano. São de todos esses jogos que somos feitos, quando os apagamos de nossas memórias acabamos diminuindo nossa possibilidade de nos constituirmos torcedores com os mais diferentes gostos e choros também.

Referências

BANDEIRA, Gustavo Andrada. Do Olímpico à Arena: elitização, racismo e heterossexismo no currículo de masculinidade dos torcedores de estádio. 2017. 342 f. Tese (Doutorado em Educação) – Programa de Pós-Graduação em Educação, Faculdade de Educação, UFRGS, Porto Alegre, 2017.

SEFFNER, Fernando. Explorando caminhos no ensino de história local e regional. In: RECZIEGEL, Ana Luiza Setti; FÉLIX, Loiva Otero (Orgs.). RS: 200 anos definindo espaços na história nacional. Passo Fundo: UPF, 2002, p. 367-382.

Eventos

Seminário #Maraca70 recebe trabalhos em fluxo contínuo

Anotação 2020-05-29 135848

O Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte (LEME) informa que, a partir de agora, receberá os resumos expandidos para o Seminário Internacional #Maraca70 em fluxo contínuo. O prazo para envio de textos seria até o dia 30 deste mês, mas, diante do contexto da pandemia, julgamos pertinente alterá-lo. Pelo mesmo motivo, não temos ainda a definição se o evento realmente acontecerá de forma presencial, em 6 e 7 de outubro, se iremos aderir a modalidade online ou ainda se haverá adiamento de data.

Sendo assim, continuamos recebendo resumos expandidos de trabalhos de graduandos, graduados, mestrandos, mestres, doutorandos e doutores, divididos nos seguintes eixos temáticos:

GT1- Esporte, cidade e identidades

O esporte desempenha um papel fundamental tanto na construção quanto na afirmação de uma pluralidade de identidades que atuam dentro e fora de fronteiras territoriais. Essa relação com a territorialidade confirma a necessidade de compreensão do esporte como prática que se entrecruza com o espaço urbano, estabelecendo com ele, uma trama de relações e significados que põe em movimento o jogo das identidades em um contexto de tensionamentos entre o local e o global.

Coordenação: Carol Fontenelle

GT2- Mídia, esporte e representação

A mídia, gradualmente, se consolidou como um importante veículo mediador entre os esportes e o público, participando não apenas da circulação, mas também da produção de um vasto imaginário construído em diálogo com uma série de representações presentes dentro e fora do território esportivo. As representações produzidas são um material cuja análise pode nos possibilitar o acesso às tensões e às contradições dos valores e discursos que estão em jogo.

Coordenação: Álvaro do Cabo

GT3 – Estádios, arenas e os modos de torcer

A diversidade dos modos de torcer fomenta variadas possibilidades de construção identitária de torcedores e torcedoras nas arquibancadas. Essa pluralidade faz do ato de torcer um fenômeno complexo, muitas vezes, contraditório e que faz dele um locus de análise das reações, adaptações e resistência às mudanças ocorridas no cenário futebolístico, sobretudo, em

diálogo com as transformações geradas pelo intenso processo de mercantilização e midiatização dos eventos esportivos.

Coordenação: Irlan Simões

***

Os trabalhos devem ter no mínimo 7.000 e no máximo 12.000 caracteres e necessitam estar no template do evento (clique no link para acessar) e devem ser enviados para o e-mail “seminariomaraca70@gmail.com”. Serão aceitos para análise resumos em Português ou Espanhol e que versem sobre um dos GTs. Não será possível o envio de um mesmo resumo ou de resumos diferentes para mais de um GT.

No prazo de um mês antes do evento, iremos divulgar a lista de resumos aprovados e, para garantir a apresentação presencial dos trabalhos, será necessário o pagamento da taxa de inscrição:

Graduando – gratuito;

Graduados – R$ 20,00

Mestrandos, mestres e doutorandos – R$ 40,00

Doutores – R$ 50,00

Não será necessário o envio de trabalhos completos.

Apenas após a divulgação da lista de resumos aceitos, será necessário efetuar o pagamento da inscrição.

Obs.: Não haverá ajuda de custo para a participação presencial do evento.

Produção audiovisual

Já está no ar o décimo quinto episódio do Passes & Impasses

Acesse o décimo quinto episódio do podcast Passes e Impasses no Spotify*, Deezer*, Apple PodcastsPocketCastsOvercastGoogle PodcastRadioPublic e Anchor.

O tema do nosso décimo quinto episódio é “Rivalidades Estaduais”. Com apresentação de Filipe Mostaro e Mattheus Reis, gravamos remotamente com Thalita Neves, doutoranda do PPGCom/UERJ e pesquisadora que vem estudando as rivalidades estaduais no futebol brasileiro, e Édison Gastaldo, pesquisador do LEME e professor no Centro de Estudos de Pessoal – Forte Duque de Caxias.

O podcast Passes e Impasses é uma produção do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte em parceria com o Laboratório de Áudio da UERJ (Audiolab). O objetivo do podcast é trazer uma opinião reflexiva sobre o esporte em todos os episódios, com uma leitura aprofundada sobre diferentes assuntos em voga no cenário esportivo nacional e internacional. Para isso, traremos sempre especialistas para debater conosco os tópicos de cada programa. Você ama esporte e quer acessar um conteúdo exclusivo, feito por quem realmente pesquisa o esporte? Então não deixe de ouvir o décimo quinto episódio do podcast Passes e Impasses.

No quadro “Toca a Letra”, a música escolhida foi Whisky a go-go” foi composta pela dupla Michael Sullivan e Paulo Massadas e gravada pelo grupo Roupa Nova em 1984.

Passes e Impasses é o podcast que traz para você que nos acompanha o esporte como você nunca ouviu.

ARTIGOS, LIVROS E OUTRAS PRODUÇÕES:

Equipe

Coordenação Geral: Ronaldo Helal

Direção: Fausto Amaro e Filipe Mostaro

Roteiro: Marina Mantuano.

Produção: Fausto Amaro e Marina Mantuano

Edição de áudio: Leonardo Pereira (Audiolab)

Apresentação: Filipe Mostaro e Mattheus Reis

Convidados: Thalita Neves e Édison Gastaldo

Artigos

“Amarelinha” desbotada

Durante a reprise na TV Globo da conquista do pentacampeonato mundial do Brasil na final da Copa de 2002, as redes sociais ficaram repletas de comentários saudosistas e nostálgicos. Um deles, de Oliver Stuenkel, prestigiado professor de relações internacionais, foi particularmente interessante. Ele postou uma foto sua EM 2002 com uma camisa da seleção e a seguinte legenda: “Que saudades de 2002. Nessa época, dava para vestira a camisa da seleção sem ser confundido com terraplanistas de extrema direita”.

Foto: Presidente Bolsonaro é recebido por crianças com camisa da seleção em ato antidemocrático contra o Congresso Nacional e o STF (Foto Wagner Maciel/Estadão Conteúdo)

Desde março de 2015, de forma mais explícita, o uniforme principal da seleção brasileira de futebol vem sendo usado por grupos conservadores em manifestações. Inicialmente a favor do impeachment da então presidenta Dilma Rousseff e, posteriormente, em apoio à candidatura do atual presidente Jair Bolsonaro. No momento de mais baixa aprovação do governo Bolsonaro, em meio à falta de comando no combate à pandemia do coronavírus [1], nossos domingos tem sido marcados por xingamentos às instituições, flertes autoritários em manifestações dos mais intransigentes e inflexíveis militantes. O uniforme é a “amarelinha”, vestida por muitos deles.

A seleção brasileira de futebol foi durante o século XX um dos símbolos mais importantes para a construção do que é “ser brasileiro”. Essa construção foi também um projeto político que buscava integrar uma sociedade dividida pela escravidão e pelos regionalismos, e teve nas vitórias da seleção brasileira e nas narrativas da imprensa esportiva, a partir dos anos 1930, a base para a consolidação da ideia de “País do Futebol” [2]. Essa ideia, mesmo enfraquecida nos tempos atuais, tem a ver com a paixão e a esperança com a seleção, sobretudo em tempos de Copa do Mundo.

A camisa amarela daquele que é, até agora, o único time pentacampeão mundial adquiriu uma série de representações e atributos ao longo das conquistas. A grande maioria deles foi positivo tanto sobre o futebol jogado pelos brasileiros como sobre o povo brasileiro. Cartão de visita e passaporte informal do brasileiro pelo mundo, ela passou a significar na imaginação “talento diferenciado”, “irreverência” em campo, “alegria”, e “solidariedade” em quem a veste [3]. Representações da forma que jogamos e que até hoje tentam ser reproduzidas na imprensa esportiva nacional, mas que não é mais dominante

Por ter feito uma monografia sobre o tema, percebi como foi avassaladora a transformação simbólica que a camisa amarela sofreu em seu processo de apropriação pela extrema-direita. Há até pouco tempo, a “amarelinha” possuía conotação e representação que estavam acima das disputas políticas e partidárias. O Brasil foi campeão em 1994, derrotado na final de 1998, mas, independentemente disso, Fernando Henrique Cardoso foi eleito e reeleito presidente. O pentacampeonato em 2002 não ajudou o PSDB a se manter na presidência, e Luís Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT), venceu a eleição daquele ano. A seleção brasileira não venceu os mundiais de 2006 e 2010, e o PT continuou no comando do Poder Executivo Federal, com Lula e, posteriormente, Dilma Rousseff, eleita para o primeiro mandato à época.  Em nenhuma dessas eleições, a camisa amarela da seleção foi usada como símbolo de um dos candidatos. Foi uma característica pós-redemocratização, enquanto, durante a Ditadura Militar, a seleção e a camisa amarela tenham se aproximado do Regime em 1970 com a propaganda política que tentou surfar na onda do tricampeonato no México [4].

Desde a instauração e vigência da Nova República, a partir de 1988, o esporte também vive uma nova era, marcada pela inserção de times e marcas, como a Nike, em um mercado agora global do esporte com cifras bilionárias em contratos de patrocínio, pela ida de jogadores brasileiros cada vez mais cedo para atuarem no exterior, e pelos poucos jogos da seleção em solo nacional. A seleção brasileira passa por um processo de desterritorialização, despolitização e desnacionalização para se inserir à lógica transnacional do capital [5]. A Seleção Brasileira teve Londres como sua casa. Menos de 10% dos amistosos do time desde 2003 aconteceram em solo nacional. Tudo isso distancia o torcedor da seleção e seus símbolos, mas nada do que estamos vivendo atualmente teve tanto impacto negativo.

As representações em torno da “amarelinha” passaram a ter as conotações mais negativas possíveis a partir da crise política atual [6]. Não tivemos nem grandes conquistas em campo para contrabalancear seu uso político. Os rituais em torno do futebol, o “clima de copa”, foram transportados para a onda conservadora responsável por retrocessos políticos, econômicos e sociais.

É importante lembrar que uma das forças de mobilização da Copa do Mundo tem a ver com o duelo de nações e identidades em campo, de forma que uma seleção de onze titulares mais os 12 reservas representaria o país como um todo. No caso da polarização política, podemos fazer a comparação entre o duelo das “nações”: a que foi contra a destituição da então presidente Dilma Rousseff e a eleição de Jair Bolsonaro, e a que apoiou uma conservadora à direita na política nacional.

Foto: Manifestante vestido com camisa da seleção brasileira comemora prosseguimento do Impeachment na Câmara dos Deputados em 2016 (Foto: Nacho Doce/Reuters)

Durante o impeachment, a votação de admissibilidade da deposição de Dilma Rousseff que ocorreu no dia 17 de abril de 2016, um domingo à tarde, na Câmara dos Deputados, escancarou esses novos rituais, por parte dos apoiadores do impeachment. Em comum, a congregação de um grupo que tinha um objetivo comum (no caso, vencer a partida do impeachment); vestir a camisa amarela da seleção; pertencimento e socialização neste grupo; cantar o hino nacional; a vibração típica de gol em cada voto dado a favor do impeachment; a apoteose quando o resultado se definiu a favor do grupo que apoiava o impeachment, com a explosão de fogos, cornetas, “buzinaços” e “apitaços”.

Algumas representações da cobertura da imprensa capturam essas semelhanças. Reportagem no site da revista semanal “Época”, no dia da votação do processo na Câmara dos Deputados (17 de abril de 2016), tem como título: “Pró-Impeachment, Avenida Paulista tem clima de festa da Copa”. No subtítulo, “Camisetas da seleção, vuvuzelas, cerveja holandesa, coreografias e comemoração, na derrota de Dilma na votação da Câmara”[1]. [7]

No campo cultural e das festas populares, a camisa amarela da seleção foi símbolo da ala “Manifestoches”, no desfile da Escola de Samba Paraíso da Tuiuti, vice-campeã do Carnaval do Rio de Janeiro de 2018. A camisa, em uma versão genérica, foi usada para criticar a suposta “alienação” dos manifestantes pró-impeachment vestidos com o uniforme da seleção brasileira e que carregavam o pato amarelo da Federação das Industrias do Estado de São Paulo (FIESP), também apoiadora do impeachment no enredo “Meu Deus, meu deus , está extinta a escravidão?”. [8]

Mostaro e Fontenelle (2018) [9] destacam um mapeamento quantitativo realizado durante a Copa do Mundo sobre as narrativas em torno da camisa da seleção brasileira. A pesquisa começou no primeiro dia de competição (pela fase de pico do engajamento do público com o torneio, a partir do jogo de abertura do mundial) e foi encerrada no dia da eliminação da equipe comandada por Tite diante da Bélgica nas quartas-de-final, para evitar que a derrota em campo influenciasse o levantamento. Duzentas e dezesseis pessoas responderam ao formulário digital. 82,6% afirmaram “já ter comprado uma camisa oficial da seleção brasileira”; 61% “já compraram alguma blusa amarela em alusão à camisa da seleção brasileira e usaram durante a Copa do Mundo”; 43,9 % “acreditam que a camisa virou uma espécie de marca de um movimento político”; 21,4% “deixaram ou deixarão de usar a camisa da seleção brasileira devido à alusão aos protestos” (46,2% “não deixaram ou deixarão de usar a camisa da seleção brasileira”; 21% “continuarão usando a camisa da seleção apesar de não concordarem com os protestos que pediam a saída de Dilma.

Em meio à polarização política nacional, acredito que o uso da camisa amarela da seleção grupos conservadores e até mesmo reacionários em protestos de rua não está dissociado de uma transformação discursiva maior, que afeta outras democracias ocidentais. Um processo de crise do capitalismo e dos princípios políticos e econômicos liberais no qual o recrudescimento conservador e ultranacionalista se impõe como alternativa sedutora para muitos [10].

A interdependência e desregulamentação dos mercados têm deixado as economias nacionais suscetíveis a crises e ao aumento da desigualdade. No caso brasileiro, algumas especificidades, de 2013 para cá, reforçam a “onda conservadora” que chegou ao poder: crise e descrença na representação política; deflagração de escândalos de corrupção no âmbito da Operação Lava-Jato e a crise econômica que tem afetado grande parte da sociedade brasileira com baixo crescimento do Produto Interno Bruto e elevado desemprego. No bojo das transformações e fragmentações que consolidaram a Globalização, é possível constatar a ascensão retórica de representações que remontam a “origens”, “raízes” e “puritanismo” culturais, alicerçadas na radicalização de concepções nacionalistas, étnicas, religiosas, e que seriam responsáveis por resgatar a “ordem” e a “prosperidade”, em uma perspectiva ilusória e saudosista do passado.

Apropriar-se dos símbolos nacionais, por grupos identificados como de “extrema-direita”, é um mecanismo amplamente usado em diversos países e faz parte de uma estratégia elaborada de confundir Estado e Nação com uma ideologia, um político e um partido específicos. Traje nacional, a camiseta da seleção simbolizou no passado que aqueles que a vestem angariam todo o complexo de atributos positivos associados à nação brasileira, uma vestimenta ritual que afirma de modo inequívoco o pertencimento daquele que a veste aos ‘nossos’ valores. Uma das marcas dessas candidaturas consideradas de extrema-direita e de movimentos políticos conservadores globalmente é, discursivamente, se intitular como legítima dona dos símbolos pátrios, como parte de uma estratégia sofisticada, pois permite uma suposta divisão da população entre patriotas de um lado e inimigos da pátria de outro. Não à toa, um dos slogans da campanha vitoriosa de Bolsonaro foi “Meu partido é o Brasil”, que também estava presente em uma faixa vista nas manifestações de junho de 2013.

Portanto a camisa amarela da seleção brasileira, que teve um papel decisivo na formação do que é “ser brasileiro” ao longo do século XX, não ia ficar de fora dessa disputa política, já que possui forte apelo sentimental. Só que pela primeira vez na nossa história recente, a camisa perdeu o seu poder agregador, virou algo restrito a um nicho, que gera cada vez mais repulsa, como indicam as pesquisas de opinião.

E isso diz muito sobre nosso futuro, sobre a ausência de horizontes. Porque a camisa representava a ideia de termos um destino comum. Podia aparentemente se mostrar de forma clara somente a cada 4 anos, mas ela estava lá, sendo a camisa a prova concreta. Um destino comum de vencer, de ser grande e feliz. Injusto, racista e desigual, o Brasil não mudaria da água para o vinho da noite para o dia. Mas, ainda que com contradições e lacunas, atrasos e pessoas deixadas para trás, um projeto de país surgia. Não à toa, em 2010 o Brasil estava na lista dos países mais felizes do mundo [10].

Isso foi comprometido. Em 2019, que projeto em comum nos move harmonicamente? O que temos de consenso? A “Amarelinha” poderia não ter uma unanimidade totalizante, mas era elemento consensual. Se antes gerava identificação, agora pode gerar rejeição caso você não seja “Bolsominion”.

Como a história se repete e ciclos de luzes e obscurantismo se intercalam, a pergunta que fica é: se, no futuro, uma outra onda conservadora, moralista e nacionalista capenga se instaurar no Brasil, a camisa amarela da seleção estará novamente desempenhando o mesmo papel de agora? Esse vai ser o significado dominante da “amarelinha”, já que cada vez mais a seleção não empolga? [11] Alguns não querem pagar para ver tanto é que os jornalistas João Carlos Assumpção e Juca Kfouri sugerem até uma campanha para mudar a camisa principal da seleção [12].

 

Referências

[1] Reprovação ao governo Bolsonaro vai a 50%, aponta XP/Ipespe; 57% veem economia no caminho errado. Info Money , São Paulo. 20 de junho de 2019. Disponível em: https://www.infomoney.com.br

[2] HURT, J. O Brasil: um Estado-nação a ser construído. O papel dos símbolos nacionais, do império à república MANA 18(3): 471-509, 2012

[3] DAMO, A. A Magia Da Seleção. Revista Brasileira de Ciências do Esporte, vol. 28, núm. 1, setembro, 2006, pp. 73-90

[4] MOSTARO, F. F. R. A Seleção Brasileira como propaganda do Governo. Getúlio em 1938 e os militares em 1970. Trabalho apresentado no DT 1 – Jornalismo do XV Congresso de Ciências da Comunicação na Região Sudeste realizado de 13 a 15 de maio de 2010

[5] ALVITO, Marcos. A parte que te cabe neste latifúndio: o futebol brasileiro e a globalização. Análise Social. Lisboa, n. 179, p. 451-474, 2006.

[6] PINTO, C. A trajetória discursiva das Manifestações de Rua no Brasil (2013-2015). Lua Nova, v. 100, 2017.

[7] “Pró-Impeachment, Avenida Paulista tem clima de festa da Copa”. Revista Epoca, São Paulo, 16 de abril .Disponível em: https://epoca.globo.com> Acesso em 2 de outubro de 2019

[8] “Com desfile político, Tuiuti se torna assunto mais comentado na internet”. Correio Braziliense, Rio de Janeiro, 12 de fevereiro de 2018. Acesso em 14 de outubro de 2019. Disponível em: https://www.correiobraziliense.com.br

[9] MOSTARO, F. F. R.; FONTENELLE, C. “Patriota” ou “Manifestoche”: a camisa da seleção brasileira e sua reapropriação nas narrativas políticas”. Trabalho apresentado no GT 4 durante o XV Poscom PUC-Rio, de 6 a 9 de novembro de 2018.

[10] LÖWY, M. Conservatism and far-right forces in Europe and Brazil. Tradução de Deni Alfaro Rubbo e Marcelo Netto Rodrigues. Serv. Soc. Soc.  n. 124. São Paulo out./dez. 2015

[11]HELAL, R; SOARES, A. O Declínio da Pátria de Chuteiras: futebol e identidade nacional na Copa do Mundo de 2002. Disponível em: https://www.ludopedio.com.br

[12] Campanha para mudar a camisa da seleção. Blog do Juca Kfouri – UOL. São Paulo, 14 de maio de 2020. Disponível em: https://blogdojuca.uol.com.br