Artigos

Narrativas sobre o árbitro de vídeo, um bom objeto para observar

“Certa vez invoquei o videoteipe para comprovar um gol irregular do Fluminense. Ele me jogou na cara a sentença desconcertante: – O videotape é burro!” – Armando Nogueira falando da paixão de Nelson Rodrigues pelo Fluminense.

A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) anunciou, esta semana, que pretende adotar o árbitro de vídeo nas competições que organiza. O uso de novas tecnologias pela arbitragem em jogos de futebol se tornou um tema recorrente na imprensa esportiva nos últimos tempos.

Uma das razões para a promoção deste debate é a melhora das transmissões televisivas de jogos de futebol. Na última Copa do Mundo, por exemplo, cada arena contava com, ao menos, 34 câmeras nas transmissões oficiais dos jogos (o uso de câmeras extras ou exclusivas por emissoras licenciadas poderia aumentar esse número).

arbitro
Recurso vídeo já foi utilizado em duas competições da FIFA, o Mundial de Clubes de 2016 e a Copa das Confederações de 2017 (Foto: FIFA)

Com tamanho avanço tecnológico as transmissões televisivas passaram a evidenciar cada vez mais as falhas da arbitragem no decorrer de uma partida. Desta forma passa a ganhar força a tese de que a tecnologia também deveria entrar em campo para garantir a lisura, a retidão, da arbitragem.

Porém, este movimento é acompanhado pela resposta dos que desejam manter a tecnologia afastada dos campos de jogo. O principal argumento é o de que o uso de artefatos como o árbitro de vídeo tiraria a graça do esporte, pois acabaria com polêmicas e diminuiria a imprevisibilidade do jogo.

No entanto, o objetivo deste texto não é debater se a tecnologia deve ou não ser adotada pelo futebol. Ele tem o objetivo de chamar a atenção para as narrativas da imprensa sobre o assunto.

O resultado exato de um possível uso de novas tecnologias no futebol não pode ser totalmente previsto. Mas aposto que haverá uma mudança profunda nas narrativas da imprensa sobre as partidas de futebol. Isto porque a arbitragem passará a contar com uma ferramenta que vai mudar sua atuação nas partidas. Consequentemente, o olhar da imprensa sobre os juízes irá mudar, se para melhor ou pior apenas o tempo dirá.

Ao mesmo tempo, a tecnologia diminuirá o espaço para a opinião de jornalistas relacionados a lances polêmicos, pois as imagens irão dirimir as dúvidas dos árbitros em tempo real, melhorando a sua performance. Contudo, ainda haverá momentos em que acontecerão falhas, o que alimentará o debate sobre a efetividade ou não desta ferramenta, o que pode ser visto em campeonatos que já a adotam, como a Liga Alemã e a Italiana.

Penso então que as narrativas da imprensa sobre as novas tecnologias no futebol serão um rico objeto de pesquisa na área da comunicação e esporte.

Com este texto encerro as minhas colaborações com o Blog de forma temporária. Desde já agradeço a todos os membros do Grupo de Pesquisa Esporte e Cultura (FCS/UERJ) pelo espaço e parceria. Em especial agradeço ao professor Ronaldo Helal por seus ensinos e generosidade. Espero retornar com as contribuições em um futuro próximo.

Anúncios
Artigos

“Copa do Mundo 2014: Futebol, Mídia e Identidades Nacionais” debate a Seleção e os Brasileiros em mundiais

O Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte (LEME) lançou nesta quinta-feira o livro “Copa do Mundo 2014: Futebol, Mídia e Identidades Nacionais”. A Livraria da Travessa em Ipanema recebeu, na noite de ontem, entusiastas das pesquisas acadêmicas em comunicação e esporte, pesquisadores, além de figuras ilustres, como o ex-goleiro Cantareli, campeão mundial pelo Flamengo em 1981, para a sessão de autógrafos com os organizadores da publicação, Ronaldo Helal e Édison Gastaldo.

Este slideshow necessita de JavaScript.

No livro, diversas temáticas que envolvem um megaevento esportivo são abordadas, como cidades e culturas urbanas, identidades nacionais, idolatria pela seleção brasileira e cobertura da mídia. A coletânea de textos é um desdobramento dos debates promovidos no seminário internacional “Copa do Mundo, Mídia e Identidades Nacionais”, realizado pelo LEME em 2014, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

O antropólogo Édison Gastaldo acredita que a Copa do Mundo interfere em vários aspectos do imaginário do brasileiro e, por isso, constitui um tema que precisa ser debatido continuamente:

“Em jogo do Brasil na Copa do Mundo, fecham-se os bancos, as escolas; muda-se o trânsito, altera-se a rotina. Isso não é um fato corriqueiro, acontece só a cada 4 anos. Isso impacta na economia, na mídia e na moral. Por isso, a Copa é um campo fértil de fenômenos para análises e interpretações, e foi isso que tentamos fazer no livro.”

Para o sociólogo e coordenador do LEME, Ronaldo Helal, a coletânea de artigos aprofundará o debate sobre o que é torcer pela seleção brasileira depois de uma Copa que transformou as representações existentes até então sobre o time pentacampeão do mundo:

“Eu costumo dizer que a Copa de 2014 não foi uma tragédia, como foi a de 1950, mas um vexame. O livro, porém, não é uma tentativa de explicar o “7 A 1″. O que queremos é apresentar significados dessa derrota em comparação com outras derrotas e vitórias da seleção no passado, em uma época de forte consolidação dos Estados-nações, e hoje vivemos um momento diferente, com a globalização e fragmentação de identidades”.

Após a Copa do Mundo de 2014, muitas crenças difundidas na opinião pública sobre nosso futebol deixaram de fazer sentido, segundo Helal e Gastaldo.  A “mística da camisa amarela” e “com o brasileiro não há quem possa nos gramados” seriam algumas delas. Independentemente da evolução técnica e tática da seleção brasileira sob o comando de Tite, analisar o que ocorreu naquele 8 de julho de 2014 sob os mais variados prismas, é fundamental não somente para evitar novos fracassos e frustrações no ano que vem, em 2022 e assim por diante. Mas também para nos entendermos melhor como sociedade, dado o vínculo historicamente estabelecido entre futebol e o povo brasileiro.

“Copa do Mundo 2014: Futebol, Mídia e Identidades Nacionais” já está à venda em sites e livrarias.

 

Artigos

Semana de História da UERJ abre espaço para trabalhos sobre esporte

A décima segunda edição da Semana de História Política da UERJ, que acontecerá entre os dias 02 e 06 de outubro, já está com inscrições abertas para receber resumos de trabalhos para serem analisados. Neste ano busca-se, como um ato de resistência, continuar promovendo a pesquisa histórica, bem como o diálogo e aproximações entre pesquisadores com estudos que envolvam abordagens teórico-metodológicas no âmbito da História Política, sem deixar de lado também suas conexões com a História Social e Cultural.

IMG_20170802_105716

Presente nas últimas edições, o Simpósio Temático “História e Esporte” faz parte da programação dos organizadores para este ano, sendo organizado por Álvaro do Cabo, integrante do Grupo de Pesquisa “Comunicação e Esporte”, e pelo professor Élcio Cornelsen, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Pesquisadores em esportes poderão enviar os resumos até o dia 25 de agosto e o pagamento da taxa de inscrição, de R$ 50, deve ser feita impreterivelmente até o dia 31 de agosto.

O projeto visa fomentar o debate acadêmico entre pesquisadores, tendo o intuito de divulgar a produção historiográfica dos interessados e promover o intercâmbio de ideias, profissionais (discentes e docentes) e instituições, contribuindo para a solidificação dos Programas de Pós-Graduação no Brasil.

Dentro de seu espírito de renovação e incentivo aos novos pesquisadores, a XII Semana História Política, mesmo no difícil momento pelo qual passa a UERJ, busca realizar um evento de qualidade e importância no meio acadêmico. Serão oferecidas mesas para apresentações de trabalhos de pesquisa de graduados e graduandos, convidando-os a contribuir com a qualidade alcançada no evento nas edições anteriores através das apresentações e publicações de trabalhos completos em nosso anais.

O evento realiza-se nas dependências da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, no campus Maracanã, sob a direção de uma Comissão Organizadora, composta por discentes do Programa, que se liga à Coordenação da Pós-Graduação em História da universidade. A Semana de História impulsiona pesquisadores de diversos Programas do estado, e também do país, a produzir e movimentar seus conhecimentos, permitindo-os ganhar visibilidade, ampliar a temática e trocar experiências.

Mais informações sobre a programação em semanahistoriauerj.net

Artigos

Alerta de pessimismo

Se você estiver precisando de um texto motivacional, sugiro que procure uma mensagem de otimismo no grupo da família no Whatsapp. Nas próximas linhas o leitor só encontrará rancor e desalento. Acredito que seja obrigação do brasileiro estar desmotivado depois de tantos 7×1’s seguidos. Talvez esteja na hora de começar a escrever “sete-a-um” como um sinônimo de derrota.

“Não fale em crise, trabalhe”. Uma ova! Isso é conversa para boi dormir. Papo de quem se beneficia do massacre ao qual a classe trabalhadora tem sido submetida. A corrupção escancarada com que o país convive, obviamente, não é novidade. O que há de novo é a desfaçatez com que as classes médias a têm tolerado. Até outro dia era legítimo ir às ruas pedir a saída de um governante. Hoje, mesmo que os indícios sejam claros, protestar tornou-se defeito. Eu não vou abrir mão de reclamar.

images
O povo brasileiro é guerreiro, mas gritar “Fora Temer” por um ano inteiro sem nenhuma influência sobre a classe política frustra (Foto: Érico Andrade / G1).

Para qualquer lado que se olhe é possível achar um motivo. Pode ser a tal crise econômica, a impunidade ou as reformas empurradas goela abaixo da população (que favorecem apenas alguns setores e que são conduzidas e aprovadas por políticos sem legitimidade). Sem falar no completo sucateamento do Estado do Rio de Janeiro que atinge de forma tão dura a nossa querida Uerj. Mas nada é mais revoltante que a letargia e o silêncio que estamos fazendo nesse momento.

Aprisionado nesse labirinto de desgraças, tenho tentado me enfeitiçar novamente pelo futebol. Em vão. A alegria de um gol até permite um discreto sorriso. Aquele palavrão gritado a plenos pulmões até ajuda. Mas não basta. O esporte diverte, mas não esconde as nossas mazelas sociais. A violência entre torcedores nos lembra da guerra civil que vivemos nas grandes cidades. O racismo, o sexismo e a homofobia, no campo e na arquibancada, evidenciam como a desigualdade e o preconceito mais torpe ainda está presente no Brasil. A irresponsabilidade de grande parte da crônica esportiva reflete como a mídia brasileira é parcial e nada independente. Eu tentei, mas no fundo já sabia que o futebol não conseguiria ser meu ópio.

Acreditei que encontraria uma forma de encerrar esse texto com algum pingo de esperança. Mas enquanto escrevia, tomei conhecimento do falecimento trágico, aos 18 anos, de João Pedro Braga, filho do treinador Abel Braga.

Artigos

“Ritos da Nação” e a cultura do torcer em Copas do Mundo

Daqui a menos de um ano, as emoções da Copa do Mundo nos proporcionarão imagens como as do mini-documentário produzido, em 2006, pelo antropólogo Édison Gastaldo, membro do Grupo de pesquisa “Comunicação e Esporte”. Neste trabalho, Gastaldo mostra, de forma sucinta e objetiva, como o mundial de futebol interfere na nossa cultura sobre vários aspectos durante os 30 dias de jogos

Quatro equipes de filmagem captaram os ritos de interação e expressões da torcida brasileira enquanto acompanhava as partidas da Copa do Mundo de 2006 em bares, restaurantes, praças e outros locais públicos. “Ritos da Nação” sintetiza o “Brasil parado em frente à tela de tv” e a cultura de futebol que é apropriada pela moda, pelo mercado e pelas instituições.

Com a melhora do rendimento da seleção brasileira em campo, a partir do momento em que Tite passou a comandá-la, o ânimo do torcedor passou a ser mais otimista quanto à conquista do hexacampeonato na Rússia. No entanto, em meio à crise identitária do país e a instrumentalização da camisa “amarelinha” para fins políticos para lá de questionáveis em algumas manifestações de rua, como o próprio Édison Gastaldo já ressaltou em entrevista para o blog “Comunicação, Esporte e Cultura”, será que essa tradição de torcer ganhará novos contornos? Ou a paixão pelo futebol brasileiro e o interesse, em tese, comum pelo título atenuará, pelo menos durante um mês de bola rolando,  polarização que tanto prejudica nosso projeto de país e sociedade modernos?

Essa dúvida já é capaz de suscitar inúmeras pesquisas feitas por especialistas e entusiastas sobre o tema na Academia.

Confira abaixo o documentário “Ritos da Nação:

Artigos

Exposição “Relíquias do Futebol” movimenta o Maracanã em meio à escassez de jogos.

Nada melhor que ter o maior palco do esporte mundial como cenário para relembrar a história do futebol. No último sábado, colecionadores – entre eles alguns que participaram das gravações do documentário “Segunda Pele Futebol Clube”, produzido pelo LEME – e fanáticos por futebol se reuniram no Maracanã para prestigiar a exposição “Relíquias do Futebol”. Organizado pelo Tour Maracanã em parceria com a Associação de Colecionadores de Camisas de Futebol do Rio de Janeiro (ACCFRJ), o evento possibilitou ao público ver de perto camisas de craques dos clubes do Rio, do Brasil, do exterior e estrangeiros, da seleção Brasileira e de outras seleções campeãs mundiais, além de taças, medalhas e bolas.

Este slideshow necessita de JavaScript.

O Maracanã vive um imbróglio administrativo cujo desfecho está longe de ser resolvido para que o estádio volte a ter um calendário de jogos e receba as coloridas torcidas dos clubes brasileiros e, em especial, do Rio de Janeiro. Enquanto o “Maraca” não volta a ser nosso, eventos como o do último sábado atraem público e trazem vida ao “maior do mundo”. Para Paulo Pires, presidente da ACCFRJ e um dos organizadores da exposição, é importante o Maracanã se autoafirmar como um local que respire história:

“O próprio Maracanã, em sua parte histórica de exposição, ainda precisa ter mais e mais itens que contem a glória do futebol, e esses itens, muitas vezes, estão nas mãos de colecionadores. E os colecionadores gostam de expor nossas peças, então nada melhor do que fazer uma exposição desse porte dentro do maior estádio do mundo”.

Mário Carvalho, organizador da exposição do último sábado e representante da “Inova Gestão de Eventos”, empresa responsável por gerenciar o Tour Maracanã, planeja novas atrações para a visitação, que voltou em junho após um ano de paralisação.

“Pensamos em fazer eventos privados, como aniversários de clubes, datas comemorativas de títulos, mas também outros eventos abertos. Em agosto, pretendemos fazer um campeonato de futebol de botão, com a presença de jogadores amadores e profissionais”.

No período entre as gravações do documentário “Segunda Pele Futebol Clube” e a exposição, alguns colecionadores, como o flamenguista Vitor Eidelman e o vascaíno Paulo Pires, conseguiram expandir suas coleções, adquirindo as camisas mais desejadas por eles e que, até então, não faziam parte de seus respectivos acervos. Vitor agora possui a camisa branca do Flamengo usada na final do Mundial de Clubes de 1981, contra o Liverpool; camisa de um dos próprios jogadores que estavam em campo naquela decisão: Lico. Já Paulo pode se orgulhar de possuir em sua coleção a rara e polêmica camisa vascaína da final da Copa João Havelange de 2000, marcada pelo embate entre duas das maiores emissoras de TV do país: a Rede Globo e o SBT.

_MG_6311
Vitor com seu novo xodó, a camisa utilizada por Lico na final do Mundial de Clubes de 1981, no Japão. Foto: Débora Gauziski
_MG_6331
Com sorriso estampado no rosto, Paulo posa ao lado da camisa da conquista da Copa João Havelange obtida na semana da exposição que ocorreu n Maracanã. Foto: Débora Gauziski

Apesar da concorrência muitas vezes acirrada entre colecionadores por uma camisa ou outro item raro relacionado ao futebol, o maior legado desses fanáticos por futebol são a paixão, o zelo com a história e transmissão desses sentimentos para as próximas gerações. Os tricolores Márcio e Maurício passaram a paixão pelos seus clubes e pelo colecionismo aos filhos, uma garantia de que a história do futebol mais vitorioso do planeta não se perderá.

“Ontem, eu fiquei acordado até tarde ajudando meu pai e queria que ele levasse mais camisas ainda porque de carro dá pra levar mais coisa… e quase que meu pai afundou a mala do carro”, disse Lucas, filho do Maurício, que levou cerca de 140 camisas do Fluminense ao Maracanã no último sábado, entre as quais estava a usada por Fred quando marcou o gol número 300 de sua carreira, em vitória do tricolor por 2 a 1 contra o Botafogo, em abril de 2015.

_MG_6265
Lucas segue os passos do pai, Maurício, e quer ter uma coleção própria. Foto: Débora Gauziski
_MG_6248
Para Eduardo e Frederico, a maior alegria é ir ao Maracanã com o pai, Márcio, para ver o Fluminense em campo. Foto: Débora Gauziski
Artigos

Uma nova forma de torcer com Cartola F.C.?

O futebol pode ser entendido como uma prática esportiva repleta de tradições. Por exemplo, o Brasil é visto como “o país do futebol”, pois cada brasileiro teria uma relação íntima com o esporte. Neste contexto cada indivíduo estaria filiado a uma determinada agremiação esportiva, para a qual dedica sua torcida e afeto.

O curioso, no caso específico da filiação a um clube de futebol, é que não há uma explicação única para a gênese desta relação. A justificativa mais comum é a de que cada indivíduo nasce torcedor de um clube de futebol, algo que vem de berço, que não pode ser mudado.

Porém, não é necessário procurar muito para encontrar pessoas que têm narrativas bem diferentes sobre o surgimento de sua filiação a um determinado clube de futebol.

A minha família é um bom exemplo. Meu pai era flamenguista. Contudo, nunca foi um torcedor muito apaixonado. Com isto, acabei me tornando Fluminense. Já meu irmão flertou com o Botafogo, mas terminou como Vasco. O curioso é que em várias oportunidades meu pai deixava de lado sua filiação com o Flamengo para torcer por Fluminense e Vasco como forma de se colocar próximo a seus filhos.

O fato é que esta tradição, como inúmeras outras, não é um elemento imanente, mas é socialmente criado, é inventado (no sentido adotado por Eric Hobsbawm). Por ser inventada, esta tradição pode ser influenciada por outras mudanças sociais.

Novas tecnologias mudando a relação com o jogo

Dia a dia surgem novidades tecnológicas. Estas inovações mudam a forma como nos relacionamos com outros indivíduos, com o ambiente em que estamos inseridos e com tradições tidas como imutáveis.

Não é diferente no universo do esporte. Uma inovação que tem mudado a forma como alguns torcedores experimentam o futebol é o fantasy game “Cartola F.C.”. Produzido pelo portal “Globoesporte.com”, este jogo oferece a seus usuários a possibilidade de montar times formados por personagens que representam atletas que atuam em equipes da Série A do Campeonato Brasileiro, e de disputar diferentes competições, que são chamadas de ligas.

A competição é disputada a cada rodada do Campeonato Brasileiro, com os participantes somando pontos a partir da performance real dos jogadores escalados em seus respectivos times.

Como o que interessa nesta disputa é a performance individual dos jogadores reais, não é incomum que um torcedor do Vasco, por exemplo, escale em sua equipe do Cartola atletas de Flamengo ou Fluminense. O que mais importa não é o clube ao qual o jogador está filiado, mas a sua performance individual.

evento_confirmar_-_barra_fixa_e_campo_expandido
O “Cartola F.C.” existe desde 2005 e consolidou-se como um dos elementos da cultura de torcer no Brasil. (Imagem: Globoesporte.com)

Pelo que tenho observado, um efeito colateral deste jogo é que os participantes do jogo passem a torcer por atletas e, consequentemente, equipes rivais, em detrimento de seu time de coração.

É bom esclarecer que este é um texto opinativo. O escrevo apenas como forma de chamar a atenção para um fenômeno que, caso confirmado por uma sondagem de campo, pode render uma interessante pesquisa baseada na seguinte questão: Será que uma novidade tecnológica como o fantasy game “Cartola F.C.” pode estar mudando a forma “de torcer do brasileiro?