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Las SAD- a ofensiva da empresarização dos clubes de futebol na Argentina

Por: Irlán Simões

Clubes Argentinos
Reprodução:PanAmerican World

Defasados economicamente frente ao portentoso e trilhardário futebol europeu, os clubes sulamericanos acostumaram-se a – talvez até aprimoraram-se para – servir de fornecedor de “pés de obra” para o epicentro financeiro do futebol global. Os jogos dos clubes das chamadas Big 5 – Alemanha, Espanha, França, Inglaterra e Itália – são verdadeiro desfiles dos melhores talentos do mundo, dentre os quais se destacam os craques nascidos e formados na América do Sul.

Nem só isso. Com a entrada de gigantescos grupos econômicos em ligas menores, mas com recursos excepcionais, países como Catar, Arábia Saudita, Japão, Ucrânia, Grécia, Rússia, China, Estados Unidos – cada qual em seu período histórico específico – se consolidaram como o nível B e C dessa indústria internacional do futebol, relegando aos sulamericanos um nível ainda mais baixo da cadeia alimentar.

Compreender essa disparidade e a “decadência” do futebol da América do Sul no contexto global requer a análise de um conjunto de fatores. São eles que, descombinados ou mal combinados, acabam por redundar em formulações que se conflitam, muitas vezes espalhando soluções imediatistas que não necessariamente se consubstanciam enquanto resultados concretos. Dentre elas está o controverso projeto de conversão dos clubes sociais em “sociedades anônimas desportivas”, em detrimento ao seu caráter de “associação civil sem fins lucrativos”, tema desse texto.

De início, é crucial destacar que os imperativos macroeconômicos são incontornáveis em se tratando de futebol nos tempos de hoje. Em outras palavras, é dizer que não há como almejar uma liga de futebol forte, rica e dominante se ela está circunscrita em um contexto de um país com sérias fragilidades econômicas, produtivas, estruturais e sociais.Argentina e Brasil não deixariam de ser “países em desenvolvimento” se suas ligas adotassem os mais desenvolvidos modelos de gestão esportiva já inventados pelo homem. E desde já, coloco em questionamento suas pretensas infalibilidades, como mostraremos adiante no caso do Chile.

O berço das sociedades anônimas

Dito isto, podemos então tratar de entender o “framework” em que se estabelece a discussão da formação de clubes em empresas. Consolidadas e cada vez mais sofisticadas as modalidades de televisionamento de eventos esportivos, o futebol passou a ver constantes superdimensionamentos dos valores das suas cifras. À medida em que os contratos de cessão de direitos televisivos eram aprimorados e valorizados, os salários dos atletas eram inflacionados, novos atores econômicos se apresentavam como intermediários, a concentração de poder econômico se restringia a um número cada vez menor de clubes, os estádios se transformavam em praças de alto padrão para o consumo esportivo de seus novos frequentadores endinheirados.

Esse processo, se pensarmos ainda a década de 1980, colocou em cheque os modelos tradicionais de gestão dos maiores clubes europeus. É na Itália, por exemplo, que a revelação de uma série de movimentações financeiras ilícitas se valiam dos clubes de futebol para se reproduzir. Por outro lado, o envolvimento estatal com os clubes, por meio de empréstimos ou favorecimentos diversos, inclusive perdão de dívidas, passava a ser inserido no bojo das pautas de uma renovação política crescente, que muitos nomearam por “neoliberal”.

Foram essas as argumentações que balizaram o início da ideologia da empresarização dos clubes, com o objetivo de garantir que essa nova estrutura jurídica “limpasse” o futebol dessas atividades ilegais e dispendiosas ao conjunto dessa renovada indústria. Vale lembrar que já estamos falando de um esporte comandado pela FIFA de João Havelange, o dirigente que assume o posto com o discurso de exploração mercadológica do “produto futebol”, arregimentando apoio financeiros de grandes multinacionais.

Os estados europeus vão, de forma consecutiva, aplicando legislações para a transformação dos seus clubes de futebol em sociedades anônimas. Considerando as Big 5, podemos apontar que Espanha e Alemanha se constituem como particularidades – a primeira por preservar o direito de alguns clubes de caráter especial (Real Madrid, Barcelona e Bilbao), a segunda por restringir a compra de ações a uma porcentagem menor do que a garantida à parte social do clube -, ambas aplicadas apenas na década de 1990; e a própria Inglaterra por já haver constituído suas instituições esportivas como empresas ainda no início do séc. XX.

O movimento de empresarização dos clubes europeus também se consolidou em ligas de menor porte no continente. Tal mudança estabelece um novo conceito de clube na Europa, agora passíveis de troca de proprietários mediante aquisição financeira. O que, no frigir dos ovos, não estabeleceu nenhuma mudança definitiva entre a atração dos clubes de futebol a grupos praticantes de atividades ilícitas de movimentações financeiras. Muito pelo contrário, o futebol se tornou ainda mais atrativo a tais interesses.

A mediação “passional” das antigas associações foram rapidamente trocadas pelas motivações financeiras dos seus novos acionários. Uma situação sedutora quando, por exemplo, um barão das telecomunicações decide que possuirá quase totalidade das ações do A.C Milan. Bastaria assinar o cheque. Por outro lado, o endividamento não se mostra uma questão superada. Em Portugal, por exemplo, as três principais SAD – a saber, Benfica, Sporting e Porto – acumulam nada menos que 600 milhões de euros em dívidas financeiras. (Fonte: SapoDesporto). Como apontam os pesquisadores ingleses David Kennedy e Peter Kennedy, a economia política do futebol-negócio europeu, em linhas gerais, é a do endividamento e do dispêndio.

No outro lado do Oceano

Já era antigo o clima de “atraso” do futebol brasileiro, agravado pelo fim da participação estatal no fomento do esporte no país, como é largamente conhecido do procedimento político da Ditadura Militar. De país tricampeão mundial e de campeonato interno onde desfilavam os maiores craques do planeta, o Brasil se tornou o reino da “decadência”, do êxodo dos bons jogadores ao Eldorado europeu – agora empresarizado e ditador de tendências.

Sentimento semelhante se observava na Argentina, e não foi à toa que as ofensivas empresarizadoras atingiram a América do Sul no mesmo contexto. O Brasil experimenta a Lei Zico (1995) e a Lei Pelé (1998). Em 1999, Mauricio Macri, então presidente do Club Atlético Boca Juniors, apresentou a proposta de SAD na própria Asociación Argentina de Fútbol (AFA).

O projeto foi esmagadoramente rejeitado pelos clubes, contando com apenas um único voto favorável: o do próprio Macri. Mas dava indícios do movimento que já se estabelecia, de aplicação do modelo “bem-sucedido” europeu no continente sulamericano. Em tempo: a parte do “bem-sucedido” fica por conta dos seus promotores, porque o que se notícia em larga escala são os casos não fracassados. Na mesma Argentina, por empreitada do mesmo Mauricio Macri, um modesto clube chamado Desportivo Espanol foi um laboratório das SAD. Hoje está fechado por conta de dívidas. No Brasil, os baianos Bahia e Vitória se afundaram em dívidas e foram rebaixados à Série C.

Com a resistência oferecida pelos próprios diretores dos principais clubes argentinos, o projeto das SAD foi para a geladeira. Eis que em 2017, agora com Maurício Macri presidente da República Argentina, retorna à pauta. Apresentado por Nicolas Massot, integrante do PRO, mesmo partido do governo, a Lei das SAD agora retorna como projeto de estado. É o tema do momento no futebol local, numa situação em que os dirigentes de vários dos principais clubes já se posicionaram de forma contrária.

Ainda que estagnadas na Argentina e no Brasil, a ideologia do futebol-empresa triunfou no Chile. Em 2005 a lei foi aprovada diante do grave endividamento do Colo-Colo, um dos principais clubes do país. O “aftermath”, no entanto, vem mostrando poucos resultados concretos. Em termos esportivos os clubes chilenos pouco avançaram. Em termos financeiros, o depoimento mais interessante é de um dos seus principais promotores. Aspas para Francisco Vidal, ex-ministro chileno: “Me arrependo de ter impulsionado a lei. Era para salvar a atividade, mas resultou que os clubes agora devem o dobro de antes”. (Fonte: La Tercera)

A entrevista se deu ainda em 2013, onde também ressaltou a conversa que teve com René Orozco, então presidente da Universidad de Chile e opositor da lei, em que foi alertado sobre o risco de que os clubes, em pouco tempo, estariam nas mãos de grupos econômicos e de poder vinculados à política local. Foi o que Vidal constatou.

Essa talvez seja uma das lições aprendidas no Brasil, haja visto a rejeição da inserção da pauta das sociedades anônimas do futebol no bojo da criação do Programa de Refinanciamento de Dívidas de Clubes de Futebol (PROFUT). Elaborado no governo Dilma Rousseff, tal projeto recebeu um aditivo que versava sobre a obrigação da conversão dos clubes em empresas, proposto pelo deputado Otávio Leite (PSDB/RJ/), posteriormente vetado pelo governo na figura de Joaquim Levy então Ministro da Fazenda.

O argumento do representante do governo foi a necessidade de maior estudo sobre a matéria, ainda que tivesse ficado claro que, como foi na experiência da Lei Pelé (1998), a tentativa de implantação de uma medida de conversão compulsória dos clubes apresenta um front de batalha que muitos não se dispõem a entrar. Nos anos 1990 a Lei Pelé sofreu grande resistência da chamada “Bancada da Bola”, e recuou quanto à obrigatoriedade da conversão. Por outro lado, cabe análise do texto apresentado por Otávio Leite, que oferecia modelos de pagamentos bem mais vantajosos e sedutores aos clubes que aderissem ao novo formato.

Los hinchas y los clubs

Na Argentina o tema ainda se arrastará. Da parte dos torcedores locais, a organização Coordinadora de Hinchas vem mobilizando a oposição ao projeto através da campanha “No a Las SAD”. Com adesão de membros de mais de 25 clubes, a campanha denuncia o impacto dessa mudança em dois sentidos.

Por um lado os pequenos clubes “de barrio” da Argentina sofrerão um duro golpe, deixando de atender às suas comunidades no âmbito do esporte amador. Essas instituições, muitas vezes centenárias, também estariam na mira da lei, ainda que não sejam promotoras do futebol profissional de alto-rendimento. Como muitas frisam nos seus próprios nomes, são instituições sociais e culturais que atendem a comunidades com poucas opções de lazer e de prática esportiva.

No âmbito dos clubes inseridos na indústria do futebol profissional, a Coordinadora de Hinchas alerta para efeito que as SAD causarão na participação dos associados em geral. Diferente do Brasil, onde apenas poucos clubes permitem direito de voto dos seus sócios, na Argentina essa participação não apenas é mais ampla, como é intensa. As eleições dos clubes argentinos tem participação na ordem de três a dez vezes às vistas nos clubes brasileiros. A mero título de comparação, o Flamengo, o “Mais Querido”, elegeu sua última diretoria com menos de 3 mil eleitores. Já o argentino Belgrano, clube do interior, teve no voto de 7 mil sócios a escolha do seu futuro.

Esses são dois pontos nevrálgicos nessa discussão. Como  apontam os pesquisadores Rodrigo Daskal e Verônica Moreira: “A possibilidade de que se permita a conversão dos clubes em empresas comerciais implica comprometer seu caráter de instituições de bem comum, cujos donos são seus sócios, atravessadas por uma série de características históricas”.

O que vale levar da experiência de resistência dos torcedores argentinos é que o futebol brasileiro se encontra numa bifurcação: ou os clubes serão afetados por uma nova investida de leis de empresarização, como foi visto no processo do PROFUT, ou deverão se abrir para aceitar a democracia participativa torcedora em suas instâncias.

Essa última questão é o que já está em curso e se aprimorando em alguns clubes como Internacional, Bahia, Vitória, Fluminense, Sport, Atletico-PR, Coritiba, dentre outros; ou que está sendo levantada como bandeira de movimentos de torcedores de clubes como Cruzeiro, Flamengo, Santa Cruz, Palmeiras, ABC e Corinthians.

Entre a incerteza dos avanços concretos do sedutor processo de empresarização do clube, e os difíceis princípios democráticos da participação do torcedor comum nos rumos das centenárias instituições futebolísticas brasileiras, um momento decisivo se desenha no horizonte. Esse é um tema do qual os estudos acadêmicos sobre o futebol não podem prescindir.

REFERÊNCIAS:

DASKAL, R.; MOREIRA, V. Clubes argentinos. Debates sobre un modelo. UNSAM edit. Buenos Aires, 2017.

SANTOS, Irlan Simões. Clientes versus Rebeldes: novas culturas torcedoras nas arenas do futebol moderno. Rio de Janeiro: Editora Multifoco, 2017.

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Adriano “Imperador” e a narrativa sem fim

Por: Lucas Albuquerque**

Assediado pela mídia e por torcedores a cada aparição pública, Adriano parece não ter direito a escrever sua própria história.

Em julho de 2004, a seleção brasileira se preparava para jogar a Copa América. Uma espécie de “time B” foi levado para a competição. Ronaldo, artilheiro do time, não iria jogar. Em sua ausência, a responsabilidade de fazer gols recaía sobre Vágner Love, Luís Fabiano e Adriano. Mesmo já jogando na Europa, Adriano não era um craque reconhecido. Segundo os jornalistas, nem mesmo titular seria. De fato, o jogador iniciou o torneio no banco, mas cresceu durante a competição, marcou gols importantes e tornou-se um dos principais heróis daquele improvável triunfo. Naquela competição era forjado o “Imperador”.

Perceberam o que eu acabei de fazer? Eu criei uma narrativa. Isso significa que escolhi personagens, um cenário, destaquei alguns fatos em detrimento de outros e construí um sentido para eles. A Copa América virou “o nascimento do Imperador”. Assim como eu acabei de fazer, os jornalistas, cronistas e comentaristas esportivos fazem todos os dias: criam narrativas. O problema, a meu ver, é que Adriano nunca parece poder se libertar da narrativa criada para a sua carreira.

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Figura 1 – Na Copa América de 2004, o herói Adriano era forjado

A lenda do Imperador nascia naquele julho de 2004.

A Copa de 2010: o ano em que Adriano “traiu a pátria”

Em minha dissertação de Mestrado, Adriano foi o meu estudo de caso. Analisando as reportagens sobre alguns momentos de sua carreira, queria entender como o discurso da mídia acompanhava as oscilações de seu desempenho profissional e suas aparições sociais. Março de 2010 foi, de longe, o mês mais interessante. Graças ao episódio da Chatuba.

Naquele mês Adriano quase não jogou. Entretanto, apareceu mais de 25 vezes nas capas do Extra, por exemplo. Antes da confusão na favela (narrada em detalhes também pelo Extra) o jogador era considerado nome certo na Copa. Depois do episódio, começou a ser questionado pela imprensa. Críticas às suas ausências em treinos foram feitas. Sua sanidade mental foi questionada e investigada – falou-se que o jogador poderia estar em depressão. Até conselhos foram dados ao Imperador. E um constante aviso pairava nas páginas dos jornais: “desse jeito você não vai à Copa”.

E ele realmente não foi convocado. A grande questão, para mim, é a seguinte: qual o problema dele não ter ido?

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“Ele não quis…”

Se você acompanha regularmente programas de mesa redonda, já deve ter visto essa cena. Adriano entra em pauta. Alguém comenta que ele tinha muito talento, mas não brilhou tanto quanto poderia. Outro jornalista comenta que ele era nome certo para a Copa de 2010. E às vezes um terceiro ainda arremata, com uma voz entristecida e um meneio de cabeça: “ele poderia ter sido o sucessor de Ronaldo, mas não quis”.

Na trajetória clássica do herói (estudada pelo historiador Joseph Campbell, por exemplo), o personagem deve usar seu grande poder para vencer as provações e trazer benefícios para sua comunidade. Em 2004 Adriano foi esse herói clássico. O garoto pobre da favela, com seu incrível talento para o futebol, ganha a Europa, fica rico, defende as cores do seu país e traz uma conquista para ele. E todos viveram felizes para sempre. Então quando Adriano foge a essa narrativa, com seu comportamento pouco profissional ou seu retorno a uma origem que supostamente deveria ter sido abandonada, ele não é mais o herói. Ele torna-se o vilão em 99% das vezes que sua história é recontada pela imprensa. O “ele não quis” é dito com tristeza porque não consideramos ser um direito dele recusar seu destino: jogar futebol em alto nível – de preferência pela seleção.

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Figura 3 – O “diagnóstico” de Adriano

A redenção do Imperador

Então quer dizer que para sempre Adriano será o vilão? Não, definitivamente não. E aí nasce uma vertente do mesmo problema: muitos jornalistas e torcedores anseiam pela narrativa de Redenção. Então quando Adriano dá dois chutes despretensiosos em um jogo festivo de fim de ano, torcedores eufóricos compartilham o vídeo no Facebook avisando: “O IMPERADOR ESTÁ VOLTANDO!”. Quando Renato Gaúcho o chama para conversar, imediatamente se especula seu retorno ao futebol jogando no Grêmio nos noticiários esportivos.

Porque Adriano vende jornal, claro, mas uma narrativa de redenção do “Imperador” vende muito, mas muito mais. É uma narrativa pronta para ser escrita, filmada, fotografada… E pouco importa se Adriano quer ou não participar dela. Na ânsia de muitos torcedores e jornalistas de quererem escrever a vida do jogador, esquece-se de perguntar à pessoa o que ela quer fazer. Porque se Adriano quiser continuar sem pisar no campo de futebol, é direito dele. Se ele quiser treinar para voltar a jogar na China, nos EUA ou no Flamengo, caberá somente a ele a decisão.

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Figura 4 – Em 2011, em sua passagem pelo Corinthians fez apenas 1 gol. Mas foi o suficiente para o “Imperador” voltar
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A comunicação no futebol moderno

Torcida brasileira
Fonte:Desporto

O Futebol: só um esporte?

Com o status de esporte nacional, por ser o mais praticado e acompanhado, o futebol representa a brasilidade, que tem a alegria como categoria principal na representação popular de forma privilegiada, se comparado a outros significantes como o samba, o carnaval ou a malandragem.

Tem sido objeto de apropriações ideológicas diversas no escopo de compor uma “identidade brasileira”, na qual desempenha importante papel como princípio aglutinador do “povo brasileiro” em sua constituição como nação (GASTALDO, 2001, p. 125; DaMATTA apud DAMO, 1999).

Especificamente no Brasil, podemos afirmar que também é considerado muito mais um jogo do que uma atividade profissional, onde também encontramos elementos como sorte, azar, drama, emoções, talento e inteligência coletiva, componentes a serem considerados na sua análise, como afirmam DaMatta (1982, 1986) e Guedes (1977), mais ainda na análise jornalística, que teima em chamar esse futebol de moderno.

Moderno é um adjetivo que, segundo Bruno Latour: “assinala um novo regime, uma aceleração, uma ruptura, uma revolução de tempo” e que “possui tantos sentidos quantos forem os pensadores ou jornalistas” que o observam.  Estes últimos, os jornalistas, continuam tratando, pensando e falando de futebol nas mesmas bases que no início do século XX, de uma forma analítica como se fosse um sistema simples, com poucas variáveis e sem nenhuma ruptura ou revolução temporal.

De significativa relevância social nas diferentes sociedades em setores como cultura e instituições tem despertado o interesse das Ciências Sociais em diversas áreas, ocupando espaços cada vez maiores nos noticiários de economia, geopolítica e entretenimento, invadindo campos como cinema, literatura e teatro.

Desde sua introdução no país, no final do século XIX até a década de 1930 do século XX, sofreu várias alterações: era considerado um espaço de lazer restrito aos aristocratas e seus filhos, tornando-se a partir de 1933 um esporte popular, como fonte de renda com a profissionalização, e como um trampolim de ascensão social para muitos jovens (cf. ROCHA, 2004).

Por outra perspectiva, tem sido alvo de apropriação por parte da política e pelo regime de exceção vivido no Brasil na segunda metade do século XX. O futebol é a maior paixão popular do planeta e, no caso brasileiro, assume dimensão ímpar, por ser uma das raízes centrais de nossa identidade, indispensável para uma compreensão globalizante do Brasil. É um esporte repleto de significados, de simbologias, de valores para a existência humana, em geral, e, de forma singular, para os modos históricos de sua manifestação no interior da sociedade e da cultura brasileiras (PERDIGÃO, 1986, p. 63).

Hoje a globalização e a espetacularização do futebol, elementos pulverizadores de identidades e resignificadores de representações,  o transformaram em parte de uma indústria que movimenta cifras milionárias e emprega milhares de pessoas mundo afora, com a participação dos conglomerados de mídia no futebol, com interesses diretos no resultado econômico; mas na sua essência permanece quase que inalterado. A quantidade de jogadores em cada time, os árbitros, o tempo de jogo e as regras permanecem idênticas com algumas raras exceções. Todos os argumentos acima mencionados seriam suficientes para que a imprensa observasse, analisasse e comentasse o futebol levando em consideração todos esses fatores, que de forma incontestável alteraram a dinâmica, propósito e objetivos  deste esporte.

Se considerarmos que um time é composto por vários jogadores (partes) que  interagem entre si e, que existem inúmeras variáveis dinâmicas que influenciam o comportamento do mesmo, podemos considerar o futebol como um sistema dinâmico e não linear, portanto complexo e não passível de uma análise cartesiana, como a que a imprensa esportiva realiza constantemente.

O futebol como sistema complexo

O tratamento dado pela imprensa esportiva ao futebol nos remete a um sistema simples, de duas ou três  variáveis, onde existe pouca interação entre as partes, onde o todo é uma soma das partes e se manteria com as mesmas propriedades destas; basicamente um sistema reducionista.

Seria mais coerente com a atividade ser tratado como um sistema complexo e organizado. Sistemas complexos, segundo REGIS (2006), são sistemas em que o conjunto de todas as variáveis não obedecem a uma relação constante de proporcionalidade, mas são sistemas sensíveis às condições iniciais e as variações no transcurso do tempo o tornam imprevisível. O comportamento do conjunto excede a soma de cada uma da suas partes e a dinâmica de um jogo de futebol torna-o adequado a esta categoria de sistema.

Para além dos 22 protagonistas do jogo existe a mediação de um árbitro principal em conjunto com uma equipe de árbitros auxiliares que interferem decisoriamente no jogo. Condições climáticas e geográficas impactam de alguma forma o desempenho e resultado final de um jogo: chuva, vento e altitude interferem drasticamente no desempenho: uma partida realizada na cidade de La Paz, na Bolívia, a 3640 metros de altitude impõe uma dinâmica diferente a da uma partida realizada no Japão, com neve. Outros fatores, como o horário da realização também impacta de alguma forma o desempenho e resultado final de um jogo.

No âmbito extracampo existe por trás um apoio multidisciplinar formado por médicos fisiologistas, fisioterapeutas, nutricionistas, preparadores físicos e psicólogos entre outros, que auxiliam no desenvolvimento da equipe, o que ilumina as múltiplas variáveis e desvios que acontecem no decorrer de um jogo e merecem uma atenção especial por parte de profissionais qualificados.

Os equipamentos utilizados para a prática deste esporte, entre eles os uniformes, bolas, chuteiras etc., são produtos de estudos científicos multidisciplinares profundos, que tem por objetivo aprimorar  as condições onde o mesmo se desenvolve. O material utilizado nas camisas, por exemplo, fruto das pesquisas na área têxtil proporciona aos uniformes funcionalidades como: proteção UV, antibacteriana, impermeabilizantes e troca térmica.  A bola utilizada hoje sofreu diversas alterações fruto de simulações computacionais. Segundo REGIS (2006, p.152) as simulações computacionais atuam entre os campos do real e do ficcional, transformando a própria metodologia da ciência, inaugurando  a complexidade como um novo paradigma científico. Matérias-primas e processos de fabricação foram exaustivamente testados em laboratórios (simulações) e em campo (real), para se obter um produto final que se adequasse perfeitamente e minimizasse efeitos externos tais como: deformação pelo uso e  a ação de fatores climáticos como chuva e vento.

Portanto, podemos estabelecer que diversas áreas da ciência, em conjunto, trabalham e realizam pesquisas multidisciplinares em prol do esporte em geral.

Segundo D’Amaral (1995), citado por Regis (2006, p. 162), “multidisciplinares são aqueles empreendimentos científicos em que diversos especialistas, sem abrirem em nada mão de sua especificidade, concorrem para a descrição de um mesmo objeto sob variados enfoques. Eles não criam um novo objeto, mas lhe agregam valores novos, de certa forma o enriquecem sem que, no entanto, cada uma das ciências participantes desses empreendimentos saia deles alterada na sua estrutura, nos seus métodos ou nos seus limites”.

Referências Bibliográficas

D’AMARAL, Márcio Tavares. O homem sem fundamentos: sobre linguagem, sujeito e tempo. Rio de Janeiro: Editora UFRJ / Editora Tempo Brasileiro, 1995.

DaMATTA, R. Carnavais, malandros e heróis. Rio de Janeiro: Zahar, 1978.

DAMO, A. S. Do dom à Profissão: A formação de futebolistas no Brasil e na França. São Paulo: Ed. Hucitec, 2007.

GASTALDO, E. Considerações sobre “O País do Futebol”: Mídia e Copa do Mundo no Brasil. In: Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação (Intercom), 25., 2002. Salvador. Anais…Salvador: UNEB, 2002.

GUEDES, S. L. Discursos autorizados e discursos rebeldes no futebol brasileiros. Esporte e Sociedade, v. 6, n. 16, 2010/2011.

PERDIGÃO, P. Anatomia de uma derrota. Prto Alegre: L & PM, 1986.

REGIS, Fátima. “Comunicação, sistemas complexos e transdisciplinaridade: um comunicar intercientífico.” Revista Contracampo 15 (2006): 151-164.

Eventos

Mais uma edição dos Encontros LEME 2018

Na quarta edição dos Encontros LEME 2018, o Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte contou com a participação da Leda Costa para debater o texto “O negro no futebol brasileiro”, escrito por Mario Filho

O encontro contou com a participação de professores da FCS, alunos de graduação e pós-graduação. A próxima reunião ocorrerá no dia 07/05, quando será debatido o texto Futebol e identidade nacional, escrito por Simoni Guedes.

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Eventos

4º Encontro LEME 2018

Encontros LEME é uma proposta do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte que visa a partir da leitura de textos e análise de produções fílmicas realizar debates com professores, pesquisadores, graduandos e convidados interessados em estudar as interseções da Comunicação com o Esporte. Os encontros têm ocorrido semanalmente e pretendem oferecer um espaço de diálogo acadêmico e formação.

Realizaremos o quarto encontro na segunda-feira, dia 09 de abril, com início às 15h. Nesse dia, contaremos com a presença de Leda Costa para debater o texto O negro no futebol brasileiro, escrito por Mario Filho. Leda é doutora em Literatura Comparada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro e atualmente realiza seu pós-doutorado no PPGCom/UERJ, sob orientação de Ronaldo Helal.

A programação completa e os conteúdos que serão debatidos podem ser encontrados no blog “Comunicação e Esporte” e na página do LEME no Facebook (@lemeuerj).

Data: 09/04/2018
Horário: 15 às 17h30
Local: Auditório do PPGCom
Público: Alunos de graduação e pós e demais interessados no tema.
Coordenação: Prof. Ronaldo Helal
Orientação: Leda Costa e Fausto Amaro

*A participação nos encontros contará horas-aula para os alunos presentes.

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Participações na mídia

Ronaldo Helal debate no jornal O Globo sobre os incidentes na final da Sul-Americana

A edição do jornal O Globo desta última terça-feira (19/12) trouxe uma entrevista com Ronaldo Helal, coordenador do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte, Fernando Veloso, especialista em segurança, Luiz Antônio Santoro, advogado do Corinthians, Paulo Storani, ex-capitão do Bope, Fernando Segura Trejo, sociólogo da Universidade Federal de Goiás, e Eduardo Carlezzo, advogado.

Os seis entrevistados debateram os incidentes da final da Sul-Americana, uma semana após a realização da partida no Maracanã. Alguns tópicos levantados durante a entrevista foram a elitização no preço dos ingressos, a identificação dos responsáveis pelo tumulto e a possível interdição do Maracanã.

Clique na imagem abaixo para acessar a entrevista completa.

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Crédito: Jornal O Globo, Caderno de Esportes.
Vídeos e Documentários

Segunda parte da entrevista de Cesar Torres ao LEME

Na segunda parte de sua entrevista ao Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte, o filósofo do esporte Cesar Torres detalha sua pesquisa de doutorado, inspirada em conceitos do filósofo francês Maurice Merleau-Ponty e analisa os primeiros passos do movimento olímpico na América Latina no final do século XIX e início do século XX.