Artigos

Carta para o amigo Ghiggia

Meu querido amigo Ghiggia,

Inicialmente, permita-me chamá-lo de amigo.

Você não me conhece, mas nas últimas sete décadas você esteve presente em quase todos os meus pensamentos sobre futebol, em muitos dos meus sonhos – e pesadelos –, em boa parte de meu imaginário saudoso sobre tempos que não necessariamente eu vivi.

Logo, você jamais será indiferente a mim.

Eu havia de escolher, pois, se você seria meu inimigo ou meu amigo.

E vejo-me obrigado a confessar que por anos eu não desejei menos do que a primeira das opções. Odiá-lo com ímpeto, com cegueira e dor, com fúria e tristeza, com a ignorância típica daqueles que odeiam, apenas pelo bel prazer de descontar em alguém toda a minha incompreensão sobre um dia que existiu justamente para ser incompreendido.

Mas tem uma força dentro da gente, que por falta de condições de nominá-la aqui chamarei de “maturidade”, que nos faz mudar de opiniões, compreender melhor a vida, olhá-la por outros ângulos.

De forma que o ódio virou admiração. A inimizade virou respeito. O pavor virou beleza. A dor virou amor. A tragédia? Bom, tragédia é tragédia. Continuará sendo para sempre. Mas já consigo enxergar aquele dia como um dos mais belos e indescritíveis da história do futebol.

E é justo por isso que estou aqui a te pedir para ser aceito como amigo.

Eu sei, precisou-se de todo este tempo de hiato para que eu admitisse a ti a beleza de tuas pernas, de teu gingado, de tua força, de tua habilidade, de tua velocidade, de teu gol.

Perdoe-me por isso, amigo. E que não seja tarde. Que do olimpo, da eternidade, do além onde os craques viram deuses, você não guarde mágoas de um tolo como eu.

Hoje já consigo assistir aquele gol sem chorar, ainda que o coração insista em acelerar, numa busca insana por mudar a direção da bola, por absolver o velho Barbosa, condenado para sempre por uma culpa que não deveria ser dele.

Desculpa o devaneio, Ghiggia, querido. Como te disse, e repito agora, já consigo ver todo o esplendor do lance, mas ele não deixa de ser trágico e asfixiante por causa disso.

Mas eis que estamos aqui a lembrar dos 70 anos daquele dia inexprimível.

Num 16 de julho como hoje, mas em 1950, no saudoso Estádio Municipal, o conceito de “instante” foi modificado para sempre.

Que dia impressionante de se resgatar, meu amigo. Parabéns por ele. Você, Obdúlio, Máspoli, Schiaffino e todos os seus companheiros merecem os louros.

A propósito, amigo, se me permitir mais uma indelicadeza neste momento, anseio em falar algo mais. Em compartilhar contigo algo que me assombra justamente sobre o dia de tua morte.

Porque, se há uma coincidência que me arrepia toda vez que a percebo é o fato de você ter morrido na exata mesma data do Maracanazo que tu foste protagonista. Pois hoje é dia de sentir em toda a sua profundidade não só os 70 anos da final da Copa de 1950 e do bicampeonato mundial do Uruguai, mas também os cinco anos da morte do homem que tornou aquele momento eterno.

Aliás, uma última questão.

Desculpe-me de verdade por nós brasileiros, que temos a péssima mania de preferir nos culpar a admitir a superioridade adversária. Mas hoje sei que, acima de tudo, foi uma conquista que a brava e heroica Celeste fez por merecer.

Beijos, querido.

Nem sei bem porque, mas obrigado por aquele dia.

Ele é mágico justamente por ser inexplicável.

Ghiggia morreu assistindo ao jogo do Inter na Libertadores, revela ...
Fonte: ESPN.
Artigos

70 anos do Maracanazo e entrevista de Ronaldo Helal

No dia 16 de julho de 1950, com a presença de mais de 200 mil pessoas, o Brasil se calava diante dos gols de Shiaffino e Ghiggia, no Maracanã, construído especialmente para a Copa do Mundo. O Brasil era então vice-campeão mundial, perdendo a partida final para o Uruguai.

A data emblemática para a história do nosso futebol foi relembrada pela agência de notícias France Presse – AFP.  Procurado pelo jornalista Pau Ramirez, o professor Ronaldo Helal, coordenador do Leme, foi entrevistado para a matéria. Helal explicou o que representa o Maracanazo para a nossa história e a notícia está em vários sites em Bangladesh, Brasil, EUA, Espanha, Croácia e França, dentre eles Dhaka Tribune, Yahoo Sports, EstadãoIsto é, France24, Glasistre e Le 360° Sport.

Anotação 2020-07-16 134313.png

 

Artigos

Os números aos que sempre damos-lhes as costas….

Depois de quase 20 anos sem pisar as arquibancadas do estádio de futebol do meu clube de coração –  que durante toda minha infância foi o quintal da minha casa – o sábado 16 de março fui assistir a um jogo inesquecível, que me transbordou o coração de orgulho futebolístico e nacionalista. Antes mesmo de… Continuar lendo Os números aos que sempre damos-lhes as costas….

Avalie isto:

Artigos

Sem calculadora, Uruguai faz história e chega ao Mundial da Rússia.

O futebol não é exatamente nota 10, mas os uruguaios carimbaram o passaporte para a Rússia de forma histórica. Assombrados pelas contas matemáticas e combinações de resultados, desta vez não foi preciso usar a calculadora. Também não será necessário jogar a repescagem para ir ao Mundial da FIFA em 2018. O selecionado de Oscar Tabárez… Continuar lendo Sem calculadora, Uruguai faz história e chega ao Mundial da Rússia.

Avalie isto:

Artigos

Más unidos que nunca

Nesta quinta-feira, Uruguai e Equador se enfrentaram pelas Eliminatórias da Copa de 2018, na Rússia. A Celeste fez valer o mando de campo e venceu por 2 a 1, mas o destaque da noite veio das arquibancadas do histórico estádio Centenário. ‘Más unidos que nunca’ era a mensagem dos hinchas nos cartazes de apoio à… Continuar lendo Más unidos que nunca

Avalie isto:

Artigos

Adiós, América! A Copa que não foi e o protagonismo de quem não jogou

Muito provavelmente a lembrança sobre a atuação do Uruguai na Copa América Centenário será a de decepção e desastre. O principal jogador do país estava lesionado e, para participar, teria que sacrificar-se numa recuperação relâmpago. Isso traz uma pequena comparação a Copa de 2014, quando Luis Suárez estava, até então, no melhor momento da carreira.… Continuar lendo Adiós, América! A Copa que não foi e o protagonismo de quem não jogou

Avalie isto:

Artigos

Baby-Fútbol: a fonte de talentos do Uruguai

O Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte divulga, nesta semana, a última parte da entrevista do treinador da seleção uruguaia, Óscar Tabárez, ao pesquisador do LEME Juan Silvera. Na primeira e na segunda parte deste bate-papo, foram abordadas respectivamente a mudança de estigma do futebol praticado pelo país – tido antes como violento e… Continuar lendo Baby-Fútbol: a fonte de talentos do Uruguai

Avalie isto:

Artigos

Tabárez e o desafio de tornar o futebol uruguaio competitivo

Em 1990, Óscar Tabárez treinou o Uruguai na Copa do Mundo da Itália, naquela que seria a sua primeira passagem como comandante da seleção principal de seu país. Nas palavras do próprio ‘El Maestro’,  o time “não foi bem” no torneio. Ao regressar para o Uruguai, a opinião pública apresentava, em geral, certo pessimismo em… Continuar lendo Tabárez e o desafio de tornar o futebol uruguaio competitivo

Avalie isto:

Artigos

As aulas de Tabárez

Óscar Tabárez completou no último dia 08 de março 10 anos ininterruptos à frente da seleção uruguaia. Nunca antes na história, segundo a Confederação Sul-americana de Futebol, um técnico comandou por tanto tempo uma seleção nacional. Quando aceitou o desafio, em 2006, de reconstruir o futebol uruguaio após a sua não-classificação para o mundial daquele… Continuar lendo As aulas de Tabárez

Avalie isto:

Artigos

Love money, hate ethics

Fornecedora oficial, desde 1970, da bola utilizada nas competições oficiais da FIFA, a Adidas cansou de colocar a bola dentro de campo. No entanto, agora resolveu colocar uma bola fora “homenageando” o atacante uruguaio Luís Suarez, não por seu desempenho profissional tanto na seleção uruguaia como no time do Barcelona, mas sim, pela extrema competência… Continuar lendo Love money, hate ethics

Avalie isto: