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Transmissões televisivas e a elitização do sofá de casa

Reprodução: Internet

Desde a virada do século XX para o século XXI é possível perceber a estruturação de um processo de elitização do público nos estádios brasileiros, por meio do aumento nos valores dos ingressos e da busca por uma disciplinarização dos comportamentos esperados pelos torcedores nas arquibancadas (GAFFNEY, 2004). Amparados por uma noção do futebol cada vez mais atrelada à mercadoria e a espetacularização, os clubes brasileiros, bem como as empresas promotoras de eventos ligados ao esporte procuraram transformar os estádios em espaços voltados para o consumo e entretenimento. Lojas, alimentação, experiências no campo de jogo, e tudo mais que possa ser explorado comercialmente são feitos tendo a partida como fio condutor (HOLZMEISTER, 2005).

O processo de elitização dos estádios se aprofunda no Brasil a partir do fim da primeira década do século XXI, quando motivados pela promoção da Copa das Confederações (2013), Copa do Mundo (2014) e Olimpíadas (2016) passam a ser reformados ou construídos novos estádios que materializaram o novo projeto de torcedor/fã e arena de consumo esportivo.

A construção ou remodelamento desses estádios atrelados a uma nova forma de torcer e consumir constitui o processo de arenização na qual as praças esportivas passam a ser pensadas não mais a partir daqueles que frequentam – a torcida- mas sim das exigências das empresas consumidoras/patrocinadoras e dos indivíduos que pretendem desfrutar de um entretenimento. O estádio-nação, ou seja, o espaço de representação da identidade social dá lugar ao estádio-shopping, local estritamente comercial (MARCELLINO, 2013).

O avanço dessa realidade de elitização, na qual a arenização é sua característica mais atual acabou por paulatinamente afastar grande parte das camadas populares dos estádios, mas também parte da classe média intitulada atualmente como “nova classe C”. A principal razão para esse afastamento está nos altos custos dos ingressos que acabam por alijar os mais pobres do acesso ao estádio.

Tendo seu acesso dificultado e/ou impedido, essas classes sociais encontraram nas transmissões televisivas um meio de continuar acompanhando seus clubes, mesmo que à distância. Para a maioria por meio da “televisão aberta” e para uma parcela, principalmente da nova classe C, também por meio da “televisão fechada”. Se o estádio de futebol cada dia mais estava “fechado” para esses grupos, pelo menos as transmissões televisivas ajudavam a mitigar os efeitos da desigualdade de acesso as partidas. Esse fato que já havia sido observado no processo de elitização do futebol inglês como evidenciou Alvito (2014).

No Brasil o televisionamento das partidas se difundiu no final da década de 1980, quando mais de 70% dos lares do país possuíam aparelhos televisores (BOLAÑO,1988). Durante o período entre 1980 e 2020 pôde-se perceber que o avanço das transmissões foi feito através de um controle cada vez maior da Rede Globo e suas afiliadas, que passaram a ter o direito de transmissão dos principais campeonatos esportivos tais como: Estaduais, Campeonato Brasileiro, Copa do Brasil, Libertadores, Copa do Nordeste, entre outros. Nesse caminho passou também a monopolizar a expertise no processo de produção técnica dos jogos e consolidou-se como a “dona” do futebol brasileiro ofertando nos meios de semana e finais de semana partidas na televisão aberta.

Nos anos de 1990 com a chegada dos canais pagos da televisão fechada, a oferta de transmissão de jogos aumentou com a introdução de canais esportivos, sendo que nos anos 2000 ocorreu a chegada da ESPN e SPORTV à grade de programação, bem como a oferta de pacotes de transmissão completa como o pay-per-view. A existência dessa oferta de canais pagos possibilitou a determinada parcela da população, principalmente da classe C, acompanhar todos os jogos de futebol do seu time a um custo inferior do que aquele gasto no valor dos ingressos.

O monopólio da Rede Globo nessas transmissões abertas e fechadas permitia aos torcedores terem acesso a todas as partidas (do seu time e dos adversários) adquirindo somente um produto, a saber o pay-per-view (SANTOS, 2013). No entanto, nos últimos anos podemos perceber mudanças na dinâmica das transmissões televisivas com o aparecimento de novas plataformas de comunicação com destaque para o serviço de streaming, além do interesse de novos players na transmissão das partidas devido o aumento do potencial comercial delas.

Entre os novos interessados nas transmissões das partidas temos emissoras tradicionais como Bandeirantes e SBT, mas também novos atores como é o caso do Facebook, da Conmebol e dos próprios clubes de futebol. A disputa pelas transmissões evidencia uma visão de que os campeonatos transmitidos são uma mercadoria valorizada que pode se converter em crescimento de receita para esses possíveis proprietários. O desenvolvimento dessa concorrência também está relacionado a uma difusão das tecnologias e técnicas de transmissão dos eventos esportivos entre os meios tradicionais (televisão), e os novos meios (redes sociais e streaming).

A configuração desse cenário concorrencial inicialmente nos permitiria concluir que o torcedor ganharia com esse processo, pois segundo as leis do mercado, com a quebra do monopólio da Globo e o aumento da oferta de opções de produtos por vários canais e plataformas, o preço cairia. Essa concepção do monopólio da emissora como algo ruim ganhou força durante muito tempo e foi reforçada através do processo de demonização da Rede Globo, vista como a principal culpada pelos calendários, horários e regras do futebol brasileiro (SANTOS, 2013).

No entanto, a quebra do monopólio das transmissões, seja pela não renovação de contratos vencidos e/ou pelo aparecimento de novos meios de vinculação não cobertos pelos contratos, fez surgir um efeito perverso sobre o acesso ao televisionamento dos jogos em “televisão fechada”, a saber o fatiamento dos produtos com segmentação e sobreposição de propriedades sobre os campeonatos transmitidos. Essa situação pôde ser verificada, por exemplo, com a transmissão dos jogos da Libertadores da América e Sul-americana, que saíram do portfólio da Globo e, passaram a ser oferecidos somente pela Conmebol TV. A consequência imediata disso para o torcedor/telespectador se traduz num aumento do custo para acompanhar todas as competições do seu time ou a necessidade de escolha dos campeonatos que mais lhe agradam para serem pagos e consumidos.

Se na televisão fechada esse movimento de aumento dos custos para acompanhamento das partidas já avança a passos largos, na televisão aberta ele começa a se desenhar principalmente nos campeonatos estaduais, nos quais os contratos que estão vencendo não estão sendo renovados por discordância nos valores ofertados pela Globo e a expectativa dos clubes.

Livres no mercado para disponibilizarem a transmissão das partidas como bem entenderem, alguns clubes, como é o caso do Flamengo e do Athletico Paranaense, criaram recentemente serviços de streaming com pacotes pagos para a transmissão dos campeonatos estaduais em 2021. Consequentemente os jogos desses times pararam de ser transmitidos na televisão aberta nos estaduais e a possibilidade de assisti-los estava atrelada ao pagamento de um valor de 129,00 por todo o campeonato. O desdobramento disso foi a impossibilidade das camadas mais pobres de acompanharem esses jogos na televisão.

 Com a recente aprovação da lei do mandante (lei nº14.205/2021), que permite aos clubes de futebol o direito de negociação das transmissões e reproduções dos seus próprios jogos quando forem mandantes sem a necessidade de anuência do visitante, o movimento de avanço da oferta de serviços de pacotes de campeonatos pelos clubes sobre os seus próprios jogos deve ganhar fôlego. Diante disso, podemos nos deparar com uma realidade na qual os jogos migrariam da televisão aberta para esses serviços de streamings oferecidos pelos clubes.

 O desenvolvimento desse processo visa diretamente o interesse dos clubes em obter novas receitas através do oferecimento de um serviço que antes estava vedado a eles. Contudo, aprofunda o processo de elitização do futebol, pois cria um novo nível de exclusão dos torcedores/telespectadores no objetivo de acompanhar o seu time do coração. Se num primeiro momento o aumento do valor dos ingressos significou a elitização dos estádios e a exclusão dos mais pobres do acesso as partidas em loco, agora a fragmentação dos pacotes de transmissão de jogos e a diminuição da oferta de partidas na televisão aberta caminha para ser um segundo estágio desse processo.

Com a elitização do sofá de casa, o torcedor mais pobre ficará ainda mais distante do seu clube do coração e terá novamente que obter novos meios para alimentar a sua paixão diante de um esporte que se propõem cada dia mais comercial e menos passional.

Referências

ALVITO, M. A Rainha de Chuteiras: Um ano de futebol na Inglaterra. Rio de Janeiro. Ed Apicuri, 2014.

BOLAÑO, C. Mercado Brasileiro de Televisão. Aracaju, Universidade Federal de Sergipe, PROEX/CECAC/ programa Editorial, 1988.

GAFFNEY, C. T.; Mascarenhas, G. O estádio de futebol como espaço disciplinar. In: Seminario Internacional Michel Foucault, 2004, Florianopolis. Seminario Internacional Michel Foucault – Perspectivas, 2004.

HOLZMEISTER, A. A nova economia do futebol: uma análise do processo de modernização de alguns estádios brasileiros / Antônio Holzmeister Oswaldo Cruz. – Rio de Janero: UFRJ/PPGAS, Museu Nacional, 2005.

MARCELLINO, N. C. Legados de megaeventos esportivos. Campinas: Papirus, 2013.

SANTOS, A. David G. dos. A consolidação de um monopólio de decisões: a Rede Globo e a transmissão do Campeonato Brasileiro de Futebol. UNISINOS 2013.

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Os bastidores de partidas de futebol: relações que cresceram no afastamento social

Há uma crescente aproximação entre jogadores e torcedores conectados às redes sociais – em especial o Youtube, o Instagram e o Facebook. Nesse cenário, os vídeos dos bastidores das partidas dos clubes brasileiros têm sido prato cheio no consumo de informação clubística para os aficionados, principalmente com a caótica situação da pandemia, que afastou os fãs de seus ídolos.

 Desdobram-se, sobretudo nos últimos meses, mais e mais comentários, nas plataformas mencionadas, por parte de torcedores, com manifestações de apoios, críticas e, até mesmo, feedbacks positivos/negativos sobre o conteúdo que está sendo exposto nos vídeos de bastidores. Essas nem tão novas formas de interação floresceram diante da impossibilidade de os torcedores estarem nos estádios, apoiando seus clubes do coração. Mais um dos vários sintomas de uma pandemia que perdura e causa impactos claros também nos esportes.

Falta, assim, recordando o que diz o teórico Hans Ulrich Gumbrecht, a troca e a proximidade possibilitada pela simbiose dentro de um estádio, local que possui, segundo ele, uma “aura”, tornando-se “sagrado”. No estádio, é onde ocorre a performance do esporte, a presença, ou, ainda mais, a produção dela. Eis que a ferramenta comunicacional, que já vinha crescendo ano a ano, ganha novos contornos: sua função de aproximar os atores do futebol se alicerça, agora, numa urgência da produção de presença que necessariamente limita-se ao espaço virtual. Os já mencionados bastidores das partidas, gravados e editados pelos profissionais de comunicação dos clubes, tornaram-se os elos perdidos – e possíveis – num obrigatório relacionamento à distância.

Vale destacar que a exibição, pelos clubes, dos bastidores só se faz, em geral, nas ocasiões de vitórias. A exceção se dá quando ocorrem empates que carregam certo grau de dramaticidade; um empate que coloca o clube na liderança ou o livra da zona de rebaixamento, por exemplo.  

Essa fruição de espectadores e da audiência em geral se deu, pode-se dizer, desde os primeiros momentos de retorno da bola rolando no Brasil pandêmico, em junho de 2020. Juntou-se a esse caldeirão as polêmicas envolvendo alguns clubes e emissoras de tevê sobre direitos de transmissões de partidas. Alguns jogos – incluindo finais, vide o Fla-Flu do Campeonato Carioca – migraram para a transmissão no YouTube e levaram muitos torcedores aos canais oficiais dos clubes na plataforma, num engajamento superior a outros momentos.

O boom nos números de inscritos nas “tevês personalizadas” de cada instituição foi visível, principalmente se olharmos para o crescimento exponencial da taxa de seguidores no canal do Fluminense Football Club, por exemplo. O clube agora possui, com a sua “Flu TV”, mais de 600 mil inscritos no YouTube. Número seis vezes maior ao período anterior a toda essa trama que se desenrolou a partir da quarentena, na esteira de exibições ao vivo de jogos decisivos pela referida plataforma de vídeos.

É uma aproximação do torcedor, em outra esfera, com a marca, com o clube. Os departamentos de comunicação das marcas, responsáveis por essa relação, pareciam já perceber essa nova dinâmica bem antes. Está dentro de uma gama de estratégias de marketing, relacionamento e fidelização de seus públicos. A penetração dessas estratégias nos nichos encontrou, na pandemia, uma viabilidade ainda maior. E os bastidores de partidas tornaram-se essenciais na expansão do consumo do espetáculo.

Fazendo um recorte curto de uma edição do Campeonato Brasileiro para outra, num espaço de rodadas próximas, tomando o Fluminense como exemplo, nota-se a diferença de audiência. Na 35ª rodada do Brasileirão de 2019, no dia 29 de novembro de 2019, o vídeo dos bastidores da partida contra o Palmeiras, vencida pelo tricolor carioca por 1 a 0, soma – até o dia de produção deste texto, 08/02/2021 – pouco mais de 73 mil visualizações.

Já o vídeo dos bastidores da vitória sobre o Botafogo na 32ª rodada – bem próxima da rodada do primeiro caso – do Brasileirão 2020, lançado mais de um ano depois do exemplo comparativo, no dia 26 de janeiro de 2021, alcançou, em menos de um mês, quase o dobro do número dito alhures: 125 mil visualizações. Número que continua avançando a cada dia.

A manifestação do espectador aficionado

Tal importância pode ser notada pela leitura dos comentários em vídeos desse tipo. Pegando o exemplo de outro vídeo de bastidores de outra vitória do Fluminense, dessa vez sobre o Bahia por 1 a 0, na 34ª rodada do Brasileirão de 2020, conseguimos dimensionar o valor dado por parcela considerável da torcida do tricolor. Ela sintomatiza a relevância pungente; é quem sente e vivencia o impacto da distância de forma mais nítida, por ter sua presença barrada. Logo, a torcida é o ponto focal da estratégia diferenciada de aproximação que são os bastidores de partidas.

Há espaço, inclusive, para manifestações nessa relação. Alguns torcedores, por exemplo, cobram maior tempo para momentos que mostram o vestiário, a concentração nesse espaço. Estes fazem críticas, nas caixas de comentários dos vídeos inseridos no Youtube, cobrando justamente uma maior imersão nesse sentido, como nos exemplos abaixo:

Comentário de torcedor do Fluminense, no vídeo dos bastidores da vitória sobre o Bahia, com muitas curtidas. (Reprodução).
Comentário de outro torcedor do Fluminense, no mesmo vídeo dos bastidores da vitória sobre o Bahia, também com muitas curtidas. (Reprodução).

O propósito da ferramenta de comunicação fica explícito nestes comentários, que carregam, inclusive, reivindicação e feedback aos produtores. Ao que parece, a busca latente dos torcedores é, cada vez mais, o contato maior com seus ídolos, e isso parece estar sendo atenuado pelo contexto da pandemia.

Voltando a lembrar do que diz Gumbrecht, percebe-se uma possibilidade a mais de reencantamento secular que o esporte pode proporcionar com o novo cenário, ocasionado pelo aparente aumento da relevância de vídeos de bastidores de partidas em tempos de distanciamento social. Mais uma possibilidade numa realidade de desencantamento moderno, que vai permeando o tecido social a cada ano, e exacerba-se numa súbita pandemia.  

Indo um pouco mais na direção do teórico alemão, é em tal dinâmica que a gratidão pelo “herói” se manifesta nas expressões dos fãs do esporte, e as reações intensas e vagas não poderiam deixar de aparecer. Vagas – ele aponta –, pois, a princípio, ainda não há uma expectativa do interlocutor por uma resposta de seus ídolos. A resposta do ídolo com um agradecimento a possíveis elogios à sua performance é uma exceção para Gumbrecht. Mas esse novo cenário de muitas exceções pode também estar ressignificando essa possibilidade. Vamos pensar brevemente numa fala do jogador Felipe Melo, do Palmeiras.

Há um diálogo e uma nova dimensão de performance sendo construídos?

Pensando nesse processo de expansão na relação marca-torcedor, podemos lembrar de uma entrevista dada por Felipe Melo, jogador do Palmeiras, logo após o clube conquistar o título da Copa Libertadores, ainda no campo. Na entrevista, concedida à Fox Sports, o atleta já deixava subentendida a atenção e a importância que despendia aos vídeos de bastidores dos jogos, fazendo referência às suas falas ditas dentro de um futuro episódio no dispositivo que o replicava. Ele disse:

“Eu antes do jogo – na verdade não gosto de falar isso, se sair na TV Palmeiras, se colocarem lá, ótimo – mas vou falar hoje: Antes do jogo eu tava (no vestiário) procurando o que dizer para nossos atletas, e Deus me deu uma palavra (…)”, disse o atleta, citando diretamente a tevê personalizada de seu clube, mostrando uma preocupação com o que foi e com o que será veiculado por lá.

Continua sendo improvável que os heróis de epifanias temporais, que começam a se diluir no momento em que surgem, retribuam gratidões e elogios acalorados dos fãs do esporte, mas é notável que eles também sentem as novas dimensões de interação que a ferramenta de marketing vem proporcionando com sua consolidação no imaginário das torcidas. Estaria uma nova possibilidade de performance pelos atletas diante de câmeras que os miram fora do palco, na coxia do verdadeiro espetáculo?

Há espaço para respostas, diálogos, frases motivacionais inspiradoras, danças, brincadeiras com e sem a bola, e muitas outras coisas. A extensão da presença de um ídolo, que possibilita o vislumbre do cotidiano em ações espontâneas – ou não –, idênticas às de uma pessoa comum.

Nota-se clara relevância nessa ferramenta não tão nova. É interessante pensar sobre esse aumento de relevância num momento de não-presença das torcidas, um momento de relacionamento diferenciado, assim como perceber que as estratégias de engajamento, de alguns departamentos de comunicação de clubes, parecem estar cada vez mais alinhadas a isso. Os jogadores, pelo visto, também. A torcida anseia por mais vestiário, por mais minutos imersos no ambiente interno, na coxia do espetáculo. Por mais presença, materialidade. O conteúdo dos vídeos de bastidores de partidas recebe, como vimos, feedbacks para se enquadrarem em tais aspirações dos fãs de futebol. E, assim, o futebol – e tudo que permeia esse mágico esporte – continua nos mostrando que não é um fenômeno inalterável; ele está em constante mudança.

Fonte: Explosão Tricolor

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O rádio e o futebol

Maracanã lotado, com festa das torcidas nas arquibancadas, revivendo os tempos de ouro de um dos mais tradicionais clássicos do futebol mundial, que segundo Nelson Rodrigues “nasceu 40 minutos antes do nada”. É noite de Fla-Flu pela final da Taça Rio e a cidade está em festa. Os gritos, os cânticos, a emoção são variadas. Audíveis. Isso, ao menos, para quem, como eu, escutou parte do jogo de quarta-feira (8) sintonizado pela Rádio Tupi do Rio de Janeiro.

A emissora, sob o pretexto de “passar mais emoção ao ouvinte”, incluiu à narração do excelente José Carlos Araújo, o Garotinho da Galera, um som de fundo de burburinho de torcida, gritos e cânticos que, inclusive, eram modificados a depender do momento de jogo. Menos extasiados no intervalo da partida, por exemplo, mais ensandecidos nos momentos em que a bola rolava.

Duas questões precisam ser ditas sobre tudo isso. A primeira é a de que o resultado ficou espetacular. Você ouvia, e de fato se imaginava acompanhando um jogo com estádio lotado. Com festa. Mas a segunda é o fato de que, mesmo tendo ficado bonito, empolgante, o artifício jamais poderia ter sido utilizado, a meu ver.

Não se trata de uma radionovela, de uma obra de arte, de uma peça de ficção. Trata-se, acima de tudo, de jornalismo, informação, fatos que estão sendo irradiados e noticiados para um público interessado pelo jogo, pelo que está acontecendo.

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chuteirafc.cartacapital.com.br

E tudo bem que o ato de se assistir a – ou ouvir – um jogo de futebol estará sempre envolto ao prazer e ao drama que o esporte produz, mas isso não pode ser oferecido sem certos limites éticos. Afinal, o jornalismo esportivo (e uma transmissão de partida de futebol está incluída aqui) não deveria jamais incluir artifícios que afastam o seu público da realidade, dos fatos, dos acontecimentos, da análise crítica do que está posto no país.

Que tipo de radiojornalismo é esse que vende um mundo fantástico que simplesmente não existe? Onde a transmissão, como porta-voz privilegiada dos fatos, induz os seus ouvintes a imaginar um cenário diferente daquele que de fato acontece?

Ao ligar o rádio, estranhei. Depois, achei graça. Passado os primeiros momentos de estranheza, contudo, comecei a refletir. E pensei na gravidade que o episódio representa em meio a um país envolto a uma pandemia fora de controle, em que muitos dos seus governantes adotam um perfil negacionista e em que o futebol retorna sem as condições mínimas necessárias para tanto.

Como último exercício, alternei algumas vezes as transmissões da Tupi e da CBN Rio. O impacto era profundo demais. O que se fez na primeira não foi menos do que uma espécie de manipulação, uma apresentação do irreal como se fosse real. E por mais que ficasse obvio que aquilo era um artifício técnico, os efeitos me parecem danosos demais.

Quem ouviu o jogo pela Rádio Tupi e se empolgou com o clima falsamente festivo que foi construído, corre o risco de esquecer que ali do lado, no estacionamento do estádio, existe um hospital de campanha instalado em caráter emergencial onde todos os dias morre alguém vítima de Covid-19. Corre o risco de esquecer, também, que os jogos estão acontecendo sem torcida justamente por causa de todo este caos. Corre o risco de imaginar que está tudo bem num país em meio a um estado de calamidade pública.

Não se trata de uma mera vinheta, de um sinal sonoro, de uma técnica vocal apurada ou de um bordão engraçado que desde que o rádio é rádio é usado nas transmissões futebolísticas. Não, é mais do que isso o que aconteceu no jogo de quarta-feira.

E foi algo que me deixou muito preocupado, não me restam mais dúvidas.

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Qual o estágio das transmissões de futebol no Brasil?

Graças especialmente à entrada do DAZN na transmissão de eventos esportivos em 2018, uma pergunta comum que venho recebendo em palestras, apresentações de trabalhos e aulas (enquanto estudante de doutorado ou professor) é sobre a situação da transmissão do futebol no Brasil. Apresentaremos a situação atual considerando a defrontação de capitais, seguindo adaptação da Economia… Continuar lendo Qual o estágio das transmissões de futebol no Brasil?

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22 mulheres em campo

22 mulheres em campo jogando bola em um estádio lotado que cantou a Marselhesa antes, durante a após a partida entre Brasil e França. Um belo cenário para as oitavas de final da Copa do mundo de 2019. Uma Copa que pode ser um divisor de águas para o futebol das mulheres, tamanho o bom… Continuar lendo 22 mulheres em campo

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“O empoderamento feminino motivou a Rede Globo a transmitir a Copa do Mundo Feminina esse ano”, comentam Cíntia Barlem e Emily Lima

Depois de oito edições do campeonato, a emissora tem como objetivo ser parceira na luta das mulheres por direitos iguais A Copa do Mundo Feminina de futebol será transmitida pela Rede Globo pela primeira vez na história. O campeonato mundial feminino existe desde 1991 e assim como o masculino, esse torneio acontece de quatro em quatro anos. Porém,… Continuar lendo “O empoderamento feminino motivou a Rede Globo a transmitir a Copa do Mundo Feminina esse ano”, comentam Cíntia Barlem e Emily Lima

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A ascensão do Facebook nas transmissões esportivas*

Assistir a uma partida de futebol vem se tornando uma experiência fora do usual. As tradicionais coberturas de eventos esportivos não possuem mais a soberania da TV. Desde o último ano, o Facebook passou a apostar na compra de direitos de transmissões esportivas, como Uefa Champions League e a Taça Libertadores da América, dividindo opiniões… Continuar lendo A ascensão do Facebook nas transmissões esportivas*

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Machismo, futebol e jornalismo

Após o assédio contra a repórter de TV do Esporte Interativo Bruna Dealtry durante a transmissão do jogo do Vasco, na última quarta, dia 14, me senti no dever de falar sobre a posição da mulher perante o machismo no futebol e no jornalismo. Outro caso recente foi o da jornalista Renata de Medeiros, da… Continuar lendo Machismo, futebol e jornalismo

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Transmissões no plural

Já que falar em regulação da mídia tem causado muita polêmica nos últimos tempos, vamos tentar um tema menos delicado e mais pertinente a este blog. Pluralidade de discurso. Até me esforço para ser um entusiasta das redes sociais, mas acreditar que o modelo de comunicação todos-todos é plenamente eficiente ainda parece ser algo distante.… Continuar lendo Transmissões no plural

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