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Futebol, ofensas e ofensivas na Alemanha: o que não se entende na revolta dos torcedores

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O observador mais desatento provavelmente passou os primeiros dias de março surpreso com os diversos casos de paralisação de jogos na Bundesliga, a liga alemã de futebol profissional. Atendendo à determinação da federação local, árbitros interrompiam as partidas para reagir a gestos e mensagens vindas das arquibancadas.

Para quem acompanha com maior afinco, os acontecimentos recentes não passaram de mais uma semana normal no futebol alemão, onde protestos de torcedores são corriqueiros, numerosos e variados. De estranho, apenas as consecutivas decisões de interrupção das partidas, algo raro no país germânico até para casos flagrantes e notórios de racismo.

O ponto mais alto dessa tensão – que, frise-se, não se iniciou ali – foi o jogo entre Hoffenheim e Bayern de Munique pela Copa Alemã, em 29 de fevereiro, na Rhein-Neckar-Arena. Faixas desfraldadas pela torcida visitante insultavam Dietmar Hopp, o presidente do Hoffenheim, em uma partida que já contava 6 a 0 para os bávaros.

Então surge outro fato surpreendente e raro, mas visto com bons olhos por parte da cobertura do evento: a ação coordenada dos jogadores de ambas as equipes como “contraprotesto”, negando-se a jogar futebol nos 15 minutos restantes da partida (até porque o placar já estava liquidado), passando a bola de lado e demonstrando apoio ao dono do Hoffenheim.

É aqui que todos os atores se confundem, as narrativas se invertem, e os torcedores saem como figuras desajustadas, vândalos ou como “idiotas e anarquistas”, nas palavras de Karl Heinz Rummenigge, presidente do Bayern de Munique, em declaração contra a própria torcida e em defesa do bilionário Hopp.

Na imprensa brasileira, então, inúmeras posições equivocadas e desinformadas relacionavam o acontecimento a supostos insultos racistaS ou ações de hooligans, violência, baderna ou coisas do tipo. Importante reforçar: nada ali era novo, nada era inédito, senão a interrupção da partida por determinação da arbitragem, seguindo recomendações da Federação Alemã de Futebol (DFB).

O que foi comentado em raras, mas felizes, oportunidades foi o fato de Dietmar Hopp ser criticado há mais de uma década por praticar, com o TSG 1899 Hoffenheim, um descumprimento da regra do 50%+1. Tal norma estabelece que os clubes alemães devem estar obrigatoriamente sob o controle da associação civil [eingetragener Verein] que originou o time de futebol. É dizer, Hopp é odiado pelos torcedores locais por burlar uma norma sagrada dentro da cultura torcedora da Alemanha.

O assunto então desembarca no Brasil de forma distorcida, sobretudo porque a imprensa esportiva brasileira ou ignora ou despreza ou não se interessa pelo tema das culturas torcedoras. O evento daquele jogo simbolizava um assunto pertinente, bastante atual, correlato ao momento que o futebol brasileiro vive, no que se refere à discussão sobre a transformação dos clubes em empresas. As manifestações dos torcedores alemães, que interromperam mais uma série de outras partidas em todo o país nas semanas seguintes, nas palavras de Carles Viñas, “não são mais do que um sintoma do debate existente acerca do modelo societário do futebol alemão”.

A postura dos torcedores foi uma ofensiva

Um exemplo de como estamos muito distantes de compreender o que acontece lá do outro lado do Atlântico: por anos falamos sobre as arenas multiuso e suas normas de convivência com base em uma suposta relação com o “jeito europeu de torcer”. Introjetamos um conjunto de falsidades: que a Europa acabou com a violência no futebol, que o torcedor europeu está satisfeito com seus estádios, que o público se comporta de forma passiva e ordeira, que o “espetáculo” é apreciado por consumidores cientes do seu papel de clientes.

Nada disso é lá muito verdade e a Alemanha talvez seja o país onde isso mais se mostra evidente. Por décadas a fio, o torcedor alemão luta para se posicionar como ator político com presença constante nos debates sobre os rumos do futebol local, com forte presença nos círculos decisórios dos seus clubes.

Mais do que isso: os torcedores locais estabeleceram uma relação de solidariedade inquebrantável pelas rivalidades ou clubismos, onde as pautas são vistas como transversais a todos e motivadoras de protestos simultâneos em todo o território nacional. Essa noção de “solidariedade de classe” torcedora na Alemanha é só o ponto de partida para conhecer o complexo – mas não incompreensível – contexto que vive o futebol no país.

Borussia Mönchengladbach - Borussia Dortmund

O ocorrido no jogo entre Hoffenheim e Bayern foi só um dos episódios de uma série de protestos que começou uma semana antes, em 22 de fevereiro, na partida entre o Borussia Mönchengladbach contra o próprio Hoffenheim. Com os dizeres “filhos da puta insultam um filho da puta e são punidos por filhos da puta”, os torcedores do Gladbach se solidarizavam contra a punição exercida pela DFB aos torcedores do rival Borussia Dortmund, provocando a primeira de uma sequência de interrupções de jogos.

Ainda em 2018, um protesto massivo contra Dietmar Hopp provocou tensa discussão na DFB, gerando uma “suspensão de sanção” planejada aos torcedores do Borussia Dortmund. Ao caírem em “reincidência” por causa de novos cantos contra Hopp, em 20 de dezembro de 2019, a DFB resolveu “remover a suspensão da punição”, proibindo torcedores do Borussia Dortmund – todos eles, sem exceção – de frequentarem como visitantes o estádio do Hoffenheim pelas próximas três temporadas.

Para os setores organizados das torcidas alemãs a punição ligou o sinal de alerta. A DFB não apenas descumpria o acordo de não aplicar punições coletivas, mas também indicava que o poder de Dietmar Hopp estava acima dos direitos dos torcedores. O bilionário alemão e proprietário do Hoffenheim é o dono da SAP, multinacional do ramo de elaboração de softwares, uma das patrocinadoras do futebol local. Foi isso que incitou a ofensiva política mais recente das arquibancadas alemãs.

O jornalista Felix Tamsut também cobrou uma postura mais responsável dos seus colegas de imprensa na Alemanha e Europa: “Lição número um para nós, jornalistas: começar a levar os torcedores a sério. Não apenas nas manifestações, mas todo dia”. Um dos mais atentos observadores das mobilizações dos grupos organizados no país, Tamsut já havia destacado, ainda antes do evento de Hoffenheim x Bayern, o protesto dos torcedores do FC Köln contra Dietmar Hopp: “Quebraram suas promessas por causa de um filho da puta! Contra as punições coletivas”.

Nessa altura os inúmeros grupos de torcedores sequer tratavam mais da regra do 50%+1. Agora estava lançado um desafio à DFB, questionando se ela interromperia ou suspenderia absolutamente todos os jogos do futebol alemão em que Hopp fosse insultado. Avisaram que eles estariam lá todos os jogos, e estiveram: Union Berlin x Wolfsburg; Dortmund x Freiburg; Meppen x Duisburg; Carl Zeiss Jena x 1860 München; Schalke 04 x Hoffenheim; Gladbach x Dortmund; Freiburg x Union Berlin…

Tamanha articulação possui duas fontes de combustível. Por um lado a ProFans, que desde 2001 estabelece uma rede entre os grupos ultras, espécie de torcida organizada tipicamente europeia, com raízes na Itália, mas com forte presença na Alemanha desde nos anos 1990. Qualificados para realizar grandes festas nos estádios, dado o caráter mais ativo de seus membros, tais organizações foram dotadas de forte consciência política e solidariedade. Quando uma organiza uma ação para determinada rodada, a outra é comunicada, gerando um ciclo de “competição” pelo protesto mais criativo e impactante.

Por outro lado, a Unsere Kurve, uma organização fundada em 2005 que articula primariamente os fanprojekts, mas, igualmente dotada de consciência política, acaba por ter inserção na massa dos torcedores, por assim dizer, “não organizados”. Os fanprojekts surgem relacionados aos projetos de assistência social dos clubes, mas ganham hoje um papel importante de defesa dos interesses dos torcedores na Alemanha.

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Portanto, é importante entender que a cultura torcedora alemã não apenas é politicamente ativa e ciente do seu poder, mas também existe basicamente assentada em uma relação de defesa, aliança e ação política. Isso vai desde protestos contra o descumprimento da norma 50%+1, até a luta contra a repressão policial, contra os ingressos caros para visitantes, contra jogos às segundas-feiras ou mesmo na solicitação conjunta para a interrupção dos jogos do futebol alemão frente à pandemia do Covid-19.

Essa discussão foi feita no podcast SDT Na Bancada #03 50+1 com Fred Elesbão, economista e professor que reside na Alemanha há 13 anos onde se tornou sócio do Hannover 96 e viveu de perto as tensões entre torcedores e dirigentes do futebol alemão. O Hannover 96, objeto do podcast, é um dos principais casos de luta travada pelos Mitglieder (membros) contra a apropriação privada de um clube, como foi o caso do derrotado Martin Kind.

Bom para quem?

Um dos pontos mais incômodos e mal colocados sobre esse tema é a abordagem de que tais “investimentos” são positivos para o futebol alemão. À parte de se ignorar como isso é pouco relevante na cadeia produtiva do futebol local em termos de redução das diferenças financeiras frente a outras ligas europeias – dado que é um investimento particular em um clube, não uma injeção financeira substancial em toda a liga –, também se comete uma falha analítica ao se desconsiderar os efeitos reais desse desequilíbrio competitivo.

Afinal, ninguém se dá ao trabalho de avaliar como os clubes que são bons cumpridores das normas locais, com critérios claros de participação e direitos políticos dos seus sócios, perderam seus espaços para esses empreendimentos elaborados com muito dinheiro e pouca base torcedora. Esse é o ponto central do descontentamento dos torcedores alemães com a autorização dada ao Hoffenheim, no final dos anos 2000, e ao famigerado RasenBallsport Leipzig, surgido em 2009 com um forte investimento da Red Bull GmbH, gigante da indústria de energéticos.

Estudioso do tema, Carles Viñas, doutor em História Contemporânea pela Universidade de Barcelona, escreveu o esclarecedor artigo “O modelo societário do futebol na Alemanha: uma referência de êxito questionável” para o livro Clube Empresa: abordagens críticas globais às sociedades anônimas no futebol (Corner, 2020), onde explica esses dois casos em seus detalhes mais sórdidos.

Sobre o Hoffenheim, Viñas destaca a brecha oferecida para a empreitada: “A DFL levou em consideração o apoio significativo e prolongado do empresário, que contribuiu com 300 milhões por 20 anos para a equipe, para incluir o Hoffenheim no grupo de clubes liberados [da regra 50+1] (…) Uma decisão que foi vista como um delito e transformou o Hoffenheim (…) em um clube detestado pela maioria das torcidas no país”. O caso é considerado anda hoje o “estopim” de uma necessidade de organização torcedora mais firme e ativa no país.

Carles Viñas observa que anos depois o RB Leipzig conseguiria assumir o posto de clube mais odiado da Alemanha, quando “a DFL, em uma decisão controversa, interpretou que sem a Red Bull o clube não existiria e, portanto, concedeu a licença federativa”. Ele observa que por trás do iniciativa da Red Bull estavam figuras importantes como Franz Beckenbauer. À época lotado como um dos vice-presidentes da DFB, o ex-jogador e ex-dirigente do Bayern de Munique foi um dos “consultores” do projeto de compra de um modesto clube do leste Alemão – região mais pobre e pouco influente no futebol nacional – com apoio para a quebra da regra que impedia que clubes locais tivessem donos.

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Hoje no ostracismo por causa de envolvimento em escândalos de fraude e lavagem de dinheiro, quando da escolha da Alemanha como país-sede da Copa de 2006, Franz Beckebauer foi um dos defensores da empreitada do RB Leipzig, um clube que é formado por menos de 20 sócios, todos ligados à empresa Red Bull, como manobra para burlar a regra sagrada para os torcedores alemães.

Criada em 1998, a regra que obriga que os clubes pertençam aos seus sócios não teria como estender a lógica do 50+1 ao Wolfsburg e ao Bayer Leverkusen. Esses dois clubes possuíam relação de patronato e propriedade com a Volkswagen e a Bayer AG desde suas fundações, do que se infere que é compreensível que não sofram tanta retaliação dos torcedores e dirigentes rivais.

O mesmo não pode ser dito de Hoffenheim e RB Leipzig, invenções posteriores que, desembarcadas tardiamente, fizeram da Bundesliga – a liga mundial que mais regula a insanidade mercadológica que impera no futebol global, através de princípios claros que definem os clubes como propriedade comum dos seus associados/torcedores – um campeonato formado de empresas em quase um quarto dos seus participantes.

Esse é o nível de contradição que ajuda a compreender os acontecimentos para além do potencial organizativo dos torcedores locais. Pode-se parar os jogos para defender a integridade moral de um bilionário, mas onde ficam os clubes tradicionais que perderam espaço por causa dos burladores? Grandes agremiações, com papel fundamental na construção do futebol alemão, deixaram de frequentar a elite nacional pela inviabilidade de competir contra os dopings financeiros de Hoffenheim e RB Leipzig.

Borussia Moenchengladbach v TSG 1899 Hoffenheim - Bundesliga

Em 2008, quando o Hoffenhein subiu para a Bundesliga, Mainz 05 e Freiburg, clubes com forte base local, foram lesados pela sobrecarga financeira fora da regra efetuada pelo proprietário do clube. E caso seja a questão de ressaltar a escolha por uma cidade na região menos desenvolvida do país, vale também levantar o Union Berlin e Dynamo Dresden, ambos do leste alemão, disputavam a vaga para a elite contra o RB Leipzig em 2016.

Estamos falando portanto de grandes massas associativas que são prejudicadas por esses casos “bons para o futebol alemão”.  Não se tratam de clubes incapazes ou mal geridos, mas de clubes punidos porque carregam os valores e os sentidos que fazem do futebol alemão o mais financeiramente saudável, socialmente pujante e historicamente significativo do mundo.

A postura dos jogadores foi uma ofensa

“Em 23 de novembro de 2013, cerca de 6.000 torcedores do Hansa Rostock viajaram disfarçados para Leipzig para assistir à partida contra a RB. Uma vez localizados nas arquibancadas, exibiam lenços com o lema “Scheiss Bullen” (toro merda) e também exibiam em cartazes, um ao lado do outro, com o slogan “In Leipzig wird’s immer nur Lok und Chemie geben” (Em Leipzig só existem Lok[omotive] e Chemie). No ano seguinte, quando o RB visitou o campo do Union Berlin por conta da sexta rodada do campeonato, os torcedores locais se vestiram de preto e mantiveram 15 minutos de silêncio. Uma greve organizada para tornar visível a raiva da torcida e que se uniu, um ano depois, à destruição de uma réplica em larga escala de uma lata de Red Bull pelos fãs do Karlsruher SC.  Em 2015, foram os torcedores do FC Heidenheim que receberam o ônibus que levava os jogadores do RB com um lançamento maciço de notas falsas de 100 dólares, que incluiu a legenda “Red Bull merda”, além de outros slogans anticapitalistas e a efígie de Dietrich Mateschitz. Um ano depois, os torcedores do Dínamo Dresden tornaram seu protesto visível ao atirar a cabeça de um touro quando seu time enfrentou o RB Leipzig na primeira etapa da Copa da Alemanha, enquanto exibiam faixas com os slogans “Tradition kann man nicht kaufen” (Tradição não pode ser comprada) ou “RB Não” nas arquibancadas. Uma ação pela qual a DFB puniu o clube saxão com uma multa de 60.000 euros. No encontro inaugural da temporada seguinte, os torcedores do Hoffenheim exibiram faixas sarcásticas com o slogan “Queremos nosso trono de volta: o clube mais odiado da Alemanha”. E não apenas as torcidas menosprezaram o clube de Leipzig, os clubes rivais se negam a usar o novo nome e o escudo do clube nos monitores de vídeo de seus estádios quando enfrentaram o RB Leipzig”.

Esse longo trecho do supracitado artigo de Carles Viñas é necessário. Em toda essa história é indispensável separar as ofensas das ofensivas. Retornar ao evento da interrupção do jogo entre Hoffenheim e Bayern de Munique, dentro desse contexto, fará tudo ter mais sentido.

Um dos mais importantes e famosos jogadores em campo era o atacante Thomas Müller, que, não se sabe muito bem como, dado o horário, publicou uma mensagem no seu twitter evocando o sempre controverso lema do #FairPlay e se posicionando sobre o ocorrido na Rhein-Neckar-Arena: “Não dê chances a campanha de ódio, racismo, antissemitismo, homofobia”. Para além de não fazer muito sentido, dado o real conteúdo do protesto, a publicação trazia a foto do “contraprotesto” dos jogadores, ao lado dos dirigentes de Hoffenheim e Bayern.

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A atitude escolhida pelos atletas – ou a obediência a alguma ordem superior, ainda não se sabe – representou uma brutal ofensa moral aos torcedores que estavam no seu legítimo direito de contestar algo que lhes afeta e lhes diz respeito. Algo que não diz respeito aos atletas bem pagos, bem assessorados, bajuladores e nada comprometidos com os anseios dos torcedores. Categorias distintas, jogadores e torcedores precisam ser vistos em suas respectivas competências, responsabilidades e legitimidades. Jogadores são apenas produtores de espetáculo. Torcedores são os produtores dos seus clubes.

Na Alemanha isso já está mais do que explicado e uma reunião informal convocada pela DFB confirma: “Os clubes e a federação concordaram que, como o futebol não pode ser interrompido por causa do mero exercício da liberdade de expressão, eles teriam que aceitar os insultos. Os árbitros não agiriam a menos que as manifestações incorressem em apologia da violência ou supostas ameaças de morte, como a efígie de Hopp colocada no ​​centro de um alvo”, anotou o jornalista Diego Torres para o El País.

Dentre os possíveis dirigentes dispostos a defender medidas punitivas contra os ultras, apenas Karl Heinz Rummenigge, do Bayern, ousou erguer a voz. Publicamente, escolheu atacar os torcedores como “a face feia do futebol”. Tanto provocou que se tornou alvo de protestos da própria torcida: “A face mais feia do Bayern quem mostra são aqueles que recebem dinheiro do Catar”. Os torcedores se referiam aos contratos de patrocínio entre o clube e a Qatar Airways, empresa pertencente ao estado catari, acusado de violações ao direitos humanos e emprego de trabalho escravo na construção dos estádios da Copa do Mundo 2022.

Por outro lado, dirigentes de clubes adotavam a postura de mediadores e representantes de instituições sociais históricas que estavam muito acima dos seus cargos temporários. Alguns deles, como Hubertus Hess Grünewald, do Werder Bremen, e Michael Zorc, do Borussia Dortmund, defenderam o direito à liberdade de expressão e aproveitaram para alfinetar a federação pela permissão às empresas que não respeitam a regra 50%+1.

Os elementos fundamentais para entender esse ecossistema único no futebol global – considerando que meras faixas com dizeres genéricos são proibidas nos estádios brasileiros –, são produzidos historicamente. Nem apenas concessões do poder, nem apenas conquista das arquibancadas, o futebol na Alemanha apresenta uma realidade possível onde o processo de mercantilização do futebol pode ser gerido de forma mais adequada para o interesse dos seus produtores históricos, os torcedores.

A existência de uma estrutura que permite maior participação, além de uma cultura política historicamente produzida por uma série de circunstâncias que vão além do futebol – que, afinal, nunca esteve desgarrado do contexto social-cultural onde se instala – criou as bases necessárias para que a atuação incansável, destemida e resiliente dos torcedores alemães pudesse produzir soluções e contextos onde suas vozes não só podem, como precisam ser ouvidas, dado alto custo político e financeiro que se assume ao negá-las.

E que não se enganem os desavisados: isso tudo também está acontecendo em outros países da Europa e da América do Sul.


Obs: Pesa também sobre a biografia de Dietmar Hopp o seu passado familiar. Torcedores seguem resgatando a história de Emil Hopp, pai do mandátario do Hoffenheim, membro das Sturmabteilung (SA), tropa de choque do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães (NSDAP – o partido nazista). Emil Hopp esteve no comando das ações da Kristallnacht (Noite dos Cristais) em Hoffenheim, quando se incendiou sinagoga da cidade em novembro de 1938.

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