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O futebol no mundo pós-pandemia

O futebol é uma paixão nacional e, nas últimas semanas, a discussão sobre um possível retorno de competições no país tem crescido de forma exponencial. Na Alemanha, o retorno já aconteceu, porém sem a presença do torcedor. Mas como será esse futebol no mundo pós-pandemia, que, pelo menos num primeiro momento, acontecerá sem a presença, ou com presença muito restrita, do torcedor? Ouvimos Nico Cabrera, doutor em Antropologia e pesquisador da Universidade Nacional de Córdoba. Autor de vários estudos sobre torcidas organizadas no Brasil e na América Latina. Ele nos fala sobre suas experiências junto a estas torcidas, como está a ação delas durante a pandemia e de como será o futebol pós-COVID-19 para esse grupo de torcedores já tão marginalizados no Brasil e no mundo.

Foto Nico Cabrera - Materia Torcidas organizadas
Nicolas Cabrera (imagem cedida pelo próprio para o blog)

LEME – Como você acredita que a pandemia provocada pelo novo coronavírus irá impactar o futebol e, especificamente, em relação a torcida e ao ato de torcer?

Nico Cabrera – Eu vejo um cenário de muitas incertezas. Acredito num agravamento de duas tendências. Uma diz respeito ao predomínio do futebol negócio, onde os torcedores serão pensados mais como consumidores. O futebol sendo, portanto, mais elitizado, protocolizado e espetacularizado. A segunda, seria o torcedor sendo visto mais como um espectador passivo do que ator protagonista. Um outro ponto importante diz respeito a um aumento de outras formas de se torcer. Não falaria de uma nova cultura do torcer. Mas de uma soma, de uma aglutinação de processos do torcer que já estavam em desenvolvimento mesmo antes da pandemia. Haverá, por exemplo, um deslocamento do “torcer” para a cultura digital e a valorização do “assistir jogos pela televisão”. Na volta do campeonato alemão, a Sky Sports bateu recorde de audiência com mais de 6 milhões de espectadores. 

LEME – E qual será o lugar das torcidas organizadas neste futebol elitizado e “arenizado”?

NC – Com a transformação dos estádios em Arenas, os torcedores já vinham sofrendo uma ofensiva para que eles fossem retirados dos estádios. Com a pandemia, a tendência é esta prática se intensificar. Mas eu vejo isso também como uma oportunidade para as torcidas se reinventarem. E esta reinvenção possui um sentido duplo. Ela pode vir como um movimento de resistência, com protestos, como tem acontecido na Europa. Pode também ser criativa, desenvolvendo novas formas de torcer. Os torcedores sempre dão um jeito de se tornarem protagonistas. No outro sentido, as torcidas organizadas, ou “barras”, como são conhecidas no resto do continente, podem aproveitar esse momento para mudar a sua imagem junto a sociedade, visto que são muito estigmatizadas como organizações violentas.

LEME – Como têm sido a ação das torcidas organizadas, ou “Barras”, durante a pandemia?

NC – Então, está havendo muito engajamento. Muitas torcidas organizadas, no Brasil e nas Américas, estão atuando em campanhas de ajuda e solidariedade durante o coronavírus. Posso citar o exemplo da “Gaviões da Fiel”, do Corinthians e de outras, como as torcidas organizadas do Bahia, do Náutico, Cruzeiro. Na transformação do estádio do Pacaembú, São Paulo, em hospital de campanha, houve a adesão de muitos voluntários de torcidas organizadas. Na colômbia, desenvolveram campanhas de ajuda humanitária as torcidas do Atlético Nacional de Medelín, do Colo-colo. As torcidas organizadas são formadas por pessoas com penetração em territórios pobres e periféricos. Por esta razão, elas podem contribuir bastante em campanhas de saúde pública. Esta é uma função que as torcidas organizadas exercem fora dos estádios, ninguém vê e são muito importantes.

LEME – Você fala num estigma das torcidas organizadas como causadoras de violência em estádios. A mídia constantemente remete à ausência do público, das “famílias”, nos estádios também as ações destas torcidas. Você acredita num futebol pós-pandemia sem a presenças das “barras”?

NC – O Futebol, sem as torcidas organizadas, perderia seu conteúdo popular, festivo, carnavalesco, colorido. Elas fizeram, do futebol, o esporte mais popular no Brasil e nas Américas. É errado pensar que, tirando as torcidas organizadas dos estádios, a violência irá desaparecer. Em diversos lugares do mundo, inclusive no Brasil, adotou-se um modelo de torcida única nos estádios, sem a presença da torcida do time “visitante”. Mas a violência não diminuiu. A violência não desaparece, ela se desloca. Com a torcida única, presenciamos briga fora dos estádios e mesmo dentro dos estádios, entre torcidas do mesmo time.  Outro ponto a ser destacado é o aspecto cultural. No Brasil, e nas Américas, o verdadeiro torcedor é, nas representações dos torcedores, aquele cara, ou aquela menina, que vai aos estádios, apoiando sua equipe nos momentos bons e, mais ainda, nos momentos difíceis. Na moral dos torcedores, a presença física é uma regra de ouro. Ele não pode ser alguém que fica em casa assistindo futebol na televisão. O verdadeiro torcedor é aquele vai, além de toda adversidade, ver seu time no estádio. Se ele tiver que quebrar regras, melhor ainda. Isso só acrescenta a sua reputação como torcedor. Torcer é um sentimento, uma paixão. Além disso, as narrativas do futebol sempre precisam de um território. A nação, o clube, o bairro, o estádio. Isso não vai desaparecer. Os torcedores sempre terão um território a conquistar. Então, no futebol pós-pandemia, haverá muitas mudanças, mas nem tudo vai mudar e vamos torcer para que o verdadeiro torcedor, sobreviva e continue indo aos estádios.

Entrevista cedida por Henrique Biscardi.

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