Artigos

A chegada das novas piscinas de ondas. O surfe moderno também está passando por um processo de “arenização”?

A primeira realização de uma etapa do circuito mundial na Surf Ranch, piscina de ondas desenvolvida pelo onze vezes campeão mundial, Kelly Slater, em 2018, movimentou o mercado e as opiniões no mundo do surfe. As ondas artificiais não surgiram agora. Em 1985, os melhores surfistas do mundo participaram de um torneio em um parque aquático de Allentown, na Pensilvânia (EUA) e na década de 1990, piscinas de ondas artificiais receberam alguns campeonatos, um deles vencido justamente por Kelly Slater, na Disney, enquanto outros eventos movimentaram a cidade de Miyazaki, no Japão, onde estava a Ocean Dome, considerada a melhor piscina de ondas da época. Mas naquele tempo as tecnologias ainda não geravam ondas tão interessantes a ponto de competir com as ondas do mar. E foi justamente isso que a Kelly SlaterWave Company conseguiu para convencer a World Surf League (WSL) a realizar um campeonato na piscina: a capacidade de gerar “a primeira onda fabricada pelo homem com a força e a forma de uma onda oceânica.[2]

As tecnologias atuais prometem revolucionar o esporte por conta das novas possibilidades ligadas ao desenvolvimento de atletas, como o treinamento de alta performance, mas principalmente por gerar novas oportunidades comerciais como a criação de condomínios e resorts em locais longe do litoral, venda de direitos de transmissão dos campeonatos que se adequem melhor à programação televisiva, minimizando as dificuldades enfrentadas nos campeonatos realizados no mar (imprevisibilidade da natureza e falta de infraestrutura em determinados locais), aumento da audiência e o alcance de novos públicos. Um novo leque de atividades que provavelmente tornarão o esporte ainda mais midiatizado e passível de gerar mais lucros[1]

Em busca da onda perfeita

A tecnologia idealizada por Kelly Slater e por Adam Fincham, engenheiro mecânico, especializado em mecânica de fluidos na Universidade do Sul da Califórnia (USC), conta com uma piscina de 700 metros de comprimento por 150 metros de largura e um sistema chamado “hydrofoil”. É uma lâmina de metal, instalada em uma das laterais, que vai e volta toda a extensão do lago impulsionada por um sistema de trilhos, gerando a onda. Bancos de areia e recifes artificiais ajudam na hidrodinâmica para a recriação do fenômeno natural.

Surf Ranch – Fonte: revistatrip.uol.com.br

“A formação de uma onda pode durar até 50 segundos, com estabilidade de altura e formação. Em situações naturais, os surfistas muitas vezes não chegam a ficar 10 segundos em cima da prancha”. Outra tecnologia que já está em funcionamento e promete acirrar a corrida de lançamento de novos “surf parks” é a Surf Lakes, que fica na cidade de Yeppoon, em Queensland, Austrália. Ela consiste em um enorme disco de 1.400 toneladas que sobe e depois despenca sobre um lago a cada seis segundos formando ondas perfeitas em toda sua extensão. Segundo o site do parque, “é a maior inovação entre as inovações dos parques de surfe [2]

Surf Lakes – Fonte: stabmag.com

De acordo com Ford e Brown (2006), há uma tensão que permeia a cultura do surfe, principalmente em torno do “soul surf” e as tendências comerciais e de competição: “a primeira associada a uma narrativa declinante e o surfe contra cultural como perspectiva de estilo de vida, e a última, dentro de uma narrativa progressiva a um ethos olímpico de esportivização do surf” (FORD e BROWN, 2006, [s.i]). Essa discussão já existia dentro do esporte, mas parece ter se intensificado ainda mais com a chegada das novas piscinas de ondas artificiais. Para a World Surf League (WSL), que se tornou sócia da Surf Ranch em 2016, a piscina de ondas é uma importante aposta para tornar a primeira liga do surfe mundial lucrativa, como afirmou sua atual CEO, Sophie Goldschmidt em uma entrevista à revista Forbes:

Tivemos o primeiro evento do tipo no ano passado e teremos outro em 2019. É importante entender as possibilidades que isso traz para a mídia e os patrocinadores. O oceano nunca foi tão importante, mas agora usamos a tecnologia de forma complementar.

Essa forma complementar indica alguns interesses da liga, entre eles transformar a piscina no principal palco das Olimpíadas[3], facilitar a transmissão televisiva do esporte, que sempre teve dificuldades de entrar nas grades de programação por conta da imprevisibilidade da natureza, e a venda de ingressos. Rafael Fortes (2011) salienta que a inclusão do surfe nas Olimpíadas reacendeu o debate em torno da profissionalização do surfe e de sua adesão a formatos altamente esportivizados, comerciais e midiatizados. Nesse sentido, o autor enumera os desafios de se televisionar e transmitir o esporte: a escassez de infraestrutura tecnológica em lugares remotos, o caráter impreciso das condições climáticas (qualidade das ondas, que podem impedir a realização da etapa; neblina, que pode dificultar que os juízes enxerguem e julguem os atletas) e a imprevisibilidade de incidentes, como casos envolvendo tubarões[4] (FORTES, 2020, p. 63).

Dessa forma, o formato previsível da disputa nas piscinas se encaixaria perfeitamente às demandas da televisão. De acordo com os critérios da primeira etapa do mundial nesse cenário, cada atleta tinha três chances de surfar uma onda para esquerda e outra para direita, e em vez de um contra um, como na maior parte dos eventos no mar, os atletas caíram na água sozinhos e com hora marcada. Outra novidade explorada pela WSL foi a venda de ingressos, que variaram de 99 dólares (direito a assistir a um dia de evento) a 30 mil dólares (direito a assistir todos os dias do evento em um camarote para dez pessoas, com comida e bebida inclusas).

Todas essas inovações dão indícios de que a “nova era do surfe”, que produz ondas perfeitas para o desenvolvimento da performance dos atletas, também irá inaugurar um processo de arenização no esporte, que talvez possa culminar em manifestações mais contundentes de negação ao “surfe moderno”, assim como o futebol, guardadas as diferenças entre ambos, vem passando. Podemos sugerir que ainda existe uma espécie de “democracia torcedora” (SANTOS, 2018) no surfe, na medida em que as praias onde são realizados os campeonatos são públicas, que não há restrição quanto a entrada nelas, e que atualmente é possível assistir às etapas do tour através das transmissões ao vivo via streaming por aplicativo ou pelo site da WSL com a opção de narração em português (FORTES, 2020, p. 64). Ir à praia, dependendo da distância que o “torcedor” se encontra, pode não ser exatamente barato, assim como ter um smartphone ou um computador com acesso à internet também não é para todos, mas essas opções são mais acessíveis do que pagar 99 dólares (cerca de meio salário mínimo) em um ingresso para assistir a uma etapa do tour na piscina, sem contar os demais possíveis gastos com itens de consumo dentro de um “parque”. Como Helal e Costa destacam (2020), já existem pesquisas que “dão ênfase aos intensos processos de mercadorização que estaria, segundo alguns autores, promovendo uma gradativa exclusão da participação popular” (HELAL e COSTA, 2020, p. 512), no futebol. Em um cenário esportivo cada vez mais midiatizado e espetacularizado, o surfe parece estar indo pelo mesmo caminho.

As piscinas brasileiras

No Brasil, estão sendo construídas duas piscinas de ondas para a prática do surfe. Uma em São Paulo, em Itupeva, o condomínio de luxo Praia da Gama: “o único condomínio do mundo com praia, golf e hípica”, e outra em Santa Catarina, Garopaba, a Surfland Brasil. “O primeiro clube e resort em multipropriedade com piscina de ondas para surf no mundo”. Em uma rápida comparação entre os sites e perfis no Instagram dos dois empreendimentos, supomos que os públicos-alvo almejados são diferentes. Enquanto que o Praia da Gama parece ser um condomínio mais voltado para um público mais abastado e exclusivo, com poucas unidades à venda e lotes a partir de dois milhões de reais, a Surfland parece querer atingir um público maior e que se identifica mais com o estilo de vida do surfe, pois além do modelo de vendas sugerir menos exclusividade, a sua campanha publicitária é feita explorando a imagem de atletas renomados do esporte, como o bicampeão mundial, Gabriel Medina. De acordo com um levantamento feito em agosto de 2020 com um representante de vendas do empreendimento Surfland Brasil, pudemos apurar que o custo de uma “fração[5]” era cerca de noventa mil reais. Cada fração dava direito a quatorze dias de hospedagem no ano em um apartamento térreo (sendo sete dias na alta temporada e sete dias na média), além de acesso ao clube, que conta com a piscina de ondas, uma pista de skate e outros equipamentos esportivos, o ano inteiro.

As propostas da Surfland Brasil e do Praia da Gama estão de acordo com as ideias da WSL para a construção de novas piscinas de ondas pelo mundo. Segundo Sophie Goldschmidt, principal executiva da liga mundial, em entrevista à revista TPM sobre como a piscina de ondas poderia ser usada pela comunidade no Brasil, ela respondeu: “uma parte importante será o treinamento para o surf de alto desempenho. Também vemos a oportunidade de fazer algo parecido com um country club [um clube de associados]”. Essa visão de mercado reforça a hipótese de que o surfe é um esporte majoritariamente de elite. Fortes (2011), em seu livro o Surfe nas ondas da mídia: esporte, juventude e cultura, ressalta que:

A caracterização do surfe como algo nato na fala dos surfistas apaga diferenças quanto a fatores de classe, lugar, oportunidades para surfar (tempo livre, acesso ao mar, posse de prancha e acessórios). Embora a representação elimine estes elementos, na prática eles são decisivos e constituem as condições estruturais que determinam se um indivíduo poderá ou não ser surfista (FORTES, 2011, p. 267) .

Ou seja, a condição financeira do praticante pode ser preponderante para que ele evolua no esporte e desfrute do estilo de vida easy going que o estigma de o que é ser um surfista costuma sugerir. Com as piscinas de onda, a tendência é que haja mais um elemento de distanciamento não só do praticante com poucos recursos financeiros, como do público em geral, espectador esporádico e simpatizante do surfe. Ainda não se sabe se esses empreendimentos, que por si só demandam grandes infraestruturas e espaços, estarão ligados a processos de gentrificação nas regiões onde estão sendo instalados, assim como ainda não é possível afirmar se tais investimentos trarão benefícios concretos para o esporte, como o desenvolvimento de novos atletas. Mas a expectativa do crescimento no lançamento e desenvolvimento de novas tecnologias para a produção de ondas artificiais próprias para o surfe nos próximos anos é grande, e será necessário que novas pesquisas lancem luz sobre esse tema que já está impactando o chamado “surfe moderno”.  

Referências bibliográficas

FORD, Nick; BROWM, David. Surfing and social theory. New York: Routledge, 2006.

FORTES, Rafael. O Surfe nas ondas da mídia: esporte, juventude e cultura. Rio de Janeiro: Apicuri, 2011.

GUIMARAES, P. C. D.; FORTES, Rafael. A transmissão ao vivo de campeonatos de surfe pela internet: padrões televisivos, inovação e questões para a história do esporte. História: Questões e Debates, v. 68, p. 55-76, 2020.

HELAL, Ronaldo. O Que é Sociologia do Esporte. 1. ed. São Paulo: Brasiliense, 1990.

HELAL, Ronaldo; Costa, Leda Maria. Sociologia do Esporte: temas, pressupostos e situação do campo. In: Rita de Cássia Fazzi; Jair Araújo de Lima (Orgs.). Campos das Ciências Sociais. Figuras do mosaico das pesquisas no Brasil e em Portugal. 1ed. Petrópolis: Vozes, 2020.

LORCK, Carlos K. Surfe: deslizando sobre as ondas. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1980.

SANTOS, I. S. C. Mercantilização do futebol e movimentos de resistência dos torcedores: histórico, abordagens e experiências brasileiras. Esporte e Sociedade, v. 11, p. 1-18, 2016.

SANTOS, IRLAN SIMÕES DA CRUZ; SANTOS, ANDERSON DAVID GOMES DOS. Democracia torcedora versus Vantagens consumistas: uma análise da associação clubística em tempos de futebol-negócio. Mosaico, Rio de Janeiro, v. 9, p. 246-261, 2018.


[1] Segundo estimativas do Instituto Brasileiro de Surfe (Ibrasurfe), no Brasil, o esporte movimenta R$ 7 bilhões ao ano em roupas, pranchas e acessórios, e tem por volta de 3 milhões de praticantes.

[2] Tradução nossa: “The biggest break in surf park innovation”.

[3] Após meses de indefinições, a organização dos próximos Jogos descartou o modo artificial por questões logísticas e confirmou a disputa em Chiba, litoral que fica a 60 quilômetros de Tóquio, mesmo com os riscos climáticos de possíveis atrasos e adiamento de baterias. Porém, a piscina é uma possibilidade real para a Olimpíada de Paris, em 2024.

[4] “Após ataque de tubarão, WSL anuncia que feminino mudará de local no Havaí; Pipe é uma opção”.

[5] Na multipropriedade você se torna dono de uma fração do imóvel, detém escritura pública e paga supostamente apenas pelo tempo que utiliza.