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Atletas paralímpicos: os invisíveis durante a quarentena

Muito tem se falado sobre a preparação dos atletas olímpicos e dos jogadores de futebol em meio a quarentena. Entre os assuntos mais comentados dos últimos meses estão: como treinam, como ficam o condicionamento físico, a estabilidade emocional e a rotina alimentar. Resolvi fazer uma pesquisa no Google[1] com a seguinte frase: “atleta olímpico quarentena”, obtive 1.310.000 resultados. Posteriormente, pesquisei nova frase: “atleta paralímpico quarentena”. Número de resultados: dois!

O pior de tudo: esta busca levou a notícia do fim do departamento paralímpico do Vasco da Gama. Em reportagem do GloboEsporte.com, de 13 de maio, o departamento paralímpico emitiu nota com o seguinte questionamento: “por que apenas os deficientes precisam deixar o clube?”. Ao todo 128 alunos e atletas deixaram as instalações do Vasco. Ainda segundo a matéria, a principal reclamação destes é em relação a baixa folha salarial da modalidade: R$ 17.800.  Será que esta economia pode ajudar sobremaneira ao Vasco em meio ao coronavírus? Será que outros clubes também encerraram suas atividades paralímpicas? Busquei esta informação e não tive respostas, nem das confederações, nem de colegas que trabalham na mídia e tampouco na internet. Será que por não existirem mais fechamentos de unidades ou por que o assunto não interessa?

Em meio as minhas pesquisas, descobri também que, enquanto “a bola ainda não rolava”, o Brasil ganhou uma medalha de bronze pela Copa do Mundo de Halterofilismo Paralímpico. A modalidade aconteceu online e Mariana D’Andrea foi nossa medalhista. O Portal UOL e o site Globoesporte.com fizeram reportagens sobre a participação do Brasil na competição. Fora estes dois sites, aparente, silenciamento dos veículos de grande alcance.

Como diria meu amigo Márcio Felipe, especialista em Tecnologia da Informação e, por um acaso da vida, cego: “nós somos invisíveis”. Talvez seja por isso que pouco se fala sobre a modalidade paralímpica até nos noticiários esportivos; afinal, não seria a Comunicação um fragmento da sociedade?

Segundo Cardoso (et al, 2018), o papel da mídia é fundamental para que o esporte paralímpico ganhe espaço e seja divulgado de forma que destaque os feitos esportivos dos atletas, mostre suas capacidades atléticas e desmistifique alguns estigmas relacionados a eles, como de incapazes, frágeis e passivos. Desta forma, ainda segundo os autores, a mídia poderia contribuir com a formação de ídolos paralímpicos e, consequentemente, com o aumento do interesse pela prática esportiva, incentivando uma nova geração de atletas medalhistas.

Recorrendo ao site da Confederação Brasileira de Desportos de Deficientes Visuais (CBDV), tive a informação que o Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) lançou, este mês, a plataforma Movimente-se. Direcionada para a atividade física, Movimente-se tem aulas gratuitas exclusivamente voltadas aos deficientes visuais e físicos (cadeirantes, paralisados cerebrais e amputados), que nunca praticaram atividade física ou não possuem orientação profissional. Com cinco vídeos semanais, diferenciados por tipo de deficiência, atletas paralímpicos e técnicos do CPB ministram as aulas. No caso dos deficientes visuais, dois vídeos estarão disponíveis, um para baixa visão e outro com o serviço de audiodescrição, ambos com o mesmo conteúdo de exercícios.

Fonte: flickr

Ainda realizando pesquisa em relação ao interesse da mídia em divulgar ações referentes aos atletas paralímpicos, fiz nova pesquisa no Google, utilizando o nome da plataforma “Movimente-se”. O único veículo de grande circulação que realizou reportagem foi o Estadão, sendo que é exclusiva para assinantes. O site O tempo, conhecido em Minas Gerais, também apresentou matéria.

Também recorri ao site do CPB em busca de notícias. Lá, matéria de extrema importância: a criação do curso Movimento Paralímpico: fundamentos básicos do esporte. Direcionado para professores de Educação Física, a plataforma online capacita professores a discutirem e ensinarem esportes para pessoas com deficiência. Com carga horária de 40 horas, divididas em quatro módulos, os alunos estudam gratuitamente sobre: história dos esportes Paralímpicos, as principais regras de cada modalidade e ainda têm acesso a entrevistas com atletas brasileiros.

Ao realizar pesquisa no Google, não encontrei a veiculação desta iniciativa em nenhum site de grande circulação e gostaria de pedir licença aos leitores para abordar algumas questões pessoais: desde quando conheci Marcio Felipe, há pouco mais de dois anos, meu senso de coletividade mudou. Logo no começo de nossa amizade, ele e sua esposa Verônica Mattoso, professora da UFRJ e uma das principais pesquisadoras de comunicação/tecnologia da informação e acessibilidade que temos neste país, me fizeram (vejam que irônico) enxergar o mundo do Márcio. Tive jantares às cegas (sim, eles colocaram uma venda em mim para que eu aprendesse a comer sem ver), assisti partida de futebol vendada (esse o exercício mais difícil), fiz caminhadas nas quais  Márcio me guiou. Eu fico imaginando (sou professora da rede Estadual do Rio), o quão rico seria para a formação de nossos jovens se, por meio das aulas de Educação Física, eles tivessem a possibilidade de conhecer mais sobre os jogos paralímpicos, os atletas e, quem sabe, realizar partidas de futebol, basquete e handebol adaptadas, nos quais eles estivessem vendados ou simulando alguma deficiência. Como afirmam os pesquisadores de Sergipe, Zoboli, Quaranta e Mazzaroba:

Seja no ambiente de trabalho, na educação, no transporte público, no direito ao lazer, nas políticas de acessibilidade, nos esportes, todas estas dimensões sociais passam por momentos de aculturação na medida em que algumas leis se colocam “forçosamente” em prática; também, na medida em que várias práxis que norteiam o âmbito social, no que tange às pessoas deficientes, vão sensibilizando as pessoas a perceberem novos mundos, novas metáforas para o existir humano onde caiba o diferente (ZOBOLI, QUARANTA, MEZZAROBA, 2013, p.265).

Desta forma, como a informação sobre o curso voltado para professores de Educação Física poderia nos ajudar a construir o tão sonhado “mundo melhor”? Como apontou minha amiga Verônica Mattoso, em sua dissertação apresentada, em 2012, no IBICT, em um mundo organizado por e para quem vê, alguns questionamentos passam ao largo.

Fonte: Flickr

Notas de Rodapé

[1] O levantamento foi realizado no dia 22 jun. 2020,  através de uma simples busca no Google. Na primeira tentativa, apareceram 1.310.000 matérias para os atletas olímpicos e duas para os atletas paralímpicos. Na medida em que eu fui refinando minha busca, a última pesquisa revelou 1.270.000 matérias para os atletas olímpicos e 132.000 para os paralímpicos. Entendo que há, devo sublinhar, a forte influência dos algoritmos dos sistemas de busca que, como bem argumentou Eli Pariser (2012), direcionam os resultados de acordo com um processo de aprendizado de máquina.

Referências bibliográficas

CARDOSO, Vinícius; HAIACHI, Marcelo; POFFO, Bianca; VELASCO, Amanda; GAYA, Adroaldo. A construção da mídia na construção dos ídolos paralímpicos brasileiros. Brazilian Journal of Education, Technology and Society (BRAJETS) – Especial Section, “Disability, Education, Technology and Sport” 2018, Vol. 11, No. 01, jan-mar.

COMUNICAÇÃO CBDV. Comitê lança programa on-line de exercícios a pessoas com deficiência. Disponível em: http://cbdv.org.br/fases-de-treinamento/comite-lanca-programa-on-line-de-atividade-fisica-a-pessoas-com-deficiencia. Acesso em 23 jun.2020.

CPB. Curso EAD Movimento Paralímpico. Disponível em: https://impulsiona.org.br/esporte-paralimpico/. Acesso em 23 jun.2020.

GOOGLE. Disponível em: www.google.com.br. Acesso em 22 jun.2020.

GLOBOESPORTE.COM. Esporte paralímpico do Vasco encerra atividades e alfineta gestão do clube: “Luta desleal”. Disponível em: https://globoesporte.globo.com/paralimpiadas/noticia/esporte-paralimpico-do-vasco-encerra-atividades-e-alfineta-gestao-do-clube-luta-desleal.ghtml. Acesso em 22 jun.2020.

MATTOSO, Verônica. Ora, direis, ouvir imagens? Um olhar sobre o potencial informativo da áudio-descrição aplicada a obras de artes visuais bidimensionais como representação sonora da informação em arte para pessoas com deficiência visual. Dissertação. Programa de pós-graduação em Ciência da Informação IBICT/ UFRJ, Rio de Janeiro, 2012.

PARISER, Eli. O filtro invisível – O que a internet está escondendo de você. Editora Zahar, 2012.

ZOBOLI, Fabio; QUARANTA, André Marsiglia; MEZZAROBA, Cristiano. Oscar Pistórius, um deficiente eficiente? Considerações sobre a segregação / inclusão no paradesporto: um olhar a partir da mídia.  ATOS DE PESQUISA EM EDUCAÇÃO – PPGE/ME, v. 8, n. 1, p. 259-286, jan./abr., 2013.

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Os múltiplos sentidos das partidas reprisadas na memória dos torcedores em tempos de quarentena

Com as arquibancadas vazias, o futebol passou a ser jogado em outro campo: o das reprises de grandes partidas de seleções e clubes. Mais do que mitigar as saudades dos torcedores, essa nova forma de “jogar” permite apropriações de sentidos bastante distintas pelo mesmo torcedor a depender das equipes, então, em campo. E expõe uma das fontes constituintes do futebol: diferentemente de outros esportes, no qual ao candidato a herói basta alcançar a vitória, no futebol, para obter tal reconhecimento, ele precisa derrotar – ou, preferencialmente, eliminar simbolicamente o adversário. De tal condição, tem-se outro gene do DNA futebolístico: a valoração da vitória é diretamente proporcional à força do adversário.

Desse duplo dialético, resulta uma verdade inconfessável pela maioria dos torcedores, principalmente os mais fanáticos: para que a vitória do seu time seja memorável é preciso reconhecer o valor do adversário. A negação de tal condição, indispensável para forjar um grande vencedor, resulta numa contradição que nos diz muito sobre como se desenvolve o estilo competitivo na sociedade brasileira.

Aqui, diferentemente de outros lugares, como a Alemanha, na qual os vice-campeões da Copa de 2002 desfilaram em carro aberto pelas ruas daquele país, o segundo colocado não é o segundo melhor entre vários competidores, mas, sim, o exemplo mais emblemático da derrota, como se tivesse sido o último colocado (SOUTO, 2002). Tal percepção singular da torcida brasileira, quando acionada em relação à seleção do país, pelo menos até um passado cada vez mais remoto, vinha acompanhada da convicção, expressada por jogadores, dirigentes, torcedores e imprensa, de que a cobrança permanente pela vitória seria a responsável pelo Brasil ser o “país mais vitorioso do futebol mundial”.

Fonte: observatoriodatv

A exemplo do passado, o processo de rememoração dos jogos tem na imprensa a principal agenciadora da memória. Embora, na era das redes sociais e dos mundos paralelos das bolhas e das fakes news, tal condição tenha perdido potência, não foi, ainda, substituída por outro tipo de narrativa totalizante socialmente aceita para além das “visões alternativas aos fatos”.

Dessa forma, quando as TVs repetem partidas épicas e/ou decisivas, sejam da seleção ou dos clubes, a operação de visita ao passado continua a ter na imprensa o seu principal agente. O processo de apropriação dos sujeitos, no entanto, também vai ser informado por outros fatores, que variam de acordo com a posição que cada um ocupa num determinado grupo social. Assim, em vez de uma memória, temos várias memórias, influenciadas por questões como fatores geracionais; do impacto que aquela partida causou no instante em que foi realizada; da relação do passado com o presente da equipe pela qual se torce.

A revisita ao passado vai, ainda, confrontar-se com o passado idealizado, eventualmente congelado, como foi vivido por cada sujeito, que, também, o reelaborou ao “passá-lo adiante” para outras gerações. Alguns autores que trabalham a construção oralizada da memória, ao interligarem os dois conceitos, valorizaram a importância da vida quotidiana na acumulação de fatos de uma dada memória social (LEROI-Gourhan, 1981).

Para Freud, a reexperiência de algo idêntico é, em si mesma, uma fonte de prazer (FREUD, 1969). No entanto, acrescentamos, essa segunda experiência, raramente, se passa da mesma forma, porque os sujeitos não são mais os mesmos. É possível, portanto, que busquem ressignificar a experiência. Em “Crônica de uma arte anunciada”, Gabriel Garcia Márques nos informa, já na primeira página, que o personagem Santiago Nasar vai ser assassinado. Com isso, provoca um deslocamento de sentidos do leitor de “o que vai acontecer” para “por que aconteceu”. Analogamente, quando assiste-se a partidas cujos resultados são previamente conhecidos existe um deslocamento de “o que aconteceu” para “como aconteceu”.

Isso não impede que, inconscientemente, os torcedores possam querer mudar o resultado já sabido, como denunciam manifestações, individuais ou coletivas, que escapam em lances que, não resultando em gol, ameaçam a equipe adversária ou a sua equipe. No entanto, para além do desejo por um resultado imaginário, existe outro forte investimento emocional em como a partida desenvolveu-se, particularmente em momentos emblemáticos, sejam de mera plasticidade, sejam os que poderiam ter mudado a sorte da partida.

Principal construtora da memória das derrotas e vitórias das partidas históricas, a imprensa também vai reivindicar a centralidade do processo quando esse passado é revisitado. Para isso, conta com um repertório de várias camadas, desde a escolha dos personagens dos jogos que serão as testemunhas oculares do passado; o trabalho de pesquisa, que vai definir os momentos que merecem ser enfatizados; a escolha de uma narrativa que combine o retorno à cena dos que vivenciaram a partida em tempo real e a contextualização daquele momento para os não o tenham vivido.

Nesse processo, porém, a imprensa se depara com outros guardiões da memória, como os torcedores que, embora atravessados pelo discurso do jornalismo esportivo, formaram sua própria memória da partida a partir das singularidades da sua relação com aquele evento. A memória aprisionada pela oralidade, que vão procurar transmitir aos mais novos, permite cristalizar os mitos de origem, já que aquela fundamenta a sua transmissão através dos “guardiãos da oralidade”.

Fonte: globoesporte

Era, ainda, sob o impacto da vitória ou da derrota que, no passado sem a instantaneidade e a velocidade dos meios eletrônicos, os torcedores, já no trajeto do estádio para casa, começavam a construir uma memória oralizada das partidas, elegendo os candidatos a heróis ou construindo os culpados pela derrota. Vitória e derrota não ficavam confinadas às arquibancadas, mas à simbolização mitológica construída em torno delas. O impacto do lugar da vitória/derrota na memória reconstruída tem valor igual, ou maior, do que o resultado do jogo estampado no placar do estádio.

É no processo constitutivo dos resultados que vão sendo construídos mitos que se eternizam para explicar e definir vitórias e derrotas. Como defende David Morley, mais relevante do que o equilíbrio na cobertura dos acontecimentos é o enquadramento conceitual e ideológico básico pelo qual os acontecimentos são apresentados e, “em conseqüência do qual eles recebem um significado dominante/primário” (MORLEY, 1976 Apud HACKETT in TRAQUINA, 1993:121).

Dessa forma, a revisita ao passado, quando se assiste novamente a partidas históricas, é um processo complexo, prenhe de tensões de sentimentos que disputam o imaginário dos sujeitos, como a angulação do narrador, as ênfases dos convidados chamados a atuar como testemunhas oculares e as próprias memórias singulares dos torcedores. A síntese dos fatores constituintes do imaginário, individual e coletivo, também vai variar de acordo com o objeto; e do distanciamento, cronológico e afetivo, que se tem em relação a ele. Quanto mais distante no tempo uma partida, maior número de névoas na memória, mais complexa será a rememoração daquele momento, do que outro que, pela proximidade do presente, guarda maior frescor da quentura dos acontecimentos.

Quando se revisita a seleção contra um adversário estrangeiro, é muito mais provável que um sentido de pertencimento coletivo seja compartilhado por muitos mais do que quando os times em campo são dois clubes brasileiros. Mas, mesmo no primeiro caso, a noção de pertença pode variar, conforme que seleção brasileira está em campo. Sim, porque, conforme a equipe nacional foi sendo atravessada por valores considerados “não tradicionais” por parcelas do público e da imprensa, essa relação foi sofrendo deslizamentos afetivos importantes.

Essas assimetrias ficaram expostas nas diferenças de audiência, por exemplo, entre as reprises das finais das Copas de 1994 e 2002¹, com a seleção do penta superando em 23% o público que reviu à final da equipe do tetra. Tais assimetrias ocorrem porque voltar a assistir a partidas, principalmente àquelas que guardam maior distanciamento cronológico do tempo presente, é uma forma de recuperar a memória.

Nesse processo, não apenas se vê novamente um jogo, mas, também, se reelaboram partidas, afetos e impressões, o que inclui imprecisões, pois, como observam alguns autores, a memória funciona como uma espécie de reconstrução generativa, e não como memorização mecânica (Godoy, 1977). E as diferenças de audiência parecem indicar que, na reelaboração

O investimento afetivo no passado revela um envolvimento ainda forte com a seleção, ou as seleções daqueles períodos revisitados. Até porque o processo de reelaboração dessa memória pela imprensa está imbricado com outros acontecimentos, como a trajetória do futebol brasileiro nos anos seguintes e sua apropriação e sua representação pela jornalismo esportivo.

Dessa forma, assistir a reprises de partidas, principalmente as mais emblemáticas, dificilmente, é equivalente a transportar-se novamente ao mesmo lugar, quer se estivesse no estádio ou no sofá de casa. Trata-se de uma relação em outra dimensão simbólica, portanto, de uma nova relação. O principal fio condutor dessa revisita é a narrativa, seja a original ou uma contemporânea que busca contextualizar o evento para sujeitos que não o presenciaram.

A narrativa, também, é uma forma de jogar. Ela forma parte um tripé, junto com o jogo e o imaginário. É, portanto, sob a complexa combinação desses fatores que cada torcedor vai viver, novamente, ou pela primeira vez – no caso, das novas gerações – a revisita a uma partida. Afinal, se nada é igual quando é revisitado, cada torcedor, ainda que fortemente impactado pela narrativa da imprensa, vai viver a sua própria partida. E, mesmo que essa experiência tenha interseções – quase inevitáveis – com a de outros sujeitos, haverá, fragmentos, registros, lampejos que serão sempre singulares. Trata-se de uma das magias do futebol: permitir a complexa, e intensa, combinação de sentimentos coletivos com a sensação singular de cada torcedor.

Notas de rodapé

¹ Como a transmissão da Copa de 1970 ficou a cargo do Sportv, a comparação com os índices de audiência da TV aberta nas duas Copas mencionadas poderia causar distorções importantes.

 

Referências bibliográficas

FREUD, Sigmund. Obras completas, Vol. XVIII. Rio de Janeiro: Imago, 1969.

Godoy, Jack. The domestication of savage mind. Londres: Cambridge Univesity Press,1977.

HACKETT, Robert A. “Declínio de um paradigma? A parcialidade e a objectvidade nos estudos dos media noticiosos” in TRAQUINA, Nelson (org.). Jornalismo: questões, teorias e “estórias”. Lisboa: Veja, 1993.

LEROI-Gourhan, A. O gesto e a palavra. Lisboa: Edições 70,  1981.

SOUTO, Sérgio Montero. Imprensa e memória da Copa de 50: a glória e a tragédia de Barbosa. Niterói: Dissertação de Mestrado da UFF, 200

Internet: Folha de Londrina

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O futebol no mundo pós-pandemia

O futebol é uma paixão nacional e, nas últimas semanas, a discussão sobre um possível retorno de competições no país tem crescido de forma exponencial. Na Alemanha, o retorno já aconteceu, porém sem a presença do torcedor. Mas como será esse futebol no mundo pós-pandemia, que, pelo menos num primeiro momento, acontecerá sem a presença, ou com presença muito restrita, do torcedor? Ouvimos Nico Cabrera, doutor em Antropologia e pesquisador da Universidade Nacional de Córdoba. Autor de vários estudos sobre torcidas organizadas no Brasil e na América Latina. Ele nos fala sobre suas experiências junto a estas torcidas, como está a ação delas durante a pandemia e de como será o futebol pós-COVID-19 para esse grupo de torcedores já tão marginalizados no Brasil e no mundo.

Foto Nico Cabrera - Materia Torcidas organizadas
Nicolas Cabrera (imagem cedida pelo próprio para o blog)

LEME – Como você acredita que a pandemia provocada pelo novo coronavírus irá impactar o futebol e, especificamente, em relação a torcida e ao ato de torcer?

Nico Cabrera – Eu vejo um cenário de muitas incertezas. Acredito num agravamento de duas tendências. Uma diz respeito ao predomínio do futebol negócio, onde os torcedores serão pensados mais como consumidores. O futebol sendo, portanto, mais elitizado, protocolizado e espetacularizado. A segunda, seria o torcedor sendo visto mais como um espectador passivo do que ator protagonista. Um outro ponto importante diz respeito a um aumento de outras formas de se torcer. Não falaria de uma nova cultura do torcer. Mas de uma soma, de uma aglutinação de processos do torcer que já estavam em desenvolvimento mesmo antes da pandemia. Haverá, por exemplo, um deslocamento do “torcer” para a cultura digital e a valorização do “assistir jogos pela televisão”. Na volta do campeonato alemão, a Sky Sports bateu recorde de audiência com mais de 6 milhões de espectadores. 

LEME – E qual será o lugar das torcidas organizadas neste futebol elitizado e “arenizado”?

NC – Com a transformação dos estádios em Arenas, os torcedores já vinham sofrendo uma ofensiva para que eles fossem retirados dos estádios. Com a pandemia, a tendência é esta prática se intensificar. Mas eu vejo isso também como uma oportunidade para as torcidas se reinventarem. E esta reinvenção possui um sentido duplo. Ela pode vir como um movimento de resistência, com protestos, como tem acontecido na Europa. Pode também ser criativa, desenvolvendo novas formas de torcer. Os torcedores sempre dão um jeito de se tornarem protagonistas. No outro sentido, as torcidas organizadas, ou “barras”, como são conhecidas no resto do continente, podem aproveitar esse momento para mudar a sua imagem junto a sociedade, visto que são muito estigmatizadas como organizações violentas.

LEME – Como têm sido a ação das torcidas organizadas, ou “Barras”, durante a pandemia?

NC – Então, está havendo muito engajamento. Muitas torcidas organizadas, no Brasil e nas Américas, estão atuando em campanhas de ajuda e solidariedade durante o coronavírus. Posso citar o exemplo da “Gaviões da Fiel”, do Corinthians e de outras, como as torcidas organizadas do Bahia, do Náutico, Cruzeiro. Na transformação do estádio do Pacaembú, São Paulo, em hospital de campanha, houve a adesão de muitos voluntários de torcidas organizadas. Na colômbia, desenvolveram campanhas de ajuda humanitária as torcidas do Atlético Nacional de Medelín, do Colo-colo. As torcidas organizadas são formadas por pessoas com penetração em territórios pobres e periféricos. Por esta razão, elas podem contribuir bastante em campanhas de saúde pública. Esta é uma função que as torcidas organizadas exercem fora dos estádios, ninguém vê e são muito importantes.

LEME – Você fala num estigma das torcidas organizadas como causadoras de violência em estádios. A mídia constantemente remete à ausência do público, das “famílias”, nos estádios também as ações destas torcidas. Você acredita num futebol pós-pandemia sem a presenças das “barras”?

NC – O Futebol, sem as torcidas organizadas, perderia seu conteúdo popular, festivo, carnavalesco, colorido. Elas fizeram, do futebol, o esporte mais popular no Brasil e nas Américas. É errado pensar que, tirando as torcidas organizadas dos estádios, a violência irá desaparecer. Em diversos lugares do mundo, inclusive no Brasil, adotou-se um modelo de torcida única nos estádios, sem a presença da torcida do time “visitante”. Mas a violência não diminuiu. A violência não desaparece, ela se desloca. Com a torcida única, presenciamos briga fora dos estádios e mesmo dentro dos estádios, entre torcidas do mesmo time.  Outro ponto a ser destacado é o aspecto cultural. No Brasil, e nas Américas, o verdadeiro torcedor é, nas representações dos torcedores, aquele cara, ou aquela menina, que vai aos estádios, apoiando sua equipe nos momentos bons e, mais ainda, nos momentos difíceis. Na moral dos torcedores, a presença física é uma regra de ouro. Ele não pode ser alguém que fica em casa assistindo futebol na televisão. O verdadeiro torcedor é aquele vai, além de toda adversidade, ver seu time no estádio. Se ele tiver que quebrar regras, melhor ainda. Isso só acrescenta a sua reputação como torcedor. Torcer é um sentimento, uma paixão. Além disso, as narrativas do futebol sempre precisam de um território. A nação, o clube, o bairro, o estádio. Isso não vai desaparecer. Os torcedores sempre terão um território a conquistar. Então, no futebol pós-pandemia, haverá muitas mudanças, mas nem tudo vai mudar e vamos torcer para que o verdadeiro torcedor, sobreviva e continue indo aos estádios.

Entrevista cedida por Henrique Biscardi.

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A dramática volta do futebol alemão

(Torcidas de papelão na Bundesliga – Fonte: AFP)

No conto “Esse est percipi”, Adolfo Bioy Casares e Jorge Luis Borges indicam que a última partida de futebol foi disputada em 24 de junho de 1937. Desde então, o futebol é um gênero dramático a cargo de locutores, atores e jornalistas que não existem fora dos estúdios de gravação e das redações. Desconhece-se quem o inventou. Sim, sabe-se que foi o filósofo George Berkeley quem argumentou que só existe aquilo que percebemos. Bioy Casares e Borges afirmam, como comentou o jornalista Ariel Scher, que “o que temos em nossa percepção pode ser um nada disfarçado de algo e não há coincidências nas quais o futebol retrate isso”.

Questionado na matéria se ele não temia que a ilusão futebolística fosse descoberta, Tulio Savastano, presidente do clube Abasto Juniors, responde: “A raça humana está em casa, descansando, atenta à tela”. Hoje utilizaríamos o plural para descrever essa atenção intensa. Segundo Bioy Casares e Borges, a televisão constrói acontecimentos para que as pessoas os percebam e lhes deem existência. É notável, como resaltou o sociólogo Pablo Alabarces, que a história foi publicada em uma época (1967) em que “a televisão argentina começou a decolar em direção à massificação” e não ocupava “o espaço incomensurável com o qual atrai a vida cotidiana hoje”.

O fatídico retorno do futebol na Alemanha depois de uma parada de mais de dois meses para impedir a disseminação do coronavírus nos aproximou do cenário absurdo de “Esse est percipi”. Isso se vê claramente na reação da indústria do futebol – e particularmente da televisão – aos protocolos aprovados. O foco da preocupação está na proibição de que o público assista aos jogos nos estádios. As arquibancadas vazias se tornam insuportáveis para quem está na frente da televisão.

Com o objetivo de suprir a ausência do público e reproduzir, ao menos em parte, a atmosfera festiva gerada pelo público, várias equipes alemãs incluíram imagens de papelão de seus torcedores nas arquibancadas. Nesse espírito, um clube sul-coreano utilizou bonecas infláveis. Da mesma forma, uma das emissoras de televisão alemã encarregada de transmitir as partidas ofereceu um canal de áudio com “som da arquibancada” – incluindo os cânticos – que se sobrepõe à transmissão. Esse eco provém de partidas anteriores entre as equipes em questão. “Nosso engenheiro de som”, explicou um vice-presidente da emissora, “mescla o som autêntico, produzido no estádio, com o dito áudio artificial de fundo”. Além disso, a emissora também criou áudios com a reação do público para situações específicas: pênaltis, faltas, etc. A tarefa é realizada por especialistas em produção televisiva, que, inspirados nos videogames, tentam criar ambientes virtuais estimulantes.

O esforço para simular o público nas arquibancadas parece estar baseado, em parte, na questionável premissa de que “o futebol sem público não é futebol”. O treinador César L. Menotti exemplificou isso em uma coluna recente que levava precisamente esse título. Aqui há, ao menos, um debate conceitual: a estrutura e a lógica interna do futebol não mudam se for realizada com ou sem público nas arquibancadas. Não se trata em ambos os casos do mesmo jogo que consiste em colocar a bola no gol adversário? Não defendem e atacam as equipes utilizando as mesmas habilidades que constituem e definem o jogo? O futebol com arquibancadas vazias pode ser menos vistoso, mas não deixa de ser futebol, ainda que vivenciado de modo diferente.

Ao aproximar o futebol do gênero dramático, introduzindo público e reações apócrifas, a indústria do futebol indica que está disposta a produzir percepções disfarçando o nada de algo para incentivar seu consumo através de múltiplas telas. Aqui está mais um motivo para desejar o retorno aos estádios. No final das constas, nem tudo passa na televisão, como afirma Savastano em “Esse est percipi”, nem todos os nadas (futebolísticos) disfarçados de algo existem.

* Texto originalmente publicado em Página 12 no dia 04 de junho de 2020.

*Cesar Torres é doutor em filosofia e história do esporte. Docente na Universidade do Estado de Nova York (Brockport)

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Encontros LEME virtual discute o futuro da comunicação dos clubes

Com a impossibilidade de discussões presenciais, devido à pandemia da Covid-19, o Laboratório de Estudos em Mídia e Esportes realizará seu segundo Encontro virtual no dia 05 de junho (sexta-feira), às 19h, na modalidade on-line. Nosso convidado será Anderson Gurgel, doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP e professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Na ocasião, discutiremos o tema “O Futuro da comunicação dos clubes no pós-pandemia”.

O encontro será aberto a participação de estudantes da UERJ (graduação e pós-graduação) e de outras instituições de ensino superior, mediante inscrição prévia e condicionado ao limite de 50 participantes. Caso não seja aluno de graduação, é também possível realizar a inscrição, mas salientamos que será dada prioridade aos primeiros.

Para se inscrever, basta enviar para o nosso e-mail (lemeuerj@gmail.com) seu nome completo, curso de graduação, instituição de ensino e, caso possua, nome de usuário (@) em redes sociais (Facebook e/ou Instagram). Após o cadastro, o participante receberá o texto para leitura, bem como o link para reunião (via Zoom).

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Momento delicado

Em tempos de pandemia, sabemos que, em várias áreas , as dificuldades econômicas estão redobradas ao redor do mundo. Por parte dos clubes de futebol e agremiações esportivas, isso não é diferente. No Rio de Janeiro, o próprio Flamengo, mesmo com todo o sucesso de bilheteria e títulos da temporada passada, já demitiu funcionários. Vasco e Botafogo seguiram pelo mesmo caminho, enquanto o Fluminense, apesar de toda a crise, descartou rescisões e demissões, mas permanece na corda bamba financeira.

Se os chamados “times grandes” estão enfrentando sérios problemas, o que falar dos considerados “pequenos”?

No Campeonato Paulista, até a chegada da Covid-19, você se recorda quem liderava a competição? Não era o elenco recheado do Palmeiras, nem o estrelado time do São Paulo. Também não era o Santos, atual vice-campeão brasileiro, e o Corinthians muito menos. Antes da paralisação do certame, o Santo André estava a ocupar a ponta da tabela.

Fonte: globoesporte

Com investimentos muito menores que os feitos pelos clubes da capital, o Santo André voltou a atrair os holofotes da imprensa depois de um longo tempo. O campeão da Copa do Brasil de 2004 fazia uma belíssima campanha no Estadual, que é considerado o mais disputado do país, porém nem tudo são flores.

Com a pausa da competição, o clube passa por um desafio enorme no que diz respeito ao contrato dos jogadores. No fim de abril, o vínculo de 21 dos 26 jogadores inscritos pelo time do ABC Paulista se encerrou. Desta forma, o líder do Paulistão só tem cinco jogadores com contratos ativos até o momento. A diretoria negocia com representantes dos jogadores para extensões, porém a imprevisibilidade quanto ao retorno das partidas atrapalha bastante.

A realidade vivida pelo clube é dura, mas não é exclusiva. Entre os 12 “pequenos” que disputam o Campeonato Paulista, 333 jogadores foram inscritos e 114 possuíam vínculo até o fim de abril. Fica evidente, portanto, que só nos resta esperar todo esse momento delicado passar e torcer por um bom desempenho dos dirigentes, para que a saúde financeira dos clubes não fique mais abalada do que já está.

Com a instabilidade que paira sobre os clubes brasileiros quanto à data de retorno das atividades futebolísticas no país, o planejamento financeiro também se torna algo imprevisível. Os dirigentes em todo o Brasil tentam achar saídas para que os clubes não quebrem em meio à crise. Algumas equipes adotaram o treinamento à distância de seus atletas, outras deram férias adiantadas, e também têm aqueles que tentam respaldo nas instituições que administram o futebol brasileiro.

Tratando-se dos campeonatos internacionais, diversas decisões estão sendo tomadas na tentativa de evitar um prejuízo que pode alcançar R$20 bilhões aos cofres europeus. O Campeonato Francês encerrou a competição e declarou seu líder, o PSG, campeão da temporada. Será que poderíamos adotar algo parecido com os estaduais, para não atrasar ainda mais o calendário?

Fonte: romanews

Segundo o site Marca, entre os clubes espanhóis, ao contrário do que acontece no Brasil, os times considerados pequenos serão os menos afetados e teremos Barcelona e Real Madrid com os principais prejuízos no país. Isso ocorre porque os times de menor expressões tem sua fonte de renda advinda, principalmente, da televisão. Já os maiores, de seus sucessos de bilheteria.

Com medidas especiais sendo tomadas, os clubes alemães se preparam para retomar o principal campeonato do país em meio à pandemia. Os jogos serão transmitidos somente pela TV com os portões fechados, mas as autoridades estão otimistas que em breve estarão com seus estádios cheios novamente.

A situação no Brasil está longe de ter uma solução ideal, mas as entidades futebolísticas deveriam estar buscando alternativas com mais afinco. Uma comunicação entre CBF, as federações estaduais e os clubes poderia ser uma saída que beneficiaria o futebol brasileiro. No país do futebol, hoje, temos de deixar o esporte em segundo plano. }
Esse também é o entendimento da maioria dos torcedores – segundo pesquisa feita pelo site UOL apenas 33% dos torcedores apoiam a volta dos campeonatos.

Em um momento completamente diferente dos países europeus, em que o futebol, assim como o país, respiram por aparelhos, é extremamente necessário que providências sejam tomadas e que a indecisão não seja a regra.