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A homossexualidade no meio futebolístico

Nos últimos anos, pudemos observar avanços significativos na conquista de direitos pela comunidade LGBTI em muitos países. A permissão do casamento ou união civil entre pessoas do mesmo sexo por um número cada vez maior de Estados é um exemplo. Outra demonstração ocorreu no Brasil quando, em 2019, o Supremo Tribunal Federal (STF) enquadrou a homofobia e a transfobia na lei dos crimes de racismo (Lei 7.716/1989). Ainda que esse enquadramento origine-se de uma falta de ação do Poder Legislativo, uma vez que o STF considerou que houve omissão do Congresso Nacional por não editar lei específica sobre o assunto, percebe-se que os avanços estão ocorrendo. Mas e o futebol? Como o esporte mais popular do planeta reage a essa temática?

Enquanto mestrando do Programa de Pós-graduação em Cultura e Territorialidades (PPCULT), da Universidade Federal Fluminense (UFF), tenho pesquisado sobre a relação do homem cis homossexual com o futebol. Salientar a existência desse recorte é importante porque a comunidade LGBTI é composta por diferentes grupos com diferentes características. Logo, as relações de cada um desses grupos com o futebol têm suas especificidades. Assim, é importante que o leitor deste texto tenha a consciência de que os apontamentos que serão aqui feitos têm como base o grupo de homens cis homossexuais. Mas é claro que boa parte de nossas colocações também poderão ser apropriadas por outros grupos da comunidade LGBTI.

Para início de conversa, precisamos registrar que o futebol é, historicamente, um esporte dominado por homens heterossexuais. Conforme conta o professor Flavio de Campos, coordenador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre Futebol e Modalidades Lúdicas (LUDENS), da Universidade de São Paulo (USP), em reportagem publicada no site da VICE Brasil em 2016, “o futebol é um elemento de construção de uma masculinidade violenta, agressiva, machista, truculenta e heteronormativa” (CAMPOS, 2016). Estamos falando de um esporte que sacraliza valores relacionados à virilidade, conceito este que é costumeiramente negado pela sociedade ao homem gay.

BH recebe campeonato nacional de futebol LGBT dia 15
Fonte: Observatório G Uol

Para entendermos minimamente o conceito de virilidade, não podemos deixar de mencionar duas palavras: violência e sexo. A violência relaciona-se com o guerrear, com o contato físico bruto. O sexo, neste caso, refere-se à manifestação de uma dita “macheza” que consiste na dominação sobre o corpo feminino durante o ato sexual. Pensemos agora: essas noções sobre violência e sexo dialogam com o ambiente do futebol?

Uma das palavras mais valorizadas nesse esporte é “raça”, no sentido de vontade de vencer. Também é frequente o uso do termo “garra”. A vontade de vencer em si nada tem a ver com violência, mas isso muda se observarmos quais são as representações mais típicas de “raça” ou “garra” em um campo de futebol. O chamado “carrinho” é uma das primeiras ações que vêm à mente. Trata-se de uma jogada perigosa e violenta, que coloca em risco a integridade física do adversário e que ainda pode ocasionar falta e cartão contra o jogador infrator. Mas as torcidas amam um “carrinho”. Para verificar, basta atentar-se para as reações que vêm das arquibancadas quando um atleta desliza pelo campo em busca da recuperação da bola. E o que dizer em relação às brigas? O enfrentamento físico, o “empurra-empurra” ou mesmo a troca de socos e pontapés por jogadores são frequentemente vistos como símbolos de raça pelos torcedores. É a valorização daquele que “dá o sangue” pelo seu time. Sendo assim, é nítido que tanto no caso do “carrinho” como no do enfrentamento por “vias de fato”, expressão popular que caracteriza a luta corporal, vemos que há elementos de violência que são exaltados no campo de jogo e, principalmente, nas arquibancadas. Isso sem falar nas brigas entre torcidas de times rivais, que, no fundo, representam muitas vezes uma disputa para ver quem é mais “macho” que quem.

Das arquibancadas também percebemos a relação que o futebol tem com o sexo, este enquanto traço da virilidade, conforme descrito há pouco. Quantas vezes já não ouvimos gritos de “Time de viado” em estádios? A expressão tem dois problemas. Primeiro que “viado” está longe de ser o termo mais apropriado para nomear alguém gay. Segundo que está por trás da expressão uma ideia de que ser homossexual é algo ruim e, por isso, dizer que seu adversário é gay tem como intenção ofendê-lo. Tantos outros insultos de cunho sexual são ouvidos em arquibancadas estádios afora, sempre depreciando qualquer tipo de relação sexual entre dois homens. Não os reproduziremos em respeito ao leitor. De todo modo, por meio desses insultos, fica claro que o único tipo de relação aceita é a heterossexual.

Vemos, portanto, que tanto violência quanto sexo, componentes da virilidade, se relacionam de forma direta com o futebol. Como expusemos acima, a sociedade, de uma maneira geral, e ainda mais o meio do futebol, entendem o homem gay como alguém sem virilidade, por defini-lo como delicado e avesso a relações sexuais com mulheres. Logo, as portas do futebol se fecham a esse público.

Fonte: Medium.

De toda forma, mesmo com essa idealização do homem viril, necessariamente hétero, nos campos e arquibancadas, é importante registrarmos que há espaços para resistência e mudança da realidade. Do contrário, seremos atingidos pela mesma inércia demonstrada pela Confederação Sul-americana de Futebol, a Conmebol, quando a Fifa passou a punir as seleções do continente pelo homofóbico grito de “Bicha!” que ecoava nos estádios da região. Segundo reportagem do jornalista Jamil Chade para o jornal O Estado de S. Paulo, publicada em 2016, a entidade sul-americana queixou-se à Fifa de exagero nas punições e argumentou que os gritos faziam parte de um comportamento cultural. Observar que há aspectos homofóbicos dentro do futebol não pode jamais servir para se tentar evitar a punição a quem pratica a homofobia nas arquibancadas.

Voltando aos espaços de resistência, ultimamente têm surgido muitos times gays nos quais os homens homossexuais que gostam de futebol podem praticar o esporte que amam sem ficarem preocupados com ofensas homofóbicas. Essa é uma atitude interessantíssima, pois desafia uma ideia quase que imposta socialmente de que a pessoa ou é gay ou gosta de futebol, nunca podendo um indivíduo masculino ser gay e gostar de futebol ao mesmo tempo.

De toda forma, é necessário ressaltar que essa luta não pode ser apenas dos homossexuais. Imprensa e clubes de futebol têm papel central nessa arena de disputa. Para começar, pensemos na imprensa. Há alguns anos, passou a ser comum no Brasil o grito de “Bicha!” nas arquibancadas no momento em que o goleiro do time visitante ia cobrar um tiro de meta. Hoje, felizmente, os gritos parecem bem menos frequentes. Mas, em 2016, quando o grito ainda era moda, o já citado Professor Flavio de Campos, na mesma reportagem que mencionamos da VICE Brasil, disse algo muito interessante. Para ele, “uma censura do narrador com relação a isso não seria só importante, mas seria obrigatório o posicionamento em situações em que ocorre a homofobia” (CAMPOS, 2016). Ainda na temática do papel da imprensa na discussão sobre homofobia, os jornalistas que escreveram a reportagem para a VICE Brasil, Letícia Naísa e Peu Araújo, colocam em seu texto que “muitas vezes a imprensa se presta também a fazer o serviço inverso, o de colocar panos quentes quando alguma coisa foge ao controle heteronormativo do futebol” (NAÍSA; ARAÚJO, 2016). Esses registros são fundamentais porque mostram que existia há quatro anos, e acreditamos ainda haver nos dias atuais, certa omissão da imprensa esportiva na discussão mais aprofundada sobre homofobia.

Por outro lado, os trabalhos que trazem esse debate à tona precisam ser exaltados. Um que se destaca é a série de reportagens “Futebol Fora do Armário”, da jornalista Gabriela Moreira, veiculada pela ESPN Brasil em 2017. A série aborda o tema da LGBTIfobia tanto no futebol profissional quanto no amador, e aí trata da realidade de vários grupos LGBTI, não apenas o dos homens cis homossexuais.

Outros atores importantíssimos na luta para tornar o ambiente do futebol mais inclusivo são os grandes clubes. Ao longo dos anos, vimos por parte deles um silenciamento nas questões referentes ao combate à homofobia. No entanto, de uns tempos para cá, ainda que com muita resistência, começamos a ver algumas atitudes ganhando corpo. Em 2019, tanto em 17 de maio, dia que marca o combate à LGBTIfobia, quanto em 28 de junho, data em que se celebra o Dia Internacional do Orgulho LGBTI, vários grandes clubes brasileiros se manifestaram em defesa do fim da discriminação contra as pessoas LGBTI. Apesar do gesto ser simples, podemos considerar o avanço evidente.

Outro caso que vale ser mencionado aconteceu em 25 de agosto do mesmo ano, quando, em partida entre Vasco da Gama e São Paulo, pelo Campeonato Brasileiro, o árbitro Anderson Daronco paralisou a partida por conta de cânticos homofóbicos que partiam da torcida vascaína. A atitude do árbitro foi acertada, pois mostra uma intolerância ao preconceito. Vale a pena, no entanto, observar como as pessoas reagem a uma atitude como essa, mesmo quando concordam que não deve haver o grito. Muitos se preocupam apenas com a punição que o cântico homofóbico pode causar ao seu time, especialmente quando há a possibilidade da perda de pontos. Por essa razão foi muito interessante ver que, cinco dias após o ocorrido, conforme matéria publicada pelo site Globoesporte.com, os 20 clubes que disputavam a Série A do Campeonato Brasileiro de 2019 fizeram postagem simultânea contra a homofobia em suas respectivas contas de Twitter. Uma frase se destacava: “Pior que prejudicar o seu time é cometer um crime”.

Clubes de futebol brasileiros fazem 'tuitaço' contra homofobia ...
Fonte: Guia Gay SP.

O torcedor e todas as outras pessoas que estão envolvidas com o futebol precisam entender que o cântico homofóbico é, antes de mais nada, um ato de intolerância, um desrespeito contra alguém que simplesmente vive sua sexualidade de forma diferente da imposta pelos padrões heteronormativos. É necessário entender que pessoas morrem em escala alarmante simplesmente pelo fato de serem homossexuais. É pelo respeito à diversidade que o futebol deve abolir seu modo homofóbico de operar.

 

Referências

CHADE, Jamil. Fifa rejeita pedido da Conmebol para frear punições por homofobia.            O Estado de S. Paulo, 14 out. 2016. Acesso em 29 mar. 2020.

Clubes brasileiros se unem e postam contra a homofobia nas redes sociais: “Não é piada”. Globoesporte.com, Rio de Janeiro, 30 ago. 2019. Acesso em 28 mar. 2020.

Futebol Fora do Armário. Reportagem: Gabriela Moreira. Produção: Cacau Custódio; Clara Gomes; Leandro Carrasco; Rogério Oliveira. ESPN Brasil, 26 jun. 2017, 27 jun. 2017, 28 jun. 2017. Acesso em 27 mar. 2020.

NAÍSA, Letícia; ARAÚJO, Peu. Por que o futebol brasileiro ainda está trancado no armário?.  VICE Brasil, 09 mai. 2016. Acesso em 28 mar. 2020.

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