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O sonho de Piba

Por César R. Torres* y Francisco Javier López Frías**, especial para Página 12

Mara Gómez sonha em ingressar oficialmente ao Club Atlético Villa San Carlos da cidade de Berisso, uma das dezessete participantes do Campeonato de futebol feminino da Primeira Divisão A. Seu treinador, Juan Cruz Vitale, pretende colocar a jovem atacante na equipe em breve. Se autorizado pela Associação Argentina de Futebol (AFA), Gomez se tornará a primeira jogadora transgênero nesse campeonato. Embora existam antecedentes parecidos em outras ligas e campeonatos do país, o caso de Goméz desperta mais atenção por tratar-se do estágio mais elevado do futebol feminino nacional.  Por sua parte, Gómez declarou que ficaria encantada se o presidente da AFA a chamasse para, em relação ao seu sonho futebolístico, lhe dizer: “Fique calma, está tudo bem”.

Mara Gómez, con la pelota en las calles de La Plata.
Mara Gómes. Fotografia por Enrique García Medina. Fonte: Página 12.

Em uma entrevista recente publicada neste diário, Gómez relata experiências de descriminação e afirma que o futebol não era apenas um importante apoio a sua identidade de gênero, mas também uma razão de viver. O futebol, diz ela, “salvou minha vida”. Em relação a seu sonho de participar do Campeonato de Futebol Feminino da Primeira Divisão A, Gómez pede à liderança do futebol que se pergunte “se você já sentiu como é feio quando te fecham a cara.”, que se coloque no lugar do outro e que a escute tendo em conta o que o futebol significa para ela. A jogadora pede, nada mais e nada menos, que se respeite sua condição de cidadã em uma sociedade liberal-democrática e que seja permitido atuar como tal. Esse tipo de sociedade se define, entre outras coisas, pelo respeito à pluralidade de formas de vida e pelo empoderamento das pessoas para que desenvolvam os planos de vida que valorizam.

Como afirma o filósofo Charles Taylor em seu famoso livro The Ethics of Authenticity, o princípio chave das sociedades democrático-liberais é a autencidade; isto é, que cada um possa definir sua vida como quiser, com base em suas ideias e valores, é claro, assumindo que isso não prejudique outras pessoas. A filosofia kantiana, exemplificada por filósofas como Adela Cortina ou Martha Nussbaum, chama isso de princípio da autonomia ou autodeterminação. Ele reconhece e incentiva a capacidade das pessoas de estabelecer suas próprias regras sobre como viver. Independentemente de como seja entendido, esse princípio pode ser usado para que a AFA autorize Gomez a participar do Campeonato de Futebol Feminino da Primeira Divisão A. Como nas sociedades democráticas-liberais cada um deve poder forjar sua vida, e dado, desde já, que o futebol é substancial para Gómez, não se deve impedi-la de acessar a esse popular esporte na sua tentativa de criar uma vida significativa que respeite seu gênero autopercebido. Além disso, as pessoas devem ser empoderadas para alcançar o tipo de vida que têm razões para valorizar.

No entanto, a potencial autorização da AFA para Gómez de participar do Campeonato de Futebol Feminino da Primeira Divisão A é rejeitada sob a noção de que as jogadores de futebol transgêneros teriam vantagens competitivas sobre jogadoras de futebol cisgênero. De fato, antes de sua chegada ao Villa San Carlos Athletic Clube, “as equipes rivais a observaram e ergueram a voz: não queriam que uma mulher trans participasse porque, argumentavam, ela tinha vantagens”. As supostas vantagens competitivas seriam baseadas em suas características genéticas. Este argumento foi exemplificado em um comentário impiedoso referido por Gomez. Ele indicou que a jogadora “é um cara vestido de mulher, nasceu homem, vai morrer homem e sempre terá mais vantagens que uma mulher, porque tem mais força: ele vai quebrar a perna de alguém”.

A afirmação de que as jogadoras transexuais teriam vantagens competitivas sobre as jogadoras cisgêneros é discutível. Em primeiro lugar, é importante destacar que o rendimento no futebol é multifacetado e não reduzível ao atendimento em uma qualidade ou condição única. Nem força nem a velocidade, por exemplo, explicam adequadamente a excelência neste esporte. Além disso, alguém pode ser forte e/ou veloz e não se destacar futebolisticamente. Gómez disse isso de forma convincente: “Acho que você pode ter força e velocidade, mas se não tem táticas, inteligência e outras capacidades, elas não te servem de nada. Acho que tem a ver com a capacidade e treinamento, não com biologia”. Ou seja, no futebol ser menos forte ou veloz que o resto das jogadoras não implica estar necessariamente em desvantagem competitiva.

Gómez nega ser mais forte que o resto das jogadoras de futebol. A respeito disso, ela disse: “Conheço muitas garotas que chutam com mais força do que eu. Eu vivi no campo e posso provar para qualquer um: posso encontrar 20 jogadoras com o chute mais forte que eu e outras 20 que correm mais rápido”. Mesmo que Gómez fosse mais forte que as jogadores cisgêneros, isso não significa necessariamente que elas têm um risco maior de lesão na sua presença do que na sua ausência. Pelo menos, deve-se reconhecer que não há evidência disponível que afirme ou sugira que esse seja o caso quando se leva em conta a dinâmica do futebol. Não é incomum jogadores menos fortes prejudicarem os mais fortes.

A fim de neutralizar as supostas vantagens competitivas e o maior risco de lesões de jogadores de futebol cisgênero, atletas transexuais e intergêneros são obrigados a demonstrar um nível de testosterona dentro do considerado “normal” para mulheres cisgêneros. Caso contrário, eles devem reduzi-lo artificialmente ou competir com os homens. Tanto Gómez quanto seu clube “são calmos a esse respeito: eles têm estudos que respondem aos parâmetros permitidos”. Apesar disso, Gómez nega a exigência de ser discriminatório: “Eles apelam à força para nos excluir. Messi é o melhor do mundo e supera rivais cada vez mais fortes. E ele não está sujeito a esses controles”.

Vale destacar que parte da comunidade científica desconfia da presunção de que a testosterona melhore o rendimento esportivo. Por outro lado, esse requisito define a feminilidade em relação a um certo nível de testosterona, o que é problemático, entre outras razões, por que é arbitrário. Além disso, é inadequado submeter as jogadoras com alto níveis de testosterona a um tratamento farmacêutico, que apresente risco à saúde, para satisfazer uma duvidosa definição de feminilidade.

Que este seja um requisito para atletas trans e inter-sexos praticarem esportes reflete que há atrito entre certos direitos e sua lógica interna. Uma mulher que não se enquadre nas regras habituais é obrigada a sacrificar ou limitar sua capacidade de autodeterminação para poder praticar esporte com seus pares “normais. Nossa intenção não é debater as justificativas dessa postura, mas sim mostrar a necessidade de, primeiro, obter mais evidências sobre o efeito da participação das atletas transgênero no jogo e, em segundo lugar, incentivar o pensamento sobre os valores que devem prevalecer nas decisões que afetam tanto aos sonhos das futebolistas quanto ao esporte que tantas pessoas amam. Dito isso, e de acordo com o que foi exposto neste artigo, o presidente da AFA faria bem em atuar como o carteiro de tango que inspira seu título e informar a Gómez que em breve ela poderá cumprir seu sonho no futebol.

Texto originalmente publicado em Página 12 no dia 23 de janeiro de 2020.

* Doutor em filosofia e história do esporte. Professor da Universidade Estadual de Nova York (Brockport).

** Doutor em filosofia. Professor da Universidade Estadual da Pensilvânia (University Park).

Tradução livre: Fausto Amaro e Marina Perdigão (LEME/UERJ).

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O caso Bruno e o espetáculo para o tio do pavê

Machismo, hipocrisia e os limites do mercado

Em 2019, a população prisional no Brasil atingiu a marca de 812.564 pessoas, de acordo com dados do Conselho Nacional de Justiça. Desse total, incríveis 41,5% (337.126) são presos provisórios, ou seja, são aqueles que não foram julgados e não receberam decisão condenatória. Dos principais crimes cometidos destacam-se o tráfico de drogas (30%), roubo (21%) e homicídios (16%).

Eduardo Vitorino faz parte dessa população carcerária. Quando passou para o regime semiaberto no Rio de Janeiro, Eduardo se deparou com uma imensa dificuldade de encontrar um emprego, já que o fato de ser presidiário levava seu currículo para o final da fila ou mesmo o tornava inapto a concorrer a qualquer vaga. É com certo nervosismo e vergonha que Eduardo conta parte de sua história no documentário Ressocialização: Uma vida após o cárcere[1]. Graças a um projeto social, ele conseguiu trabalho remunerado e hoje atua no Replantando Vidas, programa desenvolvido pela Cedae (Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro) e que visa à reinserção social de presos e presas, que durante o dia trabalham em tarefas como a confecção de uniformes ou o replantio da vegetação de mananciais. Projetos sociais como esse representam uma das poucas oportunidades de ressocialização de presos como Eduardo.

Já Bruno Fernandes condenado por participação no sequestro, assassinato e ocultação de corpo de Elisa Samudio, em 2010, não teve tanta dificuldade em encontrar interessados em sua mão de obra. Em 2014, ainda cumprindo pena em regime fechado, Bruno assinou contrato com o Montes Claros F.C de Minas Gerais. Porém, em novembro daquele ano, a permissão de atuar pelo clube foi negada pela Justiça.

Em 2017, após conseguir liberdade provisória em decisão do STF, o ex-goleiro foi contratado pelo Boa Esporte, clube de Varginha, Minas Gerais. Na ocasião, ele disputou cinco partidas (duas vitórias, dois empates e uma derrota) antes de ser preso novamente naquele mesmo ano. Em 2019, após conseguir passar para o regime semiaberto, Bruno foi apresentado ao Poços de Caldas, clube pelo qual jogou 45 minutos de uma partida contra um time amador de Juruaia (MG). Em 2020, o goleiro iniciou o ano avaliando as propostas de três clubes: o Tupi, de Juiz de Fora (MG), o Cuiabá (MT) e o Fluminense de Feira de Santana (BA). O clube baiano chegou próximo de fechar a contratação, mas muitos torcedores e pessoas públicas como a jornalista Jéssica Senra manifestaram revolta pela possibilidade de ver o atleta atuando pelo Feira.

O presidente Everton Carneiro – o Pastor Tom – anunciou a desistência da contratação e o clube emitiu uma nota sobre o caso:

Fonte: varelanoticias.com.br

É de se lamentar os erros gramaticais. Mais ainda, o tom condenatório da nota, que passa a impressão de que a contestação da torcida – principalmente as mulheres, como frisa o texto -, foi um ato que mais atrapalhou do que ajudou o clube.

Então, me pergunto: Por que a contratação de Bruno Fernandes que cumpre pena por homicídio, representaria algum tipo de benefício ao Feira? Ou melhor, o que leva um clube de futebol a se mover para contratar alguém condenado por um crime hediondo?

Fundamentar-se no aspecto legal e social foi o que fez Rone Morais, então presidente do Boa Esporte Clube, em 2007, ao afirmar que:

Quem nunca ouviu: o trabalho dignifica o homem? Então o argumento (de que) seria asqueroso, nojento ou imoral (a contratação do atleta Bruno), antes de mais nada, legalmente, faz parte da obrigação social da empresa, da sociedade em cooperar com a recuperação de um ser humano. Aqui não se condena à morte ou prisão perpétua (grifos meus)[2]

Segundo dados recentes coletados pelo G1, menos de um em cada cinco presos (18,9%) trabalha no país, em alguns estados como o Rio de Janeiro o percentual é de 1,7%[3]. Empregar presos costuma movimentar empresas que ora pagam muito pouco pelo serviço prestado, ora não pagam. Dos 95.919 detentos que são empregados dentro do sistema penitenciário, 33% (ou 31.653 pessoas) não ganham remuneração alguma. Isso representa um descumprimento da Lei de Execuções Penais, que prevê uma remuneração de ao menos três quartos do salário mínimo.

Fonte: g1

Mas, por algum motivo, Bruno foi colocado acima dessa realidade. O contrato com o Boa Esporte previa um salário em torno de 30 mil reais, muito mais do que ganhava o restante dos jogadores do clube na época. No Poços de Calda, seu salário seria de R$10.000, o que pode ser considerada uma quantia astronômica em se tratando de um clube que estava na terceira divisão do campeonato mineiro.

Quanto ao argumento da obrigação social em contribuir para a “recuperação do ser humano”, há de se perguntar se de fato os clubes de futebol costumam promover programas de ressocialização para quem cumpre pena. Uma reportagem do El Pais mostra que o Boa Esporte Clube em 2013 – bem antes da contratação de Bruno – chegou a manter uma parceria com o presídio de Varginha que destinou 50 presos para trabalhar na reforma do estádio do clube[4]. Essa parceria não mais existia em 2019.

A mesma falta de comprometimento social podemos ver no caso do Poços de Caldas, clube cujo nome não consta no cadastro de programas de ressocialização penal. Mesmo assim, seu então presidente, Paulo César da Silva, declarou que o objetivo da contratação era “contribuir para a reinserção do atleta na sociedade”[5]. Ainda naquele ano, o referido dirigente foi destituído da presidência pela Assembleia do clube. Paulo saiu, não por causa de Bruno, mas porque em sua administração o Poços de Caldas, acumulou dívidas e sequer conseguiu o licenciamento para disputar partidas em 2019. Aliás, a falta de pagamento foi a justificativa usada pela advogada de Bruno para explicar sua rescisão de contrato com o Poços.

Se os clubes alegam que agiram sob justificativa legal e social e, por isso, não haveria nada a se criticar a respeito da contratação de Bruno, por que em um país com uma população carcerária gigantesca, os clubes em questão resolveram ajudar um único preso? E depois dele não seguiram em frente sem projetos sociais dessa natureza.

O uso daquelas justificativas, portanto, não se sustenta.

Machismo e o espetáculo da infâmia

O universo do futebol não é guiado somente por aspectos legais. Existe um conjunto de valores – muitos deles questionáveis – que norteiam diversas tomadas de decisões. Há alguns dias, o diretor de futebol do Corinthians, Duílio Monteiro Alves, foi flagrado dando explicações ao jogador Cantillo sobre os motivos que o impediriam de continuar jogando com a camisa 24, número que costumeiramente usava em seu clube colombiano.

No Brasil, o número 24, no jogo do bicho, representa o veado e, no senso comum, existe uma associação entre homossexualidade e esse animal.  No Corinthians, Cantillo atuará com a camisa 8, afinal como disse Duílio “Vinte e quatro aqui não”.  A camisa 24 é criminalizada no futebol brasileiro e pouquíssimos clubes a adotam. Afinal, qualquer ameaça aos ideais de masculinidade que cercam o futebol é imediatamente rechaçada.

Sendo assim, será, então, que se Bruno se declarasse gay, esse fato se tornaria um impeditivo para que os clubes buscassem contratá-lo? É de se supor que sim. Se lembrarmos que não há jogadores em atividade no futebol brasileiro que são assumidamente gays, podemos supor que o homossexualidade é considerado um crime dentro no universo futebolístico. Basta lembrarmos das palavras do juiz Manoel Maximiano Junqueira Filho a respeito do caso Richarlyson, em 2007.

Já que foi colocado como lastro, este juízo responde: futebol é jogo viril, varonil, não homossexual (…)

Quem presenciou grandes orquestras futebolísticas (…) não poderia sonhar em vivenciar um homossexual jogando futebol[6]

Fonte: foxsports.com.br

Mas, estamos melhorando. Hoje em dia é notável o fortalecimento de debates e ações afirmativas de raça, gênero, direitos LGBTQ e outras tantas questões vinculadas às minorias. Uma das consequências desse fenômeno são as rápidas reações de descontentamento toda vez que falas e comportamentos preconceituosos são manifestados. Foi o que ocorreu com os clubes aqui citados. Todos foram alvo de enxurradas de protestos, sobretudo via redes sociais, que consideraram a possibilidade de contratação de Bruno uma ofensa, sobretudo ao direito das mulheres. Não podemos deixar de valorizar esses posicionamentos.

Por outro lado, hoje em dia, “causar” virou uma estratégia de propaganda fartamente usada. Criar polêmicas com discursos ou atos de apoio ao ódio e a preconceitos diversos se transformou em sinônimo de autenticidade e é capaz de gerar imensa repercussão e apoio. É o espetáculo para o tio do pavê que Rosana Pinheiro Machado descreve tão bem como sendo uma das estratégias usadas atualmente na política e que consegue ecoar “no ressentimento daqueles que mantiveram seu preconceito no armário”[7] e que viram a oportunidade de colocá-los à mostra e de legitimá-los. Uma breve olhada nos comentários das matérias a respeito da chegada de Bruno aos clubes provoca dor de estômago ao lermos opiniões favoráveis ancoradas em opiniões plenas de raiva e machismo.

No caso do futebol, o espetáculo para o tio do pavê tem terreno fértil, até mesmo porque muitos preconceitos já vivem fora do armário há muito tempo. Cerca de 300 pessoas pagaram R$ 10,00 de entrada para assistirem a estreia de Bruno no Poços de Caldas, em 2019, no amistoso contra o Independente Juruaia. Houve aplausos e muitos pedidos de selfies. Em 2017, a estreia pelo Boa Esporte atraiu um público de 1.772 pagantes, ao estádio Dilzon Melo, número bem acima da média dos jogos do mesmo clube, que naquele ano, foi de 600 torcedores[8]. Em 2019, em partida contra o Tombense, pelas quartas de final do campeonato mineiro da primeira divisão, o Boa levou 800 pagantes[9]. Nem mesmo uma partida decisiva conseguiu superar aquele público de dois anos antes.

Fonte: http://fmf.esumula.com.br/

O machismo é elemento fundamental que leva um clube a contratar um condenado por participar diretamente do assassinato de uma mulher de modo premeditado. Admiti-lo novamente para ocupar uma função de tamanha visibilidade – mesmo em se tratando de clubes de pouco investimento – representa um posicionamento que entende o feminicídio como um crime menos grave. Esse tipo de percepção é comum em ambientes onde o machismo é predominante, como é o caso do futebol, como é o caso do nosso país.  No Brasil, segundo os dados divulgados pelo G1 relativos ao ano de 2018, registrou-se o número de 4 mulheres mortas para cada grupo de 100 mil mulheres, ou seja, 74% superior à média mundial.[10]

O “país do futebol” é um dos cinco onde mais se mata mulheres no mundo.

É nesse país do futebol que vemos clubes pouquíssimos engajados em causas sociais, mas que repentinamente levantam a voz a “favor da recuperação do ser humano”, um ser humano, aliás, muito específico chamado Bruno Fernandes e que consegue movimentar os holofotes do espetáculo da infâmia para o qual convenhamos … não falta público.

Apostar nesse tipo de visibilidade faz parte de uma lógica mercadológica, não podemos esquecer desse detalhe.

Quando o Boa Esporte anunciou sua aquisição, alguns patrocinadores avisaram que rescindiriam seus contratos com o clube. A empresa responsável pelos cuidados com a nutrição dos jogadores foi a primeira a tomar tal atitude. O patrocinador principal, o grupo Góis & Silva chegou a anunciar o fim da parceria com o Boa, porém essa promessa não foi cumprida. No dia da estreia do goleiro, a marca da empresa estava estampada nos materiais de divulgação do jogo, na camisa do clube e nas placas de publicidade que cercam o campo. Além disso, uma nova empresa de nutrição havia assumido o serviço no lugar daquela que rescindira o contrato.

O futebol é bom para pensar

O poder do futebol de despertar afetos, influenciar nas construções identitárias, enfim, sua capacidade de mobilizar coletividades não deve ser desprezado. Ao contrário, é justamente por conta desse poder que os clubes precisam assumir sua responsabilidade acerca do papel que desempenham ou devem desempenhar na vida das pessoas. Uma discussão desse porte requer um esforço e um comprometimento que ultrapasse as hipocrisias e os meros interesses do mercado.

Numa sociedade em que tudo parece estar à venda, o fato de haver consumidores dispostos a pagar pelo que é oferecido transforma-se em índice de legitimidade de muitas ações. O futebol não foge a essa lógica. Por isso, o aumento de público nos jogos do Boa, por exemplo, não deve ser tomado como um sinal de que a presença de Bruno em campo é algo a ser considerado como positivo.

É possível e bem provável que diversos outros clubes de menor investimento ainda tentem contratá-lo na intenção de lucrarem. O Clube Esportivo Operário Várzea-Grandense já anunciou interesse em Bruno. Coincidentemente essa negociação tem participação direta de Roberto Morais, um dos proprietários do Boa Esporte e irmão de Rone Moraes responsável pela contratação do goleiro por esse clube. A conta desses empresários deve ser a seguinte.: se Bruno pode atrair público e mídia, então, existe possibilidade de lucro, algo pouco comum para clubes de pouco investimento. A nota do Fluminense de Feira expressa um pouco a frustração de se ter de abrir mão de uma oportunidade considerada imperdível de ter “Bruno Fernandes, um ex-Flamengo” como disse a nota mencionada.

A lógica do mercado tem invadido esferas da vida com as quais não possui – e não deve possuir – relação. O mercado tem uma incrível capacidade de banalizar aquilo que lhe rodeia e, justamente, por isso devemos repetir a pergunta.: “É desse modo que queremos viver?” Michel Sandel faz esse questionamento em seu livro O que o dinheiro não compra. Os limites morais do mercado.

Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/

A resposta não deve ser derivada de uma simples demonização da sociedade de consumo, mas sim de uma problematização das fronteiras do que pode e não pode ser medido a partir de parâmetros estipulados pelo mercado.

Ser assassinada de modo planejado pelo pai do seu filho foi um ato banalizado quando quem cometeu esse crime retornou para a sociedade ocupando um lugar de visibilidade e status no esporte mais popular do país. Retorno que se dá recorrendo-se a argumentos hipócritas, misturados com um machismo mal disfarçado, tudo isso combinado com o espetáculo da infâmia que infelizmente atrai o interesse de muita gente.

Não. Não é desse modo que eu quero viver. E creio que o futebol pode ser uma arena fundamental para discussões e propostas a respeito de formas mais promissoras de nos construirmos enquanto sujeitos em uma sociedade complexa como nossa.

Notas de rodapé:

[1] Documentário feito como trabalho de conclusão de curso de Daniel Augusto de Freitas; Denilde Gomes Costa Inglat e Jackeline Dos Santos Oliveira Disponível em.: https://www.youtube.com/watch?v=ZKs_pdKHFxI

[2] Fonte: https://www.terra.com.br/esportes/lance/presidente-defende-contratacao-de-bruno-boa-esporte-nao-esta-cometendo-nenhum-crime,49f333b46d7e6739875cd73f272a246ekcuxgxeq.html

[3] Monitor da violência. https://g1.globo.com/monitor-da-violencia

[4] Fonte:https://brasil.elpais.com/brasil/2019/08/29/deportes/1567100612_158091.html

[5] Fonte:https://brasil.elpais.com/brasil/2019/08/29/deportes/1567100612_158091.html

[6] Sobre o caso ver (http://www.conjur.com.br/2007-ago-03/juiz_nega_acao_jogador_futebol_macho)

[7] Rosana Pinheiro Machado. Amanhã vai ser maior. O que aconteceu com o Brasil e possíveis rotas de fuga para a crise atual.

[8] Fonte:http://globoesporte.globo.com/mg/sul-de-minas/futebol/noticia/2017/04/apoio-penalti-e-empate-o-retorno-de-bruno-aos-campos-sete-anos-depois.html

[9] Fonte:http://sge.esumula.com.br/arquivos/Bordero/Bordero_Jogo_32733.pdf

[10] Fonte: https://g1.globo.com/monitor-da-violencia/noticia/2019/03/08/dados-de-violencia-contra-a-mulher-sao-a-evidencia-da-desigualdade-de-genero-no-brasil.ghtml

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Já está no ar o oitavo episódio do Passes e Impasses

Acesse o oitavo episódio do podcast Passes e Impasses no Spotify*, Deezer*, Apple PodcastsPocketCastsOvercastGoogle PodcastRadioPublic e Anchor.

O tema do nosso oitavo episódio é “Futebol e movimento LGBT”. Com apresentação de Filipe Mostaro, recebemos no nosso estúdio Carlos Guilherme Vogel, que é mestre em comunicação pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UERJ, também é roterista, diretor e produtor cinematográfico e Flávio Amaral que é jornalista formado pela FACHA e assessor de comunicação do governo do Estado do Rio de Janeiro, por telefone, nós também conversamos com o Maurício Rodrigues, organizador do livro Histórias de Todas as Cores: Memórias Ilustradas LGBT e o pesquisador Gustavo Bandeira que é doutor em Educação pela UFRGS.

O podcast Passes e Impasses é uma produção do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte em parceria com o Laboratório de Áudio da UERJ (Audiolab). O objetivo do podcast é trazer uma opinião reflexiva sobre o esporte em todos os episódios, com uma leitura aprofundada sobre diferentes assuntos em voga no cenário esportivo nacional e internacional. Para isso, traremos sempre especialistas para debater conosco os tópicos de cada programa. Você ama esporte e quer acessar um conteúdo exclusivo, feito por quem realmente pesquisa o esporte? Então não deixe de ouvir o oitavo episódio do podcast Passes e Impasses.

No quadro “Toca a Letra”, trouxemos a música “We are the Champions” é da banda de rock britânica Queen e foi lançada em outubro de 1977.

Passes e Impasses é o podcast que traz para você que nos acompanha o esporte como você nunca ouviu.

Equipe
Coordenação Geral: Ronaldo Helal
Direção: Fausto Amaro e Filipe Mostaro
Roteiro: Marina Mantuano e Fausto Amaro
Produção: Fausto Amaro e Marina Mantuano
Edição de áudio: Leonardo Pereira (Audiolab)
Apresentação: Filipe Mostaro
Convidados: Carlos Guilherme Vogel, Flávio Amaral, Maurício Rodrigues e Gustavo Bandeira