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Competições olímpicas de arte e a história das mulheres no esporte

A trajetória das mulheres no esporte durante algum tempo foi contada a partir da ênfase naquilo que não foi ou naquilo que poderia ter sido. Trata-se de uma perspectiva importante e justa que chamou a atenção para o longo silêncio sobre uma parte importante da história do esporte. Essa parte cabe às mulheres e ela é composta de inúmeros eventos e ações que precisam ser trazidos à cena, montando assim um quadro não de lacunas somente, mas de atos e gestos movidos por esforços solitários e coletivos. Esforços que possuem laços com diferentes esferas da cultura e da sociedade, entre as quais a arte.

Diversas foram as vezes em que o esporte foi artisticamente representado. As vanguardas europeias são um exemplo dessa aproximação. A ânsia por tematizar o frenesi da modernidade e seus ícones – entre os quais o esporte – moveu a tinta de artistas futuristas como Giacomo Balla, Umberto Boccioni e Carlo Carrà[1].

Porém, uma das mais fortes demonstrações da relação entre arte e esporte está nas Olympic Art Competitions (Competições Olímpicas de Arte) quase esquecidas hoje em dia, mas que já fizeram parte do programa dos Jogos Olímpicos. Essas competições começaram oficialmente, em 1912, nos Jogos de Estocolmo e terminaram em 1948, em Londres. Elas surgiram da vontade de Pierre Coubertin de relacionar esporte, arte e literatura, pois essa união representaria o que Coubertin considerava como a verdadeira essência dos Jogos Olímpicos, do modo como acreditava terem sido concebidos na Antiguidade.

Essas disputas artísticas foram um momento importante para as mulheres no esporte. Em 1928, o mexicano Ángel Zárraga levou para as competições seus quadros La Futebolista Rubia e La Futebolista Morena nos quais são retratadas jogadoras de futebol parisienses que atuavam nos gramados franceses em uma época considerada como a “idade de ouro” do futebol feminino[2].

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La futebolista morena, obra pintada, em 1926, por Ángel Zárraga e inscrita nas Competições Olímpicas de arte de 1928

Porém, as mulheres, também, se destacaram como artistas. E várias delas conseguiram medalhas.

Competições Olímpicas de arte e as mulheres

Pelo menos desde a metade dos anos de 1910, Pierre Coubertin não mediu esforços para a organização de uma conferência consultiva que visava convencer o Comitê Olímpico Internacional sobre a necessidade de se integrar ao Jogos, manifestações que fossem além dos esportes e abarcassem as artes. Richard Stanton, em seu livro The forgotten Olympic Art Competitions, nos mostra o empenho de Coubertin em convidar importantes artistas da época para comporem a conferência, enviando-lhes cartas individuais.

Em 1906, na abertura desse evento, Coubertin fez a leitura intitulada “A Grand Merriage” na qual enfatiza a necessidade de unir músculo e mente[3]. Seu esforço gerou resultado:

A conferência aprovou por unanimidade a ideia de instituir cinco concursos, arquitetura, escultura, pintura, literatura e música, que se juntarão a seguir as Olimpíadas e farão parte delas com o mesmo status das provas atléticas. Os trabalhos apresentados devem ser inspirados na ideia do esporte ou referir-se diretamente ao esporte. Eles seriam examinados por um júri internacional. As obras vencedoras seriam, na medida do possível, exibidas, publicadas ou executadas (como se fossem pictóricas, arquitetônicas, escultóricas ou literárias, ou finalmente, musicais ou dramáticas) ao longo dos Jogos. (tradução minha) [4]

Após alguns percalços, finalmente nos Jogos Olímpicos de Estocolmo, em 1912, as competições artísticas foram oficializadas. As principais categorias incluíam Arquitetura, Escultura, Pintura, Música e Literatura[5] tendo sua organização orientada pela nacionalidade. Assim como nos jogos esportivos, as premiações se dividiam em medalhas de ouro, prata e bronze. Em 36 anos foram concedidas 147 medalhas, sendo no total 24 para a Alemanha, 14 para Itália e 13 para a França.

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Competições Olímpicas de arte, 1932, Los Angeles. Júri observando as obras. Fonte: Olympic Museum

O único representante de destaque da América do Sul foi o Uruguai que obteve uma menção honrosa, em 1948, na categoria literatura, prêmio obtido por Clotilde Luisi, uma advogada, escritora e militante do direito das mulheres[6].

Várias foram as mulheres que participaram das Competições Olímpicas de Arte e que ganharam medalha como é o caso da escultora alemã Renée Sintenis que, em 1928, recebeu prata pela obra Footballeur. René era uma mulher que chamava atenção em sua época por seu estilo andrógino e por uma vida pública agitada, sendo com frequência vista em eventos esportivos ou dirigindo carros pelas ruas de Berlim.

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Footballeur, 1928, Renée Sintenis, medalha de bronze. Fonte: Playing Pasts

Outro destaque pode ser dado a Laura Knight que, em 1913, impactou a crítica e o público com seu Self-portrait with nude (Autorretrato com nu). Essa composição mostra uma cena ambientada em um estúdio no qual aparece Knight – vestida – em frente a uma tela em que pinta a modelo nua, Ella Naper.  Ao lado de Laura podemos ver um espelho refletindo o corpo real dessa modelo que posava para a artista. É uma pintura complexa que ao duplicar a imagem, atinge três planos de representação feminina: pintora, modelo e figuração.

Vale lembrar que no período de formação artística de Laura Knight, nas escolas de arte, era desaconselhado e até mesmo vedado que mulheres pintassem diretamente modelos nus, tendo que se limitar a trabalhar a partir de moldes ou copiar desenhos preexistentes. O quadro Autorretrato com nu, em grande medida, pode ser interpretado como uma provocação a essa sanção sofrida pela própria artista.

Knight foi alvo de críticas negativas de quem a considerou imoral e com uma postura considerada como incompatível com uma mulher. Entretanto com o passar do tempo, sua técnica que conjugava realismo e traços de impressionismo, a tornaram um dos principais nomes das artes plásticas da Inglaterra em sua época.  Uma artista muito popular, também, devido às suas pinturas sobre o cotidiano do circo. Laura Knight, em 1936, tornou-se a primeira mulher eleita para membro efetivo da Royal Academy desde sua fundação.

Antes disso, em 1928, Laura Knight foi medalhista das Competições Olímpicas de Arte ganhando a prata com a pintura Bouxeurs. Essa modalidade esportiva, aliás, já havia recebido atenção da artista em obras anteriores como é o caso de Physical Training at Witley Camp (1918), inspirada em cenas presenciadas pela própria artista no campo de treinamento militar Witley, onde soldados canadenses, francês e Belgas se preparavam para a primeira guerra mundial. Desde, então, a pintora costumava representar o boxe em suas produções como é o caso de Youngsters at the ring, Blackfriars (1937). Ainda em relação à temática esportiva, a artista fez o famoso cartaz Rugby at Twickenham by Tram, em 1921.

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Boxeurs, Medalha de prata, Competições Olímpicas de Arte 1932. Fonte: Olympic Museum
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Physical Training at Witley Camp (1918), Laura Knight. Fonte: Allpainter
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Youngsters at the ring, Blackfriars (1937), Laura Knight. Fonte: Artnet
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Rugby at Twickenham by Tram, cartaz feito por Laura Knight
Fonte: London Transport Museum

Agora é a vez de falar de Ruth Miller, nascida em Chicago, em 1904, filha de uma família abastada e conservadora da qual tentou desvencilhar-se e ir em busca de mais liberdade. Ruth chegou a fingir um colapso nervoso para não ser matriculada no tradicional Vassar College. Viajou para a Europa, casou-se sem autorização dos pais e estudou artes plásticas durante a efervescência das vanguardas europeias. Provavelmente desse contato surgiram os traços surrealistas que acompanham muitas de suas obras.

Já de volta aos Estados Unidos, em 1932, nos Jogos de Los Angeles, Ruth ganhou a medalha de prata nas competições artísticas com a interessantíssima pintura The Struggle, em que é possível observarmos dois homens, um negro e um branco, cuja luta corpórea pode ser interpretada como uma alusão ao embate racial comum à sociedade americana da época.

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Ruth Miller Kempster, The Struggle, Medalha de prata. Competições Olímpicas de Arte de 1932.
Fonte.: http://lacmaonfire.blogspot.com/

A pintora não deixou de lançar um olhar crítico também sobre os padrões femininos de sua época, como ocorre na bela e provocativa obra Housewife, de 1935. Nela, a partir da técnica de enquadramento usada, nos é passada uma forte impressão do enclausuramento do cotidiano doméstico das mulheres.

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Housewife, 1935, Ruth Miller Kempster. Fonte: Los Angeles Times.

As pintoras aqui mencionadas, de algum modo, deram mostras tanto na arte quanto em suas vidas de que havia espaços mais amplos a serem ocupados pelas mulheres na sociedade. E esse é um dos motivos que norteou a escolha delas para compor este texto. Além desse aspecto, o destaque dessas artistas, nesta postagem, também se justifica pela maior quantidade de informações acessíveis sobre suas carreiras e as obras que as levaram a ser premiadas nas Competições Olímpicas de Arte.

Foram 148 mulheres artistas que concorreram nessa disputa, sendo que 10 ganharam medalhas e cinco conseguiram menção honrosa. São números que dão mostras de uma participação exitosa. Desde a primeira edição oficial, em 1912, foi permitida a presença de mulheres, o que dá mostras de que pelo menos nas competições artísticas dos Jogos, essa questão não foi um problema. Nas regras das Competições Olímpicas de Arte não há passagens que façam alusão a regulações específicas em relação a artistas mulheres, assim como não se encontrava menção à sua exclusão das competições[7].

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Quadro de medalhistas mulheres nas Competições Olímpicas de Arte nas Fonte.: Natalia Camps Y Wilant. A Female Medallist at the 1928 Olympic Art Competitions: The Sculptress Renée Sintenis. The International Journal of the History of Sport. Volume 33, 2016

Tudo bem diferente do que ocorria com os Jogos Olímpicos esportivos cuja presença feminina foi algo contra o qual o próprio Barão de Coubertin manifestou-se explicitamente diversas vezes. Essa e outras oposições dificultaram sobremaneira a participação de mulheres atletas, mas como já disse, no início desta postagem, a trajetória das mulheres no esporte é fascinante devido ao seu caráter alternativo e em certa medida desobediente.

Afinal enquanto Barão de Coubertin dizia não, a francesa Alice Milliat, criou, e depois dirigiu, a Fédération Sportive Féminine Internationale (F.S.F.I.). Essa instituição durou 15 anos – (1921-1936) – e no decorrer desse esse tempo foi responsável pela organização de quatro edições dos Jogos Olímpicos Femininos.

Mas esse é tema para a próxima postagem.

[1] Sobre a relação arte e esporte há livros e artigos de Victor Andrade de Melo que podem ser consultados

[2] Uso a expressão de Xavier BREUIL no seu Histoire du football féminin en Europe. Paris.: Nouveau Monde Editions, 2011

[3] “to reunite a long-divorced couple – Muscle and Mind”, assim consta no discurso original que pode ser lido no livro de Richard Stanton The forgotten Olympic Art Competitions

[4] Pérez-Aragón, P. y Gallardo-Pérez, J. (2017). Coubertin and the Artistic Competitions in the Modern Olympic Games. Revista Internacional de Medicina y Ciencias de la Actividad Física y el Deporte vol. 17 (68) p.633-649.

[5] Com o tempo outras subdivisões foram acrescentadas

[6] Clotildi Luisi foi uma artista atuante no cenário político da América Latina saindo em defesa de ideias anti-imperialistas. Ela foi amiga de Alfonso Reys, poeta e diplomata Mexicano, com quem manteve intercâmbio intelectual frequente. Sobre a atuação de Luisi ver Mariana Moraes Medina. Crónica de una efusión: Alfonso Reyes, Luisa Luisi y el Comité Uruguay-México. Revista de Historia de América núm. 156, 2019.

[7] Ver  Natalia Camps Y Wilant. A Female Medallist at the 1928 Olympic Art Competitions: The Sculptress Renée Sintenis. The International Journal of the History of Sport. Volume 33, 2016 – Issue 13: Special Issue: Women and Sport

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Medo e coragem em tempos de pandemia: lições desportivas de 1987

Por David M. K. Sheinin* e César Torres**

Em 1987, se conhecia o suficiente da síndrome da imunodeficiência adquirida (AIDS) e sua causa, o vírus da imunodeficiência humana, para saber que se sabia muito pouco. Mundialmente, os casos de AIDS cresciam de forma exponencial. Enquanto se discriminavam os homossexuais, como suposta fonte da doença, novos temores surgiram. Até pouco tempo atrás, muitas pessoas acreditavam estar à margem da pandemia, já que a AIDS era considerada uma doença de homossexuais, confinada a seus círculos em uns poucos centros urbanos. Em 1987, porém, com novidades sobre a transmissão entre mãe e filho/a e entre casais heterossexuais, o perigo mudou. Paulatinamente, a sociedade se deu conta da sua proximidade com o perigo. E o medo aumentou.

Os Estados Unidos estão hoje na “1987” da pandemia da Covid-19. Não é mais uma infecção chinesa, ou de alguns poucos bairros do Queens e Brooklyn em Nova York. Cada notícia de como o vírus assola o corpo promove mais medo em algumas pessoas, fantasias insistentes de isenção em outras e novas buscas por “culpados” – desde políticos a enfermeiras asiáticas – pela crise.

O 1987 da AIDS tem eco na Covid-19 do presente. Naquele ano o mundo desportivo tinha medo e desconfiança. Desde Seul advertia-se sobre as medidas que seriam implementadas para evitar a chegada de esportistas portadores de AIDS durante os Jogos Olímpicos de 1988 (e assim impedir um desastre econômico e desportivo quase equivalente a um potencial cancelamento definitivo dos Jogos Olímpicos de 2020 em Tóquio). Na Iugoslávia, a organização dos Jogos Universitários colocou preservativos à disposição dos 4.500 esportitas como parte de uma campanha anti-AIDS. O boxeador japonês Akiro Kameda pediu que Terry Marsh fosse submetido a um exame de AIDS antes da luta no Royal Albert Hall de Londres (proposta esse rechaçada com indignação por Marsh).

Milhares de atletas de todo o continente viajaram à Indianápolis, em pleno meio-oeste estadunidense, para os Jogos Pan-americanos de 1987. Como no caso da Covid-19 atual, muitas pessoas naquela zona sentiram-se imunes à AIDS (uma enfermidade que se pensava estar confinada às duas costas do país), ainda que o medo gerado pelo desconhecimento sobre a doença estivesse aumentando. Assim, em janeiro, um jornal de Indianápolis se referiu à AIDS como “a nova lepra”, que, se não fosse tratada, poderia resultar em centenas de mortes e isolamentos na cidade. O alarme se propagou entre as delegações presentes.

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Jogos Pan-americanos de Indianápolis 1987. Fonte:  Wikipedia

José Soca Montero, técnico da equipe uruguaia de judô, reclamou que a organização dos Jogos Pan-americanos de 1987 não forneceu informações sobre a AIDS e nem sobre como iriam controlar a doença. O técnico argumentou que a maioria dos casos de AIDS no Uruguai tinha vindo dos Estados Unidos e do Brasil. Por esse motivo, ele sustentava que os atletas desses países deveriam ser submetidos a exames obrigatórios. Nesse sentido, uma revista mexicana afirmou que, como a AIDS havia sido vinculada com as relações homossexuais, “não se descarta a possibilidade de submeter os atletas e participantes em geral nesses tipos de eventos internacionais a exames anti-AIDS”. Esses exames, prosseguia a revista, poderiam prevenir muitos problemas “(até que) seja encontrada uma vacina eficaz contra essa síndrome do terror”. Por sua vez, o remador mexicano Juan Carlos Ortiz sentia-se desinformado e confessava o medo de se contaminar no restaurante e nos banheiros da vila pan-americana.

No entanto, no meio do crescente pânico, houve um momento de redenção ainda sem equivalência em 2020, um simples ato de clemência de um grande desportista, que humanizou a crise, demonstrou um pouco de esperança e acalmou a ansiedade social ao redor da AIDS. Esse ato de bondade envolveu o americano Greg Louganis, o saltador mais conhecido da história, e Ryan White, um adolescente de Indiana. White, a vítima de AIDS mais famosa do momento, havia se contagiado através de uma transfusão de sangue no final de 1984. Em 1986, com 14 anos, as autoridades proibiram-lhe de frequentar a escola, já que havia um temor irracional de que ele contaminasse parte dos alunos. Louganis, ganhador de duas medalhas de ouro nos Jogos Olímpicos de 1984 em Los Angeles, soube de White e sua luta e o convidou para presenciar o Campeonato Nacional de Saltos de 1986 em Indianápolis. Louganis contou, depois da competição, que havia se sentido motivado pelo caso de White. No ano seguinte, de volta a Indianápolis para os Jogos Pan-americanos, Louganis ganhou duas medalhas de ouro e presenteou White com uma delas, colocando-a em seu pescoço como um campeão. A mãe de White declarou que o gesto havia significado muito para seu filho.

Seis meses depois dos Jogos Pan-americanos de Indianápolis, Louganis foi diagnosticado com AIDS. Ele suspeitava de algo quando deu sua medalha a White em agosto de 1987? Não sabemos. O medo, porém, forçou Louganis a manter em segredo sua doença (e sua homossexualidade) por muito tempo. Nos Jogos Olímpicos de 1988, em Seul, ele bateu sua cabeça contra o trampolim. Umas gotas de sangue caíram na piscina e Louganis ficou perplexo. Contaminaria os demais? O incidente não teve consequências.

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pinterest.com

De campeão olímpico e pan-americano que consolou White, Louganis se transformou, em poucos meses, em todos os sentidos, em uma vítima da AIDS, que temia tanto pela sua carreira esportiva quanto por sua vida. White morreu aos 16 anos em 1990. Os dois, entretanto, mudaram a percepção social da AIDS e sua trajetória. A sociedade se deu conta do quão absurdo e discriminatório havia sido negar a White seu direito à educação. Nunca mais nos Estados Unidos proibiram um(a) estudante com AIDS de ir à escola. Louganis e White promoveram um avanço na forma de se relacionar com a doença, não por meio de uma vacina ou uma medicação milagrosa, mas por meio de uma breve amizade que humanizou as vítimas, exemplificando a “simpatia solidária (e respeito) diante do sofrimento dos semelhantes”. Esses amigos entenderam, como diz o filósofo espanhol Fernando Savater, que “ou estou com e para os outros ou sou outra coisa” e que “os outros me permitem ser eu, me resgatam”. Assim, marcaram um caminho otimista possível em meio a uma doença devastadora. Sua história, tão vigente nos tempos atuais, nos recorda que a melhor maneira de enfrentar esse tipo de calamidade é resgatando-nos mutuamente em uma cumplicidade coletiva.

Texto originalmente publicado no site Página 12 no dia 01 de agosto de 2020.

* Doutor em História. Professor na Universidade de Trent.

** Doutor em Filosofia e História do Esporte. Professor na Universidade do Estado de Nova York (Brockport).

Tradução: Leticia Quadros

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