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Esporte e vinculação

A questão migratória é de ordem transnacional, própria de uma sociedade globalizada. Como fenômeno pós-estado-nação, e por isso mesmo, marcada pela ruptura entre questões nacionais e identitárias, é preciso que sejam levados em consideração aspectos culturais, territoriais e linguísticos, indo além da questão das fronteiras formais.

O Brasil compõe o mapa das migrações internacionais. De acordo com o Comitê Nacional para Refugiados – CONARE, órgão ligado ao Ministério da Justiça, em 2017, havia no país um total de 10.145 refugiados, de 82 nacionalidades[1]. No mesmo ano, foram registradas 33.866 solicitações de reconhecimento da condição de refugiado.

São vários os motivos que levam pessoas ou grupo de pessoas a migrarem. No caso dos imigrantes-refugiados, vítimas de diásporas forçadas, esses motivos estão intrinsecamente relacionados à reivindicação pela cidadania, que de alguma maneira lhes foi negada no país de origem e que igualmente é difícil de conquistar no local de destino. Essas pessoas deixam para trás famílias, histórias, identidades e afetos, apresentando-se como sujeitos híbridos por excelência, símbolos do sujeito contemporâneo, ao mesmo tempo nativo e estrangeiro, cosmopolita e de lugar nenhum.

Ao chegarem ao Brasil, os imigrantes-refugiados precisam se vincular socioeconomicamente no país. Para que isso aconteça é necessário que sejam interpretados os códigos tangíveis e simbólicos, como regras, leis e práticas culturais. Esta vinculação faz parte do processo Territorialização, Desterritorialização, Reterritorialização ou simplesmente TDR. Em seus aspectos físicos esse processo corresponde à saída das pessoas de seus locais de origem e a chegada/acolhimento a outro lugar. Na desterritorialização as identidades territoriais são desenraizadas e enfraquecidas fazendo com que o território perca o sentido e se transforme em um “não lugar”.

Ao chegarem, no continuum desterriorialização-reterritorialização, essas pessoas se vêem envolvidas num fenômeno de exclusão sócio-espacial que envolve o desmantelamento das relações e o esfacelamento da territorialidade original e familiar. Apesar da distância da terra natal, os elos com os locais de origem permanecem fortes, porém é natural que com o passar do tempo ocorra a identificação com o novo lugar, como consequência do processo de vinculação, presente na reterritorialização.

Dentre as várias possibilidades existentes, o esporte, cada vez mais, vem se apresentando como um eficiente instrumento capaz de promover a vinculação sócio-econômica-cultural desse grupo de pessoas. Sob uma perspectiva cultural, o esporte pode ser entendido como uma prática lúdica e social executada por pessoas que compartilham o entendimento das regras e demais modus operandi, mas que necessariamente não precisam compartilhar da mesma língua ou práticas culturais. Em realidade, na atualidade há diversas modalidades que possuem num mesmo time participantes de diferentes etnias e, ainda assim, partilham, enquanto equipe, os mesmos significados e sentidos. O esporte é capaz de propiciar a essas pessoas o sentimento de pertencimento e a capacidade de experimentar a sensação de possuir um lugar só seu no seio do vínculo social.

Um dos casos de sucesso na vinculação de imigrantes-refugiados pelo esporte é a Copa de Futebol dos Refugiados e Imigrantes. O evento é considerado o maior projeto de integração esportiva envolvendo refugiados e migrantes no Brasil[2]. As várias etapas do campeonato ocorrem em várias cidades brasileiras e envolvem, aproximadamente, 1.100 atletas de 39 nacionalidades, reunindo migrantes e refugiados, vítimas de diásporas forçadas.

O evento teve origem no ano de 2014, na cidade de São Paulo. A iniciativa partiu da ONG África do Coração e conta com o apoio da ACNUR (Agência das Nações Unidas para Refugiados). A etapa final da edição de 2019 contou com os seguintes finalistas: Líbano (Rio Grande do Sul), Angola (Rio de Janeiro), Guine Conacri (Distrito Federal), Cabo Verde (Pernambuco), Colômbia (Paraná) e República do Congo (São Paulo).

Fonte: atribuna.com.br

Por meio da força agregadora do esporte e das interações e sociabilidades presentes na rotina cotidiana, estes atletas têm maiores possibilidades se se inserirem de maneira mais orgânica na sociedade brasileira. Além do mais, ao proporcionar e naturalizar a coexistência das diferenças ensina a todos nós sobre solidariedade, respeito e alteridade.

Referências

AUGÈ, Marc. Não lugares: Introdução a uma antropologia da supermodernidade. Campinas: Papirus, 2012.

HAESBERT, Rogério. Viver no Limite: território e multiterritorialidade/transterritorialidade em tempos de in-segurança e contenção. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2014.

HAJII, ElHajii. Rio de Janeiro-Montreal: conexões transnacionais/ruídos interculturais. In: Revista Fronteiras – estudos midiáticos 12(3): 177-184, setembro/dezembro 2010.

LE BRETON, David. Desaparecer de si: uma tentação contemporânea. Petrópolis: Vozes, 2018.

 

Notas de Rodapé

[1]MINISTÉRIO DA JUSTIÇA. Refúgio em números – 3ª edição. Disponível em: <http://www.acnur.org/portugues/wp-content/uploads/2018/04/refugio-em-numeros_1104.pdf/>. Acesso em: 10/09/2019.

[2] http://agenciabrasil.ebc.com.br/esportes/noticia/2019-10/atletas-de-16-nacionalidades-disputam-copa-dos-refugiados-em-sao-paulo

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Negros e árabes da Copa do Mundo: apontamentos sobre nacionalidade e migrações no futebol

Mais uma vez o debate sobre naturalizações e multiculturalismo atinge seleções participantes da Copa do Mundo. O futebol globalizado e midiatizado já anunciava há mais de duas décadas que as chamadas “escolas do futebol” estavam com os dias contados: grandes ligas europeias seriam tão concentradoras dos melhores pés-de-obra do mundo que a tendência era uma… Continuar lendo Negros e árabes da Copa do Mundo: apontamentos sobre nacionalidade e migrações no futebol

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