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A vida pulsa longe da Libertadores

“O Flamengo é o Brasil na Libertadores”.

A frase é velha. Batida. Tola. Muito tola. Tão tola, que é quase inacreditável perceber que ainda ontem parte da mídia tentasse vender essa ideia na hora de divulgar a transmissão da final da competição continental.

Várias emissoras de TV fizeram isso à exaustão nesses dias de novembro. E, diga-se, num processo que começou bem antes da data do jogo, realizado no último sábado (23).

Pois, diante do River Plate, clube tradicional da Argentina que seria o adversário flamenguista naquele jogo decisivo, a TV Globo fez mais. Tentou igualar a partida entre clubes ao clássico entre seleções e fazê-los parte de um mesmo processo, de uma mesma rivalidade, de uma mesma dualidade.

Pura baboseira.

A estratégia é curiosa, principalmente e antes de tudo, porque não convence absolutamente ninguém.

Para começo de papo, a relação do torcedor com o clube é em regra mais próxima, mais cúmplice, logo mais duradoura e forte do que a existente entre esse mesmo torcedor e a seleção de seu país.

Considerando o caráter contextual da identidade, conforme apregoa Barth (2000), o torcedor vive o clube no seu cotidiano e na sua intimidade. É uma relação identitária muito mais potente do que aquela vivida com a seleção, acionada apenas de tempos em tempos.

Dito de outro modo, o clube é prioridade frente à seleção, e não o contrário. Acionar a rivalidade entre seleções para apaziguar a rivalidade entre clubes, portanto, é algo absolutamente inócuo do ponto de vista prático.

Depois, o discurso de que o micro pode responder pelo macro, dentro do contexto tipicamente tensionado das torcidas de futebol, deve irritar mais do que empolgar o torcedor. Logo, é um discurso burro inclusive do ponto de vista do marketing, da promoção do jogo de bola que está para acontecer.

O flamenguista não quer ser o Brasil. O resto do Brasil não quer ser o Flamengo. Simples – e seco – assim.

Não precisa ir longe para entender isso. De forma que é muito sintomático o fato de que alguns setores da mídia falam sobre algo que parecem não conhecer. Parecem não querer se aprofundar. Parecem propositalmente ignorar.

A reflexão que Damo (2012) faz sobre “clubismo” enterra de uma vez por todas esse papo besta. Futebol, afinal, não é mero jogo, mas algo que extrapola em muito a dimensão esportiva e que é intrinsecamente vivido numa relação de alteridades impossível de ser apagada.

Saindo do debate futebolístico, dialogando com outros antropólogos, mas ainda assim na mesma linha de pensamento, Agier (2015) vai nos convidar a discutir as identidades a partir das fronteiras, das limiaridades que estabelecem conflitos, distinguem – e separam – entidades.

A ideia de localismo, ademais, é vital nesta conversa.

Apesar de ser dono da maior torcida do Brasil, é possível dizer que havia mais brasileiros torcendo pelo River do que pelo Flamengo.

O Flamengo, pois, não era nem mesmo o Rio de Janeiro na Libertadores.

E no Nordeste, região onde moro, onde realizo minhas pesquisas e onde os clubes do Rio são extremamente populares (por razões sabidas, mas que não serão debatidas aqui), as distinções não eram nem mesmo duais.

Para além do debate simplista entre flamenguistas e anti-flamenguistas, havia uma parcela crescente que abominava a simples ideia de existir tal debate na região.

Aqueles que não são flameguistas, não são rivais do Flamengo, não estão nem aí para o que o Flamengo vence ou perde.

Porque não foram poucos os torcedores de clubes do Nordeste que se declararam alheios à final de 23 de novembro e demonstraram-se mais preocupados em suas distintas e particulares realidades.

Na séries A, B e C, que seja. Mas na Série D, também. Ou nos clubes sem séries. Nos campeonatos estaduais que estão para começar. Nos elencos que começam a ser montados ou que estão prestes a serem desmontados.

Há vida, rica, diversa, competitiva, nestes campos, nestes campeonatos, nestas disputas de títulos, de espaço, de glória longe da Libertadores.

Sob certas óticas, uma vida muito mais importante do que qualquer competição internacional. Muito mais célebre do que qualquer “rumo à Tóquio”, que nos últimos tempos nem pelo Japão passa mais.

O Brasil é grande demais para viver de um único clube, uma única competição. O futebol é múltiplo demais para se unificar em uma única causa, uma única torcida.

Insistir nessa totalização de ideias, pensamentos, perspectivas, é querer negar identidades. Apagar realidades. Ofuscar alteridades. É de uma violência sem precedentes.

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Fonte: Jovem Pan

Referências

AGIER, Michel. Migrações, Descentramentos e Cosmopolitismo: uma antropologia das fronteiras. Trad. Bruno César Cavalcanti, Maria Stela Lameiras e Rachel Rocha de Barros. São Paulo: Unesp; Maceió: Edufal, 2015.

BARTH, Fredrik. O Guru, o Iniciador: e outras variações antropológicas. Trad. John Cunha Comerford. Rio de Janeiro: Contracapa, 2000.

DAMO, Arlei Sander. Paixão partilhada e participativa: o caso do futebol. História: Questões & Debates, v. 57, n. 2, pp. 45-72, jul./dez. 2012.

Eventos

Seminário Internacional “Copa América – 2019

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UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO

Em 1919, no Rio de Janeiro, a seleção brasileira conquistou o campeonato Sul-Americano de futebol. Já em pleno processo de popularização desse esporte no Brasil, o sul-americano daquele ano pode ser considerado como um momento fundamental em que foram dados contornos mais nítidos de uma identidade coletiva que se construía em torno do futebol. 100 anos se passaram. O Sul-americano se transformou em Copa América e o futebol, especialmente a seleção brasileira, se consolidou como um dos mais importantes pilares identitários do Brasil. 100 anos se passaram e, novamente, o Brasil sedia o mais importante campeonato de seleções do continente americano.

A realização do Seminário “Copa América-2019: Esporte, mídia, identidades locais e globais” pretende promover uma discussão de cunho acadêmico e transdisciplinar, objetivando refletir sobre o fenômeno futebolístico e esportivo de um modo geral tendo como centro articulador os debates sobre a realização da Copa América de 2019, no Brasil e os cem anos da primeira conquista internacional da Seleção Brasileira. Nesse evento, o LEME (Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte) propõe promover uma oportunidade de divulgação e circulação de conhecimento que não se restrinja ao futebol em si, mas sim sobre as repercussões e apropriações feitas dessa prática esportiva que, desde o início do século XX, tem mostrado sua força de popularidade.

Normas para submissão de resumos e trabalhos completos para a sessão de trabalhos do Seminário Internacional COPA AMÉRICA – 2019: ESPORTE, MÍDIA, IDENTIDADES LOCAIS E GLOBAIS

1) Em um primeiro momento, o (a) autor(a) e co-autor (a), caso haja, deverão encaminhar, até o dia 15 de março de 2019, para a comissão científica do evento, resumo do artigo completo, no qual devem estar expostas suas ideias principais, a metodologia utilizada e os resultados parciais e/ou totais da pesquisa.

2) Os resumos devem conter, no máximo, 2500 caracteres, incluindo espaços. As regras de formatação para envio dos artigos (de 10 a 15 páginas) serão enviadas por email aos trabalhos selecionados.

A submissão de resumos deve ser realizada exclusivamente por meio deste formulário.

Email de contato: comunicacaoeesporte@gmail.com

3) O Seminário “Copa América-2019: Esporte, mídia, identidades locais e globais” recebe trabalhos de graduandos, graduados, mestrandos, mestres, doutorandos e doutores.

4) O Seminário “Copa América-2019: Esporte, mídia, identidades locais e globais” aceita trabalhos escritos em Português, Inglês e Espanhol.

5) Grupos de trabalho – A sessão de trabalhos tem como objetivo estimular a produção científica de pesquisadores das Ciências Sociais e Humanas no que tange à temática do futebol. Além disso, é um espaço acadêmico que visa possibilitar a divulgação desta produção, permitindo o debate e a reflexão acerca de questões contemporâneas exponenciadas pelos pesquisadores em formação.

 

GT1 – Esporte, cidade e identidades – 09 de abril de 2019 (terça-feira) – 10h às 12h30min

GT2 – Mídia, esporte e representação – 14h às 17h

GT3 – Estádios, arenas e os modos de torcer – 10 de abril de 2019 – Quarta-feira – 10h às 12h30min

 

GRUPOS DE TRABALHO

GT1- Esporte, cidade e identidades

O esporte desempenha um papel fundamental tanto na construção quanto afirmação de uma pluralidade de Identidades que atuam dentro e fora de fronteiras territoriais. Essa relação com a territorialidade confirma a necessidade de compreensão do esporte como prática que se entrecruza com o espaço urbano, estabelecendo com ele, uma trama de relações e significados que põe em movimento o jogo das identidades em um contexto de tensionamentos entre o local e o global.

Coordenação: Carol Fontenelle

 

GT2- Mídia, esporte e representação

A mídia, gradualmente, se consolidou como um importante veículo mediador entre os esportes e o público, participando não apenas da circulação, mas também da produção de um vasto imaginário construído em diálogo com uma série de representações presentes dentro e fora do território esportivo. As representações produzidas são um material cuja análise pode nos possibilitar o acesso às tensões e contradições dos valores e discursos que estão em jogo.

Coordenação: Álvaro do Cabo

 

GT3 – Estádios, arenas e os modos de torcer

A diversidade dos modos de torcer fomenta variadas possibilidade de construção identitária de torcedores e torcedoras nas arquibancadas. Essa pluralidade faz do ato de torcer um fenômeno complexo, muitas vezes, contraditório e que faz dele um locus de análise das reações, adaptações e resistência às mudanças ocorridas no cenário futebolístico, sobretudo, em diálogo com as transformações gerados pelo intenso processo de mercadorização e midiatização dos eventos esportivos

Coordenação: Irlan Simões

 

Comitê Científico

Leda Costa (UERJ)

Irlan Simões (UERJ)

Carol Fontenelle (UERJ)

Sérgio Settani Giglio (UNICAMP)

Coordenação-geral

Ronaldo Helal (UERJ)

NÃO HÁ TAXA DE INSCRIÇÃO. ENTRADA GRATUITA.

Data e horário

Início: 9 de abril de 2019

Encerramento: 10 de abril de 2019

Localização

Universidade do Estado do Rio de Janeiro – Auditório 91, 9º andar

Rio de Janeiro / RJ

Rua São Francisco Xavier, 524

Eventos

Seminário organizado pelo LEME contou com a presença de graduandos e pós-graduandos da UERJ

O Seminário “Mídia e memória dos clubes de futebol brasileiros”, organizado pelo Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte, realizado no último dia 26, contou com a presença de graduandos e pós-graduandos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Esse evento recebeu representantes do Club de Regatas Vasco da Gama, do Esporte Clube… Continuar lendo Seminário organizado pelo LEME contou com a presença de graduandos e pós-graduandos da UERJ

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Artigos

Memórias sobre o 7 a 1

O futebol é um esporte singular, seja por sua popularidade, pela imprevisibilidade de seus jogos ou pelas histórias que são contadas sobre ele, ou a partir dele. Em meio às narrativas sobre o universo do futebol, que envolvem jogadores, equipes e partidas, destaca-se um elemento – a memória. Nas últimas semanas a força da memória… Continuar lendo Memórias sobre o 7 a 1

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Nós somos um?

Por Fábio Lisboa O cantor americano de ascendência cubana Pitbull divulgou na última sexta-feira o clipe da música oficial da Copa do Mundo de 2014: “We Are One” (“Nós somos um”, em tradução livre). Na canção, Pitbull é acompanhado pela cantora americana de ascendência porto-riquenha Jennifer Lopez e pela brasileira Cláudia Leitte. A letra da… Continuar lendo Nós somos um?

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Neymar está cansado ou nos cansamos de Neymar?

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Para quem ainda gosta da amarelinha, a milésima desceu quadrado

Semana passada a seleção brasileira de futebol completou sua milésima partida  em disputa acirrada com a boa seleção colombiana realizada nos Estados Unidos. A famosa trajetória de glórias, conquistas e decepções como a trágica derrota na final de 1950 para os uruguaios teria se iniciado com um amistoso no longínquo 21 de julho de 1914 … Continuar lendo Para quem ainda gosta da amarelinha, a milésima desceu quadrado

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