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Sobre contar uma história que não deveria ter acontecido

Durante a realização da sexta rodada do absurdo Campeonato Brasileiro de 2020, o Grêmio sagrou-se campeão gaúcho de 2020. Essa foi a trigésima nona conquista do tricolor gaúcho, a terceira consecutiva. O clube quebrou muitos recordes ao conquistar esse campeonato que não deveria ter sido retomado. Foi o primeiro tricampeonato desde 1987. Tirando as brincadeiras que eu, nascido em 1983, e meu amigo Felipe, nascido em 1984, realizamos com meu irmão, Gabriel, que nasceu em 1988, foi o meu primeiro tricampeonato. Renato Portaluppi, ou Gaúcho, como vocês o chamam no Brasil, igualou uma marca ainda mais distante. A última vez que um mesmo treinador havia conquistado três títulos estaduais em sequência pelo Grêmio foi em 1964, quando Oswaldo Rolla alcançou tal façanha.

A qualidade técnica do campeonato não é das mais empolgantes. Ao longo dos anos vemos “craques do Gauchão” sucumbirem dos quadros da dupla Grenal e acabarem realizando trajetórias modestas em clubes de segundo ou terceiro escalão do futebol nacional. O campeonato que era chamado de “charmoso” pelo narrador Paulo Britto, agora virou o Gauchão “raiz” na voz do atual narrador da RBS, Luciano Périco. Em ambos os casos, um apelo afetivo ao tradicional, marca tão premente na cultura gaúcha, é o elemento mais “vendável” dessa competição.

 A temporada de 2020 começou empolgante para o futebol do Rio Grande do Sul. Grêmio e Internacional disputariam juntos a Libertadores da América e, muito provavelmente, se enfrentariam pela fase de grupos da principal competição do continente, o que enquanto escrevo esse texto aconteceu uma única vez, no último jogo de todos os tempos[1]. Mais uma vez a dúvida que aparecia era sobre quem seria o campeão gaúcho: Internacional ou Grêmio. Neste século, apenas uma vez o campeão não foi Grêmio ou Internacional. No século passado, desde 1940, apenas em 3 oportunidades um dos dois grandes de Porto Alegre não se sagrou campeão.

Para além da previsibilidade e de uma eventual deficiência técnica, o campeonato gaúcho de 2020, tal qual o mundo todo, enfrentou a pandemia da Covid-19. O campeonato que iniciou ainda durante o mês de janeiro, com derrota do Grêmio frente ao Caxias, ficou interrompido de 15 de março até 22 de julho. Quando de sua interrupção, o Rio Grande do Sul apresentava 6[2] casos registrados da doença. Na data de seu retorno, 3.233 casos novos somavam-se chegando ao total de 53.073. Somente no dia em que Internacional e Grêmio se enfrentaram na cidade de Caxias do Sul, Porto Alegre não permitia a realização de partidas de futebol, 53 pessoas faleceram no Estado em função da pandemia.

Por melhores que fossem as condições de prevenção e de cuidados de saúde dos clubes, e nessa lógica parece que todos os clubes possuiriam as mesmas condições técnicas e financeiras para dar conta dos protocolos, não faz muito sentido que você proponha a paralisação de um campeonato no início da pandemia no Estado para retomá-lo com sua curva ascendente.

Imagem enviada pelo autor

A continuação do campeonato foi apenas a explicitação de um longo processo que acompanha o futebol brasileiro ao menos desde o final da década de 1980. O futebol de espetáculo, e não somente no Brasil, assume, definitivamente, que pode prescindir do público nos estádios. Alguns mecanismos como totens de torcedores, vídeos, faixas e áudios se propõem a criar um “clima” de jogo de futebol. Não consigo precisar se esse “clima” é criado para os jogadores ou para a televisão (estaria mais inclinado a apostar nessa segunda hipótese). Para mim, torcedor de estádio, o campeonato acabou no dia 15 de março quando o Grêmio enfrentou o São Luiz, da cidade de Ijuí, na Arena do Grêmio com os portões fechados. Ao ser, corretamente, proibido de frequentar o estádio, o jogo de futebol perdeu, para mim, torcedor de estádio, sua parte mais importante: a socialização torcedora.

Em 1993 fui a minha primeira “final” de Gauchão. A fase decisiva daquele campeonato foi realizada em formato hexagonal. Após conquistar o título no interior do Estado, o Grêmio enfrentaria o Internacional para a entrega das faixas. Foi, também, meu primeiro Grenal. Desde lá, excluído 2020, o Grêmio esteve em mais 14 finais do Campeonato Gaúcho. A única em que não estive no jogo de ida ou de volta, sempre como mandante, foi em 2010 quando minha lua de mel coincidiu com a data da decisão no antigo estádio Olímpico. Ganhei oito e perdi cinco, mas sempre estive. Quando da volta do futebol (sem eu poder ir ao estádio, seria futebol?) já sabia que em caso de uma eventual classificação à final, não poderia estar presente.

Fomos então para a final do turno (nosso campeonato tem imitado a forma do Campeonato Carioca nos últimos anos) enfrentar nosso maior rival. Em 5 de agosto (precisei adiantar o jantar de comemoração de aniversário da minha esposa) realizamos o quarto Grenal da temporada. Foi nossa terceira vitória (certamente a com maior diferença técnica). Mantivemos nossa invencibilidade de dois anos contra o rival. Neste ano só não ganhamos o clássico com o apoio de nossa torcida. Será que demos azar ao Grêmio? (Se sim, azar do Grêmio. Eu é que não deixarei de ir aos jogos – quando isso for sanitariamente possível).

Mais três semanas de intervalo, dessa vez por culpa das primeiras rodadas do campeonato brasileiro, e voltamos ao estádio Centenário, palco do Grenal da retomada. Na verdade, eles voltaram. Com torcida estamos juntos, sem torcida são eles: o time, os jogadores… Ganhamos por 2 a 0. O segundo gol, um golaço (ou uma bucha conforme a emissora mecenas do campeonato) marcado por um jogador que fazia sua estreia no campeonato. Sim, tivemos estreia na final do campeonato (e não foi a única). No domingo seguinte, atrasamos nosso percurso no campeonato brasileiro (provavelmente apenas adiamos mais um empate) e recebemos (eles receberam, mas não consigo me pensar de fora do clube) o Caxias, o mesmo que nos derrotou em janeiro (e, também, na final do primeiro turno), para terminarmos, finalmente, nosso Covidão 2020. Iniciamos aumentando nossa vantagem com gol de Diego Souza. Sim, Diego Souza. Grande artilheiro do campeonato aos trinta e cinco anos com nove gols, praticamente o dobro dos segundos colocados que marcaram cinco. O que parecia ser uma jornada futebolisticamente tranquila virou mais um daqueles jogos horrorosos do Grêmio que conseguiu sofrer a virada e viu seu goleiro salvar nos minutos finais e garantir o tricampeonato. Curiosamente, nosso goleiro Vanderlei e nosso centroavante Diego Souza já eram nascidos na última vez que conquistamos o tricampeonato.

Para não perdermos totalmente a sociabilidade torcedora, meu irmão Gabriel, meu amigo Felipe e eu conversamos um pouco antes de cada partida para mantermos um pouco de nossos encontros associados as partidas. “Empolgadíssimo” com a conquista, meu irmão resolver nos ligar após o jogo para “comemorarmos”. Nossa cara de desolação com a atuação do time, mas também com tudo o que foi esse campeonato nessas condições e nossa ausência do estádio seria um ótimo resumo do que é presenciar uma história que nunca deveria ter acontecido. Como temos alguma responsabilidade por nossas saúdes mentais nesse período tão difícil, obviamente não tiramos um print da tela. Se meu texto não foi o suficientemente explícito para dizer o quão o campeonato não deveria ter sido retomado, e não divulgaremos nossas imagens para vocês, sugiro que assistam ao segundo tempo de Grêmio e Caxias. Se vocês conseguirem assistir essa partida como se fossem torcedores do Grêmio será bastante fácil entender o que é pensar em jogar futebol nesse Brasil 2020 em que a pandemia da Covid-19 consegue a façanha de não ser o maior problema nacional.


[1] Ver O último jogo de todos os tempos. Disponível em: https://www.ludopedio.com.br/arquibancada/o-ultimo-jogo-de-todos-os-tempos/

[2] Disponível em https://www.ufrgs.br/sig/mapas/covid19-rs/

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O direito à memória

Estamos sem futebol ao vivo. Sem esportes ao vivo. Temos o campeonato alemão, mas não temos nossos times/clubes jogando. O narrador Everaldo Marques saiu dos canais ESPN para o Sportv e em sua chegada anunciou a alegria de poder narrar os diversos esportes na nova emissora. Hoje, em função da pandemia, ele está narrando jogos de videogame entre jogadores de futebol… A discussão nesse texto não é se o e-sport é ou não é esporte ou o que se deveria transmitir agora (eu pensei que as emissoras poderiam transmitir o campeonato do “e se…”, os torcedores poderiam escolher um lance e mudar sua história… – tenho outras sugestões como o Brasileirão de meia-hora, mas estou perdendo o foco). Nas próximas linhas quero tentar pensar no direito à memória nos esportes em geral e no futebol em específico.

Nesse momento em que o futebol ao vivo não inclui nossos times/clubes ou mesmo a seleção, temos visto uma escolha por jogos específicos que autorizam algumas memórias e não outras. Sabemos que a memória não é algo qualquer:

(…) a memória, que implica reconhecer informações como sendo informações sobre o passado, precisa ser assumida como processo ativo de construção que se faz no presente e para atender a interesses do presente. Não se copia, nem se resgata, nem se descobre, nem se desvenda o passado, mas se constrói o passado. Assim, nossa relação com o passado é sempre de ruptura, é sempre lacunar, pois construímos determinadas memórias, inventamos determinadas tradições, lembramos de determinados episódios e de determinados heróis, e não de outros. É para o presente e no presente que se constrói a memória (SEFFNER, 2002, p. 370).

A memória não apenas é produzida por e para o tempo presente, ela também ensina sobre o tempo presente. Um dos ensinamentos facilmente verificáveis é a dimensão que a televisão, especialmente a aberta, ainda ocupa. É verdade que boa parte dos jogos transmitidos na televisão aberta e fechada estão disponíveis na internet, mas as audiências da televisão aberta na transmissão de jogos em que a Seleção Brasileira de futebol masculino conquistou títulos não é um dado insignificante.

Fonte: goal

Outro aprendizado importante é sobre os jogos que importam. Quase sempre os jogos que importam são aqueles que vencemos e, especialmente, em competições relevantes. Na televisão aberta, somente as vitórias. Na fechada apenas as grandes competições. Lembro de um golaço de Elivélton pela seleção em 1991 em amistoso contra a, hoje inexistente, Tchecoeslováquia. Esse jogo poderia ser reprisado? Aquele chocolate que demos na Argentina na Copa do Mundo de 1990, mas perdemos por 1 a 0 estaria na lista das possíveis exibições? Brasil e Paraguai pelas Eliminatórias para a Copa de 2002 faz algum sentido? México 1 a 0 no Brasil pela Copa Ouro, em 2003 (Thiago Mota jogando na Seleção Brasileira) poderia aparecer na televisão ou terá que ser relegado a minha memória individual por ter sido o único jogo da Seleção Brasileira que assisti fora de casa?

No cenário clubístico temos algo semelhante. Na televisão aberta alguns regionalismos aparecem, assim como alguns clubes nacionais. Parece existir times com direito à cidade, vide o exemplo dos paranaenses, times de estado, nós gaúchos estamos aqui e times nacionais, especialmente de Rio e São Paulo. Existem clubes grandes sem direito a transmissão no seu bairro… Alguém me dirá que isso é calculado pela audiência ou pelo número de torcedores. Eu sei, é verdade. Mas eu também sei que o “gosto” se constrói. Sabemos que o Flamengo campeão da Libertadores é mais brasileiro do que o Internacional campeão da mesma Libertadores. O imperativo da vitória também aparece. Está certo, meu time já perdeu algumas reprises no canal fechado, mas não eram os jogos que importavam para o meu time, mas os jogos que importavam para o adversário e que, por acidente, estivemos ali para preencher a narrativa.

A escolha dos jogos mostra algumas escolhas do que vem acontecendo desde muito, talvez especialmente a partir da virada do século ou se quisermos voltar um pouco mais podemos pensar na criação do Clube dos 13, que marcam não apenas os jogos, mas quais os clubes têm direito a memória. Na Copa do Brasil de 2004, XV de Novembro, de Campo Bom – interior do Rio Grande do Sul, e Santo André – do ABC Paulista, fizeram um grande enfrentamento com muitas viradas. Os gaúchos, então comandados pelo novato Mano Menezes venceram no Pacaembú por 4 a 3 e conseguiram ser eliminados pelos paulistas no estádio Olímpico ao serem derrotados por 3 a 1. Não me parece que esses jogos estejam sendo pensados para serem reprisados, nem mesmo para Campo Bom ou para Santo André.

Com um pouco de surpresa, vi que o Sportv transmitiu Grêmio 2 X 1 Sport pela Copa João Havelange, no ano 2000. Achei uma escolha um tanto curiosa, um enfrentamento de uma fase ainda não tão decisiva de uma competição em que o Grêmio não foi campeão. Voltei a programação e vi que aquele jogo era um da série de jogos especiais em função de Ronaldinho Gaúcho, que marcou dois gols naquela partida. Pelo Campeonato Brasileiro de 1999, o Grêmio venceu o Flamengo no Maracanã por 4 a 3 com 3 gols do atacante Zé Alcino. Apesar do feito, Zé Alcino não parece merecer a mesma reprise que Ronaldinho.

Em minha tese de doutorado ao conversar com os torcedores do Grêmio sobre o trânsito entre o estádio Olímpico e a Arena do Grêmio notei esse mesmo exercício na construção das memórias:

Conversando com torcedores sobre o estádio Olímpico, notei que as lembranças, as minhas e as deles, sempre tratavam das grandes vitórias, dos primeiros jogos e dos títulos. Boa parte das narrativas dos sujeitos sobre uma memória do estádio Olímpico era eleita em uma partida específica dos quase sessenta anos de atividades do estádio. Eu poderia ter lembrado do Gre-Nal em que perdemos por 2 a 5, da derrota no Campeonato Gaúcho de 2011, dentre outras. A história de um estádio de futebol se faz disso: de vitórias e de derrotas, de grandes jogos e de jogos ‘meia-boca’. Mas a seleção do que nós, gremistas, escolhemos quando vamos rememorar o estádio Olímpico, está quase sempre associada aos afetos de grandes jogos e vitórias (BANDEIRA, 2017, p. 17).

Na memória dos torcedores de estádio, geralmente ainda existe lugar para esse jogo de estreia. Lembro com carinho de dois jogos contra o Sport Recife no Olímpico, em 1994, estreia do meu irmão e 2012, estreia do meu afilhado. Não me parecem jogos elegíveis dessa memória coletiva.

Eu assisti 681 jogos do Grêmio no estádio. E minhas memórias não cabem apenas nas conquistas, nas grandes vitórias ou nos grandes jogadores. Assisti a 49 gloriosos empates sem gols. Vi grandes vitórias, empates e derrotas, mas também vi vitórias, empates e derrotas desimportantes que não deram mais do que o caminho de volta do estádio para casa para serem digeridos. Nosso espetacular futebol de espetáculo não é tão espetacular assim na maioria dos eventos, mas esses eventos também nos constituem torcedores. Eu sei que existem torcedores que preferem poder reclamar de uma atuação ruim do que gozar com uma grande goleada a favor.

Fonte: globoesporte

Qual o espaço para a criação do torcedor que perde nessa escolha de memórias? Todos os anos, quinze clubes perdem o campeonato brasileiro e apenas um vence (os quatro que caem é outro assunto), mas nossa formação nesse momento sem futebol parece seguir olhando apenas para os que vencem. Nossos times/clubes do futebol nos dão muito mais e muito menos do que os títulos. Sinto falta de ver os times médios do Grêmio ou aqueles que não ganharam campeonato, mas fizeram duas boas partidas no ano. São de todos esses jogos que somos feitos, quando os apagamos de nossas memórias acabamos diminuindo nossa possibilidade de nos constituirmos torcedores com os mais diferentes gostos e choros também.

Referências

BANDEIRA, Gustavo Andrada. Do Olímpico à Arena: elitização, racismo e heterossexismo no currículo de masculinidade dos torcedores de estádio. 2017. 342 f. Tese (Doutorado em Educação) – Programa de Pós-Graduação em Educação, Faculdade de Educação, UFRGS, Porto Alegre, 2017.

SEFFNER, Fernando. Explorando caminhos no ensino de história local e regional. In: RECZIEGEL, Ana Luiza Setti; FÉLIX, Loiva Otero (Orgs.). RS: 200 anos definindo espaços na história nacional. Passo Fundo: UPF, 2002, p. 367-382.

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O “GreNal das Américas” e outros grenais históricos, heróicos e dramáticos

No dia 12 de março, quinze dias depois de confirmado o primeiro caso de coronavírus no Brasil, eu assistia o GreNal 424 num bar tomado por colorados em Florianópolis, o que hoje configuraria um bando de suicidas literalmente morrendo pelo seu time. Embora muitos gaúchos gostem de acreditar que Porto Alegre é a melhor cidade do mundo, a costa do Rio Grande não é assim tão atrativa. Então, eles esticam o passo até Santa Catarina e fazem morada nas belas praias da ilha. Eu também não sou daqui nem sou gaúcha, mas simpatizo com o Inter e não dispenso uma cerveja gelada, por isso estava no bar naquela noite.

Em menos de dez minutos de partida, já tinha jogador trocando farpa dentro de campo porque o juiz argentino Fernando Rapallini paralisou o lance e mesmo assim insistiram na jogada. Como já era de se esperar, os comentaristas de boteco (e os da transmissão – que, importante ressaltar, estava sob os direitos do Facebook) iniciaram suas análises, pouco táticas e bastante infladas, que remetiam claramente àquele típico imaginário do gaúcho como um produto das guerras: “Partiu pra cima dele!”, “Já começou a pegar fogo”, “GreNal é GreNal”, “Aqui é na raça”. Alguém mais generalista dizia: “Libertadores é isso!”, aludindo ao clima dramático de tango argentino que normalmente envolve o campeonato sul-americano.

O dramatismo portenho, vale lembrar, respinga nas páginas dos cadernos esportivos do Rio Grande do Sul não só pela relativa proximidade geográfica do estado com a Argentina (que tem os dois maiores campeões do torneio), mas também porque, conforme denota o estereótipo, o gaúcho adora exagerar. E o que são oito expulsões em um jogo de futebol senão um exagero? O simples fato de enumerar um GreNal também me soa um tanto hiperbólico, pois eu desconheço outro clássico que seja demarcado por um número, pelo menos aqui no Brasil.

Fonte: gauchazh

A pancadaria generalizada e o excesso de cartões vermelhos do GreNal 424 – que já no sorteio dos grupos caiu nas graças da imprensa como o “GreNal das Américas” – só não foi páreo para o que ocorreu em 1971, num confronto entre Boca Juniors x Sporting Cristal, que resultou em 19 expulsões ordenadas pelo árbitro colombiano Alejandro Otero, número recorde na história da Libertadores. No histórico dos amistosos, por sua vez, Grêmio e Inter muito provavelmente ocupam o primeiro lugar do pódio: foram 20 expulsões no GreNal 189, jogo comemorativo pela inauguração do Beira-Rio. O estádio já havia sido inaugurado oficialmente, no dia 6 de abril de 1969, em jogos da dupla contra outros adversários. O batismo, porém, só se confirmaria com um GreNal, como manda o culto à tradição.

O enredo deste clássico está destrinchado no livro a “História dos Grenais” (2009), escrito pelos jornalistas David Coimbra, Nico Noronha, Mário Marcos de Souza e Carlos André Moreira, todos ícones da imprensa gaúcha e, portanto, acostumados com essa ideia de trazer elementos teatrais para o jornalismo – a despeito das implicações deontológicas que isso possa levantar. O confronto que batizou o Beira-Rio estava tomado por um ar de revanche. Afinal, à época da inauguração do Olímpico em 1954, os colorados venceram os gremistas, carimbando a faixa de abertura da casa tricolor. Os autores contam que o fascículo nº 4 da História Ilustrada do Grêmio dedicou minúsculas três linhas para descrever aquele GreNal de número 135, sem sequer registrar o placar de 6 x 2 para o Inter.

Por isso, no amistoso de 1969, a intenção dos tricolores era dar o troco na mesma moeda, vencendo o Internacional em seu novo domínio. “Os gremistas esperavam por essa partida como um presidiário anseia pelo indulto de Natal. Queriam vingança por uma humilhação de 15 anos de idade.” (COIMBRA et al., 2009, p. 140). Se o placar de 6 x 2 do primeiro GreNal do Olímpico foi humilhante para o Grêmio, o clássico de inauguração do Beira-Rio seria vergonhoso para ambos: um 0 x 0 acompanhado de 20 expulsões e múltiplos socos, voadoras e pontapés. Restaram imunes somente o meia colorado Dorinho e o goleiro tricolor Alberto. Este tentava em vão pedir paz ao uruguaio Urruzmendi, que entrara em campo aos 37 minutos da etapa complementar, ainda em tempo de ser o pivô da barbárie:

O Inter começou melhor. Pontes e Valmir, atrás, controlavam bem as investidas impetuosas de Alcindo e Volmir. No meio, Bráulio tocava a bola com maciez e fazia a torcida colorada suspirar numa voz só. O Grêmio reagiu com dureza. O Inter replicou jogando ainda mais duro. A tréplica do Grêmio veio no bico da chuteira. Até que o ponteiro Hélio Pires foi expulso aos sete minutos do segundo tempo. Chuteira contra canela, cotovelo contra nariz, o jogo prosseguiu sem que se desse muita atenção à bola. Objeto, aliás, definitivamente esquecido aos 83 minutos. O goleiro Alberto estava com a dita cuja nas mãos. O lateral Espinosa à sua frente. Urruzmendi, ponteiro do Inter, correu do risco da grande área em direção aos dois, numa evidente e perigosa rota de colisão. Espinosa deu-lhe as costas para proteger o goleiro. Urruzmendi não quis nem saber. Atropelou Espinosa como se fosse um ônibus da Carris desgovernado. Espinosa caiu. Assustado com o abalroamento, Alberto atirou a bola pela linha lateral para que ele fosse atendido. A bola não foi mais vista em campo desde então. Tupãozinho desembestou do meio de campo e só parou quando atingiu Urruzmendi. Que revidou. Lá do meio também vinha, desabalado, o Bugre Xucro, bufando e urrando, louco para entrar na briga, justificando plenamente o apelido. Percebendo suas intenções belicosas, Sadi correu atrás dele, agredindo-o pelo caminho. Alcindo não ligou para o ataque do lateral do Inter. Continuou a carreira e só parou ao encontrar Urruzmendi e pespegar-lhe um rotundo soco no rosto. Urruzmendi não se fez de rogado e retribuiu a agressão. Apesar de lutar como um espartano, estava em desvantagem numérica e apanhava comoventemente dos gremistas. A sétima cavalaria, entretanto, não tardou. O goleiro Gainete atravessou o gramado em linha reta, veloz, demonstrando invejável preparo físico, e saltou feito um leopardo sobre o bolo de jogadores, as pernas e os braços abertos. Mas errou o bote e caiu no meio dos gremistas. Levou porrada de todos, democraticamente. A esta altura, os integrantes dos dois bancos de reservas já estavam em campo, distribuindo e recebendo, igualmente, jabs, diretos e pés-na-orelha. (COIMBRA et al., 2009, p. 141-142).

Quando a confusão terminou, o Inter ainda aguardava o reinício do jogo sem saber que 10 de seus jogadores haviam sido expulsos. Na saída de campo, Gainete, o goleiro colorado, respondia convicto às perguntas dos repórteres: “aqui nós é que vamos cantar de galo!” (COIMBRA et al., 2009, p. 142). A diferença entre o GreNal “amistoso” de 1969 e o que ocorreu 51 anos depois – além do número de cartões vermelhos que caiu de 20 para 8 – é o fato de este ter sido um clássico válido pela Libertadores, algo até então inédito na história dos dois rivais centenários. Pelo Campeonato Brasileiro, contudo, Grêmio e Inter já haviam se enfrentado, valendo vaga na final de 1988 e também um passaporte para a Libertadores do ano seguinte. Seria o GreNal 297 ou, nos termos do jornalismo esportivo gaúcho, o GreNal do Século.

Fonte: inter-noticia

Na edição de 1988, a disputa das fases finais do Brasileiro se estendeu pelo ano seguinte. Grêmio e Inter empataram em 0 a 0 no jogo de ida, no Olímpico, e a decisão seria três dias depois, no Beira-Rio. O Grêmio saiu na frente e tinha um jogador a mais em campo, pois Casemiro havia sido expulso (naquela que, pasmem, foi a única expulsão da partida). O técnico Abel Braga – que anos depois seria campeão da Libertadores e do Mundial pelo Inter – decidiu ousar, contrariando a mística da “escola gaúcha de futebol” e mandando o time para o ataque. Deu certo. Mais de 80 mil pessoas assistiram à virada dos colorados com dois gols de Nílson Esídio, uma figura também muito afeita à dramaturgia.

Nílson vibrou de forma estranha, caminhando desengonçado, trêmulo. Mais tarde explicaria que estava imitando Sassá Mutema, o personagem que Lima Duarte interpretava na novela do momento, “Salvador da Pátria”, na Globo. Explicou também que a faixa em seu joelho direito era apenas uma forma de enganar os rudes zagueiros adversários. – O problema que eu tinha era no tornozelo esquerdo e eles deram porrada na minha perna direita a tarde inteira. (COIMBRA et al., 2009, p. 214).

O Inter ganhou o “Grenal do Século”, no entanto, perdeu o título brasileiro para o Bahia e, naquele mesmo ano, ainda veria o Grêmio levar sua primeira Copa do Brasil, sobre o Sport Club do Recife. Na semifinal da Libertadores, nova baixa: o Internacional jogava pelo empate, mas foi eliminado em casa pelo Olímpia do Paraguai. “Nílson ‘Sassá Mutema’ Esídio desperdiçou um pênalti e teve de deixar o Beira-Rio na madrugada, às escondidas, como um criminoso, pois os mesmos colorados que o haviam carregado nos ombros, agora queriam surrá-lo.” (COIMBRA et al., 2009, p. 215-216).

O GreNal das Américas ocorrido em março de 2020 reforça aquilo que sabemos: que a história dos GreNais é uma incansável disputa para um desbancar o outro – ainda que um não viva sem o outro. Incansável porque vem se repetindo ao longo das décadas numa retórica bem freudiana, em que o irmão mais novo tenta a todo custo superar o mais velho. E, quando assim o faz, o mais velho fica tomado pelo mesmo sentimento de vingança. O GreNal 235, por exemplo, serviu para o Grêmio se vingar da hegemonia dos colorados que, ao longo da década de 1970, somavam oito Campeonatos Estaduais e três Brasileiros no currículo. Com Figueroa, Falcão, Carpegiani e companhia, era um time praticamente imbatível. “O Inter alcançara o topo. E, do topo, o próximo caminho só podia ser lomba abaixo, como se veria em 1977.” (COIMBRA et al., 2009, p. 184).

Em 1977, inclusive, a casa do Grêmio já não era como em 1954. No início da década de 1970, enquanto os vermelhos passavam por cima dos azuis no gramado, nas arquibancadas bradava o grito tricolor com a notícia da ampliação de seu estádio – que agora ganharia o sobrenome Monumental. Tudo isso para fazer páreo ao prodígio Beira-Rio, que roubara do Olímpico a faixa de maior estádio particular do mundo. Se a nova casa do Inter contou com 100 mil torcedores em seu jogo de estreia, estava decidido: seria essa a capacidade do novo Olímpico. Curioso que, em 1954, quando o Grêmio mudou-se do Moinhos de Vento para a Azenha, o domínio dentro de campo também era colorado, sob a remanescente figura do “rolinho” compressor. Com o estádio erguido, a hegemonia mudou de lado. Quinze anos depois, esse enredo se repetiria: o Inter dominando 70 com o octa do Estadual e o tri do Brasileiro e o Grêmio confabulando um novo Olímpico que ficaria pronto no início dos anos 1980. O Monumental inauguraria consigo uma outra década azul para abrigar os títulos mais importantes da história tricolor: Brasileiro, Libertadores e Mundial.

A arrancada começou justamente na final do Gauchão de 1977, ocasião em que o Olímpico recebeu a ilustre visita do músico Gilberto Gil que, embora torcesse para o tricolor baiano, dizia simpatizar-se também com o tricolor gaúcho, pois, nas palavras dele, o Grêmio tem o azul do céu, o branco da paz e o preto, que é a sua cor. Gil era amigo do atacante gremista André Catimba, que foi o personagem principal daquele episódio. Após marcar o gol do título, Catimba, apesar da ginga de capoeirista, se atrapalhou para comemorar o tento e acabou caindo de cara no chão: “eu fiquei tão emocionado naquela tarde que não sabia como expressar. Pensei em dar o salto mortal, desisti, mas já estava no ar quando voltei atrás. Era tarde. Me machuquei todo.” (COIMBRA et al., 2009, p. 186).

Fonte: gauchazh

Tamanha empolgação era por ter freado uma conquista épica do adversário, pois, caso o Inter levantasse aquele caneco, emendaria uma série de nove títulos estaduais, feito que até hoje nenhum dos dois conseguiu alcançar. No vestiário, Catimba ainda receberia os cumprimentos do velho amigo de Salvador. “Gil falou alto, em meio à algazarra: ‘Já estava na hora, não é? Tomara que agora o Grêmio ganhe por dez anos consecutivos’.” (COIMBRA et al., 2009, p. 186). Outro músico que também destaca aquela conquista de 1977 é o gremista Humberto Gessinger, ex-líder dos Engenheiros do Hawaii. Convicto e superlativo, ele ressalta em seu livro de crônicas:

Futebol é uma bobagem, né? […] Um dos grenais de que me lembro com mais carinho foi o de 1977. Ganhamos por 1 a 0, quebrando uma série de 123 anos correndo atrás. Meu pai estava internado num hospital perto do Estádio Olímpico. No fim do jogo, assisti, pela janela do quarto, à caravana das bandeiras tricolores. Carros e torcedores silenciosos por respeito. Sensação boa de pertencimento. Consolo de não estar sozinho. A vida seria uma bobagem sem essas bobagens. (GESSINGER, 2009, p. 101).

Relendo esse trecho de Gessinger, me volto para o cenário de hoje em que o melhor remédio é tirar o time de campo. O primeiro GreNal das Américas foi disputado na nova Arena do Grêmio e terminou empatado em 0 x 0. O jogo de volta, que a princípio aconteceria em 8 de abril no Estádio Beira-Rio, está suspenso por tempo indeterminado. Das declarações da imprensa sobre aquele pré-jogo, uma em especial chamou minha atenção: “O gaúcho tem mais medo de perder GreNal do que de contrair coronavírus”, proferida por David Coimbra, o mesmo jornalista que assinou a “História dos Grenais”. Exageros à parte, a decisão da CBF de suspender os campeonatos devido à pandemia veio no domingo logo depois daquela quinta-feira em que eu acompanhava a partida do bar. Quando começou a confusão aos 41 minutos do segundo tempo, fui embora pra casa, pois no esporte nos interessa a rivalidade, não a pancadaria. Mas, se eu soubesse que agora a bola não vai rolar tão cedo, talvez tivesse ficado mais um pouco.

 

Referências

  • COIMBRA, David; NORONHA, Nico; SOUZA, Mário Marcos de; MOREIRA, Carlos André. A História dos Grenais. Porto Alegre: L&PM, 2009.
  • GESSINGER, Humberto. Pra ser sincero: 123 variações sobre um mesmo tema. Caxias do Sul: Belas-Letras. 2009.
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Renato e os recalcados da imprensa esportiva

Arlei Damo (2006) entende que o futebol de espetáculo se divide em quatro categorias de agentes: os profissionais, os torcedores, os dirigentes e os mediadores especializados. Os profissionais seriam os jogadores, treinadores e preparadores envolvidos com os jogos. Os torcedores se constituem no público com variados graus de interesse e envolvimento durante as partidas. Os… Continuar lendo Renato e os recalcados da imprensa esportiva

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Eu sou o 8!

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A vez do preto?

Quando Mario Filho escreveu o capítulo “A vez do preto” – para finalizar a segunda edição do livro “O Negro no Futebol Brasileiro” – ele acreditava estar resolvida a questão do preconceito racial no esporte. Empolgado com as conquistas das Copas de 1958 e 1962, o autor, por excesso de esperança ou leviandade (debate no… Continuar lendo A vez do preto?

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Uma análise comparativa entre dois momentos do jornalismo esportivo

Versão adaptada do meu trabalho final no Curso de Extensão Jornalismo Esportivo: Teoria e Prática, coordenado por Ronaldo Helal e Marcelo Barreto. O fazer jornalístico não é estático. Nenhuma novidade há nessa constatação, admito. Da mesma forma, o jornalismo esportivo é dinâmico e evoluiu ao longo dos anos. Inicialmente, apareceu tímido em alguns poucos jornais,… Continuar lendo Uma análise comparativa entre dois momentos do jornalismo esportivo

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Vida e futebol a caminho do aeroporto…

– O Bruninho vai ser jogador de futebol! A afirmação foi feita por um falante papai taxista. A certeza de que o destino do filho será nos gramados vai muito além da confiança no talento do pequeno Bruno. É a paixão pelo futebol, intensa e irracional, como todas as saudáveis paixões, que movimenta os sonhos… Continuar lendo Vida e futebol a caminho do aeroporto…

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