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História mínima do futebol argentino: Montagem 2020

Nemesia Hijós[1], Nicolás Cabrera[2] e Franco Reyna[3]

Todos os recortes históricos são arbitrários. Sempre, porém, há momentos mais propícios que outros para exercer o direito à injustiça histórica. Os aniversários ou as efemérides talvez sejam as datas mais comuns para propor montagens diacrônicas e sincrônicas. Dizemos montagens porque falamos de fazer acoplamentos e desacoplamentos – entre o que está escrito e o que é visual – para propor novos ensaios do aparentemente desconexo. Passaram-se 100 anos desde a década de 20 do século XX. Uma década que, para o futebol argentino, foi determinante em sua estruturação como espetáculo massivo, popular, mercantilizado e masculino.

Nós escolhemos três eixos que não tem uma origem ou um final marcado na década de 20, nem apresentam linhas similares no país todo, mas, se tentarmos reconstruir uma “história social do futebol argentino”, sem dúvida falamos de dimensões fundamentais de uma época inevitável. Uma década em que se acelera o processo de popularização do futebol e da sua transformação em espetáculo massivo; onde as mulheres são excluídas embora elas resistam com gestos de resistência; e onde a profissionalização do futebol começa a tomar forma na mão do amadorismo “marrom”.

Na continuação, apresentamos uma “superposição interativa” (Geertz, 2006: 53) de processos que hoje trazemos como modo de ensaio, como uma primeira tentativa, a fim de caminhar para trás, mirando no futuro. Um acoplamento de textos e imagens para discutir o futebol argentino que tínhamos, para assim poder imaginar o futebol argentino que desejamos.

O processo de popularização do futebol e sua transformação em um espetáculo de massa

O futebol foi introduzido na Argentina na segunda metade do século XIX pelos agentes do capitalismo industrial e mercantil britânico. Jogado inicialmente dentro de seus clubes e escolas públicas, logo se tornou um passatempo da elite local. Desde os últimos anos do século XIX, sua prática começou a interessar aos jovens dos setores médios e populares, em sua maioria estudantes, pequenos comerciantes, profissionais e trabalhadores urbanos, os quais progressivamente começaram a formar suas próprias instituições e competições para o desenvolvimento do jogo. Desde as zonas portuárias do país, o esporte se estendeu pelo resto da Argentina seguindo majoritariamente a expansão da rede ferroviária.

Os anos vinte implicaram na consolidação do futebol como um dos principais entretenimentos da população e consolidaram as bases para sua conformação como um espetáculo de massas. Nessa época, caracterizada por uma grande bonança econômica, crescimento demográfico e expansão urbana das principais cidades do país, a população dispunha de maior tempo livre e recursos para acessar cada vez mais massivamente ao consumo de atividades de ócio – entre as quais se destacava o futebol. Nesse sentido, desde então, o número de jogadores que começaram a participar das ligas oficiais locais e os diferentes circuitos independentes do “futebol amador” aumentaram substancialmente. Para citar um exemplo, se em 1920 eram aproximadamente 6 mil jogadores inscritos nos registros da liga oficial de Buenos Aires (Associação Amadora Argentina de Futebol – AAAF), em 1930 esse número superava os 25 mil.

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Foto 1. A seleção argentina recebendo o Barcelona FC no Estádio do Sportivo Barracas em 1928. Fonte: Arquivo Geral da Nação (AGN, Argentina), Dpto. Doc. Fotográficos. Consulta_INV: 329.102. Ano 1928

Esse fenômeno foi acompanhado por uma expansão associativa dos clubes, que começaram a incorporar novas atividades esportivas, sociais e recreativas para captar sócios e sócias. Ao mesmo tempo, houve uma maior padronização, institucionalização e sistematização das estruturas e dos aparatos competitivos, o que levou a formação de novos mercados de consumo desportivo. Por exemplo, nesses anos se generalizaram os intercâmbios esportivos contra equipes e seleções do continente e da Europa. Nesse contexto, o hábito de assistir aos jogos se espalhou, o que levou a um aumento significativo das arrecadações. No caso de Buenos Aires, as partidas mais importantes da época chegaram a ter 50 mil pessoas. A fim de abrigar a assistência massiva, os clubes tiveram de melhorar sua infraestrutura, o que levou à construção dos primeiros estádios de cimento do país. A imprensa acompanhou e imprimiu novos alcances a esse processo ao ampliar e renovar sua capacidade de cobertura e difusão das práticas esportivas. Desta maneira, o futebol se converteu em um produto cultural de massas que afetou o repertório identitário da população e contribuiu com a modernização da sociedade.

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Foto2. 55 mil pessoas presenciam o clássico entre San Lorenzo e Boca Juniors no Estádio de Avenida La Plata. Fonte: El Gráfico, 8 de setembro de 1929.

A profissionalização (ilegal) dos jogadores homens

Por mais que a profissionalização do futebol masculino tenha se oficializado na década de 30 (Buenos Aires foi a pioneira em 1931), foi ao longo dos anos 1920 que a prática do “amadorismo marrom” se difundiu, isto é, uma espécie de profissionalismo ilegal que consistia na cobrança por parte dos jogadores de uma quantia monetária ou algum outro benefício material previamente acordado com os dirigentes esportivos, apesar de sua proibição regulamentar (Reyna, 2015). A retribuição podia ser um pagamento periódico ou por partida, um prêmio posterior a cada encontro, uma comissão para viagens, roupas ou a comida diária. Outra forma de remuneração era colocar algum jogador em uma instituição pública. Finalmente, a última artimanha comum da época era “contratar” os jogadores ou seus familiares como empregados de empresas privadas para justificar os pagamentos registrados. Muitas dessas empresas pertenciam a simpatizantes ou dirigentes dos clubes.

Mais de uma denúncia circulava nos arredores revelando que alguns jogadores de renome pediam aos dirigentes um grande subsídio financeiro como condição para seguir vestindo as cores do clube; caso contrário, iam para outros instituições que lhes ofereciam acordos melhores. O recurso ao profissionalismo ilegal entrava em jogo quando era necessário competir pela conquista desses serviços, fosse para manter um jogador nas fileiras do clube em que atuava ou para convencê-lo a partir para um novo. Este era um comportamento que foi combatido nas páginas dos jornais, que mantiveram uma campanha moralizadora contras os jogadores denominados “desonestos” e contra os clubes que os incentivavam.

No entanto, o surgimento do “marronismo” possibilitou que muitos jovens dos setores populares pudessem dedicar-se com maior exclusividade à prática esportiva de alto rendimento e associaram-na, pela primeira vez, a um meio de vida alternativo e à possibilidade de uma mobilidade social ascendente. Embora essa aspiração só tenha se materializado em poucos casos, dado que, em sua grande maioria, as somas em jogo eram pequenas, os jogadores que mais se destacavam emergiram nesta época como figuras de consumo cultural por conta de seus méritos desportivos.

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Foto 3. Diárias aos jogadores de futebol. Fonte: El Gráfico, 4 de dezembro de 1926.

A partir de 1926, a FIFA reconheceu oficialmente a existência do amadorismo marrom e vários países começaram a legalizar o profissionalismo. Na Argentina, esse fenômeno se entrelaçou poucos anos depois com a crescente insatisfação dos jogadores com os dirigentes pelas restrições contratuais a sua livre mobilidade e capacidade escolher onde queriam jogar. Nesse período, no princípio de abril de 1931 um grupo de jogadores que faziam parte da Associação Mutualista de Jogadores de Futebol – a primeira entidade no país criada por futebolistas para defender seus interesses corporativos – levaram uma petição à AAAF exigindo o passe livre, ou seja, a possibilidade de mudar de clube com a aprovação apenas da entidade que o desejava. Diante da falta de resposta dos diretores, os jogadores se declararam em greve, organizaram uma marcha e pediriam a mediação das autoridades governamentais, que viram na legalização da prática remunerada uma solução para o assunto.

Tal como comenta Julio Frydenberg (2011), ao final desse mês, a grande maioria dos 36 clubes pertencentes à AAAF se disseram a favor do profissionalismo. Os futebolistas tiveram a possibilidade de obter remunerações por suas atividades em troca de uma maior especialização e dedicação à prática. Essa nova disposição não conseguiu o aval da associação e 18 dos clubes mais poderosos de Buenos Aires constituíram sua própria federação, a Liga Argentina de Futebol (LAF). Os clubes excluídos da nova entidade se agruparam em torno da Associação Argentina de Futebol (AAF). A LAF conseguiu impor-se a pela hierarquia de seus clubes e firmou pactos de concordância com as federações das cidades de Rosario, Córdoba e Santa Fé para reger os destinos nacionais. A necessidade de evitar a migração dos jogadores mais talentosos dessas ligas às equipes profissionais “porteñas” abriu o caminho para a posterior profissionalização do futebol naqueles lugares, o que implicou em uma nova fase na transformação do espetáculo desportivo.

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Foto 4. Fernando Paternoster, craque do Racing Club de Avellaneda e da seleção argentina. Fonte: El Gráfico, 7 de setembro de 1929.

Invisibilidade, exclusão, disputas e resistência. O lugar das mulheres na história centenária do futebol

Ainda que a história nos mostre que espaços como o futebol tenham sido de e para homens, as mulheres sempre estiveram presentes (Cabrera e Hijós, 2020). Antes de serem encaradas como acompanhantes, torcedoras e fanáticas, as mulheres argentinas jogavam em clubes, inspiradas pela popularidade das “footballers” inglesas e francesas. Os primeiros registros revelam a existência de uma equipe feminina em 1922 em Buenos Aires, chamada Río de la Plata. Entretanto, quando que o futebol se tornou um esporte nacional e passou a ser parte da identidade argentina, trouxe uma única condição de gênero: um espaço quase exclusivamente jogado e contado por homens, onde se constroem e reforçam masculinidades hegemônicas (Archetti, 1994), do qual as mulheres foram isoladas e invisibilizadas.

Os meios de comunicação de massa são em grande parte responsáveis pelo lugar de privilégio concedido ao futebol masculino, com coberturas sexistas que enunciam esportes que estão em concordância com o gênero e que – até hoje – têm ignorado quase que por completo os jogos femininos. Assim, nas publicações da época foi se configurando o tênis, o atletismo, o golfe, a natação e – particularmente desde a década de 1920 – o vôlei e o basquete como esportes para as mulheres, além de outras práticas “adequadas” como a “pelota vasca” e o pushball, que hoje não tem protagonismo. Os argumentos biológicos promovidos pela perspectiva científica da época, as premissas vinculadas à saúde e a fisionomia das mulheres (“um corpo despreparado para este esforço muscular”) junto com as presunções de falta de atratividade como espetáculo (“não teriam a força que entusiasma o público)[4] eram os fatores determinantes para separar as mulheres do futebol, instaurando modos de ser legítimos.

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Foto 5. Argumentos pelos quais as mulheres não deveriam jogar futebol. Fonte: El Gráfico, 15 de janeiro de 1921.

As representações da época condenaram a participação feminina, associando a ação de jogo com o lesbianismo e à sexualidade descontrolada (“os choques tratavam os jogadores em um abraço lésbico inaceitável”)[5], levando razões supostamente objetivas (ligadas à ciência e à saúde) para tirar as mulheres e respaldar ideias de que esta era uma prática que não era para elas. Mesmo que na Argentina o futebol não tenha sido proibido legalmente para as mulheres[6], a eliminação se materializou em termos de representação[7]. Na imprensa escrita, as mulheres são relacionadas com imagens ligadas à vida familiar, ao cuidado e ao acompanhamento, referências que contribuíram na configuração de identidades femininas e que moldaram os corpos, nos quais os benefícios da atividade física se apresentavam associados ao cultivo da beleza e da boa saúde. Gradualmente, em revistas e jornais dos anos vinte, as mulheres começaram a ser representadas de modo passivo. A “mulher moderna” era caracterizada pela debilidade física, intelectual e moral, assim como de excesso de sentimentalismo, enquanto suas funções fundamentais eram a maternidade e o cuidado da família, que acreditavam ser constitutivas de sua essência (Barrancos, 2010).

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Foto 6. Encontro entre Feminina Sport Club de Paris e Dick Kerr de Preston da Inglaterra. Fonte: El Gráfico, 13 de junho de 1925.

A presença das mulheres nos campos de futebol e seu papel como torcedoras também se potencializou, sem deixar de ser um estigma de um ambiente de “machos”, que as invisibilizou e diluiu como ocorreu depois. As coberturas periódicas dos finais dos anos vinte destacavam sua paixão fervorosa, o conhecimento sobre jogadas e performances, sem omitir os trabalhos esperados que implica o ser mulher (como o bordado das bandeiras nos intervalos das partidas) e o aporte de “elegância” e “civilidade” que sua presença supunha. Esse estado de excepcionalidade e as concessões de permissão para as mulheres (torcedoras) se interrompia com o fim da partida dos homens. Como relata uma nota do El Gráfico de 1929 sobre o perfil da torcedora de futebol: “quando terminar a partida, recobrará seu sexo e adotará novamente seu passo curto, discreto”, retornando ao âmbito privado para novamente naturalizar a divisão de papéis na confirmação histórica de modelos femininos e masculinos.

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Foto 7. O perfil da torcedora de futebol argentina. Fonte: El Gráfico, 14 de dezembro de 1929;

Considerações Finais

O futebol argentino, nascido na segunda metade do século XIX com as marcas do elitismo, amadorismo e fair play, mostrava ao final dos anos vinte do século seguinte, um rosto popular, masculino, massivo e mercantilizado. Foi nessa década que confluíram uma série de fenômenos que marcaram o futuro do esporte até a atualidade. Não falamos de etapas sequencialmente estruturadas, mas sim de processos de sobreposição relacional. Tendências que sofrerão com as marchas e contramarchas nos períodos subsequentes, pois “a história” nunca está livre de rupturas, deslocamentos, pausas, intermitências ou recuos.

A título de encerramento, continuamos com algumas perguntas. Sabendo que não há temporalidades sem espacialidades, nos perguntamos: quanto desta “história mínima” traçada peca de “porteñocentrismo”? Que outros processos e tendências se desenvolveram em outras geografias do país? Também sabemos que o futebol sempre deve pensar-se relacionalmente com outros campos, então: que outras democratizações do lazer operaram durante aquela década para que a popularização e massificação do futebol pudesse ocorrer? Quanto a modernização urbana da época tem relação com a institucionalização e expansão do futebol?

Um tema vital que foi deixado de lado por questões de espaço foi o da violência nos estádios da época. Não é por acaso que nos primeiros anos do século XX, quando surgiram os primeiros grandes tumultos e mortos, a imprensa escrita começou a cunhar a noção de “barras” para coletivizar – sob uma forte vocação moralista – os “torcedores fanáticos” que protagonizam episódios “antidesportivos”, “incultos” ou “de vandalismo”. Então quanto tem a ver o pânico moral criado desde a imprensa com a popularização do futebol? Em outras palavras, o dito pânico moral não supõe um pânico de classe?

Também expusemos como a história do futebol na Argentina tem sido protagonizada e configurada por uma perspectiva masculina. Havia – e há – um desejo de neutralizar a presença feminina em um espaço “de e para homens”. Hoje, quase cem anos depois das primeiras referências de mulheres no futebol, como elas são representadas? Até que ponto nos afastamos destas representações que põem em circulação visões sexistas e reproduzem estereótipos? Quanto mudaram os papéis historicamente designados às mulheres no esporte? Quanto falta para alcançar um horizonte emancipatório e libertador em termos de gênero? Estão sendo construídas opções alternativas no futebol?

Por fim, pensando neste artigo, o que, do que foi dito da Argentina, pode ser comparado com o caso brasileiro? Parafraseando a grande fundadora dos cruzamentos entre ciências sociais e futebol, Simoni Lahud Guedes, o que une e o que separa no futebol Argentina e Brasil? Duas nações condenadas a um jogo de espelhos entre si.

Todas são perguntas inevitáveis que abrem um caminho a ser seguido pelas pesquisas sociais destinadas a compreender o desenvolvimento alcançado pelo esporte ao longo de sua história.

[1] Doutoranda em Ciências Sociais (FSOC, UBA, Argentina). Mestre em Antropologia Social (IDES-IDAES/UNSAM). Graduada em Ciências Antropológicas (FFyL, UBA). Bolsista de Doutorado do Conselho Nacional de Investigações Científicas e Técnicas (CONICET). Email: nemesiahijos@gmail.com

[2] Doutor em Antropologia (Universidade Nacional de Córdoba, Argentina). Bolsista de Pós-doutorado IDACOR-UNC-CONICET. Email: nico_cab@hotmail.com

[3] Doutor em História (Universidade Nacional de Córdoba, Argentina). Investigador Assistente CONICET. Email: franco2reyna@hotmail.com

[4] Uma das primeiras representações foi a nota do jogador inglês Andy Ducat no El Gráfico (15 de janeiro de 1921) no artigo “Por que a mulher não deve praticar o futebol?”, ele explica que, por natureza, “a mulher” é frágil demais para participar de um esporte tão “rude” e que, ao jogar este esporte de “machos”, corre risco de ganhar musculatura, transformando- se em um “marimacho”, deixando de “ser mulher”.

[5] Referência do poema de Bernardo Canal Feijoó, “Futebol de mulheres”, de sua coleção Penúltimo poema de fútbol de 1924.

[6] Por ser considerado perigoso para o sexo “mais frágil”, ao colocar em risco o sistema reprodutivo feminino, esteve proibido em países como Inglaterra (1921-1971), Brasil (1941-1979) y Alemanha (1955-1970).

[7] Durante os primeiros 50 anos da revista El Gráfico somente 10% das capas foram destinadas a mulheres e não mais que 6% a mulheres atletas.

Referências bibliográficas

Archetti, E. (1994). Masculinity and football: The formation of national identity in Argentina. En R. Giulianotti y J. Williams (Eds.), Game without Frontiers: Football, Identity and Modernity (pp. 225-243). Aldershot: Arena.

Barrancos, D. (2010). Mujeres en la sociedad argentina: una historia de cinco siglos.
Buenos Aires: Sudamericana.

Cabrera, N. e Hijós, N. (2020). Juegos de espejos: una historia mínima del fútbol femenino en Argentina y Brasil. En Hijós, N.; Moreira, V. y Soto-Lagos, R. (Eds.), Los días del Mundial: miradas críticas y globales sobre Francia 2019 (pp. 42-46). Ciudad Autónoma de Buenos Aires: CLACSO.

Frydenberg, J. (2011). Historia social del fútbol. Del amateurismo a la profesionalización. Buenos Aires: Siglo Veintiuno Editores.

Geertz, C. (2006). La interpretación de las culturas. Barcelona: Gedisa.

Reyna, F. (2015). “La difusión y apropiación del fútbol en el proceso de modernización en Córdoba (1900-1943). Actores, prácticas, representaciones e identidades sociales”, Tesis Doctoral en Historia. Córdoba: Universidad Nacional de Córdoba.

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Em busca da “viveza criolla”. Uma viagem de brasileiros “locos por fútbol”.

Eu tinha acabado de retornar de um Congresso em Buenos Aires, a CLACSO, onde tive a oportunidade de assistir dois jogos do futebol argentino, All Boys x Atlanta no Estádio Islas Malvinas e Argentino Juniors x Talleres de Córdoba no Estádio Diego Armando Maradona e relatei ,entusiasmado, essas experiências futebolísticas em um chopp natalino de final de ano com amigos da adolescência.

Obviamente conversamos muito sobre futebol e mais uma vez Pancinha idealizava uma viagem épica, vários amigos juntos em Buenos Aires para assistir partidas do futebol argentino celebrando a vida. Muitas vezes tínhamos falado sobre isso em diversos eventos, proposta inspirada em uma reportagem do jornalista PVC (Paulo Vinícius Cordeiro) lida pelo Pança faz muitos anos sobre os estádios argentinos, mas confesso que achei que mais uma vez a epopeia futebolística se desmancharia no ar ou na ressaca do dia seguinte.

Algumas semanas depois veio a convocação com uma mensagem de um novo grupo de whatt´s app, “Buenos Aires somos nozes”. Pancinha já tinha pesquisado a tabela, selecionado a “fecha” ainda no torneio em curso e comprado a sua passagem. Era o pontapé inicial para a formação da equipe. Como não gosto muito de grupos de zap, confirmei minha presença com o capitão e providenciei minha passagem quando apareceu uma promoção, mas fiquei acompanhando com certa distância digital as diversas discussões, pilhas, sugestões, stickers que diariamente eram colocadas no grupo.

Após dois meses de expectativa e milhares de mensagens até a chegada do esperado embarque em um voo matutino, cheguei na capital argentina junto com o amigo de infância Gugu, e encontramos na imensa fila da alfândega Russo, grande amigo dos tempos da faculdade e das peladas na Praia Vermelha e em campos cariocas e seu sobrinho Felipe, representantes gaúchos de Pelotas.

Fomos para a concentração em um hotel bem localizado, próximo do elegante e turístico bairro da Recoleta. Miga, vindo de São Paulo já estava na área desde o dia anterior e nos acompanhou na primeira resenha feita com ótima carne e um bom vinho em uma “Parrila” próxima do hotel.

O Capitão Pança chegou a noite. Três atletas: Dodô, Fred e Pagode tiveram o voo cancelado e quase desfalcam a equipe, mas com muita raça e insistência de pagodeiro que vive de tocar nos bares e passar o chapéu conseguiram vaga em outro avião e chegaram no dia seguinte.

A expectativa era grande e nesta primeira noite fomos jantar na Pizzaria El Cuartito, tradicional local de referência ao futebol. boxe e ao cinema, com muitas camisas, pôsters, flâmulas onde se respira a paixão argentina por esses três fenômenos culturais de massa.

FOTO PIZZARIA EL CUARTITO
Fonte: turismo.buenosaires.gob.ar

O dia seguinte começou com grande expectativa. Gugu acordou cedo e foi a “cancha” do Vélez onde se informou que os ingressos seriam vendidos apenas no dia do jogo, mas que era tranquilo de conseguir. Foi também na loja do Racing “Locádemia” garantir os ingressos que faltavam para a partida mais esperada no mitológico Estádio El Cilindro em Avellaneda. O outrora zagueiro/zagueiro partiu para o ataque e marcou um belo gol para a equipe.

O almoço em um pequeno restaurante tradicional pelas suas empanadas próximo ao famoso Hotel Alvear teve como garçons um lento sósia do Messi e outro que agitado debatia sobre futebol com turistas brasileiros de diferentes mesas. Entre “empanadas”, bifes de chorizo, milanesas, papas e Quilmes estávamos resolvendo se iríamos a uma partida em La Plata do Gimnasia. Cerca de uma estimativa de duas horas de “trancón” até o estádio e uma “suadeira” do capitão nos desanimaram a assistir o primeiro jogo da rodada.

No final da tarde de sexta toda a equipe estava reunida e a primeira confraternização geral foi em uma pizzaria próxima ao hotel as 20:30, com direito a muito vinho e fatias de diversos sabores, inclusive de alho. (Felipe, Barrinho, Pancinha, Gugu e Pagode. Russo, Dodô, Júlio, Fred, Fritsch e Zito). Técnico Miga. Tenho orgulho dessa equipe e também estava junto na jornada com muito entusiasmo, cerveja, vinho e até gim que me derruba.

O dia seguinte seria intenso e apesar de muitas “saideiras” em bares próximos na Recoleta a maior parte retornou cedo para descansar pois uma van passaria “temprano” para nos buscar para o primeiro jogo da histórica jornada de sábado no Estádio José Malfitani do tricolor Velez.

Às 9 da manhã todos estavam no saguão do hotel esperando nossa condução para um estádio clássico que foi utilizado no mundial de 1978 e localiza-se em uma zona de classe média afastada do centro chamada Liniers.

No caminho minha cabeça parecia uma banda de “cumbia”, a ressaca me consumia, decididamente queimei a largada, mas, estava feliz de acompanhar a equipe.  Enquanto a maioria se divertia e cada nova “ruta” merecia um alegre comentário, observava uma curiosa simbiose de pessoas muito diferentes em vários aspectos, que fazem parte da minha vida de alguma forma, e que neste momento estavam unidas em torno uma mesma paixão, o Futebol.

A chegada na porta de “El Fortin” foi apoteótica. Conseguir os ingressos na bilheteria com relativa facilidade ainda mais emocionante, passar nas roletas do tradicional estádio, uma sublime emoção.

A maior parte dos integrantes da equipe já esteve em grandes “arenas”, em modernos estádios nas últimas Copas do Mundo, ou capitais europeias, mas o olhar apaixonado parecia revelar um ‘fato social”  desde a infância. Tanto quanto, a Educação, o idioma pátrio, uma religião familiar ou o próprio heterônomo Direito, a paixão pelo futebol no nosso país parece uma verdade absoluta imposta através de uma memória coletiva e de uma “tradição inventada” e alegremente recepcionada em todas as classes sociais inclusive nas mais altas , a qual esse seleto grupo pertence.

Lembro das muitas bandeiras tricolores do Velez, do calor sufocante no estádio e embaixo delas mais bandeiras, de gritos da “hinchada”, dos abraços entre os integrantes da equipe principalmente no intervalo, de um copo de Pepsi quente mesmo sem beber refrigerantes fazia tempo com Hot-dog frio, de montanhas no horizonte e de uma breve discussão no final da partida com “hermanos”. Sobre o jogo contra o Atlético Tucuman, pouco, um habilidoso meia que acho que fez um dos gols da vitória e muita correria e virilidade.

Reunimo-nos eufóricos na frente do “El Fortin”. Óbvias fotos turísticas, abraços verdadeiros, sorrisos infantis após uma partida que não nos dizia nada, mas, simbolizava tudo. Um sonho realizado pode ser maior que múltiplas realidades. O capitão Pancinha parecia um Monarca Javanês ao juntar a equipe rumo ao seu destino mais importante.

Avellaneda, subúrbio da capital portenha, unitarista Buenos Aires,  inglesa/criolla, belíssima cidade dos Morenos, Rivadavias, Purreydóns, tantos unitaristas que prezavam a cultura europeia, o iluminismo e as alianças com a cultura do colonizador talvez não esperassem que o futebol, fruto posterior da dominação inglesa seria resignificado neste continente pelo pueblo “criollo”.

Pero, antes uma pausa para boa Parrilla. O almoço foi em ótimo restaurante. Entre bifes de “chorizo”, papas, “sonrisas”, entrecotes, cervezas y vinos, Ronaldo ou Cristiano Ronaldo? Não me lembro mais os argumentos, mas sei que não foi batalha colonizado x colonizador, ainda bem. Nesse tema futebolístico, felizmente a questão ainda é relativa aos sentidos. Entender pelo sentimento o que é belo, justo, ou apaixonante depende dos sentidos como já dizia o filósofo Kant. Quem é melhor: Ronaldo, Cristiano Ronaldo, Messi, Zico, Maradona, Pelé, Garrincha. Leônidas, Di Stéfano depende do sentir, do viver e das emoções e não da razão. Ou seja, ninguém estava errado, muito menos certo.

Almoçar um churrasco clássico me fez bem.  O trajeto para o mitológico estádio “El Cilindro” do Racing Club também. A maior parte da equipe estava calada apreciando o visual e fazendo a digestão. Cruzar a bela capital, passar próximo do turístico bairro de San Telmo, e avançar  por pontes e vias secundárias  que dão acesso ao tradicional subúrbio, berço de dois dos maiores campeões argentinos, Independiente e Racing está registrado para sempre na minha nebulosa memória.

Uma rivalidade histórica: Vermelhos x Azuis me remete sem obviamente ter nada a ver a tradicional simbologia desde Juan Manuel Rosas, Federalistas x Unitaristas.  A rivalidade também é muito grande. Aconselharam-nos evitar “remeras” rojas, muitos do grupo adoraram, mas o fato é que a proximidade da “Garganta del Diablo” para “El Cilindro” é incrivelmente impressionante. Eu já conhecia o Estádio do Independiente e tinha sentido esta sensação incrédula de ver dois grandes estádios de equipes rivais do mesmo bairro posicionados a menos de 500 metros. Avellaneda respira futebol, rivalidade e alteridade.

A chegada no Estádio com os devidos passaportes e identidades foi revigorante. Mesmo com as misturas etílicas do dia anterior, a intensidade de assistir uma partida que começou as 11 horas da manhã com sol radiante e uma bela carne argentina na barriga, o sentimento de estar adentrando no mitológico “El Cilindro” lotado é inefável. Novamente parecíamos adolescentes, com muitos sorrisos, abraços e olhos arregalados

FOTO EL CILINDRO
Fonte: Acervo pessoal do autor.

O Racing era o líder do campeonato argentino e disputava com o surpreendente Defensia y Justicia o título após muitos anos na fila. A partida era contra o modesto Belgrano de Córdoba. A expectativa era muito grande, famílias, “barras bravas”, turistas como nós conviviam harmonicamente em uma turba pacífica que esperava assistir uma vitória do Racing independentemente de qualquer espetáculo.

Não conseguimos assistir juntos, os ingressos eram em locais distintos da imponente arquibancada. Me recordo de uma arquitetura rústica com imensos degraus e poucas saídas. O azul e branco majestoso é dominante tanto no concreto, quanto nas camisas. Os cânticos ininterruptos e ensurdecedores, uma energia contagiante. O gol da partida e da esperada vitória veio logo no início da partida pelo veterano Lisandro Lopes e a explosão no estádio foi realmente apoteótica. Eu estava sozinho, na confusão da entrada que ocorreu próximo ao início do jogo curiosamente me perdi de todos meus companheiros de viagem, mas abracei e fui abraçado por muitos “hinchas”. Uma verdadeira catarse no “Cilindro” com um minuto de jogo. O domínio do Racing continuou intenso na primeira etapa, inclusive com bolas na trave, mas meus olhos ficaram vidrados em uma das mais belas cenas que já vi dentre os muitos estádios que conheci.

Na parte de baixo do estádio que recorda a antiga geral do Maracanã, muitas crianças brincavam, jogando com bolas e latas em uma estrutura plana a beira do gramado.  Um grande cachorro preto que participava da brincadeira também chamava a atenção. O jogo rolava, o Racing se aproximava de um esperado título, mas a cena que me marcou e também muitos dos amigos que estiveram presentes nesse espetáculo popular/futebolístico foi a inocente “pelada” dos pequenos “hinchas”.

No intervalo encontrei Pagode na imensa fila do banheiro e consegui assistir com alguns dos meus companheiros que estavam na mesma arquibancada, mas no último degrau. A segunda etapa foi tensa, O Racing recuou, o Belgrano surpreendentemente melhorou bastante e destarte a mitologia atribuída aos “hinchas” argentinos de nunca pararem de gritar, pelo menos na parte que nos cabia naquele latifúndio do futebol raiz, um silêncio avassalador perdurou durante boa parte do segundo tempo.

O Racing conseguiu manter o resultado e a saída do estádio foi muito empolgante. Os cânticos voltaram, os torcedores se abraçavam, o título estava praticamente definido.

Voltei para o ponto de encontro com mais alguns companheiros e fiquei à  contemplar o belo movimento que é a saída de uma torcida vitoriosa de um estádio. Isso me parece que é uma espécie de código universal. A energia e alegria de qualquer comunidade imaginada de torcedores ao sair após importante vitória da sua equipe é sempre um momento mágico.

Em plena Avellaneda ocorreu um desencontro. Alguns membros da equipe saíram por outra saída e não conseguiam chegar ao ponto estabelecido. A própria van estava sem referência. Caminhamos pelos arrabaldes e acabamos esperando tanto os demais companheiros, quanto o motorista da van em frente a um “Quiosco” entreaberto.

Foi um interessante momento de confraternização. “Hablamos”, bebemos e interagimos com moradores locais que  independentemente da opção clubística acharam muito bacana nossa experiência. Quando todos chegaram e o motorista com a van, tudo estava pago, só nos restou dizer “Gracias”.

No retorno ao hotel uma mistura de cansaço com satisfação. Foi uma jornada incrível. Um sábado inesquecível com múltiplas emoções que ainda não tinham acabado. Do saguão as 23:30, vagamos pela Recoleta buscando alimentação. A vida noturna era intensa, mas precisávamos de comida. Lugares cheios, turísticos, paramos em um restaurante que eu conhecia e tinha sido bem agradável em outra ocasião. Porém dessa vez o “hambúrguer do soninho” não agradou a maioria. Eu comi um bom sanduíche de jamón serrano e apreciei novamente o local, mas a dica não foi bem avaliada pela maioria.

É difícil viajar em grupo. Já trabalhei como guia de turismo, inclusive em uma Copa do Mundo na França, mas não gosto de viagens estilo CVC e felizmente não foi o caso. Achei que teríamos muitos outros problemas em função da diversidade do grupo em muitos sentidos. Entretanto o que predominou foi a harmonia e uma interação anímica em função do futebol e da verdadeira amizade entre muitos dos participantes. Foi um sábado futebolístico inesquecível.

Domingo despertou a equipe aos poucos. O sentimento de plenitude estava entre todos, mas faltava um objetivo para alguns dos integrantes. River x Independiente no Monumental de Nuñez era uma importante partida da rodada no palco da final do mundial na Argentina. Ninguém tinha ingresso e muitos retornavam no mesmo dia. Liderados pelo capitão Pança acreditamos que como ambas as equipes não tinham mais chances de título, seria tranquilo conseguir ingressos mesmo que fosse com cambistas.

A maior parte do grupo foi almoçar no bairro de Palermo. Alguns conseguiram reserva na tradicional churrascaria Dom Julio. Eu acabei almoçando junto com Pança, Russo, Barrinho e Felipe no restaurante em frente que tinha muitas camisas, flâmulas e fotografias, etc. Chegou a me recordar o clássico restaurante “São Cristóvão’ em São Paulo,na rua Aspicuelta, mas com acervo de cultura material futebolística muito menor; Também comemos bem. Não deve ter sido o êxtase gastronômico compartilhado por alguns, mas era um bom ambiente para nossas expectativas, pois nós queríamos apenas comer bem e partir para as imediações do Monumental.

Zito juntou-se a nós 5 e fomos em dois táxis até o residencial bairro de Nuñez, próximo do Rio da Prata. Paramos e caminhamos uns 15 minutos até a proximidade do estádio. Como já imaginávamos não tinham ingressos nas bilheterias. Não pagamos ingressos superfaturados nos sites especializados e decidimos nos arriscar nesta jornada. Um torcedor “gallina” local falou que os cambistas se concentravam em uma praça próxima, mas observou que era arriscado.

Apesar da advertência prosseguimos e chegamos na referida praça. Rapidamente fomos identificados como turistas e devidamente abordados. A negociação foi confusa, mas rápida. A troca do dinheiro pelos ingressos também. A aposta estava feita entre garantias, risadas e até o telefone para contato na próxima Copa América em visita a praia de Copacabana. A “viveza” criolla nos foi apresentada não nos gramados do Monumental, mas do lado de fora.

No caminho para as bilheterias nos deparamos com algumas barreiras e constatamos que o ingresso do Pança seria em outra parte do estádio. A palavra “trucho” ecoou quando passamos da primeira fiscalização, mas fomos autorizados a prosseguir.

Após caminharmos uns 200 metros e chegando próximo ao estádio, a confirmação do papelão que fizemos. Ingressos “truchos”, falsos. Ainda tentamos argumentar que gostaríamos muito de assistir, se podíamos ficar com os ingressos “pero” melhor vazar.

Recordo pelo menos um minuto caminhando cabisbaixos em silêncio. Após um sábado épico de intensas emoções, fomos invadidos por um sentimento de estarmos sendo derrotados sem nem ao menos termos entrado em campo. O simples ingresso na “cancha” representaria mais uma conquista, mas retornávamos eternos metros olhando as expressões de torcedores felizes que iriam assistir ao clássico.

Zito pegou um táxi correndo para o hotel, pois ainda retornava no Domingo. Nós quatro ainda esperamos Pancinha cerca de uma meia hora em um café próximo a primeira barreira. Não passava o jogo em nenhum bar, não vendia bebida alcoólica e o gosto do café estava amargo assim como a frustração de não ter assistido uma partida no Monumental.

Lembrei do Centro de Memória da ESMA. Em que direção estava? Para os prisioneiros do “Processo” o sentimento de estar perto, mas bem distante obviamente era muito pior que os simples fato de ter sido enganado. Tentava lembrar com raiva da fisionomia dos cambistas, mas por qual razão? Demos mole. Trouxas! Aprendam com a derrota.

Decidimos partir para próximo do hotel e ainda encontramos outros integrantes da equipe no Pub “Locos por Fútbol” assistindo o jogo no qual deveríamos ter entrado. Pancinha já estava lá. Chegara na roleta, a última etapa mas a máquina identificou que era falso e após breve confusão teve que sair rapidamente também.  Ainda vimos parte do segundo tempo, quando o River atropelou e se não me engano venceu por 3×0 entre alguns pints de boa cerveja artesanal. Para os que ficaram o jantar foi uma boa pizza novamente no bairro de Palermo.

Como eu só voltava no final da tarde de segunda, ainda tive tempo para deixar uma cópia do meu livro sobre o Mundial da Argentina na Biblioteca Mariano Moreno. Fui muito bem recebido por uma funcionária que ,além de me agradecer pela doação, conversou bastante sobre suas distantes lembranças daquele junho de 1978. Fiquei feliz em retornar cinco anos depois em um local onde fui muito bem recebido, onde passei muitas horas por dia durante uma semana para fazer o levantamento do material para a minha tese. Fui preenchido por um sentimento de felicidade, nostalgia e etapa cumprida.

Uma histórica viagem estava chegando ao fim.  Assim como boas peladas que jogamos ao longo da nossa vida, vivemos intensamente vitórias e derrotas em um curto espaço de tempo. Conseguimos reunir 13 apaixonados por futebol e pela vida em uma jornada improvável. Gugu ainda partiu para a cancha do Huracán enquanto eu me dirigi para Ezeiza.

Este ano o destino seria o outro lado do Rio da Prata. Assistir o clássico Penarol e Nacional na quarta rodada do segundo turno, além de mais uma partida do campeonato uruguaio e viver novamente a paixão futebolística com foco na “garra charrua” já estava sendo planejado para o segundo semestre.

Infelizmente um vírus, a pandemia global, a necessidade de isolamento social, a suspensão dos eventos esportivos adiaram a realização da viagem, mas não afetaram a paixão, amizade, memória positiva e a esperança de reunirmos novamente em uma “trip” futebolística um incrível grupo de “locos por fútbol”.

Realizar sonhos improváveis é viver o melhor possível. Em um momento de confinamento e reflexão, estar escrevendo sobre o prazer e a benção de poder viajar nessas condições me faz respirar, e agradecer por estar vivo. Montevidéu qualquer dia estaremos aí!

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