Artigos

Direitos das atletas gestantes: o caso Allyson Felix e a relação com patrocinadores

A velocista norte-americana Allyson Felix é detentora de vinte e cinco medalhas entre Jogos Olímpicos e Campeonatos Mundiais de Atletismo, sendo dezoito delas de ouro – os dois últimos conquistados nas Olimpíadas do Rio em 2016. Competidora dos 100, 200 e 400 m raso, ela é a única atleta do mundo a somar seis medalhas de ouro no atletismo olímpico. Em sua maior especialidade, os 200 m rasos, Felix tem uma medalha de ouro olímpica e três como campeã mundial, sendo 21,69 segundos sua melhor marca nessa distância – sexto melhor tempo da prova na história, feito que inclusive a coloca como a quarta velocista mais rápida do mundo. Em 2018, Alysson Felix decidiu ser mãe. Sua filha Camryn nasceu em novembro, de um parto prematuro de 32 semanas. No mês de maio daquele ano, a atleta se juntou às denúncias de discriminação feitas por outras desportistas, o que culminou em um texto de grande repercussão publicado no The New York Times, no qual Felix relatava que a Nike, sua então patrocinadora, reduziu em cerca de 70% os valores de seu contrato de patrocínio após o nascimento de Camryn.

Durante a gravidez, a atleta ainda pediu garantias à patrocinadora de que não seria penalizada caso rendesse abaixo de seu nível nos meses anteriores e posteriores ao parto. A princípio, a resposta da empresa foi negativa. Porém, cerca de três meses após ser exposta no jornal, a Nike escreveu à atleta para anunciar que não rescindiria o contrato e nem reduziria os valores durante os dezoito meses de gestação e maternidade, sendo oito deles anteriores ao parto. Dez meses após o nascimento da filha, Alysson Felix integrou o revezamento 4×400 misto composto de duas mulheres e dois homens, no Mundial de Atletismo em Doha, de 2019. Na ocasião, a equipe de Felix ganhou a medalha de ouro e ainda estabeleceu o recorde mundial da prova. Essa foi a décima segunda medalha de ouro de Alysson Felix em mundiais de Atletismo, superando o recorde do jamaicano Usain Bolt, detentor de onze ouros na competição. O feito foi marcante não só por se tratar de uma mulher batendo o recorde de um homem, mas, sobretudo, porque contradiz o argumento de empresas patrocinadoras que insinuam o suposto baixo rendimento de atletas que retornam da licença maternidade.

Legenda: Allyson Felix e a filha Camryn em 2019/Reprodução Instagram @af85

Sabemos que o mercado de trabalho para as mulheres, qualquer que seja a profissão, ainda é terreno fértil para práticas discriminatórias e relações abusivas pautadas pela hierarquia de gênero. Prova disso é que, mesmo ocupando posições correlatas às dos homens, as mulheres recebem salários inferiores em todas as ocupações, segundo pesquisa divulgada em 2019 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Essa mentalidade se deve ao machismo estrutural no qual o papel do homem é supervalorizado, o que no mundo do trabalho é ilustrado pela falsa acepção de que a mulher produziria menos e, portanto, contribuiria menos para uma lógica econômica de mercado. Para as que trabalham no meio esportivo, esse cenário tende a ser ainda mais duro, tanto é que o Brasil – justamente a nação que ostenta o imaginário de país do futebol, precisou esperar até setembro de 2020 para que a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) finalmente anunciasse a equiparação de valores de premiações e diárias entre a modalidade futebolística masculina e feminina.

Embora nos últimos anos os espaços midiáticos – em especial os alternativos, isto é, que não fazem parte da imprensa hegemônica – venham subvertendo essa lógica do machismo estrutural em diversas esferas da sociedade (que não só o esporte), é impossível não retomar as previsões da pesquisadora Miriam Adelman (2006) já no início do século, em relação ao papel da mídia na luta de gênero:

Como a filósofa feminista Susan Bordo (1994) nos adverte, estamos ainda longe de um momento “pós-gênero”, as práticas subversivas ainda não se afirmam como majoritárias, e a cultura pós-moderna, atrelada ainda aos discursos hegemônicos disseminados poderosamente nos meios de comunicação de massas, produz a cada momento novas formas de disciplinar os corpos e os sujeitos, segundo critérios dicotômicos e desiguais sobre o que pode/deve ser e fazer, uma mulher, ou um homem. (ADELMAN, 2006, p. 13).

Adelman (2006) ainda traz para o debate a escritora feminista Susan Brownmiller e sua definição de feminilidade como “estética da limitação”, sob a qual se resumem os impulsos dominantes de vários séculos de cultura moderna. Nessa ótica, entende-se por que o esporte é terreno de luta sobre o que pode ser ou fazer uma mulher, tendo em vista que as práticas esportivas – pelo menos nas modalidades mais competitivas – “desafiam os limites” das habilidades corporais. “Para as mulheres, torna-se uma disputa por acesso a espaços, legitimidade, e recursos materiais e simbólicos, que encena de forma muito sensível, a luta maior para ter controle sobre o próprio corpo, e sobre a vida.” (ADELMAN, 2006, pp. 13/14). Nessa luta, naturalmente, inclui-se o direito de decidir-se ou não pela maternidade.

Foi justamente por priorizar o esforço corporal exigido pelo atletismo, que a empresa de material esportivo Nike não hesitou ao reduzir em cerca de 70% os valores de patrocínio concedidos à velocista Allyson Felix após a atleta anunciar sua gravidez. Em um artigo publicado no jornal The New York Times no dia 22 maio de 2019, Felix se posicionou a respeito, acusando a patrocinadora Nike de discriminar atletas que tiram licença maternidade: “Se eu, uma das atletas mais comercializadas da Nike, não podia conseguir essas proteções, quem poderia?”. Ela não foi a primeira atleta a denunciar publicamente a marca por reduzir contratos de patrocínio de atletas logo depois de se tornarem mães:

Na semana passada, duas de minhas ex-companheiras de equipe da Nike, as corredoras olímpicas Alysia Montaño e Kara Goucher, heroicamente quebraram seus acordos de sigilo com a empresa para compartilhar seus relatos da gravidez em uma investigação do The New York Times. Elas contaram histórias que nós, atletas, sabemos que são verdadeiras, mas temos medo de contar publicamente: se tivermos filhos, corremos o risco de cortes nos salários de nossos patrocinadores durante a gravidez e depois. É um exemplo de uma indústria esportiva onde as regras ainda são feitas principalmente para e por homens (Allyson Felix – The New York Times).

Legenda: Alysia Montaño em 2014, competindo no Campeonato de Atletismo dos Estados Unidos em sua 34ª semana de gravidez/Reprodução Instagram @alysiamontano

Allyson Felix decidiu ser mãe em 2018, mesmo ciente do que isso poderia acarretar para a sua carreira. Nessa mesma época, ela estava negociando a renovação de seu contrato com a Nike, que havia terminado em dezembro de 2017. Embora seja uma das atletas mais vitoriosas já patrocinadas pela marca, Felix não apenas teve seu contrato de patrocínio significativamente reduzido pela Nike, mas, também, recebeu uma negativa quando solicitou à empresa que não a punisse caso rendesse abaixo do seu melhor desempenho nos meses anteriores ao parto.

Além disso, Felix alega em seu artigo que foi pressionada pela empresa para voltar à forma o mais rapidamente possível após o nascimento da filha em novembro de 2018, mesmo tendo passado por uma cesariana de emergência quando completou 32 semanas de gravidez e teve sua vida (e a da sua bebê) ameaçada por uma pré-eclâmpsia: “Apesar de todas as minhas vitórias, a Nike queria me pagar 70% menos do que antes. Se é isso que eles acham que valho agora, eu aceito. O que não estou disposta a aceitar é o status quo duradouro em torno da maternidade.”. Ainda no mesmo artigo, Felix afirma que um dos fatores decisivos para ela assinar com a empresa há quase dez anos foi, ironicamente, o que pensou ser um dos princípios fundamentais da empresa: a igualdade de gênero:

Eu poderia ter assinado em outro lugar por mais dinheiro. […] Mas quando me encontrei com a liderança da empresa em 2010, uma mulher me contou sobre uma iniciativa patrocinada pela Nike chamada Girl Effect, baseada na crença de que, quando as meninas têm oportunidades, elas são capazes de tirar seus países da pobreza. Ao ingressar na Nike, ela disse, eu poderia ajudar a empoderar mulheres. Ela me afirmou que a Nike acreditava em mulheres e meninas, e eu acreditei nela. Isso também explica por que minha experiência recente foi tão dolorosa (Allyson Felix – The New York Times).

A ironia da pseudo-política não-discriminatória da Nike também apareceu no relato da atleta Alysia Montaño para o mesmo jornal: “A Nike me disse para ter sonhos loucos, até que eu quis ter um bebê.”. A atleta se referia à uma campanha publicitária da empresa, “Dream Crazier”, lançada em fevereiro de 2019 na cerimônia do Oscar e narrada pela tenista norte-americana Serena Williams. Com tom de voz enérgico, Williams narra as discriminações diversas as quais atletas mulheres estão sujeitas apenas por tentarem acreditar em seus sonhos:

Se demonstramos emoção, somos chamadas de dramáticas. Se queremos jogar contra os homens, somos loucas. E se sonharmos com oportunidades iguais, estamos delirando. Quando lutamos pelo que é justo, somos desequilibradas. Quando estamos muito bem, há algo errado com a gente. E se ficamos com raiva, somos histéricas, irracionais ou simplesmente doidas. […] Se eles querem te chamar de ‘louca’, tudo bem, mas mostre a eles o que as loucas são capazes de fazer (Trecho do comercial Dream Crazier, da Nike, narrado por Serena Williams).

O problema do anúncio feminista da Nike é que ele incorre na contradição salientada pelas atletas no The New York Times: ao mesmo tempo em que a empresa lança uma série de campanhas ativistas denominada “Just Do It” (“Simplesmente faça”), ela também reduz o patrocínio de esportistas gestantes e pune quem tira licença-maternidade depois de apostar na “loucura” de ser mãe enquanto se está no auge da carreira. Diante dos relatos expostos no jornal nova-iorquino, a Nike respondeu que colocaria em andamento uma nova política de salários-padrão às atletas durante suas gestações. Cerca de três meses depois, formalizou seu compromisso em um e-mail assinado por John Slusher, vice-presidente de Marketing global da marca, e endereçado à Allyson Felix. No comunicado, a Nike afirmou que não mais rescindiria nem aplicaria reduções econômicas em contratos de atletas gestantes durante os dezoito meses de gravidez e maternidade.

Contudo, em julho de 2019 – cerca de um mês antes de receber o comunicado oficial da empresa e após voltar a competir pela primeira vez depois do parto – Felix encerrou as negociações com a Nike e assinou um contrato com a Athleta, uma marca de roupas esportivas que nunca havia patrocinado atletas – homens ou mulheres. Pode-se dizer que Allyson Felix também “formalizou” seu rendimento pós-parto ao conquistar, em outubro daquele mesmo ano, sua décima segunda medalha de ouro em mundiais. O feito foi no revezamento 4×400 metros com a equipe dos Estados Unidos no Mundial de Doha, no Qatar. Além de ter sido campeã do torneio, Felix ainda bateu o recorde do jamaicano Usain Bolt – registro que se mantinha desde 2013 quando o velocista conquistou seu décimo primeiro ouro.

Legenda da foto: Allyson Felix no Mundial de Doha em 2019/Getty Images

Essa vitória foi bastante simbólica para as atletas mulheres – e para o Esporte em geral – não apenas porque se trata de uma mulher batendo o recorde de um homem, mas, sobretudo, porque o feito se deu apenas 10 meses após Allyson Felix ter dado a luz à filha Camryn em meio ao imbróglio da queda de seu patrocínio com a Nike. Na ocasião em que recebeu o e-mail onde a empresa anunciava sua nova política contratual não-discriminatória, Felix publicou a resposta em sua conta pessoal no Instagram, demonstrando-se realizada com a decisão da Nike em dar proteção às atletas mulheres as quais patrocina, que já não serão penalizadas economicamente por decidirem ter filhos. Na postagem, Felix conclui: “Nossas vozes têm poder. […] Agradeço a John Slusher e Mark Parker por sua liderança e seu desejo de guiar a Nike como empresa que acha que somos mais do que atletas. Obrigada às marcas que já assumiram esse compromisso. Quem será o próximo?”.

No âmbito trabalhista, a ausência de profissionalização e, consequentemente, da garantia de direitos previdenciários como a licença-maternidade, faz com que as desportistas precisem pensar duas (ou centenas de vezes) antes de decidir ter um filho. Ao escolherem tê-lo, ainda correm o risco de estarem submetidas a cláusulas de redução de ganhos por perda de performance nos contratos de exclusividade com patrocinadores, a exemplo da norte-americana Allyson Felix. Não se sabe, por exemplo, de nenhum caso relevante em que um atleta homem teve o patrocínio diminuído em função da paternidade.

Quando Felix competiu no Mundial de Doha dez meses após ter dado luz à sua filha Camryn, sagrando-se campeã e ainda batendo o recorde do consagrado velocista jamaicano Usain Bolt, muitos jornais estamparam a vitória da atleta na primeira página de seus cadernos esportivos. Poucos, porém, contextualizaram o simbolismo que aquela conquista trazia em termos de representatividade, visibilidade, reconhecimento e, sobretudo, direito da mulher ao próprio corpo. Considerando o esporte como um “espaço de transgressão, empoderamento, e/ou disciplinamento patriarcal das mulheres” (ADELMAN, 2006, p. 11) e o papel social do jornalismo como um dos vetores da igualdade de gênero, convém finalizar este texto retomando um trecho de Allyson Felix na denúncia que fez ao The New York Times, a qual felizmente culminou em significativas alterações contratuais na política de patrocínio esportivo da Nike: “Sempre soube que me expressar poderia prejudicar minha carreira. Então tentei antecipar o que as pessoas esperam de minhas conquistas e não fazer isso. Eu não gosto de decepcionar as pessoas. Mas não se pode mudar nada ficando em silêncio.”.

*Uma versão mais completa deste texto integra o Simpósio Temático “Educação de corpos, gêneros e sexualidades nas práticas esportivas e de lazer: entre resistências e reificações” da edição 2020 do Seminário Internacional Fazendo Gênero. Além disso, a versão completa também foi apresentada à disciplina Debates Contemporâneos em Estudos Feministas e de Gênero, ministrada remotamente no segundo semestre de 2020, pelo Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas (PPGICH) da Universidade Federal de Santa Catarina, sob supervisão das professoras Miriam Pillar Grossi, Caroline Soares de Almeida, Claudia Lazcano, Marie Leal Lozano e Vera Gasparetto.

Referências bibliográficas

ADELMAN, Miriam. Mulheres no Esporte: Corporalidades e Subjetividades. Revista Movimento, Porto Alegre, v.12, n. 01, p. 11- 29, janeiro/abril de 2006.

Artigos

“Não é só esporte”

Essa expressão, muitas vezes vinculada ao futebol e que aqui generalizei, está vinculada ao fato de que o esporte não se limita ao território esportivo, ele o ultrapassa e se constitui em um dos elementos da construção da identidade nacional. É inegável que o esporte tem a capacidade de envolver multidões e despertar sentimentos. Contudo… Continuar lendo “Não é só esporte”

Avalie isto: