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Les Bleus contra Zemmour: a primeira “final” da França em 2022

O futuro da França está em jogo dentro e fora de campo no ano de 2022. Nos gramados da Copa do Mundo no Qatar, o país vai tentar o tricampeonato a partir de novembro. Uma nova conquista terá o poder de reforçar o legado construído desde 1998 pela seleção multiétnica, com o protagonismo de jogadores brancos, negros e de descendência árabe em um momento de crescente xenofobia e racismo entre os franceses. Fora das quatro linhas, porém, o adversário deseja acabar com tudo o que os “Les Bleus” representam: Éric Zemmour, candidato a presidente nas eleições deste domingo.

Após ter ficado fora das Copas de 1990 e 1994, a seleção masculina passou por uma transformação que se confunde com a da própria sociedade francesa. A partir de 1998, a renovada equipe, fruto da migração ao país nas décadas anteriores, disputou três finais de Copa do Mundo e venceu duas, em 1998 e 2018; foi a duas finais de Eurocopa e venceu uma, em 2000; e conquistou duas Copas das Confederações, em 2001 e 2003. O desempenho só se compara ao da seleção brasileira, a única que conquistou mais títulos no período.

Zidane, filho de argelinos, ergue a taça da Copa do Mundo ao lado de Lizarazu (à esquerda) e Desailly, ganês naturalizado francês (à direita): trio é símbolo da nova França do final dos anos 1990. Foto: AFP

No entanto, enquanto acontecia a ascensão meteórica do futebol francês, Zemmour também ganhava notoriedade, justamente fazendo oposição à seleção nacional. O principal livro do jornalista, escritor de extrema-direita e candidato a presidente, com mais de 250 mil cópias vendidas, analisa o primeiro título mundial da França no futebol por um viés racista e xenófobo.

Tom anti-imigração do jornalista, escritor e candidato à presidência da França Éric Zemmour é apelo aos nostálgicos de um país que não existe mais. Foto: Eric Gaillard/Reuters

Em “Le Suicide Français” (“O suicídio francês”, em português), Zemmour afirma que a celebração nacional da vitória por 3 a 0 sobre o Brasil foi um passo rumo ao suposto “declínio do país”, por “priorizar o feito dos jogadores negros, brancos e árabes, ao invés do azul, branco e vermelho da bandeira francesa”. Para Zemmour, a França só foi campeã devido à liderança do treinador Aimé Jacquet e do capitão e atual técnico da seleção Didier Deschamps, dois homens brancos, negando a contribuição de atletas negros e de descendência árabe que são referências no futebol até hoje, como o meia Zinedine Zidane, autor de dois dos três gols daquela final, o lateral-direito Lilian Thuram e o volante Patrick Vieira.

Após a publicação do livro, Zemmour virou presença recorrente em programas de debate em emissoras de rádio e TV, e colunista de jornais de direita na França, como o “Le Figaro”, o que serve de alerta para o jornalismo profissional não compactuar com a ascensão de quem pode justamente atacar a imprensa e a democracia, em troca de polêmica e audiência.

Zemmour no poder executaria o projeto de destruição da bandeira da igualdade racial, da tolerância, da integração e da representatividade da seleção francesa de futebol. No entanto, está difícil virar o jogo. Antes em segundo lugar, o candidato agora está apenas em quarto, com 10% das intenções de voto. No entanto, outra candidata alinhada ideologicamente a Zemmour, Marine Le Pen, com 21,5%, deve disputar em 24 de abril o segundo turno contra o atual presidente Emmanuel Macron, de centro e líder nas pesquisas com vantagem de somente 5 pontos percentuais. 

A França pode até ser tricampeã mundial no Qatar, em dezembro, confirmando o favoritismo. Mas, para sair vitoriosa em 2022 de fato, precisa, antes, vencer nas urnas.

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A Copa do Mundo e a polarização das eleições presidenciais

A camisa da seleção brasileira de futebol não é apenas um símbolo de um país, mas uma marca de um grupo político para algumas pessoas e isto fica mais evidenciado ainda em uma competição como a Copa do Mundo de futebol. A matéria “Camisa da seleção, o símbolo contaminado por rixas ideológicas e negociatas dos… Continuar lendo A Copa do Mundo e a polarização das eleições presidenciais

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Sobre Copa do Mundo, Pátria de Chuteiras e Eleições

A cada Copa do Mundo temos nos deparado com algumas questões relativas à relação entre futebol, identidade nacional e mídia. A primeira diz respeito ao envolvimento dos brasileiros durante o evento. A publicidade insiste na ideia de que ficamos todos de mãos dadas, irmanados em um só coração, como na canção célebre de 1970. Só… Continuar lendo Sobre Copa do Mundo, Pátria de Chuteiras e Eleições

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Eleições no Vasco: um treinamento político

As análises sociológicas sobre o futebol e o esporte de modo geral, nas décadas de 1970 e 1980, costumavam associá-lo a um opiáceo que desvirtua a população de suas verdadeiras preocupações, papel ocupado pela religião outrora. Esse viés crítico, apesar de continuar presente, perdeu muito de sua força nas décadas seguintes, cedendo lugar a abordagens… Continuar lendo Eleições no Vasco: um treinamento político

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Torcedores politizados

Na Copa do Mundo no México, em 1970, a ditadura militar procurou imprimir otimismo ao povo brasileiro. O hino ufanista escolhido pelos patrocinadores das transmissões dos jogos incentivava a união: “Todos juntos, vamos, pra frente Brasil / Salve a seleção!”. Daquela Copa, que acontecia somente dois anos depois da decretação do duríssimo ato institucional nº… Continuar lendo Torcedores politizados

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Politicamente (in)correto

“Foi Deus quem nos trouxe Romário”. Não foi ao certo essa frase – dita originalmente pelo técnico Carlos Alberto Parreira, após a classificação para a Copa de 1994 – mas algo muito próximo disso, que ouvi recentemente de um amigo, muito participativo das manifestações que tomam o Rio de Janeiro desde junho. Questionei, sem fazer… Continuar lendo Politicamente (in)correto

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