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Cheerleading: é muito mais que torcer, é um esporte de força e resistência

por Raffaella Napoli

Você já ouviu falar em cheerleading (em português, a tradução poderia ser “animação de torcida”)? Se esta é a primeira vez em que você lê o termo, saiba que iremos falar de um esporte que, na primeira impressão, mostra uma face, mas que é muito mais profundo e complexo do que podemos imaginar.

A animação de torcida é um esporte nativamente norte-americano – muito presente na cultura de filmes hollywoodianos –, mas que, aos poucos, vem conquistando espaço em território brasileiro e mundial. Ele consiste em um grupo de até vinte pessoas – segundo as regras do campeonato anual da Associação Nacional de Cheerleaders (NCA) –, as quais, além de torcer e incentivar times e plateias, executam acrobacias e movimentos de ginástica. Ela exige alto nível de força, resiliência e preparação física por parte dos atletas. As competições acirradas fazem com que eles precisem, também, de um bom preparo mental.

Por muito tempo, o esporte foi estereotipado e associado a mulheres brancas de classe alta. Parte desse preconceito se dá nos próprios filmes, nos quais as líderes de torcida são vistas como meninas mimadas e de alta renda, geralmente assumindo o papel de vilãs. Contudo, a realidade é bem diferente. O esporte é aberto e inclusivo, com pessoas de todos os gêneros, classes sociais e cor de pele nas equipes.

A série documental da Netflix, Cheer, mostra – sob a perspectiva da Universidade de Navarro, TX – o espaço de acolhimento com as minorias e pessoas de diferentes condições sociais, além de explicitar o dia a dia e a dura realidade que os atletas enfrentam com treinos, estudos, vidas sociais, problemas pessoais e o campeonato mais importante desse esporte. Também é debatido e denunciado temas como lesões, abusos, sexualidade, problemas com drogas e família.

A competição de maior relevância nos Estados Unidos desta modalidade é o “Campeonato Nacional de Cheerleading” que acontece todo ano em Daytona Beach, Flórida. Ele é produzido pela NCA e garante as melhores equipes do país, incluindo a divisão escolar e a universitária, sendo a última a mais competitiva e acirrada. São diversos subgrupos dentro das duas divisões. A subdivisão documentada na série da Netflix é a mais alta, depois do All-stars, intitulada como Advanced Large Coed Junior College Finals (a equipe universitária avançada com maior número de atletas juniores permitidos pelo regulamento).

Cheer nos mostra a divisão universitária, a qual possui dois dias de competição. É possível encontrar acrobacias de elevada dificuldade de execução. Podemos citar os stunts (acrobacia com uma base de duas ou três pessoas que levantam e fazem uma outra pessoa “voar”), tumblings (saltos de grau elevado com piruetas e outros movimentos no ar) e as dificílimas pirâmides (que as equipes executam em uma rotina de mais ou menos dois minutos e quinze segundos). São quase três minutos sem espaço para respirar, com pulos, gritos, giros, saltos e acrobacias que exigem que todos os músculos trabalhem. Quase três minutos para mostrar tudo o que se sabe e tudo o que se treinou durante todo o ano. Ao final da rotina, nos deparamos com respirações ofegantes que buscam desesperadamente um pouco de ar.

Esse esporte nos mostra como é difícil, exaustivo e exigente competir e que vai muito além da visão estereotipada, dos preconceitos criados pela sociedade. Ele mostra a resistência de pessoas apaixonadas, de diferentes classes sociais, etnias e gêneros. O cheerleading retratado pela série da Netflix é um esporte que abraça e aceita a todos, mostrando inclusão e diversidade. Ele quebra a ideologia do patriarcado, de uma sociedade machista e homofóbica. Ensina-nos verdadeiras lições de inclusão e quebra de estigmas, além de romper com a estrutura esportiva conhecida, de confederações, instituições e equipes constituídas majoritariamente por homens.

Que esta breve introdução possa quebrar os preconceitos instalados na sociedade e que abramos nossas mentes para esse esporte que tem muito a nos ensinar e incentivar. Cheerleading não é um esporte para fracos, não é um esporte “de menininha” – é o lugar para o atleta que quer disciplina e que quer levar seu corpo ao limite.

Referências

Associação Nacional de Cheerleaders (NCA)

Série Original Netflix Cheers


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O COI e a nova política de inclusão de atletas transgêneros

Por César R. Torres* y Francisco Javier López Frías**

Laurel Hubbard, a primeira atleta transgênero a competir nos Jogos Olímpicos

Em meados deste mês [novembro], o Comitê Olímpico Internacional (COI) anunciou uma nova política sobre justiça, inclusão e não discriminação em relação à identidade de gênero e as variantes sexuais no esporte. Substitui e atualiza suas antigas políticas a esse respeito, incluída na Declaração de Consenso de 2015. Vale recordar que ela estabelecia que as atletas transgêneros podiam participar de competições femininas somente se seus níveis de testosterona fossem menores que 10nmol/L durante, pelo menos, 12 meses antes de sua primeira competição na categoria feminina e requeria que esse mesmo nível se conservasse durante o período em que desejassem ser admitidas para competir na mesma. Para alcançar esses objetivos, as atletas transgêneros se viam obrigadas a receber tratamentos médicos para sustentar seus níveis de testosterona dentro da classificação exigida. Além disso, essas atletas deviam manter sua identidade de gênero por no mínimo quatro anos. Ao menos, a Declaração de Consenso de 2015 havia eliminado a exigência da política de 2003 que forçava as atletas transgêneros a submeter-se a intervenções cirúrgicas para mudar seu sexo, admitindo que a exigência era desnecessária para proteger a justiça competitiva.

A nova política reconhece que a credibilidade do esporte depende da igualdade de oportunidades e de que nenhuma competidora conte com uma vantagem injusta e desproporcional sobre os demais. De todo modo, a nova política estabelece que é ilegal excluir uma atleta da categoria feminina com base em uma suposta vantagem, percebida ou não verificada, relacionada a sua variante sexual, aparência física ou condição de pessoa transgênero. De agora em diante, as restrições de elegibilidade devem ser justificadas por meio de investigações avaliadas por pares levando em conta as características do esporte e as especificidades do grupo demográfico em questão. Ademais, a nova política determina que argumentar que os atletas transgênero contam com uma vantagem injusta e desproporcional compete às instituições esportivas encarregadas por determinar os critérios de elegibilidade para participar nas competições sob sua jurisdição.

O esforço do COI poderia ser interpretado como uma estratégia para evitar lidar com uma questão problemática e incômoda, delegando-a a outras instituições esportivas. Não obstante, a nova política não evita a questão. O COI enfatiza a importância da inclusão como valor primordial (de fato, “inclusão” é o primeiro dos dez princípios que introduz para orientar o trabalho das diferentes instituições esportivas) e estabelece que os critérios de elegibilidade sejam desenvolvidos, interpretados e implementados respeitando os direitos humanos sancionados internacionalmente, considerando os aspectos éticos, sociais, culturais e legais dos diferentes contextos esportivos, e em consulta com os atletas. A ênfase e a inclusão nos direitos humanos têm como objetivo prevenir os danos físico e psicológico, assim como promover a saúde e o bem-estar dos atletas, abarcando a proteção do direito à privacidade. 

Para muitas pessoas pode parecer supérfluo que o COI ponha tanta ênfase na proteção e promoção de valores como a inclusão e os direitos humanos, que são considerados essenciais na sociedade atual. Porém, há muitas boas razões para tal ênfase. Primeiro, há quem afirme que importar certos valores sociais para o esporte desvirtua sua natureza. Por exemplo, para esse grupo, a ênfase na inclusão põe em perigo o equilíbrio e a justiça competitiva e, portanto, o objetivo central da competição esportiva: determinar quem é melhor na resolução de um determinado desafio físico estabelecido e regulado por regras (por exemplo, correr uma determinada distância ou jogar uma bola em um arco). Segundo, as políticas anteriores geraram consequências devastadoras para muitas atletas transgênero e intersexo. Terceiro, dada a discriminação que as pessoas transgênero ainda sofrem cotidianamente, sublinhar a noção de que o esporte deve alinhar-se com o que se pode entender como dignidade humana é não apenas apropriado, mas imprescindível. Isso é ainda mais decisivo para uma instituição que, com base nos fundamentos olímpicos, sua filosofia fundadora, propõe, por meio do esporte, “criar um estilo de vida baseado na alegria do esforço, no valor educativo do bom exemplo, na responsabilidade social e no respeito por todos os princípios éticos fundamentais universais”.

Parece que a nova política é condizente à promoção de um esporte que executa os ideais do Olimpismo. Apesar disso, as diretrizes deixam muitas questões sem resolução. A já mencionada dificuldade de combinar a promoção e a inclusão com a proteção do equilíbrio e justiça competitiva, cabe adicionar outras questões. Primeiro, embora o COI estabeleça que as instituições esportivas devem demonstrar se uma atleta transgênero possui alguma vantagem injusta e desproporcional, ele não especifica o que significa contar com uma vantagem justa – ou injusta –, tampouco fornece critérios claros para definir a proporcionalidade de uma vantagem. Segundo, as diretrizes fornecidas em relação ao esclarecimento da vantagem que supostamente algumas atletas transgênero teriam são controversas. Por um lado, o COI sugere que pesquisas revisadas por pares devem ser usadas. Embora, não seja claro qual tipo de evidência deve ser considerada. Nesses conflitos, as instituições esportivas têm baseado seu julgamento exclusivamente em variáveis biofisiológicas, como a testosterona, menosprezando a evidência das ciências sociais e das humanidades. Por outro lado, o COI incorpora a urgência de todas as partes envolvidas, especialmente das atletas transgênero, na concepção dos critérios de elegibilidade. Ainda assim, as diretrizes não esclarecem como tais processos deliberativos devem ser conduzidos. 

Com sua nova política, o COI tenta desmantelar a postura reducionista e restritiva que sustenta que as atletas transgêneros têm com uma vantagem injusta e desproporcional inerente “apenas” por causa de sua condição de pessoa transgênero, um motivo que tem sido usado rotineiramente para discriminá-las. Resta saber se a boa intenção do COI resultará em diálogos, práticas e instituições mais inclusivas e justas para que todas as atletas se sintam e sejam bem-vindas; em um novo humus desportivo [solo desportivo] que honre a diversidade da comunidade humana.

*Doutor em filosofia e história do esporte. Docente na Universidade do Estado de Nova Iorque (Brockport).

** Doutor em filosofia. Docente na Universidade do Estado da Pensilvânia (University Park).

Texto originalmente publicado pelo site Página 12 no dia 5 de novembro de 2021.

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Raducanu: uma campeã entre a diversidade e a exceção

Reprodução/Redes sociais

Restringir a chegada de imigrantes ao Reino Unido esteve no cerne da campanha a favor do Brexit, vitoriosa em 2016. O controle migratório foi o principal argumento daqueles que queriam se divorciar da União Europeia e que flertavam, sem pudor, com a xenofobia. Portanto, quando uma tenista nascida no Canadá, filha de mãe chinesa, de pai romeno e naturalizada britânica vence um Grand Slam, acabando com um jejum de 44 anos, o discurso do “troco” já está pronto.

Foi o que aconteceu com Emma Raducanu, que chegou ao Reino Unido aos 2 anos de idade e conquistou, duas semanas atrás, o US Open, aos 18. Desde 1977, uma representante do Reino Unido não conseguia o feito. O prefeito de Londres, Sadiq Khan, não perdeu tempo. Filho de imigrantes paquistaneses, o político, provavelmente emocionado e relembrando sua própria história de vida, tuitou: “Aqui em Londres, abraçamos e celebramos nossa diversidade. E se você trabalhar duro e conseguir uma mão amiga, você pode conseguir qualquer coisa”. Quase um conto de fadas.

A pergunta, no entanto, é inevitável, por mais hipotética que seja: isso tudo aconteceria se Raducanu não fosse campeã, ou não fosse finalista?

Parece coerente supor que a repercussão seria menor. Logo, a valorização, o respeito e a aceitação do imigrante e do multiculturalismo representados por Raducanu estariam, nesse caso, mais atrelados ao sucesso do que ao que realmente importa: a diversidade em si, o ser humano. E “sucesso” como sinônimo de vencer. Nada menos do que isso.

Usar vitórias de imigrantes e de outros grupos sociais minorizados como exemplo de integração bem-sucedida pode invisibilizar questões que precisam ser debatidas.

A seleção brasileira masculina de futebol na Copa do Mundo de 1938 foi a primeira a dar protagonismo ao País nos gramados. Um time em que, pela primeira vez, negros e brancos atuaram juntos, algo visto corretamente, à época, como um avanço civilizatório. No entanto, as narrativas em torno da característica multiétnica daquela equipe acabaram por transmitir a falsa sensação da existência de igualdade racial no Brasil, o que infelizmente nunca foi alcançado até hoje. Desde então e por muito tempo, o racismo estrutural chegou a ser até negado por aqui.

O mesmo pode se dizer da seleção francesa masculina de futebol em 1998. O título mundial inédito sob o protagonismo de um descendente de argelinos parecia um ponto final nas desavenças entre brancos, negros e árabes ainda oriundas dos tempos da colonização francesa na África. Zidane, porém, não tem super poderes, e menos de dez anos depois, em 2005, uma série de protestos liderados por imigrantes e franceses descendentes de imigrantes nos subúrbios de Paris mostrou que não estava tudo bem.

É esta reflexão que deve ser feita quando Raducanu ou a seleção multiétnica francesa vencem: seus pares imigrantes e descendentes estão bem? Terão eles oportunidades para, de fato, fazerem o mesmo que Zidane e Raducanu? Ou a idolatria é apenas fruto de casos isolados e esporádicos? Refletir perante essas indagações é o primeiro passo para políticas e comportamentos que, de fato, promovam a inclusão.

Da mesma forma, até que ponto a própria tenista deseja “carregar” essa associação com a diversidade? É preciso estar atento ao que se coloca nos ombros dos atletas, ainda mais em início de carreira. Afinal, o foco deve ser na própria afirmação de Raducanu no tênis ou em qualquer causa que ela representa? Ídolos, como o heptacampeão de Fórmula 1 Lewis Hamilton, se sentem muito confortáveis em debater abertamente questões sociais, mas é importante lembrar que posicionamentos dessa natureza aconteceram de forma frequente somente após o piloto ter uma carreira sólida, em que não mais precisava provar nada a ninguém. Por outro lado, Simone Biles e sua experiência nos Jogos Olímpicos de Tóquio mostram o fardo de lidar com cobranças além da performance esportiva.

Esses são dilemas para os quais nem Raducanu tenha respostas ainda. No entanto, as redes sociais da tenista são um indício. Na “Bio”, a atleta apenas colocou as cidades que fazem parte da sua história: Londres (onde vive), Toronto (onde nasceu), Bucareste (origem do pai romeno) e Shenyang (lar da mãe chinesa). Nada de “tenista”; nada de “campeã de Grand Slam”. Talvez seja “apenas” isso que Raducanu espera: ser vista e respeitada como ser humano por onde passar pelo mundo, independentemente de ter títulos ou não nas quadras.

Produção audiovisual

Já está no ar o trigésimo nono episódio do Passes e Impasses

O tema do nosso trigésimo nono episódio é Diversidade LGBTQIA+ nos Jogos Olímpicos. Com apresentação de Eduardo Ribeiro e Filipe Mostaro, gravamos remotamente com Wagner Xavier de Camargo, pós-doutor em Antropologia Social pela Universidade Federal de São Carlos, e Leonardo Morjan Britto Peçanha, doutorando em Saúde Coletiva pelo Instituto Fernandes Figueira (IFF/FIOCRUZ).

Acesse o mais novo episódio do podcast Passes e Impasses no SpotifyDeezerApple PodcastsPocketCastsOvercastGoogle PodcastRadioPublic e Anchor.

O podcast Passes e Impasses é uma produção do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte em parceria com o Laboratório de Áudio da UERJ (Audiolab). O objetivo do podcast é trazer uma opinião reflexiva sobre o esporte em todos os episódios, com uma leitura aprofundada sobre diferentes assuntos em voga no cenário esportivo nacional e internacional. Para isso, contamos sempre com especialistas para debater conosco os tópicos de cada programa.

Você ama esporte e quer acessar um conteúdo exclusivo, feito por quem realmente pesquisa o esporte? Então não deixe de ouvir o trigésimo nono episódio do Passes & Impasses.

No quadro “Toca a Letra”, a música escolhida foi “Indestrutível” da cantora e drag queen brasileira Pabllo Vittar. A música é parte do álbum Vai Passar Mal, lançado 2017.

Passes e Impasses é o podcast que traz para você que nos acompanha o esporte como você nunca ouviu.

Ondas do LEME (recomendações de artigos, livros e outras produções):

Nova onda filme]

Tomboy [filme]

Trabalhos de Eric Seger de Camargo [autor brasileiro]

Pose [série]

Portal Ludopédio

Raça [filme]

Presença de pessoas trans nos Jogos Olímpicos: pertencimento e denúncia – Leonardo Peçanha [artigo]

@feminismoegronoesporte [perfil no Instagram]

Equipe

Coordenação Geral: Ronaldo Helal
Direção: Fausto Amaro e Filipe Mostaro
Roteiro e produção: Eduardo Ribeiro e Carol Fontenelle
Edição de áudio: Leonardo Pereira (Audiolab)
Apresentação: Filipe Mostaro e Eduardo Ribeiro
Convidados: Wagner Xavier de Camargo e Leonardo Morjan Britto Peçanha

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Pensar a luta no jogo do engajamento e da representatividade nas narrativas futebolísticas

Um apresentador de televisão em suas redes sociais constantemente reclama de que querem transformar o futebol em matéria de faculdade e se vangloria de fazer um “programa raiz”. Nosso glorioso Universo do Futebol (DAMATTA, 1982), não necessariamente o pioneiro, o Charles Miller dos estudos nas áreas de ciências humanas e futebol completará quarenta anos em 2022. Caro apresentador, não é porque você não estuda que as coisas não existem.

Essa lógica “raiz” e a desvinculação do futebol com os estudos ou o que se poderia entender como circuito mais amplo da cultura quase sempre se associa a um raciocínio conservador como resposta quando práticas naturalizadas são colocadas em questão. Dentro desta matriz de pensamento o comportamento adequado de jogadores, comunicadores, torcedores e clubes deveria repetir o que ocorria em nossa juventude, mesmo que tal comportamento seja muito mais uma construção de memória coletiva do que episódios comprovados historicamente.

Apesar da importância normativa que possui dentro do futebol de espetáculo, o discurso “raiz” convive com uma série de outras discursividades. Essas discursividades não convivem em harmonia ou em igualdade de condições, mas estão constantemente participando de lutas por significados. Essas lutas não são novas. A novidade, talvez, esteja no protagonismo que discursividades até então relegadas a espaços muito pontuais passaram a ocupar na cultura futebolística.

Em artigo publicado com a jornalista, e especialista em jornalismo esportivo, Caroline Patatt (PATATT; BANDEIRA, 2020), discutimos o engajamento dos clubes de futebol no Brasil a pautas sociais que variavam da paternidade responsável, racismo, homofobia até a demarcação de terras indígenas. Apenas durante o mês de maio corrente, em sua página no Facebook, o Grêmio compartilhou postagens sobre o dia mundial da criança desaparecida, dia mundial do combate à LGBTfobia, além de homenagens ao dia do gari e ao dia das mães.

Existem alguns grupos de torcedores e torcedoras progressistas (esse adjetivo foi escolhido por sua abrangência dada a diversidade de grupos que têm tentado desnaturalizar as práticas da cultura futebolística) que criticam os clubes de futebol por limitarem-se a posicionamentos nas redes sociais, muito mais na lógica publicitária ou das próprias redes do que efetivamente engajados com demandas sociais. A crítica me parece absolutamente justa e correta. Entretanto ainda é muito recente essa “permissividade” para abordar temas sociais que durante muito tempo foram marcados como não tendo relação com o futebol.

Em 2015 e 2016, durante a produção do material empírico de minha tese de doutorado (BANDEIRA, 2019), a partir de certo retorno da Coligay as memórias dos torcedores do Grêmio e a historiografia oficial do clube[1], questionei os torcedores sobre a possibilidade da experiência da torcida homossexual entre o final da década de 1970 e princípios da década de 1980 poderia autorizar uma descrição do clube como mais plural em relação as sexualidades não normativas. As respostas dos torcedores também pareciam estar nessa lógica entre diferentes legitimidades nas práticas dos estádios de futebol:

Poderia acontecer, mas eu acho que não teria aceitação pelo fato de que seria motivo de chacota dos outros”.

“O clube faz muito bem em resgatar isso aí para fazer uma nova imagem perante às outras torcidas, perante à imprensa, perante à opinião pública”.

Eu acho que não vai fazer porque vai sofrer muita crítica velada, lá dentro mesmo, os próprios conselheiros”.

“Não é uma coisa que um time de futebol, que um clube, deva se preocupar como uma questão cultural, do mundo”.

Não é aqui o lugar. Aqui é lugar para se ver futebol, curtir futebol”.

Não há dúvidas de que os cards nas redes sociais são muito pouco dentro do engajamento que os clubes com seu alcance midiático poderiam fazer. Tenho receio, também, se meu entendimento de que esse deslocamento dos últimos anos seja algo significativo não esteja autorizado pelo meu local de privilégio como um sujeito cis-gênero, branco e heterossexual quase sempre muito bem contemplado nas normatividades dessa cultura futebolística.

Talvez os clubes possam começar a copiar o, também tímido, passo dado por nosso jornalismo esportivo hegemônico ou normativo. A presença das jornalistas nas redações já permitiu uma curta alteração das percepções sobre fenômenos até então naturalizados nas discursividades do esporte e do próprio jornalismo futebolístico. Em janeiro, aqui mesmo neste espaço, comentei que um canal pago de esportes tinha celebrado uma frase machista dita pelo, felizmente, ex-treinador do Grêmio Renato Portaluppi. Trinta anos mais jovem, Neymar repetiu a mesma frase comparando posse de bola e mulheres. Ele disse a mesma frase. Em trinta anos esse raciocínio machista não conseguiu nem ao menos construir uma frase nova…

Renata Silveira, Ana Thais Matos, Natália Lara, Renata Mendonça e Fernanda Colombo formam o time de narradoras e comentarista do esporte da Globo, no Brasileirão 2021. Fonte: https://oglobo.globo.com/

A diferença nesta ocasião é que foi possível localizar uma matéria falando sobre o machismo de Neymar em sites esportivos. Ao ler os comentários sobre a reportagem nas redes sociais (eu sei que não deveria fazer isso, mas tem vezes que é inevitável) um homem indignado bradou que essa discussão só acontecia porque tinha muita mulher jornalista atualmente e que elas estariam levando pautas identitárias para o jornalismo esportivo. Em um primeiro momento, meu desejo foi apenas de xingar o torcedor revoltado, mas ele estava correto. Sim, quando se aponta para a necessidade de representatividade é disso que se trata. Deslocar o pensamento normativo é mais fácil quando pluralizamos as experiências. Essa pode ser outra metodologia para o enfrentamento das violências naturalizadas na cultura futebolística e, também, no circuito mais amplo da cultura. Precisamos de mais mulheres, mais pessoas negras, mais LGBTQIA+ com protagonismo discursivo. Precisamos multiplicar a representatividade, multiplicar as experiências, multiplicar as narrativas!

Temos que exigir mais de nossos clubes! E que cada um exija do seu, de rivalidade tratamos em outro momento. Ao mesmo tempo não podemos esquecer que estamos em permanente luta por significados. Os cards de data são muito pouco, mas essa não é uma vitória garantida. Vamos por mais e estejamos atentos para não permitirmos regredir nos poucos passos dados até agora. Se hoje um clube não tem medo da chacota dos outros e publica mensagens favoráveis às sexualidades não normativas o discurso “raiz” também ganha espaço, eventualmente até entre alguns de nós saudosos não necessariamente das práticas, mas de nossas memórias juvenis.

Referências

BANDEIRA, Gustavo Andrada. Uma história do torcer no presente: elitização, racismo e heterossexismo no currículo de masculinidade dos torcedores de futebol. 1. ed. Curtiiba: Appris, 2019.

BANDEIRA, Gustavo Andrada; SEFFNER, Fernando. A Coligay e as memórias dos torcedores do Grêmio. REVES – Revista Relações Sociais, v. 3, p. 35-49, 2020.

DAMATTA, Roberto. ______. (Org.). Universo do futebol: esporte e sociedade brasileira. Rio de Janeiro: Edições Pinakotheke, 1982.

PATATT, Caroline; BANDEIRA, Gustavo Andrada. Paixão e representatividade: a percepção dos torcedores brasileiros quanto às campanhas sociais dos clubes nacionais de futebol. Culturas Midiáticas, v. 13, p. 261-279, 2020.


[1] Ver BANDEIRA; SEFFNER, 2020.

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LEME divulga 43º Encontro Anual da ANPOCS*

O Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte (LEME/UERJ) divulga o 43º Encontro Anual da ANPOCS. Esse evento acontecerá do dia 21 a 25 de outubro de 2019, em Caxambu – MG. PRORROGAMOS O PRAZO PARA ENVIO DE RESUMOS! Foi prorrogado para o dia 13 de maio o envio de propostas de resumos para os Seminários Temáticos… Continuar lendo LEME divulga 43º Encontro Anual da ANPOCS*

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Semana de Comunicação da UERJ conta com a participação de pesquisadores do LEME

A Semana de Comunicação da Uerj 2018, intitulada “Diversidade e Narrativas em Ambientes Digitais” acontecerá do dia 3 a 7 de dezembro, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. O evento apresentará workshops e palestras. As vagas para os workshops já estão lotadas, mas os interessados podem deixar os nomes em lista de espera.… Continuar lendo Semana de Comunicação da UERJ conta com a participação de pesquisadores do LEME

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