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Ditadura, esporte e a aceitação do inaceitável

22 de junho de 1970, Jorge Curi descreve de forma magistral o último gol do
Brasil contra a Itália no estádio Jalisco que começa com os dribles de Clodoaldo e termina com o chute preciso do capitão Carlos Alberto. O gol metaforizava o que tornaria uma associação automática da seleção brasileira ao chamado futebol-arte. A Copa de 1970 também serviu para análises da exploração política do futebol pelo governo.

13 de outubro de 2020, André Marques narrava a partida das eliminatórias para a Copa do Mundo de 2022. A vitória por 4 a 2 da seleção brasileira sobre o Peru teve uma repercussão menor frente a uma nota lida pelo locutor. A nota metaforizou a noção de que uma empresa estatal passa a ser confundida com uma empresa do governante.

Em 1970, antes do quarto gol, Curi destaca: “Quarenta e um minutos de luta. E vamos ter a palavra daqui a pouco de sua excelência, o presidente da república…bola entregue na direção de Clodoaldo, dribla um dribla dois…” A sutil menção ao então presidente, Emilio Garrastazu Médici, nem chega a citar seu nome. Com apenas cinco linhas de transmissão disponíveis para o país foi preciso fazer um pool entre as emissoras. O Grupo 1 ficou com Rádio Tupi, Rádio Clube de Pernambuco e Guarani de Belo Horizonte. O grupo 2 com a Continental, JB e Guaíba do Rio Grande do Sul. No grupo 3, a Rádio Globo, Nacional e Gaúcha revezaram seus locutores e comentaristas. No quarto grupo, as paulistas: Rádio Nacional, Band e Jovem Pan. No quinto grupo a Rádio Mauá e a Itatiaia de Belo Horizonte. Waldir Amaral e Jorge Curi dividiram a locução radiofônica onde cada um narrava um tempo. Interessante observar que a unificação das transmissões e sua abrangência nacional, produziram um discurso único na narrativa radiofônica e televisiva. A televisão se preparou para a transmissão como nunca havia feito. O Ministério das Comunicações negociou diretamente com a empresa
detentora dos direitos de transmissão e inicialmente o patrocinador seria único: a Caixa Econômica Federal. Com a instalação da estação via satélite de Itaboraí em 1969, os patrocinadores Esso, Gillete e Souza Cruz enxergaram o potencial da Copa do Mundo e pagaram o valor de 1 milhão de dólares (as três juntas) para “bancar” a transmissão televisiva. Assim, a Caixa repassou os direitos às três.

brasil.elpais.com

Usar de ferramentas do aparato estatal para enaltecer as figuras mandatárias é algo comum em ditaduras. Foi assim em 1970 e se repete em 2020. A confusão de governar para si e seus aliados, alimentando sua bolha cada vez mais raivosa e descolada da realidade, esquecendo-se dos demais brasileiros, resgata debates sobre os limites da ação de um governo para propaganda pessoal, o que é bem diferente da publicidade estatal.

No dia 13 de outubro de 2020, o secretário de Comunicação Fábio Wajngarten, em conjunto com o presidente Jair Bolsonaro, amparados no artigo 84 da lei Pelé, que obriga que o jogo da seleção seja transmitido em televisão aberta, pressionaram a CBF para comprar o direito de transmissão e televisionar, agradando inclusive os empresários acusados de bancar disparos em massa de Fake News que auxiliam na sustentabilidade do seu governo, que tinham placas de publicidade no estádio onde o jogo aconteceu. A CBF comprou e repassou à TV Brasil as imagens.

O “abraço” ao presidente estava inserido em uma nota, no mínimo constrangedora: “em nome da secretaria especial de Comunicação Social da Empresa Brasil de Comunicação e do secretário Fabio Wajngarten, agradecemos a CBF nas pessoas do presidente Rogério Caboclo, do secretário geral Walter Feldman e do diretor de mídia Eduardo Zambini e um abraço especial também ao presidente Jair Bolsonaro que está assistindo ao jogo.” Além da intervenção e da clara tentativa de exaltação da imagem do presidente, notamos que, comparando com a transmissão de 1970, nem mesmo na ditadura militar nos seus piores momentos foi tão incisiva em usar uma transmissão esportiva para exaltar a figura que ocupava o cargo de presidente.

Longe da interpretação que o futebol seria ópio do povo, momento em que observa-se seu uso claramente político que teria como objetivo principal de “driblar” a consciência da população, vamos destacar a compreensão do futebol e do esporte como um espaço de conflitos. O esporte e toda a sua força simbólica se torna mais do que um locus de tentativa de dominação (ópio do povo) ele é um palco de disputas constantes. Nesse espaço de conflitos, procura-se também controlar as vozes legitimadas a falar
nessa esfera, amedrontando quem fala “contra” forças que controlam o esporte como a CBF e mais recentemente a CBV, por exemplo. Casos de atletas atacados em suas carreiras por disputar esse espaço são notórios, com destaque para Afonsinho que nos anos 1970 lutava pelo fim da lei do passe.

extra.globo.com

Recentemente Carol Solberg foi julgada por gritar: “Fora Bolsonaro”. Mas o que esse caso tem a ver com a bajulação de uma emissora estatal ao presidente? Tudo. Esses dois casos indicam como passamos a aceitar o inaceitável. O primeiro nível é parear jogadores que apoiaram o presidente a Carol, como se ambos fossem “manifestações democráticas”. Não, elas não estão na mesma árvore da democracia, que pode e deve ter diferentes galhos, mas a raiz deve se pautar em valores absolutamente necessários para operarmos a sociedade. Raízes como a defesa intransigente da dignidade humana, atacada constantemente pelos apoiadores do presidente com o slogan “bandido bom é bandido morto” e exaltação a torturadores. Raízes como a defesa das riquezas minerais e da terra como fonte de vida do mundo, que estão sendo destruídas e queimadas. Raízes como a defesa da vida que foi relativizada com a pandemia, afinal “todo mundo morre um dia”.

Não caberiam neste texto todos os exemplos de que a linha necessária para se manter a integridade humana vem sendo ultrapassada desde 17 de abril de 2016 com um voto em homenagem a um torturador e que se intensificou com o início do mandato do atual presidente. Uma vez ultrapassada, e ao banalizarmos esse rompimento, não conseguimos mais recolocar esse limite, mergulhando nossa sociedade no caos, no ódio, na mentira, nas mortes, nos ataques as minorias e no uso do bem público para fins privados. Rompeu-se o que não deveria ter sido rompido. Carol e seu grito tentam alertar que estamos indo para o precipício e foi culpada por isso. É falsa a questão de que todos devem se expressar livremente. Incitar violência não é liberdade de expressão. Ferir a dignidade humana não é liberdade de expressão. Apoiar esse governo não é um “ato democrático”, é um ato de destruição da democracia e de todas as raízes fundamentais para vivermos em sociedade. Devemos ser intolerantes com os intolerantes, como Karl Popper alertou.

Entretanto, o que fizemos foi normalizar este governo, assim como naturalizou-se regimes totalitários como o nazismo. Enquanto o atual governo entrega tudo ao mercado, os grandes jornais criam essas falsas questões, apoiam essas entregas e aceitam o inaceitável. Nesse consórcio, a TV Brasil foi mais clara e sincera na bajulação. Uma bajulação no nível de seus apoiadores que ao lerem este texto vão atacar em massa, mostrando o quanto são prejudiciais à sociedade. Enquanto para uns as instituições seguem funcionando e naturalizam a barbárie, o esporte se fortalece como este local de disputas. O local onde se combate. Como vimos nos EUA, país que é exaltado como régua moral deste governo, nas manifestações “Black Lives Matter” e em depoimentos como o do campeão da NBA Lebron James. Aqui Lebron e cia seriam punidos pelo STJD? Aqui as vozes que se levantam são censuradas. As que bajulam relativizadas. Aqui seguimos uma trágica evolução da mera menção do presidente em 1970 para um “abraço” em 2020. O que virá se continuarmos aceitando tudo? Que o esporte siga sendo nosso campo de batalha, que mais Carols tenham voz e que não aceitemos o inaceitável.

folha.uol.com.br
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