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O retorno do atacante Benzema à Seleção Francesa de Futebol e suas implicações

Por Carolina Cardoso, Júlia Sampaio e Luana Pina

A Seleção Francesa Masculina de Futebol é muito conhecida por suas atuações dentro de campo, porém sua popularidade alcança questões extracampo. A Seleção, para além de suas vitórias e histórico, é muito conhecida também pelas contradições no tratamento a seus jogadores e o que eles representam, muitas vezes conflitando com os posicionamentos da população e dos governantes do país. Posteriormente à não classificação nas edições de 1990 e 1994, a equipe transformou-se em um reflexo da questão migratória vivida há séculos pela por essa nação europeia, modificando também seu desempenho, disputado desde então três finais do campeonato e triunfado por duas vezes, em 1998 e 2018.

No entanto, o que tais vitórias representam para a sociedade e para a política do país é uma longa discussão, para a qual o presente artigo busca contribuir por meio da problematização do caso do atacante Karim Benzema, atual vencedor da Bola de Ouro (como melhor jogador da temporada) e emblemático das questões contemporâneas de imigração e identidade nacional francesa.

Fonte: Placar

Sem uma definição consensual jurídica no âmbito internacional, migração, segundo a Organização Internacional para as Migrações das Nações Unidas, pode ser entendida pela designação de qualquer pessoa que deixa seu lugar de residência habitual a fim de se estabelecer temporária ou definitivamente em outra localidade, atravessando fronteiras internacionais ou não e por razões diversas.

A França possui cerca de 68 milhões de habitantes, sendo por volta de 8,5 milhões migrantes internacionais (Migration Data Portal, 2020). Ao analisar as ondas migratórias ocorridas no país, é possível elencar a pobreza e as disparidades econômicas entre os Estados europeus, a descolonização e a globalização, a partir dos anos 80, como as principais causas para a migração.

O fluxo de imigrantes possui origem em diversos países, principalmente europeus e africanos, construindo, assim, a população multinacional existente atualmente na França. Contudo, o que se observa não é uma exaltação dessa multiculturalidade, visto que não há grande identificação entre os franceses com os valores e costumes que passaram a compor significativamente a população, como, por exemplo, elementos muçulmanos. Outro aspecto observado refere-se ao tratamento de indivíduos nascidos em território francês como estrangeiros pelo fato de serem descendentes de imigrantes, complexificando ainda mais esta questão.

No tocante à relação entre a migração e o esporte, existe o esportista imigrante que representa a imagem de sucesso, como o ex-jogador de futebol e técnico Zinedine Zidane, e o imigrante que representa esportistas nas associações da classe trabalhadora da França, que compreende grupos de refugiados e imigrantes de ex-colônias francesas. A migração argelina é um exemplo que confere um melhor entendimento para o recorte aqui pretendido, já iniciada enquanto o país ainda era colônia francesa quando os trabalhadores nacionais eram empregados na metrópole.

Com o passar das décadas, se tornou um dos principais fluxos migratórios em direção à França, mantendo preservados seus hábitos e costumes identitários. Entretanto, apesar de serem vistos como fonte de mão de obra, ao ajudarem o país no restabelecimento pós-Segunda Guerra Mundial, os imigrantes passaram a ser enxergados, de forma negativa, como uma comunidade numerosa de estrangeiros. A partir da década de 1970, a lei francesa para imigração torna-se mais restrita e as relações com o Estado argelino oscilam, aproximando ou distanciando-os, de acordo com variantes como o terrorismo e crises econômicas. Em resumo, os argelinos e outros grupos estrangeiros que vivem na França hoje ocupam lugar à margem na sociedade francesa.

Assim, a imigração argelina representa uma parte da história francesa e uma parcela importante da sociedade, não somente em termos econômicos, mas políticos e culturais. Entretanto, a questão migratória ainda resulta em condições discriminatórias para muitas dessas populações, mesmo que elas representem um componente essencial para o desenvolvimento do Estado francês.

Importante citar que o esporte, em sua vertente profissional, é afetado pelo movimento migratório, uma vez que diversos clubes, principalmente aqueles sediados na Europa, atuam de modo análogo à divisão mundial do trabalho na medida em que jogadores são descobertos em países africanos e latinoamericanos como “jovens talentos” e são levados a esses times europeus. Cabe salientar, em torno dessa problemática, a relevância que os estrangeiros possuem para o esporte francês, principalmente para a Seleção Masculina de Futebol, mas que, ainda assim, estão sujeitos a uma discriminação política e social.

De acordo com o sociólogo Zygmunt Bauman, a identidade se caracteriza pelo seu processo fluído de construção, portanto não é fixa nem imutável, sendo passível de transformações ao longo do tempo. Dessa forma, tanto identidade quanto pertencimento são conceitos revogáveis uma vez que estão ligados aos indivíduos e suas trajetórias. Importante frisar também que, ao longo da história, esses conceitos também foram motivo de disputa ao serem percebidos como “ameaçados” por um inimigo construído. A partir do surgimento do Estado-Nação e do conceito de soberania, surge a ideia de identidade nacional, em que a identidade individual passa a ser influenciada e sobreposta por uma ideia de identidade coletiva coesa, que se define como uma resposta à instabilidade do pertencimento. A ideia de uma identidade nacional não é algo natural ao indivíduo, mas sim desenvolvido pelo aparato moderno do Estado como uma tarefa que estimula seus membros a agir pela manutenção dessa identidade coletiva. Dessa forma, a identidade nacional é um fenômeno de contínua renovação, por meio do qual o indivíduo escolhe ativa e diariamente ser parte de um grupo nacional. 

Stuart Hall (2006) entende que a cultura nacional é um modo de construir uma narrativa que influencia e organiza as ações e a concepção sobre o próprio indivíduo, atuando sobre a sociedade como um foco de identificação e um sistema de representações culturais. Dessa forma, o sentimento de pertencimento e identificação pela nação ocorre a partir da transmissão desse discurso para novas gerações e como essas novas gerações atribuem sentido a ele. Entretanto, a ideia de unificação da identidade cultural através da cultura nacional está sujeita a questionamentos, sobretudo pelo fato de que a maioria das nações têm culturas diferentes oriundas dos fluxos migratórios e da troca cultural entre povos.

A despeito de unificada politicamente, uma sociedade pode ser composta por diferentes grupos étnicos, e, portanto, a cultura dita como nacional não consegue atingir a todos. Além disso, o fenômeno da globalização tem como consequência a geração de um conflito entre a permanência das identidades nacionais e a absorção de novos hábitos, valores e elementos culturais devido à diminuição das fronteiras físicas e temporais que aumentam exponencialmente o nível de influência entre diferentes culturas. Portanto, é possível observar um declínio das identidades nacionais em novas identidades híbridas.

O futebol facilmente pode ser observado como um fenômeno afetado pela globalização, descrito como o esporte mais popular do mundo e que mobiliza diversos sentimentos, inclusive o de pertencimento. No âmbito internacional, o sentimento de pertencer pode ser observado, principalmente, pelas seleções nacionais como o mais alto grau de representação patriótica dentro do esporte. A disputa por campeonatos internacionais como a Copa do Mundo ilustra o poder de coesão do futebol quando une diferentes pessoas a torcer, unicamente, pelo seu país no torneio. Como grande fenômeno social que é, o esporte está sujeito aos impactos das transformações que sociedades ao redor do globo enfrentam, como dito anteriormente, tais como os movimentos migratórios ocorridos no decorrer da história da humanidade.

O papel outrora interpretado pela França de potência imperialista a torna uma comunidade de destino preferencial para milhões de migrantes, seja por vínculos históricos ou linguísticos. Os impactos das imigrações vivenciadas pela França em sua seleção nacional se confundem com o próprio começo da jornada desse país na Copa do Mundo, tendo em vista a crescente presença de jogadores de ascendência, em sua maioria, árabe e africana. “Black, blanc, beur” (Negros, Brancos e Árabes) é a definição dada à geração de campeões do mundo de 1998 e é um dos reflexos da forte miscigenação presente na sociedade francesa, sendo possível entender a Seleção como um retrato da nação.

Esse fato resulta em uma discussão dentro do país a respeito do impacto migratório na ideia de identidade nacional. A França é um dos países do mundo com maior porcentagem de população imigrante e descendente, o que faz com que a identidade francesa, ao longo dos anos, passe a contemplar diferentes origens, cores, etnias e religiões para além das originárias céltica e romana.

Fonte: Trivela

A fim de entender as mudanças no futebol francês vale mais uma vez destacar a ligação entre as ex-colônias francesas e sua antiga metrópole, uma vez que essa troca resultou em modificações sobre o que tradicionalmente se associa ao “ser francês” . O ponto central dessa discussão gira em torno do conceito de identidade nacional e da nacionalidade, pois o futebol, bem como o esporte em geral, pode ser considerado um elemento chave para compreender o sentimento de pertencimento nacional dos imigrantes e seus descendentes na França e no mundo.

Embora o esporte desempenhe uma função de coesão social e pertencimento, vale destacar que também é um reflexo das contradições existentes em uma sociedade. No caso do futebol francês, a Seleção é frequentemente alvo de ataques de cunho racista e xenofóbico, falas essas que podem ser representadas, por exemplo, pelo discurso do político da extrema-direita francesa, Jean-Marie Le Pen, que afirmou que a seleção campeã de 1998 era “artificial” e que não refletia a “verdadeira” identidade nacional francesa. Entende-se, assim, que a fala do político não consta como uma opinião aleatória e descolada da realidade francesa, mas, sim, como uma dificuldade presente em tal sociedade de assimilar, como parte da identidade nacional, as variadas culturas, etnias, histórias e religiões presentes na França como parte de uma identidade nacional.

O autor Stuart Hall (2006) compreende que a identidade nacional é, muitas vezes, baseada na concepção de um povo originário, conferindo uma ideia de imutabilidade e homogeneidade ao desenvolvimento nacional, contudo essa ideia é, para o autor, um mito fundacional.

A chegada constante de imigrantes ao país traz consigo novos elementos culturais, étnicos e históricos a serem adicionados à realidade francesa, inclusive no seu futebol, expresso na sua Seleção que conta com uma face multicultural devido ao seu grupo miscigenado. Em 2018, muitos jogadores possuíam origens em antigas colônias francesas; no entanto, nota-se uma certa resistência de parte da população em aceitar uma identidade multicultural francesa, não apenas no futebol como também em outros âmbitos. Um grande exemplo disso é o relacionamento com o islamismo que, apesar de ser a segunda religião mais praticada em solo francês, não possui o status de um elemento cultural “tipicamente francês”.

Fonte: Extra

Desse modo, nota-se que, devido aos embates existentes nas questões culturais e étnicas e ao seu respectivo relacionamento complexo com a sociedade, a própria seleção francesa se constitui em um objeto político. Quando detentora de campanhas vitoriosas, é instrumentalizada como o exemplo de sucesso de um país culturalmente diverso e integrado, mas, quando seus resultados em campo são negativos, é apontada como uma falha na representação de sua comunidade nacional, atribuindo seus erros à presença da diversidade.

 Como dito anteriormente, a opinião pública a respeito da seleção pode ser entendida como um ciclo de “vaivéns”, que transitam entre a identificação nacional com os bleus e o incômodo com o seu caráter multiétnico e multicultural. Um dos exemplos desses atritos é evidenciado, sobretudo, na exclusão de Karim Benzema da equipe nacional. Descendente de argelinos e comumente envolvido em polêmicas, o jogador sugere, em uma entrevista concedida ao jornal espanhol Marca, que sua exclusão ocorreu devido a existência de um lobby racista, embora a alegação oficial da Federação Francesa de Futebol seja o seu suposto envolvimento em um esquema de chantagem e extorsão.  

Karim Mostafa Benzema é nascido e criado em Terraillon, na comuna de Bron, subúrbio de Lyon. Fez sua estreia como profissional em 2005 no time de sua cidade natal, onde permaneceu por cinco anos. Desde o início teve ótimas performances na Liga dos Campeões da Europa e nos jogos da primeira divisão do futebol francês, tornando-se rapidamente artilheiro e um dos jogadores mais bem pagos do país. Em 2009, Benzema foi vendido ao Real Madrid e virou coadjuvante no clube espanhol, apesar da boa relação com os companheiros.

A partir de sua ida para o time espanhol, o jogador passou a se envolver em polêmicas extracampo. Uma delas envolve a questão de que Benzema não canta a Marselhesa, hino nacional francês, em protesto à xenofobia presente em alguns de seus versos, postura essa que incomoda profundamente o país.

Além de não cantar o hino, o jogador causou fúria na extrema direita francesa ao realizar um gesto ambíguo durante um clássico entre Real Madrid e Barcelona. Antes do jogo, que estava sendo realizado dias depois do atentado terrorista em Paris no ano de 2015, o hino francês tocou no estádio e o atacante foi visto cuspindo no chão após a execução. Esse gesto foi interpretado por alguns como uma forma de desprezo pelo país.

Outra polêmica envolve a sua exclusão da seleção francesa mencionada anteriormente. Benzema justificou sua ausência na Eurocopa de 2016 como decorrência das “pressões” que o técnico Didier Deschamps teria sofrido de uma “parte racista da França”. O comentário foi muito malvisto, uma vez que o afastamento ocorreu devido ao seu envolvimento no caso de seu ex-companheiro Mathieu Valbuena. Na ocasião, Benzema foi acusado de extorsão e chantagem para não divulgar um vídeo com conteúdo erótico do meia, e a investigação fez com que ele ficasse suspenso até o encerramento do caso. O atacante regressaria à seleção no ano de 2020, mas, mesmo com pedidos de seu retorno vindo de figuras importantes como Zidane e Larqué, sua relação com a sociedade francesa é complexa.

Karim Benzema é produto de muitas histórias. Nunca foi um queridinho do país, uma vez que jamais se submeteu ao “comportamento francês”: é muçulmano praticante, não bebe álcool, observa obedientemente o Ramadã. Além disso, é introvertido, não costuma dar entrevistas e sempre viveu muito afastado do grande público francês. O jogador crescido na periferia de Lyon é o retrato de como a França ainda não sabe como lidar com sua população composta por imigrantes e seus descendentes que redesenham a identidade cultural do país.

Referências:

BAUMAN, Zygmunt. Identidade: entrevista a Benedetto Vecchi. Editora Schwarcz-Companhia das Letras, 2005.

DE ANDRADE, Rodrigo C. Non seulement les bleus: a seleção francesa de futebol, o conceito de identidade nacional e seus impactos na política sobre imigração de Emmanuel Macron. Portal de Trabalhos Acadêmicos, v. 5, n.2, 2018.

GASPARINI, William. Sport and Migration in France. Disponível em: <https://www.researchgate.net/profile/Petra-Giess-Stueber/publication/263374546_Sport_-_Integration_-_Europe_Widening_Horizons_of_Intercultural_Education/links/561238b308aec422d11736e1/Sport-Integration-Europe-Widening-Horizons-of-Intercultural-Education.pdf#page=86> Acesso em: 6 out 2022

GIULIANOTTI, Richard. O Esporte do século XX: futebol, classe e nação. In: Sociologia do Futebol. Nova Alexandria, 2002. Cap 2.

HALL, Stuart. As culturas nacionais como comunidades imaginadas. A Identidade Cultural na pós-modernidade, v.3, 2006.

OLIVA, Anderson Ribeiro. Identidades em campo: discursos sobre a atuação de jogadores interculturais de origem africana e antilhana na seleção francesa de futebol. Revista de História (São Paulo), p. 395-425, 2015.

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As delegações olímpicas, a carne e a identidade nacional argentina

Depois de quase duas décadas de tentativas fracassadas, as elites argentinas conseguiram enviar uma delegação aos Jogos Olímpicos de 1924 em Paris. Rapidamente, as participações olímpicas argentinas se articularam, citando o antropólogo Eduardo Archetti, como “um espelho de onde se vê e é visto ao mesmo tempo”. Desta maneira, as andanças dos/as desportistas argentinos no estrangeiro construíam, disseminavam e afirmavam uma identidade nacional. Até meados dos anos cinquenta, a tipificação e a diferenciação nacional através das excursões olímpicas incluíram uma crescente relação com outro elemento central do sentimento coletivo de pertencimento argentino: a carne.

Dadas as dificuldades para estabelecer o Comitê Olímpico Argentino (COA) no ano anterior, a inexperiência da incipiente direção olímpica nacional e a estrutura dos Jogos Olímpicos, a conformação da delegação que viajou a Paris em 1924 esteve repleta de inconvenientes. Um destes ressaltaria, obliquamente, o papel da carne na vida nacional. Antes da partida à Europa, houve queixas porque o barco onde viajaram os esgrimistas e os remadores não contava com as acomodações necessárias para que chegassem em condições competitivas adequadas. Tratava-se de um barco frigorífico contratado por empresas do ramo “que deviam carregar seus porões com carnes congeladas”. O barco atrasou sua partida pelo processo de carga, embora o capitão tenha consentido instalar dois estandes de esgrima no convés e embarcar um aparato de treinamento de remo. Criticando o COA por sua falta de planejamento, Román López, presidente da Federação Argentina de Esgrima, manifestou: “Para viajar em um barco como o ‘Vasari’ é necessário ser um verdadeiro patriota”. Esse barco transportou, inesperadamente, duas marcas identitárias da nação argentina: desportistas e carne. 

Publicidade do Vasari (The Review of the River Plate, 10 de outubro de 1919, p. 952).
Vista do Vasari (Bulletin of the International Union of American Republics, junho de 1909, p. 1018).

A Confederação Argentina de Esportes-Comitê Olímpico Argentino (CADCOA), instituição que substituiu o COA em 1927, também teve sérios inconvenientes, principalmente econômicos, para enviar uma delegação aos Jogos Olímpicos de 1928 em Amsterdã. Uma vez ali, a alimentação holandesa foi percebida como um obstáculo para a correta aclimatação dos desportistas. O capitão da equipe de luta declarou que os lutadores deveriam “acostumar seu organismo a mudança de alimentação, que entre parênteses não era grande coisa, em termos de variação e seu sabor, apesar de ser saudável”. Acrescentou: “Só o grande apetite que despertava o treinamento, fazia com que se ingerisse esta comida deficiente e monótona a que não está acostumada a maioria dos nossos atletas”. Ou seja, a delegação sentia saudades da comida “crioula” e possivelmente da carne, aspecto que a CADCOA tentaria corrigir no futuro.

Treinamento no convés de parte da delegação para os Jogos Olímpicos de 1928 em Amsterdã (Federico Dickens, Manual técnico de atletismo, 1946, sp).

Apesar da CADCOA ter lidado com numerosos problemas administrativos, econômicos e de condução relacionados à delegação nos Jogos Olímpicos de 1932 em Los Angeles, a alimentação não foi um deles. De fato, os desportistas parecem ter estado satisfeitos a respeito. Por exemplo, poucos dias antes que Juan Carlos Zabala ganhasse a medalha de ouro na maratona, Alejandro Stirling, seu treinador austríaco radicado na Argentina desde 1922, explicou que seu pupilo “come com grande apetite dois bifes no almoço e dois na janta” e que, além de treinar, lia e escutava discos “que lhe recordam a pátria distante”. O fulgurante triunfo do “nandú crioulo”, o apelido com que a crítica havia batizado Zabala, foi utilizado pela imprensa dominante para gerar imagens identitárias nacionais. Uma semana depois de ter ganhado a maratona, a delegação japonesa ofereceu uma festa em sua honra durante a qual lhe perguntaram por seu regime de treinamento e de alimentação. É de se supor que ressaltou os benefícios dos quatro bifes diários. 

Para os Jogos Olímpicos de 1936 em Berlim, a CADCOA, que havia ignorado a intenção argentina de boicotar o evento organizado pela Alemanha nazista, implementou medidas para que toda a delegação tivesse “carne na quantidade e da qualidade a que estavam habituados os atletas”. Por um lado, a CADCOA argumentou que a carne favorecia o rendimento esportivo. Por outro, afirmou que “constitui a base da alimentação de nossos desportistas”. É que a carne, como diria mais de cinco décadas depois o escritor Juan José Saer, “não é unicamente o alimento base dos argentinos, mas o núcleo de sua mitologia e inclusive de sua mística”. Em Berlim, esporte e carne sincretizaram a nação argentina e seu imaginário. Considerando “o sério inconveniente que supunha a insegurança de encontrar durante a viagem e na estadia na Alemanha” o precioso e significativo alimento, a CADCOA conseguiu que a Junta Nacional de Carnes, um órgão criado em 1933 para regular o mercado em questão, doasse quinze toneladas de carne. O regime alimentício da delegação recomendava entre 250 e 350 gramas de carne diários. De todas as maneiras, o maratonista Luis Oliva consumia 500 gramas de carne diários, “preferentemente assada”, aludindo, como assinalou o antropólogo Jeff Tobin, a “comida mais fortemente associada ao nacionalismo argentino”.

A CADCOA inclusive enviou um cozinheiro a Berlim, Arnoldo Damm. Graças a sua “arte culinária crioula”, na Vila Olímpica “qualquer um logo e gostosamente se esquece da cozinha alemã”.  Damm conseguiu que ali “se respirasse um ambiente do país alegre e confiante, sempre menos pesado e rígido que o ambiente germânico”. A dieta da delegação servia para afirmar o nacional e diferenciar-se do outro significante. Em uma “significativa cerimônia” ao terminar os Jogos Olímpicos, Alberto León, presidente da delegação, entregou 300 quintais de carne às autoridades municipais berlinenses para que se distribuíssem em hospitais e sociedades de beneficência. Essa carne, destacou León, “testemunha a amizade germano-argentina e a gratidão da Argentina pela acolhida que teve sua delegação”. Segundo a CADCOA, “o gesto foi elogiosamente comentado pelas autoridades e diários berlinenses”.

Membros da delegação para os Jogos Olímpicos de 1936 em Berlim no refeitório nacional (La Nación, 21 de julho de 1936, p. 12).

Após a interrupção pela Segunda Guerra Mundial, os Jogos Olímpicos voltaram a ser organizados em 1948 em Londres. A CADCOA enviou uma numerosa delegação, bancada pelo governo de Juan Domingo Perón. Ao se despedir do grupo, Perón pronunciou: “É uma imensa satisfação que o Governo teve ao apoiar este tipo de manifestação, e é somente o início desse apoio que temos de levar até limites que muitos não imaginavam ainda”. Também acrescentou: “Para o futuro, procuraremos organizar melhor essas viagens, para que os atletas argentinos cumpram sua missão com o mínimo de sacrifício e o máximo de proveito”. A delegação enviada a Londres contou com uma remessa de carne própria, visibilizada além das fronteiras argentinas. Assim, no Chile se perguntaram se o rendimento nacional teria sido tão destacado “se a equipe não tivesse levado toneladas de carne”. Além de seu efeito no rendimento esportivo, a carne foi utilizada para festejar as conquistas em Londres. De acordo com o Noticias Gráficas, Delfo Cabrera celebrou sua medalha de ouro na maratona com um “assado a la criolla, sobre a grama de um parque jamais pisado pelo mais insignificante piquenique”, que surpreendeu aos “fleumáticos ingleses”.

Quatro anos mais tarde, quando Perón se despediu dos/as desportistas rumo aos Jogos Olímpicos de Helsinki, declarou que para esse tipo de evento era conveniente transportar “um pedaço da República ao lugar onde se realizam [os Jogos]”. Dessa maneira, a delegação teria todo o necessário para render plenamente. Por isso, Perón achou “oportuno mandar um barco, como fazemos, para que essa seja nossa casa, onde haja carne argentina, comida argentina, e água argentina; sabemos que isso não nos faz mal e, se não é a melhor, é boa”. Perón acreditava que um regime alimentício baseado na carne não era “científico”. Entretanto, sua abundância na delegação manifestava a Nova Argentina, na qual o crescente poder aquisitivo fomentava o consumo de carne e o esporte era promovido em todos os seus níveis como nunca antes e nunca depois. 

Juan Domingo Perón subindo no barco que transportou a delegação para os Jogos Olímpicos de 1952 em Helsinki (Mundo Deportivo, 19 de junho de 1952, p. 22).

Em parte devido às mudanças estruturais nos Jogos Olímpicos, que requeriam aos/às participantes residir na Vila Olímpica durante o evento, a partir do golpe de Estado que derrubou Perón em 1955, as delegações deixaram de projetar uma marcada relação com a carne, que sintetizou a identidade nacional. Não obstante, essa relação permanece. Por exemplo, dias antes do começo dos Jogos Olímpicos de 2008 em Pequim, o COA, instituição que substituiu a CADCOA em 1956, ofereceu um churrasco aos/às desportistas “para demonstrar que estão com as forças necessárias para fazer um bom papel na China”. Por uma ou outra via, as delegações e a carne continuam condensadas, com maior ou menor força, naquilo que se imaginava como meio que tipifica e que diferencia a identidade nacional. 

Texto originalmente publicado pelo site El Furgón no dia 17 de setembro de 2022.

Produção bibliográfica

“Esporte e sociedade: a contribuição de Simoni Guedes”, novo livro de Ronaldo Helal e Leda Costa

Reprodução: Appris Editora

Esporte e sociedade: a contribuição de Simoni Guedes, publicado pela editora Appris, é o mais novo livro escrito por Ronaldo Helal e Leda Costa, integrantes do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte (LEME).

O livro aborda as contribuições significativas da antropóloga Simoni Guedes, que influenciaram grandemente nas formas de se estudar o esporte no país, mas que, também, alteraram as maneiras de se explorar outros campos de estudo para além do esporte, evidenciando a relevância metodológica, teórica e pessoal das contribuições da pesquisadora.  

Através de sua obra literária, Ronaldo Helal e Leda Costa prestam uma homenagem à Simoni Guedes, evidenciando que a jornada da pioneira em estudos sobre esporte no Brasil foi, e ainda é, muito significativa para diversas áreas de estudo no país. 

O livro está disponível no site da editora Appris em formato físico. Para adquiri-lo, confira o link abaixo e garanta um desconto em sua compra no site utilizando o código ESPORTE20 no campo “vale desconto”.

Produção bibliográfica

Ronaldo Helal lança livro com bate papo virtual com Marcelo Barreto

Sobre Futebol, Esporte e Cultura, publicado pela Appris Editora, é o mais novo livro de  Ronaldo Helal, coordenador do Laboratório de Estudos em Mídia e Esportes (LEME). Com a impossibilidade de realizar o lançamento presencial, o jornalista e apresentador do SporTV Marcelo Barreto foi convidado a ler o livro e conversar remotamente sobre a obra com o autor, o que resultou em um vídeo de lançamento do livro. “Fico muito grato com a participação do Barreto, afinal, é um dos principais jornalistas esportivos do país, lendo artigos que publiquei na imprensa nos últimos 25 anos”. Já Marcelo Barreto afirmou que “já recebeu, leu e curtiu” o livro. O jornalista lembrou que não é muito comum um autor revisitar os seus próprios textos e reelaborar as próprias ideias como Helal fez nesta publicação.

Na entrevista, Helal comenta sobre temas que aborda em sua pesquisa, a saber: idolatria, heroísmo, identidade, rivalidade e paixão. O autor explica algumas mudanças que ocorreram no esporte e na sociedade, assim como em seus próprios pensamentos. Apesar dessas mudanças, ele optou por manter os seus artigos na íntegra, mas pontuando em notas de rodapé as alterações de pensamento e as mudanças que acometeram no esporte e na sociedade. Helal afirma que “estamos mudando para melhor em um processo de mais inclusão”.

A entrevista está disponível no Instagram e no canal do LEME no Youtube.

O livro está disponível em diversas livrarias e sites, de forma impressa ou em e-book, e você pode conferir a seguir os links para comprá-lo: Estante Virtual; Editora Appris; Amazon e Travessa.

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“Aqui nasceu o Vasco!” Centro Cultural Cândido José de Araújo

Por GT de Pesquisa Histórica do Centro Cultural Cândido José de Araújo

Em meio a pandemia que afeta a todo o Planeta, afastando torcedores das arquibancadas, o vascaíno encontrou uma forma de atuar diretamente em prol de seu clube mesmo sem comparecer aos jogos. Em mais uma ação que ultrapassa a esfera esportiva, a torcida vascaína volta a escrever a história com suas próprias mãos e ainda presenteia a nossa cidade maravilhosa com mais um importante espaço de cultura.

Trata-se da revitalização do espaço da fundação do Club de Regatas Vasco da Gama, ocorrida no dia 21 de agosto de 1898, no imóvel localizado à época na Rua da Saúde nº 293 (atualmente Rua Sacadura Cabral nº 345). Por muito anos acreditou-se que a fundação teria ocorrido em outro local, mais exatamente na sede da Sociedade Dramática Particular Filhos de Talma, situada na Rua do Propósito, nº 12 (atual nº 20) onde, por duas vezes, o aniversário do clube foi lá celebrado, em que pese o equívoco histórico.

O primeiro passo para desfazer esse erro foi dado pelo pesquisador Henrique Hübner.  Ainda em 2013, ele pesquisou e revelou o verdadeiro local da fundação do clube através de uma série de consultas aos jornais, livros e plantas da época disponibilizados pela Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional; registros do 1.º Registro de Imóveis;  croquis e plantas da Superintendência Municipal de Urbanismo; bem como o acervo fotográfico do Arquivo Público da Cidade do Rio de Janeiro.

Em 2015, o Vasco publica a sua Ata de Fundação com o verdadeiro endereço. Unindo-se perfeitamente a ata de fundação às pesquisas realizadas, foi colocado o ponto final ao mistério da fundação do Clube. A divulgação da pesquisa no site Memória Vascaína do citado pesquisador, foram de fundamental importância para que a informação passasse a circular entre os vascaínos.

Mas foi somente no ano de 2020 que um passo decisivo foi dado para a retomada desse espaço pela tradição vascaína. Ao verificar que o imóvel da Rua Sacadura Cabral número 345 estava disponível para locação, o grupo “Guardiões da Colina” entrou em ação para promover a recuperação do local, alugando o imóvel por 5 meses com opção de compra ao final de contrato. O início do trabalho de revitalização contou com a fundamental ajuda de outros torcedores, entre eles os membros do grupo “Raízes Vascaínas” e diversos empresários e lojistas do ramo da construção, que passaram a doar materiais e serviços diversos. Arquitetos e designers se prontificaram a desenvolver projetos para a “nova” sede que ali surgia. Somaram-se ao projeto historiadores, geógrafos, pesquisadores e estudiosos no geral para contribuírem com suas pesquisas e produzirem conteúdo sobre o local e seu entorno.

O Centro Cultural Cândido José de Araújo nascia assim, batizado através de votação popular realizada pelo twitter. Candinho, como era conhecido por sócios e adeptos do clube, foi eleito no ano de 1904 e reeleito em 1905, após ser recordista em indicações para novos sócios do clube em 1903. Além disso, foi o primeiro presidente negro de um clube do Rio de Janeiro e até onde se tem conhecimento, de qualquer instituição esportiva do país.

O simbolismo em ter o nome associado a um homem negro no local é imenso, uma vez que o imóvel está situado no local conhecido como a “Pequena África do Rio de Janeiro”, localidade onde centenas de milhares de escravizados trazidos do continente africano desembarcaram e se fixaram. Mesmo após a abolição da escravatura em 1888, a “Pequena África” seguiu como moradia de milhares de afro-brasileiros que, junto a imigrantes Portugueses pobres que também habitavam a região, encontravam o sustento através do trabalho em feiras livres ou como empregados do comércio voltado para o Porto do Rio.

Toda essa história aumenta a responsabilidade daqueles que pretendem construir o Centro Cultural. É importante dizer que, mesmo sendo uma casa vascaína com conteúdo focado num Vasco nascido do congraçamento entre brasileiros e portugueses, foi criado um espaço aberto para todos aqueles que se interessem pela história da cidade e do esporte carioca. E é isso que o Centro Cultural Cândido José de Araújo busca: Construir um espaço de visitação com exposições fixas e temporárias que vão recontar a gênese do clube, desde os fatos mais marcantes da vida vascaína, tais como a participação de seus grandes ídolos, ou relembrando as camisas históricas e símbolos que tanto apaixonam o torcedor, até diálogos do clube com a cidade e com trabalhos acadêmicos. Um espaço para todos que desejam aprender a mais nobre história de um clube voltado inicialmente para o remo, o futebol, o esporte, a cidade e sua memória social. Um espaço de vascaínos, para os vascaínos e para a cidade.

Sendo assim, convidamos os vascaínos e todos os amantes do futebol a conhecer o espaço a partir do dia 31 de Outubro, com limite de capacidade devido às medidas de combate ao COVID-19. Para aqueles que não podem ir até o local, faremos um tour virtual, com previsão de lançamento na semana seguinte a inauguração do Centro Cultural. Para mais informações, nos sigam no twitter e instagram @aquinasceuvasco!

Fonte: Acervo dos autores
Participações na mídia

Ludopédio entrevista coordenador do LEME (parte 1)*

Ronaldo Helal, coordenador do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte (LEME/UERJ), foi entrevistado pelo site Ludopédio. Há muito tempo queríamos entrevistar o professor Ronaldo Helal. Foram muitos anos de desencontro até que conseguimos realizar a entrevista por ocasião de um evento no Rio de Janeiro. O professor Helal nos recebeu em sua residência e… Continuar lendo Ludopédio entrevista coordenador do LEME (parte 1)*

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Eventos

LEME divulga Golzinho Feminino*

O Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte (LEME/UERJ), coordenado pelo professor Ronaldo Helal, divulga Golzinho Feminino. É um evento organizado pelo movimento Torcedores e Torcedoras pela Democracia, em homenagem ao Dia Internacional dos Direitos das Mulheres. Dia: 30/03/19, sábado Horário: às 9h Local: Quinta da Boa Vista. RJ/RJ Presenças confirmadas: Marisa Pires. Martinha Denise Andrea… Continuar lendo LEME divulga Golzinho Feminino*

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Artigos

Reabertura da Livraria Universitária da UERJ

Na última terça-feira, dia 8 de janeiro, a livraria que funcionava no térreo do campus Maracanã reabriu as portas, agora com a administração da Editora da UERJ. Batizada de Livraria da EdUERJ, a inauguração foi às 10h em cerimônia com participação do reitor Ruy Garcia Marques; do diretor da EdUERJ, Glaucio Marafon; e de representantes… Continuar lendo Reabertura da Livraria Universitária da UERJ

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Artigos

A breve história de um blog

Há cerca de oito anos nascia o blog Comunicação, Esporte e Cultura. Em outubro de 2010, ainda um estudante de graduação em Relações Públicas, começava minha trajetória acadêmica com uma bolsa de iniciação científica no projeto coordenado pelo professor Ronaldo Helal – “Meios de Comunicação, Idolatria, Identidade e Cultura Popular”. Antes disso, não nos conhecíamos,… Continuar lendo A breve história de um blog

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Eventos

LEME esteve presente na Cerimônia de Premiação da 28ª UERJ SEM MUROS

Na última terça, dia 13, aconteceu  a Cerimônia de Premiação da 28ª Semana da UERJ SEM MUROS que engloba a 17ª Semana de Graduação, a 27ª Semana de Iniciação Científica (SEMIC) e a 21ª Mostra de Extensão. O evento foi realizado no dia 13 de novembro de 2018, às 14h, na Capela Ecumênica, campus Maracanã.… Continuar lendo LEME esteve presente na Cerimônia de Premiação da 28ª UERJ SEM MUROS

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