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Jogos de resiliência e força

Há pouco li uma entrevista do sociólogo francês Michel Maffesoli, publicada  no boletim criado pela Faculdade de Comunicação da Uerj para pensar a pandemia e parei para refletir sobre a afirmação dele de que o risco zero não existe e que a morte é parte integrante da condição humana. Imediatamente me dei conta de que essa consciência sobre a fragilidade humana, que para alguns veio de forma mais exacerbada durante a pandemia do coronavírus, faz parte da realidade da vida de muitas pessoas desde que nasceram. Viver é um desafio constante com riscos visíveis e invisíveis além de mudanças repentinas na rotina. Esse desafio é ainda maior para a maioria dos atletas paralímpicos.

Com o cancelamento das competições em todo mundo e o adiamento dos Jogos Paralímpicos, terceiro maior evento esportivo do mundo, os atletas tiveram que lidar com novas mudanças que trouxeram obstáculos que precisam ser superados, assim como os outros que enfrentaram para chegar à elite do esporte.

O principal desafio do momento, além, é claro, de evitar o contágio do vírus, é se manterem ativos. Mas como fazer isso sem uma competição-alvo? Hoje, assim como o esporte de uma maneira geral,  o esporte paralímpico está sem um calendário definido. Todas as seletivas e competições nacionais e internacionais foram canceladas. A única data prevista é a dos Jogos de Tóquio, que foram marcados a princípio para o período de  24 de agosto a 05 de setembro de 2021.

Com isso, todo o treinamento que costuma ser feito de acordo com essas datas ficou inconsistente. É preciso lembrar que o planejamento de treinamentos e competições no quadriênio paralímpico é minuciosamente calculado para que os atletas atinjam o máximo desempenho. Afinal, a superação de resultados, seja em recordes ou em número de medalhas é o sonho da vida de todos eles. Sem datas definidas, os preparadores dos atletas não conseguem fazer a periodização necessária para a preparação física. Com isso,  a maioria dos atletas está fazendo apenas um treinamento de manutenção. Com clubes fechados e sem disporem dos equipamentos necessários para um treinamento mais intenso, todo o trabalho de performance, seja de força ou velocidade,  ficou comprometido.

Fonte: wikipedia

Algumas associações paralímpicas mais estruturadas como a Associação Paraolímpica de Campinas (APC) começaram a desenvolver um atendimento on-line com os atletas. Com equipes multidisciplinares, a associação está tentando dar um suporte através do programa de atendimento residencial denominado APC Home Training, cujo plano de trabalho inclui acompanhamento virtual de treinadores, preparador físico, psicólogo e nutricionista. É preciso lembrar que as deficiências dos paraatletas são as mais variadas,  desde de a falta de um ou mais membros à dificuldades visuais, intelectuais  ou mesmo de coordenação motora. O que significa que esse tipo de iniciativa tão importante  nesse momento em que estamos vivendo muitas vezes requer uma forma de comunicação ou suporte especializado para que todos os atletas possam se beneficiar de forma  isonômica  do recurso audiovisual disponibilizado. Trata-se de uma logística muito mais complicada do que, por exemplo, a adaptação de cursos de ensino presenciais para modalidade à distância.

Segundo dados do IBGE relativos ao censo de 2010, 23,9%  da população brasileira (45,6 milhões de pessoas) tem algum tipo deficiência.  Dependendo da gravidade da lesão da pessoa com deficiência (PcD), isso implica necessariamente em ter um cuidador. E, ser cuidado em tempos de Covid-19, representa risco duplicado já que a própria Organização Mundial de Saúde (OMS), classifica pessoas com limitações na locomoção ou outras dificuldades que impeçam de seguir à risca as orientações da organização em relação à proteção individual como as mais expostas à contaminação pelo vírus.

Lembro, agora, de um post de uma colega jornalista que perdeu o pai recentemente e, sem poder ter contato com ele nos últimos tempos por causa do isolamento social, acompanhava  a cuidadora da janela, com um misto de gratidão e inveja pela proximidade. Assim como para muitos idosos, para boa parte das PcDs, a presença do fisioterapeuta e cuidador significa vida. A cartilha do governo com orientações sobre a pandemia,  no entanto,  não considerou todas as pessoas com deficiência como pertencentes ao grupo de risco mais suscetível à contaminação pelo vírus. Mas que essa fragilidade não seja traduzida como fraqueza, já que o próprio movimento paralímpico nasceu de um outro maior, de luta por direitos dos deficientes. De 1988 pra cá, o movimento vem solidificando conquistas para promoção de uma sociedade mais inclusiva, em que todas as pessoas com deficiência tenham direito à igualdade, cidadania e acesso universal à educação, transporte público, reabilitação e emprego.

Sem  dúvidas, os atletas de alto nível são reabilitados e têm um preparo físico infinitamente superior ao dos deficientes que não tem hábito de praticar esportes ou fazer exercícios de maior intensidade. No entanto, assim como as demais pessoas, precisam seguir à risca as orientações de isolamento. O que também os transforma em vítimas de alguns dos efeitos psicológicos negativos da quarentena, como a solidão, o medo e a ansiedade.

Ansiedade que também pode ser justificada pelo impacto que o cancelamento das competições teve no processo de qualificação. O atleta da Associação Niteroiense dos Deficientes Físicos (Andef), Fábio Borgignon, revelação dos Jogos Paralímpicos de 2016 com duas medalhas de prata no atletismo 100 e 200m T35, é um dos que estavam bem próximos de conseguir o índice para Tóquio.  Apenas três centésimos separavam o atleta da vaga que ele esperava garantir no Open Loterias Caixa de Atletismo e Natação. A competição internacional seria disputada entre 21 e 28 de março no Centro  de Treinamento Paralímpico Brasileiro, em São Paulo, que conta com instalações esportivas de excelência para treinamento e competições de 15 modalidades paralímpicas. O cancelamento não só dessa como de outras competições seguido do adiamento dos jogos, na opinião de Fábio, vai beneficiar atletas que não estavam suficientemente preparados para brigar pela vaga, o que promete tornar a disputa ainda mais acirrada já que agora muitos poderão tirar proveito desse ano de vantagem para preparação. E é exatamente nesse quesito, a preparação, que bate nele e em outros atletas o medo de perder o condicionamento.

“O vírus me fez perceber que a maior parte do consumo que temos em nossas vidas não é necessário para sobrevivência. Sabemos que juntos podemos fazer muito pela humanidade e pelo nosso planeta, que os profissionais de saúde têm que valer mais do que os jogadores de futebol. As prevenções salvam mais vidas do que atitudes de última hora. Que não temos o controle de tudo. Que as redes sociais aproximam a sociedade mas também distanciam  gerando o caos. Que dinheiro não resolve tudo. Que somos um mal para o planeta, pois ele se regenera mais rápido sem a gente. Por fim, a empatia (levada ao pé da letra) é a chave para qualquer nação sair de uma crise. Isso, porque, ao reconhecer o valor do outro, prioriza o bem-estar de todos.” @atletafabioborgignon7

Fonte: foto enviada pelo atleta Fábio Bordignon

 

Atualmente, assim como outras áreas, o esporte está cercado de incertezas. Exatamente por essa razão uma das prioridades da força-tarefa criada pelo Comitê Paralímpico  Internacional foi estabelecer a data para realização dos jogos de Tóquio em 2021. Foi o primeiro resultado concreto de um trabalho de reação rápida e de força que os envolvidos na realização dos jogos terão que fazer. Afinal,  existem muitas coisas em jogo, inclusive a questão econômica que obrigará todos a apertarem o cinto. Milhares de contratos já estavam assinados. A Vila dos Atletas pronta, 41 instalações esportivas disponibilizadas, passagens compradas, 40 mil quartos de hotéis reservados, 2 mil ônibus, direitos de transmissão e verbas de patrocinadores adiantadas. Apenas uma amostragem do que vai ser a reconstrução dos jogos. Um grande quebra-cabeça.

Numa live da qual participou recentemente, o presidente do Comitê Paralímpico Internacional (IPC), Andrew Parsons, falou sobre algumas decisões que tomou em meio à pandemia.  Uma delas foi a de que ele, como dirigente, iria focar apenas no que pode ser feito e não no que não pode. Uma lição aprendida nos anos de contato com os paraatletas e reforçada nesses tempos difíceis. Os atletas com deficiências diariamente maximizam o que podem fazer.  E, mais do que isso, mostram a importância de ter jogo de cintura nos momentos de crise. Haja vista as mensagens de incentivo que atletas de todo o mundo enviaram no Dia Mundial da Saúde.

Exemplos de resiliência não faltam no movimento paralímpico. E eles vem de toda parte. Na Noruega a atleta paralimpica de hóquei no gelo, Lena Schroeder, recentemente formada em medicina, foi para linha de frente ao combate do covid-19 no seu pais. Em Santiago de Compostela, na Espanha, a triatleta Susana Rodriguez Gacio também não teve dúvidas em trocar as roupas de treino para os Jogos de Tóquio pelo jaleco de médica.  Pelo telefone, ela participa do programa de saúde do governo espanhol que seleciona pessoas com indicação para o teste de coronavírus. Mesmo apaixonada pelo esporte paralímpico, quando viu o número de casos aumentar na Espanha, não titubeou ao optar pela saúde, confirmando o que para ela já era uma verdade, que por trás do esporte vem sempre a humanidade. Por isso, tanto Susana quanto outros atletas  e dirigentes acreditam que mesmo com todos os desafios impostos pela pandemia, as Paralímpiadas de 2021 em Tóquio serão, sim, jogos de transformação e, também, de  celebração da vida num ambiente em que a saúde, a liberdade e a paz estarão acima de tudo e de todos.

Fonte: Facebook da atleta
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Momento delicado

Em tempos de pandemia, sabemos que, em várias áreas , as dificuldades econômicas estão redobradas ao redor do mundo. Por parte dos clubes de futebol e agremiações esportivas, isso não é diferente. No Rio de Janeiro, o próprio Flamengo, mesmo com todo o sucesso de bilheteria e títulos da temporada passada, já demitiu funcionários. Vasco e Botafogo seguiram pelo mesmo caminho, enquanto o Fluminense, apesar de toda a crise, descartou rescisões e demissões, mas permanece na corda bamba financeira.

Se os chamados “times grandes” estão enfrentando sérios problemas, o que falar dos considerados “pequenos”?

No Campeonato Paulista, até a chegada da Covid-19, você se recorda quem liderava a competição? Não era o elenco recheado do Palmeiras, nem o estrelado time do São Paulo. Também não era o Santos, atual vice-campeão brasileiro, e o Corinthians muito menos. Antes da paralisação do certame, o Santo André estava a ocupar a ponta da tabela.

Fonte: globoesporte

Com investimentos muito menores que os feitos pelos clubes da capital, o Santo André voltou a atrair os holofotes da imprensa depois de um longo tempo. O campeão da Copa do Brasil de 2004 fazia uma belíssima campanha no Estadual, que é considerado o mais disputado do país, porém nem tudo são flores.

Com a pausa da competição, o clube passa por um desafio enorme no que diz respeito ao contrato dos jogadores. No fim de abril, o vínculo de 21 dos 26 jogadores inscritos pelo time do ABC Paulista se encerrou. Desta forma, o líder do Paulistão só tem cinco jogadores com contratos ativos até o momento. A diretoria negocia com representantes dos jogadores para extensões, porém a imprevisibilidade quanto ao retorno das partidas atrapalha bastante.

A realidade vivida pelo clube é dura, mas não é exclusiva. Entre os 12 “pequenos” que disputam o Campeonato Paulista, 333 jogadores foram inscritos e 114 possuíam vínculo até o fim de abril. Fica evidente, portanto, que só nos resta esperar todo esse momento delicado passar e torcer por um bom desempenho dos dirigentes, para que a saúde financeira dos clubes não fique mais abalada do que já está.

Com a instabilidade que paira sobre os clubes brasileiros quanto à data de retorno das atividades futebolísticas no país, o planejamento financeiro também se torna algo imprevisível. Os dirigentes em todo o Brasil tentam achar saídas para que os clubes não quebrem em meio à crise. Algumas equipes adotaram o treinamento à distância de seus atletas, outras deram férias adiantadas, e também têm aqueles que tentam respaldo nas instituições que administram o futebol brasileiro.

Tratando-se dos campeonatos internacionais, diversas decisões estão sendo tomadas na tentativa de evitar um prejuízo que pode alcançar R$20 bilhões aos cofres europeus. O Campeonato Francês encerrou a competição e declarou seu líder, o PSG, campeão da temporada. Será que poderíamos adotar algo parecido com os estaduais, para não atrasar ainda mais o calendário?

Fonte: romanews

Segundo o site Marca, entre os clubes espanhóis, ao contrário do que acontece no Brasil, os times considerados pequenos serão os menos afetados e teremos Barcelona e Real Madrid com os principais prejuízos no país. Isso ocorre porque os times de menor expressões tem sua fonte de renda advinda, principalmente, da televisão. Já os maiores, de seus sucessos de bilheteria.

Com medidas especiais sendo tomadas, os clubes alemães se preparam para retomar o principal campeonato do país em meio à pandemia. Os jogos serão transmitidos somente pela TV com os portões fechados, mas as autoridades estão otimistas que em breve estarão com seus estádios cheios novamente.

A situação no Brasil está longe de ter uma solução ideal, mas as entidades futebolísticas deveriam estar buscando alternativas com mais afinco. Uma comunicação entre CBF, as federações estaduais e os clubes poderia ser uma saída que beneficiaria o futebol brasileiro. No país do futebol, hoje, temos de deixar o esporte em segundo plano. }
Esse também é o entendimento da maioria dos torcedores – segundo pesquisa feita pelo site UOL apenas 33% dos torcedores apoiam a volta dos campeonatos.

Em um momento completamente diferente dos países europeus, em que o futebol, assim como o país, respiram por aparelhos, é extremamente necessário que providências sejam tomadas e que a indecisão não seja a regra.

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Coronavírus, esportes e videogames esportivos

Por Francisco Javier López Frías* e César R. Torres**, especial para o El País.

A virada recente que as instituições deram a esse tipo de entretenimento tecnológico parece ser contraproducente ou até contraditória.

O coronavírus prejudicou a maioria das atividades que eram consideradas centrais em nossas vidas. Também para o esporte. Entre as poucas atividades que se beneficiaram com o confinamento obrigatório predominante em grande parte do planeta, estão os videogames. Seu download e seu emprego cresceram exponencialmente. Embora os esforços para unir o esporte e videogames esportivos não sejam novidade, as instituições esportivas – proibidas de comercializar seus produtos tradicionais – concentram sua atenção na promoção de jogos de videogames esportivos como FIFA 20 e NBA2K para manter sua visibilidade e atrair o seu público habitual. Nesse sentido, por exemplo, foram desenvolvidas iniciativas como a espanhola La Liga Challenge, um torneio de final de semana, narrado por famosos comentaristas esportivos, em que jogadores profissionais de futebol se enfrentaram através do FIFA 20.

Fonte: elpais

Diante da desaceleração do setor esportivo, os videogames esportivos tornaram-se a única alternativa de consumo de esportes ao vivo. As instituições esportivas se aproveitaram disso e, como expressou o jornalista Marcelo Gantman, “os videogames esportivos assumiram o entretenimento das pessoas nestes dias de isolamento social”. Deixando de lado o debate sobre se o videogame deve ser chamado ou não de esporte, os renovados esforços para associar os esportes e os videogames esportivos convidam a uma reflexão crítica sobre ambas práticas e sua relação.

Apesar de certas semelhanças, os esportes e os videogames esportivos possuem características diferentes, principalmente quanto à natureza da atividade física necessária. Grande parte dos esportes, especialmente os mais populares e comerciais, exige um nível de intensidade de atividade física muito superior às exigidas pelos videogames de esportes. Em parte, isso ocorre porque, como defende o filósofo Bernard Suits, o esporte é um tipo de jogo que requer desenvolvimento e o exercício de habilidades físicas para atingir seu objetivo. Assim, o basquete impõe a posse de habilidades especializadas relacionadas a correr, pular, lançar e manusear a bola, e entrosamento com seus colegas de equipe para alcançar a meta de marcar mais vezes do que a equipe adversária. Ainda que os videogames esportivos também exijam desenvolvimento e o exercício de habilidade física – como coordenar botões pressionando e manipulando alavancas em um controle – para atingir seu objetivo, o nível e a intensidade da atividade física necessária são significativamente menores. A tal ponto que os videogames podem ser considerados atividades sedentárias.

A diferença de nível e da intensidade das atividades físicas exigida pela maioria dos esportes e videogames esportivos tem resultados relevantes para a relação entre saúde e esporte. Um dos objetivos da promoção e uso do esporte na sociedade é manter as pessoas fisicamente ativas para melhorar sua saúde. Assim, especialistas recomendam 150 minutos de atividade física de intensidade moderada por semana para população adulta. Por esse motivo, segundo seu novo diretor de medicina, a FIFA “vê o futebol como uma atividade que traz importantes benefícios à saúde” e que “pode contribuir para melhorar a saúde mundial”. Além disso, a atividade física é uma das principais ferramentas contra a obesidade, que, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), “alcançou proporções epidêmicas a nível mundial”, e tem como uma de suas causas o sedentarismo. A OMS enfatiza que “pelo menos, 2.8 milhões de pessoas morrem a cada ano por obesidade ou excesso de peso”.

Se a prática esportiva é crucial para conter a epidemia de obesidade, a recente mudança que as instituições esportivas fizeram em relação aos videogames esportivos parece ser contraproducente ou até contraditória. Videogames promovidos pelas autoridades do futebol – para seguir com esse esporte – parecem ser uma boa ferramenta para manter seu público conectado ao esporte, mas não geram um dos seus benefícios subjacentes: a saúde. Pelo contrário, estimulam comportamentos sedentários. Notasse que, de acordo com a OMS, “pelo menos, 60% da população mundial não realiza a atividade física necessária para obter benefícios à saúde”. O escritor Santiago Roncagliolo relatou que, como milhões de pessoas durante o confinamento obrigatório, “para evitar passar o dia conectado a mundos irreais, em casa incorporamos um programa de exercícios”. No lugar de ajudar a manter uma vida fisicamente ativa, os videogames esportivos nos incentivam a permanecer conectados aos mundos virtuais, em que a atividade física é mínima. É verdade que muitas instituições esportivas, assim como muitos atletas, promoveram atividade física. Por exemplo, a espanhola “La Liga” lançou o programa “QuédateEnCasa” (FicaEmCasa), que inclui treinamento físico com embaixadores do clube e treinadores físicos. No entanto, é necessário ir fundo no site desta instituição para encontrar esse programa. A promoção da atividade física empalidece com a dos videogames de futebol. A promoção da atividade física se enfraquece com a dos videogames futebolísticos

O emparelhamento de instituições esportivas com videogames esportivos é o resultado direto da busca de interesses econômicos pela indústria do esporte. A prioridade dada aos videogames esportivos mostra como a lógica do mercado continua a colonizar a prática futebolística até descartando muitos dos elementos valiosos que ela traz para a sociedade. O problema não está em jogar uma partida de FIFA 20 ou NBA2K, e sim nos efeitos perniciosos da lógica do mercado. No momento em que se especula como as sociedades vão mudar, ou deveriam mudar, depois do coronavírus, é importante nos perguntarmos se queremos seguir permitindo que o efeito colonizador do interesse econômico siga prevalecendo sobre os benefícios valiosos que nos oferecem as atividades que nos ocupam e nos preocupam.

Texto originalmente publicado em El País no dia 17 de abril de 2020.

*Francisco Javier López Frías es Doctor en filosofía. Docente en la Universidad del Estado de Pensilvania (University Park).

**César R. torres es Doctor en filosofía e historia del deporte. Docente en la Universidad del Estado de Nueva York (Brockport).

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Só nos resta jogar diferente

Os tempos são de dor. De agonia. De incertezas. Tudo o que nossa sociedade se especializou em fazer como pensar no futuro e programar ações está em quarentena. Ninguém programa nada. Está tudo suspenso. O jogo social com o qual nos acostumamos não pode mais ser jogado. Tudo que achávamos sólido se desmanchou com o vírus. Não se sabe quando tudo isso vai passar e como estaremos depois de tudo isso. Enquanto o futuro se torna algo difícil de observar em meio a esta nuvem sombria proporcionada pelo vírus e pelo desprezo da ciência, como ficamos sem o jogo?

São algumas alternativas. Antes que o leitor mais apressado enfatize que os esportes estão parados em praticamente todo o mundo, cabe ressaltar o que podemos chamar de jogo. Temos o Esporte Moderno, produto cultural do século XIX, que instituiu regras, modalidades, ligas e adquiriu um espaço significativo no campo econômico, fato que o transformou em uma grande indústria. Esse esporte, que conhecemos muito bem pela ampla divulgação através das mídias está parado. Não há nada de novo acontecendo no Esporte Moderno. Nem mesmo as especulações de contratações, algo comum durante as férias dos atletas, conseguem suprir a atenção dos aficionados pelo esporte. Nessa aridez de novos jogos e novas sensações que o esporte sempre provocou, podemos achar que o jogo também está suspenso?

Não se entendermos o jogo como algo mais amplo, que está presente no Esporte Moderno, mas existe sem ele. O jogo em sua essência, descrito por Johan Huizinga no clássico Homo Ludens, é uma forma elementar das manifestações do espírito humano. O jogo nos envolve “por inteiro”, somos impulsionados a “jogar” e se “perder” na dimensão da intensidade que o jogo tem. O envolvimento e excitação proporcionada pelo jogo são “a própria essência e a característica primordial do jogo” (HUIZINGA, 1971, p.5). O jogo tem uma função social, nos leva a intensidade e pode ser considerado um “intervalo da vida real”. Enquanto a “vida comum” está pausada o jogo nos salva. Até mesmo uma “brincadeira” sem propósito é uma forma de jogo. Criar brincadeiras com seus filhos, sobrinhos para passar a quarentena é jogar. Baixar jogos on-line, jogar cartas e se perder na intensidade lúdica que eles proporcionam também é jogar. Uma criança, por exemplo, pode ficar horas chutando uma bola na parede sem que, para aqueles não envolvidos neste jogo (brincadeira), exista motivo. Mas para ela tem. Enquanto vivemos, estamos jogando.

Fonte: vittude

A narrativa também é uma forma de jogar. De estabelecer regras momentâneas para nos comunicarmos e, a partir das reações do interlocutor, adaptarmos nossa atuação neste jogo narrativo. Ela é intensa, nos absorve se “jogarmos seu jogo” com vigor. Ela impulsiona paixões, orienta nossa visão de mundo e também nos remete a histórias do passado. Essa é outra alternativa observada. Na falta de algo novo, algumas emissoras recontam jogos do passado. Neste recontar se entende com mais clareza como o jogo e narrativa andam juntos. O filósofo Paul Ricouer defende que a narrativa cria mundos. Assim como a narrativa, o jogo é um mundo a parte com regras tácitas entendidas e seguidas pelos praticantes do jogo. Com o poder da narrativa também se viaja no tempo. Quem nunca se emocionou e se envolveu novamente em uma velha história de família ou pessoal. Recontar é como pegar uma máquina do tempo e voltar ao passado, porém com toda a bagagem que temos agora. É como nos filmes de ficção cientifica em que o indivíduo que volta no tempo sabe tudo o que aconteceu e mesmo assim se envolve.

No mundo esportivo parado, ver os jogos antigos é jogarmos novamente, é sentirmos emoções, é lembrarmos onde estávamos naquele dia, com quem, o que bebemos, o que comemos e como reagimos. É recuperar a memória. O jogo nos proporciona isso. É um local extremamente fértil para nos envolvermos e a partir daí surgirem dramas e histórias possíveis de serem contadas por gerações. Também nos remete a um “passado mágico”, que “nunca mais vai existir”, do tempo “mais puro”, tempo talvez que éramos mais jovens para nos deixarmos jogar e viver a intensidade do jogo e das suas narrativas.

Fonte: globoesporte

Enquanto a sociedade atual está parada, contando mortos, e observando a marcha da insensatez de alguns governantes, o jogo é o que nos mantém vivos. Se perder na intensidade do agora (mesmo que seja o jogo reprisado) é o que nos resta. Em tempo de dor, a transcendência do jogo é a oração de muitos. Essa máquina do tempo também nos permite compreender qual jogo estava sendo jogado anteriormente. É na força do jogo que podemos “jogar diferente”, quando tudo isso passar. É pelo jogo que podemos envolver as pessoas em um mundo diferente, mais humano, menos ganancioso, com gente sendo maior que a economia, a partilha sendo maior que o individualismo, a ajuda ao próximo maior que acumulação desenfreada e destrutiva do campo em que jogamos. É no curso do jogo que se adapta e se muda regras antigas, obsoletas e que não estão dando certo. Não deixemos de jogar, jogar para melhorar. Que joguemos outro jogo após essa tragédia.

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A peste e o gol por vir

“O resto do almoço se desenrolou à procura de um assunto. Mas tudo se tornou muito fácil quando Rambert descobriu que o cara de cavalo era jogador de futebol. Ele próprio praticara esse esporte. Falou-se, portanto, do campeonato da França, do valor dos times profissionais ingleses e da tática em W. No fim do almoço, o cara de cavalo estava animadíssimo e tratava Rambert de tu, para persuadi-lo de que não havia lugar mais belo num time que o de meio-campo. ‘Compreendes’, dizia ele, ‘meio-campo é quem distribui o jogo. E distribuir o jogo, isso é futebol’. Rambert era da mesma opinião, embora tivesse jogado na posição de centroavante. A discussão foi interrompida apenas por um aparelho de rádio que, depois de ter entoado em surdina melodias sentimentais, anunciou que na véspera a peste fizeram 137 vítimas. Ninguém reagiu na sala. O homem com cara de cavalo encolheu os ombros e levantou-se. Raul e Rambert imitaram-no.”

Estes curiosos acontecimentos ocorreram no indeterminado ano de 194…, na cidade argelina de Orã. Planejava-se então uma fuga. Raymond Rambert, jornalista que vivia do outro lado do Mediterrâneo, em meio aos ardores e amores da metrópole parisiense, vira-se aprisionado de maneira repentina por uma situação terrivelmente insólita: enquanto buscava informações acerca das condições de vida dos árabes locais para um grande periódico francês, uma peste passou a se alastrar assustadoramente pela urbe africana, levando seu prefeito – não sem antes muito hesitar, como sói acontecer – a declarar o fechamento total das fronteiras sob sua jurisdição. Suspendia-se, pois, o direito de ir e vir para além daqueles limites por tempo indeterminado. Após colecionar negativas pelas vias oficiais quanto ao seu retorno à Europa, um já desesperançado Rambert passara a recorrer aos submundos daquele município aziago – apelando a desconhecidos como aquele “cara de cavalo” à mesa de um restaurante espanhol. Seria de algum modo possível conduzir um arranjo deste tom a uma conversa minimamente agradável, ainda que breve? Ora, voilà, ei-lo sempre na manga: o futebol! Adeus, cerimônias e impessoalidades! Por instantes, toda aflição fora colocada para escanteio, e o tétrico dera lugar ao tático. A questão é que não há celebração que se sustente onde impera a morte: sem muitas delongas, o rádio – uma das únicas pontes ativas com o exterior – logo lhes lembrava que, porta afora, 137 pessoas mais deixavam de ser. A doença, insensível às venturas humanas, cumpria religiosamente seu rito funesto. Era hora de partir.

A cena acima compõe o enredo de A Peste, clássico instantâneo publicado originalmente em 1947, numa Europa em escombros devido às atrocidades impostas pela Segunda Guerra Mundial. Para quem é afeito a discussões do gênero, o livro costuma disputar com seu antecessor, O Estrangeiro, trazido à luz cinco anos antes, o posto de obra-prima do trabalho de Albert Camus. Franco-argelino como a infecta Orã que concebera (morto aos 46 num acidente de carro, em 1960, o autor não pôde viver a independência de seu país natal, havida somente em 1962), Camus seria laureado com o Prêmio Nobel de Literatura, a maior honraria do circuito oficial das letras, dez anos depois da disseminação de sua Peste – passível de ser lida tanto ao pé da letra, enquanto relato de vidas assoladas por uma epidemia mortal, como a representar metaforicamente uma França até havia pouco ocupada pelas não menos mortais tropas nazistas. Pois bem, foi justo a estas páginas que recorri quando me impus, aturdido, ao necessário isolamento social pelo qual estamos passando ao redor do globo – na miséria do possível a cada um – devido à propagação pandêmica da Covid-19, experimentando um estado de calamidade mundial inédito para as gerações posteriores àquela mesma guerra que um dia ardeu às retinas do escritor. A propósito, fazê-lo caiu no lugar-comum: na Itália, epicentro europeu da crise, A Peste foi alçada à lista dos mais vendidos sete decênios depois de seu lançamento; na França, que também vem perdendo milhares de cidadãos para o vírus, quadruplicaram-se as vendas do título em uma semana (1); por aqui, efeito similar levou a editora que hoje publica Camus a indicar um aumento de 65% em relação à mesma procura (2). Febre sintomática, infelizmente. A temática da contaminação como disseminadora da dor está presente no imaginário ocidental ao menos desde os gregos antigos – basta lembrarmos que a Ilíada, considerada o pilar fundamental da Literatura por estas bandas, tem início com as baixas que flechas infecciosas de um colérico Apolo impõem ao exército grego intentando vingar Crises, sacerdote ultrajado pelo rei Agamêmnon no acampamento de guerra próximo à Troia, e que Édipo Rei, a mais célebre das tragédias clássicas, representa a ruína de seu protagonista a partir da tentativa de livrar Tebas de uma misteriosa peste –, mas é decerto com Camus que ela encontrou uma versão terminante.

Fonte: blogbertrand.

Enquanto redijo este texto, na madrugada de 08 de abril de 2020, absorto em reflexões sobre o que poderá ser de nós, a chuva lava a vila em que moro, localizada à sombra de um melancólico Maracanã – como tantas vezes em sua história recente, gigante impotente forçado ao silêncio. As 137 mortes da rádio argelina de Camus ecoam de modo assustador no último noticiário nacional: tornamo-nos o primeiro país da América Latina a ultrapassar oficialmente a centena de perdas em vinte e quatro horas. No dia que acaba de findar, 114 famílias choraram a perda dos seus – em última instância, a despeito das diferenças de um país cindido, dos nossos (3). O prognóstico, sabemos, é dos piores. A fim de torcer a tarefa desta escrita na direção de algum alento, lanço-me a um futuro sem prazos imagináveis: que sensação nos tomará de assalto quando voltarmos às arquibancadas de nossa cidade, Orã dos tristes trópicos, a entoar cânticos ao longo do espetáculo singular que é uma partida de futebol?

2º - Corinthians: 20.702.001Corinthians encara Flamengo em busca de semana mais tranquila
Fonte: Portal R7.

Camus não me ajuda a pensá-lo apenas por sua contribuição à Literatura e ao Teatro. Ao lado de sua obra, há a sua própria vida (4). Antes de se tornar um craque com as palavras – digamos, meio-campista a distribuir o jogo –, ainda jovem ele sonhara em ser futebolista. Conta-se que, durante a infância paupérrima que teve, sua avó não lhe poupava reprimendas após as peladas que disputava pelas zonas populares de Argel, pois elas punham em risco a integridade dos parcos sapatos que o menino possuía. Quis o destino que, na universidade, Camus abandonasse em definitivo a pretensão de atuar em qualquer uma das dez posições móveis do jogo para se dedicar à derradeira proteção das redes: tornou-se goleiro da Racing Universitaire Algérois (RUA), numa época em que foi deveras reconhecido como bom jogador. Ao cabo, sua carreira foi abreviada – coincidência maldita nestes tempos de coronavírus – graças à ação de uma doença respiratória: a tuberculose, que havia tempos lhe acompanhava e por fim se agravava. De todo modo, a paixão pelo futebol o dominou ao longo de toda sua existência. São lindas as imagens registradas no Parc des Princes em outubro de 1957, em que Camus, um dos 35.000 presentes ao confronto entre Mônaco e Racing Club de Paris – clube com as mesmas cores do time universitário que defendera na Argélia –, expressa indulgência em face de uma reação irremediavelmente lenta do porteiro da equipe parisiense. Entrevistado depois do gol, Camus defende seu confrade das insinuações de culpa, afirmando em tom compassivo que é preciso assumir o encargo de atuar sob as traves para saber quão difícil é suportá-lo. Afinal, o goleiro que, uma vez humilhado, busca a bola ao fundo das redes e retorna ao seu posto de cabeça erguida age qual um Sísifo amplificado, a rolar sempre e novamente sua pedra ante a multidão que dele desdenha. Não é preciso muita imaginação para pintar um encontro entre Camus e Nelson Rodrigues, a dramatizarem juntos, envoltos na fumaceira de seus cigarros, defesas candentes e indeléveis em prol do mais descabido dos frangos.

Mortais, quando este pesadelo passar – e haverá de passar –, quando enfim pudermos experimentar a banalidade metafísica do primeiro gol pós-apocalíptico, que possamos novamente nos entregar sem receios ao abraço no desconhecido – um cara de cavalo qualquer, da Argélia ao Brasil de Oiticica, com o mesmo escudo ao peito –, sem receios de que este gesto fraterno nos condene a jamais participar de novas peregrinações aos estádios. Eis a verdade: embora absurdo – ou porque absurdo? –, jaz no futebol uma fonte inesgotável de sentido para a tragédia que somos. Camus bem o sabia. Sabemos bem todos nós.

Notas de Rodapé:

(1) O Globo.

(2) O Globo.

(3) Folha de SP.

(4) Folha de SP.

(5) Youtube.