Artigos

O sonho de Piba

Por César R. Torres* y Francisco Javier López Frías**, especial para Página 12

Mara Gómez sonha em ingressar oficialmente ao Club Atlético Villa San Carlos da cidade de Berisso, uma das dezessete participantes do Campeonato de futebol feminino da Primeira Divisão A. Seu treinador, Juan Cruz Vitale, pretende colocar a jovem atacante na equipe em breve. Se autorizado pela Associação Argentina de Futebol (AFA), Gomez se tornará a primeira jogadora transgênero nesse campeonato. Embora existam antecedentes parecidos em outras ligas e campeonatos do país, o caso de Goméz desperta mais atenção por tratar-se do estágio mais elevado do futebol feminino nacional.  Por sua parte, Gómez declarou que ficaria encantada se o presidente da AFA a chamasse para, em relação ao seu sonho futebolístico, lhe dizer: “Fique calma, está tudo bem”.

Mara Gómez, con la pelota en las calles de La Plata.
Mara Gómes. Fotografia por Enrique García Medina. Fonte: Página 12.

Em uma entrevista recente publicada neste diário, Gómez relata experiências de descriminação e afirma que o futebol não era apenas um importante apoio a sua identidade de gênero, mas também uma razão de viver. O futebol, diz ela, “salvou minha vida”. Em relação a seu sonho de participar do Campeonato de Futebol Feminino da Primeira Divisão A, Gómez pede à liderança do futebol que se pergunte “se você já sentiu como é feio quando te fecham a cara.”, que se coloque no lugar do outro e que a escute tendo em conta o que o futebol significa para ela. A jogadora pede, nada mais e nada menos, que se respeite sua condição de cidadã em uma sociedade liberal-democrática e que seja permitido atuar como tal. Esse tipo de sociedade se define, entre outras coisas, pelo respeito à pluralidade de formas de vida e pelo empoderamento das pessoas para que desenvolvam os planos de vida que valorizam.

Como afirma o filósofo Charles Taylor em seu famoso livro The Ethics of Authenticity, o princípio chave das sociedades democrático-liberais é a autencidade; isto é, que cada um possa definir sua vida como quiser, com base em suas ideias e valores, é claro, assumindo que isso não prejudique outras pessoas. A filosofia kantiana, exemplificada por filósofas como Adela Cortina ou Martha Nussbaum, chama isso de princípio da autonomia ou autodeterminação. Ele reconhece e incentiva a capacidade das pessoas de estabelecer suas próprias regras sobre como viver. Independentemente de como seja entendido, esse princípio pode ser usado para que a AFA autorize Gomez a participar do Campeonato de Futebol Feminino da Primeira Divisão A. Como nas sociedades democráticas-liberais cada um deve poder forjar sua vida, e dado, desde já, que o futebol é substancial para Gómez, não se deve impedi-la de acessar a esse popular esporte na sua tentativa de criar uma vida significativa que respeite seu gênero autopercebido. Além disso, as pessoas devem ser empoderadas para alcançar o tipo de vida que têm razões para valorizar.

No entanto, a potencial autorização da AFA para Gómez de participar do Campeonato de Futebol Feminino da Primeira Divisão A é rejeitada sob a noção de que as jogadores de futebol transgêneros teriam vantagens competitivas sobre jogadoras de futebol cisgênero. De fato, antes de sua chegada ao Villa San Carlos Athletic Clube, “as equipes rivais a observaram e ergueram a voz: não queriam que uma mulher trans participasse porque, argumentavam, ela tinha vantagens”. As supostas vantagens competitivas seriam baseadas em suas características genéticas. Este argumento foi exemplificado em um comentário impiedoso referido por Gomez. Ele indicou que a jogadora “é um cara vestido de mulher, nasceu homem, vai morrer homem e sempre terá mais vantagens que uma mulher, porque tem mais força: ele vai quebrar a perna de alguém”.

A afirmação de que as jogadoras transexuais teriam vantagens competitivas sobre as jogadoras cisgêneros é discutível. Em primeiro lugar, é importante destacar que o rendimento no futebol é multifacetado e não reduzível ao atendimento em uma qualidade ou condição única. Nem força nem a velocidade, por exemplo, explicam adequadamente a excelência neste esporte. Além disso, alguém pode ser forte e/ou veloz e não se destacar futebolisticamente. Gómez disse isso de forma convincente: “Acho que você pode ter força e velocidade, mas se não tem táticas, inteligência e outras capacidades, elas não te servem de nada. Acho que tem a ver com a capacidade e treinamento, não com biologia”. Ou seja, no futebol ser menos forte ou veloz que o resto das jogadoras não implica estar necessariamente em desvantagem competitiva.

Gómez nega ser mais forte que o resto das jogadoras de futebol. A respeito disso, ela disse: “Conheço muitas garotas que chutam com mais força do que eu. Eu vivi no campo e posso provar para qualquer um: posso encontrar 20 jogadoras com o chute mais forte que eu e outras 20 que correm mais rápido”. Mesmo que Gómez fosse mais forte que as jogadores cisgêneros, isso não significa necessariamente que elas têm um risco maior de lesão na sua presença do que na sua ausência. Pelo menos, deve-se reconhecer que não há evidência disponível que afirme ou sugira que esse seja o caso quando se leva em conta a dinâmica do futebol. Não é incomum jogadores menos fortes prejudicarem os mais fortes.

A fim de neutralizar as supostas vantagens competitivas e o maior risco de lesões de jogadores de futebol cisgênero, atletas transexuais e intergêneros são obrigados a demonstrar um nível de testosterona dentro do considerado “normal” para mulheres cisgêneros. Caso contrário, eles devem reduzi-lo artificialmente ou competir com os homens. Tanto Gómez quanto seu clube “são calmos a esse respeito: eles têm estudos que respondem aos parâmetros permitidos”. Apesar disso, Gómez nega a exigência de ser discriminatório: “Eles apelam à força para nos excluir. Messi é o melhor do mundo e supera rivais cada vez mais fortes. E ele não está sujeito a esses controles”.

Vale destacar que parte da comunidade científica desconfia da presunção de que a testosterona melhore o rendimento esportivo. Por outro lado, esse requisito define a feminilidade em relação a um certo nível de testosterona, o que é problemático, entre outras razões, por que é arbitrário. Além disso, é inadequado submeter as jogadoras com alto níveis de testosterona a um tratamento farmacêutico, que apresente risco à saúde, para satisfazer uma duvidosa definição de feminilidade.

Que este seja um requisito para atletas trans e inter-sexos praticarem esportes reflete que há atrito entre certos direitos e sua lógica interna. Uma mulher que não se enquadre nas regras habituais é obrigada a sacrificar ou limitar sua capacidade de autodeterminação para poder praticar esporte com seus pares “normais. Nossa intenção não é debater as justificativas dessa postura, mas sim mostrar a necessidade de, primeiro, obter mais evidências sobre o efeito da participação das atletas transgênero no jogo e, em segundo lugar, incentivar o pensamento sobre os valores que devem prevalecer nas decisões que afetam tanto aos sonhos das futebolistas quanto ao esporte que tantas pessoas amam. Dito isso, e de acordo com o que foi exposto neste artigo, o presidente da AFA faria bem em atuar como o carteiro de tango que inspira seu título e informar a Gómez que em breve ela poderá cumprir seu sonho no futebol.

Texto originalmente publicado em Página 12 no dia 23 de janeiro de 2020.

* Doutor em filosofia e história do esporte. Professor da Universidade Estadual de Nova York (Brockport).

** Doutor em filosofia. Professor da Universidade Estadual da Pensilvânia (University Park).

Tradução livre: Fausto Amaro e Marina Perdigão (LEME/UERJ).