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Futebol nordestino e taça Libertadores: uns chegaram, outros quase

E o Fortaleza, quem diria, chegou à Taça Libertadores da América. Um clube que em 2017 ainda estava na Série C.

Foi uma ascensão meteórica. Subiu à Série B de 2018, depois à Série A de 2019 e se impôs como um clube que desafiava os grandes do país. Ficou em quarto lugar nessa Série A de 2021. É o quarto clube nordestino a chegar na prestigiada competição continental. Antes, apenas Bahia, Náutico e Sport haviam se classificado.

Participações nordestinas, em 62 disputas da Libertadores (de 1960 a 2021), foram apenas seis. O Bahia esteve na competição três vezes (1960, 1964 e 1989), o Sport duas (1988 e 2009) e o Náutico uma (1968). É fácil perceber, então, que a Libertadores, para o futebol do Nordeste, é uma raridade. Chegar lá é um feito merecedor de enorme comemoração, exatamente como fez o time e a torcida do Fortaleza.

“Libertadores, prazer, soy Fortaleza” (foto: Jornal do Ceará)

Para os nordestinos que ainda não chegaram à Libertadores, fica a frustação. Frustração por não participar de uma competição que ganhou (e continua ganhando) cada vez mais importância com o passar dos anos. E o que é mais grave para alguns torcedores: fica também o amargor de ver o arquirrival se vangloriar da sua façanha. Um amargor que se torna ainda pior para os que já chegaram muito perto de também se classificarem, mas perderam a chance. É o caso do Santa Cruz, do Ceará e do Vitória.

O Santa Cruz chegou perto da Libertadores no ano de 1975, durante a disputa do Campeonato Brasileiro. Depois de começar com um desempenho mediano na primeira fase, o time melhorou nas duas etapas seguintes da competição e se classificou à semifinal, que seria disputada em partida única contra o Cruzeiro. O local do jogo seria o estádio do próprio Santa Cruz (o Estádio do Arruda).

Três dias antes da partida contra o Cruzeiro, o Santa Cruz havia vencido o Flamengo no Estádio do Maracanã por 3 a 1. Foi essa vitória que classificou o time para a semifinal, além de eliminar os flamenguistas da competição. O entusiasmo depois dessa partida contagiou a torcida em Recife.

O Santa Cruz, então, vinha de uma empolgante vitória no Rio de Janeiro e precisava de um novo êxito em seu próprio estádio para chegar à final do Campeonato Brasileiro (e, consequentemente, se classificar à Libertadores do ano seguinte). Parecia bem possível e alguns achavam que não seria tão difícil.

Mas o jogo foi duro e estava empatado em 2 a 2 aos 45 minutos do segundo tempo. Foi quando o cruzeirense Palhinha marcou o terceiro gol do seu time. O Cruzeiro classificou-se à decisão e o Santa Cruz perdeu a oportunidade de ir à Taça Libertadores da América. Oportunidade que não se repetiu mais na história do clube.

Flamengo 1 X 3 Santa Cruz (Maracanã, 1975) Imagem: Museu da Pelada (internet)

O Santa Cruz não chegou à final, mas o Vitória, de Salvador, chegou. E chegou duas vezes.

Primeiro, chegou à final do Campeonato Brasileiro de 1993, mas naquele ano apenas o campeão se classificava à Libertadores, ao lado do campeão da Copa do Brasil. O Vitória, então, precisava vencer o seu adversário na decisão. Era o Palmeiras. Nas duas partidas da final, os palmeirenses venceram. Por 1 a 0 (em Salvador) e por 2 a 0 (em São Paulo).

Em 2010, o Vitória chegou novamente a uma decisão que valia vaga na Taça Libertadores. Dessa vez, era a final da Copa do Brasil. O adversário, assim como em 1993, era um time paulista: o Santos, que já contava com o talento de Neymar. Na primeira partida da final, em Santos, o time local venceu por 2 a 0. A segunda partida, em Salvador, foi vencida pelo Vitória, mas por 2 a 1, o que deu o título de campeão ao Santos pelo saldo de gols da final. 

Além dessas duas decisões nacionais, o Vitória esteve perto da competição sul-americana em mais duas oportunidades: 1999 e 2013.

Em 1999, o clube chegou à semifinal do Campeonato Brasileiro, Caso passasse à final, estaria classificado para a Libertadores. Mas foi desclassificado pelo Atlético Mineiro em uma partida realizada no Estádio Barradão, o estádio do próprio Vitória, que recebeu naquela noite mais de 30.000 torcedores. Os atleticanos venceram a terceira partida da semifinal pelo acachapante placar de 3 a 0.

Em 2013, os quatro primeiros colocados do Campeonato Brasileiro classificavam-se para a Libertadores do ano seguinte. O time de Salvador chegou à última rodada com chances de terminar a disputa exatamente em quarto lugar, mas precisava derrotar o seu adversário. Esse adversário era, de novo, o Atlético Mineiro. A partida, em Belo Horizonte, terminou empatada em 2 a 2 e o Vitória, afinal, ficou na quinta colocação, dois pontos a menos do que o Botafogo, que foi o quarto colocado. Decepção rubro-negra mais uma vez.

Palmeiras 2 X 0 Vitória (final do Campeonato Brasileiro de 1993) Imagem: YouTube

O Ceará teve sua grande chance de ir à Libertadores no ano de 1994, quando chegou à final da Copa do Brasil. O adversário nas duas partidas da final foi o Grêmio. Em Fortaleza, a primeira partida terminou empatada em 0 a 0.

Na segunda partida, em Porto Alegre, o Grêmio marcou um gol logo aos 3 minutos de jogo. Aos 31 minutos do segundo tempo, deu-se o lance que revolta os torcedores do Ceará até hoje: Sérgio Alves foi derrubado na área adversária e o seu time exigiu a marcação do pênalti. O árbitro Oscar Roberto de Godoy considerou o lance normal e, diante das reclamações, deu cartão vermelho ao próprio Sérgio Alves. Outro jogador do Ceará, Vitor Hugo, também recebeu cartão vermelho pouco depois, o que deixou o time cearense em condição de desvantagem irremediável. O resultado final foi 1 a 0 para o Grêmio. Mais de 25 anos depois, os protestos cearenses contra a arbitragem ainda continuam.

Grêmio 1 X 0 Ceará (final da Copa do Brasil de 1994) Foto: jornal O Povo (Ceará)

O Ceará só voltou a estar perto de se classificar para a Libertadores nos dois últimos Campeonatos Brasileiros: 2020 e 2021. Em 2020, porém, o time chegou à última rodada do campeonato já sem chance matemática de classificação. Em 2021, foi um pouco diferente.

Na 33ª rodada da Série A de 2021, o Ceará impôs uma goleada por 4 a 0 ao rival Fortaleza. O placar empolgou a sua torcida e colocou o time na luta pela classificação à Libertadores. Mas nas cinco rodadas seguintes, que ainda restavam até o fim do campeonato, o Ceará vacilou e obteve apenas uma vitória. Em sua última partida, contra o Palmeiras, precisava vencer para ainda ter a chance de ficar em oitavo lugar e, assim, conquistar uma vaga na Libertadores de 2022. Foi derrotado e ficou em 11º lugar. A goleada de 4 a 0 diante do Fortaleza de nada adiantou.

Chegar perto e não se classificar é frustrante, mas os clubes e suas torcidas não desistem porque sabem que essa não é uma opção.

O próprio Fortaleza, que hoje comemora sua primeira classificação para a Libertadores, serve de exemplo. O clube conheceu bem essa experiência de chegar perto, mas não se classificar. Na Taça Brasil de 1960, foi o vice-campeão. Naquela ocasião, porém, apenas o campeão era indicado para a Libertadores. Na Taça Brasil de 1968, o Fortaleza voltou a ser o vice-campeão e poderia, com justiça, ser indicado junto com o campeão (o Botafogo) para a Taça Libertadores de 1969. Mas aquela Taça Brasil de 1968 apresentou sérios problemas e sofreu um atraso fora do comum. Chegou ao fim apenas em outubro de 1969. O Brasil, assim, ficou sem representantes na Libertadores daquele ano.

O Fortaleza, com direito a ir à Libertadores em 1969, não foi. Mais de meio século depois, tem direito a ir novamente. “Dessa vez vai jogar”, como disse Cassio Zirpoli.

Serve de inspiração, talvez, para Santa Cruz, Vitória, Ceará e outros.

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A parte que nos cabe nessa pandemia

O período de 2020 certamente ficará lembrado na história como o ano das incertezas. Esse cenário, em muito, está relacionado com a pandemia do COVID-19 que redefiniu nossas formas de convivência social, de higiene com o corpo, de trabalho e de lazer.

Reconhecida no mundo desde dezembro de 2019, a doença se caracteriza por uma fácil disseminação entre as pessoas e uma dificuldade de identificação daqueles indivíduos que estão com a doença (assintomáticos). Nesse cenário, até o momento, a doença levou quase 1 milhão de pessoas a óbito no planeta todo e ultrapassou a casa dos 30 milhões de infectados. No Brasil, terceiro maior país afetado pela COVID-19, o número de óbitos está próximo de 140 mil e o de infectados é de quase 4,5 milhões de pessoas.

O desconhecimento acerca dessa nova doença (sintomas, profilaxias, tratamentos e consequências clínicas) ainda hoje representa um desafio para a comunidade cientifica e a população mundial. Como medida de combate ao novo coronavírus, uma das ações reconhecidamente eficazes para mitigação do contágio foi a implementação do distanciamento social e das medidas de lockdown (fechamento de serviços não-essenciais) com a intenção principal de diminuir a curva de infecção da doença e não sobrecarregar a estrutura hospitalar dos países.

As estratégias de distanciamento social e lockdown foram eficazes em reduzir as mortes e contágios, mas impactaram diretamente no desenvolvimento econômico dos países afetados provocando crises na cadeia de produção, retração do consumo, falências, desemprego e recessão. Essa crise causada pelo novo coronavírus também atingiu o futebol, já que esse faz parte da indústria do entretenimento, uma das mais afetadas pelas medidas de distanciamento social.

No caso do Brasil, o futebol é uma indústria que movimenta muito dinheiro. Segundo dados da consultoria Ernest Young, em 2019 o futebol gerou 53 bilhões de reais à economia nacional. Dentro desse montante, estão inseridos pagamentos de salários, patrocinadores, cotas de televisão, mão de obra indireta para realização das partidas, dentre outros. Com o advento da COVID-19 essa indústria se viu seriamente atingida pela suspensão das partidas, impossibilidade de público e o cenário de incertezas acerca das chances de retorno.

uol.com.br

Após quase 4 meses de interrupção dos campeonatos no Brasil, os clubes brasileiros, as federações, a CBF e a mídia esportiva começaram a debater as possibilidades de retorno do futebol. Nesse aspecto, posições antagônicas foram verificadas entre aqueles que defendiam a volta sob condições específicas de protocolos sanitários e outros que enxergavam a volta como precipitada, principalmente pelo contexto de aumento das mortes e do contágio visto nos meses de junho e julho.

Passados quase 3 meses da volta do futebol, podemos constatar que os protocolos sanitários utilizados no futebol vêm tendo relativo sucesso em mitigar o contágio entre os atletas e os funcionários que trabalham no entorno do espetáculo. Contudo, é evidente a existência de desproporcionalidades nas possibilidades de aplicação dos protocolos em face das desigualdades existentes entre clubes e federações dentro do Brasil. Além disso, os casos verificados recentemente no Flamengo, com 7 jogadores infectados no Equador, ou os 14 infectados no Boca Juniors reforçam a compreensão de que não existe protocolo 100% eficaz.

Ao entrarem em campo pelos campeonatos e realizarem deslocamentos cada vez maiores, seja pelo Brasil nos campeonatos nacionais ou pela América do Sul nos campeonatos internacionais, esses atletas estarão inevitavelmente se expondo ao risco de contaminação existente nos hotéis, estádios, aeroportos e transportes fretados.

A possibilidade de infecções e surtos entre os atletas era e ainda continua sendo um dos pontos principais do debate sobre o retorno do futebol, principalmente por aqueles que advogam que o retorno foi precipitado. Há riscos? Sim, Claro! Os casos de Flamengo, Boca Juniors, Corinthians e Atlético Goianiense nos mostram que a criação de bolhas é cada vez mais difícil.

brasil.elpais.com

Diante dos riscos óbvios e da possibilidade factível de óbito, à época dos debates sobre a volta do futebol muito foi debatido sobre a necessidade de alteração dos formatos dos campeonatos. Os argumentos para mudanças versavam sobre: minimizar riscos de contágios criando uma sede única para as competições; extinção dos estaduais; e redução das rodadas dos campeonatos para que isso não inchasse ainda mais o calendário brasileiro, já tão cheio.

A grande imprensa televisiva, impressa e digital em seus debates pontuou que havia por parte dos clubes uma dose de irresponsabilidade e insensibilidade por preconizarem os campeonatos nos moldes existentes pré-pandemia. Alguns analistas até viram doses de negacionismo nos clubes e seus dirigentes. A intenção desse artigo não é defender os clubes e seus dirigentes, mas entender os motivos pelos quais não abriram mão do formato estabelecido em períodos de normalidade.

O futebol é como um produto econômico, formado por uma cadeia de agentes que produzem, distribuem e consomem um bem com vistas a obtenção de lucro. Nesse sentido, os clubes são apenas uma parte desse processo. Colocar-lhes toda a culpa é perder de vista o fenômeno como um todo, ou como remete o título, a parte que nos cabe nessa pandemia.

Uma das maiores preocupações dos clubes com a mudança de fórmulas e redução de campeonatos residia na diminuição das cotas de televisão e de patrocínio que ganhariam das emissoras e das empresas atreladas a eles. Lembremos que no Brasil, segundo dados do Itaú BBVA, os direitos de transmissão e os patrocínios representaram, em 2019, respectivamente 41% e 11% de todas as receitas produzidas pelos clubes, ou seja, mais de 50% da arrecadação bruta.  

Em campeonatos com menos rodadas, as emissoras pagariam proporcionalmente ao tamanho deles, dito isso, torneios com 19 rodadas, ao invés de 38 rodadas, renderiam aos clubes metade daquilo que estava previsto. Num efeito em cascata, os patrocinadores estampados em camisas, placas de publicidade, matchday e marketing de ativação também corrigiriam seus pagamentos proporcionalmente.

Num cenário no qual os clubes brasileiros estão afundados em dívidas e muitas das rendas futuras já estão penhoradas para pagar débitos, perder essas cotas significaria mais um duro golpe nos clubes. Ainda mais porque receitas como bilheteria (14% da arrecadação bruta) e venda de jogadores (23% da arrecadação bruta) estariam comprometidas nesse momento de pandemia. Na verdade, é possível dizer que os clubes não tiveram muita opção de escolha pelo formato. Os imperativos do mercado e a situação financeira deles não possibilitaram margem de manobra razoável para escolher.

O ponto principal é a reflexão sobre a responsabilidade que cada agente dentro desse campo deveria ter tido para que os atletas e profissionais envolvidos no espetáculo não se expusessem aos riscos de uma volta precoce e nos formatos pré-pandemia. Emissoras, empresas, patrocinadores e investidores do futebol deveriam ter pensado “qual parte me cabe nessa pandemia?”. Obviamente a pergunta seguinte a ser feita seria: O que poderia ser feito por esses agentes? Eles poderiam manter os valores a serem pagos esse ano pelos formatos antigos, mesmo implantando um novo formato de exceção. No futuro negociava-se a restituição desses valores parcelada. Poderia ter sido criado um fundo de ajuda aos clubes por parte da CBF ou criação de um sistema de empréstimos a juros baixos junto aos clubes, mas fixado as cotas de patrocínio e televisão do futuro.

Todas essas propostas são possibilidades e especulações, mas reforçadas por uma certeza: a principal conta da pandemia no futebol recaiu sobre os clubes e os atletas. Ao mesmo tempo, parte da mídia esportiva construiu uma narrativa que “vilanizou” as agremiações esportivas e seus dirigentes, sem, no entanto, refletir sobre a parte de esforço que cabia a outros agentes do futebol para proteger os atletas e os profissionais envolvidos no espetáculo. Se todos – empresas, emissoras, clubes, jogadores, investidores – tivessem socializado parte das perdas, abrindo mão de algum quinhão dos seus recursos, talvez não tivéssemos que impor aos clubes uma “escolha de Sofia” que aumenta o risco de todos ao contágio. Às emissoras caberia ultrapassar o limite do discurso de preocupação com a volta do esporte e agir ativamente para apoiar os clubes para que eles não precisassem voltar agora, e aos comentaristas debater o todo do problema e não somente uma fração dele.

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O inusitado tira-teima brasiliense de 1969

Nas atividades institucionais do futebol profissional, não cabem improvisos. Como em uma empresa, o planejamento busca garantir eficiência e deve ser seguido à risca. Estão todos envolvidos em contratos, obrigações mútuas, segurança jurídica. Cumprir o que está previsto (porque assim foi acertado) é a ordem. Assim evitam-se contestações e crises. O calendário esportivo de cada campeonato, por exemplo, deve ser mantido intacto (alterações são admitidas apenas em casos excepcionais e devem ser limitadas).

Já no futebol amador, a comunidade futebolística se sente mais à vontade para fazer ajustes de última hora e tomar decisões repentinas, de modo improvisado. Há um caso interessante que é exemplo disso. Ocorreu em Brasília no ano de 1969.

O Campeonato Brasiliense daquele ano contou com a participação de clubes profissionais e amadores. O processo de profissionalização do futebol local, tentado de 1964 a 1968, havia fracassado e a CBD autorizou a realização de um torneio que mesclasse amadorismo e profissionalismo. Eram 24 clubes no total (o maior número de participantes de um Campeonato Brasiliense até hoje). A competição recebeu o nome de Taça Brasília.

Quando o campeonato estava perto do fim, o Grêmio Brasiliense liderava e parecia dificílimo que não fosse o campeão. Tinha dois jogos a disputar pela fase final e estava na primeira posição com apenas 3 pontos perdidos (na época, os pontos perdidos recebiam mais atenção do que os pontos ganhos). Já havia disputado 19 partidas em todo o campeonato e perdido apenas uma. Toda a sua torcida tinha certeza de que venceria mais duas vezes. Mas ao enfrentar seu penúltimo adversário, os gremistas foram surpreendidos. Perderam para o Flamengo de Taguatinga por 2 a 1 e caíram para a segunda colocação, com 5 pontos perdidos.

No mesmo dia, o Coenge, que tinha 4 pontos perdidos, disputou a sua última partida. Enfrentou o Brasília (que apesar desse nome, era de Taguatinga). Ao vencer por 5 a 1, o Coenge se manteve com 4 pontos perdidos e tornou-se o campeão de 1969. O Grêmio Brasiliense, mesmo que vencesse o seu último jogo, continuaria em segundo lugar com os 5 pontos perdidos.

COENGE
Brasão do Coenge

A reviravolta surpreendeu a quem acompanhava o campeonato. Segundo o jornal Correio Braziliense, “ninguém esperava a derrota dos gremistas diante dos rubro-negros” (Correio Braziliense, 21/10/1969) e falou-se repetidas vezes, nos dias seguintes, em falta de sorte, decepção e tristeza dos atletas e torcedores do Grêmio Brasiliense. Surgiu, então, a proposta de promover um tira-teima: Coenge e Grêmio Brasiliense enfrentando-se diretamente para definir “quem realmente é o melhor”, como disse o Correio Braziliense na edição de 28 de outubro. A proposta foi apresentada pelo dirigente Wilson Andrade, da Federação Desportiva de Brasília (FDB).

O título de campeão do Distrito Federal não estaria em jogo. O Coenge, caso fosse derrotado na disputa, continuaria sendo considerado o campeão da Taça Brasília, ou seja, o campeão brasiliense de 1969, embora o termo “tira-teima” pudesse indicar o contrário. Essa garantia dada ao Coenge não impedia a imprensa de dizer que o duelo tinha o objetivo de mostrar qual era o melhor time da capital federal naquele ano. A disputa se daria em uma melhor-de-três e o vencedor receberia o troféu Casa do Atleta. O Coenge aceitou.

Um torneio “inventado” repentinamente, sem qualquer planejamento. Os dirigentes da FDB pareciam não perceber que aquele duelo poderia desacreditar e deslegitimar a principal competição da própria FDB, já que lançava uma dúvida sobre o título de campeão do Coenge. Era uma iniciativa própria do amadorismo. Sua motivação era inteiramente sentimental: a estupefação pelo revés de um favorito na última rodada do campeonato brasiliense.

Deveria ser um torneio amistoso e de importância menor. A atitude dos dois clubes, porém, foi outra. A diretoria do Coenge prometeu um prêmio em dinheiro aos seus atletas em caso de vitória. Além disso, houve preocupação com o local de concentração antes das partidas (os dirigentes do Coenge tiveram o cuidado de pôr os seus jogadores em um hotel considerado mais tranquilo). Já o Grêmio Brasiliense reclamou da escolha do trio de arbitragem na terceira partida e declarou que jogaria “sob protesto contra a decisão da FDB” (Correio Braziliense, 22/11/1969). As disputas dentro de campo foram acirradas e, ao fim da segundo jogo, houve confusão:

(…) logo após o término da partida, registrou-se um tremendo “sururu”, sendo necessária a pronta intervenção da polícia para serenar os ânimos dos mais exaltados (Correio Braziliense, 11/11/1969).

A primeira partida foi realizada em 2 de novembro de 1969 no Gama (a cidade-satélite do Coenge). Foi uma peleja animada, “com as duas equipes se empenhando a fundo para a conquista do troféu” (Correio Braziliense, 09.11.1969). O resultado final foi 2 a 2. A segunda partida ocorreu sete dias depois, no Núcleo Bandeirante (cidade-satélite do Grêmio Brasiliense). Outra partida animada. Terminou empatada em 1 a 1 e, como já foi dito, houve confusão após o apito final do árbitro.

A terceira partida foi marcada para o estádio da FDB. Como o gramado estava em fase final de manutenção, o jogo só aconteceu duas semanas depois do segundo confronto. Foi um evento pomposo. O estádio, um dia antes, foi batizado como o nome de Pelé. Uma placa de acrílico (provisória) foi instalada em sua homenagem. A previsão era substituí-la em breve por outra, de bronze, que seria descerrada com a presença do próprio Pelé. O governador do Distrito Federal, Hélio Prates da Silveira, compareceu à partida e deu um pontapé inicial simbólico. O presidente da FDB estava tão animado que até cogitou um jogo da seleção brasileira na capital federal, em abril de 1970, pouco antes da viagem da delegação nacional para a disputa da Copa do Mundo no México.

GREMIO BRASILIENSE
Brasão do Grêmio Brasiliense

O Coenge venceu aquela terceira partida por 1 a 0 e se sagrou vencedor do tira-teima. Não podia haver mais dúvidas: era o melhor time do futebol brasiliense. Torcedores e jogadores comemoraram. Ficou acertado que o troféu seria entregue em um programa de televisão.

Mas ainda não era o fim da disputa. O Correio Braziliense noticiou no dia 26 de novembro: “TJD tira ponto do Coenge e vai haver quarto jogo”. A punição foi imposta porque o clube do Gama escalou, na primeira partida, um atleta considerado irregular. A quarta partida foi marcada para o dia 30 de novembro, novamente no estádio Edson Arantes do Nascimento.

Na quarta partida do tira-teima, o Grêmio Brasiliense venceu por 1 a 0. O gol foi de Ademir, de cabeça, aos 28 minutos do primeiro tempo. No segundo tempo, o destaque foi o goleiro gremista, Elizaldo, que garantiu com grandes defesas a vitória do seu time. “Embora superior ao seu adversário, o Coenge não conseguiu reproduzir em tentos essa superioridade, e deixou que o troféu lhe escapasse depois de ter demonstrado em todos os jogos melhor organização que o seu adversário” (Correio Braziliense, 02/12/1969).

Encerrado o tira-teima, os clubes logo passaram a se preocupar com os próximos amistosos que disputariam. A derrota do campeão de Brasília repercutiu pouco. Como previsto, o título de campeão do Coenge permaneceu intacto, sem contestações. Até hoje, todas as listagens sobre os campeonatos do Distrito Federal indicam o clube gamense como o campeão de 1969. Não há polêmica quanto a isso.

Foi um torneio de motivação claramente amadora. Improvisado, interessado em atiçar rivalidades e em pôr os times em movimento. De aspecto profissional, havia apenas a perspectiva de algumas rendas a mais oriundas das bilheterias. Foi quase um torneio-divertimento, apesar da supervisão da FDB, que lhe dava um caráter oficial. O tira-teima assemelhava-se ao caso de um time que, após ser derrotado com um gol no último minuto, provoca o vencedor: “Vamos jogar 30 minutos adicionais para ver se vocês confirmam a vitória ou se conseguimos empatar”.

Enquanto isso, no Rio de Janeiro e em São Paulo, o futebol profissional se dedicava às contratações para montagem de grandes times e à organização do Robertão (a competição que serviria de inspiração para o Campeonato Brasileiro instituído pela CBD em 1971).

O futebol brasiliense adotou o profissionalismo apenas em 1976 (dessa vez, com sucesso).

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