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Eu sou o 8! Sobre possibilidades e impossibilidades de escolher um número para jogar futebol

A barba grisalha, aumentada toda vez que é aparada, e os fios de cabelos brancos cada vez mais visíveis poderiam ser uma única via de visualização de que o número de aniversários tem se somado mais rápido do que poderia ter imaginado em qualquer circunstância. Muito mais do que aparentar pela coloração de pelos, a repetição de aniversário também gera uma série de comportamentos específicos. Comportamentos que na infância e juventude foram alvo de muita queixa quando feito pelos homens de cabelos grisalhos ou mulheres mais velhas que quase sempre queriam ensinar aos jovens aquilo que pensávamos conhecer.

Um desses comportamentos remete ao saudosismo contemplado na expressão “meu tempo”. Por mais que esteja absolutamente convicto de que o meu tempo é agora, também me autorizo a contar que no “meu tempo” algumas coisas eram diferentes. No meu tempo a escalação de um time de futebol no Brasil ia do 1 ao 11, do goleiro ao ponta esquerda (tendo sido mais fortemente introduzido ao futebol na Copa do Munda da Itália de 1990, o ponta esquerda já era uma figura mais fortemente associada ao “antigamente”, mas mantinha seu valor simbólico).

As escalações eram um tanto mais simples. O número 1 era o goleiro. Sendo torcedor do Grêmio, cheguei a pensar que o número 1 era exclusivamente do Darlei, conquanto fizesse uma ou outra concessão para o Taffarel na seleção brasileira. Nas laterais tínhamos o 2, bem representado por Jorginho, Cafu e, o mais maravilhoso para os gremistas, Arce, na direita, e o 6, na esquerda. Apesar de Júnior nos anos 1980 – meu primeiro ídolo que não jogou no Grêmio –, entendia que esse era o lugar dos canhotos (Branco, Leonardo, Roberto Carlos e Roger Machado). A defesa possuía um miolo de zaga bem composto pelos número 3, quase sempre mais associado a um jogador mais viril como Paulão e Rivarola no Grêmio ou Célio Silva no Internacional, e 4, se possível canhoto, mas para sempre uma liderança na defesa e com boa saída de bola. Outra vez o gremista lembrará dos destros Adílson Batista e do genial Mauro Galvão, além do não gremista, mas maior zagueiro baixo dos anos 1990, Carlos Gamarra.

Fonte: br.pinterest.com

O meio de campo iniciava com o 5. Esse era o protetor da defesa. Na variação para um esquema com três zagueiros, o número do terceiro zagueiro era sempre 5. No Grêmio os protetores foram Pingo e Dinho, na seleção o espetacular Mauro Silva e me parece que cabe uma lembrança a Capitão, da Portuguesa – o que jogou no Grêmio em final de carreira já não era tudo isso. Ânderson Polga foi o melhor exemplo de 5 como terceiro zagueiro. Eu peguei a transição do 8 de meia-direita para segundo volante. Apesar do Dunga na seleção, meu 8 favorito foi o Luiz Carlos Goiano no Grêmio – marcava muito e fazia gols de falta. O 10 ainda variava um tanto. Ele podia ser meia-esquerda, no melhor estilo Maradona, Zinho ou Carlos Miguel, um meia armador canhoto, como Alex, Djalminha ou Ricardinho, um meia-atacante, tal qual Pelé, Zico, Rivaldo ou Ronaldinho Gaúcho, ou, mesmo, o antigo meia-direita que não podia mais vestir a camisa 8. O dez era tão protagonista que, mesmo que o 10 campeão do mundo em 1994 fosse reserva, em todas as camisetas era esse número que aparecia, mesmo que para os gremistas os números 7 e 16 fossem mais importantes.

Começarei a escalação numérica dos atacantes pelo último, o 11 ponta-esquerda, talvez o último que tenha visto na seleção tenha sido o Elivélton, que era reserva no São Paulo. Essa escolha não é gratuita e tampouco uma homenagem para Éverton Cebolinha. Esse é o atacante transformado em quarto homem de meio de campo fechando a segunda linha. Alguns dos meia-esquerda citados no parágrafo anterior jogaram como 11 (Romário ficará para mais adiante). O 7 era sem dúvida o ponta-direita, mesmo que os pontas não existissem mais e fossem quando muito um segundo atacante. Bebeto me parece o melhor exemplo. Paulo César Tinga que migrou de um atacante mediano para um dos melhores segundos-volante que vi jogar manteve sua camisa 7. No Grêmio, consagrada pelos pontas-direitas Renato Portaluppi (ou Gaúcho para os brasileiros) e Paulo Nunes, a 7 ocupa o protagonismo do 10, o que autoriza que Luan tenha sido o rei da América como meia-atacante com a 7 e não com as 10 as suas costas. Por fim, o 9 “o centroavante, o mais importante” consagrado com Ronaldo Fenômeno, Careca e, também, Jael – o cruel! Como prometido, Romário, o maior de todos os 9, jogava com a 11. Na minha memória infantil esse é o primeiro número fixo. O 9 não usava a 9, mas a 11 e, obviamente, utilizando o critério mais científico existente no futebol, a superstição.

Fonte: gremiopedia

Durante o Campeonato Brasileiro de 2008, meu Grêmio chegou a liderar o torneio com 11 pontos a mais do que o São Paulo. Apesar de nosso excelente desempenho com 1 Victor, 3 Léo, 4 Pereira ou Jean, 5 Réver (terceiro zagueiro), 2 Paulo Sérgio, 8 Rafael Carioca, 11 William Magrão (o número do ponta-esquerda também servia para um segundo volante), 10 Tcheco, 6 Hélder (ou Anderson Pico), 7 Perea e 9 Marcel, o Grêmio resolveu adotar numeração fixa. Neófitos poderão me dizer que uma coisa não tem relação com a outra. Quando escrevo essas linhas, concordo, mas quando perdi o campeonato não tinha essa mesma convicção.

A numeração fixa permitiu números diferentes. Meu lateral direito titular é o 6 e o esquerdo é o 12 (todo mundo sabe que 12 é o número do goleiro reserva). Meu volante utiliza a 14 (e o Arthurzinho, aquele maravilhoso, usava a 29). O camisa 10 do Grêmio atualmente é o 21 e o meu camisa 9 se nega a jogar enfiado entre os zagueiros como é obrigação de todo camisa 9. O atacante de lado veste a 23. O herói da retomada de títulos do Grêmio era o 32. Nossa camisa 10 ficou 2 anos machucada com o clássico meia armador Douglas e agora é utilizada pelo centroavante, também machucado, Felipe Vizeu.

A numeração fixa deu oportunidade, também, para números esquecidos ou pouco prestigiados. Na Libertadores é uma tradição. Jardel consagrou-se no Grêmio com a 16. Fernandinho fez gol em final com a 21, assim como Cícero já havia marcado com a 27. 47, 88 e 99 também passaram a ser visualizados em uma equipe com apenas 11 jogadores.

Todo esse preâmbulo, com cara de texto completo, foi para falar de um número que segue proibido, o 24. No início do ano fui convidado a opinar sobre a inexistência de jogadores com o número 24 nas numerações fixas dos clubes divulgada naquele momento da temporada. Alguns dirão que é somente um número e estarão corretos. Sendo somente um número, por que não pode ser utilizado? Nesse cenário de polarização política, 13 e 17 continuam aparecendo nos uniformes sem restrições. Os clubes que participam das competições da Conmebol precisam eleger um 24 para não ficarem com um jogador a menos, uma vez que a inscrição é feita por números corridos do 1 ao 30. Ingenuamente pensei que isso resolveria a questão, mesmo conhecendo a estratégia de dar o 24 para um terceiro goleiro ou para um jogador estrangeiro, quase sempre reserva. Na cultura popular brasileira, o 24 é associado ao veado no jogo do bicho, e o veado é o adjetivo do homossexual nesse mesmo sentido comum. Apesar da inscrição nas competições sul-americanas, fui convidado, durante o mês de setembro a opinar novamente sobre o mesmo assunto, uma vez que entre todos os times das séries A e B existe somente um 24, justamente o terceiro goleiro Brenno, do Grêmio.

Fonte: torcedores.com

Como os jogadores, além de suas qualidades esportivas precisam representar um time, que representa um conjunto de torcedores, ainda parece necessário evitar o risco de ser contaminado com qualquer característica que coloque a extremamente frágil masculinidade dessas comunidades de sentimento em risco. Para não parecer tudo tão feio, as reportagens mostraram que em 2012, após a conquista da Libertadores, Cássio, goleiro do Corinthians queria rapidamente se livrar do número 24, após ser ironicamente provocado por um repórter. O goleiro Cássio nunca chegou a jogar com a 1 do Corinthians. Esse ano, porém, o goleiro Breno afirmou que esse número o marcará para sempre por ter sido o número de sua estreia em um Gre-Nal na Arena em que vencemos por 1 a 0.

Quando criança eu gostava da camiseta número 8. Eu podia jogar de frente e precisaria marcar, mas não tanto quanto o 5. Além disso, a 10 não me competia porque não tinha as qualidades necessárias. Esse texto não é para ser nostálgico. Ao contrário, a ideia é provocar e sugerir que nessa multiplicidade numérica todos os números tenham chance de aparecer as costas porque são simplesmente um número ou porque possam autorizar sujeitos a usarem esse pequeno espaço como um passo curto de luta política e afirmativa.

Fonte: mercadolivre
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O “lugar” do negro no futebol brasileiro

Não deveria chamar atenção e ter uma repercussão grande dois treinadores negros, que foram destaque como jogadores, estarem se enfrentando na área técnica. Para mim isso é a prova que existe um preconceito, à medida que a gente tem 50% da população negra e a proporcionalidade que se representa não é igual. A gente tem que se questionar: se não há preconceito no Brasil, por que os negros tem um nível de escolaridade menor que os brancos, por que a população carcerária é 70% negra, por que quem mais morre são os jovens negros no Brasil…

Este foi um dos trechos da contundente e lúcida entrevista do atual técnico do Bahia, Roger Machado, após a derrota de seu time por 2 a 0 para o Fluminense. Suas declarações foram um oásis no deserto de reflexões e ideias que se tornaram as coletivas pós-jogo no Brasil. Seja por culpa das perguntas banais que beiram a mediocridade ou do media training dos técnicos, uma resposta que expande as quatro linhas é algo, infelizmente, inesperado.

Fonte: metro1.com.br 

Além de sua precisão nos argumentos, a fala de Roger nos instiga a questionar o motivo de termos apenas dois treinadores negros na primeira divisão do torneio. O jornalista Mario Filho escreveu em 1947 um livro clássico para as pesquisas sobre esporte no Brasil: O Negro no Futebol Brasileiro. Em sua visão, considerada por alguns pesquisadores como “romântica” e influenciada pelas ideias do amigo e sociólogo Gilberto Freyre, Mario Filho acreditava que a destacada presença do negro no esporte mais popular do país era um exemplo de “democracia racial”. Anos mais tarde, após observar os reflexos da derrota em 1950 e das vitórias em 1958 e 1962, relativizou sua argumentação inicial, incluindo dois capítulos a sua obra: a provação do preto (sobre 1950) e a vez do preto (1958 e 1962). Apesar de dentro de campo o mestiço ter auxiliado no bicampeonato, isso não significava que a “democracia racial” tinha chegado ao país. Em outras esferas o negro ainda era (e até hoje é) estigmatizado. O talento dos nossos mestiços era uma arte que precisava ser “domada” e “orientada” por uma “organização” que seguiria o modelo europeu, branco e elitista. Esta organização, tutelada pela elite, estaria a cargo do treinador de futebol.

Para iniciar este debate é fundamental observamos como o conceito de treinador foi construído no Brasil. Em minha pesquisa de doutorado no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UERJ, foquei neste “perfil exigido” dos treinadores da seleção brasileira de futebol ao longo das Copas do Mundo. Os resultados desta investigação nos dão caminhos para analisar a constatação de Roger Machado.

Parto do princípio de que o futebol, como uma manifestação cultural importante, estimula imaginários e narrativas que podem ser expandidas para outros setores. Tentar manter o controle destas narrativas é algo decisivo para os grupos que disputam esses imaginários. Quando falamos de seleção brasileira, por exemplo, o que podemos notar é que a projeção deste conceito de treinador nos jornais sempre passou pela tutela da elite nacional, que comanda o futebol brasileiro desde a criação da CBD. Do “doutor” Píndaro de Carvalho em 1930 ao “gestor” Tite em 2018, podemos notar uma série de interações entre diferentes campos que vão definir qual será o “perfil” do treinador da seleção a cada competição na narrativa da imprensa.

Fonte: wikipedia
Fonte: wikipedia

A chegada do treinador no Brasil passou pela ideia de um “professor” vindo de outros países, mais frequentemente da Inglaterra, que ensinaria aos jovens oriundos de classes mais abastadas “os segredos do esporte”. Ter um treinador era sinônimo de status social para os clubes que podiam pagar por essas aulas, mesmo seus atletas sendo amadores. A expressão se enraizou no imaginário nacional, e até hoje notamos referências aos treinadores como “professores”.

Entretanto, com a sua rápida popularização, diferentes camadas da sociedade passaram a praticar o futebol, e, aos poucos, jovens de outras classes sociais foram inseridos em “clubes da elite”. O papel do treinador, além de ensinar, passou a ser também o de disciplinar esses atletas para se “adequarem” aos “clubes”. Logicamente, existe uma disputa entre esse “obedecer” e “não obedecer”, que trará ao longo dos anos a fama de “rebeldes” aos jogadores que não cumprem a “adequação” pretendida.

Essa popularização culminou na profissionalização do esporte. Nesse sentido, concordamos com o pesquisador inglês Stephen Wagg ao destacar, em seu livro The football world: a contemporary social history, que o treinador seria, nesse cenário, a ponte entre capital e trabalho. Alguém que estaria na linha de frente dos confrontos entre dirigentes e jogadores. Além de incutir os ensinamentos pretendidos pelos dirigentes, o treinador se tornaria um “gerente” responsável pelos resultados e o foco principal das críticas no caso de derrota, o que culmina, na grande maioria das vezes, na sua troca por outra “peça”, mantendo toda a estrutura acima dela intacta.

Fonte: amazon

Essa tutela dos dirigentes, representantes da elite nacional, definiria quem teria “o perfil” para tal cargo. A interação entre o mundo político, econômico, social e militar com o esportivo é nítida ao observarmos as escolhas desses dirigentes. Alguns deles flutuam entre esses campos, saindo de presidência de clubes diretamente para cadeiras em Assembleias e Câmaras, tanto municipais, estaduais e federais. Durante o Estado Novo, Adhemar Pimenta, treinador da seleção na Copa de 1938 foi o primeiro a usar o termo “convocação” para os jogadores, como se estivessem realmente indo para uma “guerra”, indicando uma relação vicinal com o campo militar. Outro exemplo é Claudio Coutinho, capitão do exército, que foi treinador na Copa de 1978, durante a ditadura militar. Obviamente que outras interações determinam tais escolhas e na pesquisa completa é possível ter uma visão mais ampla do argumento que aqui queremos trazer para analisar a fala de Roger.

Em síntese podemos novamente nos remeter a Stephen Wagg (1984), que, parafraseando Karl Marx, entende que os técnicos fazem suas histórias, mas certamente não as fazem em situações comandadas por eles. Concordamos com tal análise e, neste sentido, cabe aqui um apontamento que julgamos importante e sintetiza a tutela da elite. Se apenas o “sucesso” na esfera esportiva fosse fundamental para assumir o cargo de treinador da seleção, como a compreensão do jogo por quem já esteve lá e “brilhou”, por exemplo; não parece estranho que, com tantos jogadores negros e mestiços que possuem tais atributos, nenhum tenha assumido a seleção? Essa elite tutelaria algum desses jogadores a assumir por conta de seu capital esportivo ou por conta de seu capital social, que grosso modo significaria uma aproximação e/ou uma relação direta com essa elite? Por mais complexa que seja essa questão, sinalizamos que “estar adequado” à elite será o principal fator, excluindo os demais, que podem ser justificativas amenizadoras do conflito caso o primeiro item seja cumprido.

A análise deste processo narrativo sobre o perfil do treinador na seleção traz elementos que podemos usar no caso de Roger. Em uma sociedade racista e preconceituosa, com uma elite que se nega a discutir a questão da escravidão, tutelar negros em qualquer local de destaque, seja ele qual for, é algo extremamente difícil. Ser a ponte entre capital e o trabalho nos clubes de futebol no Brasil é um cargo usado constantemente como escudos para os cartolas. O “lugar” demarcado no futebol para esses agentes parece bem definido. A tal “democracia racial” vista dentro de campos com os negros e mestiços, Pelé e Garrincha, por exemplo, ocupando lugar de destaque, não é vista nos cargos de dirigentes esportivos e de federações. Nessas instituições, uma classe rica, branca e elitizada continua no comando e, salvo exceções, prefere colocar como seu “gerente”, técnicos que cumpram a sua “cartilha”. Indo além, na estrutura racista construída pelos anos de escravidão e que ainda permanece enraizada no Brasil, estar no local da “organização” é um “lugar” negado ao negro. Ah, então como você explica o Roger e Marcão serem técnicos? Bom, para você que ainda não entendeu que isso é algo estrutural de nossa sociedade e que também se reflete no esporte, Roger respondeu de forma brilhante: “Nós precisamos sair da fase da negação! Negar e silenciar é confirmar o racismo!”

Fonte: revistaforum.com.br
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Pode gritar “bicha” no estádio?

Trinta anos atrás, em 1989, o racismo passa a ser considerado crime no Brasil – embora já fosse enquadrado como contravenção desde 1951. Em 2006, começa a vigorar a Lei Maria da Penha, que coíbe atos de violência doméstica contra a mulher. A homofobia, por sua vez, precisou esperar até junho de 2019 para se caracterizar como crime, quando finalmente o Supremo Tribunal Federal (STF) determinou que a discriminação por orientação sexual e identidade de gênero fosse tratada como ação criminosa.

Do papel à prática punitiva, o caminho é longo. Nos estádios de futebol, contudo, alguns exemplos positivos felizmente começaram a surgir. Há bem pouco tempo, cheguei a pensar que nunca veríamos uma atitude como a do árbitro Anderson Daronco no gramado. Em medida inédita no Brasil, ele paralisou uma partida por conta dos cantos homofóbicos vindos das arquibancadas. Durante a vitória do Vasco contra o São Paulo pelo Campeonato Brasileiro, no último dia 25 de agosto, a torcida cruz-maltina entoou o canto “viado, time de viado” para o clube adversário.

Daronco não só paralisou a partida, informando ao técnico e ao capitão vascaínos o motivo da paralisação, como também relatou o caso na súmula, o que poderia gerar punição ao clube, com a perda dos três pontos referentes àquela partida. Vale ressaltar que, na segunda-feira seguinte, o Club de Regatas Vasco da Gama emitiu nota repudiando o ocorrido e pedindo desculpas pelos cantos homofóbicos ocorridos em São Januário.

“Em relação ao episódio registrado na partida deste domingo (25/08) contra o São Paulo, o Club de Regatas Vasco da Gama lamenta e repudia qualquer canto ou manifestação de caráter homofóbico por parte de alguns de seus torcedores. Da mesma forma, a Diretoria Administrativa do Clube manifesta seu pedido de desculpas a todos que, corretamente, se sentiram ofendidos por este comportamento.

O combate a este tipo de postura – iniciado ainda em campo, quando o técnico Vanderlei Luxemburgo, os jogadores, parte da torcida e o próprio Vasco da Gama, através do sistema de som do estádio, clamaram para que os gritos cessassem – não deve ser motivado pelo receio de punição desportiva (eventual perda de pontos), mas, sim, por uma questão de cidadania e respeito ao próximo e cumprimento da lei. Preconceito é crime. E se existe um Clube no Brasil historicamente habituado a levantar a voz contra qualquer tipo de discriminação este é o Vasco da Gama, dono da história mais bonita do futebol. Assim foi com a resposta histórica de 1924; assim é com os cantos que o torcedor vascaíno entoa orgulhosamente na arquibancada enaltecendo a luta do Clube a favor de negros e operários.

A plateia de um estádio de futebol e a sociedade de maneira geral passam por um processo de aprendizado e conscientização necessário para que atos de preconceito fiquem no passado – um triste passado, diga-se. A Diretoria Administrativa do Club de Regatas Vasco da Gama compromete-se em promover ações educativas neste sentido junto ao seu torcedor, certa de que encontrará em cada vascaíno um aliado no combate a qualquer tipo de discriminação. O Vasco é a casa de todos.”

A atitude da arbitragem me deixou um pouco mais otimista em relação ao cenário extremamente homofóbico que vemos ao ligar à TV num domingo às quatro da tarde ou que encaramos ao sair de casa para acompanhar de perto nosso time no estádio. Podemos incluir aí o machismo e o racismo como outras práticas discriminatórias que se potencializam nesse lugar onde ainda impera uma masculinidade tóxica. O racismo, no entanto, creio estar um pouco menos evidente pelo fato de as punições serem mais efetivas.

Os gritos de “macaco” ainda não foram totalmente extintos das arquibancadas, porém, nos dias de hoje, talvez não sejam entoados com a mesma frequência com que aparecem o canto “time de viado” e o grito “ôoo bicha” quando o goleiro adversário vai cobrar o tiro de meta. Enquanto escrevo este texto, me lembro de um coro que ecoava nas arquibancadas do Mineirão no final dos anos 90 quando o Flamengo ia jogar contra o Cruzeiro. Nessa época, eu vivenciava minhas primeiras memórias do futebol e ainda não entendia muito bem o que aquele refrão pejorativo queria dizer: “Ô Júlio César, seu viadinho, sua mulher deu o c* pro Ronaldinho”.

O canto em alusão aos relacionamentos da então modelo Susana Werner com o atacante Ronaldo e o goleiro Júlio César – com quem ela é casada atualmente – destilavam preconceito tanto contra os gays quanto contra as mulheres, os quais até hoje me pergunto se são mesmo grupos minoritários nos estádios. Sobre as mulheres, felizmente já conseguimos ver números mais equiparados entre a presença masculina e feminina nas arquibancadas. Os gays, por sua vez, seguem receosos de sequer poder dar as mãos ao parceiro em um cenário tão excludente.

Prova disso é que no último dia 1º de setembro, na partida entre Cruzeiro e Vasco pelo Campeonato Brasileiro no Mineirão, um casal de torcedores cruzeirenses foi ameaçado por estarem abraçados e se beijando no estádio. A troca de carinhos entre Yuri e Warley – troca esta que, vale lembrar, é tão recorrente entre casais héteros e inclusive aplaudida pelos espectadores nas famosas “câmeras do beijo” – foi gravada por alguns torcedores que espalharam o vídeo nas redes como forma de intimidar o casal. Fico imaginando o que essas carícias têm de diferente em relação aos abraços calorosos que um bando de homens suados troca com o desconhecido ao lado quando o time deles faz um gol.

Fonte: https://pressfrom.info

Também vem das arquibancadas mineiras outro (mau) exemplo de preconceito sob o álibi de canto de torcida. “Ô cruzeirense, toma cuidado, Bolsonaro vai matar viado”¹ gritavam os torcedores do Atlético-MG em direção aos torcedores celestes em um clássico válido pelo Campeonato Brasileiro do ano passado. Fato parecido ocorreu no metrô da Estação da Sé, em São Paulo, onde um grupo de palmeirenses aparece entoando o mesmo coro em relação aos são-paulinos, às vésperas das eleições presidenciais brasileiras². Infelizmente, casos assim ainda são recorrentes nos estádios, mas hoje já consigo ter alguma esperança com os nossos primeiros passos.

Mídia, punições e torcidas queer

É inegável o potencial da mídia e, mais especificamente, do jornalismo esportivo, no combate às ações discriminatórias recorrentes nos estádios. De alguns anos para cá, vem crescendo gradativamente o número de matérias, reportagens e documentários que denunciam preconceitos, apontam perspectivas e divulgam campanhas a favor de causas ditas minoritárias, como a causa negra, feminista e LGBT. O caso Richarlyson, por exemplo – que creio ser o mais emblemático da homofobia no futebol brasileiro – imagino que hoje seria pautado de forma diferente, bem mais inclusiva e bem menos sensacionalista como foi em 2007.

Naquele ano, surgiu na mídia a especulação de que um jogador de um grande time brasileiro assumiria publicamente sua homossexualidade. Diante do ineditismo da situação, o programa Debate Bola, exibido pela Rede Record, questionou em mesa redonda se esse jogador estaria atuando pelo Palmeiras. O dirigente do time alviverde José Cyrillo Júnior, convidado do programa, respondeu prontamente que “o jogador Richarlyson quase foi do Palmeiras”, porém havia aceito a proposta para jogar no São Paulo. A então revelação do nome do volante e meia Richarlyson provocou risos dos jornalistas e demais participantes do debate.

Sentindo-se ofendido com a citação de seu nome, o jogador – que sempre se declarou publicamente heterossexual – entrou com uma queixa-crime contra José Cyrillo por injúria. No entanto, o processo foi arquivado pelo juiz Manoel Maximiano Junqueira Filho, que simplesmente julgou o caso improcedente, embasado no argumento de que o futebol era um jogo “viril” e “varonil” e que, portanto, ofensas homofóbicas entre “boleiros” são parte do jogo e deveriam ser resolvidas dentro de campo.

“A presente Queixa-Crime não reúne condições de prosseguir. […] Não vejo nenhum ataque do querelado ao querelante. […] Quem é, ou foi boleiro, sabe muito bem que estas infelizes colocações exigem réplica imediata, instantânea, mas diretamente entre o ofensor e o ofendido, num tête-à-tête. Trazer o episódio à Justiça, outra coisa não é senão dar dimensão exagerada a um fato insignificante, se comparado à grandeza do futebol brasileiro. […] Já que foi colocado, como lastro, este Juízo responde: futebol é jogo viril, varonil, não homossexual. […] Não que um homossexual não possa jogar bola. Pois que jogue, querendo. Mas, forme o seu time e inicie uma Federação. […] É assim que eu penso… e porque penso assim, na condição de Magistrado, digo! Rejeito a presente Queixa-Crime.” (Trechos da sentença proferida pelo juiz Manoel Maximiniano Junqueira Filho em 5 de julho de 2007, arquivando a queixa registrada pelo jogador Richarlyson. O texto completo da sentença está disponível em: folha.uol)

Fonte: http://sportv.globo.com

Os advogados de Richarlyson entraram com recurso contra o arquivamento e, felizmente, o referido juiz foi punido pelo ato. Entretanto, deste fato em diante, a carreira do jogador ficou marcada pela homofobia, apesar das passagens de destaque em vários clubes do país, incluindo aí uma convocação para a Seleção Brasileira. Em sua trajetória de cinco anos defendendo o São Paulo, não raro Richarlyson era alvo de ofensas da torcida que ignorava seu nome no ritual pré-jogo, quando os torcedores cantam a escalação do time.

Me lembro também que, logo após deixar o clube tricolor para assinar contrato com o Atlético-MG, o jogador também foi alvo de homofobia em piadas sem graça que associavam sua contratação à recém-lançada camisa cor-de-rosa do time, que à época seria o segundo uniforme da equipe alvinegra. Nem precisamos entrar aqui na discussão em torno do termo “bambi”, comumente associado à torcida do São Paulo e popularizado no início dos anos 2000 pelo jogador Vampeta, que em 2016 tentou se justificar em entrevista ao Esporte Espetacular, da Rede Globo: “o Corinthians tem o gambá, o Santos tem a baleia, o Palmeiras tem o porco e o São Paulo precisava adotar um animal de estimação. Essa história do bambi já existia e eu só acordei o gigante adormecido.”.

Quase duas décadas depois do ocorrido, o São Paulo Futebol Clube se posicionou pela primeira vez a favor da causa. Em 28 de junho deste ano, no Dia Internacional do Orgulho LGBT, o departamento de Comunicação do clube manifestou seu repúdio ao preconceito com uma mensagem publicada nas redes sociais: “Dentro e fora do esporte, o amor há de prevalecer diante do ódio. Que hoje, e todos os dias, repensemos atitudes. O amor não é o problema. E o São Paulo é de todos.”. Na mesma data, vários clubes brasileiros se manifestaram pelo Orgulho LGBT, como o Sport Club Internacional, que iluminou o estádio Beira-Rio com as cores do arco-íris.

Fonte: twitter.com

Iniciativas como essas seguem ganhando espaço na mídia tanto por intermédio de jornalistas de grandes emissoras quanto pelas assessorias dos próprios clubes de futebol, que há poucos anos atrás sequer pautavam a causa. O advento das torcidas queers nos últimos cinco anos também é outro destaque bastante favorável ao cenário. Galo Queer, Cruzeiro Maria, Bambi Tricolor, Palmeiras Livre, Gaivotas Fiéis, Grêmio Queer, Queerlorado, EC Bahia Livre, Vitória Livre, entre outras, são exemplos resultantes da articulação de torcedores em prol da causa LGBT e contra o padrão normatizador vigente nos estádios brasileiros. Cabe aqui também a referência às pioneiras ColiGay e FlaGay, torcidas organizadas de Grêmio e Flamengo que, no contexto da ditadura militar dos anos 1970, se reuniam nos estádios para apoiar seus respectivos clubes e, mesmo que ainda não fosse este o foco, se legitimar em um lugar de domínio heteronormativo.

Fonte: https://brasil.elpais.com

Para finalizar, respondo à pergunta proposta no título deste post com o exemplo das punições registradas pela FIFA e CONMEBOL à Confederação Brasileira de Futebol: entre 2016 e 2018, a CBF precisou abrir os cofres e pagar multas significativas por cantos homofóbicos em jogos válidos pelas eliminatórias do Mundial e pela Copa América, recentemente sediada no Brasil. Tais punições em âmbito internacional, aliadas ao ineditismo da súmula do árbitro Anderson Daronco, que paralisou uma partida ao ouvir o canto “time de viado” no maior campeonato de futebol do país, deixam claro que NÃO, não se pode gritar bicha no estádio. Nem em lugar algum.

Aproveito e convido os leitores para assistir ao trabalho do pesquisador Gustavo Bandeira, que é referência nesse assunto. Sua palestra “Elitização, racismo e heterossexismo no currículo de masculinidade dos torcedores de futebol” será realizada no próximo dia 24 de outubro, no ciclo de palestras organizado pelo LEME.

Notas de fim

¹ Torcida do Atlético-MG cantando música homofóbica.

² Torcida do Palmeiras cantando música homofóbica.

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Sobre o molho de couve-flor e o Campeonato carioca feminino

Nem mesmo se fosse o Vasco, o dono de tantos gols, eu me sentiria à vontade para comemorar um placar tão elástico como o aquele que pode ser visto no campeonato carioca feminino. Foi mais que goleada. Na verdade, não sei bem como denominar o resultado do jogo entre Flamengo (56) e Greminho (0). Porém,… Continuar lendo Sobre o molho de couve-flor e o Campeonato carioca feminino

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Publicidade olímpica

O Globo de hoje (19/01), em seu caderno de economia, publica uma notícia dando conta da publicidade envolvendo os Jogos Olímpicos de 2016. Versando sobre o uso que as marcas já começam a fazer do evento que ocorrerá em agosto, o texto explora a figura dos garotos-propaganda. Interessante observar na matéria como os personagens escolhidos… Continuar lendo Publicidade olímpica

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Bom Senso F. C.

Os manifestos e reivindicações das mais diversas classes de trabalhadores tomam conta do Brasil e agora chegam aos campos de futebol. Há um mês, jogadores se reúnem física e virtualmente para discutir o futebol brasileiro, desde seu calendário de jogos às finanças dos clubes nacionais. O assunto que tem sido destaque na imprensa e a… Continuar lendo Bom Senso F. C.

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Adeus ano velho!

Olá, gente! É com satisfação que estou escrevendo para vocês a primeira postagem do ano. Falando em contagem de tempo… não acredito nessa coisa de “ano novo”… que bobagem! Não vai mudar nada! Tanto faz se é o ano de 20114, ou o de 1356… O tempo (e sua contagem) é uma ilusão humana. A… Continuar lendo Adeus ano velho!

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