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A Fênix Alvinegra

Checando aqui no blog o último artigo publicado por Raffaela Napoli “Cheerleanding: é muito mais que torcer, é um esporte de força e resistência”, fiquei pensando nas diferenças que separam os torcedores daqui dos que estão lá, na outra parte do continente americano. Imediatamente me veio a cabeça as torcidas brasileiras, em especial, as organizadas e apaixonadas pelo futebol alvinegro como a Fúria e a Torcida Jovem do Botafogo. Elas depositaram todas as fichas no investidor norte-americano John Textor e na promessa dele de aportar R$ 400 milhões  em investimentos em troca de 90% do controle do futebol do glorioso. A possibilidade de ver o time de coração ressurgir das próprias cinzas como a fênix, lendário pássaro da mitologia grega, fez com que eles e outros apaixonados torcedores impulsionassem a venda da SAF (Sociedade Anónima do Futebol) e a transferência dos direitos esportivos do Botafogo para o bilionário investidor, presidente da Facebank Inc e especializado na distribuição de conteúdo digital para mídia.

Fonte: Lance!

Mas que interesses esse bilionário, acionista majoritário do time belga RDW Molenbeek e dono minoritário de 18% das ações do Crystal Palace, time da primeira divisão britânica, teria em investir em mais um time de futebol e ainda mais em um com um passivo declarado em 2020 de R$ 1 bilhão? Ao que tudo indica, o futebol e os megaeventos esportivos se tornaram uma espécie de maná de grandes empresários orientados sob os interesses da reciclagem do capital e do lucro. Através de uma série de estratégias de valorização da marca, os campeonatos de futebol europeu se transformaram em produtos de alto valor para o entretenimento das massas. E conglomerados como a Red Bull, o City Football Group, Sunning Group entre outras holdings de capital privado compraram participações em clubes de vários lugares do mundo. Eles passaram a ser peças importantes no marketing dessas empresas.

Por que, então, não replicar a fórmula de sucesso em países em que o dinheiro vale quatro, cinco, seis vezes menos? Como Portugal via no passado a colônia como um espaço que possibilitaria a realização de seus interesses comerciais, Textor enxergou no Brasil e, mais precisamente no clube alvinegro, potencial para aumentar os seus cifrões.

O empresário vinha mantendo negociações informais também para compra de 16% das ações do Benfica. Mas o clube de Lisboa não pagou pra ver. Ou melhor, não arriscou vender para saber o que iria acontecer. Textor declarou que enxerga muitas conexões entre Brasil e Portugal que vão além da língua em comum. Em entrevista para o seu site oficial e para o portal FogãoNet,  disse encarar as terras lusitanas como um excelente trampolim para os jogadores do Brasil chegarem à Europa. Seria uma maneira de minimizar os impactos da diferença entre Euro e Real nas negociações de jogadores, me pergunto?

Mas, antes de aterrissar na terra brasilis, o norte-americano foi seduzido pelo desejo. Para estimular o apetite de investidores em aportar o capital volátil, fruto da liberalização e desregulamentação de mercados e das atividades financeiras em todo o mundo,  o Botafogo contratou em março do ano passado como Diretor Executivo o economista Jorge Braga. Com experiência no universo corporativo e em outros mercados que sofreram grandes transformações como o das telecomunicações e do varejo, ele sabia que para encarar o desafio  de tornar o produto Botafogo atrativo e adequado  a nova dinâmica do futebol, precisaria reduzir custos. E foi o que fez: no futebol feminino, no remo, etc. Mas nada de diminuir a qualidade. Para gerar lucro através da produção o Botafogo precisaria, segundo o economista, deixar pra trás o tempo da paixão. O que significa mergulhar de cabeça na era da performance, adotar scouts como fazem a NBA e as universidades americanas e, principalmente, garantir o acesso a série A.

Deu certo. Depois de uma rodada de negociações e ajustes de cláusulas intermediadas do lado de Textor por advogados e consultores de uma empresa contratada pelo empresário para minimizar os seus riscos e a XP investimentos, que intermediou as negociações entre o Botafogo e o fundo Eagle Holdings, empresa de John, o negócio, previamente planejado para um final feliz, foi fechado. Os torcedores comemoraram. Primeiro, a vitória na negociação com a Procuradoria Geral da Fazenda Nacional (PGFN), que concedeu um desconto de 59% reduzindo a dívida do Botafogo com os cofres públicos de R$ 466 milhões para R$ 190 milhões.

Depois vieram as outras cartas dadas por Textor para mostrar o seu estilo de gestão. Ainda que nem todas com o mesmo invólucro de uma administração moderna, como a prática comum a times brasileiros e estrangeiros de substituir técnicos. Nas últimas duas décadas o time alvinegro trocou três vezes mais de treinador do que o Barcelona, por exemplo.

O último técnico a ser demitido do Botafogo, já sob a nova gestão,  foi Enderson Moreira. Ele mesmo, o treinador que trouxe o time de volta à elite do futebol brasileiro. Em nota veio a explicação do clube: “em momento de transição para um novo modelo de gestão, mudanças são naturais e necessárias ao novo projeto”. O novo mandachuva do futebol disse que não conseguiu enxergar no comando do ex-treinador o estilo que quer ver no Botafogo e não usou meias palavras para deixar isso claro em entrevista para o site Globo Esporte.

“Eu acho que na Europa você vê sistemas em que os jogadores não são bons como são os do Brasil, principalmente quando você vai para o leste europeu, a Rússia… Esses sistemas acabam sendo muito eficientes ao trazer atletas modernos e torná-los máquinas.”

John Textor
Enderson Moreira pelo Botafogo (Foto: Rafael Arantes)

Mesmo sem acreditar que Enderson Moreira seria capaz de transformar o Botafogo no time competitivo que almeja, Textor não descartou a importância do treinador na história do alvinegro. O novo gestor também quis demonstrar ser uma  pessoa condescendente ao declarar ao site do Globo Esporte que vai honrar com as obrigações trabalhistas assumidas anteriormente.

“Eu tenho oportunidades com a nova lei de deixar para trás os velhos contratos.” “Não vamos abandonar o contrato dele.  Nós devemos a ele o respeito de pagar o que nós devíamos contratualmente e agradecer tudo o que ele fez. Mas…. eu não vi o tipo de futebol que eu queria”, disse durante a entrevista ao repórter Rodrigo Capelo.

Fonte: Globo Esporte

E afinal, qual seria esse futebol? Na mesma entrevista, o empresário norte-americano revelou que gosta de equipes fechadas na defesa e extremamente disciplinadas em relação à manutenção da posse de bola. E, enquanto manda seus recados pelas redes sociais, vai tratando de rejeitar acordos comerciais que não são “estratégicos com os objetivos do novo Botafogo SAF”.

Como a mais desconfiada de uma família de torcedores botafoguenses apaixonados, estarei acompanhando diariamente os próximos capítulos dessa saga para entender qual vai ser a nova cara do Botafogo. Mas, só para tranquilizar meu coração em meio a essa enxurrada de notícias, fui ouvir a opinião do colega botafoguense Rafael Casé, autor de nada mais nada menos que oito livros sobre a história do glorioso.

Arte: Izidro Santos

“Meu primeiro temor com essa história foi de que a vinda dele fosse para transformar o clube num criadouro. Ou seja, investir na formação de jogadores em um país com enorme potencial para jovens craques e vender depois. Negócio da China. Mas pelas pessoas que foram chamadas para fazer o trabalho, minha impressão começou a mudar. Conversei com alguns deles, botafoguenses e profissionais sérios, e senti que acreditam no projeto. Estou dando um voto de confiança.”

Rafael Casé

Confesso que a fala de Casé me acalmou. Acho que meu marido tem até um troço se a máxima “Há coisas que só acontecem no Botafogo” algum dia servir de manchete para ilustrar o insucesso dessa negociação. Fico na torcida para que venham mais alegrias do que surpresas e que torcer para o Botafogo não seja um exercício de força e resistência.

Referências:

Reconstruindo o Botafogo, CEO Jorge Braga traz ao Futebol um choque vital

SAF Botafogo: entenda os planos e como será o investimento de John Textor

Barcelona terá oitavo técnico em 17 anos. E os clubes brasileiros?

Globalização, futebol e os novos conglomerados esportivos

Eventos

Palestra “Entre a Fúria e a Loucura” na FGV

O Laboratório de Estudos do Esporte (LESP) da Escola de Ciências Sociais da Fundação Getúlio Vargas (FGV-CPDOC) convida para a palestra “Entre a Fúria e a Loucura: análise de duas formas de torcer pelo Botafogo de Futebol e Regatas” da professora Isabella Trindade Menezes (IFRJ – Faculdade de Educação Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio… Continuar lendo Palestra “Entre a Fúria e a Loucura” na FGV

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O Drama no (do) Futebol

A última rodada do Campeonato Brasileiro de 2017 demonstrou como é o drama vinculado à paixão clubística o que mais atrai e fascina os torcedores de times de futebol. Não se falou em futebol-arte, como não se falou nisso durante todo o campeonato. Não se falou em belas jogadas ou em gols espetaculares, ainda que… Continuar lendo O Drama no (do) Futebol

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Não tão “Loco” assim

Nascido no Uruguai, mas há 30 anos morando no Brasil, Juan Silvera é pesquisador de comunicação e esporte na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, integrante do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte e tem como objeto de estudo as relações entre o futebol e a cultura dos dois países. Como parte de… Continuar lendo Não tão “Loco” assim

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A crise do futebol carioca e a falta de união dos clubes

Durante os anos 1970 e boa parte dos anos 1980, era comum lermos na imprensa a expressão “crise do futebol brasileiro”. O tema foi o cerne da minha tese de doutorado defendida no Departamento de sociologia da Universidade de Nova Iorque, em 1994. A crise, tal como narrada na imprensa, se referia a alguns fatores inter-relacionados:… Continuar lendo A crise do futebol carioca e a falta de união dos clubes

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O fundo do poço

Nem um mês. Vinte e poucos dias após o tetra alemão, o fim da Copa, vivemos, a meu ver, um dos momentos mais difíceis da história do futebol brasileiro. O Maracanazzo foi um sonho ruim perto do pesadelo de 2014. A crise do fim dos anos 1980 e início dos 1990, ainda nos dava esperança… Continuar lendo O fundo do poço

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Somos os melhores do mundo!

Após a temporada perfeita em 2013, os esportistas brasileiros almejam repetir a façanha em 2014. Não apenas os futebolistas têm dado motivos de alegria aos aficionados, mas principalmente os esportes individuais e os de menos visibilidade. Começando pela natação, onde as marcas do brasileiro e ex-campeão de tudo, César Cielo, foram superadas pelo até então… Continuar lendo Somos os melhores do mundo!

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Idolatria em torno de Juninho Pernambucano e de Loco Abreu

Sexta-feira passada fui convidado pelo jornal Lance! a escrever um texto sobre as diferenças e as razões da idolatria em torno de Juninho Pernambucano e de Loco Abreu. Reproduzo aqui parte do que foi publicado no referido diário no domingo, dia 13 de novembro, na página 7 (confira aqui na íntegra). Primeiro cabe ressaltar que… Continuar lendo Idolatria em torno de Juninho Pernambucano e de Loco Abreu

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