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A coroa de Luis V

Em sua última entrevista no Camp Nou, em 24 de setembro de 2020, Luis Suárez disse (com a voz embargada pela emoção) que além de ser um jogador era “um ser humano que tem sentimentos”. É exatamente isso que faz o futebol ser algo que desperta tantas paixões e sonhos. Ele consegue unir os dois mundos: o da idolatria dos deuses e dos atos falhos dos mortais. Arrisco a dizer que todo jornalista ou roteirista deve adorar o atacante uruguaio. Ele reúne diversos temperos necessários para uma boa novela. Tem história de amor, polêmica, revanche, superação, choro e emoção. Todos os ingredientes que caem bem a uma narrativa.

O mais recente capítulo do livro aberto de Luis Alberto Suárez foi escrito em Valladolid, no dia 22 de maio, após tornar-se campeão da liga espanhola pela quinta vez. Não pelo Barcelona, clube que o estendeu a mão após a punição da FIFA na Copa de 2014. Naquela época, muitos “inimigos” sentiam-se à vontade para odiar o “delantero”; críticos o desestimulavam, mas ele estourou a bola em um dos melhores trios do futebol moderno, atuando ao lado de Messi e Neymar. O “MSN” fez história. No clube Culé, conquistou vários títulos e foi até “pichichi”, ou artilheiro de “La Liga” com 40 gols, em 2015-2016. Ali, ele mostrou, mais uma vez que o mundo capota, ah, se capota.

Seis anos se passaram e voilà! O mundo dava mais uma de suas voltas. O treinador Ronald Koeman chegou a Barcelona com a missão de enfrentar os problemas internos e retomar um projeto vencedor. Entretanto, o centroavante de 33 anos não fazia parte de seus planos e logo deixou claro que não desejava aproveitar um jogador “velho” na sua equipe. A bomba pegou os catalãs de surpresa. Como a sua participação era indesejada, o centroavante decidiu ir de malas para a cidade vizinha. Messi, seu melhor amigo dentro e fora da cancha, disse não acreditar que o clube estava abrindo mão de Suárez de graça e para um time rival na mesma liga. A “pulga” argentina tinha razão para acreditar no potencial do companheiro.

Suárez com sua família lembra os títulos que conquistou na despedida do Camp Nou. Foto: Site Oficial do Barcelona

Suárez em Madrid era uma aposta que poderia cair bem no time de Simeone, o espírito latino poderia dar alguma liga, mas dava para imaginar tanto barulho? Quem apostava? Está certo, alguns poucos, é verdade. Havia mais um tom de dúvida do que certeza. Será que ele vai conseguir de novo dar a volta por cima? Talvez, só quem conhecia bem a história de Suarez acreditava que sim. Tentaram enterrá-lo, mas ele estava vivo.

Olhar apenas para a linha de chegada não traduz a beleza do título. Tem coisas que só um colchonero poderia explicar. Seguir o Atlético de Madrid era a melhor coisa na pandemia para quem gritava “Aupa Atleti”. Ao menos, até a metade do campeonato, quando a vantagem sobre o segundo colocado chegou a ser de dez pontos. Os deixaram sonhar, e sonho que se sonha junto…. Pois é, virou realidade. Só que não foi fácil. No segundo turno, aqueles dez pontos foram minguando, minguando e restaram apenas dois. Faltando duas rodadas para o final, Simeone disse em uma entrevista: “agora entramos na zona Suárez”, se referindo ao momento no torneio em que aparecem os craques, os “distintos”.

Era quase um pedido de socorro do treinador, pois percebia que seus comandados estavam ansiosos. Era visível a queda de rendimento do líder e a ameaça do Real no retrovisor era forte. Contra Osasuna, na penúltima rodada, o Atlético perdia quando o brasileiro Renan Lodi empatou a partida aos 82 minutos. Um alívio, mas insuficiente. Aos 87, um tal de pistoleiro enfim voltou a brilhar. Foi uma catarse geral. Pilha humana sobre Suárez, com a devolução da liderança que por pouco estava perdida. A troca ainda poderia acontecer. E foi quase. No último jogo, os colchoneros sofreram 62 minutos. Tempo para virar a partida com os gols de Correa e Suárez. Agora sim, herói coroado.

Suárez faz sinal de cinco vezes campeão da Liga Espanhola. Foto: Getty Images

Luisito fez 21 gols em 32 jogos disputados no campeonato espanhol, fez os mais decisivos para o título. Foram dois bônus salariais (por ter atingindo 15 gols e depois 20). Foi um “tombo para o alto”. Individual e coletivo. Desde a temporada de 2015-2016, ninguém fazia algo tão significativo no campeonato pelo Atlético de Madrid, quanto Antoine Griezman, que fez 22 gols (mas, sem título). E onde estava o Barcelona? Em terceiro. Seus atacantes, juntos, fizeram 25 gols, quatro a mais que Suárez (Griezman 13 gols, Dembélé, seis gols, Ansu Fati, quatro e Martin Braithwaite, dois gols.  Messi, teve 30). “Me menosprezaram, mas o Atlético abriu as portas para seguir demonstrando que estava vigente e por isso sempre vou agradecer a esse grandíssimo clube”, disse Suárez na entrevista para a televisão espanhola. Bem agradecido, ele poderia rescindir o contrato de dois anos em junho, mas já assegurou que permanecerá na próxima temporada.

Uma coincidência salta aos olhos e não poderia deixar de ser mencionada. Em seu primeiro título espanhol como técnico, na temporada 2013-2014, Simeone contou com a ajuda de um uruguaio – o zagueiro Godin, ídolo e autor do gol da conquista. Sete anos depois, outro gol uruguaio trouxe a taça para o Club Atlético de Madrid, a décima primeira na competição. Os feitos foram lembrados pelo membro do partido do povo (PP) e da câmara administrativa da capital espanhola, José Luiz Martínez, durante a cerimônia de premiação que aconteceu no dia seguinte (23 de maio): “O que temos entre uruguaios e Atleti? Estamos entre duas grandes potências, mas nunca nos rendemos. Nem Uruguai, nem o Atlético”. É curioso como as narrativas desses uruguaios se misturam com a dos colchoenros. A bandeira celeste é sempre carregada nas conquistas pelos jogadores. No sábado, 22/05, ela foi exposta por Suárez, Torreira e Giménez.

Os uruguaios do time colchonero. Foto Reprodução Instagram do Atlético de Madrid.

O que vai ser da temporada de 2021-2022 não podemos prever, contudo faz bem ao esporte ver a hegemonia merengue-catalã ser tombada na Liga. Numa época em que clamamos por um futebol mais competitivo, ver os atleticanos campeões enriquece a Liga. Suárez vai continuar decisivo? Sabiamente, o atacante já admite estar perto da aposentadoria. Certeza, só a de que queremos o fim da pandemia e estádios cheios. Ojalá así sea.

Time campeão do Campeonato Espanhol 2020/2021 – Foto Reprodução Instagram Atlético de Madrid
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Resenha do artigo “’Um jogador infernal’, a construção social da precoce carreira de Lionel Messi”

“Quais foram os contextos e circunstâncias que impulsionaram o jovem Lionel Messi da sua cidade de Rósario na Argentina para o Fútbol Club Barcelona com 13 anos de idade e, posteriormente, para o estrelato global?”. É a partir desse pergunta que os autores Fernando Segura Millan Trejo e John Williams escreveram o artigo em inglês… Continuar lendo Resenha do artigo “’Um jogador infernal’, a construção social da precoce carreira de Lionel Messi”

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Imperialismos futebolísticos

Quando morava em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, eu tinha muita simpatia pelo time local, o Aimoré. Antes de sair de lá, procurei uma camiseta do Aimoré para comprar numa loja de esportes local, mas em vão. A loja apresentava várias versões das camisas oficiais do Barcelona e do Manchester United, do Flamengo,… Continuar lendo Imperialismos futebolísticos

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Quando o dinheiro não é tudo

Em um mundo onde o capital tem regido leis, mantido presidentes notoriamente corruptos e um Congresso que não esconde mais suas intenções nefastas contra a maioria da população, a narrativa sobre o futebol não tem conseguido se desvencilhar desta lógica mercadológica. Planejamento, balancetes positivos e a gestão, assuntos muito mais voltados para o campo econômico,… Continuar lendo Quando o dinheiro não é tudo

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Falando de missas sem ver o padre

No presente post farei o papel de péssimo comentarista esportivo. Falarei de diversos assuntos que estão em pauta sem ter acompanhado detalhadamente os acontecimentos. Tal postura é academicamente absurda, porém acredito que seja muito comum no meio jornalístico e por isso vou aproveitar o presente espaço para apresentar um devaneio crítico confessando de antemão o… Continuar lendo Falando de missas sem ver o padre

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Neymar está cansado ou nos cansamos de Neymar?

Há exatos dois anos o grupo de pesquisa responsável por manter este blog se reunia para investigar como a imprensa escrita estava construindo a imagem do jogador Neymar. Àquela altura, o garoto impressionava o Brasil com um vasto repertório de dribles e belos gols. Observando hoje aquele momento, é possível perceber que nós pesquisadores, assim… Continuar lendo Neymar está cansado ou nos cansamos de Neymar?

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Neocolonialismo esportivo

A cena ocorreu em uma terça feira calorenta na cidade do Rio de Janeiro, mas não foi tão diferente do que ocorreu em outros lugares de Pindorama. O professor avisa aos seus alunos, ávidos por beber da fonte de sua sabedoria: – Hoje teremos que encerrar nossa aula mais cedo, pois vocês sabem que temos… Continuar lendo Neocolonialismo esportivo

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Barcelona e a vitória da exceção

Matéria originalmente publicada em 20 de dezembro de 2011 no jornal O Globo (veja aqui).  Um pouco antes da final entre Santos e Barcelona alguns jornais publicaram uma opinião do técnico da seleção brasileira, Mano Menezes, sobre o trabalho feito nas divisões de base dos clubes do país. Ele teria dito que, no Brasil, os treinadores… Continuar lendo Barcelona e a vitória da exceção

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O paraíso dos “bipolares”

Vou tomar de empréstimo a palavra bipolar, usada na Psiquiatria. O transtorno bipolar caracteriza-se pela alternância no indivíduo de estados de humor que variam entre a  mania e a depressão. Lembram da música do Nirvana, Lithium? A letra mostrava o vai e vem do humor de um bipolar, transtorno que ao que parece seu vocalista,… Continuar lendo O paraíso dos “bipolares”

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“Comparar o Incomparável”

A emblemática frase é oriunda de um livro de Marcel Detienne, historiador belga, especialista em Grécia Antiga. Em suas reflexões metodológicas o autor defende a importância da comparação nos estudos históricos para compreender melhor as diferenças culturais apontando assim uma abordagem influenciada pela Antropologia que não ficasse restrita a visões nacionalistas. Entretanto, o que me fez… Continuar lendo “Comparar o Incomparável”

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