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Quem é o primeiro ídolo do seu clube?

Seminário debate tema, dia 7 de fevereiro na UERJ

O Seminário “Quem é o primeiro ídolo do seu clube?”, acontece no dia 7 de fevereiro, às 18h, no auditório do PPGCom da UERJ, no 10º andar, às 18h, com transmissão ao vivo do canal do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte (Canal lemeuerj)[1]  no Youtube. A iniciativa é do Grupo de Pesquisa Esportes, Ídolos e Identidades (GEII), coordenado pelo professor do Departamento de Jornalismo da FCS da UERJ e doutor em Comunicação pela UFF, Sérgio Montero Souto, também pesquisador do LEME, e integrado pelos alunos e ex-alunos da graduação da FCS Enzo Tomaz Anselmo, Gustavo Silva Fernandes, Maíra Vallejo dos Santos e Maria Vitória Santos Pereira.

O recorte escolhido foi o incipiente material sobre o futebol carioca dos anos que antecedem ao primeiro campeonato do estado, em 1906, até 1932, último ano oficial do amadorismo. O professor Sérgio Souto explica: “Garrincha, Zico, Roberto Dinamite e Castilho ou Fred ou Assis.[1] Com a solitária exceção do Fluminense, que, ao longo da sua centenária história, não produziu um ídolo consensualmente considerado o maior de todos,  torcedores dos demais grandes clubes do Rio de Janeiro não têm dúvidas em apontar quem ocupa o topo do Olimpo das histórias, respectivamente, de Botafogo, Flamengo e Vasco. Tal reconhecimento não se limita aos torcedores de cada um dos três clubes; é acolhido pela imprensa e pela academia, sendo, inclusive, reconhecido pelos rivais. No entanto, se – com a ressalva à singular situação do Fluminense – inexistem dúvidas sobre o mais importante ídolo histórico dos clubes cariocas, um estranho silêncio faz-se presente se a pergunta tiver como alvo o primeiro ídolo de cada um. A inexistência de uma resposta positiva nos leva a uma lacuna intrigante: poderia um esporte capaz de despertar paixões tão catárticas e parte integrante da constituição da identidade nacional ter um início sem um rosto tão prenhe de simbolismo?”.

Para tentar responder a essa e diversas outras questões acontecerá o seminário. Abaixo, temos a programação:

PROGRAMAÇÃO

18h – Abertura do seminário pelo coordenador do GEII, professor Sérgio Souto

18h25min – Enzo Tomaz Anselmo: O extraordinário Mimi Sodré (Botafogo)

18h35min – Gustavo Silva Fernandes: Kunz, o primeiro grande goleiro brasileiro  (Flamengo)

18h45min – Maíra Vallejo dos Santos: O inigualável footballer Etchegaray (Fluminense)

18h55min – Maria Vitória Santos: Russinho, o jogador mais popular do Brasil (Vasco)

19h10min: Professor Filipe Mostaro: Idolatria no passado e no presente

19h30min: Debate e perguntas da plateia.

20h30min: Encerramento do seminário pelo professor Sérgio Souto


[1] Entre fevereiro e maio de 2020, o portal GE consultou cem jornalistas que “cobrem, cobriram ou conhecem a história do Fluminense”. Castilho  foi o mais lembrado, seguido de Fred e Assis < https://ge.globo.com/futebol/times/fluminense/noticia/eleicao-com-100-jornalistas-aponta-fred-como-o-2o-maior-idolo-do-fluminense-so-atras-de-castilho.ghtml>. A própria necessidade da votação para determinar um ídolo já indica tratar-se de questão longe de estar pacificada.


Produção audiovisual

Já está no ar o episódio 59 do Passes e Impasses

O tema do nosso quinquagésimo nono episódio é a “Misoginia e racismo no surfe brasileiro”. Com apresentação de Júlio Cesar Barcellos e André Tavares, gravamos com Érica Prado, apresentadora, repórter, produtora de conteúdo, modelo e ex-sufista profissional.

Acesse o mais novo episódio do podcast Passes e Impasses no SpotifyDeezerApple PodcastsPocketCastsOvercastGoogle PodcastRadioPublic e Anchor.

O podcast Passes e Impasses é uma produção do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte em parceria com o Laboratório de Áudio da UERJ (Audiolab). O objetivo do podcast é trazer uma opinião reflexiva sobre o esporte em todos os episódios, com uma leitura aprofundada sobre diferentes assuntos em voga no cenário esportivo nacional e internacional. Para isso, contamos sempre com especialistas para debater conosco os tópicos de cada programa.

Você ama esporte e quer acessar um conteúdo exclusivo, feito por quem realmente pesquisa o esporte? Então não deixe de ouvir o quinquagésimo nono episódio do Passes & Impasses.

No quadro “Toca a Letra”, a música escolhida foi “Zumbi”, de Jorge Ben.

Passes e Impasses é o podcast que traz para você que nos acompanha o esporte como você nunca ouviu.

Ondas do LEME (recomendações de artigos, livros e outras produções):

Negras raízes: A Saga de Uma Família – Alex Harley [Livro]

Eliana Alves [Autora]

Djamila Ribeiro [Autora]

Afrosurf – Mami Wata [Livro]

Equipe

Coordenação Geral: Ronaldo Helal
Direção: Filipe Mostaro e Fausto Amaro
Roteiro e produção: André Tavares
Edição de áudio: Abner Rey
Apresentação: Júlio Cesar Barcellos e André Tavares
Convidada: Érica Prado

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Copa do Mundo e etnocentrismo padrão FIFA


Mesmo promovendo o principal evento do futebol mundial no Catar, um país com leis que legitimam a homofobia, FIFA estende bandeira LGBTQ+ em sua sede. Foto: Divulgação/Twitter oficial da FIFA

Mesmo promovendo o principal evento do futebol mundial no Catar, um país com leis que legitimam a homofobia, FIFA estende bandeira LGBTQ+ em sua sede. Foto: Divulgação/Twitter oficial da FIFA

A Copa do Mundo do Catar trouxe para o futebol mundial muitas discussões importantes sobre o tema desportivo do jogo. Claramente natural a movimentação do assunto, um grande evento, como sempre, movimentou a paixão de torcedores de diversas nações pelo mundo. E a Copa do Catar tem um grande peso de peculiaridade, podemos dar o destaque tanto para o aumento do número de convocados por cada seleção, passando para 26 jogadores, como para a realização da Copa no fim de ano, por conta das altas temperaturas que assolam o país do Oriente Médio no meio do ano (época tradicional para a realização do evento).

Contudo, há questões que vão muito além das 4 linhas, mas que são expressas de forma inconfundível por uma Copa do Mundo. Esporte é política. E, sobretudo, esporte é movimento social. O futebol, nesse caso, é expoente para unir as sociedades, mesmo em meio as diferenças. De modo que, o futebol dentre uma Copa do Mundo possa aproximar nações que não se encontram sequer na ONU – a Fifa tem mais países-membros que a própria Organização das Nações Unidas -, para poder disputar um torneio esportivo movido a paixão.

Entretanto, em 2022, com a Copa sendo realizada no Catar, a FIFA assume a responsabilidade de promover o grande evento desportivo do mundo sem a garantia de seguridade aos cidadãos do mundo. Isto, porque, o Catar é um país onde as diferenças sociais podem ser reprimidas de forma legítima, conforme a legislação disposta no país. Trata-se, portanto, de um exemplo de etnocentrismo imposto ao mundo. Visto que, a FIFA escolhe o país para receber o “mundo”, mesmo que este país não queira receber o mundo em sua forma por acreditar que a diferenciação dentre a cultura imposta pelo governo do Catar seja maligna.

O etnocentrismo é expresso dessa forma. Acreditar que a cultura e os princípios da sociedade pertencente é a ideal ou superior à oposta. 

“Se oferecêssemos aos homens a escolha de todos os costumes do mundo, aqueles que lhes parecessem melhor, eles examinariam a totalidade e acabariam preferindo os seus próprios costumes, tão convencidos estão de que estes são melhores do que todos os outros”, a citação de Heródoto, historiador grego, é mencionada por Roque Laraia em seu livro Cultura: Um Conceito Antropológico e evidencia como a funcionalidade do etnocentrismo pode se tornar ferramenta de preconceito.

Nasser Al Khater, presidente do comitê organizador da Copa do Mundo de 2022, já deu declarações sobre o caso do Catar receber pessoas de todas as partes do mundo: “Somos abertos e acolhedores – hospitaleiros. Compreendemos a diferença nas culturas das pessoas. Entendemos a diferença nas crenças das pessoas e, então, acho que, novamente, todos serão bem-vindos e todos serão tratados com respeito.”.

Porém, a insegurança para as minorias que estarão presente no Catar é inconfundível com a postura que o país adota e prega moralmente. Segundo relatório divulgado pela organização Human Rights Watch (HRW) no final de outubro, uma série de ilegalidades cometidas pelo governo do Qatar contra as pessoas LGBT foram registradas. O governo do Qatar negou as informações do relatório e disse que elas são falsas. Ainda que, no Qatar as relações entre pessoas do mesmo sexo e o casamento igualitário sejam proibidas, além de que judicialmente, as pessoas LGBTQ+ podem ser punidas até 7 anos de prisão.

Ainda tratando das incoerências da FIFA, o presidente do comitê da Copa, Nasser Al Khater, tentando contornar o assunto declarou que o Catar será hospitaleiro e receberá bem quaisquer pessoas, incluindo pessoas com relação homoafetiva, porém, destacou como relações afetuosas devem ser vedadas no país:

“O Catar e a sua região são mais conservadores, então as demonstrações públicas de afeto, que são desaprovadas, devem ser evitadas. É a única indicação a ser respeitada, tirando isso, cada um pode viver sua própria vida. Só pedimos aos torcedores que respeitem”.

É com essas demonstrações de intolerância e homofobia que nos situaremos na copa do mundo de 2022. O futebol, assim como qualquer meio social, sempre foi conhecido por ser um âmbito de “habitação” ao machismo e a homofobia, mudar esse quadro é necessário e a luta para o respeito das diversidades e diferenças é essencial. 

Contudo, a escolha da FIFA pelo Catar como sede da Copa do Mundo passa a sua mensagem: será bem-vindo ao evento quem não for diferente ao que a cultura do país considere aceitável. É em meio a esse abraço ao preconceito, que a FIFA, em junho de 2021, se declarou contra a discriminação, através de sua secretária geral Fatma Samoura: 

“Fifa está orgulhosa em apoiar o Mês do Orgulho e celebrar jogadores, técnicos, dirigentes, funcionários, voluntários, líderes e fãs LGBTQIA+ ao redor do mundo. Futebol é um jogo de equipe. Pertence a cada um de nós. A Fifa tem tolerância zero com qualquer forma de discriminação”.

Referências 

UOL. Fifa estende bandeira LGBT em sua sede: ‘Tolerância zero com discriminação’. 25 jul. 2021. Disponível em < https://www.uol.com.br/esporte/ultimas-noticias/2021/06/25/fifa-bandeira-lgbt-sede.html. Acesso em 07 out. 2022.

TERRA. Catar diz que vai ‘acolher’ gays na Copa, mas proíbe beijos. 01 dez. 2021. Disponível em < https://www.terra.com.br/esportes/futebol/copa-2022/catar-diz-que-vai-acolher-gays-na-copa-mas-proibe-beijos,d2b42b89aab201785285cb10ef5bdc35u9ox2a4h.html.  Acesso em 07 out. 2022.

LARAIA, Roque de barros. Cultura: um conceito antropológico. Rio de Janeiro: Zahar, 2007.

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É fracasso voltar jovem da Europa?  Nosso caminho é o sul

Por Jorge Santana.

Na temporada nacional do futebol brasileiro a bola ainda não rolou, mas já temos debates profundos e que movem paixões a partir do movimentado mercado da bola. O retorno do meia Gérson ao Flamengo e a chegada do uruguaio Luis Suaréz ao Grêmio, com milhares de torcedores na Arena Grêmio apontam que a temporada vindoura será  de emoção. Pelos menos é o que mostra até agora algumas contratações do mundo da bola. Veremos se os campeonatos nacionais serão disputados, quebrando a hegemonia protagonizada por Palmeiras e Flamengo nos últimos dois anos.

Em especial, o retorno de Gerson Santos da Silva, com então 25 anos para o Flamengo, após 1 ano e meio no Olympique de Marselha produziu uma série de análises e discussões  as quais  pretendo tratar aqui. Em geral, as opiniões dos comentaristas de futebol versaram que significava um “fracasso” a prematura volta do jovem volante para as canchas tupiniquins. O portal Placar estampou como manchete: “Após fracassos na Europa, Gerson retorna ao Fla como 2º mais caro do clube”[1], evidenciando um suposto insucesso. Segundo este, a volta para cá era significado de que não deu certo na Europa ou não vingou no centro do futebol mundial. 

Aqui estou reduzindo um pouco as análises, pois alguns comentaristas defenderam também que o meia revelado pelo Fluminense Football Clube configura um excelente reforço para o rubro-negro carioca. Contudo, no que tange à sua carreira pessoal, o segundo retorno da Europa, em apenas 8 anos de carreira, seria um atestado de  fiasco. Futebol este que foi fundamental para o Flamengo conquistar a taça  Liberadores de 2019, os campeonatos brasileiros de 2019 e 2020 e os campeonatos cariocas  de 2020 e 2021, porém insuficiente no centro do futebol do mundo

Esses dois anos de  um futebol versátil, moderno e sólido levaram o meia a vestir a camisa da seleção brasileira e fizeram com que o técnico  Jorge Sampaoli pedisse a sua contratação para o time do Sul da França. Apesar de alguns apontarem como fracasso, o Coringa, como é chamado pela torcida do Flamengo, fez a sua melhor temporada na França, com 13 tentos marcados e 10 assistências. Após a saída do técnico argentino, o jogador acabou indo para o banco, após uma discussão com o novo professor. O que contribuiu para o seu retorno para o Ninho do Urubu. 

O que fomenta esse artigo é um complexo de vira-latas de nós, brasileiros.   Pois consideramos que o retorno de um jogador jovem da Europa é um atestado de fracasso, no velho continente. E fracassar lá  significa,  partir da premissa de que há uma linha evolutiva inconteste no futebol, em que todos os  bons jogadores têm as ligas europeias como destino final. E  para receber o  selo europeu só devem voltar para seus países natais a partir de  33 ou 34 anos, para encerrar de preferência no clube que os revelou na terra de Vera Cruz. Essa linha evolutiva estabelece que o jogador nasce na América do Sul, cresce e se desenvolve na Europa e volta aqui apenas para morrer. No caso morrer, como metáfora de aposentar como profissional do futebol.

Nessa linha evolutiva, o futebolista brasileiro só aprende ao chegar na Europa, a famosa “educação tática”, pois aqui praticamos um futebol da desordem, da informalidade e do jeitinho brasileiro indomável que urge ser catequizado. Parece-me um erro tal como o cometido por  historiadores e antropólogos no século passado. Quando estes concebiam que o português colonizava o índio, sem adquirir nenhum traço da cultura dos povos originários que viviam aqui. O conceito de aculturação estabelece que apenas o indígena adquiriu a cultura do conquistador Uma revisão  avançou para o conceito de transculturação, no encontro do europeu com os dois foram impactados. 

No poema do modernista  Oswald de Andrade, “ Erro de português” de 1925, o autor  argumenta que na chegada dos portugueses chovia, portanto, o europeu colocou a roupa no índio. Se fosse um dia de sol, o índio teria despido o português. Aqui completaria o poema de Andrade, adicionando que no dia seguinte fez um sol dos trópicos e o índio ensinou os lusitanos a tomar banho todo dia e a ficar nu. Portanto,  os jogadores brasileiros aprendem jogando na Europa, assim como o velho continente aprende com os brazucas. Não é uma via de mão única, ela é sempre relacional e influencia as duas culturas envolvidas em uma interação, não poderia ser diferente com o futebol.  Ronaldinho Gaúcho ensinou a eles como bater falta por baixo da barreira e eles ensinaram Vinicius Junior que atacante também tem de recompor a defesa.

Essa linha evolutiva estabelece a Europa como Norte, a evolução só pode ser atestada lá, pois aquele que não vai a Meca não pode ser consagrado, e quem volta cedo de Meca também, tal como o Coringa.  Na década de 1940, o artista uruguaio Joaquín Torres Garcia (1874-1949) produziu uma arte que hoje constitui símbolo de Nuestra América ou Abya Yala (nome da nação Kuna para nosso continente). A arte intitulada “ América Invertida”, de 1943,  é uma crítica de Garcia Torres à dependência artística dos latinos americanos da produção artística europeia. Na época, os artistas  do Sul tinham que ir para lá aprender, Tarsila do Amaral, Di Cavalcanti, Portinari e muitos outros fizeram essa  passagem pelo Norte. De maneira maestral, Garcia Torres desenhou um mapa da América do Sul de cabeça para baixo, dessa forma provocando e colocando o Sul no lugar do Norte. Apontando por meio da arte e do lúdico que nosso caminho é o Sul.

“América Invertida” do artista Joaquín Torres García, retirada do site Socialista Morena.

A genialidade da arte  do uruguaio fez  com que a mesma torna-se um símbolo das lutas sul-americanas. Aproveitando essa arte me questiono por que precisamos do atestado europeu para ratificar o nosso talento no velho esporte bretão?  Quantas vezes, jornalistas não advogaram que Edmundo foi o melhor do mundo moralmente, em 1997. E só não foi eleito como tal pela FIFA por jogar no Brasil. Naquela temporada, o Animal marcou no brasileiro 29 vezes, em 42 partidas, sendo 42% dos gols do Vasco, que foi campeão do Brasileirão. 

 E Romário, que como melhor jogador do mundo, campeão do mundo, campeão espanhol retornou ao Brasil, em 1995. Ele retornou fracassado  ou sua escolha foi permeada por outros desejos que não só estar no centro do futebol.  Por último, exemplo, o lateral Hermano.  Juan Pablo Sorín. Quando uma jovem promessa do River Plate foi jogar na Velha Senhora (Juventus), após dois anos voltou para o time que o revelou com apenas 26 anos (apenas um ano mais velho que Gerson).  Pouco tempo depois, veio para o Cruzeiro e simplesmente jogou muita bola no time celeste mineiro, que conquistou a tríplice coroa em 2003. O retorno de Sorín foi  um insucesso?

 Não serei aqui idealista em defender que o futebol brasileiro ou sul-americano é melhor do que o europeu. Lá estão as melhores ligas, os melhores jogadores e os melhores salários. Essa é a realidade. Contudo, não se pode atestar que para ser um grande jogador é preciso estar na Europa e, muito menos, quem retorna na casa dos 20 anos é um fracassado. Há mais coisas entre essa simplória definição evolutiva do futebol do que a Europa como  uma única régua para atestar qualidade ou sucesso. O fato de Gérson retornar, sendo a contratação mais cara do nosso futebol, demonstra que não foi um insucesso. 

 Aqui busco dizer que está longe, mas que todos nós sonhamos e desejamos o caminho do Sul. Chamo de caminho do Sul o que vos falo é uma liga brasileira forte, moderna, organizada e sólida. Quando chegarmos nesse caminho do Sul, nossos clubes gozarão de viabilidade econômica para manter nossos jovens craques em terras tupiniquins. E será que quando chegarmos nesse Eldorado do futebol brasileiro e quiçá sul-americano continuaremos a dizer que se o jogador não for consagrado na Europa é um fracasso?  Essa resposta só o tempo irá dizer.  Pensar em um futebol brasileiro forte e competitivo financeiramente e desportivamente é ter um futebol que passaremos a ser o centro e que talvez essa discussão seja coisa do passado. Tomemos o caminho do Sul assim como  nos apontou há 80 anos, o saudoso Garcia Torres. 

Jorge Santana é professor de História, doutorando em Ciências Sociais (PPCIS/UERJ), autor do romance “Desculpa, meu ídolo Barbosa” e torcedor do Fluminense.

Referências

Redação. Após fracassos na Europa, Gerson retorna ao Fla como 2º mais caro do clube. Placar, Brasil 5 jan. de 2023.

Imagem é uma reprodução da obra “América Invertida” do artista Joaquín Torres García, retirada do site Socialista Morena.

Disponível em: < https://www.socialistamorena.com.br/nosso-norte-e-o-sul/>.  Acesso em 18 jan. de 2023.


[1] Disponível em: < https://placar.abril.com.br/placar/apos-fracasso-na-franca-gerson-retorna-ao-fla-como-2o-mais-caro-do-clube/> Acesso em 18 jan. de 2023.

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Chamada para o XVII Congresso da ABRAPCORP

“Expor e debater a pesquisa com outros estudiosos da área é uma das grandes oportunidades de quem vivencia atividades científicas participando de congressos acadêmicos. Com isso, a Associação Brasileira de Pesquisadores de Comunicação Organizacional e Relações Públicas, juntamente com a Universidade do Estado do Rio de Janeiro, tem a honra de marcar o retorno das atividades presenciais com o seu XVII Congresso. 

O evento ocorrerá entre os dias 10 e 12 de maio de 2023, no Campus Maracanã da UERJ, na cidade do Rio de Janeiro. Ciente também de sua responsabilidade com a democratização da ciência, o evento trará um conjunto de mesas redondas que serão transmitidas pela Internet, enquanto seus Grupos de Trabalho e Espaço Graduação serão realizados de maneira presencial, visando fortalecer as trocas e diálogos entre pesquisadores. Os grupos são:

Também como forma de reafirmar seu compromisso com a democratização da ciência e com o desenvolvimento do campo de pesquisa de Comunicação Organizacional e Relações Públicas, o XVII terá inscrições GRATUITAS para todos os associados Abrapcorp com anuidade 2023 paga. Da mesma forma, manterá uma Política de Ações Afirmativas para estudantes, garantindo inscrições gratuitas para todos estudantes de graduação contemplados com bolsas sociais por suas instituições de ensino ou agências governamentais.

Fonte: Abrapcorp

Tema do Evento

O tema do XVII Congresso Abrapcorp será “Comunicação, ativismo e organizações”, e visa estimular um relevante e transformador debate sobre o papel da comunicação (sobretudo na perspectiva organizacional) na luta por realidades mais igualitárias, assumindo o compromisso da construção de diálogos orientados pela busca do desenvolvimento social e pela minimização das disparidades que marcam a sociedade brasileira. Nessa perspectiva, a ideia de ativismo tem se tornando um tema de interesse de diversas empresas, seja na proposição de novas práticas comunicacionais no âmbito das organizações ou no relacionamento com o seu público.

Submissões

O site do evento já está online, e o período de submissões irá até 25 de fevereiro de 2023. Convidamos todos os pesquisadores a submeterem artigos para os Grupos de Trabalho e estudantes de graduação para participarem do Espaço Graduação. Convidamos também doutores, mestres e estudantes recém graduados a participarem dos Prêmios Abrapcorp de Teses, Dissertações e Monografias, inscrevendo gratuitamente trabalhos que foram defendidos entre 01 de março de 2022 e 28 de fevereiro de 2023.

Uma informação importante é a isenção do valor de inscrição para estudantes “que usufruam de qualquer auxílio estudantil ou bolsa social/de estudos concedidos por suas universidades, faculdades ou agências de apoio”. (fonte: https://abrapcorp.org.br/xviii-congresso-abrapcorp/)

Chamamos atenção para o Espaço de Graduação do Congresso da Associação Brasileira de Pesquisadores de Comunicação Organizacional e Relações Públicas (Abrapcorp) que é coordenado pelo professor adjunto da FCS e membro do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte, Fausto Amaro. O espaço receberá trabalhos de alunos, posteriormente divididos em sessões temáticas (de acordo com o teor dos artigos recebidos). Tendo em vista a importância da  participação de graduandos na ABRAPCORP, o coordenador reforça o pedido para que professores divulguem esta oportunidade e estimulem a participação de seus alunos. 

Segue o link para submissões: https://app.ciente.studio/abrapcorp2023/#about 

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Bem-Vinda, Democracia

Em tempos nos quais os ventos da democracia voltam a soprar forte sobre as terras tupiniquins (mesmo ainda com tantos insanos insistindo em lutar contra o vento), nada mais apropriado do que falarmos sobre a Copa São Paulo de Juniores, carinhosamente tratada por Copinha, o mais democrático de todos os campeonatos de futebol disputados no Brasil.

O torneio vem sendo realizado desde 1969 e chega, em 2023, à sua edição de número 53. Só não foi disputado em 1987, por conta da não liberação de verbas do então prefeito de São Paulo, Jânio Quadros, e em 2021, devido à pandemia da Covid. Este ano, 128 clubes participam da competição: representantes de 25 estados e do Distrito Federal. Infelizmente a equipe do Amapá, o Santana Esporte Clube, não conseguiu arrecadar dinheiro suficiente para enviar seus jogadores para a disputa e acabou sendo substituído por um time do interior do estado de São Paulo.

A competição já contou, em algumas de suas edições com clubes estrangeiros e não apenas “vizinhos” latino-americanos como Argentina, Uruguai, Paraguai, México ou Haiti. Teve gente que veio de bem mais longe, como clubes da Arábia Saudita, Alemanha, China e Japão (com quatro times diferentes).

Santo André (SP), campeão da Copinha de 2003.
Fonte: Blog do Bellotti – Esporte Clube Santo André

Tabelinha complicada

Democracia e futebol, em nosso país, nunca se deram muito bem em campo. Cartolas e jogadores na maioria das vezes se encontram em lados opostos, numa tacanha e tradicional relação entre patrões e empregados: uns mandam e outros obedecem, ou, pelo menos, fingem que obedecem. E quando acontece, esporadicamente algum tipo de “bola dividida”, geralmente os dirigentes levam a melhor.

No Brasil, as poucas manifestações conjuntas de jogadores só acontecem quando o “bolso pesa”, ou seja, em situações de não pagamento de salários ou direitos de imagem. Não há, em mais de um século do esporte no país, registros de qualquer manifestação coletiva relevante em defesa da classe profissional.

Uma pesquisa divulgada, em 2021, com dados da CBF, Statista e Ernst & Young mostrou que mais da metade dos jogadores profissionais (cerca de 55%) ganham apenas um salário mínimo por mês, mas isso não mobiliza atletas que poderiam usar sua visibilidade e sua voz para questionar tal discrepância.

No fim da carreira, quando atuava pelo Corinthians, o “fenômeno” Ronaldo Nazário chegou a dar algumas entrevistas reivindicando direitos trabalhistas e aposentadoria especial para jogadores de futebol. Não deu em nada, claro, mas fica a pergunta: hoje, como proprietário de clubes no Brasil e na Espanha, será que ele ainda pensa da mesma forma.

Se na questão trabalhista a união dos jogadores já é escassa, imagine quando o tema de possíveis mobilizações transcende as quatro linhas. O exemplo mais representativo do qual tenho notícias, até hoje, foi a chamada Democracia Corinthiana, movimento surgido no início dos anos 1980, nos estertores da Ditadura Militar.

 Tendo à frente jogadores como Sócrates, Casagrande e Wladimir, o elenco do alvinegro paulista não apenas reivindicava direitos para a classe, como se manifestava politicamente pela volta da democracia no país. Andorinhas que não conseguiram fazer verão.

A democracia em campo com os jogadores do Corinthians.
Fonte: Jornal de Uberaba.

Protestos contra o racismo, a homofobia e até mesmo contra a realização de partidas ainda durante um período mais crítico da Pandemia não devem ser vistos, no meu entender, como uma manifestação conjunta da classe, até porque, quase todos tiveram a anuência dos clubes. Eram demandas autorizadas pelos patrões.

Bola democrática

Mas coloquemos a bola no centro do gramado para analisarmos o poder democrático da Copinha. Mais de 3 mil atletas dos quatro cantos do país têm, durante a competição, a chance de realizar alguns de seus sonhos, dos mais modestos aos mais ambiciosos.

Para muitos desses meninos só a oportunidade de viajarem para outro estado já é uma grande realização, mas, é claro que a maioria tem aspirações maiores: serem vistos, terem seu talento reconhecido, chamarem a atenção de outros clubes ou, ao menos, de algum “olheiro”. Se a partida for contra um “time grande”, ainda melhor, porque a chance de ser transmitida para todo país deixa a “vitrine” bem mais ampla. Uma bela jogada ou, por desígnios do destino, um gol, podem ser a senha para alcançar (desculpem o termo “modinha”) um outro patamar.

Em um país com tanta desigualdade social como o nosso, jogar bola e bem, sempre é visto como possibilidade, ainda que remota, de ascensão social. Exemplos não faltam. Muitos dos multimilionários jogadores brasileiros espalhados pelas maiores ligas de todo o mundo têm histórias semelhantes à de Vinícius Júnior, atacante do Real Madrid e da Seleção, que começou jogando em uma escolinha em São Gonçalo, município humilde do Grande Rio e que alcançou o estrelato, sendo, hoje o jogador brasileiro mais valorizado do planeta.

A ambição, justificada, dessas famílias impõe uma pressão danada sobre esses jovens. Chega a ser recorrente a resposta que quase todos meninos dão quando questionados sobre suas ambições profissionais. Invariavelmente a primeira resposta é comprar uma casa para a família ou proporcionar uma vida mais tranquila para os pais. Dependendo do contrato, essas preocupações chegam a ser tão singelas como a resposta daquele sujeito que, certa vez, em uma reportagem sobre um prêmio acumulado da Megasena, disse que consertaria a bicicleta caso acertasse as seis dezenas.

Imaginem, por exemplo, os valores (não divulgados) do acerto entre Palmeiras e Real Madrid pela venda do passe do menino Endrick, de apenas 16 anos. O garoto, que começou a jogar pelo alviverde aos 10 anos de idade, fez 165 gols em 169 jogos disputados pelas categorias de base. Na Copinha de 2022 foram 5 gols em cinco jogos; o mesmo aproveitamento de 100% se repetiu na Seleção sub-17. Resultado: com apenas 7 partidas disputadas pelo time principal, já está negociado, embora só vá para a Espanha em 2024, quando completar 18 anos.

Endrick o novo espelho de cada menino bom de bola. Fonte: Globo Esporte.

Nem todos serão Endricks. Melhor dizendo, nem todos conseguirão oportunidades e, muito provavelmente, daqui a alguns anos o mundo da bola será algum uma lembrança distante, presente apenas em fotografias. Aqueles que conseguirem seguir na profissão terão um longo caminho pela frente seja na terra natal, em outros estados ou até mesmo em país sobre o qual jamais ouviram falar, com uma língua estranha e muito longe da família.

Para esses jovens que entram em campo nos jogos da Copinha, o futuro é uma incógnita e todo o labirinto que existe entre eles e uma carreira nem passa pela cabeça de quem deixou de ser criança há pouco e vê, sobre seus ombros, o peso de ser a tábua de salvação para uma família inteira. O sonho pode ser Munique ou Manchester, a realidade, contudo, pode não passar de Arapiraca ou Marabá.

Que os tais ventos democráticos façam com que o país volte a um rumo onde a educação pública de qualidade seja uma realidade, ainda que a médio ou longo prazo. Só assim rapazes como esses que disputam a Copinha não tenham no futebol sua única possibilidade de vingar na vida de forma digna.

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Pelé, o Rei

O que tinha Pelé para ser chamado de Rei do Futebol? Perfeição. Essa é a palavra que melhor o define. Pelé era completo em todos os fundamentos. Seu jeito apolíneo de jogar futebol impressionou o mundo em 1958, quando ele tinha 17 anos. E o corou definitivamente como o melhor de todos os tempos, após o milésimo gol em 1969, e na conquista do tricampeonato, em 1970, com 29 anos de idade.

Fonte: Lance!

Durante muito tempo sua “realeza’ era inquestionável, uma unanimidade. Mesmo na Argentina. Muitos não sabem, mas Pelé foi colunista do Jornal Clarín nas Copas de 1978, 1982, 1986 e 1990. Sendo que nessa última, ele foi anunciado, em uma foto cumprimentando Maradona, como o maior da história na apaixonante atividade de se jogar futebol.

Nas Copas de 1982 e 1986, os jornais brasileiros e argentinos debatiam sobre Zico e Maradona, para saber quem era o melhor. Pelé estava fora dessa discussão. A partir dos anos 2000, por conta de uma votação na internet promovida pela FIFA, criou-se o debate entre Pelé e Maradona sobre o maior da história.

Uma heresia comparar jogadores de épocas distintas. Mas isso faz parte do esporte. Ainda assim, jornais do mundo inteiro, como franceses e alemães, por exemplo, noticiaram a morte do Rei como o melhor da história.

Quais os atributos perfeitos de Pelé para ser o Rei? Todos. Ou melhor, todos aqueles que imaginamos ser possíveis na atividade futebolística. Cabeceio, passes, dribles, gols, arrancadas, tiro livre etc. Em tudo, parecia que a figura de Apolo, o Deus da perfeição, estava presente.

Idolatrado mundialmente, Pelé criou um repertório de jogadas e gols que levaram a conquistas memoráveis. E surpreendentemente até de gols antológicos que, infelizmente, não aconteceram, mas que, ainda assim e talvez por isso mesmo, se tornaram célebres, inesquecíveis, como o contra o Uruguai, na Copa de 1970.

Pelé, um homem preto, atleta extraordinário, tema de artigos acadêmicos, dissertações de mestrado e teses de doutorado. Simplesmente o Rei do futebol. E isso em um país e em uma época em que casos de racismo eram frequentes e que, ainda hoje, se tornam evidentes.

Pelé passou um tempo de sua vida tendo que se explicar e se justificar de acusações de que ele poderia ter feito mais para o movimento negro, por exemplo. Alguns o criticaram por isso. Inclusive, se tornou famosa a frase de que Pelé calado seria um poeta. Mas Pelé em campo era pura poesia.

O fato é que sua simples presença em lugares onde pretos não costumam frequentar e que são barrados na entrada, era de uma importância ímpar e orgulho de muitos. E mesmo sendo alvo de críticas dentro de seu país, sua comparação com qualquer outro atleta de futebol era considerada uma blasfêmia para a maioria dos brasileiros. Pelé, atleta, era sagrado. E, portanto, intocável, incomparável.

Eu tive o privilégio de ver Pelé jogar quando eu era criança. Foi o único atleta a marcar gol contra o meu amado Flamengo e a torcida aplaudir (eu inclusive). Pelé estava além e acima das rivalidades. Ídolo mundial, herói do Santos, se tornou ídolo e herói de todos os brasileiros. Eternamente.

Obrigado, Pelé.

Artigo publicado no jornal “O Globo”: https://oglobo.globo.com/opiniao/artigos/coluna/2023/01/por-que-pele-era-o-rei-do-futebol.ghtml

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Roberto Dinamite e a explosão de emoções

Por Antonio Soares

Neste domingo, fui surpreendido com a morte de mais um personagem importante para minha formação no campo do esporte e da cultura. Já tínhamos recentemente perdido o Tremendão, a linda e afinadíssima Gal e outras pessoas ilustres, cujo desaparecimento torna o mundo menor. Pelé morreu e causou comoção mundial. Como diz meu amigo João, Pelé fez mais coisas dentro e fora de campo do que ele mesmo pudesse imaginar, apesar de suas caneladas na vida privada comum a qualquer mortal. Roberto nos deixou há pouco, depois de um jogo difícil travado contra um câncer de intestino. Ele morre aos 68 anos, deixando uma legião de fãs de minha geração, admirados com aquele futebol que temos na memória dos domingos de clássico no Maracanã ou em São Januário. 

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Fonte: Elencos

Carlos Roberto de Oliveira, conhecido como Roberto Dinamite, nasceu em 13 de abril de 1954, no município de Duque de Caxias, Baixada Fluminense, Rio de Janeiro. Foi exímio goleador e é o maior ídolo, em todos os tempos, da torcida vascaína. 

Como vascaíno de meia-tigela atualmente, não posso esquecer as alegrias que Roberto me deu durante minha infância, adolescência e início da vida adulta. Sou neto de portugueses de Trás-os-Montes, então não poderia deixar de ser Vasco, no Rio de Janeiro, e Porto, em Portugal. Cansei de assisti-lo marcar gols de falta ou nos minutos finais, assistindo aos jogos do Vasco a olho nu, sem replays ou VAR. Não me esqueço das partidas finais do Campeonato Brasileiro de 1974, lá estava eu nos dois jogos finais no Maracanã. O Vasco tinha a vantagem do empate na semifinal contra o Internacional, para enfrentar o Cruzeiro na decisão; Roberto marcou o primeiro gol e Zanata o segundo, mas o jogo termina 2 a 2. Na final contra o Cruzeiro, o Vasco ganhou de forma épica por 2 a 1, com gols de Ademir e Jorginho pelo Vasco, com Nelinho descontando com um golaço. Roberto foi o artilheiro do campeonato, com 16 gols. Ao final, houve a troca de camisa com Dirceu Lopes, movimento feito de acordo com o manual do fair play da época, tal como deve ser uma passagem de faixa presidencial. O jogo foi apitado pelo icônico Armando Marques.

Eu, um garoto, frequentava o Vasco e lá praticava judô. Observava, a cada tarde, Roberto treinando solitariamente a cobrança de faltas, com uma barreira de madeira, até escurecer. Por isso, embora existam gênios em qualquer área, os que conheço foram forjados com treino e esforço. Roberto, Zico e outros eram ídolos de seus clubes e sabiam cumprir bem o papel que suas comunidades imaginadas, suas “nações”, lhes conferiam.  Eles não recusavam autógrafos, fotografias e afagos aos seus torcedores.

Um dos mais belos gols de Roberto e da história do futebol mundial se deu num Botafogo e Vasco, em 1976. Roberto constrói a jogada, recebe a bola no alto num passe em inversão de Zanata, mata no peito, dá um chapéu em Osmar e de voleio arremata contra Wendell. Esse gol é inesquecível.

O golaço de Roberto Dinamite diante do Botafogo, em partida válida pelo Campeonato Carioca de 1976.

A última vez que tive contato com Roberto foi num conturbado voo entre Belo Horizonte e Rio. O Vasco tinha acabado de jogar contra o Atlético Mineiro e, para infelicidade do Dinamite, havia sido derrotado. Estava sentado quando vi Roberto, no alto dos seus 1,86 m, entrar no avião. Para minha surpresa, ele se sentou ao meu lado. O Vasco atravessava uma difícil campanha e ele era o presidente do clube. Além das amenidades que conversamos sobre minha memória vascaína, falamos sobre a política carioca, sobre a qual tínhamos algumas divergências que não podiam sobressair diante do meu ídolo de infância. Como o voo havia sido alterado, nosso pouso seria no Galeão, não mais no Santos Dumont, como previsto. Roberto reclamou que tinha seu carro no aeroporto da Zona Sul. Como minha mulher foi me buscar no Galeão, ofereci uma carona que ele prontamente aceitou. Assim, pude ainda desfrutar um pouco mais da companhia daquele que fez minha infância mais feliz. 

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O maximalismo e os óculos da soberba

O estilo maximalista adotado por grande parte dos 26 “foras de série” que representaram nosso país na Copa do Mundo 2022, promovida pela FIFA, foi usado para “contar a narrativa do hexa”. Título prometido ao “Mito” que, junto a sua vitória nas urnas, dariam, sim, um novo valor simbólico à camisa canarinho (e a Bandeira Nacional). 

Este estilo, construído de fora para dentro, com cabelos criados por “personal hair style”, headphones exclusivos banhados a ouro ou inseridos em óculos de design avançado (por acaso estilo dos anos 1980) junto às coreografias dignas dos musicais da Broadway, fizeram parte deste “mais é mais” promovido por esta casta de privilegiados que esqueceram de fazer o principal (os Gols), com o intuito de maximizar as experiências do consumidor (torcedor em outras épocas), mascarar a realidade do futebol brasileiro atualmente em cartaz  e o clima político vivido no momento.

Todos esses elementos, em conjunto com a soberba dos mitos socialmente construídos, não permitem avaliar com precisão a força à disposição, como também os leva a desconsiderar de forma arrogante a força dos oponentes, sempre sob a tutela da mídia e sua fome de audiência. Nunca perdemos porque os outros demonstraram superioridade e sim porque por algum motivo nós permitimos.

Está na hora de esquecer esses mitos de origem, campeonatos morais e glórias históricas que não entram em campo e revisitar conceitos, ou então mudar o método pedagógico formativo, se é que existe algum método nesse campo. 

Já se vão cinco Copas do Mundo onde os protagonistas em campo, dirigentes, “cartolas” e a imprensa esportiva especializada (em entretenimento) prometem aprender com a derrota e voltar mais fortes na próxima (?). No atual contexto, fica evidente que não se aprende com a derrota, se aprende corrigindo os erros. E a primeira atitude a ser tomada para ter êxito é identificá-los e reconhecê-los. Simplesmente admitir a derrota torna-se ineficaz, ela é óbvia, normalmente testemunhada ao vivo por alguns bilhões de espectadores ao redor do planeta.

Fonte: Esportes R7

O reconhecimento desses erros revela invariavelmente os CPFs da autoria, deixando a descoberto indivíduos ineptos ou incompetentes e exigem principalmente um “minha culpa” público. Nobre atitude que nunca tiveram, têm ou terão, enquanto uma casta desprovida de ética. Que ao invés de buscar o sportswashing, procurem superar as dificuldades, transpor os obstáculos com vistas à construção de um espaço de ordem onde curriculum, tradição, história e peso de uma camisa tenham seu devido lugar: no imaginário da torcida e da imprensa (e não no campo de jogo). 

Num esporte coletivo, a identificação de um “vilão” para o fracasso não exime os “pecados”, pelo contrário, relativiza a análise da derrota, jogando uma máscara na realidade. A falta de críticas construtivas nas vitórias (onde não haveria nada a melhorar) colaboram para permanência da atual conjuntura.  

Partindo de algumas hipóteses vou tentar contestar algumas “verdades” travestidas de tradição que regem este imaginário popular:

  • Somos o país do futebol… Será?

Em primeiro lugar, se fôssemos, estaríamos para o futebol, como os Estados Unidos estão para o basquete – mesmo que eles não se autodenominem o “país do basquete” ou como os africanos estão para as maratonas.

Segundo, deveríamos ter políticas públicas oriundas da CBF, que no lugar de organizar campeonatos regionais e/ou nacionais, limitasse sua atuação às Seleções Nacionais e seus compromissos esportivos. Brindasse apoio material, técnico e de infraestrutura aos Estados e Municípios para normatizar, desenvolver e fiscalizar o futebol infantil, que hoje está na mão de “experts” travestidos de pseudoeducadores nas “Escolinhas de Futebol” com a “marca” de craques do passado que nem conhecem o espaço físico onde estas ficam localizadas.  

Terceiro, sendo o “país do futebol” dono dos jogadores mais habilidosos e técnicos do universo e única seleção pentacampeã Mundial, deveríamos ter mais protagonismo global. Pelo contrário, utilizamos o futebol como mais uma commodity: exportamos “pé de obra” (DAMO) e importamos o espetáculo pronto, repatriamos craques aposentados e retransmitimos ao vivo as Ligas mais poderosas do mundo, pagando royalties para assistir alguns outrora meninos nossos da periferia. 

Não é por acaso ou por abuso infantil que os meninos brasileiros são recrutados cada vez mais cedo. E então levados para centros de excelência para serem formados ética, moral e esportivamente.  

A exportação da maioria de nossos jogadores tem como destino as ligas menores. São poucos aqueles que atuam nas ligas Inglesa, Alemã, Espanhola, Italiana ou Francesa e o mais sintomático: nossos Técnicos não frequentam (nem frequentaram) as ligas da elite mundial.

O acaso não é responsável de que a Licença de Treinador da CBF na Europa, valha o mesmo que minha carteira de motorista… a UEFA não reconhece e não autoriza seu portador a exercer função remunerada no continente. 

A título de curiosidade, podemos olhar para as 10 últimas Copas do Mundo e contar quantos técnicos brasileiros estão ou estiveram a frente de seleções europeias, ou para ir geograficamente mais perto, olhar nas últimas cinco edições da Copa América e fazer o mesmo levantamento[1].

Também caberia fazer essa pesquisa em nível de Clubes nas cinco maiores Ligas do velho continente, sem atribuir isso à barreira idiomática… Portugal não deixa.  

Os argentinos, por exemplo, também teriam essa barreira, e mesmo assim têm simultaneamente quatro ou cinco técnicos nas maiores ligas europeias, sendo também maioria nas Seleções sul-americanas.

O reconhecimento desse fato fica evidenciado quando após a saída do “Mister” Tite, (aquele mesmo, que abandonou os guerreiros caídos no final da batalha após a derrota) a CBF busca um não-nativo para comandar o próximo “ciclo” mundial à frente da Seleção Nacional. Deve ser reflexo de que nos últimos 5 anos no Brasil, os técnicos que brilharam por estas terras eram estrangeiros, entre eles Jorge Jesus e Abel Ferreira.

  • Somos os únicos pentacampeões … E daí? 

O título de pentacampeão, por si só, não confere nenhuma vantagem ou meritocracia ao portador. O histórico não alinha em campo nem converte gols.

Se fizermos uma leve reflexão, perceberíamos que nos últimos 52 anos (meio século) não existe hegemonia de seleção alguma no planeta. Tanto Brasil quanto Argentina e Alemanha, ganharam três edições da Copa do Mundo cada uma.

  • Somos a única seleção a participar de todas as Copas… Mérito próprio? 

Verdade, somos a única a participar de todas as Copas e não temos que nos orgulhar disso. A geopolítica (e não a classificação na bola, via eliminatórias) nunca atuou contra a Seleção Brasileira, nunca barrou a sua participação por motivos burocráticos ou políticos, como fez com algumas nações. Portanto somos os únicos que participamos de todas as edições do evento sim, sem contestação, de novo… qual o mérito, por quais motivos?

Na Copa do Mundo da França, em 1938, a FIFA deixou de fora a Espanha porque em 1937 o país atravessava um conflito armado por conta da guerra civil e não permitiu que disputasse as eliminatórias.

No Brasil, em 1950, a ONU (Organização das Nações Unidas) solicitou à FIFA que excluísse Alemanha e Japão por conta de sanções impostas pela entidade em 1945, após o término da Segunda Guerra Mundial.  

Na Copa de 1954 na Suíça, as representações de Bolívia, Costa Rica, Cuba, Índia, Islândia e Vietnã não cumpriram o prazo de inscrição e perderam as Eliminatórias. 

Em 1958, na Suécia, onde o Brasil se sagrou Campeão pela primeira vez, a FIFA limitou o número de participantes deixando de fora os africanos, que à época tinham acabado de formar sua Confederação e disputavam as eliminatórias junto aos asiáticos, e enviaram por último a documentação (Rígida a FIFA, né?). A África do Sul ficou de fora devido ao regime do Apartheid, e Turquia, Indonésia e Sudão se retiraram das disputas por se recusarem a enfrentar a seleção de Israel.

Em 1966, na Inglaterra, a África do Sul permaneceu de fora pelo Apartheid e os demais países africanos não compareceram por achar injusta a forma de disputa[2]. As Filipinas que não efetuaram o pagamento das taxas de inscrição, além de Congo e Guatemala, que perderam o prazo de inscrição, também foram excluídas.

Em 1970, no México, quatro seleções tiveram os pedidos rejeitados pela FIFA, mas as razões são desconhecidas. Albânia, Cuba, Guiné e Zaire foram as barradas da vez.

Nas edições de 74 e 78 não houve interferência alguma da FIFA. Somente em 1982, na Espanha, a República-Centro-Africana ficou de fora por não efetuar o pagamento das taxas. 

Na Copa do México, em 1986, vencida pela Argentina, mais uma vez um conflito armado decide a participação ou não de uma nação. Irã e Iraque foram os protagonistas do confronto, e somente o primeiro ficou de fora. O Iraque foi autorizado a participar das eliminatórias e se classificou para a disputa.  

Ao tentar fraudar a FIFA, inscrevendo jogadores acima da idade permitida (vulgo gatos) para o Mundial Sub-20 de 1989, o México foi punido, sendo proibido de disputar a Copa do Mundo de 1990, na Itália. As representações de Belize, Ilhas Maurício e Moçambique não disputaram as Eliminatórias por dívidas com a entidade máxima do futebol.

Um fato ocorrido no Maracanã em 1989, na última rodada das Eliminatórias para 1990, protagonizada por um sinalizador e o goleiro chileno Rojas, suspendeu o Chile da Copa dos Estados Unidos de 1994 por simulação e fraude. Rojas foi banido do futebol e vários jogadores foram suspensos. A ONU pediu também a suspensão da Iugoslávia e da Líbia, devido ao conflito dos Balcãs e a atentados terroristas, respectivamente.

Nas Copas de 2014 e 2018, a tentativa de interferência de Governos nas respectivas federações, tirou da Copa o Brunei e a Indonésia, respectivamente.

Por último, na Copa de 2022, no Qatar, a FIFA desfiliou a Rússia pela invasão (em curso) da Ucrânia, deixando-a de fora da disputa da repescagem e por consequência, da Copa do Mundo. Como podemos perceber, o mérito de o Brasil ter participado de todas as edições do maior evento do planeta é exógeno.

Dito isto, acho que está na hora de deixar de pensar o futebol brasileiro como um museu (que vive do passado) ou como um ser acadêmico (que vive de curriculum). Deixar de pensar que as derrotas são fruto de conspirações e, principalmente, que gostamos de futebol, gostamos mesmo é de ganhar. Se gostássemos de futebol, não vibraríamos com a eliminação de uma seleção ou estaríamos torcendo para outra ser eliminada, só pelo fato de serem concorrentes, nem escolheríamos (quando possível) qual time preferíamos enfrentar na seguinte fase. 

Outro sentimento que (convenientemente) não temos muito claro, por exemplo, é referente aos nossos vizinhos de continente: “Com Argentina e com Uruguai temos rivalidade”, por isso torcemos contra. 

Não, contra eles temos alteridade Como gostaríamos de ter ganho a Copa de 1950, já seríamos hexa… Também não ter perdido a Copa América 2021 no Maracanã para esses racistas (nós não, eles…) … “Ganhar é bom, mas ganhar da Argentina é muito melhor”… Como seria bom ter, além do penta, cinco Prêmios Nobel e dois Oscar no cinema.Quiçá os óculos maximalistas da soberba não nos permitam perceber nada do acima exposto. Se despir dela, a soberba, seria no meu humilde entender, o primeiro passo para mudar o estado da arte. O simples fato de ter participado de todas as Copas, ou de ser a única pentacampeã são argumentos paupérrimos como único pilar de orgulho de qualquer Nação e sem relevância fora do eixo histórico.


[1] Os treinadores argentinos estão representados em todos os lugares. Na Copa do Mundo 2018 eles eram maioria, e comandaram cinco das 32 seleções. Na fase de grupos da Copa Libertadores 2020, conduziram 14 dos 32 participantes. Um estudo recente publicado pelo Centro Internacional de Estudos do Futebol, na Suíça, revelou que, de todo o mundo, o país que mais tem técnicos em atividade em outras ligas é justamente a Argentina. São 68 representantes em 22 países diferentes. O Brasil tem só 16.

[2] Em 1964, todos os países africanos boicotaram a FIFA devido à forma como as Eliminatórias de lá eram disputadas. Os africanos não tinham vaga garantida. O vencedor do continente deveria disputar ainda com os vencedores da Ásia e da Oceania o direito de disputar o Mundial. O protesto não funcionou para aquela Copa e as Eliminatórias continuaram a ser disputadas daquela maneira, sofrendo alterações apenas no Mundial seguinte, em 1970. Disponível em https://www.uol.com.br/esporte/futebol/ultimas-noticias/2022/09/17/quais-paises-ja-foram-barrados-da-copa-do-mundo.htm?

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Partiu o mais completo de todos

Escrito por: Walter Vargas, comentarista da ESPN.

Fonte: O Globo

Pelé foi embora. O jogador mais completo que vi em meus 64 anos e quase quatro meses.

Em um futebol mais lento? Sim.

Sempre com interlocutores qualificados? Também.

Mas o mais completo.

Maravilha atlética, dois perfis, drible, assistência, cabeceio, contundência, habilidade, malandragem, elegância, cérebro forte e uma presença imaculada nas provas mais difíceis.

Pelé: um 10 com tudo no seu lugar, com voracidade de 9, dinâmica de 8 e malícia de 5.

Sideral, Pelé.

Tanto que ele foi quem foi e será quem será, a salvo de alguns mais bem argumentados.

Sem a generosa distribuição de Di Stefano.

Sem a fina inteligência de Cruyff.

Sem a beleza celestial de Maradona.

Sem a assombrosa validade de Messi.

Um bom Rei, ó Rei, depois de tanto. Depois de tudo.

Um rei que, como todo rei justo, honrou seus predecessores, superou-os e depois autorizou e abençoou os reis que chegavam.

Adeus, Pelé.

Beijo a tua imagem numa figurinha de cartão que guardo desde criança, ergo o copo e pergunto-me, decido perguntar-me, se nunca te encontrarei num canto ali: o chão misterioso onde todas as bandeiras tremulam, ou nenhuma.

Tradução por: Ronaldo Helal.