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A Copa do Mundo masculina e as escolas

A importância de pensar a competição como um fato cultural transcendente que vale a pena abordar a partir das instituições de ensino. Um olhar a partir da antropologia e da filosofia.

O ministro da Educação da Nação, Jaime Perczyc, foi questionado há alguns dias sobre o que as escolas fariam durante a Copa do Mundo masculina que ocorrerá no fim do ano no Catar. Sobre isso, ele afirmou: “Acreditamos que as partidas da Argentina devem ser exibidas nas escolas e repletas de conteúdo”. E acrescentou que o evento “é uma excelente oportunidade para despertar o interesse e para trabalhar vinculando questões de ética, história, ciências sociais, geografia, literatura ou matemática”.

As declarações de Perczyc dão continuidade a uma saudável iniciativa que o ministério apoiou ao menos nas últimas quatro edições do mundial masculino. Desde 2006, publica, como esclareceu a cartilha daquele ano, “material didático (para explorar a Copa do Mundo) para todas as escolas do país”. Quatro anos depois, a publicação destacou que tinha “um objetivo claramente definido e que é transformar a Copa do Mundo de 2010 em uma oportunidade educacional”. Em 2014, Perczyc, então Secretário de Educação do país, indicava: “A escola pode se apropriar dessa enorme oportunidade pedagógica” e é capaz de “incluir nas salas de aula as experiências que nos fazem ser quem somos”. A apresentação da última publicação, em 2018, destaca que o torneio é um evento cultural transcendente que as escolas deveriam abordar.

Nessa iniciativa, subjaz uma concepção de esporte, proposta pelo antropólogo Clifford Geertz, como um texto (uma estrutura simbólica criada e sustentada coletivamente) por meio do qual as pessoas contam histórias sobre si mesmas. Seu colega Eduardo Archetti dizia, de forma diferente, mas com pontos de contato: o esporte é um espelho para se ver e ser visto. Essa atividade, prosseguia, é “um espaço para a produção de imaginários, símbolos e heróis”. Ver-se e ser visto implica, nos termos de Geertz, narrar-se. Dessa forma, o futebol, por sua popularidade, se articula como um texto digno de interpretação, porque nele se manifesta o ethos (ou caráter) de um povo. Por essa razão, Geertz argumentou que o esporte é um tipo de educação sentimental onde se aprende esse ethos. Assim, Perczyc explicou que o futebol nos faz ser quem somos.

“É possível, e muito proveitoso, fornecer conteúdo para a próxima Copa do Mundo masculina, articulando o futebol como um texto, bem como uma prática social intrinsecamente valiosa.”

A concepção geertziana de esporte é adequada para que os professores forneçam conteúdo à Copa do Mundo masculina. Abordar e investigar o que o futebol, nacional e internacional, nos diz abre ricas oportunidades para vinculá-lo a diferentes áreas do currículo atual. Afinal, entende-se melhor como se manifesta o ethos nacional no mundial masculino de futebol, e como nos familiarizamos com ele e com suas complexidades, analisando sua história, suas dimensões sociais, políticas e econômicas, bem como suas relações com outros textos como a música, o cinema ou a literatura. Geertz propunha que as sociedades contêm, nos esportes e demais textos, suas próprias interpretações. “A única coisa necessária”, afirmou, “é aprender a maneira de ter acesso a elas”. A articulação pedagógica cuidadosa e contínua da Copa do Mundo masculina nas escolas contribui para esse aprendizado.

Fonte: Terra

Apesar de suas vantagens, a concepção geertziana de esporte tende a ser complementada pela ênfase em sua lógica constitutiva e sua moralidade interna, questões que podem ser perdidas de vista ou relegadas ao enfatizar que é um meio de dizer “algo sobre algo”. Seguindo o filósofo Alasdair MacIntyre, pode-se argumentar que o esporte é uma prática social. Ou seja, é uma atividade coerente e complexa, de caráter cooperativo, com bens internos (aqueles que só se materializam pela prática em questão – no caso do futebol, suas habilidades e táticas), padrões de excelência e virtudes. Os dois primeiros elementos são importantes porque, ao constituí-los e defini-los, conferem às práticas sociais uma identidade própria e única.

O terceiro porque permite sua manutenção e prosperidade. Neste sentido, o esporte é intrinsecamente valioso. Reconhecê-lo como tal abre a possibilidade de levar uma vida significativa marcada pelo seu cultivo e enobrecimento. Essa perspectiva do esporte também deve fazer parte do conteúdo que os professores fornecerão na próxima Copa do Mundo masculina. O evento facilita e convida a explorar o lugar que deveria ocupar o futebol em uma vida satisfatória, o que significa viver o futebol com sucesso ou que tipo de satisfação emerge de uma vida futebolística.

“Geertz argumentou que o esporte é um tipo de educação sentimental onde  se aprende o ethos de um povo.”

É possível, e muito proveitoso, fornecer conteúdo para a próxima Copa do Mundo masculina articulando o futebol como texto e como prática social intrinsecamente valiosa. Isso, como destacou Alberto Sileoni, então Ministro da Educação do país, em 2014, deve ser feito criticamente e questionando preconceitos, para fazer suas próprias perguntas, evitando estereótipos e “remontando uma realidade mais ampla, mais rica e, sobretudo, enraizada nos valores de liberdade, justiça e democracia”. Somente assim se “aproveita, educativamente, essa genuína paixão nacional”. A chave é quebrar as maneiras pelas quais, muitas vezes, o esporte marginaliza.

As recentes declarações de Perczyc foram feitas durante a Copa América feminina. Infelizmente, esse torneio só é acessível com uma assinatura de um canal de televisão a cabo. Seria acertado que as assimetrias de gênero no futebol, que invisibilizam a categoria feminina, fizessem parte da iniciativa do Ministério da Educação. A cartilha elaborada para o mundial masculino de 2018 explicava que “nos últimos tempos, as mulheres vêm conquistando espaços de participação ao derrubar barreiras que as excluíam e as renegavam”. No entanto, apesar desses avanços, ainda estamos longe da igualdade de gênero. Quando chegará o dia em que as autoridades educacionais permitirão e incentivarão a assistir às partidas mais importantes da seleção feminina de futebol nas escolas? Afinal, o futebol feminino também diz algo sobre a sociedade e forma um horizonte vital para suas praticantes.

* Cesar Torres é doutor em Filosofia e História do Esporte. Professor da State University of New York (Brockport).

Texto originalmente publicado pelo site Página 12 no dia 23 de julho de 2022

Tradução: Anabella Léccas e Fausto Amaro

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E torcedor entende de futebol?

A pergunta provocativa surge a propósito do antagonismo, aparentemente cada vez mais crescente, entre as expectativas de torcedores dos mais variados times e os diagnósticos de treinadores e do jornalismo esportivo. Não é incomum que vaias ou críticas nos estádios e nas redes sociais sejam apontadas por jornalistas esportivos como fruto do “imediatismo do torcedor” e sejam seguidas de conclamações, como a de que é “preciso dar tempo para o treinador mostrar os frutos do seu trabalho”. 

Embora o resultado dessa tensão pareça soar um tanto esquizofrênico – se só um time pode ser campeão e, se para um time vencer, o outro tem de perder, a conta não tem como fechar – é possível, no entanto, admitir que determinadas reclamações dos torcedores são críveis e portadoras de alguma consistência. Apesar de, teoricamente, um trabalho de médio e longo prazo ter mais chances de mostrar resultados, essa não é uma tese que independa da qualidade do treinador contratado. 

Afinal, como ensina um antigo ditado do mercado publicitário a melhor forma de destruir um produto ruim é expô-lo ao máximo. Ou seja, o torcedor não precisa esperar ver o seu time sofrer por cinco rodadas para ter a convicção – com grande margem de acerto – de que um determinado técnico não tem condições de produzir resultados. Um exemplo emblemático foi a apresentação de Waldemar Oliveira como treinador do Flamengo, em outubro de 2003. 

Uma rápida busca no Google por “O novo técnico do Flamengo é o senhor Waldemar”, pronunciada pelo então diretor de Futebol do clube, Eduardo Moraes, confirma que a reação da torcida rubro-negra ao anúncio virou um dos memes mais longevos do futebol. No entanto, para além do folclore, o tempo confirmou que os torcedores tinham razão para recusarem a contratação. Waldemar foi demitido, em dezembro daquele mesmo ano, após dirigir o time por apenas 11 partidas. O breve desfecho mostrou que os torcedores não precisavam esperar dois meses para formar seu juízo sobre a inconveniência da contratação, contrariando os tradicionais pedidos do jornalismo esportivo por mais tempo para os treinadores desenvolverem seu trabalho.

Fonte: Lei em Campo.

O mesmo feeling torcedor vale para determinadas contratações apresentadas como reforços que “precisam de tempo para mostrarem seu futebol”. Com poucas exceções que servem para reforçar a regra, muitos desses “reforços” costumam ser recebidos com desconfiança que, não raro, se confirma. Obviamente, que todas as torcidas erram, e muito, como confirma a perseguição de torcedores do São Paulo ao então jovem Kaká, cujo desempenho oscilava enquanto maturava o desenvolvimento do talento que viria a exibir na Europa, onde recebeu o prêmio de melhor jogador da temporada, que o forte marketing europeu promoveu a “Melhor jogador do mundo”. 

No entanto, embora possa errar e, eventualmente, não entender de meandros da técnica, o torcedor tem uma espécie de sentimento de que as coisas não vão dar certo, seja numa partida ou numa competição. Tal sentimento parece vir da experiência empírica forjada no acompanhamento do mesmo clube temporada após temporada, jornada que, não rara, começa na infância e vai sendo maturada, mas não desidratada com o passar dos anos.

Além disso, ele tem vantagens comparativas simbólicas e concretas sobre o jornalismo esportivo e, eventualmente, até sobre o treinador do momento: conhece a história do clube e segue de perto seus jogadores. O técnico, embora por obrigação profissional deva estudar o maior número de times, seja por ser um adversário, seja por ser um potencial futuro empregador, nem sempre tem a mesma compreensão do ethos do clube, não raro, tão ou mais decisivo para o desenvolvimento do trabalho do que seus méritos táticos, como comprovam declarações vistas como depreciativas pelos torcedores, principalmente quando envolvem comparações com os rivais que estes julgam desfavoráveis. 

Já o jornalismo esportivo se limita a acompanhar um número reduzido de clubes, basicamente os três grandes da capital de São Paulo e o Flamengo, no Rio, com acréscimos residuais de intrusos que se apresentem numa fase excepcional, situação que não afeta o espaço destinado aos quatro eleitos. 

Tais escolhas podem ser conferidas, tanto nos espaços extremamente assimétricos destinados nas mesas redondas ao quarteto num Campeonato Brasileiro com 20 clubes, dos quais, ao menos 12 tradicionais nacionalmente, quanto em comentários aleatórios nas transmissões de partidas de times fora do quarteto. Assim, vemos comentaristas, como Roger Flores, pedindo, para surpresa e revolta dos alvinegros que, num jogo da segunda divisão do ano passado em que o Botafogo lutava, no fim de uma partida, para conter o ímpeto do adversário para manter o resultado positivo , a entrada do He Man, que, próximo da aposentadoria, trotava em campo.

As percepções, cada vez mais divorciadas, entre jornalismo esportivo e torcedores são alimentadas, ainda, pelo fato de as ponderações para que os segundos reduzam suas expectativas de curto prazo sofram modulações diferentes quando a mesma questão apresenta-se em relação a outros times, em geral superestimados, tanto por seus torcedores, quanto por jornalistas.

A interseção do clubismo entre pontas que, oficialmente, se apresentam de lugares de fala diferentes, porém, está cada vez mais exposta na era da polifonia palavrosa e prolixa das mídias digitais. E também ajuda a explicar, ao menos parcialmente, o processo de erosão da credibilidade do jornalismo esportivo, que, durante muito tempo, foi reconhecido como autoridade sênior na matéria. Embora, por tratar-se de universo catártico como o futebol, tal poder sempre tenha sido passível de questionamentos, parece indiscutível que gozava de reconhecimento bem superior ao do que, ainda, lhe resta na era das mídias sociais.

O crescimento dos questionamentos à isenção dos profissionais desse campo contribui para o aumento das fricções quando se trata de analisar a expectativa dos torcedores em relação à performance dos seus times. Tem-se o choque entre torcidas (quase) permanentemente insatisfeitas com suas equipes e os pedidos de “moderação” e “paciência” de jornalistas esportivos, que, no entanto, não estendem tais conclamações aos torcedores de determinados clubes, percebidos pelos demais como favorecidos pela cobertura da imprensa.

É preciso, ainda, reconhecer que, enquanto tenha aparecido aqui como sujeito único, o torcedor ou a torcida deve ser visto como ente plural que engloba uma polissemia de fatores constitutivos do futebol, como idiossincrasias em relação a determinados jogadores, análise do nível dos adversários, maior ou menor tolerância a críticas ao seu time. No entanto, mesmo com a ressalva de que não deve ser considerado um ser monolítico nem muito menos infalível, o torcedor também tem as suas razões e, por vezes, mostra um número de acertos nas suas críticas superior ao dos movimentos prospectivos do jornalismo esportivo, principalmente quando este acompanha aquele clube apenas de forma panorâmica e/ou bissexta.

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O sucesso dos Clubes brasileiros na Libertadores para além do fator econômico.

Na última semana, o jornal Clarín, principal periódico argentino, suscitou o debate sobre a predominância cada vez maior dos clubes brasileiros na Copa Libertadores da América. Tal discussão também fora realizada anteriormente por analistas brasileiros e por diversos produtos de entretenimento esportivo nas televisões e rádios. 

As avaliações no Brasil, normalmente habitam dentro de um consenso de que o destaque das equipes do nosso país é, atualmente, maior do que eram nas últimas décadas. Diante do exposto, justificam que a principal razão para isso, deve-se ao poderio econômico dos clubes brasileiros frente aos rivais sul-americanos, cada vez mais fragilizados pelo valor do câmbio e do desenvolvimento econômico frente ao Brasil.

Ao analisar os dados sobre a Copa Libertadores da América deste século, ou seja, de 2001 até a atualidade, e os contextos político-esportivos do continente, podemos concluir que tais afirmações não conseguem captar por completo o fenômeno de ascensão dos clubes brasileiros ao posto de hegemônicos no continente.

O primeiro ponto a ser desconstruído é aquele sobre um destaque apenas recente das equipes brasileiras na Copa Libertadores. Neste século, das vinte e uma edições realizadas, os brasileiros estiveram em dezesseis finais, sendo que, em quatro dessas, fizeram uma final brasileira, respectivamente em 2005, 2006, 2020 e 2021. Os clubes brasileiros estiveram fora das finais apenas em 2001 (Boca Jrs X Cruz Azul); 2014 (San Lorenzo X Nacional); 2015 (River Plate X Tigres); 2016 (Atlético Nacional X Ind. Del Valle) e 2018 (Boca Jrs X River Plate). Isso significa que em 77% das finais deste século, os clubes brasileiros estiveram presentes e saíram vitoriosos em onze decisões, perfazendo 53% das edições do século vinte e um.

Fonte: Placar.

Posta essa questão, deveríamos dizer que o destaque dos clubes brasileiros, pelo menos nos últimos vinte e um anos sempre esteve presente, mas agora verificamos um aprofundamento do processo, rumo a uma hegemonia brasileira dentro da Copa Libertadores da América.

No século vinte e um, o Brasil possui destaque e protagonismo na Copa Libertadores da América com a disputa de seguidas finais, mas, normalmente, os clubes que alcançaram as decisões faziam campanhas solitárias, em que somente eles chegavam às fases mais agudas como representantes brasileiros. 

Entre 2001 e 2016, a quantidade de clubes brasileiros que alcançaram as quartas de final oscilaram entre dois e três participantes em catorze oportunidades, sendo a exceção as edições de 2012, 2010 e 2009 quando quatro representantes ocuparam as oito vagas possíveis da competição naquele momento. Cabe ressaltar, que, nesse mesmo período, a presença de clubes de diferentes países da América latina era muito mais acentuada. Verifica-se a partir de 2016, uma concentração das vagas entre os clubes brasileiros e argentinos com a tentativa de alternados clubes paraguaios, uruguaios, equatorianos e colombianos de transpor esse cenário.

A resposta, dada por muitos analistas esportivos, reside no argumento econômico do investimento acelerado e crescente feito pelos clubes brasileiros na última década. Tal argumento se baseia no aumento da arrecadação dos clubes, nos investimentos em estrutura e na contratação de jogadores destacados na América do Sul, bem como no repatriamento de atletas da Europa na liga brasileira. 

O argumento econômico é valido, mas não ajuda a explicar totalmente o avanço do processo hegemônico dos clubes brasileiros na Copa Libertadores da América. Durante o século vinte e um foram diversos os casos de clubes brasileiros que, com orçamento e estrutura muito superiores aos seus adversários sul-americanos, se viram eliminados de forma surpreendente na competição. 

Entre os casos mais emblemáticos temos as eliminações do Corinthians para o Tolima na pré-libertadores de 2011, a do Flamengo para o Racing nas oitavas de 2020, a do Corinthians para o Guaraní do Paraguai nas oitavas de 2015, a do Atlético Mineiro para o Jorge Wilstermann da Bolívia em 2017 e a do São Paulo para o Talleres na pré-libertadores de 2019. Os elementos comuns entre todas elas foram a diferença dos elencos e os investimentos realizados pelos clubes brasileiros e seus adversários.

Caso o argumento exclusivamente econômico se sustentasse, essas eliminações seriam exceções na história da Copa Libertadores neste século. Contudo, os exemplos florescem em quantidade e frequência. É importante salientar que das cinco vezes em que estiveram fora das finais da Copa Libertadores neste século, quatro delas ocorreram de 2010 para cá, quando os dados sobre investimentos dos clubes brasileiros já evidenciavam desequilíbrio financeiro do futebol na América latina.

Fonte: Mercado do Futebol.

Não se discorda que o fator econômico é relevante no avanço do processo de hegemonia do futebol brasileiro na Copa Libertadores da América, mas existem outros elementos a serem considerados. Um deles é a saída dos clubes mexicanos da competição desde 2016 para participarem somente do torneio organizado pela Concacaf. Não é por acaso que a partir da saída dos mexicanos da Copa Libertadores em 2016, as quartas de final passaram a ser “duopolizadas” por Brasil e Argentina com um mínimo de seis times entre os oito melhores.

A saída dos times mexicanos da competição trouxe duas consequências importantes para o torneio. A primeira foi a abertura de mais vagas para o Brasil e a Argentina, que passaram a ter sete vagas e não mais quatro, como era antes. A segunda consequência foi a retirada de um país que possui times com alto investimento dos clubes, bem como uma liga profissional fortalecida. O efeito combinado possibilitou que os dois países com mais investimento (Brasil e Argentina), herdassem vagas dos mexicanos e, ao mesmo tempo, tivessem menos concorrentes com a capacidade de investimentos que eles pudessem fazer.

Não foi apenas a questão econômica que proporcionou um avanço da hegemonia do Brasil na Copa Libertadores da América, mas também a movimentação de peças no tabuleiro político da CONMEBOL, com vistas a criar uma concentração de vagas nas duas federações mais influentes.

Em conjunto com aspectos econômicos e políticos, podemos verificar uma gradual transformação nos padrões táticos de jogo dos clubes brasileiros nos últimos dez anos, mas, em especial, de 2018 para cá. Influenciados pela chegada de técnicos estrangeiros da Europa e da América do Sul, algumas ideias sobre posicionamento, treinamentos, parte física e tática vem ganhando espaço nos clubes brasileiros. O intercâmbio de ideias vem oxigenando práticas e, paulatinamente, substituindo a concepção acerca da imutabilidade do futebol fora das quatro linhas.

A mudança no fator tático é um ponto importante, pois, nas diversas eliminações de clubes brasileiros na Copa Libertadores para adversários considerados de investimento mais modesto, a aplicação do time estrangeiro e a disciplina tática dos atletas foi vista como um elemento preponderante para a vitória da equipe adversária.

Diante do exposto, é preciso repensar algumas máximas contemporâneas do futebol e relativizar o fator econômico no processo de construção da hegemonia dos clubes brasileiros na Copa Libertadores da América. Outros fatores de ordem política, comportamental e tática precisam ser considerados para construir esse mosaico em conjunto com o fator econômico, considerado o elemento exclusivo para o sucesso do Brasil. 

Produção audiovisual

Já está no ar o episódio 54 do Passes e Impasses

O tema do nosso quinquagésimo quarto episódio é a Copa do Mundo de 1958: o primeiro triunfo. Com apresentação de Filipe Mostaro e Abner Rey, gravamos com Diana Mendes, professora da Universidade Federal de São Paulo e doutora em História.

Acesse o mais novo episódio do podcast Passes e Impasses no SpotifyDeezerApple PodcastsPocketCastsOvercastGoogle PodcastRadioPublic e Anchor.

O podcast Passes e Impasses é uma produção do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte em parceria com o Laboratório de Áudio da UERJ (Audiolab). O objetivo do podcast é trazer uma opinião reflexiva sobre o esporte em todos os episódios, com uma leitura aprofundada sobre diferentes assuntos em voga no cenário esportivo nacional e internacional. Para isso, contamos sempre com especialistas para debater conosco os tópicos de cada programa.

Você ama esporte e quer acessar um conteúdo exclusivo, feito por quem realmente pesquisa o esporte? Então não deixe de ouvir o quinquagésimo quarto episódio do Passes & Impasses.

No quadro “Toca a Letra”, a música escolhida foi “A taça do Mundo é nossa”, de Wagner Maugeri, Lauro Müller, Maugeri Sobrinho e Victor Dagô.

Passes e Impasses é o podcast que traz para você que nos acompanha o esporte como você nunca ouviu.

Ondas do LEME (recomendações de artigos, livros e outras produções):

Equipe

Coordenação Geral: Ronaldo Helal
Direção: Fausto Amaro e Filipe Mostaro
Roteiro e produção: Abner Rey e Carol Fontenelle
Edição de áudio: Leonardo Pereira (Audiolab)
Apresentação: Filipe Mostaro e Abner Rey
Convidada: Diana Mendes

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“Ganhar ou perder, mas sempre com democracia”

“O Brasil hoje é uma casa velha, antiquada, sem condições de moradia e que precisa ser demolida. Então precisamos demolir essa casa, construir outra, com concorrência pública, isso quer dizer: a população do país precisa participar dessa concorrência pra construir uma casa que se espera que seja suficiente pra se poder viver bem. E que nós possamos fazer uma casa maravilhosa.” (BRASILEIRO, s/p., 2014).

O trecho do depoimento do jogador Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira, que integra o documentário Democracia em Preto e Branco[1], do diretor Pedro Asbeg (2014), remonta à Emenda Dante de Oliveira, a qual propunha eleições diretas para presidente em 1984, após 20 anos de regime militar no Brasil. Esse trecho, recuperado em entrevista de arquivo no longa-metragem, também ilustra o momento em que a Democracia Corinthiana (DC) se consolida enquanto movimento político e não mais meramente restrito à esfera do futebol. Constituída durante a redemocratização do Brasil, a DC compreende o período que vai de março de 1981 a março de 1985, sob as duas gestões do presidente Waldemar Pires, quando foram estabelecidas regras mais flexíveis para gerir o clube e o elenco, considerando-se os jogadores como parte essencial nos processos decisórios do time: contratações, regras de concentração, consumo de bebidas alcoólicas, entre outras questões pertinentes ao dia a dia dos clubes de futebol.

Contudo, as pesquisadoras Mariana Martins e Heloisa dos Reis – autoras de um artigo que avalia os significados atribuídos ao sentido de democracia por jogadores, técnicos e dirigentes que participaram da Democracia Corinthiana – ponderam que

“esta forma de organização do clube, pensada a partir da formação de uma burocracia especializada, não tem relação direta e, tampouco, necessária com a democracia, por mais que Waldemar Pires tenha a denominado assim” (MARTINS; REIS, 2014, p. 88).

Aqui vale um adendo para salientar que a expressão “Democracia Corinthiana” em si foi criada pelo publicitário Washington Olivetto, inspirado por uma citação do jornalista Juca Kfouri, um dos pioneiros em correlacionar as conotações de liberdade do movimento ao momento político vivido pelo Brasil na época.

“Nós começamos a verbalizar o que estávamos fazendo, aí o Juca uma hora falou ‘ah, se eu tô entendendo, isso é uma democracia de corinthianos’. Ao que Juca falou, eu falei ‘puxa, achei o nome’ e anotei: democracia corinthiana.” (OLIVETTO, 2014, s/p.).

Na ótica de Martins e Reis (2014), a confluência dos movimentos pode ser explicada pelo sentido unívoco de democracia que pairava sob o país nesse período.

“Os anos de ditadura militar no Brasil fizeram com que surgisse uma expectativa unívoca com relação à democracia. A reivindicação por esta, contida na agenda da campanha das “Diretas Já”, confluiu num sentido pretensamente universal, homogeneizando os distintos significados contidos nas aspirações democráticas dos movimentos populares, sindicais e partidários.” (MARTINS; REIS, 2014, p. 85).

Enquanto o período de redemocratização se consolidava no Brasil, o Corinthians vinha de péssimas campanhas na esfera esportiva, como os fiascos nos campeonatos Brasileiro e Paulista de 1981. Com o fim da gestão de Vicente Matheus na presidência do clube, Waldemar Pires é eleito, escolhendo para o cargo de diretor de futebol o sociólogo Adilson Monteiro Alves. Pode-se dizer que a atuação de Adilson, aliada à presença de jogadores politizados no elenco do clube – liderados pelo meia Sócrates – compôs o embrião que daria origem à Democracia Corinthiana, um movimento inicialmente de cunho futebolístico que foi ganhando proporções cada vez mais políticas e sociais.

Em termos desportivos, Adilson prezava por ouvir sua equipe, de modo que as decisões do grupo fossem tomadas por meio do voto igualitário de seus membros. A opinião do diretor Adilson, portanto, valia tanto quanto a de um jogador ou de um funcionário da agremiação. E assim criou-se essa espécie de autogestão do Corinthians, na qual as decisões mais importantes envolvendo os aspectos técnicos do clube eram tomadas em conjunto, votadas democraticamente, algo bastante revolucionário para os moldes como os clubes brasileiros em geral são administrados – mais revolucionário ainda se considerarmos que no Brasil do início dos anos 1980 não se votava nem para presidente. 

Fonte: Manatí

Em depoimento para o documentário “Democracia em Preto e Branco”, que introduz esse texto, o jornalista Juca Kfouri é conclusivo ao descrever o processo de tomada de decisão que se consolidava no Corinthians: “Eram votos abertos. É claro que com a inteligência do Sócrates e do Adilson a coisa caminhava pro lado que eles caminhavam. Eu não lembro de eles terem perdido nenhuma votação.” (KFOURI, 2014, s/p.). 

Além da questão do voto para definir aspectos como contratação, regras de concentração e horários dos treinos, outros fatores socializantes emergiram na Democracia Corinthiana, a exemplo da divisão do “bicho”. Essa premiação paga em dinheiro para os atletas pelas vitórias e títulos conquistados passava agora a ser dividida com os demais funcionários do clube. 

“Massagista, auxiliar, esse pessoal mais humilde, o roupeiro… eles não participavam do bicho. E a democracia mudou essa filosofia mostrando que ela tinha uma visão um pouco de esquerda, um pouco socializante da história”. (KFOURI, 2014, s/p.). 

Também em depoimento ao longa-metragem, o ex-diretor de futebol Adilson Monteiro fala sobre a importância de seus jogadores se posicionarem politicamente naquele momento, ainda que inicialmente circunscritos à esfera futebolística. Em crítica aos modelos de gestão vigentes na época, ele relembra seu posicionamento diante do grupo ao assumir o Corinthians em 1981:

“Acho que futebol não é desse jeito, mas eu não sei como é. E gostaria que a gente descobrisse juntos uma maneira de fazer futebol, de jogar futebol, de viver futebol e, principalmente, de participar da sociedade, de participar do momento que o país tá vivendo. O país tá num momento… era a final de 81… muito duro. E vocês estão assistindo. Nenhuma participação, nenhuma opinião, sendo que, qualquer coisa que vocês digam é muito importante.” (MONTEIRO, 2014, s/p.).

Foi, portanto, dessa convergência de pensamento do então diretor Adilson com alguns jogadores do Corinthians que surgiu a revolucionária forma de gestão do clube, na qual tudo era pensado e discutido em conjunto, com o objetivo inicial de retirar o time da situação desportiva calamitosa em que se encontrava. Diversos movimentos de resistência pelo Brasil figuravam como pano de fundo da Democracia Corinthiana, a exemplo do movimento operário do ABC, liderado por Luiz Inácio “Lula” da Silva. Em depoimento ao documentário aqui citado, Lula relata que a entrada dos trabalhadores em cena pelo direito de greve e melhoria de salários também foi decisiva na luta pela democracia, considerando-se o apelo popular de dimensões cada vez maiores em torno de um mesmo objetivo: “Era um momento de êxtase de uma sociedade. Não era de um partido político ou de um governador. Era da sociedade como um todo.” (SILVA, 2014, s/p.).

“Eu lembro que eu fui ver um jogo, Corinthians x Guarani, e tinha muita gente no Morumbi, e eu tava com um grupo de companheiros e diziam assim pra mim: o dia que a gente levar essa quantidade de gente na Assembleia a gente começa a mudar a história do Brasil. E quando foi em março de 79 a gente colocou 100 mil pessoas no estádio, ou seja, foi uma coisa boa.” (SILVA, 2014, s/p.).

Ainda em depoimento ao documentário Democracia em Preto e Branco, Lula acrescenta que os jogadores que lideraram a Democracia Corinthiana – Sócrates, Casagrande e Wladimir – assumiram esse posto de líderes ao perceberem que teriam apoio da torcida corinthiana, que, segundo ele, não era uma torcida qualquer, mas, sim, “um bando de militante” (SILVA, 2014, s/p.). A conscientização política de Sócrates – “um médico, de um metro e noventa, com pé 41, que resolvia as coisas com calcanhar porque se tivesse que virar o corpo caía” (KFOURI, 2014, s/p.) – aliada ao posicionamento do líder sindical Wladimir Rodrigues dos Santos – que assumia também a lateral esquerda do Corinthians – e somada à personalidade rebelde do jovem centroavante Walter Casagrande Júnior, fizeram deste trio os porta-vozes do movimento pioneiro que alterava as relações de trabalho dentro de um clube de futebol, flertando dia após dia com o ambiente de redemocratização do país.

Sócrates considerava o atleta Wladimir como o pilar mais importante do processo, não só pelo fato de a história do lateral ser intrinsicamente atrelada ao Corinthians e pela sua atuação política como presidente do Sindicato de Atletas Profissionais de São Paulo nos anos 1970, mas, também, pelo fato de ele ser negro:  “Num país tão racista quanto o nosso, cuja cor de pele é sinônimo de riqueza ou pobreza, é fundamental que tenhamos alguém que represente a maior parte da nação.” (BRASILEIRO, 2014, s/p.). 

Casagrande, por sua vez, “era a dose de rebeldia que faltava na receita”, conforme narra a cantora Rita Lee também no referido documentário. Em um dos takes, inclusive, Casagrande, Sócrates e Wladimir relembram o icônico momento em que sobem ao palco do Ginásio do Ibirapuera em um show da cantora – que é torcedora do Corinthians – e entregam a ela uma camisa do clube[2]. Vestida “a caráter”, Rita e os jogadores aproveitam o momento para endossar sutilmente o discurso que seria a base da campanha das Diretas Já, cujo último comício, realizado em abril de 1984, reuniria cerca de um milhão e meio de pessoas no Vale do Anhangabaú.

“Nós íamos em todos os shows que tinha em São Paulo na sexta-feira, se a gente concentrava no sábado. Nós fomos ver a Blitz, Maria Bethânia, Djavan, Ney Matogrosso, Moraes Moreira, Caetano Veloso… todos os shows a gente ia. E da Rita eu falei “Pô! Da Rita tem que ir!” […] Aí eu olhei e tinha um cara no público com a camisa do Corinthians, no show né, aí eu cheguei no cara e falei assim “Ô meu! Vem cá! Cê num me dá essa camisa do Corinthians?!”, aí o cara falou “Porra, mas você não é o Casagrande?! Você joga no Corinthians, meu!”. “Mas eu não tenho a camisa. E eu quero dar a camisa pra Rita Lee!”. (CASAGRANDE, 2014, s/p.).

Nessa ocasião, Casagrande ainda convidou a cantora para comparecer à decisão do Campeonato Paulista de 1982 – contra o São Paulo no Morumbi, que ocorreria alguns dias após o show – e prometeu fazer o “gol Rita Lee”. O Corinthians venceu aquele jogo por 3 x 1, com dois gols de Biro Biro e um de Casagrande, que assim cumpriu a promessa feita para Rita, enquanto ela assistia à partida da arquibancada. Vale lembrar que, nesse mesmo período, a cena musical brasileira via nascer o chamado rock nacional, cuja produção artística, assim como a Democracia Corinthiana, dialogava bastante com o contexto de redemocratização do país. Esse novo gênero configurava-se, portanto, como uma obra bastante significativa não só do ponto de vista cultural, mas também político e social àquela época.

 “O momento em que essa geração começa a fazer o rock em português – sem se sentir um cachorro magro por isso – e começa a bater pesado, começa a ter letras muito consistentes… aquilo pra gente vira um grande estímulo. É uma voz.” (SOUZA, 2014, s/p.).

Nesse contexto, já estavam evidentes os vieses que tais fenômenos carregavam. Se a Democracia Corinthiana começou como um movimento de vestiário, seus contornos de militância ficaram claros em 1982. Segundo Sócrates, até então o movimento não era tão abertamente político. 

“Era um processo, digamos, de uma micro sociedade que tava querendo se organizar melhor pra ter condições de convivência mais satisfatórias e com expectativa de resultados melhores.” (BRASILEIRO, 2014, s/p.).

Porém, enquanto a crítica cultural elevava o rock nacional a um patamar de destaque e o Congresso Nacional aprovava por unanimidade de votos eleições diretas para os governadores estaduais, a Democracia Corinthiana já claramente politizada começava a sucumbir diante das pressões ideológicas de quem se opunha ao movimento, que chegou até a ser apelidado pelos mais conservadores como “anarquia corinthiana”. Inclusive, vale destacar que, antes mesmo de chocar essa parte conservadora da sociedade brasileira e a “estrutura carcomida do nosso futebol”, a DC chocou a imprensa esportiva em geral: “Você conta nos dedos, de uma mão, quem apoiou a democracia corinthiana.” (KFOURI, 2014, s/p.).

Sobre esse fato, Martins e Reis (2014) chamam atenção para os esforços institucionais do Corinthians em ressaltar as responsabilidades e deveres de seus atletas como elementos componentes da democracia – aqui no sentido amplo da palavra – de modo a rebater às críticas que davam um tom anárquico ao movimento.

“Tais elementos eram constantemente enfatizados pelos sujeitos do movimento alvinegro para se diferenciar de uma ideia corrente que relacionava democracia ao sentido mais corriqueiro de anarquia. […] No contexto de regime militar, as liberdades estavam restritas, de modo que a vivência delas poderia suscitar dúvidas sobre o seu conteúdo, o que alimentaria visões equivocadas sobre a mesma. Daí a necessidade de se enfatizar constantemente que sujeitos de direito também são de deveres, de modo que essa concepção precisava ser divulgada e aceita, firmando uma ideia de democracia que não se contrapusesse à ordem.” (MARTINS; REIS, 2014, pp. 92-93).

Mas, embora a Democracia Corinthiana e seu revolucionário modelo de autogestão viesse sendo contestada pelos conservadores de forma mais veemente a cada derrota do time em campo, o clima nas ruas ainda era de esperança.  Soma-se a isso o fato de o Brasil ter ido como favorito para a Copa do Mundo de 1982 na Espanha, com Sócrates de capitão. Entretanto, para a decepção de um povo que se embrionava no espírito da luta pelas Diretas Já – que viria a se consolidar nos dois anos seguintes – a Seleção volta para casa sem o título, amargando o quinto lugar no Mundial e enterrando no Estádio de Sarriá o famoso futebol-arte que tanto o distinguia.

Dentro de campo, contudo, o clube alvinegro aproveitava os momentos decisivos para reforçar seu compromisso com a Democracia Corinthiana e com a dimensão política que o movimento havia ganho. Não à toa, na final do Campeonato Paulista em dezembro de 1983 – novamente contra o São Paulo, como em 1982 – o time adentrou o gramado portando uma faixa com os seguintes dizeres: “ganhar ou perder, mas sempre com democracia”.

Fonte: Irmo Celso/Placar/ Divulgação Corinthians

As conquistas corinthianas valorizavam a equipe e começavam a pôr em xeque a permanência de Sócrates no clube, tendo em vista as propostas milionárias que chegavam para ele do futebol europeu, mais precisamente dos clubes italianos Inter de Milão, Napoli e Fiorentina. Nesse impasse, a mobilização nacional quase unânime pelas eleições diretas para presidente chegava ao seu auge com a votação da Emenda Dante de Oliveira, proposta em março de 1983 e que seria votada em abril do ano seguinte.

Foi quando, no último comício das Diretas – realizado em 16 de abril de 1984 – Sócrates prometeu que, caso a Emenda fosse aprovada no Congresso Nacional, ficaria no Brasil. Entretanto, na noite de 25 de abril de 1984, a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) nº 5 – conhecida pelo nome de seu autor, o jovem deputado Dante de Oliveira – foi derrubada em votação na Câmara por apenas 22 votos de diferença.

Foram 298 votos a favor, 65 contra, 113 ausências e 3 abstenções. Para que a Emenda fosse aprovada, seriam necessários 320 votos a favor (2/3 da Casa). Apesar do baque da derrota, a democracia brasileira se consolidaria com a Constituição de 1988, ainda que sobreviva constantemente sob ameaças. Sócrates, por sua vez, sucumbiu à amargura da derrota no Congresso e, em junho de 1984, optou por deixar o país rumo à Itália para jogar na Fiorentina. Findava-se aí o movimento que até hoje, quase 40 anos depois, retroalimenta o imaginário de popularidade arraigado ao Sport Club Corinthians Paulista.

 Em depoimento ao documentário Democracia em Preto e Branco, que embasa a discussão aqui proposta, Sócrates atribui a importância do movimento ao fato de, naquela época, o grupo ter sido capaz de discutir política com a linguagem do futebol, considerada universal e, portanto, plenamente acessível. Foi isso que, segundo ele, possibilitou a compreensão da ação política atrelada ao movimento, fazendo-o funcionar como mais um dos mecanismos propulsores da transformação que o país exigia (BRASILEIRO, 2014, s/p.).

Já Walter Casagrande recorre a uma metáfora futebolística para ponderar que a Democracia Corinthiana “nada mais fez de importante do que bater o pênalti que o time anterior tinha construído” (2014, s/p.), atribuindo a consolidação do cenário de redemocratização a todos “que lutaram desde 64, que morreram, que sumiram, que foram torturados, que foram presos […]. Eles fizeram todas as jogadas, só que na hora de bater o pênalti não tinham mais força, estavam já exaustos, de tanto apanhar.”.

Vale destacar ainda a conclusão do pesquisador José Paulo Florenzano em sua tese “A democracia corinthiana: práticas de libertação no futebol brasileiro” (2003), na qual o autor discorre sobre a DC enquanto um fator de desestabilização do paradigma do ópio do povo. Conforme o pesquisador, esse movimento foi uma maneira legítima de desvincular o futebol do sentido que corriqueiramente era atribuído à prática: uma forma de domínio cultural sobre a classe trabalhadora (FLORENZANO, 2009).

Para Martins e Reis (2014, p. 96), a “pluralidade contida na Democracia Corinthiana permite vislumbrar um momento no qual o esporte e a política estabeleceram uma relação excepcional entre si”, possibilitando que os jogadores, sob a liderança de Sócrates, se afirmassem como sujeitos históricos e políticos para exercerem seu papel de cidadão ao representarem o ideário populacional quase unânime à época: a redemocratização do país.

Sócrates, que se mudou do Brasil devido à amargura da derrota no Congresso em 1984, veria o retorno às urnas em dezembro de 1989, um ano após a promulgação da Constituição de 1988. Em entrevista de arquivo rememorada no documentário aqui citado, Sócrates é perguntado se a escolha de seu nome teve relação com o filósofo grego homônimo, um dos ícones da tradição filosófica ocidental. A resposta, em tom sagaz, poderia remeter também ao simbolismo de sua liderança no legado da Democracia Corinthiana: “É um nome que eu gosto, principalmente porque é Sócrates Brasileiro”.

Referências

ASBEG, Pedro. Democracia em Preto e Branco. São Paulo: ESPN Brasil, 2014.

BRASILEIRO, Sócrates. Depoimento em: ASBEG, Pedro. Democracia em Preto e Branco. São Paulo: ESPN Brasil, 2014.

CASAGRANDE, Walter. Depoimento em: ASBEG, Pedro. Democracia em Preto e Branco. São Paulo: ESPN Brasil, 2014.

FLORENZANO, José. A democracia corinthiana: práticas de libertação no futebol brasileiro. 2003. 306 f. Tese (Doutorado em Ciências Sociais). Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2003.

KFOURI, Juca. Depoimento em: ASBEG, Pedro. Democracia em Preto e Branco. São Paulo: ESPN Brasil, 2014.

MARTINS, Mariana; REIS, Heloisa. Significados de democracia para os sujeitos da Democracia Corintiana. Movimento. Porto Alegre, v. 20, n. 1, p. 81-101, 2014.

MONTEIRO, Adilson. Depoimento em: ASBEG, Pedro. Democracia em Preto e Branco. São Paulo: ESPN Brasil, 2014.

OLIVETTO, Washington. Depoimento em: ASBEG, Pedro. Democracia em Preto e Branco. São Paulo: ESPN Brasil, 2014.

SANTOS, Wladimir. Depoimento em: ASBEG, Pedro. Democracia em Preto e Branco. São Paulo: ESPN Brasil, 2014.

SILVA, Luiz Inácio. Depoimento em: ASBEG, Pedro. Democracia em Preto e Branco. São Paulo: ESPN Brasil, 2014.

SOUZA, Marcelo. Depoimento em: ASBEG, Pedro. Democracia em Preto e Branco. São Paulo: ESPN Brasil, 2014.


[1] O documentário Democracia em Preto e Branco é um filme longa-metragem dirigido pelo cineasta Pedro Asbeg. Lançado em 2014 em uma coprodução da ESPN Brasil com a TV Zero, o longa resgata o caráter político do movimento que ficou conhecido como Democracia Corinthiana no período da redemocratização brasileira, que culminou na campanha das Diretas Já em 1984. O filme mescla imagens de arquivo, entrevistas com os líderes do movimento (Sócrates, Casagrande e Wladimir) e depoimentos de personalidades inseridas neste contexto, como políticos, jornalistas e artistas. A narração do texto em off do documentário é feita pela cantora Rita Lee. Importante destacar que o longa começou a ser filmado em 2010, ano em que foram realizadas entrevistas exclusivas com alguns atletas, entre eles Sócrates, que faleceu em dezembro do ano seguinte, em decorrência de choque séptico.

[2] Essa história foi registrada em reportagem do Esporte Espetacular, da Rede Globo, de dezembro de 1982. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=RLYpx1BfTKY.

Artigos

Um golaço de Richarlyson ou um frangaço do futebol de homens

Na memória recente, o Flamengo de 2019, o Atlético MG de Hulk e o Palmeiras bicampeão da Libertadores podem aparecer como os grandes times dos últimos tempos no futebol brasileiro. Como clubista nada isento poderia citar o Grêmio de Marcelo Grohe, Arthur e Luan. Mas ao contrário do que pensam os jovens, o futebol já existia em anos anteriores. Na primeira década deste século, o São Paulo, campeão mundial em 2005 e tricampeão brasileiro em 2006, 07 e 08, parecia construir uma dinastia sem data para acabar. O time comandado por Paulo Autuori e, especialmente, por Muricy Ramalho teve grandes jogadores. Pessoalmente me encantava a dupla de volantes. Primeiro Josué e Mineiro. Depois, para grande surpresa mantendo a mesma qualidade, Hernanes e Richarlyson. Mais jovens, os dois últimos conseguiram tornar o meio campo ainda mais dinâmico. Richarlyson jogava e marcava com a mesma facilidade. Quando necessário, exagerava um pouco na virilidade e poderia ser excessivamente ríspido com seus adversários.

Apesar de ter sido protagonista em um meio campo campeão e de bom futebol, Richarlyson ficou marcado pela entrevista dada pelo ex-dirigente do Palmeiras, José Cyrillo Júnior, que em 2007 insinuou que o jogador era homossexual. O jogador denunciou o dirigente por preconceito, mas teve seu caso arquivado. O juiz Manoel Maximiliano Junqueira Filho, à época, “sugeriu que se o jogador fosse homossexual, ‘melhor seria que abandonasse os gramados’”.

A própria torcida do São Paulo passou a tratar o talentoso e multicampeão jogador de forma discriminatória ao não citar seu nome quando “escalava” a equipe. Um integrante da torcida organizada Independente afirmava com orgulho. “Nós mandamos o Richarlyson embora”. Segundo o torcedor, “ele [Richarlyson] manchava a imagem da instituição”. Mesmo tendo defendido Richarlyson no processo, em 2007, “o presidente do Sindicato dos Atletas Profissionais de São Paulo, Rinaldo Martorelli, também faz ressalvas. ‘Não aconselharia nenhum jogador a se assumir. É algo que traria muito desgaste à carreira’”.

Em 2012, o Palmeiras estudava a contratação do jogador. A torcida palmeirense protestou contra essa hipótese. Uma das faixas de protesto da torcida contra essa contratação dizia: “A homofobia veste verde”. Um integrante da Mancha Verde (principal torcida organizada do clube) negava o envolvimento da torcida na produção do material, ao mesmo tempo em que dizia que “não via nada de agressivo na faixa”.

Em 2017, Richarlyson foi contratado para jogar o Campeonato Brasileiro da série B pelo Guarani, de Campinas. Pouco antes de ser apresentado como jogador do clube, dois torcedores identificados com camisetas do clube “atiraram bombas em frente ao estádio Brinco de Ouro como forma de protesto pela contratação”. Na página oficial do Guarani no Facebook, apareceram diversas manifestações, algumas de apoio e outras com insultos. Esses insultos foram proferidos tanto por torcedores da equipe quanto por rivais. O vereador da cidade de Campinas, Jorge Schneider, torcedor do principal rival do Guarani, a Ponte Preta, ironizou: “A pessoa certa no lugar certo”.

Agora em junho de 2022 foi lançado o podcast do GE Nos armários dos vestiários, produzido pela Feel The Match apresentado por Joanna de Assis e William de Lucca. Em seu episódio de estreia, Richarlyson, hoje comentarista da Rede Globo, se sentiu à vontade para informar que já teve relacionamento sexual tanto com homens quanto com mulheres. No programa ele afirmou:

Com certeza minha carreira poderia ter sido muito melhor em termos midiáticos por aquilo que eu construí dentro do futebol se não tivesse essa pauta (sexualidade). Isso é visível, todo mundo sabe disso, mas chegou num ponto em que eu fiquei saturado mesmo. Chegou um ponto que alguém me pedia entrevista, e eu perguntava: “Vai falar sobre o quê?”. Mas questionamento de que poderia ser melhor? Sim, poderia.           

Foto extraída da página: Jornal de Brasília

A manifestação do ex-jogador foi muito bem recebida por militantes LGBTQIA+, especialmente aqueles vinculados aos esportes em geral e ao futebol em específico. Em um ambiente muito machista e cisheteronormativo, um jogador de grande qualidade e projeção “assumir” uma posição não-normativa além da direta ação afirmativa pode permitir que se tente, minimamente, implodir essa premissa esportiva masculina/machista e cisheteronormativa. Ao mesmo tempo em que a positividade da manifestação de Richarlyson se fez destacar e encheu de alegria meu coração de torcedor militante, não consegui abdicar do exercício intelectual de discutir nesse espaço do futebol de homens quais os comportamentos são definitivos para marcar um jogador e quais não são.

Meu amigo e idealizador do Observatório da Discriminação Racial no Futebol, Marcelo Carvalho, afirma que uma das grandes dificuldades de engajar jogadores negros para que eles realizem denúncias contra casos de racismo é que na maioria das vezes todos os seus atributos profissionais são colocados a margem e o atleta fica sempre identificado como aquele do episódio de racismo. Mesmo com todo seu esforço, Richarlyson acabou ocupando o lugar da masculinidade em suspeição mesmo sem disposição de fazer isso.

Diego Maradona sempre teve a brilhante trajetória esportiva e midiática marcada por problemas que incluíram sobrepeso e o abuso de drogas ilícitas. O não reconhecimento da paternidade de Diego Sinagra, entretanto, parece ter pesado pouco sobre sua construção biográfica. Mesmo com teste de DNA confirmando, o rei Pelé nunca reconheceu sua paternidade em relação a Sandra Regina Machado. Richarlyson foi excelente, mas não foi Pelé nem Maradona, mas não me parece que a diferença de tratamento dada as suspeitas sobre sua sexualidade e as confirmadas ausências paternas dos maiores jogadores de todos os tempos se baseie no que fizeram em campo. Me parece que nossa “cultura futebolística” se preocupa muito mais com homens que não performam a cisheteronormatividade do que homens que abandonam a prole.

Além dos títulos com o São Paulo, Richarlyson também ganhou a Libertadores com o Atlético MG treinado por Cuca. Então jogador do Grêmio, Cuca foi condenado por participação em estupro coletivo de uma menina de 13 anos em 1987 enquanto o clube realizava uma excursão na Suíça. Vejam, Cuca foi condenado a 15 meses de prisão por violência sexual contra pessoa vulnerável, não foi acusado, denunciado ou suspeito. Ainda assim, segue sua brilhante carreira de treinador sem dar muitas explicações sobre o ocorrido sendo fortemente considerado como possível treinador para a seleção brasileira após a Copa do Mundo de 2022.Condenado em primeira instância em 2017 por estupro coletivo realizado contra uma mulher albanesa na Itália em 2013, Robinho conseguiu atuar sem maiores dificuldades no futebol turco por dois anos e meio. O jogador condenado em última instância no início de 2022 teve problemas apenas em seu retorno ao Santos em outubro de 2020. Mais do que o protesto de torcedoras, o clube paulista desistiu de sua contratação após pressão de seus patrocinadores.

Parece um tanto fora de qualquer possibilidade imaginar que jogadores condenados ou acusados de violência sexual ou agressão contra mulheres resolvam assumir essas condutas, mas me chama atenção que temos muito mais facilidade em colocar essas condutas como do âmbito do privado enquanto uma forma de correr que possa colocar a masculinidade de um atleta em risco vire assunto de domínio público.

Sem dúvida, Richarlyson marcou um golaço, mas não deixa de ser mais um frangaço do futebol de homens que permite que exige/obriga que um jogador LGBTQIA+ se assuma ao mesmo tempo em que toleram jogadores ou ex-jogadores que são pais ausentes. Quantos jogadores ou ex-jogadores acusados ou condenados por violência doméstica ou sexual seguem suas trajetórias sem serem importunados?

Produção audiovisual

Já está no ar o episódio 53 do Passes e Impasses

O tema do nosso quinquagésimo terceiro episódio é a Reputação e Imagem em Clubes de Futebol. Com apresentação de Leticia Quadros e Caroline Rocha, gravamos remotamente com Ary Rocco, pós-doutor em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da USP e vice-coordenador do Laboratório de Gestão, Políticas, Marketing e Comunicação em Esporte e Educação Física (LAGECOM-EEFE/USP).

Acesse o mais novo episódio do podcast Passes e Impasses no SpotifyDeezerApple PodcastsPocketCastsOvercastGoogle PodcastRadioPublic e Anchor.

O podcast Passes e Impasses é uma produção do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte em parceria com o Laboratório de Áudio da UERJ (Audiolab). O objetivo do podcast é trazer uma opinião reflexiva sobre o esporte em todos os episódios, com uma leitura aprofundada sobre diferentes assuntos em voga no cenário esportivo nacional e internacional. Para isso, contamos sempre com especialistas para debater conosco os tópicos de cada programa.

Você ama esporte e quer acessar um conteúdo exclusivo, feito por quem realmente pesquisa o esporte? Então não deixe de ouvir o quinquagésimo terceiro episódio do Passes & Impasses.

No quadro “Toca a Letra”, a música escolhida foi “Saudades do Galinho”, canção de Moraes Moreira.

Passes e Impasses é o podcast que traz para você que nos acompanha o esporte como você nunca ouviu.

Ondas do LEME (recomendações de artigos, livros e outras produções):

Equipe

Coordenação Geral: Ronaldo Helal
Direção: Fausto Amaro e Filipe Mostaro
Roteiro e produção: Caroline Rocha e Carol Fontenelle
Edição de áudio: Leonardo Pereira (Audiolab)
Apresentação: Leticia Quadros e Caroline Rocha
Convidado: Ary Rocco

Artigos

A corrida pela sobrevivência do esporte diante da mudança climática

Em setembro do ano passado, Tottenham X Chelsea, pela quinta rodada da Premier League, entrou para a história como “a primeira partida de um grande campeonato de futebol a ter emissão zero de carbono”. As duas equipes se locomoveram em ônibus movidos a biocombustíveis, torcedores foram incentivados a pedalar ou a usar o transporte público para ir ao jogo, a comida servida dentro do estádio teve opções vegetarianas e as garrafas plásticas foram destinadas à reciclagem.

O objetivo não era apenas conscientizar, muito menos ganhar cliques em uma iniciativa de marketing. Eles ainda são exceção, mas os eventos “carbono zero” em todas as modalidades são uma corrida contra o tempo, na qual o esporte contribuiu para o caos climático e, agora, luta pela própria sobrevivência.

A pegada de carbono dos eventos esportivos é similar às emissões de gases de Bolívia e Espanha, segundo o estudo “Jogando contra o relógio: esporte mundial, emergência climática e mudanças urgentes”, da rede de organizações ambientais “Rapid Transition Alliance” (RTA).

No ano passado, a Conferência da Organização das Nações Unidas (ONU) para mudanças climáticas, a COP26, debateu o impacto do esporte no aquecimento global em um painel exclusivo. Organizações esportivas, como o Comitê Olímpico Internacional, a FIFA, a Premier League e a Fórmula 1 e Fórmula E, se comprometeram a alcançar as emissões zero até 2040 e reduzir as emissões de gases de efeito estufa em 50% até 2030.

Desde 2018, quando o painel “Esportes para Ação Climática” da ONU foi criado e chamou, pela primeira vez, a atenção do setor para o tema, cerca de 280 entidades esportivas se comprometeram a cumprir as metas do Acordo de Paris, que pretende, até o final do século, limitar em até 1,5°C o aumento da temperatura global. É uma mobilização sem precedentes e reflexo de que as consequências já são percebidas.

Tempestade inundou, em 2015, o campo do Carlisle, time da quarta divisão do futebol inglês. Clube foi forçado a sair do estádio por dois meses. Foto: Getty Images

A maratona dos Jogos Olímpicos de Tóquio-2021 foi transferida da capital japonesa para outra cidade, Sapporo, devido ao intenso calor. Segundo o estudo da RTA, 25% dos campos de futebol da Inglaterra, onde aconteceu o “Tottenham x Chelsea carbono zero”, podem sofrer inundações. Metade dos países que já sediaram Olimpíadas de Inverno correm o risco de não conseguir mais realizar novamente o evento no futuro. Se o ritmo das mudanças climáticas não for freado até 2050, será praticamente impossível realizar atividades físicas ao ar livre por longos períodos, dada a elevação das temperaturas e a degradação da umidade e da qualidade do ar.

O esporte está em uma encruzilhada, em uma crise existencial. O futuro das competições e de novos atletas está ameaçado em meio ao aumento da temperatura global. A transição verde e a descarbonização precisam acontecer, motivadas ou por uma real preocupação quanto ao futuro da Terra, ou pela necessidade financeira de que os eventos simplesmente aconteçam.

Artigos

Por que tantas transmissões de jogos ficam restritas a pagamento?

Na semana em que escrevo este texto, o atual campeão da Taça Libertadores da América jogará a partida de ida das oitavas-de-final da competição com transmissão audiovisual exclusiva a uma plataforma paga, cujo acesso é restrito a assinantes de duas distribuidoras de TV fechada e suas respectivas possibilidades na internet. Não só, pois todos os jogos da Copa Sul-Americana no Brasil estão restritos a esta plataforma, independentemente de ser fase decisiva e/ou envolver grandes equipes brasileiras. Há o que fazer?

Fonte: print do Prime Video

O que me motivou a escrever este texto e responder a isso foi um tuíte do perfil @cornetafpfpe com o seguinte conteúdo:

“Tem que se regulamentar a transmissão por streaming, times como Bahia, CAP, a dupla cearense, o choque rei, não podem ter seus jogos exclusivos neles, acaba excluindo muita gente, até no ponto de acesso à informação. O que acha, Anderson?”.

A citação à dupla cearense se refere à transmissão do Clássico-Rei da Copa do Brasil pela Amazon Prime Video, na semana passada; mas pode ser aplicada aos jogos sul-americanos. Mesmo caso de Bahia X Athletico.

Após a resposta inicial, veio um novo comentário:

“Acho que deveria ter alguma regulamentação que jogos de times que possuem mais de 1mi de torcedores tem que ser disponibilizados em tv se a competição tiver vendido direitos de tv”.

A justificativa dele era que essa exclusividade restringia o acesso para quem poderia pagar e sabia usar os aplicativos.

Vamos às respostas

Eu também queria e defendo o maior acesso possível para o público torcedor ao programa futebol quando o seu time está na tela e em campo. Tanto a minha dissertação de mestrado, transformada em livro (SANTOS, 2019), quanto a minha tese de doutorado (SANTOS, 2021) partem da premissa de que alguns jogos de futebol são “conteúdos de interesse social”, como consta em legislações de vários países, inclusive na Lei Pelé (Lei nº 9.615/1998), que considera assim os jogos da seleção brasileira de futebol.

Não há muito o que fazer para garantir a transmissão de todas as partidas na TV aberta de tantos clubes. Tudo não dá e, na minha avaliação, delimitar por quantidade de torcida em torneios nacionais seria também gerar privilégios.

Fonte: canal do CAP no YouTube

No caso de Athletico (Brasileiro) e Bahia (Baiano e Copa do Nordeste) passa ainda por opção das diretorias em certos campeonatos. Ou seja, apresentar tudo na TV aberta acabaria com uma fonte de receitas importante para o próprio clube.

Desde o contrato para transmissão da Série A do Brasileiro, a partir de 2019, que a partilha de receitas de transmissão está mais próxima entre as plataformas de transmissão, caminhando para as plataformas pagas colocarem mais dinheiro. E aí, onde tem mais dinheiro vira prioridade para os clubes, mesmo que seja a torcida o público-alvo também da transmissão.

As licitações para a transmissão dos torneios sul-americanos demonstraram isso. Se não passarão mais pela Conmebol TV (ainda bem!), com jogos exibidos pela Globo (Libertadores) e SBT (Sul-Americana), mas também pelo Paramount+ e, provavelmente com mais jogos exclusivos no Star+.

O mercado se encaminha para poucos jogos por rodada na TV aberta, como quase sempre foi, aliás. Num momento inicial, por falta de condições técnicas para exibir todos os jogos. Depois, para não acabar com o modelo de negócio dos canais esportivos na TV paga e no pay-per-view (ppv), iniciados em momentos diferentes da década de 1990.

Vale ressaltar que os jogos transmitidos em plataformas pagas sempre foram de acesso restrito porque poucas pessoas, proporcionalmente falando, podiam pagar TV fechada e, a mais, o ppv. Nem precisava falar qual era a prioridade para transmissão em rede na TV aberta nas décadas de 1980 a meados da de 2010: times de Rio de Janeiro e São Paulo.

A diferença de agora é que a maior parte dos jogos estão/estarão espalhados em uma ou mais plataformas pagas. Cenário realmente pior para quem assiste/paga porque precisará ter a assinatura de mais de um serviço, talvez pagando muito por isso – considerando ainda a necessidade de uma boa internet banda larga – e com a necessidade de ter mais conhecimento sobre como cada aplicativo funciona.

Importante ressaltar ainda que o modelo de TV paga segue minguando no Brasil, então não pode ser mais considerado isolado, mas dentre as possibilidades de acesso pago aos jogos. Por um lado, os problemas econômicos que afetam o país a partir de 2015 diminui a base de assinantes por questões financeiras individuais. Por outro, a mudança do mercado de audiovisual, com a entrada do streaming, faz com que o público opte pela assinatura de plataformas de streaming e que os grandes grupos empresariais escolham focar mais nessa mídia que nos canais de TV fechada – como mostra a ESPN com o Star+.

Isso se dá por uma questão simples. Se falamos em “futebol-negócio” é porque esta prática de lazer foi normatizada, controlada por um agente privado (ou de característica paraestatal), com extensão da mercantilização sobre o jogo a partir das transformações do modo de produção capitalista a partir da década de 1970.

Não ter tanto jogo de “graça” é porque o próprio esporte se voltou mais ao estímulo ao consumo, ou seja, à compra de produtos e serviços ligados a ele, inclusive o acesso à assistência dos jogos; que para uma aproximação social. Enfim, reflexos de uma prática profissional que se desenvolve no âmbito da disputa e das contradições capitalistas.

Fonte: print de canal do YouTube “Lances Hoje” com melhores momentos de The Strongest 1X2 Ceará

Mas o que dá para fazer?

A possibilidade que defendo na tese, dentro de uma proposta regulatória mais ampla, é garantir que jogos relevantes (número restrito) sejam transmitidos na TV aberta. Considero que o acesso é mais amplo, irrestrito e de forma igual no tempo (sem muito atraso por condições técnicas estruturais) que a internet, mesmo que nesta seja de forma gratuita.

É preciso entender que cabe às agências reguladoras evitarem prejuízos de ordem econômica para a concorrência entre os agentes (que transmitem ou em competição). Porém, é necessário que elas tratem também de determinados produtos como de interesse social, que devem ter acesso facilitado ou gratuito a quem é cidadã/o.

É por isso que as leis normalmente tratam do “flagrante jornalístico”, ou seja, a possibilidade de acesso ao principal do evento esportivo enquanto informação, inclusive com imagens, mas sem que isso possa ocorrer ao vivo e prejudique quem adquiriu o evento. Ou também de quais jogos devem ter transmissão em TV aberta, casos de partidas decisivas de torneios importantes.

Ampliar isso para jogos em escala regional envolve outros tipos de acordos ou indicação de necessidades, especialmente num país do tamanho do Brasil. Recordando ainda que a nossa radiodifusão por sons e imagens, para usar os termos da lei, nunca se preocupou na regionalização do conteúdo, privilegiando os centros econômicos (inclusive, dentro dos estados).

Referências

SANTOS, A. D. G. dos. Os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro de Futebol. Curitiba: Appris, 2019.

SANTOS, A. D. G. dos. Um modelo para regulação dos direitos de transmissão de futebol. 2021. 461 f. Tese (Doutorado em Comunicação) – Programa de Pós-Graduação em Comunicação, Universidade de Brasília, Brasília, 2021. Disponível em: https://repositorio.unb.br/handle/10482/42947. Acesso em: 19 fev. 2022.

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As redes de rádio: um pouco de história e reflexão sobre as transmissões esportivas de futebol

O ponto de partida da relação entre redes de rádio e transmissões esportivas é muito mais antigo do que parece. Segue um pouco o caminho da ligação entre o rádio e o futebol. Tudo isso nos remete ao início, nos anos 1920 e também à década de 1930. Se a gente pensar um pouquinho, admitindo espaço para reconstruções, dá para considerar que são histórias quase centenárias. 

Durante os anos 1920, alguns registros indicam o começo das primeiras transmissões esportivas, fossem elas de forma parcial ou não oficial. Isso se deu pelo fato de que transmitir um jogo de futebol naquela época era uma missão quase impossível e três dificuldades eram centrais: tecnologia inexistente, falta de estrutura nos estádios ou de pessoal, resistência política escassa. Essa última expressa pela resistência de clubes (a exemplo de Botafogo, Fluminense e da própria Confederação Brasileira de Futebol) que, naquela época, chegaram a proibir que as primeiras emissoras transmitissem partidas. O argumento era que o rádio gerava concorrência ao espetáculo e, com isso, o público deixaria de ir até os estádios para ouvir os jogos em casa. 

Nos anos 1930, o cenário muda um pouco e marca temporalmente a primeira transmissão internacional de futebol via rede de rádio. Um dos feitos do começo dessa década também é a já conhecida narração oficial e ininterrupta de uma partida de futebol, protagonizada por Nicolau Tuma em 19 de julho de 1931, o jogo válido foi entre as seleções de São Paulo e Paraná. A transmissão em rede de rádio seria protagonizada quase sete anos depois. No dia 05 de junho de 1938, a Rede Verde-Amarela transmite a partida da seleção do Brasil contra a Polônia diretamente da França, válida pela Copa do Mundo daquele ano. A recepção foi feita pela Rádio Club do Brasil (RJ), com formação da maior cadeia de estações de rádio da época. 

Fonte: Futebol Na Veia

O feito da Rede Byington pode ser atribuído, em parte, ao nome de Alberto Byington Júnior, que já havia atuado como secretário na Rádio Educadora Paulista, a qual, por sua vez, deu início (ainda nos anos 1920) ao sistema de permutas parciais de programação e de transmissões simultâneas entre emissoras. Alberto Jr. também foi atleta da delegação brasileira nas Olimpíadas de Paris (1924). Um ano antes, já competia pelo Clube Paulistano de Atletismo nos 110 metros com barreira. A transmissão de 1938 representou um momento de ápice da Rede Verde-Amarela, com emissoras espalhadas por diversos estados do país. Depois da transmissão feita diretamente da França, a rede se desfez por conta de questões técnicas e também políticas, uma vez que havia muito ruído nas transmissões e porque houve a negação da concessão de canais em ondas curtas por parte da Comissão Técnica de Rádio (criada por Vargas em 1932). 

O que se tem depois é um período no qual o futebol brasileiro e o próprio rádio se consolidam, ainda um momento em que as próprias coberturas esportivas são sistematizadas. Logo, vale considerar que as transmissões esportivas via rede de rádio praticamente passam por um momento de estagnação até o fim dos anos 1950. No ano de 1958, a Rádio Bandeirantes de São Paulo estrutura a Cadeia Verde-Amarela Norte Sul do Brasil. O objetivo era transmitir em rede as partidas da Copa do Mundo na Suécia. O feito envolveu mais de 400 emissoras em todo o país em um tempo no qual o rádio era o principal meio nas coberturas com transmissão via linhas telefônicas. 

Nos anos 1970, o destaque é para a parceria firmada entre a Rádio Guaíba de Porto Alegre e a Rádio Continental do Rio de Janeiro, para a Copa do Mundo, na chamada Grande Rede Brasileira dos Esportes. A rede incluiu, conforme o Blog “Uma História do Rádio no Rio Grande do Sul”, também emissoras de outros estados como Goiás, Mato Grosso, Paraná, Santa Catarina e São Paulo, e uma estação do Uruguai. Na final, cada tempo da partida acabou sendo irradiado pela equipe de uma emissora.

As redes de rádio como conglomerados de mídias vão surgir mais ou menos nos anos 1980, numa perspectiva dominante de transmissão pela capacidade de alcance da programação radiofônica para uma grande audiência em diferentes mercados distribuídos pelo interior do país. Aqui o fator tecnológico são as transmissões via satélite e o econômico, baseado no suporte financeiro dos conglomerados que, por sua vez, concentram a maior parcela do bolo publicitário. Para as emissoras menores, a associação ou afiliação a uma grande rede significa redução de custos e conteúdo disponível para abastecer suas programações. As redes de rádio, conforme regulamentado pela Anatel (Decreto 52.975 de 31 de outubro de 1963) são definidas, no Artigo 5º, em algumas modalidades: a estação geradora, rede local, nacional e regional.

Com base especialmente na estrutura técnica, de pessoal e financeira é que as redes de rádio transmitem eventos esportivos como parte de suas programações (já que algumas também trabalham com informação ou entretenimento). No Brasil, por exemplo, a Rede Globo detém os direitos sobre as transmissões da Copa do Mundo de 2022. Nesse caminho, vendeu os direitos para as seguintes rádios: Itatiaia (MG), Grupo Bandeirantes (Bandeirantes e BandNews FM), Transamérica (SP), Gaúcha (RS), Joven Pan (SP), Energia 97 (SP) e Jornal (PE). Esse número de 8 emissoras (considerando a própria Rede Globo de Rádio) é muito pequeno se comparado, por exemplo, ao número de emissoras que transmitiu a Copa de 2014 realizada no Brasil. Naquele ano, 23 emissoras adquiriram os direitos de transmissão. Em 2010, na África do Sul, foram 22 emissoras credenciadas. A redução, praticamente a metade do número de rádios se comparado com 2018, tem entre os fatores os altos custos cobrados pela Fifa e também a outra modalidade de negociação, que aposta em canais de streaming (cujos acordos seguem abertos até o momento).

Pensar e compreender o papel das redes de rádio nas transmissões de futebol significa considerar todos os aspectos históricos e de transformações ao longo do tempo. Assim como nos primórdios, essa relação ainda permanece muito próxima e hoje é atravessada por novos canais de transmissão que se tornam concorrentes. Se antes a promoção do esporte – como espetáculo midiático – também passava pelo rádio, hoje a era do streaming condiciona e leva grande parte da audiência, especialmente a mais jovem.

 

Fonte: Torcida K

O encolhimento visível no número de redes com transmissão também traz reflexos a partir das reduções no próprio jornalismo esportivo, seja de pessoal, estrutura e investimentos. Para aquelas que se mantêm e têm base financeira para custear direitos, viagens e toda a cobertura em si, as transmissões são uma forma de realização de grandes coberturas e de impulsionamento de verbas publicitárias. Seguem ainda cumprindo seu papel primordial de documentar eventos esportivos. Já as emissoras que ficam de fora dos grandes eventos midiáticos têm como possibilidade a venda e a formação de parcerias para cobertura de jogos em campeonatos regionais também em períodos determinados. Têm um papel como geradoras de conteúdos para mercados interioranos. Se as grandes redes trazem uma programação mais genérica considerando o território nacional, as redes regionais têm a possibilidade de explorar além do futebol, aspectos da identidade local que também passam pelo esporte. 

Referências

AVRELLA, Bárbara. ALEXANDRE, Tássia Becker. A trajetória histórica das redes de rádio no Brasil. Encontro Regional Sul de História da Mídia, 5. Anais: Florianópolis: Alcar Sul, 2014.

GUIMARÃES, Carlos. O início da narração esportiva no rádio brasileiro. In: RADDATZ, Vera. KISCHINHEVSKY, Marcelo. LOPEZ, Cristina. ZUCULOTO, Valci (Org.). Rádio no Brasil: 100 anos de História em (Re)Construção.. Ijuí: Unijuí, 2020.

RUTILLI, Marizandra. A rede verde-amarela, o pioneirismo esquecido da Família Byington. In: RADDATZ, Vera. KISCHINHEVSKY, Marcelo. LOPEZ, Cristina. ZUCULOTO, Valci (Org.). Rádio no Brasil. 100 anos de História em (Re)Construção. Ijuí: Unijuí, 2020.

SOARES, Edileuza. A bola no ar. O rádio esportivo em São Paulo. São Paulo. Summus, 1994.