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Pesquisadores do LEME lançam livro sobre mídia, esporte e cultura

Estudos em mídia, esporte e cultura, publicado pela Appris Editora, é o mais novo livro organizado por Ronaldo Helal, Leda Costa, Fausto Amaro e Carol Fontenelle, integrantes do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte (LEME).

Reprodução: Appris Editora

O livro reúne diversos artigos de pesquisadores renomados da área, como o saudoso Gilmar Mascarenhas, Édison Gastaldo, Zeca Marques, Rosana da Câmara Teixeira, dentre outros. Os artigos abordam variados assuntos sob o ponto de vista das Ciências Humanas e principalmente da Comunicação, percorrendo temáticas como sociabilidade, estádios, torcedores e o nacionalismo no esporte.

Estudos em mídia, esporte e cultura traz diferentes ângulos de investigação nos estudos sociais do esporte, abrangendo desde a prática em si até os impactos sobre torcedores e sociedade em geral. Segundo Ronaldo Helal, um dos organizadores da obra e coordenador do LEME, “o livro é uma importante produção do laboratório, que busca contribuir para o campo acadêmico de estudos do esporte, bem como levar as discussões geradas na universidade para um público mais amplo”.

O livro está disponível em livrarias e sites, no formato impresso ou e-book. Confira abaixo os locais onde você pode adquiri-lo.

Eventos

LEME faz parceria com o Museu do Futebol para o Seminário “Agora é com elas”, que celebra os 30 anos da Copa do Mundo Feminina

Nos dias 8 e 9 de novembro, o Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte (LEME) apresenta o Seminário Internacional “Agora é com elas”, que traz debates e reflexões sobre os 30 anos da criação da Copa do Mundo de Futebol Feminina da FIFA. Com o objetivo de ampliar o alcance das discussões tecidas no mundo acadêmico, o LEME fechou parceria com o Museu do Futebol, instituição da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Governo do Estado de São Paulo, que desde 2015 elabora projetos e exposições sobre a trajetória das mulheres no futebol.

Para esta parceria, está prevista uma mesa de debate organizada pelo próprio Museu do Futebol dentro da programação do Seminário, bem como a transmissão do evento pelo canal do museu no YouTube e no Facebook, bem como no canal do LEME no Youtube.

“Estamos muito felizes com a parceria, porque a UERJ, por meio do Laboratório, tem a oportunidade de chegar a públicos que geralmente não são atraídos pelo conteúdo acadêmico. Além disso, o museu irá nos dar a estrutura de tradução em Libras das palestras do seminário, o que contribui para que a universidade pública chegue a nichos cada vez mais abrangentes, proporcionando inclusão social e diversidade”, afirma Ronaldo Helal, coordenador do LEME.

A mesa “Memórias em campo: o percurso do futebol de mulheres no Museu do Futebol” ocorrerá no dia 9 de novembro (terça-feira), às 17h, e contará com a presença de Olga Bagatini, jornalista, mestra em Jornalismo Esportivo Internacional e assessora de comunicação do Museu do Futebol; Camila Aderaldo, mestra em Museologia e coordenadora do Centro de Referência do Museu da Língua Portuguesa; Angélica Angelo, gestora cultural e educadora do Museu do Futebol; e Rafael Alves, fundador e editor-chefe do site Planeta Futebol Feminino. Cada palestrante fará uma breve apresentação seguida por rodadas de perguntas, das quais os internautas poderão participar.

Estudantes de graduação vão receber certificados de participação mediante preenchimento de formulário disponibilizado no chat ao vivo da transmissão.

Nova exposição conta a trajetória feminina no esporte no Museu do Futebol –  Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo
Fonte: Secretaria de Cultura do Governo do Estado de São Paulo.
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Programação completa “Agora é com elas”

É com imenso prazer que o LEME divulga a programação completa do “V Seminário Internacional do LEME – Agora é com elas: 30 anos da Copa do Mundo de Futebol de Mulheres”! O evento contemplará a história, trajetória e luta da modalidade no Brasil, além da comemoração dos 30 anos da primeira copa do mundo de futebol de mulheres. 

O evento acontecerá nos dias 8 e 9 de novembro, na parte da tarde e da noite e contará com a presença de profissionais, pesquisadores e ex-atletas da área. Além das mesas, teremos a apresentação de dois GTs, os quais ocorrerão nos dois dias de evento, na parte da manhã. 

A transmissão das mesas acontecerá no canal do YouTube do Museu do Futebol, parceiro do LEME neste evento. Para participar da apresentação dos GTs, basta fazer a inscrição via Sympla. Os que assistirem ao evento, irão preencher um formulário e receberão posteriormente um certificado de participação, com hora complementar.

Confira a seguir a programação completa do evento! 

Dia 8 de novembro

Mesa 1 – 19h

Tema: Mulheres que inspiram outras mulheres

Mediação: Silvana Goellner 

Palestrantes: 

Claudia Silva 

Dilma Mendes 

Dia 9 de novembro

Mesa 2 –  17h 

Tema: Memórias em campo: O percurso do futebol de mulheres no Museu do futebol 

Mediação: Olga Bagatini

Palestrantes:

Rafael Alves

Camila Aderaldo

Angélica Angelo

Mesa 3 –  19h

Tema: O futebol das mulheres na América Latina: visibilidade e investimento 

Mediação: Camila Augusta

Palestrantes: 

Aira Bonfim 

Julia Hang 

Ana Lorena Marche 

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Financeirização da vida cotidiana: o jornalismo esportivo na era digital

Reprodução: Internet

Durante as últimas décadas, o futebol foi assistido pela televisão. Com a internet, ficou cada vez mais constante a presença de comentários de torcedores nas transmissões ao vivo, seja por envio de mensagens aos veículos de comunicação ou ainda com o uso de hashtags, nas quais os telespectadores marcam a transmissão que estão assistindo. Nos últimos anos, o torcedor / consumidor deste esporte tem sido bombardeado por outros tipos de transmissões e programas jornalísticos. Jogos agora também são transmitidos via streaming ou ainda por meio dos canais dos clubes. Jornalistas consagrados também têm seus canais no Youtube. Este artigo, visando observar este fenômeno, entrevistou o jornalista Mauro César que, após 16 anos na ESPN, saiu da emissora e está se dedicando a sua coluna no Portal Uol e ao seu canal no Youtube.

De acordo com dados de outubro de 2021, o canal do Mauro Cezar tem 617 mil inscritos. Em dezembro de 2020, foi lançado o Clube de Membros, dividido em três categorias, com pagamentos mensais: Nada Pífio (R$2,99), na qual os internautas têm direito aos emojis e selos de membros; Nada Patético (R$7,99), que dá direito a participar do Mauro Cezar responde: o participante vai na comunidade, coloca as perguntas, o jornalista faz um vídeo, no qual os nomes das pessoas são citados e as perguntas respondidas, além disso, começam os acessos aos vídeos exclusivos; Nem Pífio e nem Patético (R$14,99), além dos benefícios dos demais pacotes, em formato de mesa redonda online, quatro membros participam da conversa, dando a vez posteriormente para mais quatro membros, ou seja, oito por programa. Os que não participam do programa de Membros têm acesso para assistir as interações no Youtube e aos vídeos de análises das partidas:

Quando terminam os jogos, eu vou para o canal ficar conversando com os internautas. Ali não é o momento de análises profundas. Isto eu deixo para as gravações em meu canal. Ali é o momento das pessoas conversarem comigo. O pós-jogo é eu e você. E quem é super chat, ou seja, membro do canal, tem, de certa maneira, prioridade no momento da conversa, afinal, ele contribui para a minha receita. Eu acho que o mundo mudou e é muito legal ter o feedback, na hora, das pessoas, é muito bom também sentir o carinho delas. Não é mais a mesma coisa que estar na televisão. As pessoas se sentem batendo papo com o apresentador, ao vivo. Imagina, tem dia que eu tenho 20 mil pessoas querendo conversar comigo. É muito legal!

Mauro Cezar conta que seu engajamento nas redes começou no Twitter, de forma esporádica e que, um dia fez vídeos de bastidores de torcida e não tinha onde compartilhar com as pessoas e resolveu subir um canal no Youtube.  A partir de 2011, as gravações passaram a ser constantes. “Já em 2016, 2017, eu pensei: ‘não comentei tal assunto na TV, ficou faltando. Vou fazer um vídeo’. Fiz e vi que tinha muita demanda este tipo de pauta. Em 2018, eu tinha 50 mil seguidores e passei a trabalhar melhor”.

A saída de Mauro Cezar da ESPN se deu em janeiro de 2021, porque a Disney, detentora dos direitos do canal esportivo, pediu exclusividade. A decisão do jornalista, de abandonar a TV, parece ter dado certo: “Em fevereiro, eu alcancei 100 milhões de visualizações. 10% deste índice, ou seja, 10 milhões de visualizações ocorreram em janeiro e fevereiro. Não chegaria nem perto disso estando na televisão”.

A ideia de cobrar pelo seu serviço de conteúdo vai contra os modelos de freemium adotado pela maioria das grandes plataformas. De acordo com Morozov (2018), o modelo freemium foi exaltado por muitos como um novo tipo de capitalismo, humanitário e benéfico para os mais pobres, mas, na verdade, tem se revelado apenas como uma etapa transitória da transformação digital. Ou seja, realizar cobranças é uma tendência, pois fica mais fácil identificar usuários e adequar a gama de produtos e serviços oferecida a eles. O autor afirma ainda que está sendo construída uma “cerca invisível de arame farpado” ao redor de nossas vidas, pois estamos sob vigilância o tempo todo, através do rastro que deixamos por meio de nossos dados na internet.

No caso dos consumidores de Mauro Cezar, a maioria é de flamenguistas e o próprio jornalista afirma que é torcedor do clube e não vê isto como um problema no tocante à audiência.

No Youtube, conseguimos ter métricas, eu sei quem está acompanhando o canal, por exemplo. E eu sei que 60% dos inscritos são flamenguistas. Desta forma, eu tenho que dar notícias para a minha audiência. Desde quando eu iniciei o programa, no formato que estou, as métricas não indicaram que eu preciso fazer alterações, mas eu vou acompanhando os dados. 

O fato de Mauro Cezar saber quem são os consumidores de seu canal e seu perfil de consumo faz com que ele trabalhe com métricas para gerar cada vez mais receita. É a lógica do mercado financeiro sendo aplicada ao jornalismo esportivo. Como explica o professor da faculdade de Comunicação da UFRJ Leonardo de Marchi (2018), a financeirização da vida cotidiana tem sido observada por pesquisadores de diferentes áreas, haja vista a sistemática aplicação da lógica operacional do mercado financeiro na condução da vida social, vivida no online. Ainda como explica o autor, foram desenvolvidas tecnologias que permitiram fragmentar virtualmente qualquer ativo subjacente, a fim de criar novos produtos financeiros.

Desta forma, podemos perceber que essa nova maneira de pensar o futebol possibilita que um jornalista como Mauro Cezar, por meio de seu canal, adentre cada vez mais na vida cotidiana dos espectadores:

De forma geral, programam-se algoritmos proprietários (de código fechado) para que fragmentem um ativo subjacente em diferentes atributos, utilizando parâmetros que lhes permitem tornar comparáveis entidades aparentemente incompatíveis. Em seguida, recompõem-se tais atributos num composto derivado, uma unidade informacional abstrata. Tal como ocorre no mercado de arbitragem, a este produto atribui-se algum valor monetário, a partir do qual outros compostos serão avaliados em seu valor intrínseco. Assim, uma ampla gama de práticas sociais se torna passível de codificação, pois são padronizadas e intercambiáveis (DE MARCHI, 2018, p. 204).

Podemos inferir, então, que o tipo de conexão torcedor / consumidor de futebol é o que também atrai os patrocinadores do programa do Mauro Cezar. Dentre eles, o aplicativo de notícias de futebol One Football. Segundo o jornalista, não há uma pessoa responsável pelo departamento comercial de seu canal, ele trata pessoalmente com as empresas:

Quem me acompanha, sabe que eu nunca fiz merchan na TV. Hoje eu falo, porque o merchandising é para mim. Não há intermediários. Não estou fazendo para ninguém gerar receita. Por exemplo, quando fazia programas na televisão, existiam quadros nos quais eu e meus colegas dávamos palpite de quanto seria o placar dos jogos.  Muitas vezes uma empresa de apostas tinha pautado esta iniciativa. Ou seja, o diretor comercial, o contato comercial, todos na TV ganhavam comissão, mas nós, jornalistas, não. Hoje ninguém ganha nas minhas costas. Além disso, eu me livro de debater assuntos inúteis que, muitas vezes, são colocados na televisão.

Além da autonomia para escolher as pautas, o jornalista apontou que agora tem tempo para se dedicar a outras tarefas, como ler um livro no meio da tarde, não estando sujeito a uma escala de trabalho.  “Claro que, em dias de jogo, eu tenho que parar para escrever, assistir aos jogos, mas agora eu não tenho patrão, não tenho chefe. Sou dono do meu horário. Entrevisto quem eu quero, escrevo o que eu quero e comento sobre o que quero”.

A ideia de liberdade de conteúdo de Mauro Cezar vai ao encontro do que Morozov (2018) chama de “despojar as pessoas de seus recursos”. Ou seja, o capital libera o potencial criativo dos indivíduos, ao oferecer-lhes meios muito sofisticados, e amplamente acessíveis, de cuidarem de si, mobilizando-as a lutar pelos seus objetivos por intermédio de outras modalidades da economia do conhecimento. Desta forma, Mauro abre caminho para um novo tipo de jornalismo esportivo no Brasil que, ao mesmo tempo que é mais autônomo, segue métricas de mercado, mas nas quais ele pode trabalhar os dados ao seu favor. “É um caminho que nem asfaltado ainda está, me sinto dirigindo uma BMW, num terreno acidentado. Eu estou abrindo um caminho, mas ele é acidentado, tem que ter gás”.

Sendo assim, podemos concluir que, quando falamos da ambiência digital e canais próprios de jornalistas, temos uma nova maneira não somente de transmitir notícias, como também de eliminar intermediários em transações comerciais de patrocínio. O anunciante trata diretamente com o profissional que, por sua vez, decide quem serão seus anunciantes e suas pautas, não dependendo da influência direta ou indireta dos grandes conglomerados de mídia. O torcedor / consumidor se atrai por este serviço de notícias porque também vê nele a possibilidade de ser coprodutor de conteúdo, interagindo de forma direta com o jornalista. Este fato gera, ainda, mídia espontânea, pois o impele a compartilhar sua participação nos programas, o que pode proporcionar novos usuários para o próprio canal.

Desta forma, o jornalismo esportivo engatinha em sua jornada na era digital, com um mercado potencialmente grande a se expandir, aproveitando-se de informações geradas pela financeirização da vida digital cotidiana do torcedor / consumidor.

Referências

DE MARCHI, L. Como os algoritmos do Youtube calculam valor? Uma análise da produção de valor para vídeos digitais de música através da lógica social de derivativo. Matrizes, v. 12, n. 2, maio/ ago. 2018, São Paulo, Brasil, p.193-215.

MOROZOV, E. Big Tech: a ascensão dos dados e a morte da política. São Paulo: Ubu, 2018.

SCHRADIE, J. Ideologia do Vale do Silício e desigualdade de classe: um imposto virtual em relação à política digital. Parágrafo, jan./jun. 2017, v. 5, n. 1, São Paulo, 2017.

Produção audiovisual

Já está no ar o quadragésimo terceiro episódio do Passes e Impasses

O tema do nosso quadragésimo terceiro episódio é Veganismo e prática esportiva. Com apresentação de Mattheus Reis e Abner Rey, gravamos remotamente com Natalia Casanova e Weliton Carius. Natalia é professora e nutricionista, formada pela UFRJ, e mestre em Nutrição Humana também pela UFRJ, além de coordenadora da pós-graduação em Nutrição Vegetariana e Vegana da NutMed. Weliton é desportista, competindo na modalidade trail running em competições nas Américas e na Europa. Weliton já foi campeão de algumas provas aqui na América do Sul, dentre elas, a Endurance Challenge – Chile 50km, Ultra Fiord – Chile 120km, Trail Marathon -Rio 42km e La Mision – Brasil 80km.

Acesse o mais novo episódio do podcast Passes e Impasses no SpotifyDeezerApple PodcastsPocketCastsOvercastGoogle PodcastRadioPublic e Anchor.

O podcast Passes e Impasses é uma produção do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte em parceria com o Laboratório de Áudio da UERJ (Audiolab). O objetivo do podcast é trazer uma opinião reflexiva sobre o esporte em todos os episódios, com uma leitura aprofundada sobre diferentes assuntos em voga no cenário esportivo nacional e internacional. Para isso, contamos sempre com especialistas para debater conosco os tópicos de cada programa.

Você ama esporte e quer acessar um conteúdo exclusivo, feito por quem realmente pesquisa o esporte? Então não deixe de ouvir o quadragésimo terceiro episódio do Passes & Impasses.

No quadro “Toca a Letra”, a música escolhida foi “Looking For Changes” do cantor e compositor britânico, Paul McCartney.

Passes e Impasses é o podcast que traz para você que nos acompanha o esporte como você nunca ouviu.

Ondas do LEME (recomendações de artigos, livros e outras produções):

Sociedade Vegetariana Brasileira [instituição]

Natalia Casanova [perfil no Instagram]

Weliton Carius [perfil no Instagram]

Dieta de Gladiadores [documentário]

Culinária vegana para atletas – Matt Frazier e Stepfanie Romine [livro]

Alimentação sem carne – Eric Slywitch [livro]

Equipe

Coordenação Geral: Ronaldo Helal
Direção: Fausto Amaro e Filipe Mostaro
Roteiro e produção: Eduardo Ribeiro e Carol Fontenelle
Edição de áudio: Leonardo Pereira (Audiolab)
Apresentação: Mattheus Reis e Abner Rey
Convidado: Natalia Casanova e Weliton Carius

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O que a nova gramática do futebol nos revela sobre as escolhas desse esporte?

Reprodução: Internet

Já vai longe o tempo em que o lazaronês[1], com sua fala complicada era alvo da jocosidade do jornalismo esportivo e das torcidas. Cerca de 40 anos depois daquilo que era, majoritariamente, tratado como sinônimo de falar empolado para encobrir deficiências táticas, a nova gramática dos treinadores foi elevada ao estado da arte para explicar o futebol. E, não apenas no meio de técnicos e da boleirada, mas, também do jornalismo, antes bem menos permeável a tais retóricas esvaziadas de sentidos.

Se adotarmos um olhar mais cético e mais crítico, podemos desconfiar fortemente que, na verdade, estamos diante de uma operação discursiva que ressignifica antigas expressões futebolísticas, para que, nessa metaformose linguística, se amplifique o poder dos treinadores, e torcedores e jornalistas deixem de debater, e cobrar, a essência do que se passa em campo.

Entre neologismos ou palavras que tiveram seus significados originais reconfigurados, citamos: linha alta; linha baixa; último terço do campo; verticalizar o jogo; atacar a bola; extremo, 4-2-1-2-1… Em tempos não tão remotos, tais palavras e expressões eram facilmente compreendidas, por público e imprensa, como, respectivamente: adiantar a marcação; marcar no seu próprio campo; proximidade da área, jogar para frente; não ficar parado esperando a bola; ponta (direita ou esquerda). Já sobre a sopa de números, a aparente sofisticação da numerologia treineira pode nos dar outras pistas.

Embora o futebol seja esporte dinâmico, nem sempre traduzível ou reduzível a números, as antigas numerações davam conta de explicitar que, entre as três faixas em que se divide o campo de futebol – defesa, meio-campo e ataque – determinados times jogavam, em geral, com quatro defensores; e alguns poucos, no Brasil, recorriam a um terceiro zagueiro, somando, assim, cinco na defesa. No meio-campo, entre jogadores mais marcadores – cabeça de área, volante – e de criação – armadores – havia time que optava por três ou quatro nessa posição. Com isso, no ataque, tinha-se, respectivamente, três ou dois atacantes.

Tudo isso, teoricamente, porque, com a bola rolando, uma série de fatores imponderáveis e a dinâmica da partida é que iam definir se a rigidez tática seria mantida ou moldada pelos acontecimentos. Apesar disso, a sinalização era clara: quem jogava com quatro no meio-campo buscava fortalecer esse setor, sem, no entanto, garantias de que o desejado fosse confirmado no gramado. Já quem priorizava o ataque, optava por escalar mais um atacante, renunciando a um jogador no meio. Dentro dessas configurações táticas, abria-se uma miríade de possibilidades, a depender, em grande medida da qualidade dos escalados para cada função e da imprevisibilidade inerente a um jogo de futebol.

Um meio-campo marcador que, também, soubesse sair para o jogo, poderia, como no Brasil x Uruguai, da Copa de 1970, trocar de posição com o armador e aparecer na frente, não apenas para municiar o ataque, como para marcar um gol, como ilustrou a troca de posições entre o volante Clodoaldo e o armador Gerson, muito marcado pelos uruguaios naquela altura da partida.

Também o clube que, na prancheta do treinador, desfilava o 4-3-3, poderia deslocar um atacante, geralmente o ponta-esquerda, para compor o meio-campo quando seu time não tinha a bola. Ou ainda quem entrava com quatro no meio, quase sempre com mais marcadores do que criadores, podia liberar os laterais – em algum momento, rebatizados de alas, embora continuem a ser cobrados, centralmente, por suas funções defensivas (?) – para ajudarem a apoiar o ataque.

Mais uma vez, era a dinâmica da partida que confirmaria ou reconfiguraria as estratégias do treinador. No entanto, quando a gramática hodierna dos técnicos anuncia esquemas como 4-2-1-2-1 ou afins, tais numerologias são quase automaticamente naturalizadas pelo jornalismo esportivo como questões dadas, sem que se deem conta de contradição emblemática: por trás de uma suposta camada de modernidade, o que os técnicos estão defendendo é ser possível, em plena era da necessidade de compactação em campo, seccionar tanto o meio quanto o ataque.

Assim, se o 2-1-2 inicial significaria que, em teoria, a equipe teria dois jogadores mais próximos da área, um mais livre, em tese, e, se tiver talento, para armar o time, e dois que encostariam no solitário jogador que seria o único atacante explícito. Ora, esquemas táticos dependem da quantidade de talento dos que o executam. Então, se poderia perguntar: nessa pretensa modernidade, Iniesta, no seu tempo de Barcelona, antes e depois da dupla com Xavi, seria volante (um dos 2 à frente da zaga ou ainda o 1, se a configuração definida pelo treineiro for 4-1-3-3 ou seria armador?

Se a resposta for a primeira, como explicar a constante presença dele próximo da área adversária, inclusive, no momento em que este tinha a bola. Caso se fixe na segunda possibilidade, qual a explicação para quando, também recorrentemente, iniciava o ataque do time catalão a partir da entrada da sua área? Não seria Inieta a personificação da desconstrução da “muderna” numerologia treineira, ao mostrar que, no futebol contemporâneo, resta pouco espaço para meio-campistas que se limitem a marcar ou que, sabendo jogar, se recusem a participar da marcação? E que a principal preocupação de um treinador deve ser evitar que sua equipe atue com três setores estanques, para não conceder espaços generosos ao adversário?

Assim, ao se concentrar em números que empiricamente raramente são confirmados em campo, o jornalismo esportivo deixa de questionar se essa nova gramática não serve para encobrir visíveis inconsistências táticas dos nossos treinadores. Na nova gramática treineira ou “delírios táticos”, na expressão de Tostão, poucas sintetizam tal indigência como a popularizada “saber sofrer”. Traduzida na prática, significa que, sem opções de ataque, um time vai ficar submetido à sorte de, entre os constantes ataques do adversário, torcer para não sofrer um gol. Assim, a cada bola cruzada na área ou chute desferido de perto do goleiro, a torcida desse clube deve, entre unhas roídas e respiração acelerada, celebrar a genialidade tática do seu treinador.

Se a essa nova definição de defensivismo somar-se a celebrada “jogar por uma bola”, o jornalismo crítico não deveria vacilar, a exemplo do que fazia em tempo não tão remoto, em qualificar tal opção como “retranca”, “futebol covarde” ou “time sem opções”. No entanto, como disse Marcelo Bielsa, ao utilizar o mesmo comportamento mobilizado para amplificar o reconhecimento na vitória para condenar o comportamento na derrota, a imprensa – e não apenas a brasileira – “especializou-se em perverter os seres humanos de acordo com vitórias e derrotas”.

E tal comportamento não se limita à defesa do resultadismo, como criticava o treinador argentino, mas, também, serve para naturalizar uma gramática que, ironizada em momento mais brilhante do nosso futebol, passou a ser reproduzida acriticamente. Fica a provocação: a perda de qualidade levou à necessidade de colocar camadas retóricas esvaziadas de sentidos aos discursos dos treinadores ou foi o inverso? Ou será que ambos caminharam juntos?


[1] No período em que dirigiu a seleção brasileira, entre 1989 e 1990, Sebastião Lazaroni, além de anunciar o início da “era Dunga”, que substituiria o “futebol-espetáculo”, notabilizou-se por explicações como: “galgar parâmetros”; “lastro físico”, “pijama-training”  e “intenção sinergética”. Várias delas soam como primas da “treinabilidade” e do “oportunizar”, do titês, este, no entanto, idioma assumido, sem ironias, pelo jornalismo esportivo.

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Redes Sociais: desvendando o Instagram e o YouTube

Profissionais de Produto Digital do GNT conversam sobre as redes sociais do canal
Reprodução: equipe organizadora do evento

A palestra “Redes Sociais: desvendando o Instagram e o YouTube”, produzida pela equipe de Estágio Supervisionado II, em parceria com o Laboratório de Comunicação Integrada (LCI), da UERJ, acontecerá no dia 28 de outubro, quinta-feira, às 16h. Os convidados são Camila Peres e Viktor Kotkiewicz, profissionais da área de Produto Digital do GNT, da Globo.

O evento tem como objetivo ampliar os conhecimentos dos alunos da Faculdade de Comunicação Social da UERJ, e demais interessados, sobre produção de conteúdo digital de grandes marcas. Métricas, processo criativo e copywriting estão entre os temas discutidos pelos convidados, que também vão falar sobre suas trajetórias profissionais e mercado de trabalho.

A transmissão será pelo Google Meet. Os participantes receberão, posteriormente ao evento, certificado e hora complementar.

Inscrições pelo Sympla

Mais informações: 

Raffaella Napoli – raffabelcastro@gmail.com | (21) 98394-2726

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O fardo de Ramírez

O jogador Ramírez. Reprodução: Internet

O racismo é uma atitude detestável.

E precisa ser combatido.

Dito isso (são as duas primeiras frases deste artigo), é importante dizer também que a luta contra o racismo não se faz com injustiças.

O atleta colombiano Juan Pablo Ramírez Velásquez (também conhecido como Índio Ramírez), do Esporte Clube Bahia, carrega um fardo de injustiça que já não devia mais estar em suas costas.

Foi acusado, em dezembro de 2020, de ter praticado racismo em uma partida contra o Flamengo pelo Campeonato Brasileiro. Teria ofendido com injúria racial o jogador Gerson. Ramírez negou.

O colombiano foi afastado do time pela direção do próprio Bahia. O clube, sem demora, contratou peritos para analisar o caso. Esses peritos não encontraram nenhuma prova de que houve injúria racial. O presidente do Bahia, diante disso, reintegrou o atleta ao time. “A gente se esforçou, esforçou e não conseguiu identificar uma outra prova ou circunstância além da palavra da vítima”.

Nem os peritos contratados pelo Bahia, nem qualquer outra investigação comprovou a prática de racismo por parte de Ramírez. O STJD, então, fez o óbvio: arquivou o caso por falta de provas.

Ramírez poderia respirar aliviado. Ou não?

O fardo continua. No último dia 9 de outubro, o GE (mais especificamente, o GE São Paulo) produziu uma matéria televisiva que foi veiculada nacionalmente. O assunto era um relatório sobre casos de racismo no esporte em 2020.

A matéria de 3 minutos e 16 segundos dedicou meio minuto à denúncia contra Ramirez.

Disse a reportagem:

  • na súmula da partida, o árbitro declara que não ouviu nenhuma ofensa
  • o atleta Gerson prestou queixa e foi registrado um boletim de ocorrência, mas o Ministério Público solicitou o arquivamento do inquérito (solicitação atendida por um juiz)

Evidência contra Ramírez, além da acusação de Gerson, nenhuma.

Eis a situação: para o árbitro da partida, para os peritos contratados pelo Bahia, para o STJD, para o Ministério Público e para a Justiça comum, não se pode dizer que Ramírez praticou racismo. Para o GE, a denúncia contra Ramírez pode ser chamada (como foi) de “caso de discriminação racial no futebol”, desprezando-se a palavra “denúncia” e sem qualquer ênfase para o fato dessa denúncia não ter sido comprovada.

Por quanto tempo mais a denúncia contra Ramírez (não comprovada e judicialmente arquivada) será exposta nacionalmente em matérias recheadas de casos de racismo (esses outros, sim, documentados e comprovados)?

Por quanto tempo mais Ramírez carregará esse fardo?

Guilherme Bellintani (Presidente do E. C. Bahia). Afastou Ramírez do time e o reintegrou três dias depois. Reprodução: Internet

Para completar, algumas palavras sobre o princípio da presunção de inocência.

O Esporte Clube Bahia, em nota oficial publicada horas depois da denúncia contra Ramírez, declarou que o seu atleta negava “veementemente” a acusação, mas seria afastado assim mesmo, pois “a voz da vítima” deveria ser preponderante nesses casos.

Passaram-se dez meses e ainda não se comprovou que houve um ofensor e, portanto, um ofendido (ou seja, uma “vítima”). Já o Bahia, muito apressado, chamou Gerson de “vítima” menos de seis horas depois de encerrada a partida contra o Flamengo e o fez em uma nota oficial divulgada pela internet.

Alguém poderia ter advertido o presidente do Bahia que, se Gerson já era considerado “vítima”, Ramírez já era considerado “culpado”. E poderia também, logo em seguida, lembrar-lhe que isso afrontava o princípio da presunção de inocência, consolidado ao longo de muitas décadas e à custa de muito esforço intelectual.

Talvez até alguém o tenha feito, já que o presidente decidiu reintegrar Ramírez quatro dias depois daquela famigerada partida contra o Flamengo.

Atualmente, Ramírez ainda é atleta do Bahia e disputa partidas normalmente.

Parte da imprensa (dita progressista e que adotou a bizarra tese do “a voz de quem denuncia é a voz da vítima e deve predominar desde o momento em que a denúncia é feita”) poderia seguir o exemplo do presidente do Bahia e retirar das costas de Ramírez esse fardo que não lhe cabe.

Talvez aconteça algum dia. O GE, por enquanto, ainda acha que não é o momento, apesar do que já decidiu o STJD e a Justiça comum.

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A faculdade de comunicação social da UERJ apresenta a próxima semana de comunicação – 25, 26 e 27 de outubro

Com duração de 3 dias, o evento conta com a participação de palestrantes convidados para falar sobre a saúde mental dentro das universidades.
Reprodução: Semana de Comunicação

Sucesso desde seu lançamento, a Semana de Comunicação traz inovação e novos convidados para os alunos da UERJ.

Neste ano, o assunto abordado a vida on-line, como foco na saúde mental dentro da universidade, os processos de adaptação das rotinas, muitas vezes com duas jornadas, o trabalho e os estudos. Um momento repleto de relações e encontros com o novo, de descoberta de novos caminhos sem saber para onde seguir. Como é possível em meio a isso tudo, ter um olhar para os sentimentos e entender os sinais que o corpo da.

O evento conta com a participação da Juliana Hampshire, que é psicóloga e consultora pedagógica do LIV. Mestra em Teoria Psicanalítica pela UFRJ, traçou seu percurso pela pesquisa e pela clínica, atuando em consultório particular e no SUS. Também haverá a contribuição da Naiara Ambrósio, que é Graduada em Engenharia Química pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) no ano de 2019, Naiara tem atuado nos últimos 3 anos na área de gestão e tecnologia e esteve envolvida com projetos de construção e gestão de produto digital, condução de operação M&A, redesenho de modelo de operação, transformação de processos e dimensionamento de força de trabalho. Além disso, também terá a participação dos palestrantes José Alessandro, com todo seu renome na área de Marketing educacional e o workshop do ator Claudio Cinti & muito mais!

Reprodução: Semana de Comunicação

Sobre a semana de comunicação UERJ

A Semana de Comunicação Uerj é um evento consagrado pela Faculdade de Comunicação Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, que há mais de 20 anos tem proporcionado a enriquecedora troca entre alunos e profissionais já inseridos no mercado de trabalho. Ao longo das edições contou com participações e parcerias de renome como B2W, Agência Lupa, Wizard, Som Livre, o artista Hélio de La Peña e os jornalistas Fernando Molica, da CNN Brasil, e Aline Midlej, apresentadora da GloboNews.

Contato para imprensa

Turma de produção de eventos:

(21) 987857507

Ana Oliveira- olivanaoliveira@hotmail.com

(21) 964908658

Brunna Barbosa – balvesbarbosa0505@gmail.com

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Transmissões televisivas e a elitização do sofá de casa

Reprodução: Internet

Desde a virada do século XX para o século XXI é possível perceber a estruturação de um processo de elitização do público nos estádios brasileiros, por meio do aumento nos valores dos ingressos e da busca por uma disciplinarização dos comportamentos esperados pelos torcedores nas arquibancadas (GAFFNEY, 2004). Amparados por uma noção do futebol cada vez mais atrelada à mercadoria e a espetacularização, os clubes brasileiros, bem como as empresas promotoras de eventos ligados ao esporte procuraram transformar os estádios em espaços voltados para o consumo e entretenimento. Lojas, alimentação, experiências no campo de jogo, e tudo mais que possa ser explorado comercialmente são feitos tendo a partida como fio condutor (HOLZMEISTER, 2005).

O processo de elitização dos estádios se aprofunda no Brasil a partir do fim da primeira década do século XXI, quando motivados pela promoção da Copa das Confederações (2013), Copa do Mundo (2014) e Olimpíadas (2016) passam a ser reformados ou construídos novos estádios que materializaram o novo projeto de torcedor/fã e arena de consumo esportivo.

A construção ou remodelamento desses estádios atrelados a uma nova forma de torcer e consumir constitui o processo de arenização na qual as praças esportivas passam a ser pensadas não mais a partir daqueles que frequentam – a torcida- mas sim das exigências das empresas consumidoras/patrocinadoras e dos indivíduos que pretendem desfrutar de um entretenimento. O estádio-nação, ou seja, o espaço de representação da identidade social dá lugar ao estádio-shopping, local estritamente comercial (MARCELLINO, 2013).

O avanço dessa realidade de elitização, na qual a arenização é sua característica mais atual acabou por paulatinamente afastar grande parte das camadas populares dos estádios, mas também parte da classe média intitulada atualmente como “nova classe C”. A principal razão para esse afastamento está nos altos custos dos ingressos que acabam por alijar os mais pobres do acesso ao estádio.

Tendo seu acesso dificultado e/ou impedido, essas classes sociais encontraram nas transmissões televisivas um meio de continuar acompanhando seus clubes, mesmo que à distância. Para a maioria por meio da “televisão aberta” e para uma parcela, principalmente da nova classe C, também por meio da “televisão fechada”. Se o estádio de futebol cada dia mais estava “fechado” para esses grupos, pelo menos as transmissões televisivas ajudavam a mitigar os efeitos da desigualdade de acesso as partidas. Esse fato que já havia sido observado no processo de elitização do futebol inglês como evidenciou Alvito (2014).

No Brasil o televisionamento das partidas se difundiu no final da década de 1980, quando mais de 70% dos lares do país possuíam aparelhos televisores (BOLAÑO,1988). Durante o período entre 1980 e 2020 pôde-se perceber que o avanço das transmissões foi feito através de um controle cada vez maior da Rede Globo e suas afiliadas, que passaram a ter o direito de transmissão dos principais campeonatos esportivos tais como: Estaduais, Campeonato Brasileiro, Copa do Brasil, Libertadores, Copa do Nordeste, entre outros. Nesse caminho passou também a monopolizar a expertise no processo de produção técnica dos jogos e consolidou-se como a “dona” do futebol brasileiro ofertando nos meios de semana e finais de semana partidas na televisão aberta.

Nos anos de 1990 com a chegada dos canais pagos da televisão fechada, a oferta de transmissão de jogos aumentou com a introdução de canais esportivos, sendo que nos anos 2000 ocorreu a chegada da ESPN e SPORTV à grade de programação, bem como a oferta de pacotes de transmissão completa como o pay-per-view. A existência dessa oferta de canais pagos possibilitou a determinada parcela da população, principalmente da classe C, acompanhar todos os jogos de futebol do seu time a um custo inferior do que aquele gasto no valor dos ingressos.

O monopólio da Rede Globo nessas transmissões abertas e fechadas permitia aos torcedores terem acesso a todas as partidas (do seu time e dos adversários) adquirindo somente um produto, a saber o pay-per-view (SANTOS, 2013). No entanto, nos últimos anos podemos perceber mudanças na dinâmica das transmissões televisivas com o aparecimento de novas plataformas de comunicação com destaque para o serviço de streaming, além do interesse de novos players na transmissão das partidas devido o aumento do potencial comercial delas.

Entre os novos interessados nas transmissões das partidas temos emissoras tradicionais como Bandeirantes e SBT, mas também novos atores como é o caso do Facebook, da Conmebol e dos próprios clubes de futebol. A disputa pelas transmissões evidencia uma visão de que os campeonatos transmitidos são uma mercadoria valorizada que pode se converter em crescimento de receita para esses possíveis proprietários. O desenvolvimento dessa concorrência também está relacionado a uma difusão das tecnologias e técnicas de transmissão dos eventos esportivos entre os meios tradicionais (televisão), e os novos meios (redes sociais e streaming).

A configuração desse cenário concorrencial inicialmente nos permitiria concluir que o torcedor ganharia com esse processo, pois segundo as leis do mercado, com a quebra do monopólio da Globo e o aumento da oferta de opções de produtos por vários canais e plataformas, o preço cairia. Essa concepção do monopólio da emissora como algo ruim ganhou força durante muito tempo e foi reforçada através do processo de demonização da Rede Globo, vista como a principal culpada pelos calendários, horários e regras do futebol brasileiro (SANTOS, 2013).

No entanto, a quebra do monopólio das transmissões, seja pela não renovação de contratos vencidos e/ou pelo aparecimento de novos meios de vinculação não cobertos pelos contratos, fez surgir um efeito perverso sobre o acesso ao televisionamento dos jogos em “televisão fechada”, a saber o fatiamento dos produtos com segmentação e sobreposição de propriedades sobre os campeonatos transmitidos. Essa situação pôde ser verificada, por exemplo, com a transmissão dos jogos da Libertadores da América e Sul-americana, que saíram do portfólio da Globo e, passaram a ser oferecidos somente pela Conmebol TV. A consequência imediata disso para o torcedor/telespectador se traduz num aumento do custo para acompanhar todas as competições do seu time ou a necessidade de escolha dos campeonatos que mais lhe agradam para serem pagos e consumidos.

Se na televisão fechada esse movimento de aumento dos custos para acompanhamento das partidas já avança a passos largos, na televisão aberta ele começa a se desenhar principalmente nos campeonatos estaduais, nos quais os contratos que estão vencendo não estão sendo renovados por discordância nos valores ofertados pela Globo e a expectativa dos clubes.

Livres no mercado para disponibilizarem a transmissão das partidas como bem entenderem, alguns clubes, como é o caso do Flamengo e do Athletico Paranaense, criaram recentemente serviços de streaming com pacotes pagos para a transmissão dos campeonatos estaduais em 2021. Consequentemente os jogos desses times pararam de ser transmitidos na televisão aberta nos estaduais e a possibilidade de assisti-los estava atrelada ao pagamento de um valor de 129,00 por todo o campeonato. O desdobramento disso foi a impossibilidade das camadas mais pobres de acompanharem esses jogos na televisão.

 Com a recente aprovação da lei do mandante (lei nº14.205/2021), que permite aos clubes de futebol o direito de negociação das transmissões e reproduções dos seus próprios jogos quando forem mandantes sem a necessidade de anuência do visitante, o movimento de avanço da oferta de serviços de pacotes de campeonatos pelos clubes sobre os seus próprios jogos deve ganhar fôlego. Diante disso, podemos nos deparar com uma realidade na qual os jogos migrariam da televisão aberta para esses serviços de streamings oferecidos pelos clubes.

 O desenvolvimento desse processo visa diretamente o interesse dos clubes em obter novas receitas através do oferecimento de um serviço que antes estava vedado a eles. Contudo, aprofunda o processo de elitização do futebol, pois cria um novo nível de exclusão dos torcedores/telespectadores no objetivo de acompanhar o seu time do coração. Se num primeiro momento o aumento do valor dos ingressos significou a elitização dos estádios e a exclusão dos mais pobres do acesso as partidas em loco, agora a fragmentação dos pacotes de transmissão de jogos e a diminuição da oferta de partidas na televisão aberta caminha para ser um segundo estágio desse processo.

Com a elitização do sofá de casa, o torcedor mais pobre ficará ainda mais distante do seu clube do coração e terá novamente que obter novos meios para alimentar a sua paixão diante de um esporte que se propõem cada dia mais comercial e menos passional.

Referências

ALVITO, M. A Rainha de Chuteiras: Um ano de futebol na Inglaterra. Rio de Janeiro. Ed Apicuri, 2014.

BOLAÑO, C. Mercado Brasileiro de Televisão. Aracaju, Universidade Federal de Sergipe, PROEX/CECAC/ programa Editorial, 1988.

GAFFNEY, C. T.; Mascarenhas, G. O estádio de futebol como espaço disciplinar. In: Seminario Internacional Michel Foucault, 2004, Florianopolis. Seminario Internacional Michel Foucault – Perspectivas, 2004.

HOLZMEISTER, A. A nova economia do futebol: uma análise do processo de modernização de alguns estádios brasileiros / Antônio Holzmeister Oswaldo Cruz. – Rio de Janero: UFRJ/PPGAS, Museu Nacional, 2005.

MARCELLINO, N. C. Legados de megaeventos esportivos. Campinas: Papirus, 2013.

SANTOS, A. David G. dos. A consolidação de um monopólio de decisões: a Rede Globo e a transmissão do Campeonato Brasileiro de Futebol. UNISINOS 2013.