Produção audiovisual

Já está no ar o trigésimo quarto episódio do Passes e Impasses

Acesse o mais novo episódio do podcast Passes e Impasses no Spotify*, Deezer*, Apple PodcastsPocketCastsOvercastGoogle PodcastRadioPublic e Anchor.

O tema do nosso trigésimo quarto episódio é “Técnicos no Brasil”. Com apresentação de Mattheus Reis e Marina Mantuano, gravamos remotamente com Márcio Guerra, professor titular da Universidade Federal de Juiz de Fora e coordenador o Núcleo de Pesquisa em Comunicação, Esporte e Cultura.

O podcast Passes e Impasses é uma produção do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte em parceria com o Laboratório de Áudio da UERJ (Audiolab). O objetivo do podcast é trazer uma opinião reflexiva sobre o esporte em todos os episódios, com uma leitura aprofundada sobre diferentes assuntos em voga no cenário esportivo nacional e internacional. Para isso, contamos sempre com especialistas para debater conosco os tópicos de cada programa.

Você ama esporte e quer acessar um conteúdo exclusivo, feito por quem realmente pesquisa o esporte? Então não deixe de ouvir o trigésimo quarto episódio do Passes & Impasses.

No quadro “Toca a Letra”, a música escolhida foi “País do Futebol”, interpretada por MC Guimê e o rapper Emicida.

Passes e Impasses é o podcast que traz para você que nos acompanha o esporte como você nunca ouviu.

Ondas do LEME (recomendações de artigos, livros e outras produções):

Doutor Castor [série – Globosat Play]

Minha bola, minha vida – Nilton Santos [livro]

Equipe

Coordenação Geral: Ronaldo Helal
Direção: Fausto Amaro e Filipe Mostaro
Roteiro e produção: Marina Mantuano, Fausto Amaro e Carol Fontenelle
Edição de áudio: Leonardo Pereira (Audiolab)
Apresentação: Mattheus Reis e Marina Mantuano
Convidado: Márcio Guerra

Artigos

A figura do ídolo no futebol e a teoria dos Olimpianos

Como é facilmente perceptível por quem estuda a abordagem midiática do futebol, a paixão futebolística sobre determinado expoente do esporte – geralmente um jogador que é craque do seu time ou um técnico genial a ponto de ser constantemente vitorioso –, que compartilha sua aura com os torcedores apaixonados, parte sempre de uma narrativa contada por um emissor, e esse emissor pode ser tanto um comunicador de rádio, por exemplo, ou até mesmo o próprio atuante futebolístico (por meio de suas ações em campo). A questão é que nós, receptores dessa aura, estamos sempre sujeitos a abraçar essa narrativa, pois somos torcedores. E os torcedores são sempre movidos pela emoção. Talvez seja isso que destaque o futebol como um fenômeno social em meio a tantos outros esportes.

Em seu livro Cultura de Massas no século XX, Edgar Morin joga uma luz forte sobre essas narrativas apaixonantes que iluminam astros do futebol – e também outras estrelas midiáticas – e como essas narrativas podem mexer com uma torcida, com veículos de imprensa, com a vida do próprio astro e, inevitavelmente, com a rotina de toda uma sociedade envolvida. Chamada de “Teoria dos Olimpianos”, ela é desenvolvida sobre o prisma de que a cobertura midiática muita das vezes sufoca assuntos importantes – isto é, de interesse público – com matérias que vão abordar assuntos irrelevantes, mas que são de interesse de algum público específico (no caso, sobre esses astros do esporte). Só nos últimos meses, quantas vezes o cabelo do Gabigol foi pautado como assunto por grandes veículos da imprensa? E quantas vezes houve especulações, nesses mesmos veículos de comunicação, sobre qual música Neymar ouviria em sua caixa de som ao chegar no estádio? Aposto que muitas. 

Pelé foi coroado por muitos como ídolo máximo do Futebol. Foto: Reprodução/Twitter/@SantosFC

“No encontro do ímpeto do imaginário para o real e do real para o imaginário, situam-se as vedetes da grande imprensa, os ‘olimpianos’ modernos” – esse trecho retirado do livro de Morin nos situa bem sobre como a mídia costuma abraçar essas narrativas irrelevantes sobre os nossos “deuses do olimpo”. Porém, é claro que esse interesse da mídia passa por uma via de mão dupla, na qual o interesse de consumo do público puxa o interesse de abordagem da mídia e vice-versa. 

Grande protagonista do jornalismo esportivo brasileiro, o jornalista Mário Filho entendia bem como abordar essas narrativas dos astros para trazer o fascínio do público. Se a prática esportiva era vista quase como um movimento aristocrata até o começo do século XX e os acontecimentos esportivos eram tratados pela imprensa com simples descrições e informações básicas sobre o evento, Mário Filho, em meados do século XX – quando o futebol já caminhava como um esporte pertencente ao povo –, abria espaços em seu jornal Crítica e logo após n’O Globo para as narrativas encantadoras do futebol. Entrevistas e depoimentos inéditos de jogadores, produção de caricaturas dos heróis e vilões do jogo, fotos chamativas sobre ocorridos (ainda não era tão comum nos jornais da época) e exploração dos bastidores das partidas, como buscar entrevistas dentro dos vestiários dos times, são algumas das inovações levantadas por Mário Filho e perpetuadas até hoje.

Era uma época (1978) em que valia quase tudo para conseguir entrevistar um craque como Zico. Foto: Masahide Tomikoshi / TOMIKOSHI PHOTOGRAPHY

Mário Filho usou de seu poder como emissor para disseminar o futebol para a população; com histórias atraentes sobre as estrelas do futebol, ganhou a atenção de receptores e deixou-os ainda mais apaixonados pelo esporte. Afinal, o que seria Flamengo e Fluminense sem o místico termo “Fla-Flu” cunhado por Mário Filho? Quando Mário Filho escavou a mina das narrativas no esporte, acabou encontrando o grande diamante que dita a abordagem sobre a espetacularização do futebol, algo que Morin destaca bem em outro trecho de seu livro: “A imprensa de massa, ao mesmo tempo investe os olimpianos no papel mitológico, mergulha em suas vidas privadas a fim de extrair delas a substância humana que permite a identificação”.

O conceito de “deus olimpiano” vem da ideia de ser tratado como naturalmente superior – esse ponto vai ao encontro com os ídolos do do futebol. Um bom exemplo do funcionamento desse tratamento aos olimpianos aconteceu nos últimos meses quando diversos perfis em redes sociais aderiram ao “#NeyDay” e mudaram suas fotos de perfil para a foto do Neymar, a fim de apoiar o jogador na busca do título da Champions League. 

“Os novos olimpianos são, simultaneamente, magnetizados no imaginário e no real, simultaneamente, ideais inimitáveis e modelos imitáveis; sua dupla natureza é análoga à dupla natureza teóloga do herói-deus da religião cristã: olimpianas e olimpianos são sobre-humanos no papel que eles encarnam, humanos na existência privada que eles levam” – nesse trecho, Morin exprime bem como a imagem de um ídolo se estabelece. Sabemos também que essa questão da idolatria é praticamente inevitável no futebol, pois ela envolve a paixão dos torcedores, que são marcados por seus heróis e vilões desportivos. Há de se exaltar essa aura mágica presente no futebol, mas também coibir as abordagens sobre o cotidiano desses ídolos quando elas ocupam o espaço prioritário de coberturas e discussões futebolísticas na grande mídia. É claro que a imprensa dará um sempre um grande enfoque sobre esses ídolos do futebol, pois eles não podem ser ignorados, tanto sob a perspectiva desportiva quanto midiática, que busca mais audiência. No entanto, transformar assuntos pessoais desses ídolos em notícias que se sobrepõem a outras informações estritamente esportivas não corresponde ao propósito da ação jornalística, que é dar prioridade ao interesse público.

De batom e com um discurso afiado que clama por igualdade de gênero no esporte, a rainha Marta é um excelente exemplo do bom uso da representatividade do ídolo para cobrar mudanças necessárias dentro e fora do esporte. Foto: Reuters
Artigos

As limitações da cobertura esportiva da Globo em campeonatos não transmitidos

No início deste mês, escrevi para a coluna da ReNEme (Rede Nordestina de Estudos em Mídia e Esporte) no Ludopédio sobre o fato de o Fantástico não ter dado a música para o atacante Gilberto, do Bahia, após ter feito 4 gols contra o Altos, em partida válida pela Copa do Nordeste.

Naquele texto optei por focar nas opções de transmissão da Liga do Nordeste para o torneio regional nos últimos anos, que não passava pela Globo. Neste, tratarei exclusivamente da cobertura esportiva do conglomerado comunicacional.

Fonte: Perfil da Copa do Nordeste no Instagram

Critérios de noticiabilidade

Quando se fala em “critérios de noticiabilidade” ao estudar ao que leva à transformação de determinado fato em acontecimento jornalístico, logo, sob mediação de profissionais, sintetizamos que não é notícia se “um cachorro morde um homem”, por ser algo corriqueiro. Apenas será se fugir do que deveria ser natural, ou seja, “quando um homem morde um cachorro”.

Mas também é necessário lembrar que, mesmo na segunda possibilidade, depende de quem era o homem, quem era o dono do cachorro e qual o local em que ocorreu. Dependendo ainda do nível de poder das pessoas envolvidas, até mesmo o como e o porquê podem ter versões a se apresentarem de formas diferentes – se é que só isso não baste para que o fato não se torne notícia.

A discussão sobre o entretenimento na cobertura esportiva é bastante realizada, mas é necessário destacar que as opções editoriais do jornalismo (esportivo) também passam por questões político-econômicas, com maior ou menor efeito no que é difundido.

Fonte: O Planeta TV – A Globo foi patrocinadora dos Jogos Rio 2016

Os negócios na transmissão de eventos esportivos

O século XXI é o que consolida no Brasil os efeitos da liderança do Grupo Globo na transmissão de eventos esportivos muitas vezes de forma isolada na TV aberta, gratuita, ou em plataformas midiáticas sob pagamento (Sportv e Premiere).

A forma incisiva de atuar no mercado ficou marcada especialmente no Campeonato Brasileiro da Série A. Além da construção das barreiras para transmiti-lo, a possibilidade de concorrência via licitação a partir do torneio de 2012 abriu espaço para um modelo de negociação individual, acabando com a “União dos Grandes Clubes do Brasil”, o Clube dos 13 – ver mais em Santos (2019).

Este processo não ocorreu sem estratégias de concorrentes para trazer para si o potencial de audiência deste tipo de programa. A Record tentou enfrentar a líder de mercado e, se não conseguiu sucesso com torneios de futebol importantes no final da década de 2000, adquiriu exclusividade para transmissão de Jogos Pan-Americanos e Jogos Olímpicos.

Anos mais tarde, o então Esporte Interativo, atual TNT Sports, conseguiu fechar contrato com alguns clubes para transmissão de jogos da Série A, em TV fechada, a partir da edição de 2019. Isso gerou alguns jogos sem transmissão e mudanças nas possibilidades de transmissões pelas plataformas do Grupo Globo.

Mas o que a Globo faz na sua cobertura esportiva, seja nos programas específicos (Globo Esporte e Esporte Espetacular) ou nos telejornalísticos gerais, para tratar de torneios que estão sendo transmitidos por concorrentes?

Sem veto, mas sem grande atenção

Eu me recordo de num Globo Esporte gerado de São Paulo no início da década de 2010, ainda apresentado por Thiago Leifert, de ele comentar que era opção editorial da Globo não tratar de eventos esportivos com direitos de outras emissoras – acredito que possa ter sido sobre vitória de piloto brasileiro nas 500 Milhas de Indianápolis, da Fórmula Indy, que tinha transmissão da Band.

A lógica era simples: não chamar a atenção para um produto que poderia levar a audiência da Globo, líder, para a outra emissora. Podemos dizer que um dos critérios de noticiabilidade para a cobertura esportiva era a difusão de conteúdo de propriedade da rede.

A venda de qualquer pacote de publicidade para torneios esportivos sempre contou com entrega da emissora em telejornalísticos generalistas. Os gols da rodada têm destaque, por exemplo, no Jornal Nacional e no Fantástico, mas com a vinheta do pacote “Futebol 2021” passando antes do bloco.

Enquanto líder, com audiência maior em outros momentos que na transmissão do jogo em si, por muito tempo isso foi uma barreira importante no mercado de TV: maior visibilidade das marcas envolvidas – ainda que com o contrapeso de não abrir espaço para as específicas de torneios, especialmente se concorrentes das parceiras do pacote.

Segundo Bolaño (2000), a mercadoria audiência é o foco da empresa de TV por ser principal fonte geradora de receitas, pois é ela que é vendida aos anunciantes a partir da publicidade. Assim, na concorrência com outros grupos econômicos, isso é considerado para a linha editorial.

O cenário mudou nos últimos anos. Por um lado, houve a necessidade de flexibilizar nas negociações com clubes pelos direitos da Série A a partir da edição de 2018, com concorrência numa das mídias.

Além disso, há alteração no perfil do conglomerado, seguindo para ser uma mediatech, com redução de custos e direcionamento melhor de investimentos – caso das mudanças de contratos com seu corpo de artistas. A pandemia da Covid-19 acentuou o processo de mudança, com a perda de transmissão de torneios para concorrentes.

Fonte: Reprodução do site RD1

Casos de 2021

Com toda a disputa do Flamengo com a Globo, os efeitos da Medida Provisória 984/2020 do governo federal sobre a transmissão do Campeonato Carioca fizeram com que a emissora deixasse de transmitir o estadual, que foi para a Record TV. Além disso, Flamengo e Fluminense também estão na Libertadores, torneio que passou ao SBT.

Tratarei aqui da minha experiência de quem recebe o Globo Esporte produzido para a rede a partir do Rio de Janeiro, após um primeiro bloco local (de Alagoas).

A cobertura sobre os times do estado segue no mesmo formato do mesmo período do ano passado, com reportagens sobre a preparação para os jogos do Carioca e da Libertadores e a repercussão deles. O que mudou é a logomarca de uma das concorrentes na tela ao tratar dos resultados – ainda que no Carioca a Globo tenha tentado usar apenas o crédito da agência responsável pelo torneio, a Sportsview.

Reproduziu em escala nacional o que acontece no local, com a cobertura esportiva seguindo de acordo com a atuação dos times do estado, independente se tem ou não o direito de transmitir os jogos ao vivo.

No caso da rede, ainda teve o percalço da paralisação do Campeonato Paulista por algumas semanas, ou seja, sem conteúdo considerado “nacional” de torneios que o grupo ou alguma de suas afiliadas podem transmitir – além dele, Catarinense, Gaúcho, Goiano, Mato-grossense, Mineiro e Pernambucano.

O que mudou foi na estratégia de programação para concorrer com os jogos ao vivo, ainda que as concorrentes tenham fugido dos horários tradicionais da Globo (quarta à noite e domingo à tarde).

Seguindo a definição de 5 tipos de estratégias de programação de TV elaborada por Brittos (2001), a Globo atuou com “contra-programação”. “A efetivação desta estratégia implica também em desprogramação, no sentido de alterar o horário e o conteúdo em si previamente anunciado, conforme as ações dos demais agentes” (BRITTOS, 2001, p. 158). Assim, a emissora buscou superar a concorrente com conteúdo de grande audiência, casos do reality-show Big Brother Brasil e da novela das 21h.

Enquanto isso, a Copa do Nordeste só apareceu, creio eu, para tratar do título do Bahia contra o Ceará. Por isso, escrevi no Ludopédio que “não há surpresa de um jogo de primeira fase da Copa do Nordeste, especialmente, não ter os gols reproduzidos”. Por isso também destaquei o “local”, mais acima, como um dos critérios, pois está presente no jornalismo que tem difusão nacional – e que merece bastante crítica.

Observar como os critérios de noticiabilidade são definidos é algo bastante interessante para quem se interessa em estudar a cobertura esportiva, considerando ainda que críticas mais diretas a torneios que determinada emissora transmite, mesmo nos telejornais generalistas, podem interferir no interesse do público em determinada competição e trazer prejuízos comerciais ao conglomerado comunicacional.

A atenção a possíveis limitações no que é, porque é e como é demonstrado, especialmente considerando as questões político-econômicas, é importante para não nos surpreendermos com omissões em coberturas midiáticas.

Referências

BOLAÑO, C. R. S. Indústria Cultural, Informação e Capitalismo. São Paulo: HUCITEC, 2000.

BRITTOS, V. C. Capitalismo contemporâneo, mercado brasileiro de televisão por assinatura e expansão transnacional. 2001. 425f. Tese (Doutorado) – Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Culturas Contemporâneas, Universidade Federal da Bahia – UFBA, Salvador, BA, 2001.

SANTOS, A. D. G. dos. A visibilidade midiática buscada e conquistada pela Copa do Nordeste. Ludopédio, São Paulo, v. 143, n. 7, 2021.

SANTOS, A. D. G. dos. Os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro de Futebol. Curitiba: Appris, 2019.

Artigos

Já está no ar o quarto episódio do Prorrogação

Sabe quando o jogo tá tão bom que a gente não quer que acabe? Pensando nisso, tivemos a ideia de criar um episódio complementar ao Passes e Impasses. Agora, toda vez que um tema render novas análises, você poderá se aprofundar ouvindo o Prorrogação.

Esta já é a quarta edição do Prorrogação, com conteúdo extra do episódio 33 do Passes e Impasses. O tema é “Técnicos no Brasil”. O programa foi apresentado por Mattheus Reis Leticia Quadros e o convidado da vez é o Filipe Mostaro, pós-doutorando em Comunicação pelo PPGCOM-UERJ.

Acesse lá o Prorrogação no Spotify*, Deezer*, Apple PodcastsPocketCastsOvercastGoogle PodcastRadioPublic e Anchor.

Equipe
Coordenação Geral: Ronaldo Helal
Direção: Fausto Amaro e Filipe Mostaro
Roteiro e produção: Leticia Quadros, Fausto Amaro e Carol Fontenelle
Edição de áudio: Leonardo Pereira (Audiolab)
Apresentação: Mattheus Reis e Leticia Quadros
Convidado: Filipe Mostaro

Artigos

Dizer não ao assédio também é um ato de resistência

Volta e meia assisto e ainda fico chocada com as cenas de violência que são exibidas nos noticiários locais. Constato com tristeza que de tão frequentes em grandes cidades como o Rio de Janeiro, crimes nas favelas envolvendo populações vulneráveis são banalizados, relegados ao lugar do comum. Em relação ao assédio sexual as coisas não são diferentes. Embora considerado crime pela Lei 10.224/2001, na prática, o tipo penal quase não é usado e os casos de assédio acabam sendo solucionados por outros ramos do ordenamento jurídico.

No ambiente de trabalho as histórias de assédio e impunidade se repetem. Segundo dados publicados pelo G1 de uma pesquisa feita pelo LinkedIn em parceria com a consultoria de inovação social Think Eva que, no fim do ano passado ouviu 414 profissionais de todo Brasil, quase metade das mulheres já sofreu algum assédio sexual no trabalho.

No último dia primeiro de abril, em uma atitude inédita, a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp) determinou  a perda temporária do mandato do deputado Fernando Cury (Cidadania) que, durante uma sessão extraordinária, vergonhosamente passou a mão no seio da deputada Isa Penna (PSOL). O futebol coleciona atitudes vexaminosas como a desse deputado.

Nos estádios, nos clubes e em ambientes tidos no passado como redutos masculinos, há anos jornalistas esportivas são desrespeitadas. E, por incrível que pareça, isso não surpreende com a frequência que deveria surpreender. Muitos assistem impassíveis às provocações e ouvem os coros nas arquibancadas dos estádios que repetem em alto e bom som xingamentos como “piranha, vagabunda, etc”. Como se o simples fato de trabalharem e, por que não, gostarem de futebol,  pudesse colocá-las num patamar de igualdade com as chamadas Marias-chuteiras, mulheres que se aproximam de jogadores de futebol com interesse em engatar um romance ou algum tipo de relação em troca de visibilidade ou vantagem financeira.

Vale lembrar que o próprio termo Maria-chuteira nasceu lá atrás impregnado de preconceitos machistas em relação à presença feminina nos estádios. Esse personagem carrega estereótipos que associam malícia e astúcia ao feminino.

Driblando o machismo estrutural

Mesmo depois do futebol ter perdido a fidalguia que levava apenas as mulheres das classes mais abastadas às arquibancadas, a presença feminina resistiu às interdições e está cada vez mais atuante nas torcidas dos estádios.  Mas nem mesmo lá, no espaço de quem olha, sente e vibra com o espetáculo do futebol elas estão livres de comportamentos masculinos inadequados. Tampouco as jornalistas esportivas.  Nos seus mais diferentes papéis, seja como repórteres, comentaristas ou narradoras elas também vivenciam no dia-a-dia esses comportamentos sexistas. Mesmo assim, não são todas que associam essas atitudes com preconceito em relação a participação da mulher no jornalismo esportivo.  É o caso, por exemplo, de Marluci Martins, que começou a cobrir futebol no início dos anos 90. Nessa época as entrevistas em vestiário eram comuns, o que não deixava nem a jornalista nem os jogadores à vontade.

Com seis copas do mundo no currículo, Marluci acredita que a estranheza e as dúvidas em relação a competência das mulheres eram motivadas pela quantidade reduzida de mulheres no jornalismo esportivo. Elas sempre tinham que provar alguma coisa.

 “Teve jogador entrando no meu quarto. Mas acho que isso não é nem preconceito, é outra coisa muito mais grave. Um assédio horroroso. Mas sempre compreendi que fui vítima disso tudo por ser uma das pioneiras. Naquela época a gente nem sabia que aquilo era preconceito. Hoje em dia a gente tem uma percepção muito maior desses fatos. Eu era muito nova e não gostava que duvidassem da minha competência. Queria provar que podia fazer como os homens faziam. Era um desafio pra mim.”

Marluci Martins

Marluci provou por diversas vezes que tinha competência para estar ali. Foram mais de 30 anos enfrentando cobranças em jornais populares como O Dia, Extra, O Globo e em programas dos canais por assinatura SporTV e Fox Sports.  Como conseguiu se impor e chegar aonde queria, não acha que foi vítima de preconceito. Ficava muito mais incomodada com fato de ser chamada para dar palestras sempre para falar de preconceito e nunca sobre temas como técnicas de reportagem e táticas de futebol, assuntos sobre os quais tinha pleno domínio.

Por ter trabalhado a maior parte da carreira em jornal, Marluci se livrou da terrível experiência de ouvir xingamentos entoados em coro pelo público no Maracanã e em outros estádios.  Como repórter de televisão, não tive a mesma sorte. Gostaria de pensar que esses foram ecos de um tempo que ficou para trás.  Mas, infelizmente, o que vivi no passado se repetiu muitas vezes com jornalistas que atuaram depois de mim e com as que estão hoje na linha de frente.

Fonte: Imagem enviada pela autora

A diferença é que atualmente a voz das jornalistas ecoam com mais força e rapidez. A consciência por parte das mulheres aumentou e elas hoje se  organizam em coletivos como o Jornalistas Contra o Assédio, criado no Facebook em 2016, e botam a boca no trombone para denunciar abusos em todos os espaços. As redes sociais ajudam a dar peso a essas denúncias.  Em 2015 a repórter do SporTV Gabriela Moreira, então na ESPN, fez um desabafo no Facebook depois de constatar com indignação o que na época ela chamou de licença poética para o machismo no futebol.

Depois de passar cinco anos como repórter policial, Gabriela não imaginou que enfrentaria preconceito de gênero justamente na editoria de esportes. Acostumada a ter chefes mulheres em outras editorias, Gabriela de cara se surpreendeu com a quantidade diminuta de mulheres em cargos de comando na editoria de esportes. Mas a surpresa maior viria depois.

Eu conheço o machismo de perto. Ontem pude sentir o bafo dele. Úmido, quente. Não pisquei o olho. Não me movi. Eu conheço o pior do ser humano e não é de hoje.

Na morte do Gaguinho, miliciano, grávida, vi a perícia levantar a pele que sobrava do rosto dele entre os 20 buracos de bala de fuzil do qual foi alvo. Ouvi de perto também os prantos da mãe de Matheus, que aos 4 anos fora morto no Complexo da Maré. Nas mãos da criança, uma moeda de R$ 1 que usaria para comprar pão. Os prantos da mãe de Matheus ainda não consigo esquecer.

Por ter visto o pior do ser humano de tão perto é que não me abalo quando vejo um machista pela frente. Ao contrário, respiro o mesmo ar que ele. De preferência, bem de perto. O machismo não se instala somente no futebol. É que aqui, ele ganha ares de licença poética.

 O machismo que vi na polícia e na política é o mesmo. Mas aqui, ele sai entre um “olê, olê, olá” e vez em quando, depois de um “Chupa”. Se o ouvinte é um homem, o “chupa” é “verbo” sem complemento. Para nós, mulheres, ele sempre vem acompanhado. E ontem, ele foi acompanhado de muitas coisas mais, durante muito tempo.

 “Você vai ver eu te chupando todinha, sua vagabunda”, foi um dos gritos que ouvi por longos 40 minutos. Gritado por dezenas de torcedores, na frente de pessoas com as quais me relaciono diariamente. Não pisquei, não desviei o olhar. Respirei bem de perto.

Para que entenda o machista que nem o ar que ele respira eu não posso ter. Nada terão eles que nós não possamos ter. Ouvir o que ouvi hoje é para os fortes. Falar o que disseram, não.

 Aos covardes, um aviso: essa luta já está perdida. Pelo filho que eu crio, que nós criamos. Pela força dos que estão porvir. Não tenham dúvida, esse título já é nosso!”

Gabriela Moreira (texto publicado pela jornalista no Facebook)

Segundo a jornalista, diferentemente da cobertura policial onde o machismo existe mas é velado pelo fato dos policiais saberem o que é crime e conduta imprópria, no esporte o assédio ainda é  normal e, o que é pior, existe uma omissão por parte dos próprios colegas jornalistas. Chegou a essa constatação na época da publicação do desabafo acima, depois de ser agredida por torcedores com palavras obscenas na final da Copa do Brasil entre Palmeiras e Santos, em 2015.

O preconceito, não apenas o de gênero, está de tal forma entranhado na nossa sociedade, que muitas vezes o teor sexista de determinadas ações passa despercebido. Para Marluci as mulheres estão dando um show de competência no jornalismo esportivo. Ela não sente que haja mais qualquer diferença nem na forma como o trabalho delas é feito nem recebido. Mas, num ato falho, repetiu: “Tem gente que fala assim: elas estão fazendo jornalismo como homem.” Riu e, depois, emendou:  “Frase preconceituosa, né? Elas fazem como homem fazia antigamente. Hoje em dia é normal.”

Referências bibliográficas

COSTA, Leda M da. Marias-chuteiras x  torcedoras “autênticas”. Identidade feminina e futebol, Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro – APERJ

Notícias

Vaga de estágio no Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte

O LEME – Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte – está selecionando um bolsista de iniciação científica para início em primeiro de junho (01/06). O laboratório, fundado em 2014, na Faculdade de Comunicação Social da UERJ, trabalha com atividade de ensino, pesquisa e extensão na área dos estudos sociais do esporte.

O bolsista estará diretamente envolvido nas demandas do LEME, que incluem: 

a) participar das reuniões on-line do grupo de pesquisa “Esporte e Cultura”;

b) revisar textos de artigos e livros quando for preciso;

c) desenvolver, caso tenha interesse, alguma pesquisa própria (com o auxílio dos pesquisadores do grupo);

d) prestar auxílio na organização de eventos (palestras, seminários, lançamentos de livro);

e) elaborar as artes para as redes sociais do laboratório;

f) roteirizar e produzir os episódios do podcast Passes & Impasses;

g) editorar o blog do LEME (comunicacaoeesporte.com);

h) monitorar as redes sociais e produzir o relatório de presença on-line do laboratório.

As atividades são supervisionadas pelo coordenador do laboratório, Ronaldo Helal, e pelos bolsistas Qualitec e Proatec.

O valor da bolsa é de R$ 500,00. É exigido o cumprimento de 20 horas semanais de estágio (flexíveis de acordo com a grade curricular do(a) bolsista). Para se candidatar à vaga, é necessário ser aluno(a) de Relações Públicas ou Jornalismo na UERJ. Buscamos um aluno(a) que tenha iniciativa, vontade de desenvolver novas habilidades, goste de esportes e escreva muito bem.

Os interessados devem enviar e-mail com currículo anexado até o dia 19 de maio para o endereço: lemeuerj@gmail.com. O processo seletivo será todo on-line e consistirá em triagem curricular, prova escrita (redação) e entrevista em datas a ser definidas.

Produção audiovisual

Já está no ar o trigésimo terceiro episódio do Passes e Impasses

Acesse o mais novo episódio do podcast Passes e Impasses no Spotify*, Deezer*, Apple PodcastsPocketCastsOvercastGoogle PodcastRadioPublic e Anchor.

O tema do nosso trigésimo terceiro episódio é “Técnicos no Brasil”. Com apresentação de Mattheus Reis e Leticia Quadros, gravamos remotamente com Filipe Mostaro, pós-doutorando em Comunicação pelo PPGCOM-UERJ, e Tim Vickery, jornalista inglês e correspondente de futebol sul-americano da BBC Sport.

O podcast Passes e Impasses é uma produção do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte em parceria com o Laboratório de Áudio da UERJ (Audiolab). O objetivo do podcast é trazer uma opinião reflexiva sobre o esporte em todos os episódios, com uma leitura aprofundada sobre diferentes assuntos em voga no cenário esportivo nacional e internacional. Para isso, contamos sempre com especialistas para debater conosco os tópicos de cada programa.

Você ama esporte e quer acessar um conteúdo exclusivo, feito por quem realmente pesquisa o esporte? Então não deixe de ouvir o trigésimo terceiro episódio do Passes & Impasses.

No quadro “Toca a Letra”, a música escolhida foi “Camisa 10“, canção composta por Hélio Matheus e Luiz Vagner e gravada na voz de Luiz Americo

Passes e Impasses é o podcast que traz para você que nos acompanha o esporte como você nunca ouviu.

Ondas do LEME (recomendações de artigos, livros e outras produções):

The Football World: a contemporary social history – Stephen Wagg [livro]

The Football Manager: A History – Neil Carter [livro]

A nova razão do mundo – Christian Laval [livro]

Psicopolítica: o neoliberalismo e as novas técnicas de poder – Byung Chul-Han [livro]

Song For My Father – Horace Silver [música/jazz]

O rei do mundo: Muhammad Ali e a ascensão de um herói americano – David Remnick [livro]

Equipe

Coordenação Geral: Ronaldo Helal
Direção: Fausto Amaro e Filipe Mostaro
Roteiro e produção: Leticia Quadros, Fausto Amaro e Carol Fontenelle
Edição de áudio: Leonardo Pereira (Audiolab)
Apresentação: Mattheus Reis e Leticia Quadros
Convidado: Filipe Mostaro e Tim Vickery

Artigos

O sócio-torcedor é mais uma vítima do coronavírus

A pandemia de Covid-19 afetou diferentes setores da sociedade, mas se tem um lado que saiu prejudicado, acima de qualquer questão clubística, foi o do torcedor. Os apaixonados por futebol tiveram e ainda têm de enfrentar diversas situações adversas no meio futebolístico, tais como: a paralisação dos jogos, o calendário completamente modificado, os jogos sem torcida, entre outros.

Com esse “sumiço” do torcedor das arquibancadas, porém, fez-se perceber a importância e a valorização deles pelos clubes. Segundo Caio Henrique Arcebispo, advogado e autor do artigo “O futuro do sócio torcedor e os impactos financeiros causados aos clubes em tempo de pandemia”, 16% de toda receita que gira em torno do futebol vem dos torcedores; seja por meio dos programas de sócio ou das bilheterias. De forma geral, os clubes já haviam enxergado a importância de um bom plano de sócio-torcedor e a fidelização dos mesmos e, com a pandemia, isso ficou ainda mais evidente.

Atualmente, com os jogos sem torcida e, consequentemente sem o dinheiro de bilheteria, os sócios se tornaram uma das principais fontes de receitas e as que mais geram benefícios para as instituições e para os próprios torcedores que resolvem se filiar ao time de coração. Com a pandemia, o torcedor se viu diante de um dilema: pagar ou não o sócio-torcedor?

Por conta do vírus que se espalhou pelo mundo todo, a população carioca teve que renunciar a tudo aquilo que considerava “supérfluo” em seus gastos mensais e, com isso, a quantidade de sócios-torcedores caiu drasticamente em alguns clubes. Neste texto, analiso como os quatro clubes grandes do Rio de Janeiro foram afetados neste período.

O Clube de Regatas do Flamengo, em 2019, ano em que foi considerado “mágico” para os torcedores rubro-negros, pelos títulos conquistados, teve bons frutos não só dentro de campo, mas fora dele também. O clube chegou a expressiva marca de cento e cinquenta mil apaixonados. No início de 2020, o Fla manteve sua boa performance e contabilizava cento e vinte e cinco mil sócios (queda de cerca de 16,6% em relação ao ano anterior). Por ter os planos de sócios-torcedores mais caros entre os quatro grandes, os valores pesaram no bolso do torcedor durante a pandemia e, com isso, o clube viu seu contador de sócios diminuir sensivelmente, uma queda brusca. Até o momento em que escrevo este texto (cinco de maio de 2021), de acordo com o próprio contador do clube (imagem abaixo), são cinquenta e seis mil quinhentos e setenta e seis sócios. Se comparada ao início de 2019, o clube teve a desassociação de cerca de noventa e três mil sócios – uma perda de aproximadamente 62,28.

Fonte: https://www.nrnoficial.com.br/

O Clube de Regatas Vasco da Gama também experimentou uma diminuição acentuada em seu número de sócios-torcedores, de acordo com o UOL esportes – entre o começo de 2020 e abril deste ano, o cruzmaltino perdeu cerca de cento e quatro mil torcedores. Em novembro e dezembro de 2019, o clube ganhou destaque nas páginas esportivas pela sua ação de associação em massa, alcançando a marca de cento e setenta e nove mil associados. Com isso, na época, o Gigante da Colina tornou-se o clube brasileiro com mais associados e um dos maiores do mundo. Atualmente, o contador teve uma brusca queda para setenta e quatro mil quinhentos e dois sócios-torcedores. Acredita-se que a diminuição de filiados tenha se dado pela queda do clube para a série B e pela participação considerada negativa no Campeonato Carioca.

O Fluminense Football Club, de acordo com o site Terra, foi o segundo clube a ganhar mais sócios na pandemia. Grande parte disso se deu por conta de uma campanha denominada “#ÉPeloFlu”, idealizada pelos torcedores tricolores e que tomou conta das redes sociais. A campanha consistia justamente na valorização do torcedor do clube, concedendo benefícios extras, além dos que já possuíam. para quem se filiasse na época do lançamento da campanha e destacando como a renda dos sócios-torcedores ajudaria o clube naquele momento. O resultado da campanha foi bastante positiva. Na época, o então presidente Mário Bittencourt destacou que a cada sócio perdido três novos eram conquistados.

No início de 2020, o tricolor das Laranjeiras tinha cerca de vinte e três mil sócios contabilizados. Após a campanha, o retorno de Fred, um dos ídolos do clube, e a volta do clube à Libertadores da América, a instituição conta, nos dias atuais, com trinta e dois mil e cinco sócios adimplentes. Se comparado aos rivais, o Flumiense tem um saldo positivo na contagem de sócios, já que foi um dos poucos clubes a ganhar um número significativo de novos associados do começo da pandemia até agora.

O Botafogo de Futebol e Regatas, em fevereiro de 2020, alcançou a marca de trinta mil sócios, muitos deles por conta da chegada animadora do japonês Keisuke Honda ao clube de General Severiano. Após essa comemorada contratação, o alvinegro viu o marcador cair para cerca de vinte e cinco mil sócios. Mesmo depois do rebaixamento do clube para série B e a precoce saída da Copa do Brasil, o contador do clube diminui, não tão drasticamente e, alcançou à marca de vinte e um mil sócios torcedores. No momento atual, o clube encontra-se com dezenove mil setecentos e trinta sócios.


Fonte: https://soubotafogo.bfr.com.br/#/publico/home

A pandemia afetou todos os setores da sociedade brasileira, principalmente, na diminuição de renda de diversas famílias. Com isso, o torcedor carioca se viu, muitas das vezes, dividido entre continuar ajudando seu clube de coração ou manter suas obrigações financeiras domésticas. Com o aumento da inflação e a consequente alta dos preços nos mercados e nas contas de serviços básicos, a dúvida tornou-se um dilema desleal para qualquer pessoa. Como podemos observar, muitos optaram pela segunda alternativa, mas a paixão pelo clube não diminui, é claro, sendo você sócio ou não. Dinheiro nenhum no mundo pode calcular o amor e a fidelidade de um torcedor ao seu clube de coração, seja ele qual for.

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Centro de Estudos Olímpicos e Paralímpicos da UFRGS promove evento sobre esporte paralímpico

Com objetivo de proporcionar o debate e a reflexão sobre a gestão do esporte paralímpico, o Centro de Estudos Olímpicos e Paralímpicos da Universidade Federal do Rio Grande está organizando o I Ciclo de Palestras – Desafios da Gestão do Esporte Paralímpico. O evento gratuito conta com a emissão de certificado e terá oito encontros, que acontecerão nos dias: 18 e 25 de maio, 01, 08, 15, 22 e 29 de junho e 06 de julho,

Dentro do tema dos desafios da gestão do esporte paralímpico, o foco das palestras serão as organizações esportivas, as entidades governamentais e as organizações do terceiro setor. Ao todo serão mais de 40 convidados entre atletas, gestores, secretários e presidentes de importantes associações nacionais e internacionais. Nomes como: Andrew Parsons, presidente do International Paralympic Committee; Yohansson do Nascimento Ferreira, vice-presidente do Comitê Paralímpico Brasileiro; Eliane Miranda, diretora da Associação Desportiva para Deficientes e Edênia Garcia, atleta de Natação Paralímpica, estarão presentes no evento.

Todas as palestras serão transmitidas pelo canal no YouTube do Programa de Pós-Graduação em Ciências do Movimento Humano, nas datas indicadas, das 18:30 às 22h. O evento contará com emissão de certificado, mediante controle de frequência. O Ciclo de Palestras faz parte das atividades comemorativas dos 80 anos da Escola de Educação Física, Fisioterapia e Dança e dos 20 anos Centro de Estudos Olímpicos e Paralímpicos da UFRGS. O evento conta com o apoio da FADERS (Fundação de Articulação e Desenvolvimento de Políticas Públicas para Pessoas com Deficiência e com Altas Habilidades no Rio Grande do Sul) e da Associação Esporte+. Para acessar a programação completa, clique aqui.

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As suecas: uma conquista feminina do mundo esportivo masculino

Por David M.K. Sheinin* e César Torres**

Como sempre, no âmbito do Turismo de Autoestrada (Turismo de Carretera – TC), o Grande Prêmio Standard de 1962 produziu triunfos heroicos e decepções profundas. Apesar das famosas marcas estadunidenses Ford e Chevy desaparecerem na rota Pilar-Villa Carlos Paz, o grande condutor Jorge Cupeiro conseguiu um tempo digno em sua Pontiac. Com uma velocidade média de 121 km/hora, Ricardo “O Gordo” Sauze – vestido de bombacha e tênis – liderou um trio de Alfa Romeos Giulietta TI que encabeçaram a categoria “D” do evento. Por sua vez, Gastón Perkin pilotou sua Renault Gordini a 150 km/hora nas partes retas da estrada, ganhando a primeira etapa da competição. Mas a grande surpresa do evento foi a vitória geral de duas mulheres suecas, Ewy Rosqvist e Ursula Wirth.

O TC era, e ainda segue sendo, um mundo de homens, onde se forja e se reproduz a identidade social masculina. Milhares de fanáticos seguiam cada corrida, à beira da estrada ou em suas casas, por meio das famosas transmissões de rádio do jornalista Luis Elías Sojit, nas páginas do El Gráfico e no El Deporte es Así, do Canal 7, com Dante Panzeri, Ernesto Lazzatti, Raúl Goro e Ulises Barrera, e outros programas de televisão. O TC associou a masculinidade argentina com o trabalho mecânico, o perigo da rota e o heroísmo do condutor. Em 1947, quando o carro de Juan Manuel Frangio capotou durante o Grande Prêmio da América do Sul (mais conhecido como “O Buenos Aires-Caracas”), seu acompanhante Daniel Urrutia morreu tragicamente. Pedro Fangio saiu do acidente caminhando ileso e sua coragem confirmava sua lenda quase mítica.

Juan M. Fangio e Daniel Urrutia (Foto: http://www.jmfangio.org)

Mais que qualquer outro piloto, os irmãos Emiliozzi, Dante e Torcuato, definiram o arquétipo do homem do TC. Competidores ferozes, durante a semana trabalhavam em sua oficina de Olavarría, fazendo milagres mecânicos. Aos seus seguidores, lhes fascinava a imagem de uma oficina onde os irmãos mergulhavam sob o capô, despretensiosamente, dando as boas-vindas a qualquer visitante interessado nas reformas mecânicas mais recentes, às vezes comendo um assado com amigos. Todo fanático sabe que, em 1949, os irmãos adaptaram um motor Ford a um novo sistema de válvulas aéreas – cinco anos antes da Ford desenvolver um modelo parecido. Em 1958, durante uma corrida na cidade de Mercedes, entrando em uma curva com uma velocidade muito alta, os pilotos capotaram o carro. Um grupo de fãs tentaram ajudar Dante, mas acabaram prejudicando sua coluna vertebral. Enquanto Torcuato sofreu apenas ferimentos leves, um médico local o vacinou contra tétano, uma doença comum das fazendas de porcos da região. O acidente contribuiu para consagrar os Emiliozzi como pilotos valentes nas memórias dos fãs.

Os irmãos Emililozzi (Foto: Facebook Museo Municipal Hermanos Emiliozzi)

O mundo masculino do TC foi abalado em 1962 pela chegada das pilotas suecas, cujas trajetórias automobilísticas eram praticamente desconhecidas na Argentina. Suas passagens pelo rali europeu haviam sido breves. Em meados dos anos cinquenta, tanto Rosqvist como Wirth trabalharam como ajudantes veterinárias em diferentes zonas rurais da Suécia. Cada uma gostava de dirigir as longas distâncias entre as granjas. As duas começaram a competir em rali e em 1960 formaram uma equipe. Nesse mesmo ano, Rosqyst firmou cum contrato para dirigir carros Volvo e, em 1962, mudou para a equipe Mercedes-Benz, a qual representou com Wirth na Argentina, pilotando um modelo 220-SE. Foram o primeiro binômio feminino que competiu em um Grande Prêmio argentino. Inesperadamente, para os fãs argentinos, elas não apenas ganharam, como dominaram a competição com uma marca de carros quase desconhecida no mundo do TC. Ganharam em cada uma das seis etapas da rota contra condutores como Cupeiro e Perkins e com um novo recorde de velocidade média na estrada (127 km/hora). Anos mais tarde, ambos os corredores [Cupeiro e Perkins] participaram nas 84 horas de Nürburgring, formando parte da famosa “Missão Argentina” dirigida pelo designer de carros Oreste Berta. Com sua vitória, Rosqvist e Wirth romperam a aura masculina do TC, ainda que apenas momentaneamente, chamando atenção da mídia argentina.

Ewy Rosqvist com uma Ferrari, 1957

As duas condutoras suecas não foram as primeiras esportistas celebradas na Argentina. Por exemplo, nos anos vinte, a nadadora Lilian Harrison foi seis vezes capa do El Gráfico por suas proezas aquáticas. Nos anos trinta, Jeannette Campbell (natação) e Lotte Standl (atletismo), entre outras, também foram capa desse jornal. Em 1951, a mídia argentina exaltou o desempenho das tenistas Mary Terán de Weiss (campeã no torneio individual) e Felisa Piédrola de Zppa (ganhadora do torneio de duplas junto com Mary) nos Jogos Panamericanos. No ano seguinte, tomaram nota da morte de Edith Noble, capitã da equipe de hóquei sobre grama do Club Atlético Belgrano. Em 1953, Ana María Festal ganhou três eventos no campeonato nacional de natação e, em 1959, a revista Mundo Deportivo ressaltou os “vários recordes” da nadadora Silvia Hofmeister. Entretanto, nas páginas do Mundo Deportivo, El Gráfico, as revistas de temas gerais e os jornais, as imagens mais comuns de mulheres não foram de atletas, mas sim de modelos, atrizes e cantoras – como Elder Barber ou Olinda Bozán. Quando eram mencionadas, não era raro que as esportistas recebessem comentários sexualizados. Dessa maneira, Terán de Weiss triunfou, mas em uma categoria feminina. Noble era “magra, loira, veloz”. Brillaba, segundo El Gráfico, por sua personalidade “simpática e bondosa” e por “seu rosto suave, com sorriso terno, sua figura ágil e graciosa, seu modo de ser tão cativante”. As quatro linhas sobre Hofmeister no Mundo Deportivo apareceram abaixo de uma foto da nadadora em traje de banho. A imagem ocupou quase uma página inteira.

El Gráfico, 31 de outubro, 1962

A conquista automobilística de Rosqvist e Wirth não teve precedentes no mundo masculino do esporte argentino. Na Suécia e em outros países europeus, a maioria dos meios de comunicação trivializaram a vitória com comentários sobre a beleza. “Anjas da Estrada”, anunciou The Irish Times, por exemplo. Mas na Argentina muitos jornais qualificaram as campeãs sem prestar maior atenção aos termos padrões para escrever sobre as mulheres no esporte. Ou seja, analisaram o desempenho das corredoras nórdicas focalizando em seus méritos esportivos. Assim, o jornalista Federico B. Kirbus escreveu nas páginas do El Gráfico que Rosqvist e Wirth “conduziram com firmeza e decisão” e que “dominam seu esporte à perfeição”, agregando que a vitória das condutoras suecas foi “um triunfo absoluto”.

Apesar do triunfo absoluto de Rosqvist e Wirth no Grande Premio Standard de 1962 do TC e da atenção que gerou, o progresso em termos de igualdade de gênero tem sido lento no automobilismo argentino. Tamara Vital, fundadora e chefa da equipe Vitarti da categoria Top Race Junior, a primeira formada integralmente por mulheres e que estreou faz poucas semanas, explica essa situação. “Na atualidade, são mais de 150 mulheres correndo em todo o país”, mas somente “há dois anos vem se notando cada vez mais forte a presença da mulher no automobilismo”. Aixa Franke, uma dessas pilotas, declarou que ainda existem homens que “se ofendem quando ela ganha”. O triunfo absoluto de Rosqvist e Wirth, de sessenta anos atrás, será ainda mais absoluto quando essa atitude for banida do automobilismo nacional e as mulheres forem incorporadas integralmente na atividade em condições de igualdade e respeito sincero.


Texto originalmente publicado no site El Furgón no dia 22 de abril de 2021

*David M.K. Sheinin. Doutor em História. Docente na Universidade de Trent.

**César Torres. Doutor em Filosofia e História do Esporte. Docente na Universidade do Estado de Nova York (Brockport).

Tradução: Leticia Quadros e Fausto Amaro