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O “GreNal das Américas” e outros grenais históricos, heróicos e dramáticos

No dia 12 de março, quinze dias depois de confirmado o primeiro caso de coronavírus no Brasil, eu assistia o GreNal 424 num bar tomado por colorados em Florianópolis, o que hoje configuraria um bando de suicidas literalmente morrendo pelo seu time. Embora muitos gaúchos gostem de acreditar que Porto Alegre é a melhor cidade do mundo, a costa do Rio Grande não é assim tão atrativa. Então, eles esticam o passo até Santa Catarina e fazem morada nas belas praias da ilha. Eu também não sou daqui nem sou gaúcha, mas simpatizo com o Inter e não dispenso uma cerveja gelada, por isso estava no bar naquela noite.

Em menos de dez minutos de partida, já tinha jogador trocando farpa dentro de campo porque o juiz argentino Fernando Rapallini paralisou o lance e mesmo assim insistiram na jogada. Como já era de se esperar, os comentaristas de boteco (e os da transmissão – que, importante ressaltar, estava sob os direitos do Facebook) iniciaram suas análises, pouco táticas e bastante infladas, que remetiam claramente àquele típico imaginário do gaúcho como um produto das guerras: “Partiu pra cima dele!”, “Já começou a pegar fogo”, “GreNal é GreNal”, “Aqui é na raça”. Alguém mais generalista dizia: “Libertadores é isso!”, aludindo ao clima dramático de tango argentino que normalmente envolve o campeonato sul-americano.

O dramatismo portenho, vale lembrar, respinga nas páginas dos cadernos esportivos do Rio Grande do Sul não só pela relativa proximidade geográfica do estado com a Argentina (que tem os dois maiores campeões do torneio), mas também porque, conforme denota o estereótipo, o gaúcho adora exagerar. E o que são oito expulsões em um jogo de futebol senão um exagero? O simples fato de enumerar um GreNal também me soa um tanto hiperbólico, pois eu desconheço outro clássico que seja demarcado por um número, pelo menos aqui no Brasil.

Fonte: gauchazh

A pancadaria generalizada e o excesso de cartões vermelhos do GreNal 424 – que já no sorteio dos grupos caiu nas graças da imprensa como o “GreNal das Américas” – só não foi páreo para o que ocorreu em 1971, num confronto entre Boca Juniors x Sporting Cristal, que resultou em 19 expulsões ordenadas pelo árbitro colombiano Alejandro Otero, número recorde na história da Libertadores. No histórico dos amistosos, por sua vez, Grêmio e Inter muito provavelmente ocupam o primeiro lugar do pódio: foram 20 expulsões no GreNal 189, jogo comemorativo pela inauguração do Beira-Rio. O estádio já havia sido inaugurado oficialmente, no dia 6 de abril de 1969, em jogos da dupla contra outros adversários. O batismo, porém, só se confirmaria com um GreNal, como manda o culto à tradição.

O enredo deste clássico está destrinchado no livro a “História dos Grenais” (2009), escrito pelos jornalistas David Coimbra, Nico Noronha, Mário Marcos de Souza e Carlos André Moreira, todos ícones da imprensa gaúcha e, portanto, acostumados com essa ideia de trazer elementos teatrais para o jornalismo – a despeito das implicações deontológicas que isso possa levantar. O confronto que batizou o Beira-Rio estava tomado por um ar de revanche. Afinal, à época da inauguração do Olímpico em 1954, os colorados venceram os gremistas, carimbando a faixa de abertura da casa tricolor. Os autores contam que o fascículo nº 4 da História Ilustrada do Grêmio dedicou minúsculas três linhas para descrever aquele GreNal de número 135, sem sequer registrar o placar de 6 x 2 para o Inter.

Por isso, no amistoso de 1969, a intenção dos tricolores era dar o troco na mesma moeda, vencendo o Internacional em seu novo domínio. “Os gremistas esperavam por essa partida como um presidiário anseia pelo indulto de Natal. Queriam vingança por uma humilhação de 15 anos de idade.” (COIMBRA et al., 2009, p. 140). Se o placar de 6 x 2 do primeiro GreNal do Olímpico foi humilhante para o Grêmio, o clássico de inauguração do Beira-Rio seria vergonhoso para ambos: um 0 x 0 acompanhado de 20 expulsões e múltiplos socos, voadoras e pontapés. Restaram imunes somente o meia colorado Dorinho e o goleiro tricolor Alberto. Este tentava em vão pedir paz ao uruguaio Urruzmendi, que entrara em campo aos 37 minutos da etapa complementar, ainda em tempo de ser o pivô da barbárie:

O Inter começou melhor. Pontes e Valmir, atrás, controlavam bem as investidas impetuosas de Alcindo e Volmir. No meio, Bráulio tocava a bola com maciez e fazia a torcida colorada suspirar numa voz só. O Grêmio reagiu com dureza. O Inter replicou jogando ainda mais duro. A tréplica do Grêmio veio no bico da chuteira. Até que o ponteiro Hélio Pires foi expulso aos sete minutos do segundo tempo. Chuteira contra canela, cotovelo contra nariz, o jogo prosseguiu sem que se desse muita atenção à bola. Objeto, aliás, definitivamente esquecido aos 83 minutos. O goleiro Alberto estava com a dita cuja nas mãos. O lateral Espinosa à sua frente. Urruzmendi, ponteiro do Inter, correu do risco da grande área em direção aos dois, numa evidente e perigosa rota de colisão. Espinosa deu-lhe as costas para proteger o goleiro. Urruzmendi não quis nem saber. Atropelou Espinosa como se fosse um ônibus da Carris desgovernado. Espinosa caiu. Assustado com o abalroamento, Alberto atirou a bola pela linha lateral para que ele fosse atendido. A bola não foi mais vista em campo desde então. Tupãozinho desembestou do meio de campo e só parou quando atingiu Urruzmendi. Que revidou. Lá do meio também vinha, desabalado, o Bugre Xucro, bufando e urrando, louco para entrar na briga, justificando plenamente o apelido. Percebendo suas intenções belicosas, Sadi correu atrás dele, agredindo-o pelo caminho. Alcindo não ligou para o ataque do lateral do Inter. Continuou a carreira e só parou ao encontrar Urruzmendi e pespegar-lhe um rotundo soco no rosto. Urruzmendi não se fez de rogado e retribuiu a agressão. Apesar de lutar como um espartano, estava em desvantagem numérica e apanhava comoventemente dos gremistas. A sétima cavalaria, entretanto, não tardou. O goleiro Gainete atravessou o gramado em linha reta, veloz, demonstrando invejável preparo físico, e saltou feito um leopardo sobre o bolo de jogadores, as pernas e os braços abertos. Mas errou o bote e caiu no meio dos gremistas. Levou porrada de todos, democraticamente. A esta altura, os integrantes dos dois bancos de reservas já estavam em campo, distribuindo e recebendo, igualmente, jabs, diretos e pés-na-orelha. (COIMBRA et al., 2009, p. 141-142).

Quando a confusão terminou, o Inter ainda aguardava o reinício do jogo sem saber que 10 de seus jogadores haviam sido expulsos. Na saída de campo, Gainete, o goleiro colorado, respondia convicto às perguntas dos repórteres: “aqui nós é que vamos cantar de galo!” (COIMBRA et al., 2009, p. 142). A diferença entre o GreNal “amistoso” de 1969 e o que ocorreu 51 anos depois – além do número de cartões vermelhos que caiu de 20 para 8 – é o fato de este ter sido um clássico válido pela Libertadores, algo até então inédito na história dos dois rivais centenários. Pelo Campeonato Brasileiro, contudo, Grêmio e Inter já haviam se enfrentado, valendo vaga na final de 1988 e também um passaporte para a Libertadores do ano seguinte. Seria o GreNal 297 ou, nos termos do jornalismo esportivo gaúcho, o GreNal do Século.

Fonte: inter-noticia

Na edição de 1988, a disputa das fases finais do Brasileiro se estendeu pelo ano seguinte. Grêmio e Inter empataram em 0 a 0 no jogo de ida, no Olímpico, e a decisão seria três dias depois, no Beira-Rio. O Grêmio saiu na frente e tinha um jogador a mais em campo, pois Casemiro havia sido expulso (naquela que, pasmem, foi a única expulsão da partida). O técnico Abel Braga – que anos depois seria campeão da Libertadores e do Mundial pelo Inter – decidiu ousar, contrariando a mística da “escola gaúcha de futebol” e mandando o time para o ataque. Deu certo. Mais de 80 mil pessoas assistiram à virada dos colorados com dois gols de Nílson Esídio, uma figura também muito afeita à dramaturgia.

Nílson vibrou de forma estranha, caminhando desengonçado, trêmulo. Mais tarde explicaria que estava imitando Sassá Mutema, o personagem que Lima Duarte interpretava na novela do momento, “Salvador da Pátria”, na Globo. Explicou também que a faixa em seu joelho direito era apenas uma forma de enganar os rudes zagueiros adversários. – O problema que eu tinha era no tornozelo esquerdo e eles deram porrada na minha perna direita a tarde inteira. (COIMBRA et al., 2009, p. 214).

O Inter ganhou o “Grenal do Século”, no entanto, perdeu o título brasileiro para o Bahia e, naquele mesmo ano, ainda veria o Grêmio levar sua primeira Copa do Brasil, sobre o Sport Club do Recife. Na semifinal da Libertadores, nova baixa: o Internacional jogava pelo empate, mas foi eliminado em casa pelo Olímpia do Paraguai. “Nílson ‘Sassá Mutema’ Esídio desperdiçou um pênalti e teve de deixar o Beira-Rio na madrugada, às escondidas, como um criminoso, pois os mesmos colorados que o haviam carregado nos ombros, agora queriam surrá-lo.” (COIMBRA et al., 2009, p. 215-216).

O GreNal das Américas ocorrido em março de 2020 reforça aquilo que sabemos: que a história dos GreNais é uma incansável disputa para um desbancar o outro – ainda que um não viva sem o outro. Incansável porque vem se repetindo ao longo das décadas numa retórica bem freudiana, em que o irmão mais novo tenta a todo custo superar o mais velho. E, quando assim o faz, o mais velho fica tomado pelo mesmo sentimento de vingança. O GreNal 235, por exemplo, serviu para o Grêmio se vingar da hegemonia dos colorados que, ao longo da década de 1970, somavam oito Campeonatos Estaduais e três Brasileiros no currículo. Com Figueroa, Falcão, Carpegiani e companhia, era um time praticamente imbatível. “O Inter alcançara o topo. E, do topo, o próximo caminho só podia ser lomba abaixo, como se veria em 1977.” (COIMBRA et al., 2009, p. 184).

Em 1977, inclusive, a casa do Grêmio já não era como em 1954. No início da década de 1970, enquanto os vermelhos passavam por cima dos azuis no gramado, nas arquibancadas bradava o grito tricolor com a notícia da ampliação de seu estádio – que agora ganharia o sobrenome Monumental. Tudo isso para fazer páreo ao prodígio Beira-Rio, que roubara do Olímpico a faixa de maior estádio particular do mundo. Se a nova casa do Inter contou com 100 mil torcedores em seu jogo de estreia, estava decidido: seria essa a capacidade do novo Olímpico. Curioso que, em 1954, quando o Grêmio mudou-se do Moinhos de Vento para a Azenha, o domínio dentro de campo também era colorado, sob a remanescente figura do “rolinho” compressor. Com o estádio erguido, a hegemonia mudou de lado. Quinze anos depois, esse enredo se repetiria: o Inter dominando 70 com o octa do Estadual e o tri do Brasileiro e o Grêmio confabulando um novo Olímpico que ficaria pronto no início dos anos 1980. O Monumental inauguraria consigo uma outra década azul para abrigar os títulos mais importantes da história tricolor: Brasileiro, Libertadores e Mundial.

A arrancada começou justamente na final do Gauchão de 1977, ocasião em que o Olímpico recebeu a ilustre visita do músico Gilberto Gil que, embora torcesse para o tricolor baiano, dizia simpatizar-se também com o tricolor gaúcho, pois, nas palavras dele, o Grêmio tem o azul do céu, o branco da paz e o preto, que é a sua cor. Gil era amigo do atacante gremista André Catimba, que foi o personagem principal daquele episódio. Após marcar o gol do título, Catimba, apesar da ginga de capoeirista, se atrapalhou para comemorar o tento e acabou caindo de cara no chão: “eu fiquei tão emocionado naquela tarde que não sabia como expressar. Pensei em dar o salto mortal, desisti, mas já estava no ar quando voltei atrás. Era tarde. Me machuquei todo.” (COIMBRA et al., 2009, p. 186).

Fonte: gauchazh

Tamanha empolgação era por ter freado uma conquista épica do adversário, pois, caso o Inter levantasse aquele caneco, emendaria uma série de nove títulos estaduais, feito que até hoje nenhum dos dois conseguiu alcançar. No vestiário, Catimba ainda receberia os cumprimentos do velho amigo de Salvador. “Gil falou alto, em meio à algazarra: ‘Já estava na hora, não é? Tomara que agora o Grêmio ganhe por dez anos consecutivos’.” (COIMBRA et al., 2009, p. 186). Outro músico que também destaca aquela conquista de 1977 é o gremista Humberto Gessinger, ex-líder dos Engenheiros do Hawaii. Convicto e superlativo, ele ressalta em seu livro de crônicas:

Futebol é uma bobagem, né? […] Um dos grenais de que me lembro com mais carinho foi o de 1977. Ganhamos por 1 a 0, quebrando uma série de 123 anos correndo atrás. Meu pai estava internado num hospital perto do Estádio Olímpico. No fim do jogo, assisti, pela janela do quarto, à caravana das bandeiras tricolores. Carros e torcedores silenciosos por respeito. Sensação boa de pertencimento. Consolo de não estar sozinho. A vida seria uma bobagem sem essas bobagens. (GESSINGER, 2009, p. 101).

Relendo esse trecho de Gessinger, me volto para o cenário de hoje em que o melhor remédio é tirar o time de campo. O primeiro GreNal das Américas foi disputado na nova Arena do Grêmio e terminou empatado em 0 x 0. O jogo de volta, que a princípio aconteceria em 8 de abril no Estádio Beira-Rio, está suspenso por tempo indeterminado. Das declarações da imprensa sobre aquele pré-jogo, uma em especial chamou minha atenção: “O gaúcho tem mais medo de perder GreNal do que de contrair coronavírus”, proferida por David Coimbra, o mesmo jornalista que assinou a “História dos Grenais”. Exageros à parte, a decisão da CBF de suspender os campeonatos devido à pandemia veio no domingo logo depois daquela quinta-feira em que eu acompanhava a partida do bar. Quando começou a confusão aos 41 minutos do segundo tempo, fui embora pra casa, pois no esporte nos interessa a rivalidade, não a pancadaria. Mas, se eu soubesse que agora a bola não vai rolar tão cedo, talvez tivesse ficado mais um pouco.

 

Referências

  • COIMBRA, David; NORONHA, Nico; SOUZA, Mário Marcos de; MOREIRA, Carlos André. A História dos Grenais. Porto Alegre: L&PM, 2009.
  • GESSINGER, Humberto. Pra ser sincero: 123 variações sobre um mesmo tema. Caxias do Sul: Belas-Letras. 2009.
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BBB 20, futebol e outras coisas

Há mais elementos em comum entre futebol e Big Brother Brasil do que imaginamos. Ambos são jogos – cada qual com sua especificidade – que mobilizam a atenção de milhões de espectadores. Por isso, mesmo quem não segue o BBB nas telas, dificilmente evitará que, em algum momento, alguma referência ao programa chegue ao seu conhecimento. Conversas em grupos de WhatsApp, postagens nas redes sociais, memes alusivos a situações ocorridas na casa do BBB, notícias que circulam nos jornais sobre o programa, enfim, são diversos os modos pelos quais é possível, – mesmo que não se queira – ter contato com o mundo Big Brother Brasil. Algo parecido ocorre com o futebol. São várias as pessoas que simplesmente não ligam ou mesmo não gostam desse esporte e, mesmo assim, veem seu cotidiano continuamente perpassado e, diria, muitas vezes, invadido por questões do mundo futebolístico.

Outro ponto de contato reside nas críticas feitas a quem acompanha esses jogos. É bastante comum que esse público seja taxado como alienado, fútil e manipulado já que se prestaria a ocupar seu tempo, seguindo pela TV um bando de gente enclausurada em uma casa vigiada 24h por câmeras. Convenhamos que apaixonados por futebol, também, são alvo de crítica muito semelhante. Quantas vezes já não fomos questionados por frequentarmos estádios ou por acompanharmos de modo sistemático os inúmeros campeonatos nacionais e internacionais que passam na televisão. Isso sem mencionar a frequência com que nossa paixão clubística é ridicularizada.

Big Brother Brasil e futebol são jogos e programas televisivos muito exitosos no Brasil. Cada qual com sua dinâmica competitiva e ambos cercados de câmeras por todos os lados.

Por isso, me sinto bastante à vontade em escrever sobre o Big Brother Brasil20, sobretudo, nessa edição em que o futebol se fez tão presente em momentos decisivos. E me sinto mais ainda à vontade em dizer que foi um dos mais interessantes programas dos últimos tempos da televisão aberta brasileira – juntamente com a novela Amor de mãe. Se faltou futebol em nossos dias e noites, o BBB foi um companheiro à altura, no que diz respeito a capacidade de entreter, de trazer a cena dilemas da sociedade brasileira e, sobretudo, por permitir que eu comemorasse como uma torcedora, a vitória de Thelma, a vencedora da edição deste ano. E eu não fui a única.

Não é meu propósito fazer uma análise profunda do fenômeno BB no Brasil. Longe disso. Há pesquisas sérias sobre o tema, desenvolvidas há anos.

Este texto é construído com certa liberdade e sua intenção principal é traçar uma teia de diálogo entre o reality show, o futebol e algumas questões como machismo e racismo no Brasil.

Machismo, futebol e BBB20

Em janeiro, quando o BBB 20 começou, tínhamos campeonatos de futebol, tínhamos a expectativa do carnaval e, provavelmente, menos medo e desgosto, sentimentos que se tornaram constantes em época de pandemia global. Pelo menos no meu caso, o reality conseguiu proporcionar divertimento e abstração que foram importantes para a manutenção da minha sanidade. Um efeito parecido ao que teria o futebol. Mas se por um lado foi uma rota de fuga, por outro o BBB também mostrou seu potencial para instigar a pensar sobre a sociedade brasileira.

Ano passado, a vencedora do reality dizia muito sobre a atmosfera conservadora do país. Ana Paula Von Sperling havia dado declarações racistas e de intolerância religiosa, chegando a ser indiciada pela Decradi Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância enquanto estava no programa. Entretanto, Paula ficou em primeiro lugar na preferência do público ao final da competição.

Quando o BBB 20 começou, temia que dele saísse mais um vencedor – ou vencedora – com discursos e atos preconceituosos. E não faltaram candidatos com esse perfil. Na verdade, as câmeras da casa mostraram um indisfarçado desfile de racismo e machismo.

Um grupo de homens composto, entre outros, por um ex-ginasta (Petrix Barbosa) e um ex-jogador de futebol (Hadson Nery), não nos poupava de comentários constrangedoramente machistas que depreciavam os corpos das participantes. Então, surgiu a grave denúncia de assédio cometido por Petrix Barbosa no final de janeiro na casa do BBB. A hashtag #Petrixexpulso virou trending topics no Twiter e Polícia Civil do Rio de Janeiro se manifestou exigindo informações sobre o caso.

As imagens mostradas não deixam dúvidas sobre as atitudes abusivas de Petrix. No início de fevereiro, Petrix, um dos ginastas, vítima de abuso do então técnico Fernando de Carvalho Lopes – caso que veio à público em 2018 – foi eliminado com 80% dos votos computados. Porém, o machismo persistiu e virou estratégia de jogo com o teste de fidelidade.

Algumas participantes – muitas delas, influenciadoras digitais – reagiram, protagonizando cenas de empoderamento e ao mesmo tempo promovendo as “tretas”, brigas e discussões, tão esperadas pelo público em geral. Palavras como feminismo e sororidade ganharam força na casa e ecoaram fora dela. Machismo x feminismo foi uma importante disputa que moveu a dinâmica do jogo e a adesão do público.

E os machos tóxicos foram sendo eliminados um a um com expressivas rejeições do público. Mas sobrou Felipe Prior.

Arquiteto, empresário e jogador amador de futebol, Prior esteve no centro das atenções em momentos importantes do BBB em especial no paredão que bateu recorde mundial de participação de público, alcançando mais de 1 bilhão e meio de votos. Do outro lado estava a influencer Manu Gavassi, uma das líderes da reação das mulheres.

É nesse momento que BBB20 e futebol definitivamente se aproximaram.

Embora Prior tivesse participado das conversas e das estratégias dos machos tóxicos, sua personalidade carismática e explosiva, um pouco de sorte nas provas do BBB e seu estilo pretensamente “sincerão” foram elementos que fizeram com que muitas torcidas a seu favor fossem formadas ao longo do programa.

Por estilo sincerão podemos entender agressividade, misturada com altas doses de síndrome de perseguição e uma incansável mania de achar que todas as atitudes se justificam desde que autênticas e coerentes. Segundo essa lógica simplista – adotada por muitas pessoas, aliás – ser grosseiro e preconceituoso, podem ser facilmente transformados em sinônimo de autenticidade. [1]

Prior construiu esse personagem que foi capaz de gerar muitos conflitos nas relações interpessoais, dando dinâmica à narrativa do BBB20.  Felipe jogou usando sua habilidade de irritar agredindo.

Famosos jogadores de futebol e até mesmo clubes declararam sua torcida publicamente ao El Mago, apelido dado a Prior.:

Fonte: UOL.

A adesão à torcida por Prior não é coincidência e, muito menos, se justifica unicamente pelo fato de o participante ser atleta amador de futebol. A questão é que esse participante encarnava muito bem a tipologia do macho sincero, que diz odiar o politicamente correto e que adora soltar verdades que machucam somente os outros e nunca a si mesmo.

Jamais podemos subestimar a capacidade que o futebol – e o esporte de um modo geral – tem de reiterar suas raízes machistas e conservadoras. E no paredão que bateu recorde de votação, alguns importantes representantes do futebol perderam a oportunidade de mostrar que o ambiente futebolístico tem mudado.

A influenciadora digital Manuela Gavassi, autodeclarada feminista, versus o caldeirão de rancor, Felipe Prior. Manuela não era um poço de carisma e seu desempenho no reality, até então, era um tanto, diríamos, blasé, às vezes dando fortes indícios de indiferença e tédio. Ela estava longe de ser naquele momento uma personagem interessante, como posteriormente se tornaria. Ocorre que do outro lado estava Prior que se comprazia com comentários machistas e que se viu envolvido em declarações que envolviam zoofilia.

Prior era o vilão cliché, típicos de melodramas cafonas, a ser eliminado. Mas foi tomado como um herói por Neymar, Gabigol, Gabriel Jesus, e tantos outros jogadores. Foi tomado por herói também por indivíduos conhecidos pela exaltação à violência e ao ódio.:

Fonte: Correio Braziliense.

A postagem acima diz muito sobre o tipo de perfil que Prior era capaz de atrair.

Porém, se o futebol e o BBB são um jogo, e dos mais populares no Brasil, há de se convir que o BBB20 pelo menos foi capaz de alimentar a esperança de que personagens como Prior estão ficando desgastados. O paredão com mais de 1 bilhão e meio de votos determinou a eliminação de Prior e fez parecer que estávamos uma final de campeonato de tantos os gritos de comemoração que se podia ouvir das janelas em muitas cidades do país.

Torcida do BBB também existe jocosidade e, por isso, não faltaram memes, muitos em alusão a Neymar.

Reitero que, infelizmente, não podemos subestimar o futebol e seu instinto conservador. Com a saída de Prior, muitos jogadores afirmaram que o jogo BBB havia perdido a graça.

Fonte: UOL.

Assim como muitas pessoas ligadas ao futebol pensam, perder a graça significa a impossibilidade de se demonstrar machismo, homofobia e racismo, afinal para muita gente no futebol ofensas desse tipo ainda são consideradas uma das brincadeiras mais divertidas.

Fora da casa, Prior é investigado por duas acusações de estupro e uma de tentativa de estupro conforme apurado pela revista Marie Claire[2]. Tenho a curiosidade em saber se Vinícius Jr. continua ansioso para conhecer o ex-BBB pessoalmente.

Com a eliminação de Prior poderíamos encerrar este texto comemorando a derrota do machismo, mesmo que só no BBB20. Do lado de fora, a luta continua imensa.

Porém, o feminismo do BBB20 andou lado a lado com o racismo.

O feminismo e racismo no BBB20

O BBB20 evidenciou a necessidade de um feminismo para os 99%[3], o que implica que o feminismo seja antirracista. Manu Gavassi certa vez afirmou que casais da “mesma cor” são “esteticamente agradáveis”, esse comentário infeliz foi feito após ela se deparar com o casal Marcela e Daniel, ambos brancos e loiros.

Marcela, por sua vez, outra que se autodeclarava feminista, não conseguiu disfarçar um inexplicável incômodo e falta de empatia com Babu, ator, negro e cuja falta de integração com algumas participantes trazia à cena o racismo estrutural que marca a sociedade brasileira. Marcela chegou a declarar que tinha medo de Babu e quando questionada por que, respondeu “De que ele vá gritar”.[4]

Marcela, entretanto, nunca havia comentado sobre, ou mesmo, demonstrado medo de Prior que se comunicava basicamente por intermédio de gritos. Ao contrário, Marcela, nunca deixou de falar com Prior, nem que fosse para discutir. Mas Prior é branco e arquiteto, o que não provocava estranhamento em Marcela, muito menos temor. Já Babu é negro, raça que historicamente foi anexada a características desumanizadoras como monstruosidade, temperamentos irracionais, bestialidade e ferocidade.

O distanciamento de Marcela foi notado pelo próprio Babu que em determinado momento afirmou que “A Marcela me olha que nem uma madame, do mesmo jeito que minha patroa me olhava. Eu tenho trauma desse olhar”.

Babu, não era um poço de doçura, porém, dentre todos os homens que participaram do BBB20 foi aquele que mais se mostrou informado e sintonizado com as importantes pautas da sociedade o que incluía a luta das mulheres por mais igualdade. Mas, tanto Marcela como Manu e Gizelly preferiam a companhia dos participantes Pyong e Daniel. O primeiro, extremamente manipulador e o segundo, provavelmente, um dos mais alienados participantes da história do programa.

Pyong disputou com Babu um paredão que registrou o expressivo número de 385 milhões de votos. Babu venceu. A sua permanência mesmo sendo um indicativo que era um forte candidato,  despertou ainda mais ódio, sobretudo, em Ivy que chegou a chamá-lo de monstro e de debochar do pente que o participante usava “Quem que penteia o cabelo com um trem desse?” disse a mineira. Tentando se defender desse tipo de fala Yvi protagonizou o seguinte diálogo.:

eu sou super contra julgar alguém por conta da pele, isso não existe. Mas ficar usando disso também eu não concordo. Ser preto não é malefício nenhum. Quanto mais morena eu fico mais eu gosto. Eu gosto é muito (…) Muito pelo contrário. Quanto mais morena estou, mais eu gosto. Adoro tomar sol (…) Mas é muita coisinha que incomoda. Mas se incomoda, tudo bem. Mas ficar falando disso, para quê? Todo mundo é igual, todo mundo merece o prêmio, se é branco, moreno, preto. São seres humanos“. [5]

Ivy complementou afirmando que tratar mal alguém por causa da cor de pele era atitude de pessoas doentes e que deveriam buscar ajuda. Trata-se da típica adoção de uma concepção individualista de racismo, ou seja, aquela que entende o fenômeno como derivado de uma patologia manifestada de modo restrito.  A participante repete discursos parecidos com os usados em muitas abordagens que o jornalismo esportivo faz quando trata de temas vinculados ao racismo. Ora o jornalismo esportivo – ou parte dele – entende que se trata de um assunto que não cabe ser discutidos nas mesas redondas, ora entende que o racismo é um ato “isolado” tanto no esporte quanto na sociedade brasileira. Marcelo …. Os perigos de se persistir nesse tipo de interpretação é não dar atenção ao fato de que em países como o Brasil o racismo se manifesta de modo estrutural, ou seja, ele é parte integrante da organização econômica e política da sociedade.  No Brasil, o racismo não é uma exceção, mas uma regra. Uma regra em nosso cotidiano, presente nas brincadeiras ofensivas, no nosso vocabulário e em comentários espontâneos como o que Gizelly fez ao ver a cor da maquiagem da participante Thelma.: “parece barro”.

Babu defendia ardentemente o empoderamento do preto. Quando a casa ficou mais vazia, Babu deu aulas incríveis sobre racismo partindo de um inquestionável local de fala. Ouvindo-o sempre me vinha a mente as primeiras palavras de Mário Filho, nas páginas iniciais do livro O Negro no Futebol “Há quem ache que o futebol do passado era bom. De quando em quando a gente esbarra com um saudosista. Todos brancos, nenhum preto”

A popularidade de Babu foi imensa e chegou aos jogadores de futebol, em especial, o ídolo Gabigol que imitou as danças do ator em uma das comemorações de gol. Babu é flamenguista, característica enfatizada várias vezes em seu perfil no Twitter

Fonte: Twitter.

Babu adora futebol e a torcida dos jogadores poderia muito bem ter se voltado para o seu lado, ao invés de Prior. Há tempos o ator dava mostras de uma personalidade muito mais interessante e progressista do que o arquiteto enraivecido, cheio de clichés de autenticidade. Babu sobreviveu a nove paredões, sendo eliminado no 10º por Thelma.

Os dois na casa eram aliados, mas seus perfis nas redes sociais passaram a trocar ofensas na última semana do programa. Thelma foi chamada de “mucama”, pois segundo alguns, ela se mostrava muito subserviente às mulheres brancas da casa. Em resposta, seu perfil postou #foraBabu. Os perfis fizeram as pazes depois, mas mostraram fissuras em um momento no qual a união contra o racismo era mais importante.

Thelma não possuía o perfil ativista de Babu, o que não significa que o racismo tenha deixado de lhe provocar dores dentro da casa do BBB e ao longo da sua vida. O racismo cria situações constrangedoras e não é tão simples julgarmos aquilo que consideramos como uma falta de posicionamento. Eu, branca, não me sinto nada à vontade de fazer esse tipo de leitura. Thelma foi uma das primeiras – e uma das únicas – a se aproximar de Babu e quase sempre reiterava que uma afinidade os unia.: eram os dois únicos participantes declaradamente negros do programa.

E Thelma chegou à final, ao lado de Manu e Rafaela. Três mulheres que protagonizaram momentos decisivos de enfrentamento ao machismo. Mas apenas uma delas representava afeminismo que também precisa ser antirracista. Para ela foi destinada a minha torcida e meus votos. A mobilização nas redes sociais foi grande contando até com a participação da atriz Viola Davis que retuitou a postagem de Thais Araújo:

Fonte: Catraca Livre.

O BBB tem formação de torcida – de fandoms – que se manifesta sobretudo nas mídias sociais. Quase todas as votações do BBB – com exceção da final – são feitas para eliminar alguém, ou seja, a raiva é um motor importante na mobilização das votações. Raiva que no futebol é sentimento fundamental. A socióloga Janet Lever não deixou de reconhecer que o futebol é um poderoso produtor de símbolos compartilhados e, por isso, os “pontos focais de hostilidade também unem as pessoas”.

É o clássico do ato de secar times rivais pelo simples prazer de ver a derrota alheia. Torcer no BBB é um constante ato de secar.

E os grupos de fãs do BBB fazem barulho e tem um forte poder de mobilização. Há uso de estratégias diversas, aliança com outras torcidas e uma razoável capacidade de persistência. O sistema de votação do programa possui uma proteção contra o uso de robôs, então é preciso paciência e disposição para passar horas votando. Uma mesma pessoa pode votar quantas vezes conseguir. No dia da final, eu votei em Thelma dez vezes, ou seja, quase nada.

Diferentemente do futebol, a torcida tem poder efetivo de influenciar no resultado do jogo. E esse fato pode redobrar o sabor da vitória. Por isso, quando Thelma foi anunciada como campeã, eu tive a certeza de que meus 10 votos fizeram a diferença.

A gritaria que podia ser ouvida nas janelas de diversas partes do país se assemelhava às comemorações de um gol. Mesmo sem o futebol, pudemos experimentar um pouco as delícias do torcer.

Para entender a vitória de Thelma, para entender mais sobre o BBB20 é preciso mergulhar no universo das mídias digitais no Brasil e seu poder de mobilização e formação de torcidas. Para entender o sucesso de programas como o BBB é importante ter em conta que somos um pais que adora novelas e futebol, todos cheios de heróis e vilões e diversos outros personagens que ajudam a conformam um espaço público de debates que outras instâncias não conseguem se desenvolver de modo tão efetivo. Debates muitas vezes repletos de respostas rápidas e julgamentos peremptórios feitos num espaço de tempo curto, mas movido a certezas que parecem eternas.

Discussões sobre futebol e BBB são bem parecidos e ambos refletem a dificuldade de se aceitar a ambiguidade dos fenômenos.

A vitória de Thelma, uma mulher negra que não vem de estratos sociais privilegiados e que se tornou médica, uma profissão formada em sua ampla maioria por brancos, traz certa esperança em um momento tão ruim pelo qual passamos. Essa esperança não significa uma compreensão simplista da realidade. A vitória de Thelma, obviamente, por si só não é indicativa de que a sociedade brasileira está melhor e que suas mazelas estão a caminho de serem solucionadas. O racismo e o machismo não vão desaparecer de um dia para o outro porque ambos são estruturais.  Mudanças se dão com processos às vezes lentos e sempre conflituosos.

Mas a impressão que tive acompanhando o BBB20 é a de que o futebol ainda é muito conservador. É lento na caminhada contra o machismo, não sem motivos Felipe Prior foi El Mago para diversos jogadores. Confesso que ainda não me sinto devidamente representada no esporte que tanto gosto e que em termos lógicos, não me faltaria motivos para detestá-lo, enquanto mulher.

Em relação ao racismo, o futebol aparenta ser mais progressista. Aparenta. Vemos o negro em campo, sendo ídolo de clubes, fazendo história na seleção brasileira, mas no âmbito do comando, o que inclui a ocupação de cargos vinculados a tomadas de decisão, os brancos são maioria. No jornalismo esportivo, o problema persiste. As manifestações racistas ainda ecoam nas arquibancadas do Brasil e do mundo, sem uma intervenção convincente da CBF e da Fifa.

Por isso, o BBB20 conseguiu me representar mais do que o futebol. E assim como o futebol, o BBB é um objeto fértil para pensarmos o mundo que nos rodeia.

 

Notas de Rodapé

[1] Os sentidos que a palavra “autenticidade” tem ganhado merecem um estudo futuro, aliás;

[2] Revista Marie Claire;

[3] Sobre esse tema ARRAUZA, Cinzia; BHATTACHARYA, Tithi; FRASER, Nancy. Feminismo para os 99%. Um manifesto. SP.: Boitempo, 2019;

[4] Fonte: El País Brasil;

[5] Isto é.

Produção audiovisual

Já está no ar o décimo terceiro episódio do Passes e Impasses

Acesse o décimo terceiro episódio do podcast Passes e Impasses no Spotify*, Deezer*, Apple PodcastsPocketCastsOvercastGoogle PodcastRadioPublic e Anchor.

O tema do nosso décimo terceiro episódio é “Patrocínios no futebol: o caso Nike”. Com apresentação de Filipe Mostaro e Mattheus Reis, pesquisador do LEME e jornalista da Rádio Globo, gravamos remotamente com Pedro Diniz, formado em Relações Públicas pela UERJ, e Leda Costa, professora visitante da Faculdade de Comunicação Social da UERJ.

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O podcast Passes e Impasses é uma produção do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte em parceria com o Laboratório de Áudio da UERJ (Audiolab). O objetivo do podcast é trazer uma opinião reflexiva sobre o esporte em todos os episódios, com uma leitura aprofundada sobre diferentes assuntos em voga no cenário esportivo nacional e internacional. Para isso, traremos sempre especialistas para debater conosco os tópicos de cada programa. Você ama esporte e quer acessar um conteúdo exclusivo, feito por quem realmente pesquisa o esporte? Então não deixe de ouvir o décimo terceiro episódio do podcast Passes e Impasses.

No quadro “Toca a Letra”, a música escolhida foi “Brasileiragem”, do rapper e compositor Fábio Brazza.

Passes e Impasses é o podcast que traz para você que nos acompanha o esporte como você nunca ouviu.

ARTIGOS, LIVROS E OUTRAS PRODUÇÕES

  • A representação do futebol brasileiro no discurso publicitário da Nike: uma análise da campanha “Vai na Brasileiragem” (Monografia, UERJ, 2019) – Pedro Diniz;
  • Patrocínio esportivo e evolução histórica da relação fornecedor-clube de futebol no Brasil e na Europa (Pretexto, v. 15, n. 2, 2014) –  Ary Rocco Jr.; Sergio Giglio; Leandro Mazzei;
  • Marketing e organização esportiva: elementos para uma história recente do esporte-espetáculo (Conexões, v. 1, n. 1, 1998) – Marcelo Proni;
  • Futebol-arte e Consumo: as narrativas presentes na campanha “Ouse ser brasileiro” (Revista Eletrônica do Programa de Pós-Graduação em Mídia e Cotidiano UFF, n. 4, 2014) – Ronaldo Helal, Filipe Mostaro e Fausto Amaro;
  • Pátrias, chuteiras e propaganda: o brasileiro na publicidade de Copa do Mundo (Editora Unisinos, 2002) – Édison Gastaldo;
  • Magia e Capitalismo: um estudo antropológico da publicidade (Editora Brasiliense, 1995) – Everaldo Rocha;
  • Clube empresa: abordagens críticas globais às sociedades anônimas no futebol (Editora Corner, 2020) – Irlan Simões (organizador);
  • Clientes versus Rebeldes: novas culturas torcedoras nas arenas do futebol moderno (Editora Multifoco, 2017) – Irlan Simões;
  • A metamorfose do futebol (Editora Unicamp, 2000) – Marcelo Proni;
  • Tecnopólio: a Rendição da Cultura à Tecnologia (Editora Nobel, 1992) – Neil Postman;
  • Futebol S/a – a Economia em Campo (Editora Saraiva, 2006) – Anderson Gurgel.

FILMES

 

Equipe

Coordenação Geral: Ronaldo Helal

Direção: Fausto Amaro e Filipe Mostaro

Roteiro: Letícia Quadros e Fausto Amaro

Produção: Fausto Amaro e Marina Mantuano

Edição de áudio: Leonardo Pereira (Audiolab)

Apresentação: Filipe Mostaro e Mattheus Reis

Convidados: Pedro Diniz e Leda Costa

Produção bibliográfica

Livro “A bola não dobra?” disponível gratuitamente para download

Guayauquil, 22 de abril de 2020 – A Federação Equatoriana de Futebol (FEF), através do Instituto Superior Tecnológico de Futebol, com sedes em Guayaquil e Quito, apresenta a segunda edição de A bola não dobra?, um livro que pretende gerar um debate sério e sistemático a respeito de temas relevantes que dominam o cenário futebolístico contemporâneo.

O crescimento do futebol em todos os seus âmbitos, incluindo o acadêmico, é um fator fundamental no Plano Estratégico 2019 – 2030 implementado pela mais alta direção do futebol nacional.

O presidente da FEF, o engenheiro Francisco Egas Larreátegui, considera que esta publicação representa uma grande contribuição para o campo pedagógico do nosso futebol, pois abrange “um significado especial entre análises filosóficas e a defesa dos valores que devem inspirar e guiar o futebol”.

A critério dos compiladores desta obra, os professores César Torres e Daniel Campos, o livro implica uma oportunidade para refletir sobre a cultura futebolística do Equador e como poderíamos melhorá-la para alcançar o tão desejado desenvolvimento que nos permita ser uma referência mundial.

O download do livro é gratuito e está disponível neste link.

Release traduzido do site oficial da FEF.

Fonte: www.fef.ec
Artigos

Em busca da “viveza criolla”. Uma viagem de brasileiros “locos por fútbol”.

Eu tinha acabado de retornar de um Congresso em Buenos Aires, a CLACSO, onde tive a oportunidade de assistir dois jogos do futebol argentino, All Boys x Atlanta no Estádio Islas Malvinas e Argentino Juniors x Talleres de Córdoba no Estádio Diego Armando Maradona e relatei ,entusiasmado, essas experiências futebolísticas em um chopp natalino de final de ano com amigos da adolescência.

Obviamente conversamos muito sobre futebol e mais uma vez Pancinha idealizava uma viagem épica, vários amigos juntos em Buenos Aires para assistir partidas do futebol argentino celebrando a vida. Muitas vezes tínhamos falado sobre isso em diversos eventos, proposta inspirada em uma reportagem do jornalista PVC (Paulo Vinícius Cordeiro) lida pelo Pança faz muitos anos sobre os estádios argentinos, mas confesso que achei que mais uma vez a epopeia futebolística se desmancharia no ar ou na ressaca do dia seguinte.

Algumas semanas depois veio a convocação com uma mensagem de um novo grupo de whatt´s app, “Buenos Aires somos nozes”. Pancinha já tinha pesquisado a tabela, selecionado a “fecha” ainda no torneio em curso e comprado a sua passagem. Era o pontapé inicial para a formação da equipe. Como não gosto muito de grupos de zap, confirmei minha presença com o capitão e providenciei minha passagem quando apareceu uma promoção, mas fiquei acompanhando com certa distância digital as diversas discussões, pilhas, sugestões, stickers que diariamente eram colocadas no grupo.

Após dois meses de expectativa e milhares de mensagens até a chegada do esperado embarque em um voo matutino, cheguei na capital argentina junto com o amigo de infância Gugu, e encontramos na imensa fila da alfândega Russo, grande amigo dos tempos da faculdade e das peladas na Praia Vermelha e em campos cariocas e seu sobrinho Felipe, representantes gaúchos de Pelotas.

Fomos para a concentração em um hotel bem localizado, próximo do elegante e turístico bairro da Recoleta. Miga, vindo de São Paulo já estava na área desde o dia anterior e nos acompanhou na primeira resenha feita com ótima carne e um bom vinho em uma “Parrila” próxima do hotel.

O Capitão Pança chegou a noite. Três atletas: Dodô, Fred e Pagode tiveram o voo cancelado e quase desfalcam a equipe, mas com muita raça e insistência de pagodeiro que vive de tocar nos bares e passar o chapéu conseguiram vaga em outro avião e chegaram no dia seguinte.

A expectativa era grande e nesta primeira noite fomos jantar na Pizzaria El Cuartito, tradicional local de referência ao futebol. boxe e ao cinema, com muitas camisas, pôsters, flâmulas onde se respira a paixão argentina por esses três fenômenos culturais de massa.

FOTO PIZZARIA EL CUARTITO
Fonte: turismo.buenosaires.gob.ar

O dia seguinte começou com grande expectativa. Gugu acordou cedo e foi a “cancha” do Vélez onde se informou que os ingressos seriam vendidos apenas no dia do jogo, mas que era tranquilo de conseguir. Foi também na loja do Racing “Locádemia” garantir os ingressos que faltavam para a partida mais esperada no mitológico Estádio El Cilindro em Avellaneda. O outrora zagueiro/zagueiro partiu para o ataque e marcou um belo gol para a equipe.

O almoço em um pequeno restaurante tradicional pelas suas empanadas próximo ao famoso Hotel Alvear teve como garçons um lento sósia do Messi e outro que agitado debatia sobre futebol com turistas brasileiros de diferentes mesas. Entre “empanadas”, bifes de chorizo, milanesas, papas e Quilmes estávamos resolvendo se iríamos a uma partida em La Plata do Gimnasia. Cerca de uma estimativa de duas horas de “trancón” até o estádio e uma “suadeira” do capitão nos desanimaram a assistir o primeiro jogo da rodada.

No final da tarde de sexta toda a equipe estava reunida e a primeira confraternização geral foi em uma pizzaria próxima ao hotel as 20:30, com direito a muito vinho e fatias de diversos sabores, inclusive de alho. (Felipe, Barrinho, Pancinha, Gugu e Pagode. Russo, Dodô, Júlio, Fred, Fritsch e Zito). Técnico Miga. Tenho orgulho dessa equipe e também estava junto na jornada com muito entusiasmo, cerveja, vinho e até gim que me derruba.

O dia seguinte seria intenso e apesar de muitas “saideiras” em bares próximos na Recoleta a maior parte retornou cedo para descansar pois uma van passaria “temprano” para nos buscar para o primeiro jogo da histórica jornada de sábado no Estádio José Malfitani do tricolor Velez.

Às 9 da manhã todos estavam no saguão do hotel esperando nossa condução para um estádio clássico que foi utilizado no mundial de 1978 e localiza-se em uma zona de classe média afastada do centro chamada Liniers.

No caminho minha cabeça parecia uma banda de “cumbia”, a ressaca me consumia, decididamente queimei a largada, mas, estava feliz de acompanhar a equipe.  Enquanto a maioria se divertia e cada nova “ruta” merecia um alegre comentário, observava uma curiosa simbiose de pessoas muito diferentes em vários aspectos, que fazem parte da minha vida de alguma forma, e que neste momento estavam unidas em torno uma mesma paixão, o Futebol.

A chegada na porta de “El Fortin” foi apoteótica. Conseguir os ingressos na bilheteria com relativa facilidade ainda mais emocionante, passar nas roletas do tradicional estádio, uma sublime emoção.

A maior parte dos integrantes da equipe já esteve em grandes “arenas”, em modernos estádios nas últimas Copas do Mundo, ou capitais europeias, mas o olhar apaixonado parecia revelar um ‘fato social”  desde a infância. Tanto quanto, a Educação, o idioma pátrio, uma religião familiar ou o próprio heterônomo Direito, a paixão pelo futebol no nosso país parece uma verdade absoluta imposta através de uma memória coletiva e de uma “tradição inventada” e alegremente recepcionada em todas as classes sociais inclusive nas mais altas , a qual esse seleto grupo pertence.

Lembro das muitas bandeiras tricolores do Velez, do calor sufocante no estádio e embaixo delas mais bandeiras, de gritos da “hinchada”, dos abraços entre os integrantes da equipe principalmente no intervalo, de um copo de Pepsi quente mesmo sem beber refrigerantes fazia tempo com Hot-dog frio, de montanhas no horizonte e de uma breve discussão no final da partida com “hermanos”. Sobre o jogo contra o Atlético Tucuman, pouco, um habilidoso meia que acho que fez um dos gols da vitória e muita correria e virilidade.

Reunimo-nos eufóricos na frente do “El Fortin”. Óbvias fotos turísticas, abraços verdadeiros, sorrisos infantis após uma partida que não nos dizia nada, mas, simbolizava tudo. Um sonho realizado pode ser maior que múltiplas realidades. O capitão Pancinha parecia um Monarca Javanês ao juntar a equipe rumo ao seu destino mais importante.

Avellaneda, subúrbio da capital portenha, unitarista Buenos Aires,  inglesa/criolla, belíssima cidade dos Morenos, Rivadavias, Purreydóns, tantos unitaristas que prezavam a cultura europeia, o iluminismo e as alianças com a cultura do colonizador talvez não esperassem que o futebol, fruto posterior da dominação inglesa seria resignificado neste continente pelo pueblo “criollo”.

Pero, antes uma pausa para boa Parrilla. O almoço foi em ótimo restaurante. Entre bifes de “chorizo”, papas, “sonrisas”, entrecotes, cervezas y vinos, Ronaldo ou Cristiano Ronaldo? Não me lembro mais os argumentos, mas sei que não foi batalha colonizado x colonizador, ainda bem. Nesse tema futebolístico, felizmente a questão ainda é relativa aos sentidos. Entender pelo sentimento o que é belo, justo, ou apaixonante depende dos sentidos como já dizia o filósofo Kant. Quem é melhor: Ronaldo, Cristiano Ronaldo, Messi, Zico, Maradona, Pelé, Garrincha. Leônidas, Di Stéfano depende do sentir, do viver e das emoções e não da razão. Ou seja, ninguém estava errado, muito menos certo.

Almoçar um churrasco clássico me fez bem.  O trajeto para o mitológico estádio “El Cilindro” do Racing Club também. A maior parte da equipe estava calada apreciando o visual e fazendo a digestão. Cruzar a bela capital, passar próximo do turístico bairro de San Telmo, e avançar  por pontes e vias secundárias  que dão acesso ao tradicional subúrbio, berço de dois dos maiores campeões argentinos, Independiente e Racing está registrado para sempre na minha nebulosa memória.

Uma rivalidade histórica: Vermelhos x Azuis me remete sem obviamente ter nada a ver a tradicional simbologia desde Juan Manuel Rosas, Federalistas x Unitaristas.  A rivalidade também é muito grande. Aconselharam-nos evitar “remeras” rojas, muitos do grupo adoraram, mas o fato é que a proximidade da “Garganta del Diablo” para “El Cilindro” é incrivelmente impressionante. Eu já conhecia o Estádio do Independiente e tinha sentido esta sensação incrédula de ver dois grandes estádios de equipes rivais do mesmo bairro posicionados a menos de 500 metros. Avellaneda respira futebol, rivalidade e alteridade.

A chegada no Estádio com os devidos passaportes e identidades foi revigorante. Mesmo com as misturas etílicas do dia anterior, a intensidade de assistir uma partida que começou as 11 horas da manhã com sol radiante e uma bela carne argentina na barriga, o sentimento de estar adentrando no mitológico “El Cilindro” lotado é inefável. Novamente parecíamos adolescentes, com muitos sorrisos, abraços e olhos arregalados

FOTO EL CILINDRO
Fonte: Acervo pessoal do autor.

O Racing era o líder do campeonato argentino e disputava com o surpreendente Defensia y Justicia o título após muitos anos na fila. A partida era contra o modesto Belgrano de Córdoba. A expectativa era muito grande, famílias, “barras bravas”, turistas como nós conviviam harmonicamente em uma turba pacífica que esperava assistir uma vitória do Racing independentemente de qualquer espetáculo.

Não conseguimos assistir juntos, os ingressos eram em locais distintos da imponente arquibancada. Me recordo de uma arquitetura rústica com imensos degraus e poucas saídas. O azul e branco majestoso é dominante tanto no concreto, quanto nas camisas. Os cânticos ininterruptos e ensurdecedores, uma energia contagiante. O gol da partida e da esperada vitória veio logo no início da partida pelo veterano Lisandro Lopes e a explosão no estádio foi realmente apoteótica. Eu estava sozinho, na confusão da entrada que ocorreu próximo ao início do jogo curiosamente me perdi de todos meus companheiros de viagem, mas abracei e fui abraçado por muitos “hinchas”. Uma verdadeira catarse no “Cilindro” com um minuto de jogo. O domínio do Racing continuou intenso na primeira etapa, inclusive com bolas na trave, mas meus olhos ficaram vidrados em uma das mais belas cenas que já vi dentre os muitos estádios que conheci.

Na parte de baixo do estádio que recorda a antiga geral do Maracanã, muitas crianças brincavam, jogando com bolas e latas em uma estrutura plana a beira do gramado.  Um grande cachorro preto que participava da brincadeira também chamava a atenção. O jogo rolava, o Racing se aproximava de um esperado título, mas a cena que me marcou e também muitos dos amigos que estiveram presentes nesse espetáculo popular/futebolístico foi a inocente “pelada” dos pequenos “hinchas”.

No intervalo encontrei Pagode na imensa fila do banheiro e consegui assistir com alguns dos meus companheiros que estavam na mesma arquibancada, mas no último degrau. A segunda etapa foi tensa, O Racing recuou, o Belgrano surpreendentemente melhorou bastante e destarte a mitologia atribuída aos “hinchas” argentinos de nunca pararem de gritar, pelo menos na parte que nos cabia naquele latifúndio do futebol raiz, um silêncio avassalador perdurou durante boa parte do segundo tempo.

O Racing conseguiu manter o resultado e a saída do estádio foi muito empolgante. Os cânticos voltaram, os torcedores se abraçavam, o título estava praticamente definido.

Voltei para o ponto de encontro com mais alguns companheiros e fiquei à  contemplar o belo movimento que é a saída de uma torcida vitoriosa de um estádio. Isso me parece que é uma espécie de código universal. A energia e alegria de qualquer comunidade imaginada de torcedores ao sair após importante vitória da sua equipe é sempre um momento mágico.

Em plena Avellaneda ocorreu um desencontro. Alguns membros da equipe saíram por outra saída e não conseguiam chegar ao ponto estabelecido. A própria van estava sem referência. Caminhamos pelos arrabaldes e acabamos esperando tanto os demais companheiros, quanto o motorista da van em frente a um “Quiosco” entreaberto.

Foi um interessante momento de confraternização. “Hablamos”, bebemos e interagimos com moradores locais que  independentemente da opção clubística acharam muito bacana nossa experiência. Quando todos chegaram e o motorista com a van, tudo estava pago, só nos restou dizer “Gracias”.

No retorno ao hotel uma mistura de cansaço com satisfação. Foi uma jornada incrível. Um sábado inesquecível com múltiplas emoções que ainda não tinham acabado. Do saguão as 23:30, vagamos pela Recoleta buscando alimentação. A vida noturna era intensa, mas precisávamos de comida. Lugares cheios, turísticos, paramos em um restaurante que eu conhecia e tinha sido bem agradável em outra ocasião. Porém dessa vez o “hambúrguer do soninho” não agradou a maioria. Eu comi um bom sanduíche de jamón serrano e apreciei novamente o local, mas a dica não foi bem avaliada pela maioria.

É difícil viajar em grupo. Já trabalhei como guia de turismo, inclusive em uma Copa do Mundo na França, mas não gosto de viagens estilo CVC e felizmente não foi o caso. Achei que teríamos muitos outros problemas em função da diversidade do grupo em muitos sentidos. Entretanto o que predominou foi a harmonia e uma interação anímica em função do futebol e da verdadeira amizade entre muitos dos participantes. Foi um sábado futebolístico inesquecível.

Domingo despertou a equipe aos poucos. O sentimento de plenitude estava entre todos, mas faltava um objetivo para alguns dos integrantes. River x Independiente no Monumental de Nuñez era uma importante partida da rodada no palco da final do mundial na Argentina. Ninguém tinha ingresso e muitos retornavam no mesmo dia. Liderados pelo capitão Pança acreditamos que como ambas as equipes não tinham mais chances de título, seria tranquilo conseguir ingressos mesmo que fosse com cambistas.

A maior parte do grupo foi almoçar no bairro de Palermo. Alguns conseguiram reserva na tradicional churrascaria Dom Julio. Eu acabei almoçando junto com Pança, Russo, Barrinho e Felipe no restaurante em frente que tinha muitas camisas, flâmulas e fotografias, etc. Chegou a me recordar o clássico restaurante “São Cristóvão’ em São Paulo,na rua Aspicuelta, mas com acervo de cultura material futebolística muito menor; Também comemos bem. Não deve ter sido o êxtase gastronômico compartilhado por alguns, mas era um bom ambiente para nossas expectativas, pois nós queríamos apenas comer bem e partir para as imediações do Monumental.

Zito juntou-se a nós 5 e fomos em dois táxis até o residencial bairro de Nuñez, próximo do Rio da Prata. Paramos e caminhamos uns 15 minutos até a proximidade do estádio. Como já imaginávamos não tinham ingressos nas bilheterias. Não pagamos ingressos superfaturados nos sites especializados e decidimos nos arriscar nesta jornada. Um torcedor “gallina” local falou que os cambistas se concentravam em uma praça próxima, mas observou que era arriscado.

Apesar da advertência prosseguimos e chegamos na referida praça. Rapidamente fomos identificados como turistas e devidamente abordados. A negociação foi confusa, mas rápida. A troca do dinheiro pelos ingressos também. A aposta estava feita entre garantias, risadas e até o telefone para contato na próxima Copa América em visita a praia de Copacabana. A “viveza” criolla nos foi apresentada não nos gramados do Monumental, mas do lado de fora.

No caminho para as bilheterias nos deparamos com algumas barreiras e constatamos que o ingresso do Pança seria em outra parte do estádio. A palavra “trucho” ecoou quando passamos da primeira fiscalização, mas fomos autorizados a prosseguir.

Após caminharmos uns 200 metros e chegando próximo ao estádio, a confirmação do papelão que fizemos. Ingressos “truchos”, falsos. Ainda tentamos argumentar que gostaríamos muito de assistir, se podíamos ficar com os ingressos “pero” melhor vazar.

Recordo pelo menos um minuto caminhando cabisbaixos em silêncio. Após um sábado épico de intensas emoções, fomos invadidos por um sentimento de estarmos sendo derrotados sem nem ao menos termos entrado em campo. O simples ingresso na “cancha” representaria mais uma conquista, mas retornávamos eternos metros olhando as expressões de torcedores felizes que iriam assistir ao clássico.

Zito pegou um táxi correndo para o hotel, pois ainda retornava no Domingo. Nós quatro ainda esperamos Pancinha cerca de uma meia hora em um café próximo a primeira barreira. Não passava o jogo em nenhum bar, não vendia bebida alcoólica e o gosto do café estava amargo assim como a frustração de não ter assistido uma partida no Monumental.

Lembrei do Centro de Memória da ESMA. Em que direção estava? Para os prisioneiros do “Processo” o sentimento de estar perto, mas bem distante obviamente era muito pior que os simples fato de ter sido enganado. Tentava lembrar com raiva da fisionomia dos cambistas, mas por qual razão? Demos mole. Trouxas! Aprendam com a derrota.

Decidimos partir para próximo do hotel e ainda encontramos outros integrantes da equipe no Pub “Locos por Fútbol” assistindo o jogo no qual deveríamos ter entrado. Pancinha já estava lá. Chegara na roleta, a última etapa mas a máquina identificou que era falso e após breve confusão teve que sair rapidamente também.  Ainda vimos parte do segundo tempo, quando o River atropelou e se não me engano venceu por 3×0 entre alguns pints de boa cerveja artesanal. Para os que ficaram o jantar foi uma boa pizza novamente no bairro de Palermo.

Como eu só voltava no final da tarde de segunda, ainda tive tempo para deixar uma cópia do meu livro sobre o Mundial da Argentina na Biblioteca Mariano Moreno. Fui muito bem recebido por uma funcionária que ,além de me agradecer pela doação, conversou bastante sobre suas distantes lembranças daquele junho de 1978. Fiquei feliz em retornar cinco anos depois em um local onde fui muito bem recebido, onde passei muitas horas por dia durante uma semana para fazer o levantamento do material para a minha tese. Fui preenchido por um sentimento de felicidade, nostalgia e etapa cumprida.

Uma histórica viagem estava chegando ao fim.  Assim como boas peladas que jogamos ao longo da nossa vida, vivemos intensamente vitórias e derrotas em um curto espaço de tempo. Conseguimos reunir 13 apaixonados por futebol e pela vida em uma jornada improvável. Gugu ainda partiu para a cancha do Huracán enquanto eu me dirigi para Ezeiza.

Este ano o destino seria o outro lado do Rio da Prata. Assistir o clássico Penarol e Nacional na quarta rodada do segundo turno, além de mais uma partida do campeonato uruguaio e viver novamente a paixão futebolística com foco na “garra charrua” já estava sendo planejado para o segundo semestre.

Infelizmente um vírus, a pandemia global, a necessidade de isolamento social, a suspensão dos eventos esportivos adiaram a realização da viagem, mas não afetaram a paixão, amizade, memória positiva e a esperança de reunirmos novamente em uma “trip” futebolística um incrível grupo de “locos por fútbol”.

Realizar sonhos improváveis é viver o melhor possível. Em um momento de confinamento e reflexão, estar escrevendo sobre o prazer e a benção de poder viajar nessas condições me faz respirar, e agradecer por estar vivo. Montevidéu qualquer dia estaremos aí!

Artigos

A homossexualidade no meio futebolístico

Nos últimos anos, pudemos observar avanços significativos na conquista de direitos pela comunidade LGBTI em muitos países. A permissão do casamento ou união civil entre pessoas do mesmo sexo por um número cada vez maior de Estados é um exemplo. Outra demonstração ocorreu no Brasil quando, em 2019, o Supremo Tribunal Federal (STF) enquadrou a homofobia e a transfobia na lei dos crimes de racismo (Lei 7.716/1989). Ainda que esse enquadramento origine-se de uma falta de ação do Poder Legislativo, uma vez que o STF considerou que houve omissão do Congresso Nacional por não editar lei específica sobre o assunto, percebe-se que os avanços estão ocorrendo. Mas e o futebol? Como o esporte mais popular do planeta reage a essa temática?

Enquanto mestrando do Programa de Pós-graduação em Cultura e Territorialidades (PPCULT), da Universidade Federal Fluminense (UFF), tenho pesquisado sobre a relação do homem cis homossexual com o futebol. Salientar a existência desse recorte é importante porque a comunidade LGBTI é composta por diferentes grupos com diferentes características. Logo, as relações de cada um desses grupos com o futebol têm suas especificidades. Assim, é importante que o leitor deste texto tenha a consciência de que os apontamentos que serão aqui feitos têm como base o grupo de homens cis homossexuais. Mas é claro que boa parte de nossas colocações também poderão ser apropriadas por outros grupos da comunidade LGBTI.

Para início de conversa, precisamos registrar que o futebol é, historicamente, um esporte dominado por homens heterossexuais. Conforme conta o professor Flavio de Campos, coordenador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre Futebol e Modalidades Lúdicas (LUDENS), da Universidade de São Paulo (USP), em reportagem publicada no site da VICE Brasil em 2016, “o futebol é um elemento de construção de uma masculinidade violenta, agressiva, machista, truculenta e heteronormativa” (CAMPOS, 2016). Estamos falando de um esporte que sacraliza valores relacionados à virilidade, conceito este que é costumeiramente negado pela sociedade ao homem gay.

BH recebe campeonato nacional de futebol LGBT dia 15
Fonte: Observatório G Uol

Para entendermos minimamente o conceito de virilidade, não podemos deixar de mencionar duas palavras: violência e sexo. A violência relaciona-se com o guerrear, com o contato físico bruto. O sexo, neste caso, refere-se à manifestação de uma dita “macheza” que consiste na dominação sobre o corpo feminino durante o ato sexual. Pensemos agora: essas noções sobre violência e sexo dialogam com o ambiente do futebol?

Uma das palavras mais valorizadas nesse esporte é “raça”, no sentido de vontade de vencer. Também é frequente o uso do termo “garra”. A vontade de vencer em si nada tem a ver com violência, mas isso muda se observarmos quais são as representações mais típicas de “raça” ou “garra” em um campo de futebol. O chamado “carrinho” é uma das primeiras ações que vêm à mente. Trata-se de uma jogada perigosa e violenta, que coloca em risco a integridade física do adversário e que ainda pode ocasionar falta e cartão contra o jogador infrator. Mas as torcidas amam um “carrinho”. Para verificar, basta atentar-se para as reações que vêm das arquibancadas quando um atleta desliza pelo campo em busca da recuperação da bola. E o que dizer em relação às brigas? O enfrentamento físico, o “empurra-empurra” ou mesmo a troca de socos e pontapés por jogadores são frequentemente vistos como símbolos de raça pelos torcedores. É a valorização daquele que “dá o sangue” pelo seu time. Sendo assim, é nítido que tanto no caso do “carrinho” como no do enfrentamento por “vias de fato”, expressão popular que caracteriza a luta corporal, vemos que há elementos de violência que são exaltados no campo de jogo e, principalmente, nas arquibancadas. Isso sem falar nas brigas entre torcidas de times rivais, que, no fundo, representam muitas vezes uma disputa para ver quem é mais “macho” que quem.

Das arquibancadas também percebemos a relação que o futebol tem com o sexo, este enquanto traço da virilidade, conforme descrito há pouco. Quantas vezes já não ouvimos gritos de “Time de viado” em estádios? A expressão tem dois problemas. Primeiro que “viado” está longe de ser o termo mais apropriado para nomear alguém gay. Segundo que está por trás da expressão uma ideia de que ser homossexual é algo ruim e, por isso, dizer que seu adversário é gay tem como intenção ofendê-lo. Tantos outros insultos de cunho sexual são ouvidos em arquibancadas estádios afora, sempre depreciando qualquer tipo de relação sexual entre dois homens. Não os reproduziremos em respeito ao leitor. De todo modo, por meio desses insultos, fica claro que o único tipo de relação aceita é a heterossexual.

Vemos, portanto, que tanto violência quanto sexo, componentes da virilidade, se relacionam de forma direta com o futebol. Como expusemos acima, a sociedade, de uma maneira geral, e ainda mais o meio do futebol, entendem o homem gay como alguém sem virilidade, por defini-lo como delicado e avesso a relações sexuais com mulheres. Logo, as portas do futebol se fecham a esse público.

Fonte: Medium.

De toda forma, mesmo com essa idealização do homem viril, necessariamente hétero, nos campos e arquibancadas, é importante registrarmos que há espaços para resistência e mudança da realidade. Do contrário, seremos atingidos pela mesma inércia demonstrada pela Confederação Sul-americana de Futebol, a Conmebol, quando a Fifa passou a punir as seleções do continente pelo homofóbico grito de “Bicha!” que ecoava nos estádios da região. Segundo reportagem do jornalista Jamil Chade para o jornal O Estado de S. Paulo, publicada em 2016, a entidade sul-americana queixou-se à Fifa de exagero nas punições e argumentou que os gritos faziam parte de um comportamento cultural. Observar que há aspectos homofóbicos dentro do futebol não pode jamais servir para se tentar evitar a punição a quem pratica a homofobia nas arquibancadas.

Voltando aos espaços de resistência, ultimamente têm surgido muitos times gays nos quais os homens homossexuais que gostam de futebol podem praticar o esporte que amam sem ficarem preocupados com ofensas homofóbicas. Essa é uma atitude interessantíssima, pois desafia uma ideia quase que imposta socialmente de que a pessoa ou é gay ou gosta de futebol, nunca podendo um indivíduo masculino ser gay e gostar de futebol ao mesmo tempo.

De toda forma, é necessário ressaltar que essa luta não pode ser apenas dos homossexuais. Imprensa e clubes de futebol têm papel central nessa arena de disputa. Para começar, pensemos na imprensa. Há alguns anos, passou a ser comum no Brasil o grito de “Bicha!” nas arquibancadas no momento em que o goleiro do time visitante ia cobrar um tiro de meta. Hoje, felizmente, os gritos parecem bem menos frequentes. Mas, em 2016, quando o grito ainda era moda, o já citado Professor Flavio de Campos, na mesma reportagem que mencionamos da VICE Brasil, disse algo muito interessante. Para ele, “uma censura do narrador com relação a isso não seria só importante, mas seria obrigatório o posicionamento em situações em que ocorre a homofobia” (CAMPOS, 2016). Ainda na temática do papel da imprensa na discussão sobre homofobia, os jornalistas que escreveram a reportagem para a VICE Brasil, Letícia Naísa e Peu Araújo, colocam em seu texto que “muitas vezes a imprensa se presta também a fazer o serviço inverso, o de colocar panos quentes quando alguma coisa foge ao controle heteronormativo do futebol” (NAÍSA; ARAÚJO, 2016). Esses registros são fundamentais porque mostram que existia há quatro anos, e acreditamos ainda haver nos dias atuais, certa omissão da imprensa esportiva na discussão mais aprofundada sobre homofobia.

Por outro lado, os trabalhos que trazem esse debate à tona precisam ser exaltados. Um que se destaca é a série de reportagens “Futebol Fora do Armário”, da jornalista Gabriela Moreira, veiculada pela ESPN Brasil em 2017. A série aborda o tema da LGBTIfobia tanto no futebol profissional quanto no amador, e aí trata da realidade de vários grupos LGBTI, não apenas o dos homens cis homossexuais.

Outros atores importantíssimos na luta para tornar o ambiente do futebol mais inclusivo são os grandes clubes. Ao longo dos anos, vimos por parte deles um silenciamento nas questões referentes ao combate à homofobia. No entanto, de uns tempos para cá, ainda que com muita resistência, começamos a ver algumas atitudes ganhando corpo. Em 2019, tanto em 17 de maio, dia que marca o combate à LGBTIfobia, quanto em 28 de junho, data em que se celebra o Dia Internacional do Orgulho LGBTI, vários grandes clubes brasileiros se manifestaram em defesa do fim da discriminação contra as pessoas LGBTI. Apesar do gesto ser simples, podemos considerar o avanço evidente.

Outro caso que vale ser mencionado aconteceu em 25 de agosto do mesmo ano, quando, em partida entre Vasco da Gama e São Paulo, pelo Campeonato Brasileiro, o árbitro Anderson Daronco paralisou a partida por conta de cânticos homofóbicos que partiam da torcida vascaína. A atitude do árbitro foi acertada, pois mostra uma intolerância ao preconceito. Vale a pena, no entanto, observar como as pessoas reagem a uma atitude como essa, mesmo quando concordam que não deve haver o grito. Muitos se preocupam apenas com a punição que o cântico homofóbico pode causar ao seu time, especialmente quando há a possibilidade da perda de pontos. Por essa razão foi muito interessante ver que, cinco dias após o ocorrido, conforme matéria publicada pelo site Globoesporte.com, os 20 clubes que disputavam a Série A do Campeonato Brasileiro de 2019 fizeram postagem simultânea contra a homofobia em suas respectivas contas de Twitter. Uma frase se destacava: “Pior que prejudicar o seu time é cometer um crime”.

Clubes de futebol brasileiros fazem 'tuitaço' contra homofobia ...
Fonte: Guia Gay SP.

O torcedor e todas as outras pessoas que estão envolvidas com o futebol precisam entender que o cântico homofóbico é, antes de mais nada, um ato de intolerância, um desrespeito contra alguém que simplesmente vive sua sexualidade de forma diferente da imposta pelos padrões heteronormativos. É necessário entender que pessoas morrem em escala alarmante simplesmente pelo fato de serem homossexuais. É pelo respeito à diversidade que o futebol deve abolir seu modo homofóbico de operar.

 

Referências

CHADE, Jamil. Fifa rejeita pedido da Conmebol para frear punições por homofobia.            O Estado de S. Paulo, 14 out. 2016. Acesso em 29 mar. 2020.

Clubes brasileiros se unem e postam contra a homofobia nas redes sociais: “Não é piada”. Globoesporte.com, Rio de Janeiro, 30 ago. 2019. Acesso em 28 mar. 2020.

Futebol Fora do Armário. Reportagem: Gabriela Moreira. Produção: Cacau Custódio; Clara Gomes; Leandro Carrasco; Rogério Oliveira. ESPN Brasil, 26 jun. 2017, 27 jun. 2017, 28 jun. 2017. Acesso em 27 mar. 2020.

NAÍSA, Letícia; ARAÚJO, Peu. Por que o futebol brasileiro ainda está trancado no armário?.  VICE Brasil, 09 mai. 2016. Acesso em 28 mar. 2020.

Produção audiovisual

Já está no ar o décimo segundo episódio do Passes e Impasses

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O tema do nosso décimo segundo episódio é “Esporte e Cinema”. Com apresentação de Filipe Mostaro e Mattheus Reis, pesquisador do LEME e jornalista da Rádio Globo, gravamos remotamente com Victor Andrade de Melo, professor do Programa de Pós-graduação em Educação da UFRJ e também do programa de Estudos do Lazer da Universidade Federal da Minas Gerais, e Ronaldo Helal, coordenador do LEME e professor titular da UERJ.

O podcast Passes e Impasses é uma produção do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte em parceria com o Laboratório de Áudio da UERJ (Audiolab). O objetivo do podcast é trazer uma opinião reflexiva sobre o esporte em todos os episódios, com uma leitura aprofundada sobre diferentes assuntos em voga no cenário esportivo nacional e internacional. Para isso, traremos sempre especialistas para debater conosco os tópicos de cada programa. Você ama esporte e quer acessar um conteúdo exclusivo, feito por quem realmente pesquisa o esporte? Então não deixe de ouvir o décimo segundo episódio do podcast Passes e Impasses.

No quadro “Toca a Letra”, a música escolhida foi “Na cadência do samba”, de Luis Bandeira.

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Coordenação Geral: Ronaldo Helal

Direção: Fausto Amaro e Filipe Mostaro

Roteiro: Carol Fontenelle e Letícia Quadros

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Apresentação: Filipe Mostaro e Mattheus Reis

Convidados: Ronaldo Helal e Victor Andrade de Melo