Produção audiovisual

Já está no ar o trigésimo oitavo episódio do Passes e Impasses

Acesse o mais novo episódio do podcast Passes e Impasses no SpotifyDeezerApple PodcastsPocketCastsOvercastGoogle PodcastRadioPublic e Anchor.

O tema do nosso trigésimo oitavo episódio é “João Havelange: atleta e dirigente”. Com apresentação de Mattheus Reis e Marina Mantuano, gravamos remotamente com Luiz Guilherme Burlamaqui, doutor em História Social pela Universidade de São Paulo, pesquisador associado do Instituto de Relações Internacionais da USP e professor do Instituto Federal de Brasília.

O podcast Passes e Impasses é uma produção do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte em parceria com o Laboratório de Áudio da UERJ (Audiolab). O objetivo do podcast é trazer uma opinião reflexiva sobre o esporte em todos os episódios, com uma leitura aprofundada sobre diferentes assuntos em voga no cenário esportivo nacional e internacional. Para isso, contamos sempre com especialistas para debater conosco os tópicos de cada programa.

Você ama esporte e quer acessar um conteúdo exclusivo, feito por quem realmente pesquisa o esporte? Então não deixe de ouvir o trigésimo oitavo episódio do Passes & Impasses.

No quadro “Toca a Letra”, a música escolhida foi “Jorge Maravilha“, canção composta por Julinho da Adelaide e interpretada por Chico Buarque.

Passes e Impasses é o podcast que traz para você que nos acompanha o esporte como você nunca ouviu.

Ondas do LEME (recomendações de artigos, livros e outras produções):

Dança das cadeiras: a eleição de João Havelange à presidência da FIFA – Luiz Burlamaqui [livro]

Conversa com JH – Ernesto Rodrigues [documentário]

Jogo duro – a história de João Havelange – Ernesto Rodrigues [documentário]

Equipe

Coordenação Geral: Ronaldo Helal
Direção: Fausto Amaro
Roteiro e produção: Marina Mantuano e Carol Fontenelle
Edição de áudio: Leonardo Pereira (Audiolab)
Apresentação: Mattheus Reis e Marina Mantuano
Convidados: Luiz Guilherme Burlamaqui

Eventos

SUBMISSÕES PRORROGADAS: Seminário Internacional “Agora é com elas” recebe trabalhos até o dia 31 de agosto

Atendendo a pedidos de pesquisadores de todo o país, o Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte (LEME) recebe, até o dia 31 de agosto, resumos expandidos para o seu Seminário Internacional “Agora é com elas”. O prazo original era 15 de agosto.

“Agora é com elas” acontecerá em referência aos 30 anos da primeira Copa do Mundo de Futebol Feminino. Divididos em dois GTs (GT1: História, memórias e resistências e GT2: Futebol feminino nos rastros da profissionalização), os trabalhos devem ter de 7 a 12 mil caracteres e podem estar escritos em Português ou Espanhol. As apresentações dos textos aprovados irão acontecer via Google Meet, nos dias 8 e 9 de novembro.  O evento contará ainda com apresentação de palestras, ao vivo, pelo canal do LEME no Youtube, em programação ainda a ser definida.

Grupos de trabalho

GT 1: História, memórias e resistências

A participação das mulheres no futebol é fenômeno derivado de um processo que envolve fatores diversos relacionados tanto aos aspectos esportivos quanto a um conjunto de reivindicações e lutas das mulheres pela equidade de direitos. Este GT pretende discutir as dimensões históricas e sociais da trajetória do futebol de mulheres no Brasil e em outros países, contemplando a prática esportiva e a dimensão torcedora.

Coordenação: Leda Costa

GT2: Futebol feminino nos rastros da profissionalização

A participação profissional das mulheres no futebol para além dos gramados tem sido objeto de importantes investigações. Este GT se propõe a discutir os obstáculos e horizontes futuros para as mulheres no exercício de algumas funções como, por exemplo, a arbitragem, a ocupação de cargos em Federações e clubes, no jornalismo esportivo, assim como sua presença na pauta de políticas públicas voltadas ao esporte.

Coordenação: Carol Fontenelle

Regras e prazo para submissão de trabalhos

Recebimento de resumos expandidos em Português ou Espanhol: de 04 de junho até 31 de agosto (prazo já prorrogado).

Atenção especial a este item: o resumo expandido deve ter no mínimo 7.000 e no máximo 12.000 caracteres, com espaços, incluindo resumo e bibliografia e deve estar no template do evento, seguindo todas as suas regras de formatação.

Envio de resumos expandidos

O template pode ser baixado aqui.

Devem ser enviados para o e-mail: seminariocopadomundodemulheres@gmail.com

No campo assunto deve ser colocado o nome do GT para qual o trabalho se destina.

O arquivo final deve ser salvo em .doc ou .docx e deve ter o nome+sobrenome do autor principal.

Ex.: Joaodasilva.docx

Quem pode enviar os resumos expandidos?

Graduandos, graduados, mestrandos, mestres, doutorandos e doutores, que vinculem seus textos aos GTs e às áreas de Ciências Sociais, Ciências Sociais Aplicadas, Ciências Humanas, Educação Física, Linguística, Letras e Artes. Não é permitido o envio de mais de um trabalho de um mesmo autor para um mesmo GT. No caso de um autor desejar enviar um trabalho para cada GT, ele deve ser autor principal em um e coautor no outro.

Divulgação dos resumos expandidos aprovados: 6 de setembro

Pagamento de inscrições de trabalhos aprovados

A taxa de inscrição deverá ser realizada a título de doação para uma instituição (ainda a ser escolhida). Só haverá pagamento da referida taxa para os autores que tiverem seus trabalhos aprovados. Caso um mesmo resumo expandido seja escrito por mais de uma pessoa, todos os autores devem fazer o pagamento da inscrição, caso queiram receber certificado online. No momento da apresentação, é permitida a escolha de somente um autor para explanação, que será de 15 minutos, seguida de discussão entre os presentes na sala de reunião do Meet.

Estudantes de graduação: R$ 10.

Demais: R$20.

Prazo de pagamento: 6 a 30 de setembro (informações detalhadas serão comunicadas posteriormente).

Artigos

O torneio de futebol olímpico que merece ser lembrado: Los Angeles, 1984

Nos Jogos Olímpicos de 1984, realizados em Los Angeles, o torneio de futebol passou por uma mudança radical. Atletas profissionais passaram a ser admitidos. Até a Olimpíada anterior, apenas amadores podiam participar. Essa restrição havia sido decisiva para o sucesso dos países comunistas nos torneios de 1952 a 1980. Seus atletas, oficialmente, tinham outras profissões e praticavam o esporte como atividade de lazer, o que era uma falsidade (uma falsidade evidente e comentada às claras, aliás). Eram atletas, na realidade, que se dedicavam muito ao futebol. Estavam em nível comparável ao dos jogadores profissionais dos países capitalistas. E enfrentavam, nas Olimpíadas, seleções formadas por amadores (juniores, muitas vezes). Acontecia o que era óbvio. Hungria, União Soviética, Iugoslávia, Polônia, Alemanha Oriental e Tchecoslováquia foram as seleções campeões olímpicas no período 1952-1980, sendo a Hungria campeã três vezes. Predomínio absoluto dos países que estavam à sombra do regime comunista sediado em Moscou.

Com a mudança de 1984, equipes da América do Sul, da Europa capitalista e até de outras regiões do planeta passariam a ter chances reais de êxito. Isso deveria despertar o interesse dos seus torcedores. Consequentemente, aumentaria o público que acompanhava as partidas nos estádios e, em especial, nas transmissões televisivas. A expectativa era de audiência alta e bons lucros. Um acordo entre o COI e a FIFA, então, extinguiu a distinção entre atletas amadores e profissionais no futebol olímpico. Para a FIFA, que defendia e promovia a expansão do profissionalismo no futebol, foi uma vitória de grande significado. Seu presidente, João Havelange, enfatizava a importância daquela mudança ao falar sobre o acordo com o COI.

Mas para que a hegemonia do futebol comunista não fosse substituída por uma outra hegemonia (a das poderosas seleções da CONMEBOL e da UEFA), criou-se uma outra restrição. Ficou estabelecido que as equipes vinculadas a essas duas entidades não poderiam ter jogadores que já tivessem disputado partidas da Copa do Mundo. Assim, países da África e da Ásia, por exemplo, ganhavam uma vantagem considerável, já que podiam escalar atletas profissionais e com experiência em partidas de Copa do Mundo ou de qualquer outra competição. A disputa, desse modo, ficava mais nivelada. Era necessário promover esse nivelamento para que o torneio fosse, de fato, atraente e mantivesse a audiência alta (algo que não acontecia nos torneios olímpicos de futebol).

Alemanha Oriental – Medalha de ouro em 1976

No Brasil, as novas regras não fizeram surgir maior interesse pelo futebol olímpico. Os torcedores continuaram mais interessados nos campeonatos estaduais do que na seleção que viajaria para os Estados Unidos. O torneio em Los Angeles era considerado uma disputa de importância inferior. Nem a CBF parecia muito atenta aos Jogos Olímpicos. Na primeira convocação dos atletas, foram chamados apenas amadores, como se a antiga restrição ainda existisse. Alguns dias depois, a Confederação divulgou uma outra lista: foi convocada uma seleção com 17 atletas, sendo onze jogadores titulares do Internacional (de Porto Alegre) e mais seis. O técnico, Jair Picerni, havia trabalhado em apenas três clubes paulistas: Ponte Preta, Internacional de Limeira e Santo André. Não era um currículo de peso. Aquela, afinal, era uma seleção que não tinha a admiração da torcida e não inspirava confiança na imprensa.

Na primeira fase, o Brasil estava no grupo C e enfrentou as seleções da Arábia Saudita, Alemanha Ocidental e Marrocos. Foram três vitórias brasileiras. A partida mais difícil foi contra os alemães. O resultado final foi 1 a 0, com um gol de Gilmar Popoca (em cobrança de falta) aos 43 minutos do segundo tempo. Contra a Arábia Saudita, o placar foi 3 a 1. Contra o Marrocos, 2 a 0.

Veio, então, a partida contra o Canadá nas quartas-de-final. Foi quando a seleção brasileira começou a atrair maior atenção. Os canadenses, sem grande tradição futebolística, se mostraram mais fortes do que se esperava. Começaram vencendo, com um gol de Mitchell aos 13 minutos do segundo tempo. O Brasil empatou 14 minutos depois (gol de Gilmar Popoca, que já era tratado como um dos melhores jogadores da seleção). A partida foi para a prorrogação e, depois, para a disputa por pênaltis. Foi a vez de outro Gilmar se destacar (o goleiro). Defendeu duas cobranças e a seleção brasileira venceu por 4 a 2.

No ano seguinte, o futebol do Canadá voltaria a mostrar força. Contando com vários jogadores desse time olímpico de 1984, a seleção canadense ficou em primeiro lugar nas eliminatórias da CONCACAF e se classificou pela primeira vez para uma Copa do Mundo. 

Na semifinal, a adversária do Brasil foi a Itália. A disputa olímpica, enfim, se tornou interessante para os torcedores brasileiros. Comentava-se bastante sobre a possibilidade da seleção chegar à final do torneio de futebol e conquistar, pela primeira vez na história, uma medalha. Os mais animados chegavam a dizer, com exagero, que aquela semifinal era uma revanche da traumática vitória italiana na Copa do Mundo de 1982. A partida foi emocionante. Houve empate em 1 a 1 no tempo regulamentar. Na prorrogação, o Brasil venceu por 1 a 0 e se classificou. Uma medalha, pelo menos, já estava garantida.

Gol do Brasil em Los Angeles (1984)

Na noite de 11 de agosto de 1984, os brasileiros tinham duas finais olímpicas para assistir. No futebol, Brasil contra França. No vôlei, a seleção masculina enfrentaria os Estados Unidos. Havia muita confiança e milhões de televisores ligados por todo o país. O Brasil podia comemorar, naquela noite, duas vitórias que entrariam para a história esportiva nacional.

A decepção foi dupla. A seleção de vôlei norte-americana, com o apoio de sua torcida e enorme confiança, venceu por 3 sets a 0. Na final do torneio de futebol, a França se impôs e venceu por 2 a 0.

O futebol francês passava por uma das suas melhores fases. Menos de dois meses antes, a sua seleção profissional havia sido campeão da Europa. O técnico da seleção olímpica da França era o próprio técnico campeão europeu, Henri Michel, que montou para as Olimpíadas um ótimo time, com jogadores jovens, mas já inseridos no futebol profissional francês. Alguns desses jogadores campeões em Los Angeles foram escalados para a Copa do Mundo de 1986. Entre esses estava o atacante Xuereb, que foi o artilheiro do torneio olímpico com 5 gols (empatado com Cvetkovic, da Iugoslávia).

Gilmar Popoca foi considerado pelo COI o melhor jogador da competição. Era um dos seis convocados que não jogavam no Internacional. Seu clube, naquele ano de 1984, era o Flamengo. Jogou por mais 14 anos e chegou a ser contratado por clubes de Portugal, México e Bolívia. A conquista da medalha de prata em Los Angeles foi a que lhe deu maior projeção.

A decisão foi disputada no Estádio Rose Bowl e teve público de 102.000 pessoas. Outras partidas também tiveram públicos numerosos. Um sucesso indiscutível, para satisfação de João Havelange, que tanto havia defendido as novas regras para o torneio de futebol. No entanto, as emissoras de TV dos Estados Unidos falavam pouco sobre a competição, o que levou Havelange a reclamar publicamente e a exigir uma atitude do presidente do COI, Juan Antonio Samaranch.

Brasil- Medalha de prata em 1984 

Uma novidade marcante foi a presença de nomes famosos do futebol profissional. Além do já citado Henri Michel, o italiano Enzo Bearzot, técnico campeão da Copa de 1982, esteve em Los Angeles. Era o técnico da seleção olímpica da Itália. Esteve em Los Angeles também o camaronês Roger Milla, que havia ficado famoso na Copa do Mundo de 1982 ao marcar o gol de empate de sua seleção contra a Itália. Ele participou do torneio olímpico e até marcou um gol, mas a seleção de Camarões não passou da primeira fase. Henri Michel, Bearzot e Milla foram os pioneiros. Depois vieram outros. E o torneio passou a exibir, principalmente da década de 1990 em diante, atletas e técnicos conhecidos mundialmente (e até campeões da Copa do Mundo). Ronaldo Fenômeno e Messi foram alguns desses. Na Olimpíada de 2016, no Rio de Janeiro, Neymar participou e foi campeão.

E assim o torneio olímpico de futebol perdeu a sua aparência de disputa amadora e de “campeonato das seleções comunistas”. Mas ainda haveria uma última vitória olímpica “vermelha”: a União Soviética, em 1988, venceu o Brasil na final e foi a campeã nos Jogos Olímpicos de Seul. 

A inclusão de atletas profissionais no torneio de 1984 satisfez João Havelange, mas a ideia não era seguir adiante até criar uma competição de tanto prestígio que pudesse ser considerada uma “segunda Copa”. Manter o torneio olímpico abaixo da Copa do Mundo foi uma preocupação constante da FIFA ao longo de várias décadas e assim continua sendo até hoje, com a manutenção de normas restritivas para os atletas dos times masculinos. Atualmente, impõe-se um limite de idade, admitindo-se três exceções.

O torneio olímpico, então, continuou sendo, mesmo com as mudanças de 1984, um torneio cheio de atletas jovens e alguns muito promissores. Promissores como havia sido o goleiro Carlos, que participou da Olimpíada de 1976 e dez anos depois foi titular da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1986. Os jovens promissores em 1984 foram o alemão Brehme (campeão na Copa do Mundo de 1990), o brasileiro Dunga (campeão na Copa do Mundo de 1994) e o italiano Baresi (vice-campeão na Copa do Mundo de 1994), entre outros que também poderiam ser destacados.

Por tudo o que trouxe de novo (atletas profissionais, a primeira medalha brasileira, altíssima audiência televisiva, participação do técnico campeão da última Copa do Mundo,…) e por ter iniciado uma nova fase na história do torneio olímpico de futebol, aquela competição de 1984 merece ser lembrada e relembrada várias vezes. Foi, sem dúvida, uma das mais interessantes.

Produção audiovisual

Já está no ar o trigésimo sétimo episódio do Passes e Impasses

Acesse o mais novo episódio do podcast Passes e Impasses no Spotify*, Deezer*, Apple PodcastsPocketCastsOvercastGoogle PodcastRadioPublic e Anchor.

O tema do nosso trigésimo sétimo episódio é “Mané Garrincha”. Com apresentação de Fausto Amaro e Marina Mantuano, gravamos remotamente com Rafael Casé, pesquisador do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte e professor de Comunicação da UERJ, e Filipe Mostaro, doutor em Comunicação e também pesquisador do LEME.

O podcast Passes e Impasses é uma produção do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte em parceria com o Laboratório de Áudio da UERJ (Audiolab). O objetivo do podcast é trazer uma opinião reflexiva sobre o esporte em todos os episódios, com uma leitura aprofundada sobre diferentes assuntos em voga no cenário esportivo nacional e internacional. Para isso, contamos sempre com especialistas para debater conosco os tópicos de cada programa.

Você ama esporte e quer acessar um conteúdo exclusivo, feito por quem realmente pesquisa o esporte? Então não deixe de ouvir o trigésimo sétimo episódio do Passes & Impasses.

No quadro “Toca a Letra”, a música escolhida foi “Balada nº7”, canção composta por Alberto Luiz e interpretada por Moacyr Franco.

Passes e Impasses é o podcast que traz para você que nos acompanha o esporte como você nunca ouviu.

Ondas do LEME (recomendações de artigos, livros e outras produções):

Hoje é dia de Botafogo – Rafael Casé [livro]

Estrela Solitária – Um Brasileiro Chamado Garrincha – Ruy Castro [livro]

Garrincha x Pelé: futebol, cinema, literatura e a construção da identidade nacional – Victor Andrade de Melo [artigo]

Pra frente, Brasil! Do maracanazzo aos mitos de Pelé e Garrincha , a dialética da ordem e da desordem (1950-1983) – Denaldo Archone de Souza [livro]

Garrincha: A Flecha funiô – Mestiçagem, Futebol-Arte e Crônicas pioneiras – Mario Lima [livro]

Tomar ou não tomar o Chicabon?, eis a questão – Nelson Rodrigues [crônica]

Mané e o sonho – Carlos Drummond de Andrade [coluna]

Pelé Eterno [filme]

Garrincha, alegria do povo [filme]

Garrincha, estrela solitária [filme]

Garrincha, a Flecha fulniô das Alagoas – Mestiçagem, Futebol-Arte e Crônicas pioneiras- Mário Lima [livro]

Equipe

Coordenação Geral: Ronaldo Helal
Direção: Fausto Amaro
Roteiro e produção: Marina Mantuano, Fausto Amaro e Carol Fontenelle
Edição de áudio: Leonardo Pereira (Audiolab)
Apresentação: Fausto Amaro e Marina Mantuano
Convidados: Filipe Mostaro e Rafael Casé

Artigos

Quando a pira se apagar em Tóquio, desafio do COI é manter a chama olímpica acesa

Dois anos atrás, nos arredores do templo budista Senso-ji, o mais antigo de Tóquio, máquinas faziam um ruído que afrontava a tranquilidade característica do local e da religião asiática. O mundo acreditava que os Jogos Olímpicos aconteceriam em julho de 2020, como era o previsto, então a obra não tinha tempo a perder.

O objetivo era recapear todos os 42 quilômetros de ruas por onde passariam os maratonistas durante os Jogos. Como os meses de julho e agosto são os mais quentes do ano na capital japonesa, havia o receio, por parte dos organizadores, de que o calor emitido pelo asfalto pudesse causar mal-estar nos atletas. Nos eventos-teste, vários corredores não se sentiram bem. O novo revestimento, portanto, dissiparia melhor o calor. Mutirões avançavam com o trabalho em todas as madrugadas, o único momento em que a frenética cidade permitia uma tarefa como essa.

No entanto, o esforço se tornaria inútil. Dois meses depois do início das obras, a maratona foi transferida para a cidade de Sapporo, no norte do Japão e de clima mais fresco. O novo asfalto virou uma cena incompleta e lamentável, símbolo do desperdício e síntese do dilema atual em torno dos Jogos Olímpicos: Tudo isso vale a pena? E para quem?

Paris e Los Angeles só vão sediar as edições de 2024 e 2028, respectivamente, porque o Comitê Olímpico Internacional (COI) chegou a um acordo com as cidades. Brisbane, na Austrália, só foi escolhida sede das Olimpíadas de 2032 por ter sido candidata única.

Quem chega para a festa só de quatro em quatro anos (ou em cinco por causa da covid-19) pode até não ter percebido antes, mas os dezoito dias de Jogos Pandêmicos de Tóquio trazem, como nunca antes, a inevitável pergunta: “Que diabos estamos fazendo aqui, no mais próximo do apocalipse que já vivemos?”. Nem mesmo os recordes e atuações de gala dos atletas podem calar essa pergunta.

Japonesa protesta contra modelo atual dos Jogos Olímpicos. Movimento “Nolympics” (“Não às Olimpíadas) ganhou força na última década. Foto: Hiro Komae / AP

Apenas 22% dos japoneses acham que os Jogos deveriam acontecer. A olimpíada que já seria a mais cara da história sem a pandemia deve ultrapassar R$ 90 bilhões com os gastos do adiamento por um ano e da adesão de protocolos sanitários. No Rio de Janeiro em 2016, foram R$ 41 bilhões.

O COI ganha muito e devolve pouquíssimo para levar sua “Família olímpica” em turnê a cada quatro anos. A cidade-sede, as autoridades locais e a população local, através de impostos, pagam pelas obras e estádios, enquanto o COI tem lucrado bilhões com a venda de direitos de transmissão para as TVs do mundo, ingressos e cotas para empresas patrocinarem o evento. Até os milhares de voluntários são uma forma de o COI não assumir tantas despesas.

Diante desse acordo tão desequilibrado entre as partes envolvidas, demorou até demais para políticos e cidadãos se movimentarem para evitar que suas cidades se candidatassem a receber os Jogos. A chama olímpica corre risco de se apagar, já que a honra de sediar os Jogos desapareceu, ainda mais com os recentes escândalos de compra de votos nos processos de escolha das olimpíadas no Rio de Janeiro e em Tóquio.

Resta de legítimo apenas o desejo de atletas de participarem do maior evento comercial do mundo camuflado de competição esportiva. Mas até que ponto a presença deles nos Jogos é para satisfazer esses interesses comerciais, em vez de um reconhecimento pelas inúmeras gotas de suor despejadas em treinamentos severos? As performances e os recordes são a força motriz da engrenagem que gera bilhões de dólares a patrocinadores e ao COI. Em troca, uma medalha. É muito pouco. Grande estrela dos Jogos de Tóquio, a ginasta Simone Biles, vivendo essa pressão desde criança, cansou, priorizou fazer apenas o que queria e deixou de lado algumas provas em que competiria. A prova de que o sistema está falido.

O objetivo não é acabar com os Jogos Olímpicos. O dia mais feliz da minha vida foi no Maracanã, em 5 de agosto de 2016, quando assisti à cerimônia de abertura no Rio de Janeiro. Mas da forma como são atualmente, as olimpíadas não despertam o melhor de nós.

Filmes

A pele é de quem a arrepia

As camisas criam peles. Tornar-se torcedor de futebol pressupõe uma educação sentimental: um aprendizado do sentir. E para entender isso, nada melhor do que uma topografia corporal. Porque é sobre a carne que se reivindica a invenção, o estigma vira estima. Onde a verdade se desnuda e as paixões se congelam. Nessas tramas anatômicas, a tinta brota. Tatuagens que não são ornamentos, são mensagens. Sentimentos que se anunciam na pele.

Como parte do meu trabalho de campo antropológico, tenho acompanhado hinchas do Club Atlético Belgrano, organizados em dois coletivos: Murales CAB e a barra Los Piratas Celestes De Alberdi. Estou interessado em suas experiências cotidianas em tempos de pandemia. Porque nem com a proibição de público nos estádios, o amor pelo Belgrano descansa. O foco nas tatuagens tem a ver com uma confissão feita pelo sociólogo Jock Young, que recomenda substituir “uma sociologia da correlação por uma sociologia da pele”.


Imagens: Nicolás Cabrera

Música: DjYinyer

Produção e edição: Nicolás Cabrera e DjYinyer

Agradecimentos

A meu amigo e irmão DjYinyer, pelo talento, a criatividade e as montanhas.

A Murales CAB e a Los Piratas Celestes De Alberdi, pela cotidianidade e esse amor que nos liga.

Ao Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte, pelo espaço e a resistência. Viva a educação pública do Brasil.

Artigos

O novo lema olímpico e suas implicações

O lema citius, altius, fortius (mais rápido, mais alto, mais forte) é amplamente reconhecido e reverenciado no Movimento Olímpico. Foi adotado em 1894 quando o Barão francês Pierre de Coubertin instituiu o Comitê Olímpico Internacional (COI). Ele pegou emprestado esse lema de seu compatriota Henri Didon, um padre dominicano que Coubertin ouviu recitar a frase em 7 de março de 1891 durante a cerimônia de premiação de um evento esportivo na Escola Albert Le Grand, em Arcueil, perto de Paris, na qual ele era o reitor. Impressionado, Coubertin citou o futuro lema olímpico em uma reportagem publicada na revista Les Sports Athlétiques alguns dias depois.

Barão de Coubertin, responsável por introduzir o lema olímpico. Fonte: Olimpíada todo dia

Em seu website, o COI afirma que o lema olímpico “resume uma filosofia de vida ou um código de conduta” que “incentiva os atletas a darem o seu melhor durante as competições”. Além disso, de acordo com a Carta Olímpica, a mesma “expressa às aspirações do Movimento Olímpico”. O COI esclarece em seu site que o lema olímpico compreende não apenas um significado esportivo e técnico, mas também uma perspectiva moral e educacional. Nesse sentido, Coubertin já havia dito em 1929 que “a chamada sonora” dessas três palavras e os enormes esforços para melhorar o rendimento são necessários “para a vida esportiva e as proezas excepcionais indispensáveis ​​à atividade geral”. Assim, o lema olímpico implica uma postura perfeccionista sobre a vida humana com ênfase na excelência individual.

A persistente pandemia de coronavírus gerou uma mudança imprevista e incomum no lema olímpico. Perturbado por seus efeitos sobre o Movimento Olímpico e motivado pelas reformas que vem promovendo desde sua eleição como presidente do COI em 2013, o alemão Thomas Bach propôs em março deste ano “complementar este lema adicionando, após um hífen, a palavra juntos”, para o qual evocou a palavra latina communis.

Sua proposta, realizada durante o discurso de aceitação de sua reeleição como Presidente do COI, reconhece que “aprendemos do jeito mais difícil durante esta crise do coronavírus que podemos estar de acordo com nosso lema olímpico ‘mais rápido, mais alto, mais forte’, no esporte e na vida, somente se trabalharmos juntos em solidariedade”. Encorajando seus colegas do COI a imaginar metas mais ambiciosas para o mundo pós-coronavírus, Bach proclamou: “Precisamos de mais solidariedade dentro das sociedades e entre as sociedades e isso se tornou óbvio no início do coronavírus, quando se pôde ver que o fosso social estava se ampliando”. Prosseguiu explicando que “o mundo é tão interdependente que ninguém consegue mais resolver os grandes desafios sozinho” e insistiu que sua proposta expressa “essa necessidade de solidariedade”. Não surpreende que, quase um século antes, Coubertin disse que, no Olimpismo, a filosofia constituinte do Movimento Olímpico, “tudo gira em torno das ideias obrigatórias de continuidade, interdependência e solidariedade”.

No mês seguinte, em uma reunião virtual, o comitê executivo do COI endossou a proposta de Bach e decidiu submetê-la aos seus membros para consideração durante a assembleia geral a ser realizada antes do início dos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020. Já é dado como certo que o novo lema olímpico será aprovado com entusiasmo. Por um lado, explicita que o esporte, a prática social estruturante do Movimento Olímpico, é um projeto comunitário que exige reconhecimento, cooperação e cuidado dos adversários. Por outro lado, enfatiza o caráter ecumênico do Movimento Olímpico, assim como sua aspiração, conforme consta na Carta Olímpica, de “favorecer o estabelecimento de uma sociedade pacífica e comprometida com a manutenção da dignidade humana”. Uma preocupação central do Olimpismo é a criação de uma communitas de iguais morais que respeitem suas diferenças. Desta forma, o Olimpismo propõe, tomando emprestado livremente do filósofo francês Emmanuel Levinas, o reconhecimento celebrativo da alteridade e nos convida a cultivá-la no caminho compartilhado em direção à excelência.

A Sessão do Comitê Olímpico Internacional (COI) aprovou a mudança no lema olímpico. Foto: IOC/Greg Martin

O novo slogan olímpico resume melhor, esclarece e torna muito mais coerente a ideologia olímpica. É razoável esperar que o COI, como líder do Movimento Olímpico, se esforce para torná-lo realidade e o utilize para orientar suas políticas e iniciativas. Por isso, também é razoável esperar que o COI indique claramente sua posição sobre os próximos Jogos Olímpicos de Inverno de Pequim 2022 e a repressão violenta por parte das autoridades chinesas contra as pessoas uigures e outras minorias predominantemente muçulmanas em Xinjiang. Um setor da comunidade internacional argumenta que o genocídio está sendo cometido contra essas minorias e que mais de um milhão de pessoas foram transferidas para prisões e campos de doutrinação. Vale a pena perguntar o lugar dessas minorias no “juntos” do novo lema olímpico. O que deve implicar a solidariedade invocada por Bach para justificar tal acréscimo no caso dessas minorias? Imputando a inação do COI, o antropólogo cultural estadunidense John J. MacAloon declarou recentemente que os verdadeiros movimentos sociais se levantam e se opõem a ele. Ver-se-á se o COI, estimulado pelo novo lema olímpico e pelos demais preceitos, se comporta dessa forma.


Texto originalmente publicado no site Página 12 no dia 21 de julho de 2021

Tradução: Eduardo Ribeiro e Fausto Amaro

Eventos

ATENÇÃO: termina dia 15 de agosto o prazo de envio de trabalhos para o Seminário Internacional “Agora é com elas”

O Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte (LEME) recebe, até dia 15 de agosto, resumos expandidos para o seu Seminário Internacional “Agora é com elas”, em referência aos 30 anos da primeira Copa do Mundo de Futebol Feminino. Divididos em dois GTs (GT1: História, memórias e resistências e GT2: Futebol feminino nos rastros da profissionalização), os trabalhos devem ter de 7 a 12 mil caracteres e podem estar escritos em Português ou Espanhol. As apresentações dos textos aprovados irão acontecer via Meet, nos dias 8 e 9 de novembro. O evento contará ainda com palestras, ao vivo, pelo canal do LEME no Youtube, em programação ainda a ser definida.

Grupos de trabalho

GT 1: História, memórias e resistências

A participação das mulheres no futebol é fenômeno derivado de um processo que envolve fatores diversos relacionados tanto aos aspectos esportivos quanto a um conjunto de reivindicações e lutas das mulheres pela equidade de direitos. Este GT pretende discutir as dimensões históricas e sociais da trajetória do futebol de mulheres no Brasil e em outros países, contemplando a prática esportiva e a dimensão torcedora.

Coordenação: Leda Costa

GT2: Futebol feminino nos rastros da profissionalização

A participação profissional das mulheres no futebol para além dos gramados tem sido objeto de importantes investigações. Este GT se propõe a discutir os obstáculos e horizontes futuros para as mulheres no exercício de algumas funções como, por exemplo, a arbitragem, a ocupação de cargos em Federações e clubes, no jornalismo esportivo, assim como sua presença na pauta de políticas públicas voltadas ao esporte.

Coordenação: Carol Fontenelle

Regras e prazo para submissão de trabalhos

Recebimento de resumos expandidos em Português ou Espanhol: de 04 de junho a 15 de agosto de 2021.

Atenção especial a este item: o resumo expandido deve ter no mínimo 7.000 e no máximo 12.000 caracteres, com espaços, incluindo resumo e bibliografia e deve estar no template do evento, seguindo todas as suas regras de formatação.

Envio de resumos expandidos

O template pode ser baixado aqui.

Devem ser enviados para o e-mail: seminariocopadomundodemulheres@gmail.com

No campo assunto deve ser colocado o nome do GT para qual o trabalho se destina.

O arquivo final deve ser salvo em .doc ou .docx e deve ter o nome+sobrenome do autor principal.

Ex.: Joaodasilva.docx

Quem pode enviar os resumos expandidos?

Graduandos, graduados, mestrandos, mestres, doutorandos e doutores, que vinculem seus textos aos GTs e às áreas de Ciências Sociais, Ciências Sociais Aplicadas, Ciências Humanas, Educação Física, Linguística, Letras e Artes. Não é permitido o envio de mais de um trabalho de um mesmo autor para um mesmo GT. No caso de um autor desejar enviar um trabalho para cada GT, ele deve ser autor principal em um e coautor no outro.

Divulgação dos resumos expandidos aprovados: 6 de setembro

Pagamento de inscrições de trabalhos aprovados

A taxa de inscrição deverá ser realizada a título de doação para uma instituição (ainda a ser escolhida). Só haverá pagamento da referida taxa para os autores que tiverem seus trabalhos aprovados. Caso um mesmo resumo expandido seja escrito por mais de uma pessoa, todos os autores devem fazer o pagamento da inscrição, caso queiram receber certificado online. No momento da apresentação, é permitida a escolha de somente um autor para explanação, que será de 15 minutos, seguida de discussão entre os presentes na sala de reunião do Meet.

Estudantes de graduação: R$ 10.

Demais: R$20.

Prazo de pagamento: 6 a 30 de setembro (informações detalhadas serão comunicadas posteriormente).

Artigos

Humano, demasiado humano

Há já algum tempo as mesas de bar passaram a abarcar em sua fauna dois novos tipos antagônicos: os críticos e entusiastas do VAR – sigla em inglês para Video Assistant Referee, também conhecido em bom português como árbitro de vídeo –, novidade que alterou a dinâmica do futebol como nenhuma jamais o fizera.

Pênaltis marcados ou não em campo e o silêncio do VAR | Blogs - ESPN
Fonte: ESPN.

Em meio a uma época pautada pelo ethos polarizador das redes sociais, o debate entre tais figuras geralmente gravita ao redor de um par de interpretações dicotômicas sobre a natureza mesma do esporte bretão e sua (des)necessária adequação ao horizonte tecnológico vigente. De um lado, encontramos aqueles apaixonadamente avessos à intervenção externa ante o que acontece no interior das quatro linhas, espaço assumido então como um universo encerrado em si mesmo durante o acontecimento da partida. Segundo essa perspectiva, a beleza do jogo residiria justamente no fato de ele não trazer intrinsecamente consigo um ideal imaculável de justiça, de modo que os eventos que se desenrolam em campo se converteriam em fecunda metáfora de nossa existência, com seus inexoráveis dramas e reviravoltas. Os caprichosos rumos da bola prescindiriam, pois, de quaisquer correções exógenas. Não raro, o raciocínio apela aqui para casos sedutores: afinal, quão menos graciosa seria a história ludopédica sem o terceiro gol inglês na final da Copa do Mundo de 1966, oficialmente convertido por Geoff Hurst (contrariando a presumida possibilidade de a bola não ter cruzado por completo a linha fatal), e, acima de todas, se não houvesse La Mano de Dios, inventiva solução encontrada num átimo por Diego Armando Maradona para dar início à vingança alviceleste contra os britânicos na Copa do Mundo de 1986, após o trauma infligido ao espírito de nossos vizinhos pela derrota militar nas Malvinas – selada logo em seguida com a maior dentre todas as jogadas individuais.

Sintetizando essa primeira posição em uma espécie de provocação rodrigueana, teríamos o seguinte: o futebol deveria mesmo abdicar de sua liberdade poética, ainda que sob o risco de cercear a potencialidade do manancial que permitiu a um mortal como Maradona enfim transmutar-se em mito perene? A indagação formulada pode até soar bonita, mas a muitos não convence: mesmo que composto por fãs do Pibe, um segundo grupo não compreende as razões pelas quais logo o mais popular dos esportes, com suas cifras e investimentos incalculáveis ao dispor, deveria voluntariamente optar pela obsolescência em pleno século XXI, quando diversas modalidades garantem sua credibilidade ao incorporar tecnologias passíveis de corrigir eventuais equívocos em suas competições. Ora, uma falha humana ajudar a decidir uma partida de Copa do Mundo na distante década de 1960, eternizada por filmagens ainda em preto e branco, seria uma coisa até compreensível; outra muito distinta seria episódio similar ocorrer na era das múltiplas câmeras e ângulos à mão, capazes de desmoralizar tomadas de decisão incorretas em tempo real. Exemplos anedóticos em favor da tese também abundam: que o diga Frank Lampard, cuja passagem por sua seleção ficou marcada pelo gol flagrantemente legítimo ignorado nas oitavas de final de uma já moderna edição de Copa do Mundo, em 2010 (ironias do destino: contra a mesma Alemanha vitimada por seus predecessores em Wembley havia quarenta e quatro anos).

Por fim, cumpre lembrar que nesta celeuma cabem observações à margem da bolha algorítmica mais ampla, alertando-nos para problemas, digamos, mais prosaicos: Lucio de Castro, notável jornalista investigativo da Agência Sportlight, lembra-nos que a instituição do VAR, posto que paliativa e apesar dos pesares, tende a servir como um possível sistema de feios e contrapesos (analogamente ao que deveria suceder em regimes democráticos saudáveis – e saudosos) contra as investidas tanto de um mercado de apostas cada vez mais estruturado quanto do submundo da máfia de manipulação de resultados – a propósito, alguém consegue determinar exatamente as fronteiras e zonas de influência entre um e outro…?

Hoje parece consenso que os principais campeonatos deveriam lançar mão da ferramenta desde seus apitos inaugurais até os derradeiros. Recentemente, a Conmebol foi alvo de críticas (não nos diga!) por prever a utilização do VAR apenas a partir das oitavas de final de sua principal copa entre clubes, a Libertadores da América. De todo modo, eis o que ora nos interessa: se errar é humano, o VAR, ao contrário da suposta máquina fria e precisa que muitos pintavam lá atrás, demonstra a cada rodada que também o é. Com efeito, a completa supressão de controvérsias no reino do futebol (tão temida por uns, tão desejada por outros) queda improvável. Recorramos a dois veredictos decretados após consulta ao árbitro de vídeo na última semana, ambos durante as oitavas de final do referido certame latino-americano.

Numa Bombonera reduzida a um estádio qualquer sem a pulsação de sua hinchada devido à pandemia de covid-19, o Boca Juniors recebeu o Atlético-MG e, aos trinta e quatro minutos da etapa inicial, teve um gol de Diego González anulado (não sem muita demora e confusão) graças à revisão levada a termo no visor disponível à linha lateral pelo árbitro de campo, o colombiano Andres Rojas. Após se valer de uma inspeção minuciosa propiciada pelo recurso tecnológico, Rojas assinalou uma falta (anterior ao desfecho da jogada) de Briasco, atacante xeneize, sobre Nathan Silva, configurada por um suposto empurrão nas costas do zagueiro atleticano quando este saltava com o intuito de afastar pelo alto a bola que havia sido alçada na área. Houve acerto? A intensidade do contato sutil teria sido suficiente para deslocar indevidamente o defensor brasileiro? Sucessivas reavaliações talvez não consigam resolver a matéria.

Na Argentina, país em que a cobertura esportiva costuma assumir uma verve passional, o lance foi majoritariamente tratado como um erro patente que prejudicou o clube local; pelas bandas de cá, por seu turno, a cobertura midiática concedeu algum espaço a ressalvas e ponderações. O cenário me parece ambíguo justamente porque aberto à interpretação e, portanto, à boa e velha dimensão humana: creio que não haja VAR apto a encerrar o caso, conquanto possa — e deva — lançar luzes sobre os pormenores da jogada. A Conmebol discorda: Rojas e Derlis Lopes, que assessorava aquele pelo VAR, foram suspensos do quadro da entidade por tempo indeterminado.

Já no confronto de ida entre Cerro Porteño e Fluminense, realizado em Assunção, o que se viu foi negativamente impressionante: não obstante o domínio imposto desde o início pelo time carioca ao adversário, foram os paraguaios quem abriram o placar aos quarenta minutos do primeiro tempo mediante tento do veterano centroavante Boselli. Ou melhor: teriam aberto, não fossem a anulação determinada pelo assistente e sua bizarra chancela por parte dos responsáveis pela análise do vídeo ao indicarem um impedimento que nunca houve. No dia seguinte, a Conmebol divulgou em seu canal no YouTube um vídeo em que podemos acompanhar os diálogos travados entre os profissionais da arbitragem à ocasião: ao traçar linhas imaginárias que levaram em consideração o marcador mais próximo do atacante do Ciclón (em relação ao qual este estaria impedido), a presença de Samuel Xavier, lateral-direito tricolor que habilitava todos os adversários por estar mal posicionado, ainda que distante da disputa no meio da área, foi sumariamente ignorada na parte inferior da imagem. Beneficiada pelo erro – embora nada tenha a ver com isso –, a equipe das Laranjeiras fez jus à sua superioridade no segundo tempo e encaminhou sua provável passagem para as quartas de final, derrotando o oponente fora de casa com uma convincente vitória por 0 x 2. Sem embargo, o Cerro Porteño solicitou, em dura nota à Conmebol, não apenas a expulsão imediata dos árbitros envolvidos na trapalhada, mas a anulação da partida. Enquanto esta medida extrema dificilmente seria adotada, a consequência aos envolvidos na deliberação arbitral foi a mesma imposta à dupla que atuou na Bombonera: o bandeirinha e a equipe de vídeo escalados para o duelo na capital paraguaia foram afastados de suas funções por tempo indeterminado após a confederação assumir publicamente o erro, e passarão por reciclagem enquanto cumprem a penalidade.

Cerro Porteño pede à Conmebol anulação de jogo com Fluminense após erro do  VAR | LANCE!
Fonte: Lance!

Alguém poderia afirmar que imbróglios como os descritos acima só podem ganhar corpo na periferia do capitalismo futebolístico: na Europa, para onde tudo converge, a profissionalização dos árbitros no mais alto nível – e sua consequente capacitação contínua –, além de eliminar as revisões intermináveis (e por vezes indevidas) com as quais infelizmente convivemos na América Latina, acima de tudo impediria que equívocos evidentes prosperassem a ponto de macular confrontos agudos em torneios sediados no Velho Mundo. A estes, a semifinal da última Eurocopa entre Inglaterra e Dinamarca, realizada no mesmo terreno londrino que coroou Hurst por um possível gol fantasma em 1966, pode ter sido um banho de água fria: se é verdade que os anfitriões foram melhores que os nórdicos, também o é que o passaporte para a final, na qual viriam a ser derrotados pela Itália, foi carimbado em virtude de um pênalti para lá de discutível anotado sobre Sterling já na prorrogação – não o vi na hora como não o verei em nenhum replay –, criando ensejo para o gol decisivo de Harry Kane (no rebote da cobrança defendida pelo goleiro Schmeichel). Dito de modo expresso: o VAR veio para ficar – e estou entre aqueles que o saúdam, pois há erros e erros –, mas não será ele a suprimir definitivamente algumas polêmicas que nos animam enquanto torcedores – e estou entre aqueles que, curiosa e simultaneamente, comemoram as limitações inerentes à tecnologia atual. O luxuoso auxílio ainda pode ser aperfeiçoado; os protocolos que o acompanham merecem ser refinados à luz da experiência adquirida; os árbitros devem ser atendidos em suas reivindicações por uma qualificação sistemática (urge que as condições estruturais para tanto sejam fornecidas pelas federações); mas nada disto haverá de implicar a extinção dos debates públicos de botequim por um fator incontornável: a despeito de todo e qualquer cérebro eletrônico, o futebol segue humano, demasiado humano. Que assim permaneça.

Produção audiovisual

Já está no ar o trigésimo sexto episódio do Passes e Impasses

Acesse o mais novo episódio do podcast Passes e Impasses no Spotify*, Deezer*, Apple PodcastsPocketCastsOvercastGoogle PodcastRadioPublic e Anchor.

O tema do nosso trigésimo sexto episódio é “Gilberto Freyre e o futebol”. Com apresentação de Mattheus Reis e Abner Rey, gravamos remotamente com Tiago Maranhão, mestre em Ciência Política pela Universidade Federal de Pernambuco, mestre e doutor em História pela Vanderbilt University e professor de História da América Latina no Tougaloo Colllege, em Mississippi, e Diano Albernaz Massarani, doutor pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal Fluminense.

O podcast Passes e Impasses é uma produção do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte em parceria com o Laboratório de Áudio da UERJ (Audiolab). O objetivo do podcast é trazer uma opinião reflexiva sobre o esporte em todos os episódios, com uma leitura aprofundada sobre diferentes assuntos em voga no cenário esportivo nacional e internacional. Para isso, contamos sempre com especialistas para debater conosco os tópicos de cada programa.

Você ama esporte e quer acessar um conteúdo exclusivo, feito por quem realmente pesquisa o esporte? Então não deixe de ouvir o trigésimo sexto episódio do Passes & Impasses.

No quadro “Toca a Letra”, a música escolhida foi “Jogo de bola”, canção composta por Chico Buarque.

Passes e Impasses é o podcast que traz para você que nos acompanha o esporte como você nunca ouviu.

Ondas do LEME (recomendações de artigos, livros e outras produções):

A invenção do país do futebol – Ronaldo Helal, Antônio Jorge Soares e Hugo Lovisolo [livro]

Pelé: o nascimento de uma lenda (2016) [filme]

Casa Grande e Senzala – Gilberto Freyre [livro]

Foot-ball mulato – Gilberto Freyre [livro]

Sobrados e mucambos – Gilberto Freyre [livro]

Equipe

Coordenação Geral: Ronaldo Helal
Direção: Fausto Amaro e Filipe Mostaro
Roteiro e produção: Abner Rey, Fausto Amaro e Carol Fontenelle
Edição de áudio: Leonardo Pereira (Audiolab)
Apresentação: Mattheus Reis e Abner Rey
Convidados: Tiago Maranhão e Diano Massarani