Produção audiovisual

Já está no ar o sexto episódio do Passes e Impasses

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O tema do nosso sexto episódio é “Ativismo torcedor”. Com apresentação de Filipe Mostaro, recebemos no nosso programa Irlan Simões, mestre em comunicação pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, pesquisador do LEME e criador do podcast Na Bancada e Cleber Neto, membro ativo do movimento Esquerda Vascaína e atualmente é professor na rede pública de ensino.

O podcast Passes e Impasses é uma produção do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte em parceria com o Laboratório de Áudio da UERJ (Audiolab). O objetivo do podcast é trazer uma opinião reflexiva sobre o esporte em todos os episódios, com uma leitura aprofundada sobre diferentes assuntos em voga no cenário esportivo nacional e internacional. Para isso, traremos sempre especialistas para debater conosco os tópicos de cada programa. Você ama esporte e quer acessar um conteúdo exclusivo, feito por quem realmente pesquisa o esporte? Então não deixe de ouvir o sexto episódio do podcast Passes e Impasses.

No quadro “Toca a Letra”, trouxemos a música “Camisas Negras”, a música escolhida ecoa nas arquibancadas de São Januário e faz menção ao Clube de Regatas Vasco da Gama ter sido pioneiro na luta por diversas causas políticas e sociais.

Passes e Impasses é o podcast que traz para você que nos acompanha o esporte como você nunca ouviu.

Coordenação Geral: Ronaldo Helal
Direção: Fausto Amaro e Filipe Mostaro
Roteiro: Marina Mantuano e Fausto Amaro
Produção: Fausto Amaro e Marina Mantuano
Edição de áudio: Leonardo Pereira (Audiolab)
Apresentação: Filipe Mostaro
Convidados: Irlan Simões e Cleber Neto.

Artigos

A insensatez e a razão do torcedor

Em tempos de fim do Campeonato Brasileiro e com o Flamengo já campeão desde as últimas rodadas e se preparando para o Mundial de Clubes, tenho pensado sobre o sentido de “torcer” por um time de futebol. Se seguirmos por uma linha utilitarista defendida pelos filósofos Jeremy Bentham e John Stuart Mill, nos séculos XVIII e XIX, portanto antes do advento do futebol, poderíamos especular que o ato de torcer produziria a maior quantidade de bem-estar possível para aqueles que assim o fazem. Isso principalmente quando seus times vencem. Ainda assim, a explicação carece de um sentido racional anterior. Por que torcedores sentem prazer quando seus times vencem e ficam tristes quando perdem?

Sou rubro-negro de berço. Já me vi várias vezes questionando este sentimento que me fez, por exemplo, adquirir um rádio de ondas curtas para acompanhar o Flamengo em um período dos anos 1980, quando estudava em Nova York. Minha relação familiar com a instituição do Flamengo nunca foi suficiente para explicar este arrebatamento.

Um antropólogo alemão, amigo do meu grupo de pesquisa da Uerj, Martin Curi, disse certa vez, ainda que brincando, que só os torcedores sabem verdadeiramente o que é o amor. Apesar do exagero, a frase nos leva à reflexão.

Por que torcemos por um time de futebol? Por que gritamos e choramos diante da televisão ou em um estádio? Seria mesmo um tipo de amor? E que espécie de amor seria esse, se é que possível formular tal questão? Estas são reflexões que nunca nos fazemos. Simplesmente sentimos.

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Fonte: maquinadoesporte.uol.com.br

De fato, visto de longe parecemos fazer parte de uma nau de insensatos, tal como a colocou em seu poema satírico o humanista Sebastian Brant no fim do século XV, para criticar os excessos e vícios da sociedade. Afinal de contas, o torcedor é sempre “excessivo”, um fanático no sentido amplo do termo. Torcer se contorcendo e, muitas vezes, distorcendo a realidade, faz parte deste universo de emoções exacerbadas, que o bom senso recomenda que não extrapolem o momento. Estranhas emoções para aqueles que não a sentem. Naturais emoções para os de dentro, os torcedores de futebol.

A comemoração dos rubro-negros com a conquista da Libertadores promoveu um estado de êxtase que levou uma multidão às ruas do centro do Rio de Janeiro para receber o time. Atitude que pode ter levado os que não fazem parte do universo futebolístico a julgarem tudo aquilo como algo insensato.

Mas existiria uma razão para esta “insensatez”? Como explicar tamanha comoção? A história do clube, suas conquistas, seus ídolos e heróis geram uma noção de pertencimento, compartilhamento e de laços identitários muito fortes. Mais importante ainda é observamos que no Brasil dizemos que somos o time e não que torcemos por ele. Daí o “eu sou Flamengo” ou “eu sou Vasco” etc. Talvez, nos laços identitários e de pertencimentos possamos seguir um caminho promissor para a compreensão deste envolvimento

Da mesma forma que estranhamos o que não faz parte da nossa cultura, os que não torcem para time algum tendem a julgar com as lentes de sua razão esta paixão, aparentemente irracional. Para os que estão dentro, o torcer é algo inerente as suas vidas e desde que se tenha tolerância, a nau dos insensatos não faz mal algum nem aos seus tripulantes, nem ao outros.

Estas reflexões merecem ser mais bem pesquisadas para conseguirmos um dia entender este sentimento que permeia a vida de muita gente no Brasil e ao redor do planeta.

*Artigo publicado originalmente no Globo no dia 06 de dezembro de 2019.

Artigos

E agora, José?

26 de maio de 1999. Camp Nou, Barcelona. Mais de noventa mil pessoas fixavam seus olhares em David Beckham, posicionado, aos 48 minutos do segundo tempo, para cobrança de novo escanteio a favor do Manchester United. A cena ganhava contornos de déjà vu: apenas um par de minutos antes, o então jovem meio-campista alçara a bola, daquela mesmíssima posição, na área do rival Bayern de Munique, onde caminhos imponderáveis fizeram de Teddy Sheringham o autor do gol de empate em uma partida prestes a se tornar histórica. Estava em disputa, à ocasião, a Liga dos Campeões da UEFA. Os bávaros, ao verem se esvair a vantagem mínima que preservavam desde falta cobrada por Basler no contrapé de Peter Schmeichel, aos seis minutos da primeira etapa, sentiram o golpe. Não bastasse o súbito revés, que abria as portas para os desgastes físico e psicológico de uma prorrogação em tais condições, lá estava uma vez mais a cabeleira loira do prodígio inglês naquele fatídico vértice do campo de jogo. Tão veloz quanto inesquecível, recordo a sequência como registro digno de película: o toque de elegância no cruzamento, o desvio de cabeça do recém-algoz Sheringham (suficiente apenas para que a bola passasse rente à trave defendida por Oliver Kahn) e a conclusão instintiva, como uma aguilhoada mortal, de Ole Gunnar Solskjær – o mesmo que, décadas depois, viria a distribuir instruções à beira do gramado em Old Trafford. Incredulidade ao redor do globo. A virada-relâmpago fizera com que o apito final soasse logo em seguida aos ouvidos alemães como a Sétima Trombeta, transferindo de mãos o troféu mais importante do Velho Mundo e se projetando como exemplo mais bem consumado do Fergie Time – período no qual os Diabos Vermelhos treinados por Sir Alex Ferguson acabavam por dar números terminais ao marcador já durante a agonia dos acréscimos.

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Fonte: trivela.com.br

Aquele confronto possui uma função mítica em minha vida. Não sei bem se narro aqui uma memória precisa ou um desses fragmentos dúbios dos tempos de infância – enquanto mito, de resto, isso pouco importa –, mas uma mirada retrospectiva me leva a crer que se dava ali um instante fundador de mim mesmo: do alto dos meus dez anos, consciente do que se passava, entendia enfim toda a potência do futebol. Com efeito, uma história análoga àquelas contadas por meu pai, arquibaldo quando o Maracanã dos Maracanãs ainda engolia mortais em transe, acabava de se insinuar às retinas de criança. Por meio daquela experiência, eu fora projetado à dimensão metafísica do todo – há algo de transcendente em qualquer bola que cruze a linha do gol, seja esta imaginada entre chinelos, nas ruas de um subúrbio, ou materializada pela cal. Dia após dia, passei a procurar, em cada ida religiosa aos estádios, em cada segundo vidrado diante de uma tevê ou atento aos galopes do rádio, a possibilidade de retornar, trajado em minhas próprias cores, àquele momento originário, de revisitar aquela vertigem, de não mais caber em meus próprios limites graças à catarse gerada pela força motriz das multidões: o gol redentor que antecede o poente dos refletores.

Vinte anos se passaram. No calendário: 23 de novembro de 2019. Estádio Monumental, Lima. Trinta e oito anos após erguer a Libertadores da América pela primeira e única vez, o Flamengo adentrava o relvado diante de quase oitenta mil pessoas para medir forças com o campeão vigente do torneio: o fortíssimo River Plate da era Gallardo, que buscava o feito de levantar o caneco pela terceira vez em apenas cinco anos. A equipe rubro-negra, embora não chegasse à final havia tanto tempo – retornava para uma inédita, logística e culturalmente lamentável edição em contenda única, jogada em cancha pré-definida e transferida de Santiago, a opção inicial, devido à ampla mobilização popular que reivindicava melhores condições de vida à gente chilena –, levava ao Peru um favoritismo chancelado não somente por uma campanha avassaladora no Campeonato Brasileiro (restando quatro rodadas para o término da competição, atingira o recorde de pontos no sistema corrido – o auspicioso número 81, mesmos dígitos do ano que o esquadrão capitaneado por Zico cravou como o mais importante da história do clube ao vencer justamente a Libertadores, além do Mundial Interclubes), mas por atuações que confirmaram um domínio categórico também sobre os dois gigantes de Porto Alegre nos desafios pregressos do mata-mata continental: seguros 2 x 0 contra o Internacional no Maracanã, com empate em 1 x 1 na volta maduramente administrada no Beira-Rio, sucedidos pela mesma igualdade contra o Grêmio no Sul (resultado que camuflou a superioridade do time carioca, que poderia ter voltado à Gávea com a classificação encaminhada) e, é claro, o massacre perpetrado no Templo Maior três semanas depois – nada mais nada menos que impiedosos 5 x 0 sobre os tricolores de Renato Gaúcho, assíduos frequentadores das fases agudas da Copa desde 2017, quando conquistaram seu tricampeonato. Havia no ar do Rio de Janeiro um curioso misto de respeito ao oponente derradeiro e de confiança muito acima da média por parte dos adeptos do Mister, o português Jorge Jesus – combinação temperada com inevitáveis doses de arrogância, que se encarregaram de legar ao passado todo um receio introjetado no espírito por eliminações recentes e vexaminosas além-fronteiras nacionais.

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Fonte: blogdorafaelreis

Com a bola rolando, porém, os Millonarios trataram de demonstrar sem delongas o significado de uma final de Libertadores perante uma camisa enverga-varais: decorridos 14 minutos, o colombiano Borré foi às redes com um arremate rasteiro inapelável para o goleiro Diego Alves, após falha coletiva pelo lado esquerdo do sistema defensivo brasileiro – permissivo não apenas quanto ao espaço para a chegada portenha às costas do tarimbado lateral Filipe Luís, mas ainda incapaz de afastar o perigo de sua área em função de um deixa-não-deixa fatal entre Willian Arão e Gerson. A dianteira no placar era tudo que um cascudo River Plate necessitava para ratificar sua estratégia: busca por domínio mental, marcação pegada e constantemente concentrada, anulação das linhas de passe mais perigosas à sua meta, pressão sobre a bola durante a posse rival… – tudo isso somado à conhecida catimba argentina, empregada com inteligência a fim de fazer e receber faltas estratégicas para impor o ritmo que lhe convinha, minando a paciência e o ímpeto adversários. A tática de El Muñeco conseguia o que nenhuma equipe de nosso país havia feito nos últimos meses, anulando a intensidade rubro-negra, forçando o desafiante a passes errados e transformando a segurança característica do outro lado em ansiedade. A receita para o sucesso, pois, funcionava, e o roteiro parecia inalterável. No entanto, a conclusão do enredo nos é conhecida: uma crônica rodrigueana póstuma, na qual bem poderíamos encontrar a afirmação de que os helenos só inventaram a tragédia enquanto gênero teatral porque lhes faltaram duas traves. Para entender como seria possível uma reviravolta inscrita de imediato na posteridade, é preciso lançar luzes sobre dois nomes que mudaram a trajetória daquela tarde aos pés das montanhas limenhas: Diego Ribas e Lucas Pratto.

O primeiro – que, em função de uma contusão que o deixara fora dos gramados durante longo período, assistiu do banco de reservas à ascensão de seus companheiros ao longo da temporada – entrou em campo no lugar de Gérson, uma das grandes esperanças do Flamengo anuladas na peleja, aos 21 minutos da última etapa; por sua vez, o segundo – um dos heróis na consagração áurea do River no ano anterior, em que marcou um gol em cada partida decisiva contra o arquirrival Boca Juniors, quando os xeneizes estavam à frente do placar tanto na Bombonera quanto no… Santiago Bernabéu (sob olhares revoltos das almas de José de San Martín, Simón Bolívar e demais líderes das independências latino-americanas) – substituiu Borré, que àquela altura já sonhava com o ingresso no panteão dos ídolos alvirrubros, quase dez minutos depois. Quiseram as divindades da bola que o destino passasse por ambos, embora de formas muito distintas. Diego, afinal, conseguiu trazer à sua equipe a mobilidade e dinâmica de que ela tanto necessitava, movimentando-se para construir e distribuir jogadas ao flutuar desde trás entre espaços vazios (e até então raros), ao passo que Pratto, decerto inserido com o intuito de prender a bola em seu campo de ataque com a experiência que lhe cabia, optava por definições no mais das vezes precipitadas e inofensivas.

Ainda que estes pêndulos individuais indicassem vantagem ao brasileiro, o quadro geral se mantinha incólume: River, mais disperso, conquanto ainda guerreiro, um; Flamengo, mais operante, entretanto ainda neutralizado, zero. Eis que, no limite do tempo regulamentar, as duas figuras em questão se encontram. É Pratto quem retém a bola na intermediária ofensiva. Sobre si, nenhuma pressão: há espaço suficiente para cadenciar a velocidade a seu favor. Contudo, delibera como juvenil: força um passe desnecessário pelo meio, interceptado justamente pelo carrinho de um atento Diego. É o primeiro passo da derrocada. A rebatida faz com que a pelota volte em direção ao atacante, mas, antes mesmo de seu domínio se concretizar, Diego, ato contínuo à interceptação, já havia se levantado para novo combate. Via-se ali o contraponto: era gesto de quem compreendia a magnitude do que se passava.

No extremo esquerdo do lado argentino, braços erguidos a rogar por uma inversão de jogo; no direito, um companheiro que fora desde sempre a melhor opção a ser acionada por Pratto, livre para reter a bola como recomenda o manual. Segundo passo da queda: já pressionado de perto pelo camisa 10 do Flamengo, o dianteiro ignora a ambos e escolhe conduzir de modo inadvertido a redonda, que levemente lhe escapa – como se fosse agora um Sófocles a nos apresentar a peripécia de alguma de suas encenações. É o sinal para De Arrascaeta auxiliar Diego na marcação. A dupla pressão culmina em uma roubada de bola que permite ao meia uruguaio avançar contra o campo desguarnecido do River, tomado de assalto. Lá, ele a entrega ao maior fator de desequilíbrio da Copa: Bruno Henrique. Este ensaia um mano a mano já próximo à grande área de La Banda, mas, com a aproximação de um marcador, prefere aplicar um drible no sentido oposto ao da meta, desacelerando a jogada. Quando retoma agressivamente a direção do gol, um átimo depois, sua investida parece cair em uma armadilha, na medida em que os quatro contendores mais próximos avançam em simultâneo num bote múltiplo.

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Fonte: veja.abril.com.br

Dizia Armando Nogueira que o bom jogador vê o seu entorno; o craque, todavia, é aquele que o antevê. Foi o que fez Bruno Henrique. Diante daquele cerco, o brasileiro encontrou um passe desmonta-ferrolhos, entre linhas, como se para isso tivesse ele próprio planejado aquele exato movimento coordenado da defesa. O destinatário, o mesmo De Arrascaeta que o havia encontrado aberto para o contra-ataque em curso, alcançou a bola beijando a linha da pequena área e, lançando-se ao chão em disputa com Pinola, capitão adversário, rolou-a de bandeja para Gabriel Barbosa – o Gabigol. Com Armani imóvel e rendido à primeira trave, bastou ao artilheiro empurrar a redonda para o gol aberto, aos 43 minutos do segundo tempo, para em seguida exibir os muques, o semblante marrento, em sua tradicional comemoração. Ora, que a verdade seja de uma vez exposta: não importa o que digam, todos que assistiam àquele desenlace foram tomados pela mesma certeza, como os ingleses de vinte anos atrás: o empate no placar passava a ser apenas um detalhe provisório; o Flamengo acabara de se tornar campeão das Américas. A pergunta passava a ser tão somente por quanto tempo duraria a vã igualdade. . A resposta não tardou: mal haviam cessado as celebrações, os replays ainda rodavam o mundo dissecando em câmera lenta todos os ângulos, e a dona dos olhares novamente voltava aos pés de Diego, senhoril em seu campo de defesa, próximo ao círculo central. Erguida a cabeça, ele logo avistou Gabigol solicitando lançamento, ao que foi prontamente atendido. Entrávamos no minuto 46. Com a bola em viagem, o máximo goleador do torneio trombou com o gigante Pinola, impedindo-lhe de cortar a ligação à primeira vista despretensiosa pelo alto e ganhando a dianteira após o quique (falha do beque? Méritos do algoz? Ambos?). Numa última tentativa de anular a ameaça – o que lograra com louvor até o letal ataque anterior –, o zagueiro cabeceou a bola de maneira tola, como lhe pareceu possível.

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Fonte: veja.abril.com.br

Não previa, por óbvio,que aquele ato serviria como uma assistência contra si e os seus, clareando o horizonte para o inimigo. Tudo à feição para Gabigol, de dentro da área, fulminar frontalmente Armani, sucumbido, e transmutar-se ali mesmo em lenda, a repetir o feito de Zico: dois gols determinantes no jogo da taça. Em suma: três minutos inscritos na eternidade. Flamengo bicampeão da Libertadores, com script encomendado a um dos mais cultuados deuses do futebol – o Imponderável. Qualquer análise dirá, e com razão, que aquela há de ter sido a pior partida da equipe de Jorge Jesus desde seu encaixe imbatível. Irrelevante. Toda uma geração de torcedores teria desde então a sua existência justificada e se dedicaria a relembrar, entusiasmados, a saga de Lima vida afora. A mitologia rubro-negra ganharia novos imortais, e rapsodos a cantá-los de cidade em cidade, em cada arquibancada visitada: ao lado dos saudosos de 1981, promoviam-se os instantâneos de 2019. De modo sucinto: dar-se-ia a conversão do fato objetivo em narrativa simbólica. Aquela comunhão fantástica ao qual eu, moleque, fora projetado por um embate entre clubes europeus ora se perfazia como rito fundamental para moradores de minha própria terra, de meu próprio bairro, de minha própria vila. Gritos ensandecidos invadiam minha janela, pela qual, em ocasiões extraordinárias, é possível ouvir até mesmo os urros advindos do Maracanã. Mas tais gritos eram externos; não encontravam eco do lado de cá da fenestra.Não em minha casa, alheia à apoteose improvável. Não em minha tevê, cujo volume se mantivera baixo, como quem não quisesse ser divulgado. Não dentro de mim, oco e incrédulo de inveja. Porque, lástima e ironia, mil ais de maldição!: toda minha devoção é em verdade dedicada ao Fluminense, de onde surgiu, como diria Nelson Rodrigues, a seção terrestre daquele Flamengo de regatas, depois de briga havida nas Laranjeiras nos priscos 1911. Eu, que sonhara com um triunfo daquela natureza – e, in loco, vira-o escapar pelos dedos em 2008 –, testemunhava a glória do antagonista.

No dia seguinte, enquanto os jogadores desfilavam com seu povo em carro aberto pelo Centro do Rio, uma derrota do Palmeiras, vice-líder do Campeonato Brasileiro, ainda garantiu protocolarmente o título nacional ao Flamengo, inalcançável em definitivo por sua pontuação sem precedentes. Estava consumado um abismo inédito em nosso moderno futebol de clubes. Era a primeira vez que um time exercia seu domínio em níveis nacional e latino-americano em uma mesma temporada desde o eterno Santos de Pelé, em 1963. Afinal, como isso foi possível? Ao mesmo tempo em que a festa transcorria para tantos, outros milhões mergulhavam numa reflexão que se impunha com premência ao futebol brasileiro, alimentada pelo ameaça de uma hegemonia rubro-negra por vir.

Em face de tamanho domínio dos comandados por Jorge Jesus, um debate ganhou corpo, opondo em geral duas perspectivas supostamente dicotômicas: de um lado, a ênfase na desnivelada distribuição de cotas de televisão para os clubes no Brasil – em geral, sua principal fonte de renda –, que teria favorecido sobretudo o clube de maior torcida em nosso território; de outro, a defesa do choque de gestão levado a termo na Gávea no decorrer dos últimos anos, trazendo uma estabilidade que, para citar bordão da hora, teria erigido o Flamengo a outro patamar em relação aos concorrentes. Aos dados: segundo Paulo Vinicius Coelho, em coluna na Folha de São Paulo intitulada Pobre futebol rico (publicada em 29/09/13)¹, cinco clubes recebiam R$25 milhões cada até 2009 pelos contratos de transmissão com a Rede Globo, a saber: Flamengo, Corinthians, São Paulo, Palmeiras e Vasco. Em 2013, um salto: as duas agremiações de maior torcida passaram a embolsar R$120 milhões cada – Palmeiras e Vasco, por seu turno, ficaram com R$80 milhões (portanto, R$40 milhões a menos do que os líderes econômicos), um pouco abaixo do São Paulo. Três anos depois, nova renegociação, com validade de quatro anos, e a dupla que rica já era mais rica ficou: meros R$170 milhões cada – e isso sem o montante oriundo do pay-per-view (sistema ao qual logo chegaremos e em que, por razões compreensíveis, estão na ponta). Em 2016, por conseguinte, já eram R$70 milhões a separar Flamengo e Corinthians de Palmeiras e Vasco (estes com R$100 milhões de faturamento, R$10 milhões abaixo do terceiro colocado, novamente o São Paulo).² Em pelotão menos abastado, forças como Atlético-MG, Cruzeiro, Internacional, Grêmio, Fluminense e Botafogo, que outrora recebiam R$45 milhões por ano, elevaram as cifras para R$60 milhões. Ainda assim, o fosso entre este último grupo de gigantes e os dois primeiros clubes do topo passava a ser de R$110 milhões no ponto de origem. Se pensarmos para além do eixo Rio/São Paulo/Belo Horizonte/Porto Alegre, o buraco talvez não tenha fundo. Aqui, como nos índices brutalmente desiguais da sociedade brasileira, não há discurso meritocrata que se sustente. Não por acaso, em seu texto no jornal paulistano, PVC discutia, há cinco anos, o que tem sido cada vez mais chamado de fenômeno da espanholização do futebol, em referência ao país ibérico onde Real Madrid e Barcelona se consolidaram como superpotências demasiadamente dominantes, tornando-se nocivos à própria competitividade de La Liga.

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Fonte: veja.bril.com.br

Em maio deste ano, a partir dos balanços financeiros referentes a 2018 divulgados pelos clubes da Série A, a empresa SportsValue, especializada em marketing esportivo, divulgou um estudo acerca das variadas fontes de receitas em nosso futebol.[4] Segundo as estatísticas, os direitos de transmissão da temporada passada representaram, como sói acontecer, a maior parcela dos valores movimentados: 38% do total. À frente neste quesito ficaram Flamengo (R$222 milhões – o único a ultrapassar a faixa dos R$200 milhões), Corinthians (R$198 milhões), Cruzeiro (R$191), Grêmio/Palmeiras (R$137 milhões) e São Paulo (R$135 milhões). A distância entre os cariocas que abrem o ranking e o tricolor do Morumbi, historicamente bem colocado, foi de R$87 milhões. Impulsionado pelas transferências de jogadores (R$170 milhões), bilheteria (R$116 milhões) e patrocínios (R$95 milhões), o Palmeiras, com fomentos da empresa de créditos Crefisa e praticante do valor médio mais elevado para os ingressos no Brasil[5], faturou 30% a mais do que no ano anterior, batendo o Flamengo na receita total (R$654 milhões contra R$543 milhões) e tentando lhe fazer frente no panorama da bola – vale uma boa análise sobre o papel de mais um exemplo de injeção volumosa de dinheiro externo circunstancial, além da adoção de uma nefasta política de gentrificação nas modernas arenas, que se tornaram tônica no pós-Copa do Mundo de 2014. E em 2019? Pois bem, chegamos a uma alteração substancial no sistema de cotas de televisão. Se até então os direitos eram negociados diretamente com a Rede Globo, a toda-poderosa emissora dos trópicos, a chegada ao Brasil do grupo Turner (Esporte Interativo/TNT) gerou um cenário em que os percentuais das transmissões em canais abertos e no catálogo pay-per-view passaram a ser discutidos em tratativas independentes. Quanto ao primeiro segmento, a Globo enfim buscou estabelecer um critério mais equilibrado para o balanço anual: de uma soma em torno de R$600 milhões, 40% serão igualmente distribuídos entre os clubes da divisão de elite que firmaram acordo (75% entre janeiro e junho e 25% entre julho e dezembro, pagos mensalmente); 30% serão proporcionais ao número de exibições no canal (pagamentos entre maio e dezembro); e os 30% restantes serão por fim repassados ao término do campeonato, consoante a posição final na tabela (pagamento em dezembro).[6] Estaríamos observando o fim de um problema estrutural no que tange à relação dos clubes com as emissoras de televisão, enfim? Bom, não exatamente. A despeito de as fatias concernentes aos canais abertos terem de fato sido mais bem concebidas[7], no que diz respeito ao modelo pay-per-view os valores não deixaram de contribuir para a manutenção de uma balança em muito desproporcional: segundo estudo divulgado pela Ernest & Young, com a nova metodologia adotada (pesquisas por levantamento das torcidas em todo o território do país, e não mais apenas nas capitais), enquanto Flamengo, Corinthians, São Paulo e Palmeiras incrementarão seus caixas, outros clubes de ampla projeção, como Vasco, Fluminense, Botafogo, Grêmio, Internacional, Cruzeiro e Atlético-MG poderão perder receitas em relação a anos anteriores.[8] Em nome da clareza, é bom ressaltar o seguinte: não questiono exatamente se Flamengo ou Corinthians, maiores torcidas do Brasil, devem ou não receber mais das televisões em alguma medida – dada a demanda por exibições de seus escudos nas mais diversas praças, é razoável supor que sim –; o cerne aqui é avaliar se a discrepância exacerbada entre eles e os demais em seus respectivos vínculos com as emissoras é não apenas justa, mas salutar para a concorrência esportiva quando a bola rola. Parece-me elementar que, hoje, os fundos pecuniários dos clubes não se sustentam exclusivamente a partir deste elemento. Itens como negociações de atletas, placas publicitárias, circulação da marca no mercado, adesão de torcedores a programas de associação, capacidade de atrair público ao estádio para captar dividendos com bilheteria, exploração comercial das sedes sociais etc. compõem um cálculo mais amplo, no qual certamente entra na fórmula a capacidade de gestão – ponto reconhecido para o Flamengo, sem dúvida. Se compararmos os outros três grandes do Rio com o multicampeão do ano, há em suas áreas administrativas uma enorme diferença (e, à luz dos últimos acenos políticos da diretoria rubro-negra, vale dizer que apenas administrativamente ela poderia servir como bom referencial possível). Quanto a isto, ao seu modo, Fluminense, Vasco e Botafogo precisam reformular urgentemente seus quadros de maneira mais criteriosa. De toda sorte, a tese que defendo é a de que, se hoje muitos torcedores do Flamengo ensaiam um discurso que ousa minimizar a dimensão das cotas de televisão, eles só podem fazê-lo porque, paradoxalmente, valeram-se delas durante considerável período em dígitos astronômicos, que ajudaram em sua recente engenharia financeira. Que sejam reconhecidos os bons trabalhos realizados, mas sem cairmos nas fábulas das gestões responsáveis que se tornam exitosas por si só, sem influência de uma conjuntura favorável que as precedem. Por isso, a apreensão generalizada dos rivais reside na consideração de que – fato inédito –, o clube de maior receita acumulada do Brasil (graças aos desarrazoados antecedentes descritos acima) passou a ser conduzido por uma gestão que soube se planejar como nenhuma outra em âmbito nacional (dado que, resguardas ressalvas que não cabem neste texto, merece elogios).

Palmeiras tem o preço médio de ingresso mais caro do país. Veja o ranking
Fonte: globoesporte.com

O futuro do futebol no Brasil é sempre incerto, mas a prudência se faz mais do que necessária quanto ao possível agravamento de disparidades econômicas – que, se bem geridas, culminam também em desequilíbrio esportivo. Talvez estejamos “apenas” vivenciando mais um desses episódios meteóricos, quando tudo converge para um sucesso que levará decênios para se repetir em novas linhas; talvez, pelo contrário, o Flamengo consiga doravante replicar a fórmula bem-sucedida de 2019 (técnico afinado com as demandas modernas do esporte, contratações de nomes experientes que buscam um projeto pós-Europa definido, leitura refinada do mercado, investimento em nomes ainda promissores, lançamento calculado de promessas da base, resgate de atletas em baixa…). A barra de exigência foi elevada a um estágio incomum para o cenário de nosso futebol de clubes. Por variáveis econômicas e técnicas, parece que só o Flamengo será capaz de desafiar seus próprios recordes em curto prazo. Aos outros clubes, bem, não há passe de mágica: a transformação, ao fim e ao cabo, deverá certamente partir de uma legítima reivindicação conjunta por partilhas financeiras e estruturantes mais equilibradas (uma Liga própria a gerenciar o Campeonato Brasileiro parece fadada a ser sonho de uma noite de verão…), mas precisará envolver também uma busca por dirigentes capazes de organizar suas instituições e potencializar seus recursos em uma era que lhes exige atualização – em algum grau, o Flamengo emerge como norte. Se, no meio de todo esse processo, ainda for possível considerar na equação uma combate à elitização do futebol como via única e incontornável, nós, torcedores, seremos gratos (o próprio Flamengo é, mesmo em seus jogos lotados, um time do povo?). Mas isso já é assunto para outro texto.

Artigos

A vida pulsa longe da Libertadores

“O Flamengo é o Brasil na Libertadores”.

A frase é velha. Batida. Tola. Muito tola. Tão tola, que é quase inacreditável perceber que ainda ontem parte da mídia tentasse vender essa ideia na hora de divulgar a transmissão da final da competição continental.

Várias emissoras de TV fizeram isso à exaustão nesses dias de novembro. E, diga-se, num processo que começou bem antes da data do jogo, realizado no último sábado (23).

Pois, diante do River Plate, clube tradicional da Argentina que seria o adversário flamenguista naquele jogo decisivo, a TV Globo fez mais. Tentou igualar a partida entre clubes ao clássico entre seleções e fazê-los parte de um mesmo processo, de uma mesma rivalidade, de uma mesma dualidade.

Pura baboseira.

A estratégia é curiosa, principalmente e antes de tudo, porque não convence absolutamente ninguém.

Para começo de papo, a relação do torcedor com o clube é em regra mais próxima, mais cúmplice, logo mais duradoura e forte do que a existente entre esse mesmo torcedor e a seleção de seu país.

Considerando o caráter contextual da identidade, conforme apregoa Barth (2000), o torcedor vive o clube no seu cotidiano e na sua intimidade. É uma relação identitária muito mais potente do que aquela vivida com a seleção, acionada apenas de tempos em tempos.

Dito de outro modo, o clube é prioridade frente à seleção, e não o contrário. Acionar a rivalidade entre seleções para apaziguar a rivalidade entre clubes, portanto, é algo absolutamente inócuo do ponto de vista prático.

Depois, o discurso de que o micro pode responder pelo macro, dentro do contexto tipicamente tensionado das torcidas de futebol, deve irritar mais do que empolgar o torcedor. Logo, é um discurso burro inclusive do ponto de vista do marketing, da promoção do jogo de bola que está para acontecer.

O flamenguista não quer ser o Brasil. O resto do Brasil não quer ser o Flamengo. Simples – e seco – assim.

Não precisa ir longe para entender isso. De forma que é muito sintomático o fato de que alguns setores da mídia falam sobre algo que parecem não conhecer. Parecem não querer se aprofundar. Parecem propositalmente ignorar.

A reflexão que Damo (2012) faz sobre “clubismo” enterra de uma vez por todas esse papo besta. Futebol, afinal, não é mero jogo, mas algo que extrapola em muito a dimensão esportiva e que é intrinsecamente vivido numa relação de alteridades impossível de ser apagada.

Saindo do debate futebolístico, dialogando com outros antropólogos, mas ainda assim na mesma linha de pensamento, Agier (2015) vai nos convidar a discutir as identidades a partir das fronteiras, das limiaridades que estabelecem conflitos, distinguem – e separam – entidades.

A ideia de localismo, ademais, é vital nesta conversa.

Apesar de ser dono da maior torcida do Brasil, é possível dizer que havia mais brasileiros torcendo pelo River do que pelo Flamengo.

O Flamengo, pois, não era nem mesmo o Rio de Janeiro na Libertadores.

E no Nordeste, região onde moro, onde realizo minhas pesquisas e onde os clubes do Rio são extremamente populares (por razões sabidas, mas que não serão debatidas aqui), as distinções não eram nem mesmo duais.

Para além do debate simplista entre flamenguistas e anti-flamenguistas, havia uma parcela crescente que abominava a simples ideia de existir tal debate na região.

Aqueles que não são flameguistas, não são rivais do Flamengo, não estão nem aí para o que o Flamengo vence ou perde.

Porque não foram poucos os torcedores de clubes do Nordeste que se declararam alheios à final de 23 de novembro e demonstraram-se mais preocupados em suas distintas e particulares realidades.

Na séries A, B e C, que seja. Mas na Série D, também. Ou nos clubes sem séries. Nos campeonatos estaduais que estão para começar. Nos elencos que começam a ser montados ou que estão prestes a serem desmontados.

Há vida, rica, diversa, competitiva, nestes campos, nestes campeonatos, nestas disputas de títulos, de espaço, de glória longe da Libertadores.

Sob certas óticas, uma vida muito mais importante do que qualquer competição internacional. Muito mais célebre do que qualquer “rumo à Tóquio”, que nos últimos tempos nem pelo Japão passa mais.

O Brasil é grande demais para viver de um único clube, uma única competição. O futebol é múltiplo demais para se unificar em uma única causa, uma única torcida.

Insistir nessa totalização de ideias, pensamentos, perspectivas, é querer negar identidades. Apagar realidades. Ofuscar alteridades. É de uma violência sem precedentes.

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Fonte: Jovem Pan

Referências

AGIER, Michel. Migrações, Descentramentos e Cosmopolitismo: uma antropologia das fronteiras. Trad. Bruno César Cavalcanti, Maria Stela Lameiras e Rachel Rocha de Barros. São Paulo: Unesp; Maceió: Edufal, 2015.

BARTH, Fredrik. O Guru, o Iniciador: e outras variações antropológicas. Trad. John Cunha Comerford. Rio de Janeiro: Contracapa, 2000.

DAMO, Arlei Sander. Paixão partilhada e participativa: o caso do futebol. História: Questões & Debates, v. 57, n. 2, pp. 45-72, jul./dez. 2012.

Produção audiovisual

Já está no ar o quinto episódio do Passes e Impasses (+sorteio de livro)

Acesse o quinto episódio do podcast Passes e Impasses no Spotify*, Deezer*, Apple PodcastsPocketCasts, Overcast, Google PodcastsRadioPublicAnchor.

O tema do nosso quinto episódio é “Vilões no Esporte”. Com apresentação de Filipe Mostaro e Mattheus Reis, recebemos no estúdio do Audiolab/UERJ Leda Costa, professora visitante da UERJ e pesquisadora do LEME, e Sergio Souto, professor adjunto da UERJ e também pesquisador do LEME.

Ao longo do programa, o Filipe prometeu sortear o livro Garrincha x Pelé para os ouvintes do programa. Para concorrer, basta curtir a página do LEME no Facebook, seguir a gente no Instagram e deixar sua curtida na publicação que faremos no Instagram, marcando três amigos nessa publicação*. O ganhador do livro poderá retirá-lo pessoalmente no LEME mediante agendamento prévio. Caso queira, também poderá assistir a uma das gravações do programa. *Caso more fora do Rio, faremos o envio do livro para o endereço que nos informar.

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O podcast Passes e Impasses é uma produção do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte em parceria com o Laboratório de Áudio da UERJ (Audiolab). O objetivo do podcast é trazer uma opinião reflexiva sobre o esporte em todos os episódios, com uma leitura aprofundada sobre diferentes assuntos em voga no cenário esportivo nacional e internacional. Para isso, traremos sempre especialistas para debater conosco os tópicos de cada programa. Você ama esporte e quer acessar um conteúdo exclusivo, feito por quem realmente pesquisa o esporte? Então não deixe de ouvir o quarto episódio do podcast Passes e Impasses.

No quadro “Toca a Letra”, trouxemos a música “Zagueiro” do Jorge Ben. Ao longo do programa, também trouxemos algumas referências bibliográficas, que listamos abaixo:

  • Mulheres e futebol no Brasil: entre sombras e visibilidades, artigo de Silvana Goellner;
  • Imprensa e memória da Copa de 50: a glória e a tragédia de Barbosa, dissertação de Sergio Souto;
  • A trajetória da queda: as narrativas da derrota e os principais vilões da seleção brasileira em Copas do Mundo, tese de Leda Costa;
  • Futebol, identidade nacional e construções midiáticas: O futebol-arte na imprensa nacional quando vence e quando perde, dissertação de Filipe Mostaro;
  • O poder do mito, livro de Bill Moyers e Joseph Campbell;
  • A memória coletiva, livro de Maurice Halbwachs;
  • A invenção das tradições, livro de Eric J. Hobsbawn e Terence Ranger.

Passes e Impasses é o podcast que traz para você que nos acompanha o esporte como você nunca ouviu.

Coordenação Geral: Ronaldo Helal
Direção: Fausto Amaro e Filipe Mostaro
Roteiro: Carol Fontenelle e Fausto Amaro
Produção: Fausto Amaro e Marina Mantuano
Edição de áudio: Leonardo Pereira (Audiolab)
Apresentação: Filipe Mostaro e Mattheus Reis
Convidados: Leda Costa e Sergio Souto

Artigos

Resenha do artigo “’Um jogador infernal’, a construção social da precoce carreira de Lionel Messi”

“Quais foram os contextos e circunstâncias que impulsionaram o jovem Lionel Messi da sua cidade de Rósario na Argentina para o Fútbol Club Barcelona com 13 anos de idade e, posteriormente, para o estrelato global?”. É a partir desse pergunta que os autores Fernando Segura Millan Trejo e John Williams escreveram o artigo em inglês “‘Um jogador infernal’ a construção social da precoce carreira de Lionel Messi: para uma análise sociológica” [“A hell of a player”: the social construction of the early career of Lionel Messi: towards a sociological analysis, publicado na revista Soccer & Society em setembro 2019. A abordagem utilizada por Segura e Williams reconhece as prematuras manifestações de habilidade na infância de Messi, mas também argumenta que o desenvolvimento do seu talento pode ser melhor compreendido, sociologicamente, dentro do contexto do enfoque do autor Everett Hughes e sua ideia de turning points (pontos de virada), quando momentos e eventos capitais marcam significantes mudanças na vida de uma pessoa.

O propósito do artigo é articular as ideias do trabalho de Hughes com os escritos do sociólogo francês Pierre-Michel Menger sobre o desenvolvimento e sucesso de artistas criativos, baseado em quatro varáveis: 1- talento excepcional; 2- a qualidade da “equipe” que rodeia o artista; 3- as condições materiais que ajudaram a moldar sua carreira; 4- as avaliações contínuas que são feita de seu trabalho. A adoção dessa abordagem integrada pode ajudar a entender mais profundamente a produção de talentos esportivos. Para embasar o artigo, Segura e Williams entrevistaram personagens-chave que ajudaram a moldar os primeiros passos de Messi: seu primeiro técnico no clube Grandoli; o gerente da academia de jovens do Newell’s Old Boys; o médico que forneceu a Messi o primeiro tratamento hormonal e um técnico da Fundação Messi que trabalhou com ele na chegada ao Newell´s. Dois jornalistas locais argentinos, Sergio Levinsky e Hernan Ames também foram entrevistados. Além disso, foram utilizadas biografias selecionadas de Messi e documentários, a fim de obter mais informações sobre os períodos iniciais de sua vida.

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Desde muito pequeno, Lionel já dava sinais de que seria um grande jogador. Nascido e criado em uma vizinhança de classe-média baixa, no sul de Rosario, Messi começou sua carreira, efetivamente, no mesmo clube por onde passaram grandes jogadores, como Jorge Valdano, Tata Martino, Gabriel Batistuta, Maxi Rodríguez, o Newell’s Old Boys. Antes, porém, de chegar em um dos dois tradicionais clubes argentinos de Rosario (Newell’s Old Boys e Rosario Central), sua avó, Celia o levou para dar os primeiros passos (ou passes) no Fútbol Club Grandoli, a poucas quadras de sua casa.

A primeira oportunidade surgiu aos cinco anos, quando o técnico do Grandoli, Salvador Aparicio, precisava de um jogador para compor um time de meninos um pouco mais velhos. A hesitação inicial do treinador logo desapareceu nos primeiros movimentos do pequenino garoto, que exibia equilíbrio, habilidade de drible e uma determinação atípica em jogadores tão jovens. Depois disso ele foi convidado a integrar as divisões de base do clube. Messi, então, começou a ter a sua volta, uma equipe – a segunda variável proposta por Menger. Aquele espaço, tão banal para alguns, começava a se configurar como um lugar virtuoso para o jovem jogador.

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Fonte: GloboEsporte.com

O apoio familiar de Messi e sua determinação são elementos sociológicos a serem levados em conta na análise da construção de sua carreira. Esses fatores, porém, não se sustentam sozinhos. Seu pai, Jorge, que veio a ser seu treinador na categoria baby do Grandoli, foi crucial para sustentar e reforçar essas etapas formativas do desenvolvimento “artístico” de Messi, mas foi o encontro com Jorge Griffa, representante do centro de treinamento do Newell’s Old Boys, um recrutador-chave nos termos de Menger – que constituiu um ponto de virada capital para o argentino. Na perspectiva interacionista de Hughes, a união entre o jogador em potencial, e a instituição moldou o período seguinte de sua trajetória. Ernesto Vecchio (primeiro treinador de Lionel) revelou em uma entrevista conduzida em Rosario que trabalhava, desde cedo, não só as habilidades de Messi, mas também sua consciência tática. Durante esse período no Newell’s seu status tinha subido, de “ser um jogador importante, mas de clube de futebol local e amador”, para “um clube de futebol profissional, nacional e historicamente conhecido”. A visibilidade do Newell’s e as conquistas e o prestígio do grupo trouxeram convites internacionais.

Para que Messi pudesse sair de um reconhecimento local para um reconhecimento mundial, de acordo com a abordagem de Hughes, era necessário que alguns eventos o levassem até isso. Um deles foi o tratamento médico que Lionel precisou fazer para crescer como uma “criança normal”. Os autores investigaram que o alto custo foi coberto durante os dois primeiros anos de tratamento 50% pelo seguro social, 25% pelo seguro mútuo e 25% pela fundação Acindar (empresa na qual o pai trabalhava). Entretanto, esse modelo tornou-se insustentável em longo prazo, e as novas condições oferecidas (terceira variável proposta por Menger) mostraram-se pouco confiáveis para o bom desenvolvimento do projeto. Nesse ambiente conturbado e inquietante, as tensões e incertezas envolvidas convenceram a família de Messi que eles deveriam procurar outro lugar.

O primeiro movimento foi dentro de seu país. Lionel, em 1999, foi a Buenos Aires fazer uma avaliação no River Plate. Apesar de ter impressionado os observadores, eles não quiseram correr o risco de assinar com o menino e entrar em um conflito com Newell´s. Esse evento pode ser encarado pela combinação das abordagens de Hughes e Menger, como um ponto de virada chave, que Messi perdeu e que poderia ter mudado inteiramente sua história. Apesar da recusa, em Rosario, o jovem menino ainda era encarado como um talento próspero. Com isso, aproveitando-se da insatisfação da família com o suporte do Newell’s nas categorias de base, apareceu um agente de futebol que, junto com uma equipe de pessoas – segunda variável do modelo de Menger –, agiram para abrir novas portas a Messi. Portas essas que o levariam para fora de seu país.

Messi é parte de uma inegável consequência do futebol contemporâneo globalizado: a migração de jovens promessas sul-americanas para o velho continente. O jogador tem ilustrado bem os novos mecanismos do mercado global, no qual atletas latinos passam a ser educados na cultura do futebol europeu. Isso, inclusive, é o cerne de uma questão que gera muitas discussões: Messi é um ídolo nacional? Com a chegada de Lionel, o papel que por muitos anos era, inquestionavelmente, de Diego Armando Maradona começou a ser colocado em cheque. A falta de compatibilidade, todavia, entre Messi e as características “tipicamente argentinas” segundo uma parte importante da imprensa e do senso comum, não têm permitido ocupar esse lugar completamente. Segundo este argumento colocado na mídia argentina com frequência, Maradona é supostamente identificado inteiramente com o caráter dos argentinos, não apenas pela sua personalidade, mas por ter se consolidado no seu país antes de ir para a Europa, Messi sofre com o fato de ter ido, ainda muito novo, para o FC Barcelona e, assim, para vários críticos, ter uma personalidade mais europeia do que argentina. Além disso, a dificuldade de Messi em repetir suas atuações de gala pela seleção nacional (apesar de ser o maior artilheiro da seleção e ter ajudado a equipe a participar de uma final da Copa, depois de 24 da Argentina não ter ultrapassado as quartas) gera um ruído ainda maior entre o seu indiscutível talento e o seu lugar de ídolo argentino. Segura e Williams destacam que seria interessante analisar as quatro variáveis propostas por Menger, aplicadas às seleções argentinas nas quais Messi jogou.

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Fonte: Esporte IG

A falta de uma suposta falta de identificação com uma “identidade nacional” não foi o único enfrentamento que Messi teve que encarar ao longo da sua carreira. A ida tão jovem para um novo continente não ocorreu sem desafios. Com condições pouco usuais, mas muito favoráveis – terceira variável de Menger –, ao chegar ao FC Barcelona Messi, o clube colocou um apartamento para a família, um emprego para seu pai (permitindo assim que toda sua família fosse para a Espanha), bônus financeiro por desempenho; isto é, um ambiente muito diferente para treino e a continuação do oneroso tratamento para crescimento. Porém, ainda que tivesse uma atmosfera propicia, o percurso não foi fácil. Por conta da depressão de sua irmã, sua mãe e seus irmãos voltaram para Rósario, fazendo com que Lionel com 14 anos tivesse que decidir entre continuar na Espanha com seu pai ou retornar para a Argentina. Tendo escolhido a primeira opção, o segundo desafio de Messi foi a recusa do novo gerente do centro de treinamento em pagar o bônus previsto.

Em meio a um cenário turbulento, o arquirrival do Barcelona, o Real Madrid, mostrou-se interessado no jogador. Duas opções e, portanto, diferentes direções estavam em jogo: renegociar com o Barça, ou romper com o clube catalão para uma chance no seu grande oponente. Esse novo fato acelerou um novo acordo entre o jogador e o FC Barcelona, bem como a definição de que Jorge Messi atuaria como o único agente de seu filho. O desgaste que Lionel sofreu por conta desse episódio fez com que sua condição física piorasse, resultando ao mesmo tempo na interrupção do tratamento hormonal, pelo médico do clube Josep Borrel.

A transferência definitiva de um jogador tão jovem causou desconforto e oposição de algumas partes, entre elas o clube de origem, Newell´s, necessitando da intervenção da FIFA decretando que ninguém poderia ser impedido de jogar futebol. Em meio a esse processo, um ano após sua chegada ao clube Catalão, Messi fez sua estreia oficial. A decisão da maior entidade do futebol e a intervenção do técnico Tito Vilanova, que deu confiança ao menino para se desenvolver como o clássico camisa 10, foram cruciais, no modelo interacionista de Hughes, para a construção social da futura trajetória do jogador argentino.

A mídia já começava então a noticiar o nome do Lionel Messi. Ele ganhou destaque em revistas da Argentina e de Barcelona. Na temporada 2003/2004, Messi despertou o interesse do treinador do time principal, Frank Rijkaard, e, em novembro de 2003, ele fez sua estreia em um amistoso contra o FC Porto. Aqui ele passava por mais uma etapa necessária do modelo de Menger, a avaliação positiva de especialistas. O desempenho na equipe principal foi decisivo na transição de Messi para o “circuito profissional de elite” e para a mudança de seu status. Como já foi dito, um dos fatores-chave no sucesso de um artista é a “equipe” que cerca e apoia esse talento. Em 2005, o time nacional sub-20 da Argentina venceu a Copa do Mundo da FIFA na Holanda, com Messi, o melhor goleador e jogador do torneio. Suas performances confirmaram “oficialmente” um novo ponto de virada: a mudança de status no FC Barcelona e uma mudança de status internacional, como o “jovem jogador de futebol profissional emergente de sua geração”.

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Fonte: O Globo.com

A primeira variável óbvia para se levar em conta é o inegável talento do jogador – como Menger explica, essa é uma condição chave para o sucesso em qualquer comunidade de artistas. Mas ela não se sustenta sozinha. Messi nasceu em um país e em uma cidade nos quais o futebol está enraizado como um componente essencial da vida social. O suporte e a crença de sua família também foram fundamentais, mas o primeiro ponto de virada relevante em direção ao circuito profissional veio com a transição para o prestigiado centro de treinamento do Newell’s Old Boys. Claramente, o ponto de virada mais significante da carreira de Messi foi a decisão de se mudar aos treze anos de idade para Barcelona. As outras três variáveis propostas por Menger para explicar o sucesso do “artista” estavam presentes nesse novo ambiente: primeiro, uma equipe de trabalho, na qual seu pai era uma figura central, que cercava e sustentava seu talento. Segundo, condições materiais e, terceiro, boas evoluções do seu início de trabalho como jogador.

As variáveis expostas e as características próprias de Messi ajudaram-no a trilhar esse caminho, passando por bons e maus momentos, e a se tornar o jogador que ele é hoje. Não só as experiências “interclubes”, mas também seu percurso na seleção argentina, marcado por algumas conquistas, e muitos traumas. Essa trajetória, com a qual seria possível escrever um novo artigo, marca uma nova era no posto de ídolo nacional argentino: Lionel Messi como uma figura que desafiou a aura sagrada da mitologia de Maradona. Com habilidades semelhantes em campo, mas com estilos bastante diferentes de liderança e representações nacionais, Messi veio para assumir esse protagonismo, ainda que para isso tenha que provar, para alguns, seu potencial para ocupar esse lugar. O resto, como se costuma dizer, é história.

Para ler o artigo em inglês completo, acesse este link.

Eventos · Produção bibliográfica

Lançamento de livro organizado por pesquisador do LEME

Hoje, dia 21 de novembro às 18h, ocorre o lançamento do livro Rio de Janeiro, uma cidade em perspectiva. A obra é organizada por Fausto Amaro (doutor pelo PPGCom/UERJ e pesquisador do LEME) em parceria com os professores da UERJ André Nunes de Azevedo e Érica Sarmiento. O livro também conta com artigos do coordenador do LEME, Ronaldo George Helal, e do saudoso professor Gilmar Mascarenhas (Geografia/UERJ).
O evento acontecerá na livraria da EdUERJ (ao lado do hall dos elevadores no térreo do Campus Maracanã). As cinco primeiras pessoas pagam apenas 28 reais pelo livro. O preço de lançamento é R$ 38.
O livro conta com artigos de diversos nomes proeminentes da pesquisa sobre a cidade do Rio: Marieta Carvalho, Bernardo Buarque de Hollanda, Gilmar Mascarenhas, Alexandre Belmonte, André Azevedo, Érica Sarmiento, Ronaldo Helal, dentre outros.

Serviço
Livraria da EdUERJ (térreo, Campus Maracanã UERJ)
Horário: a partir das 18h
Preço: R$ 38,00 (os cinco primeiros livros vendidos saíram por apenas R$ 28,00)

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