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Será que podemos torcer e jogar futebol como mulheres?

Nesta semana de Dia Internacional da Mulher, ter espaço para falar no blog do Leme me leva a um lugar não apenas de pesquisadora, mas de mulher e de torcedora.  Por, desde pequenas, gostarmos de futebol, temos nosso cotidiano repleto de violências simbólicas. Nossas opiniões são, constantemente, invisibilizadas e colocadas em cheque; nosso amor questionado; nossos corpos, trajados com as camisas dos clubes, sexualizados nas ruas e nos estádios.

Durante minha pesquisa de mestrado, realizada por meio da metodologia de pesquisa-ação, no Colégio Estadual Dom Walmor (Nova Iguaçu), pude perceber o quanto o universo de meninos e meninas, quando tratamos de futebol, ainda é tão diferente. Aproveito a oportunidade para abordar parte do meu trabalho e, de certa forma, tentar contribuir para a reflexão sobre o tema.

“Minha mãe não me deixava jogar futebol, queria que eu fizesse balé, fiz sete anos e não gostava” – a fala da entrevistada, de 17 anos, durante a pesquisa, nos buscou a tentar entender o porquê de uma mulher jogar futebol ainda ser carregado de preconceito. Recorreremos a um breve entendimento das diferenciações do que é pertencente ao gênero masculino e do feminino na sociedade.

Desde a infância, ainda é comum meninas ganharem brinquedos como kits de cozinha e bebês que necessitam passar por cuidados, enquanto homens ganham bolas de futebol, carrinhos e uniformes de clubes. Sendo assim, desde pequenos há um processo de diferenciação daquilo que é considerado como apropriado ao universo de homens e de mulheres. Como explica Faria (2009), no esporte, a generificação – expressa na distinção de modalidades femininas e masculinas e nas relações que envolvem a prática – é constituinte.  Corroborando com Dagmar Meyer observamos que:

O conceito de gênero engloba todas as formas de construção social, cultural e linguística implicadas com os processos que diferenciam mulheres de homens, incluindo aqueles processos que produzem seus corpos, distinguindo-os e separando-os como corpos dotados de sexo, gênero e sexualidade. O conceito de gênero privilegia, exatamente, o exame dos processos de construção dessas distinções biológicas, comportamentais ou psíquicas percebidas entre homens e mulheres; por isso, ele nos afasta de abordagens que tendem a focalizar apenas os papéis e funções de mulheres e homens para aproximar-nos de abordagens muito mais amplas, que nos levam a considerar que as próprias instituições, os símbolos, as normas, os conhecimentos, as leis e políticas de uma sociedade são constituídas e atravessadas por representações e pressupostos de feminino e masculino e, ao mesmo tempo, produzem e/ou ressignificam essas representações (MEYER, p. 16, 2003).

Sendo assim, nossa entrevistada ter praticado sete anos de balé, mesmo querendo jogar futebol, poderia estar sinalizando o quanto os conceitos de gênero e dos símbolos (balé para mulheres, futebol para homens) estão cristalizados na sociedade. Além disso, a entrevistada nos contou que, quando criança, ganhou festa da Barbie, enquanto o irmão teve, por duas ocasiões, festa do Flamengo. Esta generificação também pode ser encontrada na própria escola, onde professores encontram dificuldades para montarem times de mulheres de diversas modalidades, como o futebol, por exemplo.

Nas aulas de Educação Física não tem time feminino. São poucas as meninas que jogam, na minha sala só três jogam. As meninas não sabem nem correr direito, não tem nem como elas jogarem bola. Eu sei correr porque na escola onde eu estudava, no Fundamental, eu era estimulada, tinha campeonato de futebol feminino, minha turma era muito organizada e eu comecei a jogar no segundo ano do Ensino Fundamental. A escola incentivou desde o começo. (ENTREVISTADA. Entrevista concedida à Carol Fontenelle. Nova Iguaçu, 16 ago. 2019).

O fato da entrevistada relatar que muitas mulheres na escola não sabem correr e ela se sentir diferenciada, passa pelo processo de aprendizado na escola que ela estudou anteriormente e lá pôde desenvolver essa habilidade. Sendo assim, podemos suspeitar que a prática de desenvolvimento do corpo da mulher para jogar futebol não foi explorada nas outras escolas que as demais meninas passaram, já que é tarefa difícil para o professor de Educação Física respeitar as diferenças entre meninos e meninas e ao mesmo tempo proporcionar que ambos tenham o desenvolvimento de suas capacidades motoras de forma igualitária. É bem provável que isto tenha ocorrido também pelas construções sociais que durante muito tempo tiveram apoio de teorias biológicas do corpo da mulher[1], a exemplo de sua fraqueza para realização de atividades físicas, e que muitos professores possam estar ainda presos a estas amarras da própria cultura. Como aponta Daolio (1997), as diferenças motoras entre meninos e meninas, são, em grande parte, construídas culturalmente e, portanto, não são naturais, no sentido de serem determinadas biologicamente e, consequentemente, irreversíveis.

Fonte: unidadedofutebol.com.br

Devemos levar em consideração, que, como explica Judith Butler (2003), o “corpo” aparece como um meio passivo sobre o qual se inscrevem significados culturais. Dessa forma, podemos inferir que utilizar da Ciência para justificar o fato da mulher não poder realizar determinadas práticas esportivas é usar o corpo dentro de um significado cultural já estabelecido.

Vale contar que, em 1941, é promulgado o decreto-lei n. 3.199, que até o ano de 1975 estabeleceu as bases de Organização dos Desportos em todo o país. O artigo 54 faz referências à prática do esporte pelas mulheres.  “Às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza, devendo, para este efeito, o Conselho Nacional de Desportos (CND) baixar as necessárias instruções às entidades desportivas do país”. Ainda em 1941[2], o general Newton Cavalcanti apresentou ao CND algumas instruções que considerava necessárias para a regulamentação da prática dos esportes femininos. Com a afirmativa de que lutas, futebol, rugby, water-polo e pólo são esportes violentos, as mulheres foram proibidas de realizar estas práticas esportivas. Em 1965, um outro parecer da CND deu instruções às entidades desportivas sobre a prática de esportes pelas mulheres, englobando não somente o futebol de campo, mas também o de salão e o de praia[3].

Além da ideia de que o corpo feminino era frágil para executar tais atividades físicas, havia uma preocupação com a masculinização do corpo da mulher e com a redução de sua fertilidade, afinal, ela deveria ter como função principal procriar. Mas podemos inferir também que a mulher não era aceita em um ambiente constituído socialmente como masculino.

Além do machismo e do moralismo que essas ditas preocupações com o bem-estar das brasileiras não conseguem esconder, elas revelam que, na verdade, o grande problema dizia respeito não ao futebol em si, mas justamente à subversão de papéis promovida pelas jovens que o praticavam, uma vez que elas estariam abandonando suas “funções naturais” para invadirem o espaço dos homens. Não por acaso, o foco do debate centrava-se nos usos que as mulheres faziam de seu próprio corpo, daí derivando-se o tema da maternidade (FRANZINI, 2005, p.321).

Apesar da proibição, muitas mulheres realizavam a prática esportiva clandestinamente. Eram consideradas grosseiras e sem classe. Já as mulheres da elite, assistiam aos jogos, pois o esporte foi um evento na sociedade, até 1920. Em 1979, as mulheres passaram a ter o direito de praticar o futebol[4], mas o esporte não foi federado, ou seja, o CND ainda não havia oficializado a prática, o que só vai acontecer em 1983[5].

Apesar dos 40 anos de aprovação da lei, mulheres continuam sofrendo preconceitos durante a prática esportiva, como aponta nossa entrevistada:

Eu jogo sempre futebol com os meninos na quadra da escola. Eles jogam a bola forte, não aliviam não. Só um aluno tinha preconceito comigo, disse que meninas não podiam jogar futebol porque eles queriam jogar sério. Só que a gente também estava jogando sério. E falei para ele: tá incomodado, se retira que a gente não vai sair daqui não (ENTREVISTADA. Entrevista concedida à Carol Fontenelle. Nova Iguaçu, 16 ago. 2019).

Assim sendo, segundo o colega da entrevistada, jogar sério é para homens. Como explica Busso e Daolio (2011), jogar com meninas representa para meninos submeterem-se a uma condição de nível inferior em relação à “rapidez, velocidade e força” de seus jogos. Corroborando Fernandes Soares, Mourão, Chagas Monteiro e Silva dos Santos (2016), no contexto específico do futebol, a teia de significados generificada é materializada em condutas viris, como agressividade controlada, controle da dor, protagonismo nas competições, robustez corporal evidenciada nos formatos dos corpos, força, agilidade, técnicas corporais adequadas ao desempenho esportivo, superação dos oponentes, liderança, controle das emoções, supressão do choro, heterossexualidade compulsória e heteronormatividade[6].

Sendo assim, ainda de acordo com a afirmação da entrevistada, jogar sério, é como se os meninos tivessem que jogar com mais cuidado, menos vontade, devido à presença de uma mulher, porque ali é um espaço para homens e ela poderia se machucar. Esta atribuição de não ser igual entre si no saber jogar está sustentada em aprendizagens de meninas e meninos fora da escola e passar por preconceitos como este podem fazer com que até meninas que gostariam de jogar, sequer tentem realizar esta prática esportiva.

Como afirma Goellner (2000), criado, modificado, praticado, comentado e dirigido por homens, o futebol parece pertencer ao gênero masculino, como parece também ser seu o domínio de julgamento de quem pode/deve praticá-lo ou não. É quase como se à mulher coubesse a necessidade de autorização masculina para tal. No caso de nossa entrevistada, ela sabe que não precisa da autorização de ninguém. A quadra é dos alunos e ela joga o que quiser, porque tem o entendimento que não há distinção do seu corpo e dos corpos dos meninos na prática esportiva.

Ser frágil e, portanto, não apta a jogar futebol não foi o único preconceito sofrido pela entrevistada. Primeiramente, vale ressaltar que, quando indagada sobre se teria sofrido preconceito, ela afirmou que não. Sendo assim, perguntamos se ela nunca recebeu críticas por jogar futebol e novos elementos foram revelados:

Alguns meninos da minha rua acham que quem gosta de futebol é sapatão, não os que cresceram junto comigo. Mas, mesmo assim, eu jogo futebol com eles na rua. Jogo na escola, na rua, em qualquer lugar. Me chamam e eu vou. Eu jogo na lateral e os meninos me chamam pela internet para ir jogar (ENTREVISTADA. Entrevista concedida à Carol Fontenelle. Nova Iguaçu, 16 ago. 2019).

Outrossim, podemos ainda inferir que, mesmo incomodada com o fato de colocarem a sua sexualidade à prova, jogar futebol é mais importante que talvez discutir para que não a rotulem, já que parece que existe um corpo ideal para a prática de futebol e que ainda há regras de comportamento e beleza que determinam o que é típico do “masculino” e do “feminino”. Como conta Pisani (2018), em seu trabalho de campo para o doutorado em Antropologia Social, pela Universidade de São Paulo, as jogadoras são vítimas de comentários repletos de preconceito, nos quais há a utilização de adjetivos pejorativos que as comparam com homens, desqualificando-as:

Acompanhava, no ano de 2014, um campeonato de futebol de mulheres no qual a ASAPE[7] participava. Na partida que valia vaga para as semifinais, me deparei com uma atleta da equipe adversária que raspara os cabelos. Aproximei-me dessa jogadora antes mesmo de a partida iniciar, perguntando-lhe se poderia tirar uma fotografia dela, pois havia adorado o seu corte de cabelo, e a experiência em campo me dizia que ela também seria alvo de comentários ao longo da partida. Assim que Sofia entrou em campo, quatro homens se aproximaram da grade e começaram a gritar para ela: “É muito macho para ser mulher”; “machona, sapatão” (PISANI, 2018, p. 161).

Fonte: cbf.com.br

Apesar do preconceito, parece que há uma tendência na mídia de veiculação de notícias mais amenas em relação às mulheres na prática do futebol profissional. Em 2019, a TV Globo transmitiu a Copa do Mundo e a seleção brasileira foi desclassificada nas oitavas de final. Não obstante ao desempenho ruim, as jogadoras foram, por muitas vezes, valorizadas durante a transmissão que contou ainda com música tema da Copa, na qual podemos ver o refrão: “Qual é, qual é? / Futebol não é pra mulher?/ Eu vou mostrar pra você, mané. / Joga a bola no meu pé”[8]. A música de Cacau Fernandes (jogadora em atividade) e Gabi Kivitz, (ex-atleta), tal qual o comportamento de nossa entrevistada, sobressaem como tentativas de quebras de preconceito na prática. Por sua vez, a narrativa da TV Globo pode ainda contribuir como mais uma “voz” nesta luta de igualdade de direitos. Vale destacar que, de forma geral, houve mudança narrativa das mídias tradicionais, que parecem ter descoberto o talento das jogadoras brasileiras, como conta a professora Leda Costa (2014):

O talento atribuído às jogadoras é um fator relevante na imprensa brasileira, no tocante à Seleção feminina e, principalmente quando se trata de Marta. Além disso, exaltar a habilidade das jogadoras demonstra que o preconceito contra atletas do sexo feminino tem perdido terreno desde a descoberta que as mulheres também são capazes de produzir um grande espetáculo de futebol em campo.[9] (COSTA, 2013, p. 87, tradução nossa).

Podemos ainda dizer que a maior visibilidade das mulheres no futebol – em grande parte por esta “descoberta de talento” – contribuiu para que fossem criados produtos esportivos e licenciados com as marcas dos clubes específicos para elas, como: vestidos, camisas femininas, tops, chinelos, tênis e regatas. Afinal, agora as mulheres podem ver, na mídia com maior regularidade, outras mulheres utilizando roupas de clubes e se sentirem incluídas nesta possibilidade de consumo. Apesar disso, elas continuam não sendo atravessadas pelo consumo do futebol da mesma maneira que os homens. Primeiramente, porque, como já relatado, elas, em grande parte, não são ensinadas a gostar do futebol desde cedo e, da mesma forma que o talento está sendo descoberto pela mídia, elas estão despertando para o consumo deste esporte.

Por mais que as mulheres tenham interesse pelo futebol, acreditamos que ele é um interesse em construção, pois a tendência é, com a realização de campeonatos de mulheres e veiculação dos jogos na TV, algumas meninas percebam que futebol é assunto para elas, seja na prática ou no consumo. Afinal, como explica Lovisolo (2001), o preconceito se instala quando a crença perdeu suas razões, mas se sustenta num processo circular de repetição que, geralmente, envolve a reiteração da própria emoção que suscita o rememorar e falar sobre a crença. Ainda segundo o autor, para modificar uma crença, transformada em preconceito, é necessário muito trabalho. Podemos dizer, assim, que a escola pode colaborar para que estas crenças e preconceitos sejam minorados.

Como pudemos observar, a entrevistada precisa passar por muitos obstáculos para praticar futebol: família, escola, grupo de amigos – todos apresentaram preconceito, indo contra a sua prática. Talvez, se estimulada, pudesse, quem sabe, ter seguido a carreira de atleta, mas, diante de tantas intempéries, seu caminho parece ser outro: “Já pensei em seguir carreira jogando bola quando eu era pequena. Agora quero terminar o meu curso de Enfermagem e depois fazer faculdade de Direito, quero ser delegada”, conta.

Assim, podemos dizer ainda que a escola pode ser um dos lugares a começar a quebrar paradigmas do que é socialmente construído somente para mulheres ou somente para homens, bem como estimular meninas a seguirem seus sonhos, mesmo sabendo das dificuldades. Afinal, como afirmam Furlan e Lessa dos Santos (2008), o esporte, muitas vezes, se traduz como importante elemento da visibilidade da mulher e da sociedade, já que muitos são os nomes que se destacaram como talentos esportivos resultantes das lutas ao longo de anos por conquistas no espaço marcadamente masculino. Ainda segundo as autoras, as políticas de incentivo ao esporte feminino ainda são menores que para o masculino, sendo mais evidente no caso do futebol.

Notas de Rodapé

[1] Para entender um pouco mais sobre a história social do corpo das mulheres, ler: PERROT, Michelle. Os silêncios do corpo da mulher. In: MATOS, Maria Izilda Santos de; SOIHET, Rachel. O corpo feminino em debate. São Paulo: Editora UNESP, 2003.

[2] Para mais informações ler: <https://www2.camara.leg.br/legin/fed/declei/1940-1949/decreto-lei-3199-14-abril-1941-413238-publicacaooriginal-1-pe.html>.

[3] Para mais informações ler: <http://cev.org.br/biblioteca/deliberacao-n-7-2-agosto-1965/>.

[4] Para detalhes, ler: GOELLNER, Silvana Vilodre. Mulheres e futebol no Brasil: entre sombras e visibilidades. Revista brasileira de Educação Física e Esporte, v.19, n. 2, São Paulo, jun. 2005, p.143-151.

[5] Para saber mais informações, ler: SOUZA, Maria Thereza Oliveira. Da visão que eu tenho, do que eu vivi, não sei muito no que acreditar, atletas da seleção brasileira feminina e as memórias de um futebol desamparado. 2017. Dissertação (Mestrado em Educação Física) – Universidade Federal do Paraná, Setor de Ciências Biológicas. Programa de pós-graduação em Educação Física. Paraná.

[6] Para mais informações ler: LOURO, Guacira Lopes. Heteronormatividade e homofobia. In: JUNQUEIRA, Rogério Diniz (Org.). Diversidade sexual na educação: problematizações sobre homofobia nas escolas. Brasília: Ministério da Educação/UNESCO, 2009.

[7] ASAPE refere-se à Associação Atlética Pró-Esporte, agremiação dedicada à prática do futebol de mulheres, localizada em Guaianases, São Paulo.

[8] A letra completa da música pode ser encontrada em: MENDONÇA, Renata. Jogadoras lançam ‘pagode do futebol feminino’ para embalar mulheres na Copa. Disponível em: <https://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/2019/06/06/jogadoras-lancam-pagode-do-futebol-feminino-para-embalar-mulheres-na-copa/>. Acesso em: 16 jan. 2020.

[9] O texto em língua estrangeira é: The talent attributed to the players is a relevant fator in the Brazilian press’, representation of the women´s national team, and especially Marta. What is more, exalting the players´skill demonstrates that prejudice against female athletes has lost ground since the discovery that women are also capable of producing a great soccer spectable on the field.

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Mohamed Salah, o novo faraó do Egito

Houve um tempo em que a única oportunidade de assistir a um jogo internacional pela TV era no domingo pela manhã, quando a TV Bandeirantes exibia, no Show do Esporte, uma única partida da rodada do Campeonato Italiano. O chamariz para os brasileiros era a eventual participação de ídolos nacionais que, a partir dos anos 1980, começaram a se transferir para o torneio mais competitivo de então. Ídolos como Falcão, Zico, Júnior, Toninho Cerezo, só para citar alguns integrantes do time canarinho de 1982 tinham ido jogar na “bota”.

Não era um mundo globalizado. Nem se sonhava com Internet para meros mortais. Os mundiais eram praticamente a única grande oportunidade de admirar craques de outros países, outras táticas. Não foi à toa que o Carrossel Holandês de Rinus Mitchel pegou a todos de surpresa na Copa da Alemanha, em 1974. Cruyff era um desconhecido para nós que estávamos abaixo da linha do Equador.

Hoje a história é outra. Há uma enorme diversidade de campeonatos disponíveis na TV por assinatura ou nos canais de streaming. Os principais torneios do mundo, com seus milionários investimentos, se tornaram comuns em todos os tipos de tela à nossa disposição. A disputa da UEFA Champions League, no Brasil, dependendo da faixa etária, repercute mais do que o Campeonato Brasileiro, afinal, lá estão os craques que os jovens torcedores aprenderam a admirar.

O professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Ronaldo Helal, estuda o surgimento e a formação de ídolos e heróis representativos de espetáculos de massa e suas relações com a Indústria Cultural. Em seu artigo “Mídia, Ídolos e heróis do futebol”, disponível no portal da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação, ele nos lembra que  “um fenômeno de massa não se sustenta sem a presença de ‘estrelas’. São elas que atraem as pessoas aos eventos e transformam-se em um referencial para os fãs”. E é justamente a imagem desses ídolos que ajuda a mover uma poderosa engrenagem de negócios, gerando lucros estratosféricos. De acordo com a Football Money League, da consultoria norte-americana Deloitte, só o Barcelona faturou cerca de 840 milhões de euros na temporada 2018/2019 (algo em torno de 4 bilhões de reais). O argentino (ou já seria catalão?) Lionel Messi, o português Cristiano Ronaldo, o brasileiro Neymar Jr. são os nomes mais representativos desse seleto clã, mas há espaço para muitos outros nos holofotes midiáticos globais.

Este artigo é dedicado justamente a um desses jogadores que, a princípio, integrariam um segundo escalão, mas que em seu país é considerado um rei, ou melhor, um faraó: Mohamed Salah Hamed Mahrous Ghaly, ou simplesmente Mo Salah, como é apelidado na Premier League inglesa, onde atua pelo Liverpool. O atacante de 27 anos é o maior jogador da história do futebol egípcio.

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Fonte: Acervo pessoal do autor.

De norte a sul do Nilo, a figura de Salah está presente e nos locais mais inusitados, como uma fachada de salão de barbeiro em Memphis, dando nome a um pequeno barco que transporta turistas na cidade de Aswan ou estampando papiros em uma loja em Giza. Adesivos em carros ou tuk-tuks (espécie de moto-táxi) se vê às centenas. Algo que chama a atenção até mesmo de quem não está habituado com o mundo do futebol.

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Fonte: Acervo pessoal do autor.
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Fonte: Acervo pessoal do autor.

Durante uma recente viagem ao Egito, perguntei a várias pessoas de lá o que achavam de Mohamed Salah, e os elogios ao jogador foram uma unanimidade, não houve sequer uma queixa, um senão. E o mais curioso de tudo é que, apesar de o ponta ter sido um dos maiores responsáveis por levar o selecionado egípcio ao mundial da Rússia, em 2018, raros eram os elogios que passavam por seu desempenho nas quatro linhas. A maior qualidade de Salah era sempre a ligação com suas origens e a constante preocupação com seus compatriotas.

O nosso guia no Cairo, Abdel Kader El Araby, nasceu na mesma região que o atacante do Liverpool, no delta do Rio Nilo. O entusiasmo para falar de Salah superava as dificuldades que tinha com o “portunhol” que usava para nos explicar as atrações que visitávamos. Orgulhoso, Abdel nos contou que todos os anos o jogador volta ao povoado de Nagrig, na Província de Garbia. Disse que o jogador dispensa qualquer proteção e que se desloca pela cidade como nos tempos em que lá vivia. Nosso guia também fez questão de ressaltar como Salah ajudou e ainda ajuda a região.

As boas ações de Salah viraram lendas numa terra tão acostumada a elas nos últimos cinco mil anos, algumas reais e, outras, frutos da imaginação popular. É fato que Salah mandou construir uma quadra de esportes na escola que ganhou seu nome, em Nagrig, que ajudou a reformar o hospital de Basyoun, onde foram construídas salas de atendimento para recém-nascidos, além da compra de ambulâncias. Também é correto afirmar que faz contribuições mensais para centros comunitários e outras bem mais vultosas, como o repasse de cerca de um milhão e meio de reais para o Tahya Masr Fund, uma instituição que presta atendimento de saúde a 900 mil crianças matriculadas no sistema público de educação do Egito. No entanto, outras supostas atitudes beneficentes acabaram se propagando pelo país sem que fossem de fato tomadas, como, por exemplo, a ajuda que teria dado a milhares de casais que não tinham condições financeiras para se casar ou a construção de uma grande estação de tratamento de água em sua região natal.

A religião muçulmana é baseada em cinco pilares, e um deles é justamente a caridade, ou seja, todo seguidor dos ensinamentos de Alá deve doar um percentual de seus ganhos aos necessitados, mas nenhuma das pessoas com que conversei acredita que o motivo das doações feitas pelo jogador seja religioso, já que Mohamed Salah é muçulmano, como cerca de 90 por cento da população egípcia. Para todas essas pessoas, a caridade praticada por ele é fruto de sua índole, o que o faz ser ainda mais admirado.

Não se pode classificar Mohamed Salah como um jogador engajado, mas seria errado, também, dizer que ao se transferir para o exterior ficou alheio aos graves problemas enfrentados por seu país. Quando atuou pela Fiorentina da Itália, por exemplo, passou a usar a camisa número 74. Esse foi o número de mortes na tragédia do estádio de Port Said que aconteceu no dia primeiro de fevereiro de 2012. Tudo por causa de um confronto entre “ultras” (grupos de torcedores violentos) do time local, o Al-Masry e da equipe do Al-Ahly, do Cairo.

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Fonte: ANSA.

Em 2013, se recusou a apertar a mão de jogadores do time israelense do Maccabi, por discordar da política sionista em relação à Palestina. Outro exemplo da preocupação com assuntos extra campo foi uma doação de dois milhões e meio de libras esterlinas (14 milhões de reais) para o Instituto Nacional do Câncer, que teve parte das instalações atingida por um atentado terrorista em agosto de 2019. Além disso, Salah é o rosto de uma campanha antidrogas no país.

Em um texto para o jornal The New Arab, em maio de 2018, Mohamed El Meshad, jornalista com foco na economia política da mídia, questionou: “Mo Salah é um herói necessário ou um ópio para as massas?”. El Meshad entende que o craque egípcio deveria se manifestar mais em relação a temas do Oriente Médio, como as agressões na Faixa de Gaza, por exemplo. “Dado seu passado, Salah poderia usar seu status de craque mundial e se manifestar, especialmente em um momento em que grupos de defesa pública e ação política independente foram esmagados pelo Estado.  Mas certamente é pedir demais a um jogador de futebol de 26 anos que sempre tome a decisão correta sobre o que dizer e o que não dizer, quando falar e quando não falar”.

No artigo citado no começo deste texto, Ronaldo Helal destaca a visão de dois pensadores que muito se encaixa com a imagem que a população egípcia tem de Mohamed Salah: “Edgar Morin (1980) e Joseph Campbell (1995) chamam a atenção para a diferença entre celebridades e heróis. Enquanto os primeiros vivem somente para si, os heróis devem agir para ‘redimir a sociedade’. A saga clássica do herói fala de um ser que parte do mundo cotidiano e se aventura a enfrentar obstáculos intransponíveis, os vence e retorna à casa. Conforme colocou Campbell (1995:36) ‘o herói parte do mundo cotidiano e se aventura numa região de prodígios sobrenaturais; ali encontra fabulosas forças e obtém uma vitória decisiva; o herói retorna de sua misteriosa aventura com o poder de trazer benefícios aos seus semelhantes’”.

Para Mohamed El Meshad, “Salah é um produto do presente que representa um futuro no qual muitos estão desesperados para acreditar, um egípcio bem-sucedido contra todas as probabilidades”. O fato é que o ídolo egípcio conseguiu em meio a uma fase tão difícil, unir o país, ainda que através do futebol. Depois da Primavera Árabe e os violentos protestos na praça Tahrir, cujo nome significa liberdade, o ditador Hosni Mubarak, que estava há 30 anos no poder, foi deposto. Mas a transição para a democracia se mostrou turbulenta e entrou em colapso quando o presidente Mohamed Morsi, democraticamente eleito, foi derrubado pelos militares com apoio popular em 2013.  Desde então o Egito está sob o comando do presidente Abdel Fatah al-Sisi, ex-chefe das forças armadas, e vive um regime de severa repressão a qualquer tipo de oposição.

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Fonte: Acervo pessoal do autor.

Em junho de 2018, pouco antes da Copa da Rússia, o jornal inglês The Guardian publicou um texto com o título: “Como Mohamed Salah conseguiu o impossível: unir o Egito”. A reportagem buscou depoimentos de várias pessoas ligadas ao futebol egípcio para tentar retratar o fenômeno. A fala mais emblemática, que chama a atenção pelo tom tão ufanista quanto exagerado, é de Mohamed Farag Amer, então chefe do Comitê Parlamentar de Esportes e Juventude do Egito. Para ele, “Mohamed Salah é realmente importante porque ele é um símbolo como Tutancâmon, como as pirâmides”.

A imagem de Mohamed Salah, mesmo depois do decepcionante desempenho do Egito na Copa de 2018, com três derrotas, seis gols sofridos e dois marcados, não foi abalada. As conquistas pelo Liverpool, com os títulos da Champions League e do Mundial Interclubes da FIFA, fazem com que sua reputação permaneça intocada, até porque, daqui a dois anos, há um novo mundial e os egípcios só pensam em, mais uma vez, disputar a Copa do Mundo. Um sonho que só parece possível graças a Mohamed Salah. Portanto, vida longa ao “Faraó”.

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Primeira edição dos Encontros LEME 2020

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No primeiro Encontro de 2020, vamos receber Luiz Guilherme Burlamaqui, que apresentará a pesquisa “A dança das cadeiras: como João Havelange se tornou presidente da FIFA em 1974”.
Luiz Burlamaqui é doutor em História Social pela USP e professor de história no Instituto Federal de Brasília.

Encontros LEME é uma proposta do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte que visa a partir da leitura de textos e análise de produções fílmicas realizar debates com professores, pesquisadores, graduandos e convidados interessados em estudar as interseções da Comunicação com o Esporte. Os encontros pretendem oferecer um espaço de diálogo e formação acadêmica.

Local: Auditório do PPGCom/UERJ
Horário: 16h
Não é necessária inscrição prévia.
Em todas as palestras teremos certificado para alunos para horas complementares.

Os próximos Encontros agendados são:
> 06/04 16h – Diano Albernaz Massarani
> 27/04 16h – Alberto Filgueiras
> 11/05 16h – Irlan Simões
> 27/05 16h – Isabella Trindade
> 08/06 16h – Carlus Augustus
> 22/06 16h – Jimmy Medeiros

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Internet x imprensa: um jogo paralelo no Mundial de Clubes

Redes sociais recorrem ao jornalismo para criticar cobertura da imprensa.

A final da Copa do Mundo da Fifa 2019, entre Liverpool x Flamengo, expôs uma curiosa, e interessante, disputa de narrativas entre o discurso, quase uníssono da imprensa, e o das mídias sociais. Embora marcado, também, pela (saudável) jocosidade das torcidas, as narrativas fora do campo da imprensa apresentaram um fator que parece indicar uma inversão de papéis. Enquanto, não raro, o discurso que exaltava a participação da agremiação carioca soava clubístico, com direito a contagem regressiva do voo, internautas faziam jornalismo, ocupando papel que deveria ser o da imprensa. Entendida essa prática como a busca de contrapontos, a indicação de contrastes no tratamento dedicado ao Flamengo e a outros clubes brasileiros que participaram do mesmo evento em outras edições e a exposição de contradições importantes – eventualmente constrangedoras – entre a fala de veículos e jornalistas e os fatos.

Para colocar a cobertura em perspectiva, eventualmente, foi necessário recuar no tempo, para tentar mostrar como, já na cobertura da conquista da Libertadores, havia fortes contrastes com a gramática dedicada, por exemplo, ao título do mesmo torneio pelo Vasco, em 1998. Assim, por exemplo, em 23 de julho daquele ano, o jornal O Globo anunciava, sem qualquer ilustração, numa discreta coluna de rodapé de página: “Vasco está na final da Taça Libertadores”. O mesmo jornal, 21 anos depois, manchetou, em cinco colunas: “Goleada histórica põe Fla na final da Libertadores”. A matéria era acompanhada por uma foto, em quatro colunas, do Gabigol celebrando um dos dois gols que marcara na vitória de 5 x 0 sobre o Grêmio. No caso do Vasco, a classificação para a final veio após empatar, na Argentina, em 1 x 1, com o River Plate, a quem vencera por 2 x 1, em São Januário.

O tratamento distinto provoca maior estranheza por tratar-se de dois times do Rio, mesma praça do jornal responsável pelos dois títulos. Talvez por isso, embora a comparação entre as duas edições tenha partido da internet, sua forte repercussão nas mídias sociais acabou reverberando em programas como o “Redação SporTV”, que exibiu a cobertura realizada pelo jornal da mesma empresa do programa. O jornalista André Rizek, que comanda o “Seleção SporTV” – umas das principais mesas esportivas da emissora –, foi ao Twitter para chamar a atenção para a contradição exibida pelo programa, e protestou: “É ultrajante a diferença no tratamento dispensado aos dois clubes, em situações muito parecidas”.

Paulista radicado há alguns no Rio, Rizek, em outras ocasiões, já manifestara seu descontamento com o que considera a assimetria do tratamento da imprensa carioca em relação ao Flamengo e aos outros três times grandes do Rio: Botafogo, Fluminense e Vasco. Nas suas palavras: “Tem a cultura que o Flamengo tem de ser soberano. Para o Flamengo ser soberano, tem de ridicularizar os outros. Os feitos dos outros são menos comemorados, são menos vibrados, menos enaltecidos.”

Glamourização da derrota x Orgulho do torcedor

Apesar do papel relevante que ocupa no jornalismo esportivo do Rio, Rizek, no entanto, parece ser voz quase isolada no questionamento a esse comportamento. Ao menos, esse parece ser o entendimento das vozes que se levantaram nas mídias sociais para se contrapor aos jornalistas que enalteceram o vice-campeonato do Flamengo, em contraposição ao tratamento dispensado a outros clubes em situações semelhantes. Em junho de 2019, quando o  Corinthians foi eliminado pelo Flamengo, nas quartas de final da Copa do Brasil, também por 1 x 0, o portal Terra exaltou a atuação do time paulista, apesar da derrota: “O dia em que o Corinthians ganhou sem ter vencido. No jogaço contra o Flamengo, Timão lava a alma da torcida e traz esperanças de dias melhores”. No Twitter, Mauro Cezar Pereira, da ESPN Brasil, reproduziu o tweet do Terra, mas encabeçado pela crítica: “Glamourização da derrota.”

O mesmo jornalista, no entanto, tuitou sobre a derrota do Flamengo para Liverpool: “Grande partida do Flamengo, com coragem, com a bola e, enquanto tinha gás, chegou a dominar a partida contra um campeão europeu com força máxima”. E decretou: “Vitória justa do Liverpool, atuação digna do Flamengo. Orgulhoso deve ficar o torcedor”. O tweet foi amplamente replicado nas redes sociais, ao lado do texto anterior de Pereira sobre o Corinthians, acrescido, porém, do mesmo cabeçalho anterior: “A glamourização da derrota”.

Fonte: https://www.terra.com.br/

Exemplos equivalentes repetiram-se à profusão nas redes sociais, antes, e, principalmente, após a vitória do Liverpool. Vários comparavam a exaltação ao “melhor vice-campeão sul-americano contra um europeu” ao tratamento desdenhoso destinado ao Vasco, contra o Real Madri, em 1998. Naquela ocasião, o jornal “Extra” titulou: “Flamengo em festa com o vice do Vasco”. Vinte e um anos depois, o mesmo veículo manchetou: “Orgulho do tamanho do mundo”.

No primeiro caso, além de introduzir a comemoração do rival no título, a matéria era ilustrada pela foto de um jogador do Vasco com as mãos na cabeça, expressando dor. No segundo, a fotografia exibia atletas do Flamengo aplaudindo a própria atuação e a torcida. Como é pouco provável que os rivais estivessem tristes com a derrota rubro-negra, os editores do jornal, dificilmente, poderiam se escudar na objetividade para justificar a ausência da jocosidade clubística que abrigara no outro caso. E, como recordam lances editados e exibidos na internet, o time de São Januário fez um jogo muito mais parelho – para muitos, superior – com o rival espanhol, como mostram as inúmeras chances claras de gol. Já o goleiro do Liverpool, Alisson fez uma solitária defesa ao longo dos 120 minutos, entre o tempo regulamentar e a prorrogação.

Ainda que toda a narrativa das mídias sociais exibida nesse episódio tenha em seu DNA a paixão clubística, como mostra a sua forte replicação por torcedores não rubro-negros, ela se distingue da jocosidade das torcidas, também fortemente presente, aí do lado dos rivais e dos torcedores do Flamengo – neste caso, brincando com a clara superioridade do clube em relação aos concorrentes exibida ao longo do ano passado.

Diferentemente desta, cujo principal combustível é a paixão clubística e não tem qualquer compromisso com fatos, apuração, contexto, as críticas jornalísticas deixam o jornalismo esportivo numa posição incômoda. Ao compararem – e comprovarem – como os mesmos veículos e jornalistas agem de formas assimétricas diante de fatos semelhantes quando vivenciados por atores diferentes, elas expõem uma subjetividade, que, ao menos em tese, deveria limitar-se ao universo dos torcedores, em contraponto, à objetividade reivindicada pelo jornalismo.

É sabido – e admitido pelo próprio universo jornalístico – que as editorias de esporte são consideradas espaços mais livres, nos quais a busca pela objetividade pode se dar ao luxo de certo relaxamento dos seus rigores habituais. Mas, justamente, por esse relaxamento, também são um território privilegiado para estudos de caso. Não sobre uma exceção na engrenagem da objetividade jornalística, mas, exatamente, para fornecer uma visão mais transparente do processo que, em outras editorias, é mais velado.

Analogias entre as preferências esportivas exibidas nessas editorias podem ser encontráveis, por exemplo, nas seções de política e economia, mostrando que, se os interesses das empresas podem ser mais explicitados nas primeiras, também comparecem nas outras duas, ainda que de formas menos identificáveis pelo público leigo nesses temas. Eles estão presentes no tratamento distinto destinado a políticos e partidos em temas equivalentes. Como exemplo pouco sutil: o mensalão do PT x o mensalão mineiro – enquanto este envolvesse um partido, o PSDB, e não um estado como um todo.

O mesmo vale, nas páginas de economia, para a cobertura sobre as mudanças na Previdência. No vasto espaço destinado ao tema, o “Jornal Nacional”, principal telejornal do país, não ouviu um só entrevistado contrário à redução dos direitos à aposentadoria. Ou seja, o famoso ouvir os dois lados, um dos cinco procedimentos estratégicos que servem à busca pela objetividade jornalística. Sendo os demais a técnica do lead; o recurso a provas auxiliares; o uso de aspas e a separação de fatos e opinião, o que reforçaria o caráter objetivo e neutro da primeira em contraponto à subjetividade e à editorialização da segunda (TUCHMAN, 1993).

Se no passado, a subjetividade das editorias esportivas contava com maior complacência do público – ou, ao menos, este tinha canais menos estridentes para manifestar divergências – as redes sociais mostram que, quando recorrem à mesma metodologia reivindicada pelo jornalismo, podem produzir contrapontos objetivos às narrativas das empresas que vão muito além da jocosidade das torcidas. A análise desse fenômeno pode ser uma pista e um incentivo para que possa ser estendido às outras editorias.

 

Referências

BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Lisboa: Difel, 1989

SOUTO, Sérgio Montero. Imprensa e memória da copa de 50: a glória e a tragédia de Barbosa. Niterói: Dissertação de Mestrado da UFF, 2002.

TUCHMAN, Gaye. “A objectividade como ritual estratégico: uma análise das noções de objectividade dos jornalistas”. In: TRAQUINA, Nelson (org.). Jornalismo: questões, teorias e “estórias”. Lisboa: Vega, 1993.

Artigos

Uma crônica para Kobe Bryant

Domingo, 26 de janeiro de 2020, 19h aproximadamente. Estava chegando em casa, bastante cansada, após ter ido até o estádio de Moça Bonita assistir Bangu 1 x 5 Fluminense, pelo Campeonato Carioca de futebol masculino.

Ao chegar, abri a porta do quarto do meu irmão, o mais fanático tricolor que eu conheço, para falarmos sobre a vitória do Fluminense. Esperava encontrá-lo feliz após a goleada do nosso time, mas não foi assim que o encontrei.

Ao entrar no cômodo, me deparei com ele chorando copiosamente em frente à televisão. Meu celular havia descarregado durante o jogo, fiquei sem notícias do que se passava no mundo e confesso que nada entendi ao ver meu “brother” naquele estado.

Ele soluçava, chorava muito, as lágrimas escorriam. Parecia uma criança. Me preocupei. Perguntei o que havia acontecido, mas ele estava tão triste que nada conseguia falar. Quando olhei para a tela da TV, vi que estavam falando sobre a morte do Kobe Bryant.

Fonte: www.cbssports.com

“O que??? O Kobe morreu????”, perguntei, incrédula. Tão novo. Nem fazia tanto tempo assim que ele havia se aposentado. Nunca fui tão fã de basquete, mas sabia da sua importância pro esporte.

Fiquei chateada, mas confesso que não sabia o quanto meu irmão gostava desse cara. Tentei o consolar, porém em vão. Quando ele conseguiu falar, me explicou tudo.

Foi o Kobe que fez ele se apaixonar por basquete. Ele não chegou a se formar, mas cursou educação física por um tempo. Ele estagiou com crianças em aula de basquete. Ele, inclusive, está com o dedo quebrado. Quebrou jogando basquete. Fui entendendo, aos poucos, que basquete, para o meu irmão, é sinônimo de Kobe e Shaq. Foi por causa desses dois que ele passou a acompanhar, jogar, dar aula, etc.

Parece bobo, não é? Um marmanjo de vinte e dois anos, quase vinte e três chorando por um cara que ele nem conheceu. Mas isso é idolatria. Isso é amor. Isso é esporte. Com certeza, a vida do meu irmão nunca mais será a mesma. A NBA não será a mesma. O basquete não será o mesmo. O mundo esportivo não será o mesmo.

Muito mais do que basquete, Kobe Bryant significa superação, humildade e simpatia. Nunca foi “só” basquete. Nunca foi “só” um esporte, seja ele qual for.

Meu irmão chorava por Kobe, pela sua filha e pelos outros envolvidos no acidente. Meu irmão chorava, principalmente, por gratidão. O Kobe mudou a vida dele. Quantos amigos ele não fez jogando? Para quantos alunos ele ensinou e passou um pouquinho dessa paixão? Ele sonhava em um dia poder agradecer a Kobe Bryant por tudo isso. Mas esse sonho nunca irá se realizar.

No auge da tristeza e fora de si, ele me perguntou: “será que se eu morrer agora, eu chego no céu junto com o Kobe para agradecer?”. Nos abraçamos. E choramos. Foi bastante triste. Claro que ele não iria se matar, conheço meu irmão e ele ama a vida. Mas, por um momento, a vida perdeu o seu significado.

Nós valorizamos a luz porque conhecemos a escuridão. Valorizamos a saúde porque conhecemos a doença. Valorizamos a vida, apesar de não conhecermos a morte. Mas sabemos da existência dela. Então, o que posso dizer hoje, caro leitor, é que aproveitemos nossa vida ao máximo. Não sabemos quando essa dádiva irá se acabar.

Quanto ao Kobe, desejo que descanse em paz. Em paz mesmo. Fica tranquilo, pois o legado que você deixou na Terra é imenso. Meu irmão e mais milhões de loucos por basquete não irão deixar o amor pelo esporte morrer. A semente que você plantou já está dando frutos faz tempo e continuará desta forma até o último dia de vida nesse planeta. Pode ter certeza.

Adeus, Kobe. O Mundo inteiro te ama, basta ver as grandes homenagens que lhe foram prestadas. Estamos nos sentindo sozinhos porque perdemos uma grande referência, mas a sua mentalidade vitoriosa vai contribuir para que recuperemos nossa felicidade qualquer dia. Nunca será “só” um esporte. Ainda tem muita bola laranja pra subir.

Da irmã de um fã seu,

Marina Mantuano.

Artigos · Produção audiovisual

Já está no ar o décimo episódio do Passes e Impasses

Acesse o décimo episódio do podcast Passes e Impasses no Spotify*, Deezer*, Apple PodcastsPocketCastsOvercastGoogle PodcastRadioPublic e Anchor.

O tema do nosso décimo episódio é “O Brasil em sua primeira participação olímpica”. Com apresentação de Filipe Mostaro e Mattheus Reis, que é pesquisador do LEME e e jornalista da Rádio Globo, recebemos no nosso estúdio Fausto Amaro, doutor em Comunicação pela UERJ, coordenador técnico do LEME e diretor do Passes e Impasses.

 

O podcast Passes e Impasses é uma produção do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte em parceria com o Laboratório de Áudio da UERJ (Audiolab). O objetivo do podcast é trazer uma opinião reflexiva sobre o esporte em todos os episódios, com uma leitura aprofundada sobre diferentes assuntos em voga no cenário esportivo nacional e internacional. Para isso, traremos sempre especialistas para debater conosco os tópicos de cada programa. Você ama esporte e quer acessar um conteúdo exclusivo, feito por quem realmente pesquisa o esporte? Então não deixe de ouvir o décimo episódio do podcast Passes e Impasses.

No quadro “Toca a Letra”, a música escolhida foi o “Hino Olímpico”, que foi composto pelo grego Spyridon Samaras, com letra do poeta romano Kostís Palamás.

Passes e Impasses é o podcast que traz para você que nos acompanha o esporte como você nunca ouviu.

Equipe

Coordenação Geral: Ronaldo Helal

Direção: Fausto Amaro e Filipe Mostaro

Roteiro: Marina Mantuano e Carol Fontenelle

Produção: Fausto Amaro e Marina Mantuano

Edição de áudio: Leonardo Pereira (Audiolab)

Apresentação: Filipe Mostaro

Convidados: Mattheus Reis e Fausto Amaro

Artigos

Novas dinâmicas na circulação de futebolistas brasileiros entre a Europa e o nosso país

Hoje em dia o futebol é o esporte mais popular e mais consumido de todo o planeta. Ele e suas variadas matrizes se apresentam atualmente como uma linguagem uníssona, atravessando segmentações e fronteiras. Conhecidamente marcado pelas paixões e pelas disputas identitárias, o futebol cada vez mais se torna um filão da indústria do entretenimento e ponto central de inúmeros agentes econômicos que utilizam-no como instrumento para vender tudo que for possível. Dessa forma, o funcionamento do futebol encontra-se cada vez mais atrelado as dinâmicas do capitalismo e as configurações da globalização mundial.

Fonte: gabrieldantas-futebol.blogspot.com

O aumento dos fluxos de capitais, da transnacionalização das marcas/empresas, das relações de trabalho e das tecnologias de comunicação também influenciaram a (re)organização dos clubes e das ligas de futebol ao longo da segunda metade do século XX e início do século XXI.

O avanço do campo econômico sobre o campo futebolístico pode ser visto na paulatina migração desse das páginas esportivas para os cadernos de economia. Além da crescente preocupação dos analistas e cronistas em comentar aspectos financeiros e mercadológicos dos clubes, tais como balancetes e arrecadações. Diante disso, muitas vezes achamos que estamos lendo um encarte econômico com notícias sobre compra, venda, balanços de fluxo de caixa, contratos, projeções financeiras e lucros líquidos.

O futebol tornou-se uma mercadoria global interpenetrada cada vez mais pelo capitalismo neoliberal. Os investimentos do capital privado aumentaram significativamente, a partir da década de 1970, com o esforço da FIFA, através de seu presidente João Havelange (1974-1998), para potencializar a capacidade mercantil do futebol (ROCHA, 2013). Nessa nova lógica entre campo esportivo e campo econômico tornou-se cada vez mais comum a entrada de investidores privados nos clubes de futebol, principalmente na Europa e Estados Unidos, e em muito menor número na América do Sul. Os exemplos mais extremos desse processo são aqueles em que tradicionais clubes são comprados por investidores estrangeiros ou por empresas, como é o caso do Chelsea na Inglaterra ou até mesmo o Bragantino no futebol brasileiro.

A aproximação cada vez maior entre economia e futebol, permite com que as estruturas econômicas que funcionam no mercado global, passem a influenciar o funcionamento das relações dentro desse esporte. Isso pode ser visto no aparecimento de “clubes-globais”, que assim como as cidades-globais, são aquelas extrapolam suas fronteiras enquanto cidades, regiões e até mesmo países.

Fonte: gazetaesportiva

Os clubes-globais são nódulos de fluxos econômicos, humanos, midiáticos e simbólicos globais. São clubes que tem torcedores espalhados pelo planeta, jogadores provenientes de diferentes lugares do mundo, que estão presentes na mídia em diferentes países, que concentram capital que circula globalmente, que atingem a imaginação de uma população planetária. Dentro desta lógica que podemos entender a transformação de alguns grandes clubes do mundo em “marcas globais”.

A nova lógica do futebol, marcada pelo aprofundamento da sua mercantilização aumentou enormemente a circulação dos jogadores entre os clubes, e fez com que estruturas do campo econômico fossem apropriadas no campo futebolístico, tais como as relações entre centro e periferia na divisão internacional do trabalho (DIT). Dessa forma, a periferia do mercado capitalista global, localizada principalmente nos países do hemisfério Sul e produtora basicamente de commodities para os países centrais do hemisfério norte, também se vê presente nas relações comerciais do futebol internacional.

Nessa relação centro-periferia do futebol, os países europeus com destaque para Inglaterra, Espanha, França, Alemanha, Itália e Portugal seriam o centro, ou seja, donos das principais ligas do mundo, com maior poder aquisitivo e visibilidade, tendo a necessidade de obter boa matéria-prima para manutenção dos seus campeonatos. Em compensação, à periferia, marcada principalmente pelos países latino-americanos e pelos países africanos caberia o fornecimento de boas matérias-primas de jogadores para abastecer as melhores ligas. Temos, então no Brasil, a formação de um exército de jogadores (“pés-de-obra”) voltados para abastecer as ligas da Europa, fazendo com que os clubes passem a atuar numa lógica próxima a de empresas capitalistas. Como consequência desse processo temos o surgimento de clubes cujo objetivo central é o lucro econômico, auferido com a venda de jogadores, e não as vitórias em campeonatos.

A transferência de jogadores brasileiros para o exterior, no entanto, não surgiu apenas com o aprofundamento da mercantilização do futebol. Durante todo desenvolvimento desse esporte no Brasil, ocorreu a migração de atletas para outros países. Autores como Rial (2009), Agostino (2002), Alvito (2006) e Damo (2007) evidenciam desde 1920 a saída de atletas brasileiros para países como Itália, Espanha, Argentina e Uruguai. Vários motivos são listados para essa saída, entre os quais podemos citar: A possibilidade de auferir ganhos financeiros como o futebol diante de novos mercados nos quais o futebol já era profissionalizado. Além disso, as relações de descendência de alguns jogadores brasileiros com a Itália e a Espanha também facilitavam essa migração.

Os autores também evidenciaram que apesar de casos emblemáticos como a ida de Domingos da Guia, Fausto e Zizinho para outros mercadores do futebol, o período entre 1920 e 1960 não mostrou uma saída massiva de atletas do futebol do país. Esse êxodo de brasileiros começa a ocorrer principalmente a partir da década de 1980, quando as principais ligas nacionais na Europa, iniciam uma reestruturação e profissionalização, a reboque das mudanças produzidas por João Havelange na FIFA a partir década de 1970.

Com campeonatos mais organizados, maiores patrocínios e melhores salários, o que se verifica é a saída em massa de atletas do Brasil para a Europa. Ainda mais se lembrarmos que durante a década de 1980, o futebol brasileiro se encontrava numa grave crise de organização, investimentos e gestão, que culminaria com a ameaça de não realização do campeonato nacional de 1987 (HELAL, 1997).

Fonte: telam.com.ar

Entre as décadas de 1980, 1990 e os anos 2000, o número de jogadores profissionais que saíram do país rumos aos mais diversos mercados internacionais ultrapassou a marca de 15 mil indivíduos, sendo que desde 1998 até o ano de 2018, esse número mantinha-se crescente de um ano para o outro (ALVITO 2006; FIFA; 2018). Entre os principais destinos de brasileiros para o exterior temos a liga portuguesa em primeiro lugar, seguida da liga Ucraniana, e depois as ligas italiana e espanhola.

Cabe ressaltar que a lei Bosman de 1995 ajudou no aumento das transferências de brasileiros para o exterior, especificamente a Europa, pois permitiu a absorção de uma demanda reprimida por atletas de fora da Europa. Através dessa lei, todo jogador de futebol nascido na Europa dentro das fronteiras da União Europeia passou a ser considerados trabalhador comunitário. Isso fez com que esses indivíduos não fossem mais considerados aos olhos das federações nacionais como estrangeiros. Dessa forma, as vagas para extracomunitários puderam ser ocupadas com outros atletas provenientes principalmente da América do Sul e da África.

Dentro desse universo de aumento da saída de jogadores durante as décadas de 1980 e 1990, podemos perceber que aquelas que movimentavam mais dinheiro e chamavam mais atenção da mídia nacional e internacional eram daqueles jogadores considerados consagrados no futebol brasileiro. Nesse esteio temos a saída de Zico para Udinese, Leovegildo Júnior para o Pescara, Falcão para a Roma e tantos outros na década de 1980, assim como as saídas de Edmundo para a Fiorentina, de Romário e Ronaldo Fenômeno para o PSV da Holanda na década de 1990.

As saídas de jogadores brasileiros nessas duas décadas possuem algumas características em comum, como, por exemplo, a idade normalmente entre 20 e 26 anos de idade, a projeção que esses atletas possuíam no cenário nacional e os valores pagos para adquiri-los, normalmente muito mais baixos do que os atuais, mesmo descontando a inflação. Segundo dados da FIFA sobre as transferências de jogadores nas décadas de 1980 e 1990, a média de idade dos atletas que saiam do país era de 25,4 anos de idade (FIFA, 2007).

A dinâmica de transferências de atletas nessas duas décadas parece se basear principalmente na qualidade enxergada pelos clubes, especificamente os europeus sobre a técnica e a habilidade dos jogadores, sendo a idade um elemento secundário. Diante disso, entre a crônica esportiva dos anos 1990 e 2000, verificou-se que o futebol brasileiro perdia substancialmente seus melhores atletas para o futebol europeu e esses jogadores muitas vezes regressavam apenas em idade mais avançada, após os 30 anos para encerrarem suas carreiras no Brasil.

O funcionamento do mercado de pés-de-obra, no entanto, vem demonstrando uma significativa mudança nos padrões de transferências e no desejo dos grandes clubes europeus pelos atletas brasileiros, a saber, a contratação de jogadores cada vez mais jovens e por cifras cada vez maiores. As saídas recentes de Reinier, Vinícius Júnior, Lucas Paquetá, Bruno Guimarães, Paulinho, Arthur refletem uma tendência que a própria FIFA já vem identificando no mercado de transferências entre Brasil e Europa, que é a saída cada vez maior de atletas com menos de 20 anos de idade. Segundo dados da entidade máxima do futebol, entre 2011 e 2017 a média de idade dos jogadores de futebol que saíram do Brasil foi de 22,8 anos de idade. Quando comparamos essa média com aquela existente entre as décadas de 1980 e 1990, podemos verificar uma queda de quase 3 anos de idade.

A diminuição da média de idade dos atletas que saem do país, evidencia também uma outra tendência pontuada pelo aumento do número de atletas com menos de 20 anos que saíram do país. Segundo os dados da FIFA o número de saídas nessa situação teve um aumento de 192%, pulando de 151 em 2011 para 290 em 2017 (FIFA, 2018). Diante desse fato, percebe-se que o monitoramento dos principais clubes europeus passou a ser prioritariamente nas categorias de base e criando um cenário no qual os principais talentos vão direto para o exterior ou, na melhor das hipóteses, jogam poucos jogos nos seus clubes brasileiros antes de se transferirem.

 

Fonte: df.superesportes.com.br

Entre os principais argumentos utilizados pelos clubes europeus para a compra de jogadores cada vez mais jovens, está a preocupação com a finalização da formação desses atletas na Europa e segundo a filosofia de futebol desses clubes nos quais são contratados. Além disso, em alguns casos é citada a formação tática deficiente realizada em geral pelos clubes brasileiros nas suas categorias de base.

A preferência dos clubes europeus por um nicho cada vez mais jovem de atletas e o cenário de antecipação etária da venda de jogadores brasileiros traz à tona uma nova realidade no futebol nacional caracterizada pelos “veteranos de 24 anos”. Esses atletas, apesar de ainda terem de pouca idade, já não são vistos como atraentes para os grandes clubes europeus. Nessa nova dinâmica do mercado de transferências, a despeito de temporadas eloquentes no futebol brasileiro, não lhes resta muitas alternativas que não sejam a permanência no futebol nacional, ou a ida para mercados alternativos como o asiático, o oriente médio ou clubes periféricos da Europa.

Atualmente 4 casos que exemplificam bem esse cenário são aqueles dos jogadores Dudu do Palmeiras, Everton “Cebolinha” do Grêmio e de Gabriel Barbosa e Bruno Henrique do Flamengo. Esses atletas mesmo com temporadas contundentes nos últimos 3 anos, não receberam propostas dos principais clubes do futebol Europeu. Um dado que os une é o fato de todos possuem entre 23 e 29 anos de idade.

A nova configuração do mercado, com a escolha dos grandes clubes europeus pela compra dos jogadores ainda nas categorias de base das equipes brasileiras suscita debates sobre a dificuldades de manter os jovens talentos no Brasil, com um plano de carreira esportiva atraente e a possibilidade de jogar campeonatos de alto nível durante o ano inteiro. Esse cenário também externa uma preocupação com a identificação cada vez menor que esses jogadores mantem com seus clubes formadores e que a torcida mantém com eles. No entanto, o interesse europeu pelos atletas menores de 20 anos e, consequentemente, sua saída mais precoce para o exterior também vem criando um cenário novo no Brasil, pontuado pela permanência de atletas de alto nível, que sem ofertas atrativas do mercado europeu preferiram continuar no país. A esses casos se juntam aqueles, nos quais jovens promessas foram para o velho continente muito cedo, mas sem corresponder as expectativas acabaram voltando ao Brasil com idade inferior aos 25 anos e com performances boas ao longo das temporadas, como é o caso do jogador Gabriel Barbosa, Gerson, entre outros.

A nova realidade no mercado de transferências foi compreendida por alguns clubes brasileiros que passaram a priorizar investimentos nas categorias de base e a vender suas jovens promessas cada vez mais cedo e por valores vultuosos ao mesmo tempo em que procuram repatriar jogadores brasileiros com idades inferiores a 30 anos de idade. Se durante as décadas de 1980, 1990 e 2000, esses clubes vendiam para a Europa principalmente seus jogadores de destaque ainda na faixa dos 26 anos para contratar brasileiros veteranos que vinham encerrar suas carreiras no Brasil, hoje a dinâmica não é mais primordialmente essa conforme mostram os dados de transferências da FIFA (2018).

A partir dessas observações podemos compreender que as demandas do mercado europeu por jogadores brasileiros mudaram das décadas de 1980, 1990 e 2000, quando comparadas com os números posteriores a 2010. Nesse processo, alguns clubes brasileiros entenderam o novo funcionamento do mercado e procuraram se adaptar a nova realidade, vendendo seus atletas mais jovens e buscando novos jogadores brasileiros na Europa com idades inferiores a 30 anos de idade. Como consequência, podemos verificar a também uma mudança no perfil dos jogadores que regressam do exterior.

Referências:

AGOSTINO, Gilberto. Vencer ou morrer: futebol, geopolítica e identidade nacional. Rio de Janeiro: Mauad, 2002.

ALVITO, M. A parte que te cabe neste latifúndio: o futebol brasileiro e a globalização, IN:Revista do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, v. 41, p.451-474, 2006.

DAMO, Arlei Sander. Do dom à profissão: a formação de futebolistas no Brasil e na França. São Paulo: Aderaldo&Rithschild Ed./Anpocs, 2007.

FIFA. Market Insights: Brasil protagonista del mercado de fichajesinternacionales. Julio de 2018. Disponível em: http://financefootball.com/2018/08/01/fifa-tms-market-insights-big-5-mid-summer-report/

FIFA. Transfers of athletes in the 1980s and 1990 to Europe. 2007 Disponível em: https://resources.fifa.com/image/upload/global-transfer-market-report-1980-1990 men.pdf.

HELAL, R. Passes e Impasses: futebol e cultura de massa no Brasil. Rio de Janeiro: Vozes, 1997.

RIAL, C. S. “Por que todos os ‘rebeldes’ falam português?” A circulação de jogadores brasileiros/sul-americanos na Europa, ontem e hoje. Antropologia em Primeira Mão, Florianópolis, n. 110, 2009.

ROCHA, L.G.B.S.P. No coração de Havelange: Memória, biografia e narrativa simbólica de um livro sobre o maior dirigente de futebol do século XX. Esporte e Sociedade. Niterói, n 21, p.1-33,2013.