Artigos

Chamada de resumos da ReNEme para II Jornada nordestina de pós-graduandas/os em Comunicação e Futebol

Divulgar as pesquisas que estão sendo desenvolvidas por estudantes de mestrado e doutorado nordestinas/os em programas de pós-graduação que versam sobre futebol e outros esportes no campo da Comunicação, sendo altamente estimulados diálogos com outras áreas das humanidades. Esse é o objetivo da II Jornada nordestina de pós-graduandas/os em Comunicação e Futebol. O período de chamada de resumos iniciou-se dia 10 de agosto e as submissões seguem abertas até o dia 29 de abril (sexta-feira).

Após essa data, a organização do evento formará as mesas de apresentação dos trabalhos de acordo com as temáticas e suas relações com o campo do futebol, comunicação e áreas afins. Depois das apresentações orais das pesquisas, haverá um tempo reservado ao debate, com participação aberta do público, que poderá interagir através do chat da transmissão no Youtube.

São aceitos resumos de pesquisas em desenvolvimento ou que tenham sido concluídas como dissertação ou tese em 2021 ou 2022, tendo como objeto de estudo o Futebol.

O envio deve ser feito pelo preenchimento de formulário (https://forms.gle/NJ822KQVoiJfLBUD6), que deve conter um resumo de até 15 linhas (sem contar possíveis referências bibliográficas), em que deve informar, pelo menos, objetivo, metodologia de sua pesquisa e mini-currículo. Todos os congressistas que apresentarem trabalhos receberão certificados de participação.

O evento será realizado pela Rede Nordestina de Estudos em Esporte e Mídia (ReNEme) de 16 a 20 maio de 2022 de maneira virtual, com transmissão online pelo canal do portal Ludopédio no Youtube.

As inscrições para ouvintes receberem certificados pela participação no evento estão sendo feitas até o início do evento via SIGAA da UFAL (final da página): http://sigaa.sig.ufal.br/sigaa/link/public/extensao/visualizacaoAcaoExtensao/6736

A Jornada conta ainda com a organização do grupo de pesquisa Crítica da Economia Política da Comunicação" (CEPCOM), da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), e tem os apoios do Laboratório de Estudos em Esporte e Mídia (LEME), da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ); e do Ludopédio, portal de produção e divulgação científica sobre futebol.

ReNEme

A Rede Nordestina de Estudos em Mídia e Esporte (ReNEme) foi criada em agosto de 2020 com a finalidade de apresentar e colocar em contato discentes e docentes nordestinas/os que estudam esporte e mídia.

SERVIÇO

Jornada nordestina de pós-graduandas/os de estudos de futebol na Comunicação e áreas afins

Data: 16 a 20 de maio

Local: canal do Youtube do portal Ludopédio (https://bit.ly/3ilCvxV)

Período de submissão de resumos: até 29 de abril

Período de inscrição para ouvintes: até 16 de maio

Link de submissão de resumos: https://forms.gle/NJ822KQVoiJfLBUD6

Link para inscrição para ouvintes: http://sigaa.sig.ufal.br/sigaa/link/public/extensao/visualizacaoAcaoExtensao/6736

Produção audiovisual

Já está no ar o quadragésimo nono episódio do Passes e Impasses

O tema do nosso quadragésimo nono episódio, é o Jornalismo Esportivo na era digital. Com apresentação de Filipe Mostaro e Caroline Rocha, gravamos remotamente com Alexandra Carauta, doutor em Comunicação pela PUC-Rio e especialista em Administração Esportiva pela FGV-RJ.

Acesse o mais novo episódio do podcast Passes e Impasses no SpotifyDeezerApple PodcastsPocketCastsOvercastGoogle PodcastRadioPublic e Anchor.

O podcast Passes e Impasses é uma produção do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte em parceria com o Laboratório de Áudio da UERJ (Audiolab). O objetivo do podcast é trazer uma opinião reflexiva sobre o esporte em todos os episódios, com uma leitura aprofundada sobre diferentes assuntos em voga no cenário esportivo nacional e internacional. Para isso, contamos sempre com especialistas para debater conosco os tópicos de cada programa.

Você ama esporte e quer acessar um conteúdo exclusivo, feito por quem realmente pesquisa o esporte? Então não deixe de ouvir o quadragésimo nono episódio do Passes & Impasses.

No quadro “Toca a Letra”, a música escolhida foi “Pela Internet 2”, interpretada por Gilberto Gil.

Passes e Impasses é o podcast que traz para você que nos acompanha o esporte como você nunca ouviu.

Ondas do LEME (recomendações de artigos, livros e outras produções):

Doutor Castor [série]

The English Game [série]

Equipe

Coordenação Geral: Ronaldo Helal
Direção: Fausto Amaro e Filipe Mostaro
Roteiro e produção: Caroline Rocha e Carol Fontenelle
Edição de áudio: Leonardo Pereira (Audiolab)
Apresentação: Filipe Mostaro e Caroline Rocha
Convidado: Alexandre Carauta

Artigos

Inscrições abertas para XVI Encontro Nacional de História Oral

A Associação Brasileira de História Oral (ABHO) convida professores, pesquisadores de todas as áreas de conhecimento humano e público interessado de todas as regiões do Brasil para participar do XVI Encontro Nacional de História Oral. As inscrições de trabalhos já podem ser feitas no site (www.even3.com.br/xviencontronacionaldehistoriaoral/). A chamada foi iniciada dia 20 de fevereiro e será encerrada na próxima semana, dia 20 de abril.

O evento conta com simpósios temáticos nas mais diversas áreas, sendo uma delas a esportiva. Nomeado de “Esportes, narrativas orais e memória”, o simpósio temático 3 tem por objetivo reunir trabalhos que investiguem a História do Esporte e das Práticas Corporais por meio de fontes e narrativas orais.

O XVI Encontro Nacional de História Oral acontecerá de 25 a 28 de julho e terá como sede a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em parceria com a Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Como fazer sua inscrição

1. Na página principal do evento (www.even3.com.br/xviencontronacionaldehistoriaoral/), clique, no canto superior direito da tela, em Login;

2. Caso já tenha login no sistema Even3, utilizar seu e-mail e senha. Caso não possua, clique em “Não tem uma conta? Cadastre-se”. Se este for o caso, crie sua conta e guarde a senha, que será necessária para acessar a área de inscrito, submeter trabalhos, entre outras funções;

3. Retorne à página do evento e clique no botão “Realizar inscrição”. Escolha a categoria de inscrição pessoal e, em seguida, clicando em “Realizar inscrição” novamente;

4. Preencha os seus dados, completando o formulário e, se for associado da ABHO em dia com a anuidade 2022, anexando o comprovante ao final e indicando o código de afiliado;

5. Caso deseje adquirir itens de souvenir do encontro, adicione em sua cesta. Você também pode optar por “Não selecionar itens e continuar”;

6. Ao final desse processo, deverá aparecer a informação “Inscrição confirmada”, caso você seja filiado à ABHO. Caso não, deverá proceder com o pagamento da taxa de inscrição, que é indispensável para que a submissão de propostas seja feita. Do contrário, a área de submissão estará inacessível.

Como submeter suas propostas

1. Após fazer seu login na plataforma Even3 (www.even3.com.br), verificar no topo da tela se o evento correto (XVI Encontro Nacional de História Oral) está selecionado;

2. Clicar em “Realizar submissão” (botão na cor azul escuro);

3. Clicar no botão “Submeter” (botão na cor azul escuro);

4. Escolher a modalidade para a qual você está enviando uma proposta;

5. Preencher os dados completos da proposta, prestando atenção para adicionar co-autores (se for o caso) utilizando o botão “Adicionar autor”;

6. Ao final do preenchimento do formulário, clicar em Submeter;

7. Caso a submissão tenha sido bem-sucedida, você será direcionado à página de suas submissões no evento. Caso encontre uma mensagem de erro, favor verificar o formulário, atentando para as regras de preenchimento.

Artigos

Les Bleus contra Zemmour: a primeira “final” da França em 2022

O futuro da França está em jogo dentro e fora de campo no ano de 2022. Nos gramados da Copa do Mundo no Qatar, o país vai tentar o tricampeonato a partir de novembro. Uma nova conquista terá o poder de reforçar o legado construído desde 1998 pela seleção multiétnica, com o protagonismo de jogadores brancos, negros e de descendência árabe em um momento de crescente xenofobia e racismo entre os franceses. Fora das quatro linhas, porém, o adversário deseja acabar com tudo o que os “Les Bleus” representam: Éric Zemmour, candidato a presidente nas eleições deste domingo.

Após ter ficado fora das Copas de 1990 e 1994, a seleção masculina passou por uma transformação que se confunde com a da própria sociedade francesa. A partir de 1998, a renovada equipe, fruto da migração ao país nas décadas anteriores, disputou três finais de Copa do Mundo e venceu duas, em 1998 e 2018; foi a duas finais de Eurocopa e venceu uma, em 2000; e conquistou duas Copas das Confederações, em 2001 e 2003. O desempenho só se compara ao da seleção brasileira, a única que conquistou mais títulos no período.

Zidane, filho de argelinos, ergue a taça da Copa do Mundo ao lado de Lizarazu (à esquerda) e Desailly, ganês naturalizado francês (à direita): trio é símbolo da nova França do final dos anos 1990. Foto: AFP

No entanto, enquanto acontecia a ascensão meteórica do futebol francês, Zemmour também ganhava notoriedade, justamente fazendo oposição à seleção nacional. O principal livro do jornalista, escritor de extrema-direita e candidato a presidente, com mais de 250 mil cópias vendidas, analisa o primeiro título mundial da França no futebol por um viés racista e xenófobo.

Tom anti-imigração do jornalista, escritor e candidato à presidência da França Éric Zemmour é apelo aos nostálgicos de um país que não existe mais. Foto: Eric Gaillard/Reuters

Em “Le Suicide Français” (“O suicídio francês”, em português), Zemmour afirma que a celebração nacional da vitória por 3 a 0 sobre o Brasil foi um passo rumo ao suposto “declínio do país”, por “priorizar o feito dos jogadores negros, brancos e árabes, ao invés do azul, branco e vermelho da bandeira francesa”. Para Zemmour, a França só foi campeã devido à liderança do treinador Aimé Jacquet e do capitão e atual técnico da seleção Didier Deschamps, dois homens brancos, negando a contribuição de atletas negros e de descendência árabe que são referências no futebol até hoje, como o meia Zinedine Zidane, autor de dois dos três gols daquela final, o lateral-direito Lilian Thuram e o volante Patrick Vieira.

Após a publicação do livro, Zemmour virou presença recorrente em programas de debate em emissoras de rádio e TV, e colunista de jornais de direita na França, como o “Le Figaro”, o que serve de alerta para o jornalismo profissional não compactuar com a ascensão de quem pode justamente atacar a imprensa e a democracia, em troca de polêmica e audiência.

Zemmour no poder executaria o projeto de destruição da bandeira da igualdade racial, da tolerância, da integração e da representatividade da seleção francesa de futebol. No entanto, está difícil virar o jogo. Antes em segundo lugar, o candidato agora está apenas em quarto, com 10% das intenções de voto. No entanto, outra candidata alinhada ideologicamente a Zemmour, Marine Le Pen, com 21,5%, deve disputar em 24 de abril o segundo turno contra o atual presidente Emmanuel Macron, de centro e líder nas pesquisas com vantagem de somente 5 pontos percentuais. 

A França pode até ser tricampeã mundial no Qatar, em dezembro, confirmando o favoritismo. Mas, para sair vitoriosa em 2022 de fato, precisa, antes, vencer nas urnas.

Artigos

Paulo André e a polêmica do bolsa atleta 

Paulo André Camilo, jovem de 23 anos, nasceu em Santo André, no ABC Paulista, mas cresceu em Vila Velha, no Espírito Santo. Velocista multipremiado, atleta olímpico, recordista sul-americano sub-18 dos 100m rasos, terceiro homem mais veloz da história do Brasil e campeão no Mundial de Revezamento no 4x100m rasos de 2019.

Fonte: Veja

Embora referência no seu esporte, antes de sua entrada no reality Big Brother Brasil, Paulo André não era um rosto conhecido pelo povo brasileiro. Após aceitar o desafio de ingressar no BBB, o atleta passou a ser citado e muitos dos seus feitos no esporte vieram à tona nas redes sociais – e foram recebidos por muitos com curiosidade e surpresa.

Muitos dos usuários das redes sequer tinham ouvido falar no atleta enquanto outros o conheciam mas não sabiam do seu destaque no atletismo. Atualmente, Paulo é assunto constante, seja por sua atuação no reality, seja por sua aparência ou por notícias relacionadas ao esporte.

Polêmica

Durante a estada na casa, o ministro da Cidadania, João Roma (Republicanos), questionou a bolsa atleta paga mensalmente ao velocista Paulo André, gerando diversos comentários nas mídias sociais, principalmente no Twitter.

Fonte: Twitter

Na última semana, o Governo Federal suspendeu o pagamento da bolsa ao velocista após entender que, uma vez que o atleta estava confinado, não estava cumprindo o programa anual de treinamento apresentado em janeiro de 2021 para aquele ano.

O que é o bolsa atleta?

Segundo o governo federal, o investimento anual no esporte é de R$ 750 milhões. Esse valor é destinado majoritariamente para atletas olímpicos e paraolímpicos – através da Lei das Loterias, do Bolsa Atleta e Lei de Incentivo ao Esporte.

Dos 302 atletas olímpicos convocados ao Japão, 242 (80%) fazem parte do programa Bolsa Atleta. Ainda assim, 41 fizeram algum tipo de vaquinha (financiamento coletivo) para arrecadar dinheiro. E 33 atletas não se sustentam unicamente com o esporte.

Segundo o site da Caixa Econômica, responsável pelos pagamentos, “o Bolsa-Atleta é um programa do Governo Federal, gerido pelo Ministério da Cidadania, que visa garantir a manutenção pessoal aos atletas de alto rendimento que não têm patrocínio. O programa dá as condições necessárias para que eles se dediquem ao treinamento esportivo e possam participar de competições que permitam o desenvolvimento de suas carreiras”.

O valor do benefício varia entre parcelas de R$370,00/mês (para Atleta Estudantil) e R$ 15.000,00/mês (para Atleta Pódio). Veja a lista abaixo:

Valor do benefício:

Atleta Estudantil: R$ 370,00/mês.

Atleta de Base: R$ 370,00/mês.

Atleta Nacional: R$ 925,00/mês.

Atleta Internacional: R$ 1.850,00/mês.

Atleta Olímpico e Paralímpico: R$ 3.100,00/mês.

Atleta Pódio: até R$ 15.000,00/mês.

E o que isso revela sobre a atual situação do esporte brasileiro?

Como o investimento financeiro em esporte é concentrado nos atletas de alto rendimento, a formação de talentos entre crianças e adolescentes torna-se escassa no Brasil. Esse cenário exibe não só o desperdício do potencial da juventude, mas também a ignorância em não pensar o esporte como fator importante para a geração de empregos.

“O discurso de usar o esporte para tirar a molecada da rua é ultrapassado. A gente precisa pensar no esporte como carreira e profissão. Ele emprega não só o atleta, mas cerca de 30 tipos diferentes de profissionais envolvidos”. (comentou Diogo Silva, ex-atleta olímpico e campeão panamericano no taekwondo, em live sobre iniciativas públicas para formação de atletas)

Fonte: Vírgula

Além de gerador de empregos, o esporte atua como forma de prevenção de doenças – impedindo gastos evitáveis na área da saúde, melhora a concentração, reduz o estresse, estimula o desenvolvimento cognitivo, colabora para socialização e contribui para a formação física e psíquica. 

Referências:

BBB 22: conheça Paulo André, campeão mundial e atleta olímpico | atletismo | ge (globo.com)

CBAt – Confederação Brasileira de Atletismo

https://www.gov.br/cidadania/pt-br/noticias-e-conteudos/esporte/noticias_esporte/com-mais-de-r-750-milhoes-de-investimento-anual-governo-federal-se-consolida-como-maior-patrocinador-do-olimpismo-no-brasil

Bolsa-Atleta, Apoio aos Atletas de Alto Rendimento (caixa.gov.br)

(1) Novo ciclo olímpico: iniciativas públicas para formação de atletas | Interolímpico – YouTube

Produção audiovisual

Já está no ar o quadragésimo oitavo episódio do Passes e Impasses

O tema do nosso quadragésimo oitavo episódio, o primeiro do ano, é a Copa do Mundo de 1938: football mulato e imaginário nacional. Com apresentação de Leticia Quadros e Christian Domingues, gravamos remotamente com Tiago Maranhão, doutor em História pela Universidade Vanderbilt (EUA) e professor na Universidade de Michigan (EUA), e Ronaldo Helal, professor titular da Faculdade de Comunicação Social da UERJ e coordenador do LEME.

Acesse o mais novo episódio do podcast Passes e Impasses no SpotifyDeezerApple PodcastsPocketCastsOvercastGoogle PodcastRadioPublic e Anchor.

O podcast Passes e Impasses é uma produção do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte em parceria com o Laboratório de Áudio da UERJ (Audiolab). O objetivo do podcast é trazer uma opinião reflexiva sobre o esporte em todos os episódios, com uma leitura aprofundada sobre diferentes assuntos em voga no cenário esportivo nacional e internacional. Para isso, contamos sempre com especialistas para debater conosco os tópicos de cada programa.

Você ama esporte e quer acessar um conteúdo exclusivo, feito por quem realmente pesquisa o esporte? Então não deixe de ouvir o quadragésimo oitavo episódio do Passes & Impasses.

No quadro “Toca a Letra”, a música escolhida foi “Um a zero”, interpretada pelo maestro brasileiro Pixinguinha

Passes e Impasses é o podcast que traz para você que nos acompanha o esporte como você nunca ouviu.

Ondas do LEME (recomendações de artigos, livros e outras produções):

Diamante Negro: biografia de Leônidas da Silva – André Ribeiro [livro]

Apolíneos e Dionisíacos – Tiago Maranhão [artigo]

A invenção do país do futebol – Ronaldo Helal, Antonio Jorge Soares e Hugo Lovisolo

A Copa de 1938 – artistas primitivos – Arlei Damo [artigo]

A vitória do futebol que incorporou a pelada – José Sérgio Leite Lopes [artigo]

Equipe

Coordenação Geral: Ronaldo Helal
Direção: Fausto Amaro e Filipe Mostaro
Roteiro e produção: Christian Domingues e Carol Fontenelle
Edição de áudio: Leonardo Pereira (Audiolab)
Apresentação: Leticia Quadros e Christian Domingues
Convidados: Tiago Maranhão e Ronaldo Helal

Artigos

Quem foi o primeiro ídolo dos 4 grandes cariocas? Por que os pioneiros do processo da idolatria no futebol são desconhecidos por torcedores, imprensa, dirigentes e pesquisadores?

Garrincha, Zico, Roberto Dinamite e Castilho ou Telê ou Fred. Com a solitária exceção do Fluminense, que não forjou um claro ocupante do ponto mais alto do Olimpo, torcedores dos demais clubes grandes do Rio de Janeiro não têm dúvidas em apontar o maior ídolo da história, respectivamente, de Botafogo, Flamengo e Vasco. Tal reconhecimento é acolhido pela imprensa e, inclusive, pelos fãs dos times adversários. No entanto, se – feita a ressalva à singular situação do Fluminense – inexistem dúvidas sobre o mais importante ídolo histórico dos clubes cariocas, a coisa muda muito de figura se a pergunta tiver como alvo quem foi o primeiro ídolo de cada um.

Tal apagamento não se resume a mera questão esportiva. Ele parece dar pistas importantes sobre a formação, e a retenção, da memória e das identidades na sociedade brasileira. O ídolo histórico reúne, no nosso entendimento, ao menos três características comuns: excelência técnica, conquistas históricas e identificação com o clube. Esta última ajuda a entender por que um mesmo jogador identificado como ídolo numa agremiação não merece o mesmo reconhecimento em outra, ainda que, nesta, possa ter atuado tão ou mais tempo e cumprido papel relevante.

Garrincha: ídolo histórico
Fonte: ebiografia

E como explicar que os mesmos torcedores que, em sua grande maioria, sequer viram seus ídolos históricos atuar garantirem um continuum à idolatria de gerações precedentes e incorporarem aqueles aos pavilhões que constituem a memória coletiva afetiva dos estádios, mas não terem pálida noção dos ídolos inaugurais dos seus clubes? Que pistas essa amnésia coletiva pode nos dar sobre como foi constituído incialmente o futebol no Brasil? Seria a origem aristocrática dos primeiros sportmen e do próprio futebol razão suficiente para esse apagamento? Mas não foi justamente o espetáculo inicial proporcionado por aqueles sujeitos que inspirou milhares de outros atores sociais excluídos dos clubes e das arquibancadas pelos valores elevados das mensalidades e dos preços dos ingressos a observarem, apreenderem e se apropriarem da novidade que se desenvolvia nos gramados?

Ainda que tenha tido seus sentidos ressignificados por esses outros sujeitos, a inspiração inicial para que os cariocas lotassem estádios e quaisquer lugares acessíveis ao redor deles vinha das façanhas dos primeiros jogadores dos clubes. Então, por que temos escasso material empírico, inclusive entre pesquisadores da área, que nos permita avançar para além das subjetividades? Foi para tentar responder essas complexas questões que iniciamos a nossa pesquisa “O primeiro ídolo”, o trabalho inaugural do Grupo de Pesquisa Esportes, Ídolos E Identidades (GEII), coordenado por mim, e integrado por um aguerrido e dedicado grupo de alunos da graduação do Departamento de Jornalismo da Uerj.

Como recorte, escolhemos o período que vai de 1900, poucos anos antes da criação de Fluminense e Botafogo, respectivamente, em 1902 e 1904, e seis anos antes do primeiro Campeonato Carioca, em 1906, até 1932, última edição antes da instituição do profissionalismo no Brasil. Como o quarteto não teve origem simultânea, o período inicial captura a historiografia de Botafogo e Fluminense, além de revisitar, em suas linhas mais gerais, o ambiente do país pré-surgimento do futebol por aqui. Para acompanhar a do Flamengo, o intervalo inicia-se em 1915, quando dissidentes do Fluminense fundam o Departamento de Futebol rubro-negro; enquanto a do Vasco foi escrutinada a partir de 1923, quando, ao tornar-se campeão da segunda divisão, o clube conquista o direito de participar, pela primeira vez, da primeira divisão, amplificando as luzes da imprensa sobre a agremiação, que, até então, recebia escassa cobertura jornalística.

A principal fonte foram jornais da época, que foram submetidos à análise crítica, considerando particularmente o quadro socioeconômico e cultural do início do século XX. Também recorreremos a material dos arquivos dos clubes e, complementarmente, a entrevistas com historiadores das quatro agremiações. Embora a pesquisa ainda esteja em desenvolvimento, o material já coletado indica algumas pistas e sinaliza para duas hipóteses iniciais não necessariamente excludentes.

A primeira está ligada à má memória nacional de um país de cultura imediatista e a histórica, em que, não raro, os fenômenos sociais, dentro e fora do futebol, são tratados aos saltos, sem que os sujeitos consigam identificar continuidade entre eles e/ou espaços dialógicos. Essa hipótese, a ser confirmada ou não pelo avanço da análise do material empírico e à luz da leitura crítica, pode explicar porque ídolos iniciais que deram contribuição decisiva para os primeiros pontapés que transformaram o futebol em parte integrante da identidade nacional não são identificados por torcedores, dirigentes e o jornalismo esportivo contemporâneos como ícones fundadores dessa paixão.

A segunda hipótese, também a ser confirmada ou não pela continuidade do trabalho, parece insinuar, pela análise do material empírico já acessado, que, por ser encarado inicialmente mais como entretenimento do que como esporte pelos sportmen pioneiros, tal condição desfavoreceria a condição de idolatria. Ressalve-se que essa percepção não impediu que alguns jogadores em especial, como Mimi Sodré (Botafogo), Kunz (Flamengo), Marcos Carneiro (Fluminense) e Nelson (Vasco), merecessem maior ênfase na cobertura da imprensa, e admiração dos torcedores do período pré-profissionalismo.

Os quatro, porém, não foram os únicos a serem menções mais enfáticas da imprensa, por isso, por enquanto, não nos sentimos autorizados a identificá-los como os primeiros ídolos do quarteto dos grandes clubes cariocas. Será preciso avançarmos mais para reduzirmos nossas incertezas.

Compartilhamos o entendimento de que, em analogia com o processo do percurso do herói, como acompanhado por Campbell, ídolos, também, precisam passar por um processo de decantação que permita que sua condição se cristalize para muito além das conquistas observadas por seus contemporâneos. Ao menos três características comuns são necessárias para que a subida ao Olimpo dos deuses do futebol seja alcançada e lá permaneçam: excelência técnica, conquistas históricas e identificação com o clube.

Nesse sentido, é preciso verificar, se, ao fim da pesquisa, os nomes aqui mencionados sustentam a condição que a cobertura contemporânea da imprensa parece insinuar até aqui. Ou se, em sequência, outros jogadores do período pré-profissional os suplantam na idolatria inaugural, assim como jogadores que pareciam destinados a serem os ídolos históricos foram substituídos por outros capazes de façanhas percebidas como mais elevadas e alcançaram uma identificação mais profunda com as suas agremiações.

Umas das pré-condições alçadas pelos primeiros ídolos já confirmada pelo material coletado foi contribuírem para que o nascente futebol brasileiro se sobrepusesse ao remo e ao turfe, amplamente dominantes na cobertura do início do século passado nas páginas dedicadas aos esportes pelos jornais da época. Vista em perspectiva, essa comparação parece não fazer sentido, tal a hegemonia avassaladora do futebol masculino na cobertura esportiva em todas as plataformas já há longas décadas.

No entanto, na origem, a atenção dedicada pela imprensa nacional ao futebol limitava-se a mero registro dos resultados das partidas ou, no máximo, da súmula com as escalações e os autores dos gols. E, sempre, em espaços secundários em comparação aos outros dois esportes, então, favoritos dos brasileiros. Foi justamente a relação construída com os ídolos pelos torcedores, incluindo as extensas camadas populares excluídas dos estádios pelo valor elevado do preço dos ingressos, que foi indicando à imprensa que o novo esporte devia merecer cobertura mais nobre se os donos dos veículos quisessem atrair a atenção dos leitores aficionados em esportes.

Os ídolos pioneiros tiveram papel-chave nessa constituição dos primeiros torcedores, ainda que, já na origem, houvesse diferentes apropriações e ressignificações no modo torcedor. Identificar e tentar constituir padrões metodológicos e analíticos são as próximas metas da pesquisa à medida que nos aproximamos do período limite previamente fixado: o fim – ainda que formal – do período do amadorismo. Nosso trabalho detém-se, assim, em 1932, por considerarmos que, ainda que passível de releituras e aportes de material empírico inédito, o período do profissionalismo é bem mais coberto pelas pesquisas do campo e pela imprensa do que a fase sobre a qual nos debruçamos.

Produção audiovisual

Já está no ar o quadragésimo sétimo episódio do Passes e Impasses

O tema do nosso quadragésimo sétimo episódio, o primeiro do ano, é o Futebol nordestino na mídia. Com apresentação de Fausto Amaro e Abner Rey, gravamos remotamente com Bruno Balacó, jornalista do Grupo Cidade, pesquisador do coletivo ReNEme e doutorando em Comunicação na Universidade Federal do Ceará, e Anderson Santos, pesquisador do coletivo ReNEme, professor da UFAL e doutor em Comunicação pela Universidade de Brasília.

Acesse o mais novo episódio do podcast Passes e Impasses no SpotifyDeezerApple PodcastsPocketCastsOvercastGoogle PodcastRadioPublic e Anchor.

O podcast Passes e Impasses é uma produção do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte em parceria com o Laboratório de Áudio da UERJ (Audiolab). O objetivo do podcast é trazer uma opinião reflexiva sobre o esporte em todos os episódios, com uma leitura aprofundada sobre diferentes assuntos em voga no cenário esportivo nacional e internacional. Para isso, contamos sempre com especialistas para debater conosco os tópicos de cada programa.

Você ama esporte e quer acessar um conteúdo exclusivo, feito por quem realmente pesquisa o esporte? Então não deixe de ouvir o quadragésimo sétimo episódio do Passes & Impasses.

No quadro “Toca a Letra”, a música escolhida foi Hino do Batistão, de Luiz Gonzaga.

Passes e Impasses é o podcast que traz para você que nos acompanha o esporte como você nunca ouviu.

Ondas do LEME (recomendações de artigos, livros e outras produções):

Coluna do ReNEme – Portal Ludopédio

Os direitos de transmissão do campeonato brasileiro de futebol – Anderson Santos [livro]

Cotas de televisão do Campeonato Brasileiro “apartheid futebolístico” e risco de “espanholização” – Emanuel Leite Júnior

As transmissões de futebol no TikTok e o pioneirismo do Nordeste – Bruno Balacó [artigo]

Podcast Baião de Dois

Coletivo ReNEme

Mulheres no campo: o ethos da torcedora pernambucana – Soraya Barreto [livro]

Equipe

Coordenação Geral: Ronaldo Helal
Direção: Fausto Amaro e Filipe Mostaro
Roteiro e produção: Abner Rey e Carol Fontenelle
Edição de áudio: Leonardo Pereira (Audiolab)
Apresentação: Fausto Amaro e Abner Rey
Convidados: Anderson Santos e Bruno Balacó

Artigos

O traço e os traçados da bola

Quem pensa que futebol é só o que acontece dentro do campo, entre o pontapé inicial e o apito final do juiz, não sabe, da missa, o terço. A bola é demasiado redonda para que seus caprichos sejam compreendidos dessa forma. O futebol transborda dos gramados, passa pelo imaginário das narrações, pelas análises técnicas, pelas crônicas, mas também pelas artes como a fotografia, o cinema, a literatura e as artes plásticas.

Sou um aficionado das charges e quando a tabelinha se dá entre craques da bola e do traço, o resultado é sempre delicioso. Neste texto vou reverenciar alguns deles tendo como gancho o recente lançamento de uma coletânea da trabalhos do chargista Mário de Oliveira Mendes, que usava o pseudônimo de Mendez. Falecido em 1996 aos 88 anos, consagrou-se como um dos grandes nomes na caricatura do Brasil  entre os anos de 1930 e 1980. No livro “Mendez – mestre da caricatura” o historiador cearense Levi Jucá mostra a abrangência do trabalho do desenhista como uma testemunha de seu tempo e, como não poderia deixar de ser, o futebol também está presente em sua obra. “Com o aparecimento do rádio e dos campeonatos de futebol profissional, jogadores como Heleno de Freitas e cantores como Orlando Silva se tornaram verdadeiros ídolos das massas. Pouco antes da Copa do Mundo de 1950, sediada no Brasil, da primeira conquista da seleção no Mundial de 1958 e de eventos televisionados, responsáveis pela popularização do esporte como paixão nacional, Mendez já fazia caricaturas dos jogadores nos palcos dos programas de rádio da década de 1940”, lembra Jucá.

São 250 páginas com o melhor do trabalho de Mendez.
O “cabecinha de ouro” na capa de A Noite mostra o prestigio de Mendez.
Nessa charge a paixão do vascaíno Mendez falou mais alto e a chegada de Heleno de Freitas a São Januário rendeu uma charge biográfica.
A longa trajetória de Mendez fez com que ele retratasse craques que brilharam nas décadas de 1970 e 1980 como o “Doutor” Sócrates e Zico, o “Galinho de Quintino”.

Jornais e revistas, esportivas ou não, sempre abusaram das charges e desenhos, primeiro por falta de recursos fotográficos, depois porque os traços caricatos dos chargistas sempre faziam muito sucesso. E, se falarmos em esportes, o futebol sempre foi o carro-chefe, fosse para retratar os craques de cada momento, fosse para fazer analogias com problemas da vida nacional. O craque J.Carlos não foi exceção. Suas clássicas melindrosas passaram a dividir espaço com os marmanjos que corriam através da bola.

Duas capas de O Malho por J.Carlos: uma com o time do Paulistano e outra com o prefeito do Distrito Federal Prado Junior impondo mais um “gol” sobre o Legislativo Municipal.

A política sempre sofreu com a marcação cerrada dos chargistas, que o diga o imperador Pedro II desenhado dormindo sobre o trono por Angelo Agostini. Mas aliar a crítica com o futebol passou a funcionar muito bem, afinal somos um país de quase 220 milhões de técnicos. E não importava se as “tretas” eram nacionais ou internacionais.

O mundo vira “bola dividida” entre americanos e soviéticos no traço do cartunista Belmonte.
Já o chargista Théo mostrava a goleada que o ditador Getúlio Vargas sofria com o final do Estado Novo, em 1945. A torcida comemorava.

Mas, aos poucos, outros aspectos da vida nacional foram ganhando espaço nas charges. O traço desses artistas visava, antes de mais nada, retratar um país cada vez mais urbano. De acordo com o pesquisador Levi Jucá, “ao contrário da charge e da caricatura dos tempos do império e da primeira república, estritamente voltadas para a crítica política e social, os representantes da geração de caricaturistas modernos como Mendez, Álvarus, Augusto Rodrigues e Nássara passariam a estampar na imprensa os seus ‘bonecos’ das estrelas do rádio, cinema e futebol.”

Lamartine Babo, autor dos hinos populares dos principais times do Rio de Janeiro no traço de Antônio Nássara.

Já nos anos 1960 e 1970, com a época de ouro do futebol brasileiro e a sequência de títulos mundiais, Ziraldo vai investir não só nos cartuns de humor inspirados na bola, mas também na poesia que envolve o jogo.

Paixões nacionais, segundo Mestre Zira.
  
Personagens, como Jeremias, o Bom e a Supermãe também não escapavam do tema.

Outro grande trabalho desse mineiro de Caratinga se deu no final dos anos 1980. O Clube dos 13, organização de clubes brasileiros, solicitou ao cartunista que desenhasse os mascotes dos times que participariam da Copa União de 1987, campeonato organizado pela “liga” que surgia em oposição à CBF. Na época, em uma reportagem da revista Placar, o cartunista ressaltou a importância da tarefa: “A garotada de hoje não entende mais por que o marinheiro Popeye foi o símbolo do Flamengo ou como o Pato Donald pode representar o Botafogo. Por isso, uma de minhas maiores preocupações neste trabalho foi rejuvenescer as mascotes.”

Criador e criaturas em nome de um novo futebol brasileiro que acabou não decolando.

Quem também criou mascotes para os times do Rio foi o cartunista Henfil. Com eles atraia a atenção dos torcedores/leitores para o Jornal dos Sports, onde suas tirinhas eram publicadas. Retratando a expectativa para os jogos ou repercutindo os resultados das partidas, os personagens interagiam entre si com humor e com a provocação que as torcidas tanto gostavam. Eram eles: o Urubu (Flamengo, o Bacalhau (Vasco), o Pó-de-Arroz (Fluminense), o Cri-Cri (Botafogo) e o Gato Pingado (América).

Os personagens bem-humorados de Henfil brincavam com os estereótipos dos torcedores cariocas e ajudaram a derrubar preconceitos.

Mas se tivéssemos que escolher um cartunista como o mais importante para o futebol, pelo menos no Rio de Janeiro, onde vive este autor, sem dúvida seria Otelo, o caçador. Jornalista, humorista e flamenguista roxo, começou com suas tirinhas em 1947, no Jornal dos Sports, mas pouco tempo depois se transferiu para o jornal O Globo, onde ganhou de Roberto Marinho uma página inteira, às segundas-feiras. Durante 33 anos a coluna Penalty repercutiu as rodadas, brincou com times e jogadores e fez todo mundo rir.

Digamos que a paixão pelo rubro-negro sempre falava mais ato na coluna.

O artigo escrito pelo jornalista André Felipe de Lima e publicado no site do Museu da Pelada lembra que nem todo mundo encarava bem as brincadeiras de Otelo. E cita uma entrevista do cartunista em que ele dizia que humorismo e futebol era uma combinação perigosa. Mesmo assim, gostava de se “arriscar”, tanto que lançou o Livro Negro do Penalty, em dois volumes, vendendo mais de 25 mil exemplares. Dizia ele: “Já fui ameaçado de morte e reclamação é uma constante. Enfrentar personagens como Yustrich, Moisés, Renê, Brito, Paulo Amaral, não é fácil. Anatole France disse que livros históricos que não contêm mentiras são extremamente tediosos. Meu livro tem muita coisa de história do futebol e muita mentira. Certa época, inventei que o técnico Feola dormia durante os jogos e Havelange contratara um garoto para ficar soltando foguetes perto do ‘gordo’, a fim de mantê-lo acordado. Durante a partida, muitos torcedores olhavam o túnel onde o técnico ficava para ver se o doce Feola estava dormindo mesmo.” Para André, Otelo foi mais do que um chargista, embora seus desenhos fossem tão próprios: “É dele também as célebres frases e termos futebolísticos como: ‘Montinho artilheiro’, ‘Todo campeonato tem um campeão moral’, ‘Pênalti não é coisa que se perca’, ‘A torcida do Botafogo cabe numa Kombi’, ‘Coração de torcedor pobre não bate. Apanha’ e, claro, ‘Zico: joia de família do Flamengo’ e o ‘Manto sagrado’. Mas a frase mais célebre, sem dúvida é a ‘Brasileiro que não entende de futebol já nasceu morto’”.

Não há a menor dúvida que sem as charges, cada vez mais escassas tanto no papel quanto no online (exceções como o talentosíssimo Mario Alberto, do Globo.com, só confirmam a regra), o futebol perde um pouco de sua graça e de sua arte, porque mais do que ferinos críticos e perspicazes humoristas, todos esses cartunistas citados, e muitos outros que estão ou estiveram por aí, são artistas de qualidade e com suas criações só fazem com que nossa paixão pelo futebol seja ainda maior.

Mané e Pelé, dois gênios da bola no genial traço de Otelo.
Artigos

Melina Guardabascio Vita: uma pioneira esquecida da esgrima argentina

Roberto Larraz foi um notável esgrimista que representou a Argentina em quatro Jogos Olímpicos consecutivos entre 1924 e 1936, fazendo parte da equipe que conquistou a medalha de bronze no Campeonato das Nações de Florete de 1928, em Amsterdã. Em 1941, por ocasião do vigésimo aniversário da fundação da Federação Argentina de Esgrima (FAE), publicou uma “revisão da atividade de esgrima em nosso país” no jornal La Nación. A revisão histórica de Larraz é exclusivamente masculina. Da mesma forma, a história da esgrima argentina no site da FAE apenas menciona a esgrima feminina em sua referência aos Jogos Pan-Americanos de 1951 em Buenos Aires. Lá, Elsa Irigoyen conquistou a medalha de ouro no campeonato individual de florete.

As narrativas de Larraz e da FAE invisibilizam o desenvolvimento da esgrima feminina argentina nas primeiras décadas do século XX e revelam a ordem genérica vigente naquele período, cujas características ainda persistem. Embora Larraz sustentasse que a esgrima “é um esporte que não reconhece idades”, esse esporte legitimava a atual matriz heteronormativa e a pressão que ela exercia para impedir a expansão do esporte feminino. Assim, o jornalista Luis Pozzo Ardizzi afirmou na revista Caras y Caretas em 1935 que vários esgrimistas haviam abandonado o esporte porque seus namorados argumentavam que “a esgrima faz uma mulher se ridicularizar. Que adota posições não femininas”. Para contrariar a situação, este jornalista propôs: “Guerra ao namorado!” para “destruir preconceitos”.

Melina Guardabascio Vita¹ foi uma pioneira que trabalhou arduamente para promover a esgrima feminina e desfazer esses preconceitos. Aparece como professora de esgrima da Academia Nacional de Esgrima da Itália em 1922. Aparentemente ela chegou à Argentina em 1923, causando grande atenção. Em fevereiro do ano seguinte, o Cercle de L’Epée realizou um festival esportivo em Buenos Aires em sua homenagem, no qual ela deu uma palestra sobre esgrima e lutou com dois ilustres esgrimistas. Meses depois, em outra palestra, ela falou sobre “A esgrima e os benefícios que ela traz para as mulheres” no Club Marcelo T. de Alvear, também em Buenos Aires. Nesse mesmo ano, Augusto Bolognini, outro expatriado italiano que fundou, dirigiu e ensinou na Academia Argentina de Bellas Artes Perugino, pintou um retrato de Guardabascio Vita em trajes de esgrima, que enfeitou a capa de uma edição da revista Fray Mocho. A mesma revista publicou fotografias nas quais ela é vista em ação com um estudante e com Oscar Viñas, então presidente da FAE. Sua presença e seu trabalho na Argentina geraram “grandes reportagens [e] profusão de fotografias em jornais e revistas”.

Segundo uma crônica jornalística, Guardabascio Vita havia chegado ao país com a intenção de “realizar exposições públicas, não em espaços de ‘varietés’, como um ‘número artístico’, mas nas arquibancadas de nossos principais clubes”. Em outras palavras, ela queria que a esgrima feminina fosse levada a sério e divulgada. A mesma crônica explicava que Guardabascio Vita “lutou vários meses, um ano, dois, três… mas não conseguiu popularizar a esgrima entre nossas mulheres… havia preconceitos demais na época”. Desta forma, “cansada de lutar”, Guardabascio Vita “acabou por se dedicar a um negócio totalmente alheio à esgrima”. O fato de ter tentado outros caminhos profissionais não significa que tenha se afastado da esgrima. No início da década de 1940, Guardabascio Vita figurava como professora de esgrima, “exclusivamente para senhoras”, no Racing Club, em Avellaneda, onde estava sediada, e do qual fora sócia. No final de 1941, o jornal La Opinion destacava: “a manifestação oferecida ontem no C. Racing à senhora Guardabascio obteve contornos marcantes”, provavelmente referindo-se a um torneio interno.

A carreira de Guardabascio Vita no Racing foi reconhecida em 1974, quando a diretoria decidiu homenagear sua memória batizando a sala de esgrima do clube “com o nome de quem foi nossa ilustre representante”. No entanto, os esforços de Guardabascio Vita tiveram efeitos além de Avellaneda. Como postulava Pozzo Ardizzi, já nas décadas de 1920 e 1930, a mestra da esgrima “plantou sementes” e “conseguiu despertar a curiosidade” por esse esporte entre as mulheres. Coincidentemente, Larraz “colocou seu vasto conhecimento a serviço das primeiros entusiastas”, formando em 1930 a primeira equipe feminina do Clube de Ginástica e Esgrima de Buenos Aires. Três anos depois, segundo o mesmo jornalista, foi organizado o primeiro campeonato feminino promovido pela FAE. Em 1933, também começaram as “partidas” femininas, e Guardabascio Vita atuou como juíza no primeiro júri feminino.

Em 1935, Pozzo Ardizzi enfatizou que já havia mais de 100 mulheres esgrimistas no país, a maioria delas em Buenos Aires, mas também em Córdoba, La Plata, Mendoza, Rosario e Tucumán. Três anos antes, a revista Caras y Caretas havia publicado um artigo intitulado “Esgrima: esporte para mulheres”, que defendia que esse esporte deveria ser “uma das práticas esportivas preferidas das mulheres modernas”, já que suas muitas “vantagens para as mulheres são tantas como são para os homens”. Embora a nota não estivesse assinada, considerando sua natureza e finalidade, poderia muito bem ter sido escrita por Guardabascio Vita, cujos esforços começavam a dar frutos, embora sem alarde.

Refletindo sobre a situação da esgrima feminina na década de 1930, Pozzo Ardizzi escreveu, de forma excessivamente otimista e replicando um vocabulário sexista, que “o feminismo avança e avança… folha na mão… Em guarda, cavalheiros do sexo forte!”, já que “o muro do preconceito [de gênero] começou a ser destruído”. Guardabascio Vita foi uma pioneira que, ao promover a esgrima feminina, contribuiu para distorcer a feminilidade estabelecida na sociedade para a qual emigrou, ampliando os horizontes das mulheres e imaginando uma proxêmica mais inclusiva e justa. Seu nome, assim como sua luta por maior igualdade de gênero e emancipação feminina, são dignos de ocupar um lugar de destaque na história da esgrima e do esporte argentino.

¹ Em algumas das fontes consultadas, o nome também aparece como Melina Vita Guardabascio e como Evelina Guardabascio Vitta.


Texto originalmente publicado pelo site El Furgón no dia 6 de março de 2022.

Tradução: Caroline Rocha Ribeiro e Fausto Amaro