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Qual o estágio das transmissões de futebol no Brasil?

Graças especialmente à entrada do DAZN na transmissão de eventos esportivos em 2018, uma pergunta comum que venho recebendo em palestras, apresentações de trabalhos e aulas (enquanto estudante de doutorado ou professor) é sobre a situação da transmissão do futebol no Brasil.

Apresentaremos a situação atual considerando a defrontação de capitais, seguindo adaptação da Economia Política da Comunicação dos estudos heterodoxos de análise de concorrência para análise dos mercados comunicacionais, entendendo, a partir de Possas (1987, p. 173, grifos do autor), que a concorrência é considerada como o “motor básico da dinâmica capitalista”, em que as estruturas de mercado representam a busca por derrubada e manutenção das barreiras à entrada e o alcance da liderança.

Quando comecei a estudar a apropriação midiática do futebol, em 2010, tínhamos um cenário claro. Controle do Grupo Globo (então “Organizações Globo”) na TV aberta, na TV fechada e na oferta do pay-per-view dos direitos dos torneios nacionais e da Seleção brasileira. Na TV fechada, a ESPN Brasil (Disney) transmitia os principais torneios europeus. Enquanto a Rede Record havia adquirido os direitos de transmissão dos Jogos Olímpicos (Verão e Inverno) por dois ciclos.

De lá para cá, a Record foi perdendo o fôlego na disputa por direitos esportivos, acabando praticamente com qualquer disputa na TV aberta, após a Globo atuar de forma muito forte para assegurar a transmissão exclusiva do Brasileiro a partir de 2012.

Entretanto, na TV paga, entraram os canais Fox Sports, com o bônus dos direitos da Libertadores, e o investimento do grupo Warner Media (então “Time Warner”) nos canais Esporte Interativo, que adquiriram por dois triênios seguidos os direitos da Liga dos Campeões da Europa. Isso acabou com o duopólio de concentração de direitos, gerando batalhas para a entrada nas duas principais distribuidoras do país (Net e Sky).

Assim, viveu-se uma década de grande aumento nos direitos de transmissão, numa tentativa de novos agentes de derrubar as barreiras de mercado presentes e se colocarem como líderes. É nesse âmbito que já em 2012 o Esporte Interativo desenvolve o EI Plus enquanto plataforma que poderia ser adquirida à parte (OTT – Over The Top), com a transmissão de todos os campeonatos que a empresa detinha os direitos, com alguns jogos em exclusividade apenas pela plataforma.

Porém, a tendência de crescimento de assinantes de TV paga mudou a partir de 2014, com crise econômica, aumento do desemprego e diminuição do salário real (descontada a inflação) e a maior oferta de plataformas de internet mais baratas. O efeito mais visível foi ver que a transmissão de eventos de forma exclusiva mudou para uma negociação por divisão e troca de direitos, com alguns deles não sendo adquiridos (casos dos campeonatos italiano e francês na temporada 2018/2019) e caindo no colo de novas plataformas.

Outros efeitos mais estruturais no mercado de TV fechada foram o fim dos canais Esporte Interativo em 2018; e a venda dos canais Fox para a Disney, forçando uma compra dos canais Fox Sports por outra empresa que não seja a própria Disney ou o Grupo Globo, o que pode redundar numa volta ao duopólio na TV fechada.

Enquanto isso, cada grupo produtor de conteúdo audiovisual passou a isolar a sua plataforma de streaming. Focando nos esportes, o Grupo Globo possibilitou a assinatura dos canais Combate e do Premiere FC apenas para mídias móveis, sem a necessidade de ser assinante de operadora de TV fechada; a Fox criou o Fox Premium; o EI Plus é ofertado também para clientes da Tim, da Nextel e da Vivo, dentre outros parceiros; enquanto surgiram diversas novas plataformas: DAZN; Live FC (Copa do Nordeste); My Cujoo (plataforma de transmissão de futebol com poucas câmeras e em acordos com a CBF e outras federações); TVN Sports (sociedade com o Grupo Netshoes) para esportes como futsal, basquete feminino e automobilismo; além das transmissões em Twitter e Facebook – com as quatro últimas sendo gratuitas.

Quando a CBF resolveu transmitir dois amistosos da Seleção (contra Austrália e Argentina) na TV Cultura e pelo Facebook, tentando aumento nos valores recebidos para amistosos e jogos das Eliminatórias da Copa do Mundo FIFA 2022 da seleção masculina principal, eu já via isso como um problema de limitação de acesso, pois a maior parte da população brasileira tem acesso à internet pelo pacote de dados de telefonia móvel, que não suporta por muito tempo transmissão de vídeo.

Além disso, a evolução tecnológica na transmissão de imagens (da TV digital à internet) trouxe mais demora para que o sinal seja exibido nas nossas casas, o que faz com que jogos na TV aberta ou anúncio de gols em aplicativos possam ser mais rápidos, podendo mudar a lógica de acompanhamento.

Mas o grande problema se vê neste momento, não só para o caso do nicho esportivo. A maior “oferta” de canais para acompanhar futebol faz com que o torcedor tenha que ser assinante de diversas plataformas, o que, na soma, pode dar mais que o pacote básico da TV fechada. Lembrando que não houve uma difusão de conteúdos esportivos relevantes (Brasileiros de Séries A e B, Liga dos Campeões da Europa, jogos de Seleção etc.) em plataformas de empresas diferentes, mas restritos àquelas de determinado conglomerado ou empresa. Num futuro próximo, isso pode se tornar um modelo inviável financeiramente para o mercado brasileiro – como já ocorreu na própria TV paga ao atingir seu ápice de assinantes.

A lógica já utilizada pelo EI Plus (Warner Media) nos parece ser uma solução possível em médio prazo, em que, além da venda direta para o cliente, o acesso a determinados torneios possa ser vendido em bloco por uma intermediária. O DAZN, por sinal, assinou acordo em agosto deste ano com a TIM para o Campeonato Italiano entrar no serviço de audiovisual da gigante de telefonia.

Assim, é importante olhar isso com cuidado, entendendo que estamos vivenciando um processo de mudanças e é difícil ter uma definição sobre o futuro. Basta olhar o que mudou no que se pensava há 5 anos, auge da Netflix na oferta de conteúdo audiovisual – viu-se nos últimos anos uma pluralidade de empresas atuantes no setor. Esses casos confirmam a seguinte afirmação de Possas (1980, p. 108):

Este [processo competitivo] aparece como um processo de ruptura da “estrutura competitiva” estabelecida, via de regra através da introdução de inovações (tecnológicas, de produtos, de novos mercados) ou da centralização de capitais existentes (em termos gerais, modificação na distribuição das parcelas do mercado, o que abrange a entrada ou saída de capitais no ramo considerado). O impacto desta alteração da “estrutura competitiva” tenderá a difundir-se ou a acomodar-se em maior ou menor rapidez, em função da própria origem e intensidade da ruptura inicial e das características estruturais (tecno-produtivas e de concorrência) do ramo em questão.

No caso da produção de bens simbólicos em plataformas midiáticas, as mudanças se dão cada vez num tempo menor e, inclusive, exigem mudanças na legislação – a Ancine esteve até o dia 14/10 com consulta pública sobre o impacto regulatório no VOD (Vídeo Sob Demanda). Resta acompanhá-las até o momento em que a estrutura possa vir a se acomodar.

Nota de fim

¹ Em agosto, eu participei de um episódio do podcast 45 de Acréscimo sobre “Novas formas de transmissão”.

Referências bibliográficas

POSSAS, Mário Luiz. Dinâmica e concorrência capitalista: uma interpretação a partir de Marx. São Paulo: Hucitec, 1989.

POSSAS, Mário Luiz. Estruturas de mercado em oligopólio. 2.ed. São Paulo: Hucitec, 1987.

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O “lugar” do negro no futebol brasileiro

Não deveria chamar atenção e ter uma repercussão grande dois treinadores negros, que foram destaque como jogadores, estarem se enfrentando na área técnica. Para mim isso é a prova que existe um preconceito, à medida que a gente tem 50% da população negra e a proporcionalidade que se representa não é igual. A gente tem que se questionar: se não há preconceito no Brasil, por que os negros tem um nível de escolaridade menor que os brancos, por que a população carcerária é 70% negra, por que quem mais morre são os jovens negros no Brasil…

Este foi um dos trechos da contundente e lúcida entrevista do atual técnico do Bahia, Roger Machado, após a derrota de seu time por 2 a 0 para o Fluminense. Suas declarações foram um oásis no deserto de reflexões e ideias que se tornaram as coletivas pós-jogo no Brasil. Seja por culpa das perguntas banais que beiram a mediocridade ou do media training dos técnicos, uma resposta que expande as quatro linhas é algo, infelizmente, inesperado.

Fonte: metro1.com.br 

Além de sua precisão nos argumentos, a fala de Roger nos instiga a questionar o motivo de termos apenas dois treinadores negros na primeira divisão do torneio. O jornalista Mario Filho escreveu em 1947 um livro clássico para as pesquisas sobre esporte no Brasil: O Negro no Futebol Brasileiro. Em sua visão, considerada por alguns pesquisadores como “romântica” e influenciada pelas ideias do amigo e sociólogo Gilberto Freyre, Mario Filho acreditava que a destacada presença do negro no esporte mais popular do país era um exemplo de “democracia racial”. Anos mais tarde, após observar os reflexos da derrota em 1950 e das vitórias em 1958 e 1962, relativizou sua argumentação inicial, incluindo dois capítulos a sua obra: a provação do preto (sobre 1950) e a vez do preto (1958 e 1962). Apesar de dentro de campo o mestiço ter auxiliado no bicampeonato, isso não significava que a “democracia racial” tinha chegado ao país. Em outras esferas o negro ainda era (e até hoje é) estigmatizado. O talento dos nossos mestiços era uma arte que precisava ser “domada” e “orientada” por uma “organização” que seguiria o modelo europeu, branco e elitista. Esta organização, tutelada pela elite, estaria a cargo do treinador de futebol.

Para iniciar este debate é fundamental observamos como o conceito de treinador foi construído no Brasil. Em minha pesquisa de doutorado no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UERJ, foquei neste “perfil exigido” dos treinadores da seleção brasileira de futebol ao longo das Copas do Mundo. Os resultados desta investigação nos dão caminhos para analisar a constatação de Roger Machado.

Parto do princípio de que o futebol, como uma manifestação cultural importante, estimula imaginários e narrativas que podem ser expandidas para outros setores. Tentar manter o controle destas narrativas é algo decisivo para os grupos que disputam esses imaginários. Quando falamos de seleção brasileira, por exemplo, o que podemos notar é que a projeção deste conceito de treinador nos jornais sempre passou pela tutela da elite nacional, que comanda o futebol brasileiro desde a criação da CBD. Do “doutor” Píndaro de Carvalho em 1930 ao “gestor” Tite em 2018, podemos notar uma série de interações entre diferentes campos que vão definir qual será o “perfil” do treinador da seleção a cada competição na narrativa da imprensa.

Fonte: wikipedia

Fonte: wikipedia

A chegada do treinador no Brasil passou pela ideia de um “professor” vindo de outros países, mais frequentemente da Inglaterra, que ensinaria aos jovens oriundos de classes mais abastadas “os segredos do esporte”. Ter um treinador era sinônimo de status social para os clubes que podiam pagar por essas aulas, mesmo seus atletas sendo amadores. A expressão se enraizou no imaginário nacional, e até hoje notamos referências aos treinadores como “professores”.

Entretanto, com a sua rápida popularização, diferentes camadas da sociedade passaram a praticar o futebol, e, aos poucos, jovens de outras classes sociais foram inseridos em “clubes da elite”. O papel do treinador, além de ensinar, passou a ser também o de disciplinar esses atletas para se “adequarem” aos “clubes”. Logicamente, existe uma disputa entre esse “obedecer” e “não obedecer”, que trará ao longo dos anos a fama de “rebeldes” aos jogadores que não cumprem a “adequação” pretendida.

Essa popularização culminou na profissionalização do esporte. Nesse sentido, concordamos com o pesquisador inglês Stephen Wagg ao destacar, em seu livro The football world: a contemporary social history, que o treinador seria, nesse cenário, a ponte entre capital e trabalho. Alguém que estaria na linha de frente dos confrontos entre dirigentes e jogadores. Além de incutir os ensinamentos pretendidos pelos dirigentes, o treinador se tornaria um “gerente” responsável pelos resultados e o foco principal das críticas no caso de derrota, o que culmina, na grande maioria das vezes, na sua troca por outra “peça”, mantendo toda a estrutura acima dela intacta.

Fonte: amazon

Essa tutela dos dirigentes, representantes da elite nacional, definiria quem teria “o perfil” para tal cargo. A interação entre o mundo político, econômico, social e militar com o esportivo é nítida ao observarmos as escolhas desses dirigentes. Alguns deles flutuam entre esses campos, saindo de presidência de clubes diretamente para cadeiras em Assembleias e Câmaras, tanto municipais, estaduais e federais. Durante o Estado Novo, Adhemar Pimenta, treinador da seleção na Copa de 1938 foi o primeiro a usar o termo “convocação” para os jogadores, como se estivessem realmente indo para uma “guerra”, indicando uma relação vicinal com o campo militar. Outro exemplo é Claudio Coutinho, capitão do exército, que foi treinador na Copa de 1978, durante a ditadura militar. Obviamente que outras interações determinam tais escolhas e na pesquisa completa é possível ter uma visão mais ampla do argumento que aqui queremos trazer para analisar a fala de Roger.

Em síntese podemos novamente nos remeter a Stephen Wagg (1984), que, parafraseando Karl Marx, entende que os técnicos fazem suas histórias, mas certamente não as fazem em situações comandadas por eles. Concordamos com tal análise e, neste sentido, cabe aqui um apontamento que julgamos importante e sintetiza a tutela da elite. Se apenas o “sucesso” na esfera esportiva fosse fundamental para assumir o cargo de treinador da seleção, como a compreensão do jogo por quem já esteve lá e “brilhou”, por exemplo; não parece estranho que, com tantos jogadores negros e mestiços que possuem tais atributos, nenhum tenha assumido a seleção? Essa elite tutelaria algum desses jogadores a assumir por conta de seu capital esportivo ou por conta de seu capital social, que grosso modo significaria uma aproximação e/ou uma relação direta com essa elite? Por mais complexa que seja essa questão, sinalizamos que “estar adequado” à elite será o principal fator, excluindo os demais, que podem ser justificativas amenizadoras do conflito caso o primeiro item seja cumprido.

A análise deste processo narrativo sobre o perfil do treinador na seleção traz elementos que podemos usar no caso de Roger. Em uma sociedade racista e preconceituosa, com uma elite que se nega a discutir a questão da escravidão, tutelar negros em qualquer local de destaque, seja ele qual for, é algo extremamente difícil. Ser a ponte entre capital e o trabalho nos clubes de futebol no Brasil é um cargo usado constantemente como escudos para os cartolas. O “lugar” demarcado no futebol para esses agentes parece bem definido. A tal “democracia racial” vista dentro de campos com os negros e mestiços, Pelé e Garrincha, por exemplo, ocupando lugar de destaque, não é vista nos cargos de dirigentes esportivos e de federações. Nessas instituições, uma classe rica, branca e elitizada continua no comando e, salvo exceções, prefere colocar como seu “gerente”, técnicos que cumpram a sua “cartilha”. Indo além, na estrutura racista construída pelos anos de escravidão e que ainda permanece enraizada no Brasil, estar no local da “organização” é um “lugar” negado ao negro. Ah, então como você explica o Roger e Marcão serem técnicos? Bom, para você que ainda não entendeu que isso é algo estrutural de nossa sociedade e que também se reflete no esporte, Roger respondeu de forma brilhante: “Nós precisamos sair da fase da negação! Negar e silenciar é confirmar o racismo!”

Fonte: revistaforum.com.br

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Pode gritar “bicha” no estádio?

Trinta anos atrás, em 1989, o racismo passa a ser considerado crime no Brasil – embora já fosse enquadrado como contravenção desde 1951. Em 2006, começa a vigorar a Lei Maria da Penha, que coíbe atos de violência doméstica contra a mulher. A homofobia, por sua vez, precisou esperar até junho de 2019 para se caracterizar como crime, quando finalmente o Supremo Tribunal Federal (STF) determinou que a discriminação por orientação sexual e identidade de gênero fosse tratada como ação criminosa.

Do papel à prática punitiva, o caminho é longo. Nos estádios de futebol, contudo, alguns exemplos positivos felizmente começaram a surgir. Há bem pouco tempo, cheguei a pensar que nunca veríamos uma atitude como a do árbitro Anderson Daronco no gramado. Em medida inédita no Brasil, ele paralisou uma partida por conta dos cantos homofóbicos vindos das arquibancadas. Durante a vitória do Vasco contra o São Paulo pelo Campeonato Brasileiro, no último dia 25 de agosto, a torcida cruz-maltina entoou o canto “viado, time de viado” para o clube adversário.

Daronco não só paralisou a partida, informando ao técnico e ao capitão vascaínos o motivo da paralisação, como também relatou o caso na súmula, o que poderia gerar punição ao clube, com a perda dos três pontos referentes àquela partida. Vale ressaltar que, na segunda-feira seguinte, o Club de Regatas Vasco da Gama emitiu nota repudiando o ocorrido e pedindo desculpas pelos cantos homofóbicos ocorridos em São Januário.

“Em relação ao episódio registrado na partida deste domingo (25/08) contra o São Paulo, o Club de Regatas Vasco da Gama lamenta e repudia qualquer canto ou manifestação de caráter homofóbico por parte de alguns de seus torcedores. Da mesma forma, a Diretoria Administrativa do Clube manifesta seu pedido de desculpas a todos que, corretamente, se sentiram ofendidos por este comportamento.

O combate a este tipo de postura – iniciado ainda em campo, quando o técnico Vanderlei Luxemburgo, os jogadores, parte da torcida e o próprio Vasco da Gama, através do sistema de som do estádio, clamaram para que os gritos cessassem – não deve ser motivado pelo receio de punição desportiva (eventual perda de pontos), mas, sim, por uma questão de cidadania e respeito ao próximo e cumprimento da lei. Preconceito é crime. E se existe um Clube no Brasil historicamente habituado a levantar a voz contra qualquer tipo de discriminação este é o Vasco da Gama, dono da história mais bonita do futebol. Assim foi com a resposta histórica de 1924; assim é com os cantos que o torcedor vascaíno entoa orgulhosamente na arquibancada enaltecendo a luta do Clube a favor de negros e operários.

A plateia de um estádio de futebol e a sociedade de maneira geral passam por um processo de aprendizado e conscientização necessário para que atos de preconceito fiquem no passado – um triste passado, diga-se. A Diretoria Administrativa do Club de Regatas Vasco da Gama compromete-se em promover ações educativas neste sentido junto ao seu torcedor, certa de que encontrará em cada vascaíno um aliado no combate a qualquer tipo de discriminação. O Vasco é a casa de todos.”

A atitude da arbitragem me deixou um pouco mais otimista em relação ao cenário extremamente homofóbico que vemos ao ligar à TV num domingo às quatro da tarde ou que encaramos ao sair de casa para acompanhar de perto nosso time no estádio. Podemos incluir aí o machismo e o racismo como outras práticas discriminatórias que se potencializam nesse lugar onde ainda impera uma masculinidade tóxica. O racismo, no entanto, creio estar um pouco menos evidente pelo fato de as punições serem mais efetivas.

Os gritos de “macaco” ainda não foram totalmente extintos das arquibancadas, porém, nos dias de hoje, talvez não sejam entoados com a mesma frequência com que aparecem o canto “time de viado” e o grito “ôoo bicha” quando o goleiro adversário vai cobrar o tiro de meta. Enquanto escrevo este texto, me lembro de um coro que ecoava nas arquibancadas do Mineirão no final dos anos 90 quando o Flamengo ia jogar contra o Cruzeiro. Nessa época, eu vivenciava minhas primeiras memórias do futebol e ainda não entendia muito bem o que aquele refrão pejorativo queria dizer: “Ô Júlio César, seu viadinho, sua mulher deu o c* pro Ronaldinho”.

O canto em alusão aos relacionamentos da então modelo Susana Werner com o atacante Ronaldo e o goleiro Júlio César – com quem ela é casada atualmente – destilavam preconceito tanto contra os gays quanto contra as mulheres, os quais até hoje me pergunto se são mesmo grupos minoritários nos estádios. Sobre as mulheres, felizmente já conseguimos ver números mais equiparados entre a presença masculina e feminina nas arquibancadas. Os gays, por sua vez, seguem receosos de sequer poder dar as mãos ao parceiro em um cenário tão excludente.

Prova disso é que no último dia 1º de setembro, na partida entre Cruzeiro e Vasco pelo Campeonato Brasileiro no Mineirão, um casal de torcedores cruzeirenses foi ameaçado por estarem abraçados e se beijando no estádio. A troca de carinhos entre Yuri e Warley – troca esta que, vale lembrar, é tão recorrente entre casais héteros e inclusive aplaudida pelos espectadores nas famosas “câmeras do beijo” – foi gravada por alguns torcedores que espalharam o vídeo nas redes como forma de intimidar o casal. Fico imaginando o que essas carícias têm de diferente em relação aos abraços calorosos que um bando de homens suados troca com o desconhecido ao lado quando o time deles faz um gol.

Fonte: https://pressfrom.info

Também vem das arquibancadas mineiras outro (mau) exemplo de preconceito sob o álibi de canto de torcida. “Ô cruzeirense, toma cuidado, Bolsonaro vai matar viado”¹ gritavam os torcedores do Atlético-MG em direção aos torcedores celestes em um clássico válido pelo Campeonato Brasileiro do ano passado. Fato parecido ocorreu no metrô da Estação da Sé, em São Paulo, onde um grupo de palmeirenses aparece entoando o mesmo coro em relação aos são-paulinos, às vésperas das eleições presidenciais brasileiras². Infelizmente, casos assim ainda são recorrentes nos estádios, mas hoje já consigo ter alguma esperança com os nossos primeiros passos.

Mídia, punições e torcidas queer

É inegável o potencial da mídia e, mais especificamente, do jornalismo esportivo, no combate às ações discriminatórias recorrentes nos estádios. De alguns anos para cá, vem crescendo gradativamente o número de matérias, reportagens e documentários que denunciam preconceitos, apontam perspectivas e divulgam campanhas a favor de causas ditas minoritárias, como a causa negra, feminista e LGBT. O caso Richarlyson, por exemplo – que creio ser o mais emblemático da homofobia no futebol brasileiro – imagino que hoje seria pautado de forma diferente, bem mais inclusiva e bem menos sensacionalista como foi em 2007.

Naquele ano, surgiu na mídia a especulação de que um jogador de um grande time brasileiro assumiria publicamente sua homossexualidade. Diante do ineditismo da situação, o programa Debate Bola, exibido pela Rede Record, questionou em mesa redonda se esse jogador estaria atuando pelo Palmeiras. O dirigente do time alviverde José Cyrillo Júnior, convidado do programa, respondeu prontamente que “o jogador Richarlyson quase foi do Palmeiras”, porém havia aceito a proposta para jogar no São Paulo. A então revelação do nome do volante e meia Richarlyson provocou risos dos jornalistas e demais participantes do debate.

Sentindo-se ofendido com a citação de seu nome, o jogador – que sempre se declarou publicamente heterossexual – entrou com uma queixa-crime contra José Cyrillo por injúria. No entanto, o processo foi arquivado pelo juiz Manoel Maximiano Junqueira Filho, que simplesmente julgou o caso improcedente, embasado no argumento de que o futebol era um jogo “viril” e “varonil” e que, portanto, ofensas homofóbicas entre “boleiros” são parte do jogo e deveriam ser resolvidas dentro de campo.

“A presente Queixa-Crime não reúne condições de prosseguir. […] Não vejo nenhum ataque do querelado ao querelante. […] Quem é, ou foi boleiro, sabe muito bem que estas infelizes colocações exigem réplica imediata, instantânea, mas diretamente entre o ofensor e o ofendido, num tête-à-tête. Trazer o episódio à Justiça, outra coisa não é senão dar dimensão exagerada a um fato insignificante, se comparado à grandeza do futebol brasileiro. […] Já que foi colocado, como lastro, este Juízo responde: futebol é jogo viril, varonil, não homossexual. […] Não que um homossexual não possa jogar bola. Pois que jogue, querendo. Mas, forme o seu time e inicie uma Federação. […] É assim que eu penso… e porque penso assim, na condição de Magistrado, digo! Rejeito a presente Queixa-Crime.” (Trechos da sentença proferida pelo juiz Manoel Maximiniano Junqueira Filho em 5 de julho de 2007, arquivando a queixa registrada pelo jogador Richarlyson. O texto completo da sentença está disponível em: folha.uol)

Fonte: http://sportv.globo.com

Os advogados de Richarlyson entraram com recurso contra o arquivamento e, felizmente, o referido juiz foi punido pelo ato. Entretanto, deste fato em diante, a carreira do jogador ficou marcada pela homofobia, apesar das passagens de destaque em vários clubes do país, incluindo aí uma convocação para a Seleção Brasileira. Em sua trajetória de cinco anos defendendo o São Paulo, não raro Richarlyson era alvo de ofensas da torcida que ignorava seu nome no ritual pré-jogo, quando os torcedores cantam a escalação do time.

Me lembro também que, logo após deixar o clube tricolor para assinar contrato com o Atlético-MG, o jogador também foi alvo de homofobia em piadas sem graça que associavam sua contratação à recém-lançada camisa cor-de-rosa do time, que à época seria o segundo uniforme da equipe alvinegra. Nem precisamos entrar aqui na discussão em torno do termo “bambi”, comumente associado à torcida do São Paulo e popularizado no início dos anos 2000 pelo jogador Vampeta, que em 2016 tentou se justificar em entrevista ao Esporte Espetacular, da Rede Globo: “o Corinthians tem o gambá, o Santos tem a baleia, o Palmeiras tem o porco e o São Paulo precisava adotar um animal de estimação. Essa história do bambi já existia e eu só acordei o gigante adormecido.”.

Quase duas décadas depois do ocorrido, o São Paulo Futebol Clube se posicionou pela primeira vez a favor da causa. Em 28 de junho deste ano, no Dia Internacional do Orgulho LGBT, o departamento de Comunicação do clube manifestou seu repúdio ao preconceito com uma mensagem publicada nas redes sociais: “Dentro e fora do esporte, o amor há de prevalecer diante do ódio. Que hoje, e todos os dias, repensemos atitudes. O amor não é o problema. E o São Paulo é de todos.”. Na mesma data, vários clubes brasileiros se manifestaram pelo Orgulho LGBT, como o Sport Club Internacional, que iluminou o estádio Beira-Rio com as cores do arco-íris.

Fonte: twitter.com

Iniciativas como essas seguem ganhando espaço na mídia tanto por intermédio de jornalistas de grandes emissoras quanto pelas assessorias dos próprios clubes de futebol, que há poucos anos atrás sequer pautavam a causa. O advento das torcidas queers nos últimos cinco anos também é outro destaque bastante favorável ao cenário. Galo Queer, Cruzeiro Maria, Bambi Tricolor, Palmeiras Livre, Gaivotas Fiéis, Grêmio Queer, Queerlorado, EC Bahia Livre, Vitória Livre, entre outras, são exemplos resultantes da articulação de torcedores em prol da causa LGBT e contra o padrão normatizador vigente nos estádios brasileiros. Cabe aqui também a referência às pioneiras ColiGay e FlaGay, torcidas organizadas de Grêmio e Flamengo que, no contexto da ditadura militar dos anos 1970, se reuniam nos estádios para apoiar seus respectivos clubes e, mesmo que ainda não fosse este o foco, se legitimar em um lugar de domínio heteronormativo.

Fonte: https://brasil.elpais.com

Para finalizar, respondo à pergunta proposta no título deste post com o exemplo das punições registradas pela FIFA e CONMEBOL à Confederação Brasileira de Futebol: entre 2016 e 2018, a CBF precisou abrir os cofres e pagar multas significativas por cantos homofóbicos em jogos válidos pelas eliminatórias do Mundial e pela Copa América, recentemente sediada no Brasil. Tais punições em âmbito internacional, aliadas ao ineditismo da súmula do árbitro Anderson Daronco, que paralisou uma partida ao ouvir o canto “time de viado” no maior campeonato de futebol do país, deixam claro que NÃO, não se pode gritar bicha no estádio. Nem em lugar algum.

Aproveito e convido os leitores para assistir ao trabalho do pesquisador Gustavo Bandeira, que é referência nesse assunto. Sua palestra “Elitização, racismo e heterossexismo no currículo de masculinidade dos torcedores de futebol” será realizada no próximo dia 24 de outubro, no ciclo de palestras organizado pelo LEME.

Notas de fim

¹ Torcida do Atlético-MG cantando música homofóbica.

² Torcida do Palmeiras cantando música homofóbica.

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