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Mohamed Salah, o novo faraó do Egito

Houve um tempo em que a única oportunidade de assistir a um jogo internacional pela TV era no domingo pela manhã, quando a TV Bandeirantes exibia, no Show do Esporte, uma única partida da rodada do Campeonato Italiano. O chamariz para os brasileiros era a eventual participação de ídolos nacionais que, a partir dos anos 1980, começaram a se transferir para o torneio mais competitivo de então. Ídolos como Falcão, Zico, Júnior, Toninho Cerezo, só para citar alguns integrantes do time canarinho de 1982 tinham ido jogar na “bota”.

Não era um mundo globalizado. Nem se sonhava com Internet para meros mortais. Os mundiais eram praticamente a única grande oportunidade de admirar craques de outros países, outras táticas. Não foi à toa que o Carrossel Holandês de Rinus Mitchel pegou a todos de surpresa na Copa da Alemanha, em 1974. Cruyff era um desconhecido para nós que estávamos abaixo da linha do Equador.

Hoje a história é outra. Há uma enorme diversidade de campeonatos disponíveis na TV por assinatura ou nos canais de streaming. Os principais torneios do mundo, com seus milionários investimentos, se tornaram comuns em todos os tipos de tela à nossa disposição. A disputa da UEFA Champions League, no Brasil, dependendo da faixa etária, repercute mais do que o Campeonato Brasileiro, afinal, lá estão os craques que os jovens torcedores aprenderam a admirar.

O professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Ronaldo Helal, estuda o surgimento e a formação de ídolos e heróis representativos de espetáculos de massa e suas relações com a Indústria Cultural. Em seu artigo “Mídia, Ídolos e heróis do futebol”, disponível no portal da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação, ele nos lembra que  “um fenômeno de massa não se sustenta sem a presença de ‘estrelas’. São elas que atraem as pessoas aos eventos e transformam-se em um referencial para os fãs”. E é justamente a imagem desses ídolos que ajuda a mover uma poderosa engrenagem de negócios, gerando lucros estratosféricos. De acordo com a Football Money League, da consultoria norte-americana Deloitte, só o Barcelona faturou cerca de 840 milhões de euros na temporada 2018/2019 (algo em torno de 4 bilhões de reais). O argentino (ou já seria catalão?) Lionel Messi, o português Cristiano Ronaldo, o brasileiro Neymar Jr. são os nomes mais representativos desse seleto clã, mas há espaço para muitos outros nos holofotes midiáticos globais.

Este artigo é dedicado justamente a um desses jogadores que, a princípio, integrariam um segundo escalão, mas que em seu país é considerado um rei, ou melhor, um faraó: Mohamed Salah Hamed Mahrous Ghaly, ou simplesmente Mo Salah, como é apelidado na Premier League inglesa, onde atua pelo Liverpool. O atacante de 27 anos é o maior jogador da história do futebol egípcio.

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Fonte: Acervo pessoal do autor.

De norte a sul do Nilo, a figura de Salah está presente e nos locais mais inusitados, como uma fachada de salão de barbeiro em Memphis, dando nome a um pequeno barco que transporta turistas na cidade de Aswan ou estampando papiros em uma loja em Giza. Adesivos em carros ou tuk-tuks (espécie de moto-táxi) se vê às centenas. Algo que chama a atenção até mesmo de quem não está habituado com o mundo do futebol.

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Fonte: Acervo pessoal do autor.
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Fonte: Acervo pessoal do autor.

Durante uma recente viagem ao Egito, perguntei a várias pessoas de lá o que achavam de Mohamed Salah, e os elogios ao jogador foram uma unanimidade, não houve sequer uma queixa, um senão. E o mais curioso de tudo é que, apesar de o ponta ter sido um dos maiores responsáveis por levar o selecionado egípcio ao mundial da Rússia, em 2018, raros eram os elogios que passavam por seu desempenho nas quatro linhas. A maior qualidade de Salah era sempre a ligação com suas origens e a constante preocupação com seus compatriotas.

O nosso guia no Cairo, Abdel Kader El Araby, nasceu na mesma região que o atacante do Liverpool, no delta do Rio Nilo. O entusiasmo para falar de Salah superava as dificuldades que tinha com o “portunhol” que usava para nos explicar as atrações que visitávamos. Orgulhoso, Abdel nos contou que todos os anos o jogador volta ao povoado de Nagrig, na Província de Garbia. Disse que o jogador dispensa qualquer proteção e que se desloca pela cidade como nos tempos em que lá vivia. Nosso guia também fez questão de ressaltar como Salah ajudou e ainda ajuda a região.

As boas ações de Salah viraram lendas numa terra tão acostumada a elas nos últimos cinco mil anos, algumas reais e, outras, frutos da imaginação popular. É fato que Salah mandou construir uma quadra de esportes na escola que ganhou seu nome, em Nagrig, que ajudou a reformar o hospital de Basyoun, onde foram construídas salas de atendimento para recém-nascidos, além da compra de ambulâncias. Também é correto afirmar que faz contribuições mensais para centros comunitários e outras bem mais vultosas, como o repasse de cerca de um milhão e meio de reais para o Tahya Masr Fund, uma instituição que presta atendimento de saúde a 900 mil crianças matriculadas no sistema público de educação do Egito. No entanto, outras supostas atitudes beneficentes acabaram se propagando pelo país sem que fossem de fato tomadas, como, por exemplo, a ajuda que teria dado a milhares de casais que não tinham condições financeiras para se casar ou a construção de uma grande estação de tratamento de água em sua região natal.

A religião muçulmana é baseada em cinco pilares, e um deles é justamente a caridade, ou seja, todo seguidor dos ensinamentos de Alá deve doar um percentual de seus ganhos aos necessitados, mas nenhuma das pessoas com que conversei acredita que o motivo das doações feitas pelo jogador seja religioso, já que Mohamed Salah é muçulmano, como cerca de 90 por cento da população egípcia. Para todas essas pessoas, a caridade praticada por ele é fruto de sua índole, o que o faz ser ainda mais admirado.

Não se pode classificar Mohamed Salah como um jogador engajado, mas seria errado, também, dizer que ao se transferir para o exterior ficou alheio aos graves problemas enfrentados por seu país. Quando atuou pela Fiorentina da Itália, por exemplo, passou a usar a camisa número 74. Esse foi o número de mortes na tragédia do estádio de Port Said que aconteceu no dia primeiro de fevereiro de 2012. Tudo por causa de um confronto entre “ultras” (grupos de torcedores violentos) do time local, o Al-Masry e da equipe do Al-Ahly, do Cairo.

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Fonte: ANSA.

Em 2013, se recusou a apertar a mão de jogadores do time israelense do Maccabi, por discordar da política sionista em relação à Palestina. Outro exemplo da preocupação com assuntos extra campo foi uma doação de dois milhões e meio de libras esterlinas (14 milhões de reais) para o Instituto Nacional do Câncer, que teve parte das instalações atingida por um atentado terrorista em agosto de 2019. Além disso, Salah é o rosto de uma campanha antidrogas no país.

Em um texto para o jornal The New Arab, em maio de 2018, Mohamed El Meshad, jornalista com foco na economia política da mídia, questionou: “Mo Salah é um herói necessário ou um ópio para as massas?”. El Meshad entende que o craque egípcio deveria se manifestar mais em relação a temas do Oriente Médio, como as agressões na Faixa de Gaza, por exemplo. “Dado seu passado, Salah poderia usar seu status de craque mundial e se manifestar, especialmente em um momento em que grupos de defesa pública e ação política independente foram esmagados pelo Estado.  Mas certamente é pedir demais a um jogador de futebol de 26 anos que sempre tome a decisão correta sobre o que dizer e o que não dizer, quando falar e quando não falar”.

No artigo citado no começo deste texto, Ronaldo Helal destaca a visão de dois pensadores que muito se encaixa com a imagem que a população egípcia tem de Mohamed Salah: “Edgar Morin (1980) e Joseph Campbell (1995) chamam a atenção para a diferença entre celebridades e heróis. Enquanto os primeiros vivem somente para si, os heróis devem agir para ‘redimir a sociedade’. A saga clássica do herói fala de um ser que parte do mundo cotidiano e se aventura a enfrentar obstáculos intransponíveis, os vence e retorna à casa. Conforme colocou Campbell (1995:36) ‘o herói parte do mundo cotidiano e se aventura numa região de prodígios sobrenaturais; ali encontra fabulosas forças e obtém uma vitória decisiva; o herói retorna de sua misteriosa aventura com o poder de trazer benefícios aos seus semelhantes’”.

Para Mohamed El Meshad, “Salah é um produto do presente que representa um futuro no qual muitos estão desesperados para acreditar, um egípcio bem-sucedido contra todas as probabilidades”. O fato é que o ídolo egípcio conseguiu em meio a uma fase tão difícil, unir o país, ainda que através do futebol. Depois da Primavera Árabe e os violentos protestos na praça Tahrir, cujo nome significa liberdade, o ditador Hosni Mubarak, que estava há 30 anos no poder, foi deposto. Mas a transição para a democracia se mostrou turbulenta e entrou em colapso quando o presidente Mohamed Morsi, democraticamente eleito, foi derrubado pelos militares com apoio popular em 2013.  Desde então o Egito está sob o comando do presidente Abdel Fatah al-Sisi, ex-chefe das forças armadas, e vive um regime de severa repressão a qualquer tipo de oposição.

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Fonte: Acervo pessoal do autor.

Em junho de 2018, pouco antes da Copa da Rússia, o jornal inglês The Guardian publicou um texto com o título: “Como Mohamed Salah conseguiu o impossível: unir o Egito”. A reportagem buscou depoimentos de várias pessoas ligadas ao futebol egípcio para tentar retratar o fenômeno. A fala mais emblemática, que chama a atenção pelo tom tão ufanista quanto exagerado, é de Mohamed Farag Amer, então chefe do Comitê Parlamentar de Esportes e Juventude do Egito. Para ele, “Mohamed Salah é realmente importante porque ele é um símbolo como Tutancâmon, como as pirâmides”.

A imagem de Mohamed Salah, mesmo depois do decepcionante desempenho do Egito na Copa de 2018, com três derrotas, seis gols sofridos e dois marcados, não foi abalada. As conquistas pelo Liverpool, com os títulos da Champions League e do Mundial Interclubes da FIFA, fazem com que sua reputação permaneça intocada, até porque, daqui a dois anos, há um novo mundial e os egípcios só pensam em, mais uma vez, disputar a Copa do Mundo. Um sonho que só parece possível graças a Mohamed Salah. Portanto, vida longa ao “Faraó”.

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Primeira edição dos Encontros LEME 2020

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No primeiro Encontro de 2020, vamos receber Luiz Guilherme Burlamaqui, que apresentará a pesquisa “A dança das cadeiras: como João Havelange se tornou presidente da FIFA em 1974”.
Luiz Burlamaqui é doutor em História Social pela USP e professor de história no Instituto Federal de Brasília.

Encontros LEME é uma proposta do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte que visa a partir da leitura de textos e análise de produções fílmicas realizar debates com professores, pesquisadores, graduandos e convidados interessados em estudar as interseções da Comunicação com o Esporte. Os encontros pretendem oferecer um espaço de diálogo e formação acadêmica.

Local: Auditório do PPGCom/UERJ
Horário: 16h
Não é necessária inscrição prévia.
Em todas as palestras teremos certificado para alunos para horas complementares.

Os próximos Encontros agendados são:
> 06/04 16h – Diano Albernaz Massarani
> 27/04 16h – Alberto Filgueiras
> 11/05 16h – Irlan Simões
> 27/05 16h – Isabella Trindade
> 08/06 16h – Carlus Augustus
> 22/06 16h – Jimmy Medeiros

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Internet x imprensa: um jogo paralelo no Mundial de Clubes

Redes sociais recorrem ao jornalismo para criticar cobertura da imprensa.

A final da Copa do Mundo da Fifa 2019, entre Liverpool x Flamengo, expôs uma curiosa, e interessante, disputa de narrativas entre o discurso, quase uníssono da imprensa, e o das mídias sociais. Embora marcado, também, pela (saudável) jocosidade das torcidas, as narrativas fora do campo da imprensa apresentaram um fator que parece indicar uma inversão de papéis. Enquanto, não raro, o discurso que exaltava a participação da agremiação carioca soava clubístico, com direito a contagem regressiva do voo, internautas faziam jornalismo, ocupando papel que deveria ser o da imprensa. Entendida essa prática como a busca de contrapontos, a indicação de contrastes no tratamento dedicado ao Flamengo e a outros clubes brasileiros que participaram do mesmo evento em outras edições e a exposição de contradições importantes – eventualmente constrangedoras – entre a fala de veículos e jornalistas e os fatos.

Para colocar a cobertura em perspectiva, eventualmente, foi necessário recuar no tempo, para tentar mostrar como, já na cobertura da conquista da Libertadores, havia fortes contrastes com a gramática dedicada, por exemplo, ao título do mesmo torneio pelo Vasco, em 1998. Assim, por exemplo, em 23 de julho daquele ano, o jornal O Globo anunciava, sem qualquer ilustração, numa discreta coluna de rodapé de página: “Vasco está na final da Taça Libertadores”. O mesmo jornal, 21 anos depois, manchetou, em cinco colunas: “Goleada histórica põe Fla na final da Libertadores”. A matéria era acompanhada por uma foto, em quatro colunas, do Gabigol celebrando um dos dois gols que marcara na vitória de 5 x 0 sobre o Grêmio. No caso do Vasco, a classificação para a final veio após empatar, na Argentina, em 1 x 1, com o River Plate, a quem vencera por 2 x 1, em São Januário.

O tratamento distinto provoca maior estranheza por tratar-se de dois times do Rio, mesma praça do jornal responsável pelos dois títulos. Talvez por isso, embora a comparação entre as duas edições tenha partido da internet, sua forte repercussão nas mídias sociais acabou reverberando em programas como o “Redação SporTV”, que exibiu a cobertura realizada pelo jornal da mesma empresa do programa. O jornalista André Rizek, que comanda o “Seleção SporTV” – umas das principais mesas esportivas da emissora –, foi ao Twitter para chamar a atenção para a contradição exibida pelo programa, e protestou: “É ultrajante a diferença no tratamento dispensado aos dois clubes, em situações muito parecidas”.

Paulista radicado há alguns no Rio, Rizek, em outras ocasiões, já manifestara seu descontamento com o que considera a assimetria do tratamento da imprensa carioca em relação ao Flamengo e aos outros três times grandes do Rio: Botafogo, Fluminense e Vasco. Nas suas palavras: “Tem a cultura que o Flamengo tem de ser soberano. Para o Flamengo ser soberano, tem de ridicularizar os outros. Os feitos dos outros são menos comemorados, são menos vibrados, menos enaltecidos.”

Glamourização da derrota x Orgulho do torcedor

Apesar do papel relevante que ocupa no jornalismo esportivo do Rio, Rizek, no entanto, parece ser voz quase isolada no questionamento a esse comportamento. Ao menos, esse parece ser o entendimento das vozes que se levantaram nas mídias sociais para se contrapor aos jornalistas que enalteceram o vice-campeonato do Flamengo, em contraposição ao tratamento dispensado a outros clubes em situações semelhantes. Em junho de 2019, quando o  Corinthians foi eliminado pelo Flamengo, nas quartas de final da Copa do Brasil, também por 1 x 0, o portal Terra exaltou a atuação do time paulista, apesar da derrota: “O dia em que o Corinthians ganhou sem ter vencido. No jogaço contra o Flamengo, Timão lava a alma da torcida e traz esperanças de dias melhores”. No Twitter, Mauro Cezar Pereira, da ESPN Brasil, reproduziu o tweet do Terra, mas encabeçado pela crítica: “Glamourização da derrota.”

O mesmo jornalista, no entanto, tuitou sobre a derrota do Flamengo para Liverpool: “Grande partida do Flamengo, com coragem, com a bola e, enquanto tinha gás, chegou a dominar a partida contra um campeão europeu com força máxima”. E decretou: “Vitória justa do Liverpool, atuação digna do Flamengo. Orgulhoso deve ficar o torcedor”. O tweet foi amplamente replicado nas redes sociais, ao lado do texto anterior de Pereira sobre o Corinthians, acrescido, porém, do mesmo cabeçalho anterior: “A glamourização da derrota”.

Fonte: https://www.terra.com.br/

Exemplos equivalentes repetiram-se à profusão nas redes sociais, antes, e, principalmente, após a vitória do Liverpool. Vários comparavam a exaltação ao “melhor vice-campeão sul-americano contra um europeu” ao tratamento desdenhoso destinado ao Vasco, contra o Real Madri, em 1998. Naquela ocasião, o jornal “Extra” titulou: “Flamengo em festa com o vice do Vasco”. Vinte e um anos depois, o mesmo veículo manchetou: “Orgulho do tamanho do mundo”.

No primeiro caso, além de introduzir a comemoração do rival no título, a matéria era ilustrada pela foto de um jogador do Vasco com as mãos na cabeça, expressando dor. No segundo, a fotografia exibia atletas do Flamengo aplaudindo a própria atuação e a torcida. Como é pouco provável que os rivais estivessem tristes com a derrota rubro-negra, os editores do jornal, dificilmente, poderiam se escudar na objetividade para justificar a ausência da jocosidade clubística que abrigara no outro caso. E, como recordam lances editados e exibidos na internet, o time de São Januário fez um jogo muito mais parelho – para muitos, superior – com o rival espanhol, como mostram as inúmeras chances claras de gol. Já o goleiro do Liverpool, Alisson fez uma solitária defesa ao longo dos 120 minutos, entre o tempo regulamentar e a prorrogação.

Ainda que toda a narrativa das mídias sociais exibida nesse episódio tenha em seu DNA a paixão clubística, como mostra a sua forte replicação por torcedores não rubro-negros, ela se distingue da jocosidade das torcidas, também fortemente presente, aí do lado dos rivais e dos torcedores do Flamengo – neste caso, brincando com a clara superioridade do clube em relação aos concorrentes exibida ao longo do ano passado.

Diferentemente desta, cujo principal combustível é a paixão clubística e não tem qualquer compromisso com fatos, apuração, contexto, as críticas jornalísticas deixam o jornalismo esportivo numa posição incômoda. Ao compararem – e comprovarem – como os mesmos veículos e jornalistas agem de formas assimétricas diante de fatos semelhantes quando vivenciados por atores diferentes, elas expõem uma subjetividade, que, ao menos em tese, deveria limitar-se ao universo dos torcedores, em contraponto, à objetividade reivindicada pelo jornalismo.

É sabido – e admitido pelo próprio universo jornalístico – que as editorias de esporte são consideradas espaços mais livres, nos quais a busca pela objetividade pode se dar ao luxo de certo relaxamento dos seus rigores habituais. Mas, justamente, por esse relaxamento, também são um território privilegiado para estudos de caso. Não sobre uma exceção na engrenagem da objetividade jornalística, mas, exatamente, para fornecer uma visão mais transparente do processo que, em outras editorias, é mais velado.

Analogias entre as preferências esportivas exibidas nessas editorias podem ser encontráveis, por exemplo, nas seções de política e economia, mostrando que, se os interesses das empresas podem ser mais explicitados nas primeiras, também comparecem nas outras duas, ainda que de formas menos identificáveis pelo público leigo nesses temas. Eles estão presentes no tratamento distinto destinado a políticos e partidos em temas equivalentes. Como exemplo pouco sutil: o mensalão do PT x o mensalão mineiro – enquanto este envolvesse um partido, o PSDB, e não um estado como um todo.

O mesmo vale, nas páginas de economia, para a cobertura sobre as mudanças na Previdência. No vasto espaço destinado ao tema, o “Jornal Nacional”, principal telejornal do país, não ouviu um só entrevistado contrário à redução dos direitos à aposentadoria. Ou seja, o famoso ouvir os dois lados, um dos cinco procedimentos estratégicos que servem à busca pela objetividade jornalística. Sendo os demais a técnica do lead; o recurso a provas auxiliares; o uso de aspas e a separação de fatos e opinião, o que reforçaria o caráter objetivo e neutro da primeira em contraponto à subjetividade e à editorialização da segunda (TUCHMAN, 1993).

Se no passado, a subjetividade das editorias esportivas contava com maior complacência do público – ou, ao menos, este tinha canais menos estridentes para manifestar divergências – as redes sociais mostram que, quando recorrem à mesma metodologia reivindicada pelo jornalismo, podem produzir contrapontos objetivos às narrativas das empresas que vão muito além da jocosidade das torcidas. A análise desse fenômeno pode ser uma pista e um incentivo para que possa ser estendido às outras editorias.

 

Referências

BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Lisboa: Difel, 1989

SOUTO, Sérgio Montero. Imprensa e memória da copa de 50: a glória e a tragédia de Barbosa. Niterói: Dissertação de Mestrado da UFF, 2002.

TUCHMAN, Gaye. “A objectividade como ritual estratégico: uma análise das noções de objectividade dos jornalistas”. In: TRAQUINA, Nelson (org.). Jornalismo: questões, teorias e “estórias”. Lisboa: Vega, 1993.

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Uma crônica para Kobe Bryant

Domingo, 26 de janeiro de 2020, 19h aproximadamente. Estava chegando em casa, bastante cansada, após ter ido até o estádio de Moça Bonita assistir Bangu 1 x 5 Fluminense, pelo Campeonato Carioca de futebol masculino.

Ao chegar, abri a porta do quarto do meu irmão, o mais fanático tricolor que eu conheço, para falarmos sobre a vitória do Fluminense. Esperava encontrá-lo feliz após a goleada do nosso time, mas não foi assim que o encontrei.

Ao entrar no cômodo, me deparei com ele chorando copiosamente em frente à televisão. Meu celular havia descarregado durante o jogo, fiquei sem notícias do que se passava no mundo e confesso que nada entendi ao ver meu “brother” naquele estado.

Ele soluçava, chorava muito, as lágrimas escorriam. Parecia uma criança. Me preocupei. Perguntei o que havia acontecido, mas ele estava tão triste que nada conseguia falar. Quando olhei para a tela da TV, vi que estavam falando sobre a morte do Kobe Bryant.

Fonte: www.cbssports.com

“O que??? O Kobe morreu????”, perguntei, incrédula. Tão novo. Nem fazia tanto tempo assim que ele havia se aposentado. Nunca fui tão fã de basquete, mas sabia da sua importância pro esporte.

Fiquei chateada, mas confesso que não sabia o quanto meu irmão gostava desse cara. Tentei o consolar, porém em vão. Quando ele conseguiu falar, me explicou tudo.

Foi o Kobe que fez ele se apaixonar por basquete. Ele não chegou a se formar, mas cursou educação física por um tempo. Ele estagiou com crianças em aula de basquete. Ele, inclusive, está com o dedo quebrado. Quebrou jogando basquete. Fui entendendo, aos poucos, que basquete, para o meu irmão, é sinônimo de Kobe e Shaq. Foi por causa desses dois que ele passou a acompanhar, jogar, dar aula, etc.

Parece bobo, não é? Um marmanjo de vinte e dois anos, quase vinte e três chorando por um cara que ele nem conheceu. Mas isso é idolatria. Isso é amor. Isso é esporte. Com certeza, a vida do meu irmão nunca mais será a mesma. A NBA não será a mesma. O basquete não será o mesmo. O mundo esportivo não será o mesmo.

Muito mais do que basquete, Kobe Bryant significa superação, humildade e simpatia. Nunca foi “só” basquete. Nunca foi “só” um esporte, seja ele qual for.

Meu irmão chorava por Kobe, pela sua filha e pelos outros envolvidos no acidente. Meu irmão chorava, principalmente, por gratidão. O Kobe mudou a vida dele. Quantos amigos ele não fez jogando? Para quantos alunos ele ensinou e passou um pouquinho dessa paixão? Ele sonhava em um dia poder agradecer a Kobe Bryant por tudo isso. Mas esse sonho nunca irá se realizar.

No auge da tristeza e fora de si, ele me perguntou: “será que se eu morrer agora, eu chego no céu junto com o Kobe para agradecer?”. Nos abraçamos. E choramos. Foi bastante triste. Claro que ele não iria se matar, conheço meu irmão e ele ama a vida. Mas, por um momento, a vida perdeu o seu significado.

Nós valorizamos a luz porque conhecemos a escuridão. Valorizamos a saúde porque conhecemos a doença. Valorizamos a vida, apesar de não conhecermos a morte. Mas sabemos da existência dela. Então, o que posso dizer hoje, caro leitor, é que aproveitemos nossa vida ao máximo. Não sabemos quando essa dádiva irá se acabar.

Quanto ao Kobe, desejo que descanse em paz. Em paz mesmo. Fica tranquilo, pois o legado que você deixou na Terra é imenso. Meu irmão e mais milhões de loucos por basquete não irão deixar o amor pelo esporte morrer. A semente que você plantou já está dando frutos faz tempo e continuará desta forma até o último dia de vida nesse planeta. Pode ter certeza.

Adeus, Kobe. O Mundo inteiro te ama, basta ver as grandes homenagens que lhe foram prestadas. Estamos nos sentindo sozinhos porque perdemos uma grande referência, mas a sua mentalidade vitoriosa vai contribuir para que recuperemos nossa felicidade qualquer dia. Nunca será “só” um esporte. Ainda tem muita bola laranja pra subir.

Da irmã de um fã seu,

Marina Mantuano.

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Já está no ar o décimo episódio do Passes e Impasses

Acesse o décimo episódio do podcast Passes e Impasses no Spotify*, Deezer*, Apple PodcastsPocketCastsOvercastGoogle PodcastRadioPublic e Anchor.

O tema do nosso décimo episódio é “O Brasil em sua primeira participação olímpica”. Com apresentação de Filipe Mostaro e Mattheus Reis, que é pesquisador do LEME e e jornalista da Rádio Globo, recebemos no nosso estúdio Fausto Amaro, doutor em Comunicação pela UERJ, coordenador técnico do LEME e diretor do Passes e Impasses.

 

O podcast Passes e Impasses é uma produção do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte em parceria com o Laboratório de Áudio da UERJ (Audiolab). O objetivo do podcast é trazer uma opinião reflexiva sobre o esporte em todos os episódios, com uma leitura aprofundada sobre diferentes assuntos em voga no cenário esportivo nacional e internacional. Para isso, traremos sempre especialistas para debater conosco os tópicos de cada programa. Você ama esporte e quer acessar um conteúdo exclusivo, feito por quem realmente pesquisa o esporte? Então não deixe de ouvir o décimo episódio do podcast Passes e Impasses.

No quadro “Toca a Letra”, a música escolhida foi o “Hino Olímpico”, que foi composto pelo grego Spyridon Samaras, com letra do poeta romano Kostís Palamás.

Passes e Impasses é o podcast que traz para você que nos acompanha o esporte como você nunca ouviu.

Equipe

Coordenação Geral: Ronaldo Helal

Direção: Fausto Amaro e Filipe Mostaro

Roteiro: Marina Mantuano e Carol Fontenelle

Produção: Fausto Amaro e Marina Mantuano

Edição de áudio: Leonardo Pereira (Audiolab)

Apresentação: Filipe Mostaro

Convidados: Mattheus Reis e Fausto Amaro

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Novas dinâmicas na circulação de futebolistas brasileiros entre a Europa e o nosso país

Hoje em dia o futebol é o esporte mais popular e mais consumido de todo o planeta. Ele e suas variadas matrizes se apresentam atualmente como uma linguagem uníssona, atravessando segmentações e fronteiras. Conhecidamente marcado pelas paixões e pelas disputas identitárias, o futebol cada vez mais se torna um filão da indústria do entretenimento e ponto central de inúmeros agentes econômicos que utilizam-no como instrumento para vender tudo que for possível. Dessa forma, o funcionamento do futebol encontra-se cada vez mais atrelado as dinâmicas do capitalismo e as configurações da globalização mundial.

Fonte: gabrieldantas-futebol.blogspot.com

O aumento dos fluxos de capitais, da transnacionalização das marcas/empresas, das relações de trabalho e das tecnologias de comunicação também influenciaram a (re)organização dos clubes e das ligas de futebol ao longo da segunda metade do século XX e início do século XXI.

O avanço do campo econômico sobre o campo futebolístico pode ser visto na paulatina migração desse das páginas esportivas para os cadernos de economia. Além da crescente preocupação dos analistas e cronistas em comentar aspectos financeiros e mercadológicos dos clubes, tais como balancetes e arrecadações. Diante disso, muitas vezes achamos que estamos lendo um encarte econômico com notícias sobre compra, venda, balanços de fluxo de caixa, contratos, projeções financeiras e lucros líquidos.

O futebol tornou-se uma mercadoria global interpenetrada cada vez mais pelo capitalismo neoliberal. Os investimentos do capital privado aumentaram significativamente, a partir da década de 1970, com o esforço da FIFA, através de seu presidente João Havelange (1974-1998), para potencializar a capacidade mercantil do futebol (ROCHA, 2013). Nessa nova lógica entre campo esportivo e campo econômico tornou-se cada vez mais comum a entrada de investidores privados nos clubes de futebol, principalmente na Europa e Estados Unidos, e em muito menor número na América do Sul. Os exemplos mais extremos desse processo são aqueles em que tradicionais clubes são comprados por investidores estrangeiros ou por empresas, como é o caso do Chelsea na Inglaterra ou até mesmo o Bragantino no futebol brasileiro.

A aproximação cada vez maior entre economia e futebol, permite com que as estruturas econômicas que funcionam no mercado global, passem a influenciar o funcionamento das relações dentro desse esporte. Isso pode ser visto no aparecimento de “clubes-globais”, que assim como as cidades-globais, são aquelas extrapolam suas fronteiras enquanto cidades, regiões e até mesmo países.

Fonte: gazetaesportiva

Os clubes-globais são nódulos de fluxos econômicos, humanos, midiáticos e simbólicos globais. São clubes que tem torcedores espalhados pelo planeta, jogadores provenientes de diferentes lugares do mundo, que estão presentes na mídia em diferentes países, que concentram capital que circula globalmente, que atingem a imaginação de uma população planetária. Dentro desta lógica que podemos entender a transformação de alguns grandes clubes do mundo em “marcas globais”.

A nova lógica do futebol, marcada pelo aprofundamento da sua mercantilização aumentou enormemente a circulação dos jogadores entre os clubes, e fez com que estruturas do campo econômico fossem apropriadas no campo futebolístico, tais como as relações entre centro e periferia na divisão internacional do trabalho (DIT). Dessa forma, a periferia do mercado capitalista global, localizada principalmente nos países do hemisfério Sul e produtora basicamente de commodities para os países centrais do hemisfério norte, também se vê presente nas relações comerciais do futebol internacional.

Nessa relação centro-periferia do futebol, os países europeus com destaque para Inglaterra, Espanha, França, Alemanha, Itália e Portugal seriam o centro, ou seja, donos das principais ligas do mundo, com maior poder aquisitivo e visibilidade, tendo a necessidade de obter boa matéria-prima para manutenção dos seus campeonatos. Em compensação, à periferia, marcada principalmente pelos países latino-americanos e pelos países africanos caberia o fornecimento de boas matérias-primas de jogadores para abastecer as melhores ligas. Temos, então no Brasil, a formação de um exército de jogadores (“pés-de-obra”) voltados para abastecer as ligas da Europa, fazendo com que os clubes passem a atuar numa lógica próxima a de empresas capitalistas. Como consequência desse processo temos o surgimento de clubes cujo objetivo central é o lucro econômico, auferido com a venda de jogadores, e não as vitórias em campeonatos.

A transferência de jogadores brasileiros para o exterior, no entanto, não surgiu apenas com o aprofundamento da mercantilização do futebol. Durante todo desenvolvimento desse esporte no Brasil, ocorreu a migração de atletas para outros países. Autores como Rial (2009), Agostino (2002), Alvito (2006) e Damo (2007) evidenciam desde 1920 a saída de atletas brasileiros para países como Itália, Espanha, Argentina e Uruguai. Vários motivos são listados para essa saída, entre os quais podemos citar: A possibilidade de auferir ganhos financeiros como o futebol diante de novos mercados nos quais o futebol já era profissionalizado. Além disso, as relações de descendência de alguns jogadores brasileiros com a Itália e a Espanha também facilitavam essa migração.

Os autores também evidenciaram que apesar de casos emblemáticos como a ida de Domingos da Guia, Fausto e Zizinho para outros mercadores do futebol, o período entre 1920 e 1960 não mostrou uma saída massiva de atletas do futebol do país. Esse êxodo de brasileiros começa a ocorrer principalmente a partir da década de 1980, quando as principais ligas nacionais na Europa, iniciam uma reestruturação e profissionalização, a reboque das mudanças produzidas por João Havelange na FIFA a partir década de 1970.

Com campeonatos mais organizados, maiores patrocínios e melhores salários, o que se verifica é a saída em massa de atletas do Brasil para a Europa. Ainda mais se lembrarmos que durante a década de 1980, o futebol brasileiro se encontrava numa grave crise de organização, investimentos e gestão, que culminaria com a ameaça de não realização do campeonato nacional de 1987 (HELAL, 1997).

Fonte: telam.com.ar

Entre as décadas de 1980, 1990 e os anos 2000, o número de jogadores profissionais que saíram do país rumos aos mais diversos mercados internacionais ultrapassou a marca de 15 mil indivíduos, sendo que desde 1998 até o ano de 2018, esse número mantinha-se crescente de um ano para o outro (ALVITO 2006; FIFA; 2018). Entre os principais destinos de brasileiros para o exterior temos a liga portuguesa em primeiro lugar, seguida da liga Ucraniana, e depois as ligas italiana e espanhola.

Cabe ressaltar que a lei Bosman de 1995 ajudou no aumento das transferências de brasileiros para o exterior, especificamente a Europa, pois permitiu a absorção de uma demanda reprimida por atletas de fora da Europa. Através dessa lei, todo jogador de futebol nascido na Europa dentro das fronteiras da União Europeia passou a ser considerados trabalhador comunitário. Isso fez com que esses indivíduos não fossem mais considerados aos olhos das federações nacionais como estrangeiros. Dessa forma, as vagas para extracomunitários puderam ser ocupadas com outros atletas provenientes principalmente da América do Sul e da África.

Dentro desse universo de aumento da saída de jogadores durante as décadas de 1980 e 1990, podemos perceber que aquelas que movimentavam mais dinheiro e chamavam mais atenção da mídia nacional e internacional eram daqueles jogadores considerados consagrados no futebol brasileiro. Nesse esteio temos a saída de Zico para Udinese, Leovegildo Júnior para o Pescara, Falcão para a Roma e tantos outros na década de 1980, assim como as saídas de Edmundo para a Fiorentina, de Romário e Ronaldo Fenômeno para o PSV da Holanda na década de 1990.

As saídas de jogadores brasileiros nessas duas décadas possuem algumas características em comum, como, por exemplo, a idade normalmente entre 20 e 26 anos de idade, a projeção que esses atletas possuíam no cenário nacional e os valores pagos para adquiri-los, normalmente muito mais baixos do que os atuais, mesmo descontando a inflação. Segundo dados da FIFA sobre as transferências de jogadores nas décadas de 1980 e 1990, a média de idade dos atletas que saiam do país era de 25,4 anos de idade (FIFA, 2007).

A dinâmica de transferências de atletas nessas duas décadas parece se basear principalmente na qualidade enxergada pelos clubes, especificamente os europeus sobre a técnica e a habilidade dos jogadores, sendo a idade um elemento secundário. Diante disso, entre a crônica esportiva dos anos 1990 e 2000, verificou-se que o futebol brasileiro perdia substancialmente seus melhores atletas para o futebol europeu e esses jogadores muitas vezes regressavam apenas em idade mais avançada, após os 30 anos para encerrarem suas carreiras no Brasil.

O funcionamento do mercado de pés-de-obra, no entanto, vem demonstrando uma significativa mudança nos padrões de transferências e no desejo dos grandes clubes europeus pelos atletas brasileiros, a saber, a contratação de jogadores cada vez mais jovens e por cifras cada vez maiores. As saídas recentes de Reinier, Vinícius Júnior, Lucas Paquetá, Bruno Guimarães, Paulinho, Arthur refletem uma tendência que a própria FIFA já vem identificando no mercado de transferências entre Brasil e Europa, que é a saída cada vez maior de atletas com menos de 20 anos de idade. Segundo dados da entidade máxima do futebol, entre 2011 e 2017 a média de idade dos jogadores de futebol que saíram do Brasil foi de 22,8 anos de idade. Quando comparamos essa média com aquela existente entre as décadas de 1980 e 1990, podemos verificar uma queda de quase 3 anos de idade.

A diminuição da média de idade dos atletas que saem do país, evidencia também uma outra tendência pontuada pelo aumento do número de atletas com menos de 20 anos que saíram do país. Segundo os dados da FIFA o número de saídas nessa situação teve um aumento de 192%, pulando de 151 em 2011 para 290 em 2017 (FIFA, 2018). Diante desse fato, percebe-se que o monitoramento dos principais clubes europeus passou a ser prioritariamente nas categorias de base e criando um cenário no qual os principais talentos vão direto para o exterior ou, na melhor das hipóteses, jogam poucos jogos nos seus clubes brasileiros antes de se transferirem.

 

Fonte: df.superesportes.com.br

Entre os principais argumentos utilizados pelos clubes europeus para a compra de jogadores cada vez mais jovens, está a preocupação com a finalização da formação desses atletas na Europa e segundo a filosofia de futebol desses clubes nos quais são contratados. Além disso, em alguns casos é citada a formação tática deficiente realizada em geral pelos clubes brasileiros nas suas categorias de base.

A preferência dos clubes europeus por um nicho cada vez mais jovem de atletas e o cenário de antecipação etária da venda de jogadores brasileiros traz à tona uma nova realidade no futebol nacional caracterizada pelos “veteranos de 24 anos”. Esses atletas, apesar de ainda terem de pouca idade, já não são vistos como atraentes para os grandes clubes europeus. Nessa nova dinâmica do mercado de transferências, a despeito de temporadas eloquentes no futebol brasileiro, não lhes resta muitas alternativas que não sejam a permanência no futebol nacional, ou a ida para mercados alternativos como o asiático, o oriente médio ou clubes periféricos da Europa.

Atualmente 4 casos que exemplificam bem esse cenário são aqueles dos jogadores Dudu do Palmeiras, Everton “Cebolinha” do Grêmio e de Gabriel Barbosa e Bruno Henrique do Flamengo. Esses atletas mesmo com temporadas contundentes nos últimos 3 anos, não receberam propostas dos principais clubes do futebol Europeu. Um dado que os une é o fato de todos possuem entre 23 e 29 anos de idade.

A nova configuração do mercado, com a escolha dos grandes clubes europeus pela compra dos jogadores ainda nas categorias de base das equipes brasileiras suscita debates sobre a dificuldades de manter os jovens talentos no Brasil, com um plano de carreira esportiva atraente e a possibilidade de jogar campeonatos de alto nível durante o ano inteiro. Esse cenário também externa uma preocupação com a identificação cada vez menor que esses jogadores mantem com seus clubes formadores e que a torcida mantém com eles. No entanto, o interesse europeu pelos atletas menores de 20 anos e, consequentemente, sua saída mais precoce para o exterior também vem criando um cenário novo no Brasil, pontuado pela permanência de atletas de alto nível, que sem ofertas atrativas do mercado europeu preferiram continuar no país. A esses casos se juntam aqueles, nos quais jovens promessas foram para o velho continente muito cedo, mas sem corresponder as expectativas acabaram voltando ao Brasil com idade inferior aos 25 anos e com performances boas ao longo das temporadas, como é o caso do jogador Gabriel Barbosa, Gerson, entre outros.

A nova realidade no mercado de transferências foi compreendida por alguns clubes brasileiros que passaram a priorizar investimentos nas categorias de base e a vender suas jovens promessas cada vez mais cedo e por valores vultuosos ao mesmo tempo em que procuram repatriar jogadores brasileiros com idades inferiores a 30 anos de idade. Se durante as décadas de 1980, 1990 e 2000, esses clubes vendiam para a Europa principalmente seus jogadores de destaque ainda na faixa dos 26 anos para contratar brasileiros veteranos que vinham encerrar suas carreiras no Brasil, hoje a dinâmica não é mais primordialmente essa conforme mostram os dados de transferências da FIFA (2018).

A partir dessas observações podemos compreender que as demandas do mercado europeu por jogadores brasileiros mudaram das décadas de 1980, 1990 e 2000, quando comparadas com os números posteriores a 2010. Nesse processo, alguns clubes brasileiros entenderam o novo funcionamento do mercado e procuraram se adaptar a nova realidade, vendendo seus atletas mais jovens e buscando novos jogadores brasileiros na Europa com idades inferiores a 30 anos de idade. Como consequência, podemos verificar a também uma mudança no perfil dos jogadores que regressam do exterior.

Referências:

AGOSTINO, Gilberto. Vencer ou morrer: futebol, geopolítica e identidade nacional. Rio de Janeiro: Mauad, 2002.

ALVITO, M. A parte que te cabe neste latifúndio: o futebol brasileiro e a globalização, IN:Revista do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, v. 41, p.451-474, 2006.

DAMO, Arlei Sander. Do dom à profissão: a formação de futebolistas no Brasil e na França. São Paulo: Aderaldo&Rithschild Ed./Anpocs, 2007.

FIFA. Market Insights: Brasil protagonista del mercado de fichajesinternacionales. Julio de 2018. Disponível em: http://financefootball.com/2018/08/01/fifa-tms-market-insights-big-5-mid-summer-report/

FIFA. Transfers of athletes in the 1980s and 1990 to Europe. 2007 Disponível em: https://resources.fifa.com/image/upload/global-transfer-market-report-1980-1990 men.pdf.

HELAL, R. Passes e Impasses: futebol e cultura de massa no Brasil. Rio de Janeiro: Vozes, 1997.

RIAL, C. S. “Por que todos os ‘rebeldes’ falam português?” A circulação de jogadores brasileiros/sul-americanos na Europa, ontem e hoje. Antropologia em Primeira Mão, Florianópolis, n. 110, 2009.

ROCHA, L.G.B.S.P. No coração de Havelange: Memória, biografia e narrativa simbólica de um livro sobre o maior dirigente de futebol do século XX. Esporte e Sociedade. Niterói, n 21, p.1-33,2013.

 

 

Artigos

Clubes de futebol e suas (des)identidades corporativas

No atual momento social, em que a coerência entre discursos e práticas torna-se cada vez mais desejada pelas audiências, posicionar-se bem diante de seus públicos de interesse é necessário para qualquer instituição, seja ela uma empresa, uma ONG, uma igreja ou um clube. Na verdade, até mesmo no âmbito pessoal, a vigilância nesse aspecto é crescente. O universo digital, representado prioritariamente pelas redes sociais, é um amplo campo de escrutínio, em que muitos atuam como detetives ávidos por investigar a vida alheia, em busca de provas capazes de mostrar a contradição, a indiferença ou os erros cometidos por qualquer um.

Abraçar causas sociais e posicionar-se em temas e discussões “delicadas” têm se tornado frequente tanto para empresas, quanto para clubes de futebol. A defesa dos direitos das mulheres, a luta contra a homofobia ou o racismo e tantos outros assuntos (urgentes) permeiam a comunicação das instituições e são utilizados como forma de posicionamento social e de aproximação positiva junto aos públicos. Esse tipo de estratégia pode ser bastante interessante e benéfica, desde que tudo seja realmente verdadeiro e esteja alinhado com valores reais e com a identidade da instituição.

A identidade corporativa é a linha mestra de todas as ações que envolvem a rotina das organizações. São as características encontradas nos aspectos administrativos, culturais e gráficos. E vai muito além da simples criação de textos que definem a missão, a visão e os valores! Ela não é formada apenas por conceitos, mas também, e principalmente, pelas ações, práticas, vivências e relacionamentos da corporação. Ao compartilhar objetivos, regras, valores, entre outros, dentro do contexto interativo organizacional, os indivíduos assumem comportamentos moldados pela organização, motivados pela redução da incerteza de como devem sentir, agir, pensar e, ainda, de como serão vistos pelos outros (DIAS, 2012; FREITAS, 2007; CASTELO, 2009).

Esses princípios e ações são a base para a construção da imagem corporativa, que é formada de maneira muito mais subjetiva e pode ganhar variações de acordo com as percepções, interpretações, histórias e relações que cada um dos interlocutores da organização estabelece com ela. Wilson da Costa Bueno (2012, p. 22) explica que “A identidade corporativa se distingue dos conceitos de imagem e de reputação porque se localiza em uma outra instância: ela flui da empresa para o mercado e para a sociedade, enquanto […] a imagem e a reputação são exterioridades, ou seja, representam percepções de pessoas, públicos ou da sociedade (ou mercado) como um todo”.

Em busca de um diagnóstico sobre como clubes de futebol tratam a sua comunicação e gestão (incluindo questões relativas à identidade e à imagem), eu e os pesquisadores Ary José Rocco Júnior e Carlos Henrique de Souza Padeiro, por meio do Gepecom – Grupo de Pesquisa e Estudos em Comunicação e Marketing no Esporte, vinculado à Escola de Educação Física e Esportes da USP, realizamos um mapeamento dos sites de oito clubes brasileiros, oito clubes latino-americanos (sem o Brasil) e oito clubes dos Estados Unidos[1].

Resultado de imagem para imagem corporativa clubes de futebol

No recorte sobre o tema aqui discutido, a intenção foi descobrir se dentro de suas próprias plataformas os clubes alinham discursos e a comunicação às suas essências. Os clubes estudados foram escolhidos por meio do ranking de valor de marca da empresa de consultoria BDO 2017 e da Forbes 2017, e as informações foram coletadas em maio de 2018 e atualizadas em junho de 2019.  Os clubes brasileiros investigados foram: Corinthians, São Paulo, Palmeiras, Atlético Mineiro, Cruzeiro, Flamengo, Internacional e Grêmio[2].

Na análise foi possível perceber que dos oito clubes investigados, cinco sequer possuem os conceitos de missão, visão e valores claramente formulados e divulgados. Entre os três que apresentam esses conceitos no portal institucional (Flamengo, Internacional e Grêmio), a aplicação não se faz de maneira clara, objetiva e, principalmente, estratégica. Vale destacar que o Flamengo é o único clube que aplica claramente a sua missão e visão, por exemplo, ao divulgar (e realmente apoiar) fortemente o futebol, mas também outras modalidades olímpicas. Os valores relacionados à transparência de gestão, mencionados como constituintes da identidade dos três clubes também foram percebidos, apesar de ser compreensível que estes conteúdos atendem à Lei 13.155/2015, que criou o Programa de Modernização da Gestão e de Responsabilidade Fiscal do Futebol Brasileiro.

O estudo também observou a presença de ações junto à comunidade como uma forma de aplicação prática de elementos identitários. Como exemplos é possível citar o Internacional que possui uma fundação que se dedica a projetos nas áreas de educação, cultura e esportes e o Grêmio que desenvolve o Comunidade Tri, projeto diretamente ligado às comunidades que circundam o seu estádio. O exemplo um pouco destoante é o Flamengo, pois as ações sociais estão concentradas em suas Embaixadas, que possuem o apoio do clube, mas que são dirigidas e desenvolvidas pelos próprios torcedores.

De forma geral, a pesquisa realizada[3] concluiu que os clubes analisados não colocam destaque na divulgação de suas missões, visões e valores, elementos estes considerados basilares na constituição da identidade de uma organização. Nem tampouco atuam de forma efetiva e verdadeira na aplicabilidade total desses conceitos. Foi possível inferir que as várias ações sociais e comunicacionais realizadas estão direcionadas para fins mercadológicos que buscam o pertencimento e a aceitação social e não necessariamente a construção de uma imagem alinhada e coerente com a identidade dos clubes.

Esse tipo de conduta percebida neste estudo, pode ser bastante complicada no atual cenário social descrito no começo deste texto. Afinal, certamente as incoerências aparecerão e não serão relevadas, nem facilmente esquecidas. Não adianta um clube levantar bandeiras de apoio a segmentos específicos ou à causas, se em sua cultura organizacional está enraizada a prática de se discursar em uma direção e atuar em outra. Os exemplos de como esse tipo de atuação não é benéfica pululam nos noticiários e em nossas timelines. Resta-nos aguardar (e questionar!) até o dia em que os responsáveis pela gestão e comunicação dos clubes entenderão seus verdadeiros papéis profissionais e sociais.

 

Notas de fim

[1] Essa pesquisa faz parte dos estudos do Gepecom e envolve diferentes recortes de análise, sendo abordada neste texto apenas a investigação referente à identidade dos clubes brasileiros (seus discursos e suas ações).

[2] Para a reflexão deste texto foi escolhido apresentar apenas os dados dos clubes brasileiros. Mas para elucidação geral, os clubes latino-americanos estudados na pesquisa foram Chivas, Monterrey, América-MEX, River Plate, Boca Juniors, Tijuana, Santos Laguna e Atlético Nacional-COL; e os norte-americanos foram New York Red Bull, Orlando City, Los Angeles Galaxy, Atlanta United, New York City, Minnesota United, Real Salt Lake e Seattle Sounders.

[3] A análise detalhada dos 24 clubes está descrita no artigo apresentado no Congresso da Intercom de 2019 que encontra-se disponível neste link.

 

Referências

BUENO, W. Auditoria de imagem das organizações: teoria e prática. São Paulo: Mojoara, 2012.

CASTELO, J. Futebol – organização dinâmica do jogo. Lisboa: Edições Lusófonas, 2009.

DIAS, R. Cultura Organizacional. 3ª ed. Campinas: Alinea, 2012.

FREITAS, M. E. de. Cultura Organizacional – evolução e crítica. São Paulo: Cengage Learning, 2007.