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#RetrospectivaLEME: futebol pelo mundo

Apesar de o Brasil, para alguns, ainda guardar a alcunha de “país do futebol”, é inegável que outros países têm também histórias muito interessantes sobre esse esporte. Vamos destacar a seguir produções do LEME em que este assunto foi abordado.

Refugiados
Vocês sabiam que o Brasil é o país da América Latina que mais abriga refugiados? Em um país desconhecido, com uma cultura diferente, para muitos jovens existe um ponto em comum: o futebol. No texto “Esporte e vinculação”, escrito para o blog do LEME, Conceição de Souza fala sobre esse aspecto do futebol, que é capaz de integrar múltiplas culturas em um só lugar.

Hermanos
Os nossos vizinhos também guardam grandes momentos no futebol. Para compreender mais os desdobramentos desse esporte na Argentina, Nicolás Cabrera escreveu dois textos para o blog do LEME. O primeiro, em conjunto com Nemesia Hijós e Franco Reyna, “História mínima do futebol argentino: montagem 2020”, trata da profissionalização do futebol no país. E o segundo, “A invenção das Barras”, conta o surgimento das Barras Bravas, que são uma espécie de “torcida organizada” dos clubes argentinos.

Centenário
Para comemorar os cem anos do Club Deportivo Palestino, Sidney Dupeyrat escreveu para o blog do LEME o artigo “Palestino, 100 anos de futebol e identidade”. No texto, Sidney faz uma homenagem a esse clube chileno, fundado por imigrantes palestinos e que tem fortes raízes com a nação e o povo árabe.

Futebol alemão
Em fevereiro deste ano, jogadores do Bayern Munique e do Hoffenheim abandonaram a partida que jogavam depois de protestos vindos das arquibancadas contra Dietmar Hopp, presidente do Hoffenheim. O acontecimento chegou ao Brasil de maneira distorcida e diversas variáveis foram ignoradas. Em seu texto para o blog do LEME, “Futebol, ofensas e ofensivas na Alemanha: o que não se entende na revolta dos torcedores”, Irlan Simões esclarece a situação e mostra que ela vai muito além de um protesto comum.

The English Game
O mundo do esporte virou um grande atrativo para a indústria cinematográfica. Muitas séries e filmes passaram a ilustrar histórias, reais ou não, relacionadas ao esporte. Para falar de uma delas, Anderson Santos escreveu, para o blog do LEME, o texto “A estruturação do futebol mostrada em The English Game”. Nele, Anderson analisa essa série da Netflix, que fez muito sucesso entre os amantes de esporte.

Conexão Inglaterra-Egito
Um dos grandes nomes do futebol inglês entre o final de 2019 e o início de 2020 foi Mohamed Salah, o atacante egípcio do Liverpool. O jogador não é só idolatrado pelos ingleses, mas pelos egípcios também, conseguindo um feito único: unir o país. Para falar desse personagem e suas histórias, Rafael Casé escreveu, para o blog do LEME, o texto “Mohamed Salah, o novo faraó do Egito”.

“Amor à pátria”
Dizer que o futebol promove grandes paixões, todo mundo já sabe. Mas que tal falar desse assunto de maneira mais profunda? Por que as Seleções movimentam esse sentimento de nacionalismo tão intenso? Essa e outras perguntas são respondidas no nosso 23º episódio do Passes & Impasses, que contou com as presenças de Victor Andrade de Melo, professor da UFRJ, e Maurício Drumond, doutor em História Comparada.

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#RetrospectivaLEME: a pandemia de COVID-19 no esporte – parte 2

O novo coronavírus pegou todo mundo de surpresa. Assim como os demais campos sociais, o esporte também teve que se adaptar a essa nova realidade. A pandemia trouxe reflexões e mudanças para o esporte. Vamos destacar a seguir produções do LEME em que este assunto foi abordado.

“Modelo NBA”
A forma que a NBA encontrou para lidar com a pandemia de COVID-19 chamou a atenção de todos. A famosa “bolha” funcionou muito bem e nenhum caso de coronavírus foi registrado entre atletas ou comissão técnica. No texto “A bola e a ‘bolha'”, Rafael Casé fala sobre a adoção desse modelo e discute suas implicações.

Outros esportes americanos
Nem só de NBA vive os Estados Unidos. Outras ligas também tiveram que repensar seus modelos para o retorno da temporada. César Torres, em seu texto “O esporte profissional norte-americano: entre a pandemia, o negócio e a cultura política”, discorre sobre os modelos adotados pela NBA, MLB, NFL e NHL e os impactos sociais que eles tiveram.

Referência
A situação que estamos vivendo pode parecer inédita, mas guarda semelhanças com outras histórias que o esporte já viveu. David Sheinin e César Torres, no texto “Medo e coragem em tempos de pandemia: lições desportivas de 1987”, relembram uma história que aconteceu há 33 anos e que pode servir de inspiração e referência para o momento que vivemos.

Momento certo?
De volta para o Brasil, com o retorno dos Campeonatos estaduais, alguns times levantaram taças pelo Brasil. Os questionamentos sobre o retorno do esporte ficaram ainda mais fortes. Em seu texto para o blog do LEME, Gustavo Bandeira relatou sua tristeza e revolta, enquanto torcedor, de ver seu time comemorando uma taça em um momento tão inoportuno.

Entrevista
Para opinar sobre esse momento peculiar vivido pelo esporte, em julho, Henrique Biscardi entrevistou o pesquisador Nicolás Cabrera. Na conversa, foram discutidas as ações das torcidas durante a pandemia, e como será o futebol pós-COVID-19 para as torcidas organizadas, tema de pesquisa de Nicolás.

Crítica
Em “Para não dizer que não falei de futebol: menos cem mil torcedores”, Antonio Jorge Soares fez uma dura crítica ao retorno do futebol durante a pandemia. Conjugando esporte e política, Soares destaca a falta de sensibilidade e coerência nas tomadas de decisões.

Responsabilidade
Será que os clubes e atletas são os únicos responsáveis pelo retorno do futebol? Carlus Augustus fez essa reflexão em seu texto para o blog do LEME: “A parte que nos cabe nessa pandemia”. Carlus propõe uma análise sobre os motivos que levaram ao retorno do esporte e a parcela de responsabilidade que cada instituição tem nele.

Leveza
O nosso segundo episódio gravado remotamente (e décimo segundo no geral) foi sobre cinema e esporte. Um respiro diante da realidade tão difícil que vivíamos naquele momento (e ainda hoje). Os convidados foram os professores Victor Andrade de Melo e Ronaldo Helal (também coordenador do LEME). O papo foi leve, descontraído, mas cheio de conteúdo.

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#RetrospectivaLEME: a pandemia de COVID-19 no esporte

O novo coronavírus pegou todo mundo de surpresa. Assim como os demais campos sociais, o esporte também teve que se adaptar a essa nova realidade. A pandemia trouxe reflexões e mudanças para o esporte. Vamos destacar a seguir produções do LEME em que este assunto foi abordado.

O esporte parou
Não é exagero dizer que a paralisação das atividades em todos os países causou fortes abalos no mundo do esporte. No Brasil, uma das primeiras discussões se deu em torno dos chamados “clubes pequenos”. No blog do LEME, Marina Mantuano abordou esse assunto quando o retorno do esporte ainda era apenas uma hipótese.

E a imprensa?
Sem os campeonatos, a imprensa esportiva também sofreu um baque. As grades tiveram que ser alteradas e programas tradicionais foram modificados. Duas produções do LEME abordaram esse assunto: o episódio 16 do Passes & Impasses, que teve a a participação dos jornalistas Sérgio Souto e Guilherme Oliveira; e o texto “O jornalismo esportivo em tempos de coronavírus”, escrito por Leticia Quadros para o blog do LEME.

Estratégias
Para driblar a falta de assunto, as emissoras começaram a reprisar os jogos de antigos campeonatos. Foi uma bela oportunidade para os mais jovens verem partidas e jogadores incríveis e os mais velhos matarem a saudade de grandes times e títulos memoráveis. No blog do LEME, quem falou sobre isso foi o Sérgio Souto, no texto “Os múltiplos sentidos das partidas reprisadas na memória dos torcedores em tempos de quarentena”.

O retorno
Em junho, aqui no Brasil, quando a curva de casos do novo coronavírus estava ascendente em quase todo país, o Campeonato Carioca foi o primeiro a retomar seus jogos. Foi travado, então, um embate entre Flamengo e Vasco, favoráveis ao retorno, e Fluminense e Botafogo, contrários à medida. No final, o Carioca voltou, o Flamengo sagrou-se campeão, e Diego Ramalho fez sua reflexão sobre isso no texto “A tão merecida taça”. Se você ainda não leu, corre lá no blog do LEME.

As transmissões
Quem também deixou suas reflexões no blog do LEME sobre o Campeonato Carioca foi Phelipe Caldas. Ele, entretanto, abordou o tema por um viés diferente. Em “O rádio e o futebol”, Phelipe discorre sobre o som fake de torcida colocado ao fundo nas transmissões, para amenizar o vazio das arquibancadas. Será que isso descaracterizaria o propósito do rádio?

Torcida fake
Um dos primeiros lugares a colocar torcedores de papelão nas arquibancadas foi a Alemanha. Essa e outras tentativas estão muito calcadas na máxima “futebol sem torcida não é futebol”. Mas será que os torcedores de papel ou virtuais realmente fazem diferença? Em “A dramática volta do futebol alemão”, César Torres, no blog do LEME, discorre sobre o gênero dramático incorporado pelo esporte com essas medidas.

Ainda sobre a “razão de ser do futebol”
A impossibilidade de acompanhar seu time das arquibancadas foi um assunto que mobilizou todos aqueles que amam esporte. Sérgio Souto abordou esse assunto no blog. Para ler o que ele escreveu, confira o texto “Silêncio nos estádios e torcida fake”.

Impactos
A paralisação e o posterior retorno do futebol, em meio à tragédia humana que acontecia fora dos muros dos estádios, não ocorreu sem deixar marcas. Por isso, no episódio 17 do Passes & Impasses, convidamos o psicólogo Alberto Filgueiras para falar, justamente, sobre a importância da psicologia e a atuação do psicólogo em um momento tão delicado.

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O ano do basta: a luta antirracista no esporte

Claro que o ano de 2020 será eternamente marcado pela pandemia que trouxe o caos para todo o Planeta Terra. Também lembraremos a crise econômica gerada justamente pela desagradável presença do vírus, com toda a certeza. Por outra perspectiva, recordaremos de algo que nos encheu de orgulho nesses 365 dias de puro sofrimento: a luta antirracista no esporte.

Em 8 de dezembro de 2020, mais uma situação completamente deplorável envolvendo preconceito racial chamou a atenção de todos. Porém, desta vez, o desfecho não foi a passividade, como estamos (infelizmente) acostumados a ver. Na ocasião, jogadores de Istanbul Basaksehir e Paris Saint-Germain abandonaram a partida entre os dois clubes, pela UEFA Champions League. Segundo Pierre Webó, camaronês da comissão técnica do time da Turquia, o quarto árbitro Sebastian Colţescu, nascido na Romênia, pronunciou uma fala racista.

O insulto, em qualquer circunstância, já é lamentável por si só. Vindo de uma autoridade, a situação fica ainda pior. Por isso, a atitude de reação dos atletas de PSG e Istanbul Basaksehir merece ser aplaudida e divulgada. A Liga dos Campeões Europeus é, simplesmente, a maior competição de clubes do mundo e a repercussão foi enorme em todos os continentes. Com a decisão (rebelde, porém sensata), os jogadores mostraram que o preconceito já não é somente repudiável, mas também intolerável.

Fonte: https://oglobo.globo.com/

Neste mesmo ano de “vinte-vinte”, os jogadores da NBA deram exemplo de como as grandes personalidades podem e devem se posicionar diante do racismo e de qualquer outra forma de discriminação. Trazendo para a Fórmula 1, como não citar Lewis Hamilton, heptacampeão mundial? Podemos afirmar que ele é a própria personificação do combate antirracista, não acham? Parece que os jogadores de futebol, esporte mais popular do mundo, também se conscientizaram do papel fundamental que têm para colaborar com a luta antirracista.

Que esse ano de 2020 tenha nos mostrado o lado certo a se estar e a importância de não ficarmos calados diante da injustiça. Não podemos minimizar esse problema que se alastra pela humanidade há milhares de anos e é completamente inaceitável. Já chega de tanta falta de empatia. Ninguém é melhor do que ninguém. Por quanto tempo ainda teremos que dizer o que já é óbvio por natureza? Somos todos seres humanos. Somos todos Homo sapiens. Estamos cansados de tanto ódio! Será que já não passou da hora de experimentarmos viver o amor?

Dizer não ao preconceito: essa é a nossa obrigação.

Fonte: https://movimentorevista.com.br/

Fonte:

Globo Esporte

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Maradona – uma reverência além do Bem e do Mal

Maradona morreu. Tristeza no mundo futebolístico, comoção em diversos locais do planeta, pauta midiática em todos jornais e programas televisivos, o eterno retorno de polêmicas insolúveis e por vezes fatigantes como o gol de mão contra a Inglaterra na Copa do Mundo de 1986, a comparação com Pelé, a questão das drogas, a rivalidade entre brasileiros e argentinos, suas relações pessoais com diversas personalidades etc.

Temas importantes da vida desse grande personagem real que foi o craque argentino, um ídolo que transcende o universo esportivo na Argentina e entre apaixonados por futebol. Entretanto nesse post não pretendo continuar reproduzindo mais do mesmo ou estereótipos como fizeram recentemente diversos jornalistas e até mesmo pesquisadores da área. De uma conversa com um aluno sobre Nietzsche em sala de aula virtual na semana da morte do jogador, veio a ideia de escrever algo distinto sobre esse super-homem real, cheio de virtudes, contradições, vícios e paixões.

Paulo César Caju afirmou em interessante artigo que Maradona não está acima do bem e do mal e que a idolatria, inclusive de brasileiros, seria exagerada. Se colocou na contramão da maior parte das reverências feitas com a coragem que lhe é peculiar. Filosoficamente, não necessariamente pode estar acima, mas pode ter ido além, em outra esfera, assim como, na minha opinião, o próprio Garrincha, que ele, Paulo César, menciona como referência de gênio e ídolo nacional.

Para alguns, ele seria um Deus, como julgam os adeptos da Igreja Maradoniana, para outros um símbolo pueril de resistência progressista anti-mercantilização. Apesar de ter sido amigo de Fidel, ter apoiado no Brasil Lula, na Bolívia Evo Morales, também esteve próximo de Carlos Meném, da máfia italiana e se utilizou muito do marketing mercadológico para vender produtos na Argentina e no mundo todo e para alavancar uma carreira de técnico sem nunca ter sido efetivamente reconhecido pela sua qualidade para essa profissão. Eu tenho na minha coleção a camisa abaixo que foi comprada em um bar de esportes “Locos por Fútbol’ que ficava localizado na frente do cemitério Recoleta em 2000. Vejam que belo símbolo de mercantilização progressista.

Camisa de Maradona / Che – Fútbol Revolución – Acervo pessoal do autor

Para mim, Maradona foi um gênio que, a partir da perspectiva filosófica de Nietzsche, se coloca além do bem e do mal, ou seja, uma fusão de Apolo e Dionísio que teria sido quebrada pelo Sócrates filósofo, um homem que não seguiu nenhuma moral de rebanho na sua vida pessoal e que profissionalmente se destaca pela sua arte ao jogar futebol de forma lúdica, improvisada, técnica, mas também pela sua grande força física.

Passou pelas três metamorfoses de Zaratustra: camelo em 1978 suportando o corte da seleção campeã na Copa realizada no seu país, leão ao lutar bastante durante a Copa da Espanha em um momento de luto do país com a traumática derrota na Guerra das Malvinas e o espírito de uma criança para trazer a esperança de uma vida nova e conquistar a épica Copa do Mundo de 1986.

Após ter passado uma infância difícil e uma careira futebolística brilhante transformou-se em um crítico veemente de alguns valores burgueses e de instituições poderosas como a FIFA, associando sua popular imagem a diferentes líderes políticos, mas continuou a viver intensamente suas paixões, seus vícios, as amizades e o futebol.

Podemos considerá-lo um niilista moderno que inspirou até uma seita de adoradores que ainda não acredita que “Deus está morto”, pois não foram os homens que mataram Maradona. Seria o Anticristo por inspirar uma nova seita marginal mas midiática?

A idolatria por esse verdadeiro homem que rompeu os valores impostos pela sociedade, que não se acomodou com a glória das conquistas, que superou sempre a dicotomia maniqueísta agostiniana do Bem e o Mal, é legítima. A maior parte dos indivíduos permanecem carneiros no rebanho em função de uma submissão irrefletida aos valores dominantes da civilização moderna. Maradona não foi carneiro, também não foi Deus, nem diabo, vilão e nem mesmo herói, por mais que venham citar a trajetória de Joseph Campbell em trabalhos acadêmicos sobre ele.

Diego foi um ser humano que viveu intensamente seus sonhos e pesadelos, autêntico e apaixonante não só pela sua habilidade em campo ou pelo número de gols e scouts modernos, mas pela representação simbólica de seus atos fora de campo. Seus gols e declarações eram como aforismas de Nietzsche – “Ouse conquistar a si mesmo” talvez tenha sido sua maior derrota em função das drogas, mas sua vida foi repleta de vitórias brilhantes.

Para muitos, ele não é um exemplo de moralidade, seria um viciado, ex-presidiário, que ao longo da sua vida teve diversos comportamentos anômicos; para outros, ele é um deus, gênio, até um símbolo de resistência revolucionária. Maradona não pode ser visto apenas por um lado da moeda da existência , ele não está acima de tudo, mas está além do bem e do mal como jogador e ser humano.

Não descanse em paz. Parta para algum lugar com serenidade, mas também com a mesma intensidade que viveste.

– Deus está morto. Viva perigosamente! Qual o melhor remédio? Vitória! (Friedrich Nietzsche)

Como a morte de Maradona está repercutindo nas redes sociais | Exame
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Relembrando a primeira Copa do Brasil

Ricardo Teixeira e as Federações Estaduais

Depois do polêmico Campeonato Brasileiro de 1987, consolidou-se a ideia de que a primeira divisão do futebol nacional deveria ter apenas 20 participantes (ou pouco mais do que isso). A CBF e os grandes clubes concordavam também que era preciso adotar o sistema de ascenso e descenso entre divisões. Assim surgiu o que hoje é a Série A. A própria CBF chegou a promover, um tanto constrangida, algumas viradas de mesa depois, mas aquela ideia básica permaneceu inabalável e acabou se impondo definitivamente após o ano 2000.

Para a maioria das Federações filiadas à CBF, a situação se mostrou dramática. Os seus campeonatos estaduais perderam o maior atrativo: não classificavam mais os campeões (e os vice-campeões, em alguns casos) para a grande disputa nacional. Qual seria a importância desses campeonatos, então? Apenas a tradição? Muitos temiam que aquelas antigas competições caíssem em decadência rápida e fulminante.

Os clubes menores também se viram em situação crítica. Quase todos entenderam que passariam vários anos tentando subir para a primeira divisão. Seriam anos de desprestígio, de jogos sem importância, de arquibancadas vazias, poucas rendas e apequenamento ainda maior. A falência talvez fosse inevitável em muitos casos.

Tudo isso foi resolvido (amenizado, pelo menos) com a criação da Copa do Brasil. Ricardo Teixeira assumiu a presidência da CBF em de 16 janeiro de 1989. No dia seguinte, as Federações estaduais apresentaram a proposta da nova competição, que seria disputada por 22 campeões estaduais e 10 vice-campeões. Proposta aceita rapidamente: o novo torneio foi anunciado oficialmente sete dias depois. Naquele mesmo ano, foi realizada a primeira Copa do Brasil. Todos sabiam, obviamente, que Ricardo Teixeira era muito grato às Federações estaduais pelo apoio que recebeu durante o processo eleitoral (um processo concluído com a sua vitória por aclamação).

O que mais impressionou foi a decisão de garantir ao campeão da Copa do Brasil a indicação para a disputa da Taça Libertadores da América. Na época, o Brasil só indicava dois clubes para aquela competição (o campeão e o vice-campeão do Campeonato Brasileiro). Era uma mudança radical: antes condenados a lutar arduamente pelo difícil acesso à primeira divisão nacional, agora os clubes pequenos e médios tinham diante de si um atalho para a principal competição da América do Sul.

19 de julho: o início

Apenas cinco Estados não tinham representantes na primeira Copa do Brasil. Os cinco ainda não haviam profissionalizado o seu futebol e eram da região Norte: Acre, Amapá, Rondônia, Roraima e Tocantins. Os outros 22 Estados inscreveram os seus campeões. Os 10 Estados que tiveram maior renda nos campeonatos estaduais de 1988 puderam inscrever também os seus vice-campeões.

As disputas eram eliminatórias. Havia confrontos diretos de duas partidas entre dois clubes. Assim eram eliminados na primeira fase 16 clubes, depois oito, quatro, dois e, por fim, havia a decisão. Foi adotado como critério de desempate nessas disputas eliminatórias o gol qualificado (gol no campo do adversário), que não era desconhecido do futebol brasileiro, pois já havia sido utilizado na Taça Libertadores da América.

A primeira rodada da fase inicial foi marcada para o dia 19 de julho. Todos os clubes participantes jogaram naquela data. Dezesseis partidas espalhadas pelo território nacional.

Houve surpresas. Em Manaus, o Rio Negro empatou com o Vasco da Gama por 1 a 1. O Internacional, jogando em Porto Alegre, empatou com o CSA em zero a zero. O Cruzeiro empatou com o Botafogo da Paraíba jogando em Belo Horizonte (zero a zero). O Corinthians, campeão paulista de 1988, foi a São Luís do Maranhão e perdeu para o Sampaio Corrêa, campeão maranhense, por 3 a 2. Mas todos esses grandes clubes conseguiram se classificar para a fase seguinte.

Classificação sofrida foi a do Cruzeiro, que empatou duas vezes com os botafoguenses paraibanos, mas passou à fase seguinte por ter marcado um gol em João Pessoa, isto é, classificou-se pelo critério do gol qualificado. O Corinthians se classificou pelo mesmo critério: após perder por 3 a 2 na capital do Maranhão, venceu em São Paulo por 1 a 0.

O surpreendente Goiás

Um time que surpreendeu foi o Goiás. Após superar, na primeira fase, o Ferroviário (do Ceará) com duas vitórias, o clube goianiense enfrentou dois gigantes do futebol nacional: o Internacional e o Atlético Mineiro

Contra os gaúchos, o Goiás empatou a primeira partida em 0 a 0 na cidade de Porto Alegre. Depois, venceu de modo arrasador. O placar final da segunda partida, no Estádio Serra Dourada, foi uma goleada de 4 a 0 com gols de Josué, Uidemar, Túlio e Péricles. Túlio, aliás, seria o jogador com mais gols marcados no Campeonato Brasileiro daquele ano de 1989, disputado de setembro a dezembro.

Na terceira fase, contra o Atlético Mineiro, o Goiás jogou a primeira partida em Goiânia e, mais uma vez, venceu com vantagem folgada: 3 a 0. O Atlético venceu a segunda partida, mas apenas por 2 a 0. Assim, o Goiás chegou à semifinal da competição cercado de respeito e como favorito para chegar à final. Mais ainda: a campanha do Goiás ajudou a derrubar a previsão de vitórias fáceis dos grandes clubes do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Logo ficou claro que, durante a Copa do Brasil, alguns clubes médios e pequenos se esforçariam ao máximo para surpreender. E alguns realmente surpreenderam. 

Sport x Guarani: coincidência

Um dos duelos da segunda fase foi entre Sport Recife e Guarani. Era a mesma partida que, para a CBF, havia sido a decisão oficial do Campeonato Brasileiro de 1987 (e que até hoje ainda é motivo de discussão). E o interessante é que os resultados foram exatamente os mesmos da decisão de dois anos antes. Em Campinas, houve empate em 1 a 1. Três dias depois, em Recife, o Sport venceu por 1 a 0.

A imprensa não comentou a coincidência. A crise em torno do Campeonato Brasileiro de 1987 repercutiu muito no ano de 1988, mas em 1989 o assunto esfriou. O Flamengo protestou por não ter podido participar da Taça Libertadores da América de 1988, mas contentou-se com o apoio da Rede Globo, que o tratava como o legítimo campeão brasileiro repetidas vezes. O Sport Recife, por sua vez, não discutia mais o assunto porque estava satisfeito: havia participado da Libertadores e era reconhecido oficialmente pela CBF como o campeão de 1987. Para a CBF, o imbroglio desmoralizava a sua imagem e era melhor evitar a polêmica. E como todos haviam se desinteressado de discutir o tema, a imprensa também se desinteressou.

Talvez uma disputa entre Flamengo e Sport Recife (que poderia acontecer na final da competição) pudesse recrudescer os ânimos e reavivar a polêmica naquele ano de 1989.

Flamengo x Corinthians: um jogo emocionante

Um dos jogos mais emocionantes daquela primeira Copa do Brasil (talvez o mais emocionante) foi a segunda partida entre Corinthians e Flamengo na terceira fase da competição.

Na primeira partida, realizada no Estádio do Maracanã, o Flamengo foi muito superior e venceu por 2 a 0 (gols de Zico e Nando). Uma semana depois, os dois times se enfrentaram no Estádio do Pacaembu.

O Corinthians marcou o primeiro gol, mas ainda no primeiro tempo o Flamengo empatou, com um gol de Zico. Os corinthianos, então, precisavam chegar ao placar de 4 a 1 para se classificarem. E chegaram. Foram três gols no segundo tempo: um de Giba, outro de Eduardo e o último de Neto, aos 39 minutos. A torcida foi ao delírio e a classificação já era dada como certa. Mas eis que o flamenguista Júnior, três minutos após o gol de Neto, recebe passe perfeito na grande área do time adversário e marca mais um gol. A torcida corinthiana, emudecida, viu os jogadores do Flamengo comemorarem eufóricos o gol salvador. Com o resultado final de 4 a 2, o Flamengo passou à semifinal.

Quem criticava a Copa do Brasil dizia que aquele seria um torneio de importância menor no futebol brasileiro. Uma competição cheia de times com nível técnico inferior e fadada a fracassar e a desaparecer em poucos anos. Não percebiam que as disputas eliminatórias em dois jogos (o sistema que é chamado de mata-mata) muitas vezes se convertiam em disputas com enorme carga de emoção, atraindo o interesse da torcida, da imprensa e dos patrocinadores. Aquele jogo entre Flamengo e Corinthians já mostrava que esse poderia ser o maior mérito da competição.

Júnior comemora o gol da classificação do Flamengo contra o Corinthians nas quartas-de-final (fonte: copadobrasil1989.blogspot.com)

Goleadas do Grêmio

O Grêmio se destacou por castigar três dos seus adversários com goleadas. Na primeira fase, os gremistas derrotaram o Ibiraçu, campeão do Espírito Santo, duas vezes: 1 a 0 na primeira partida (realizada na cidade de Cariacica) e 6 a 0 na segunda partida (em seu próprio Estádio, o famoso Olímpico). Na segunda fase, o clube gaúcho foi a Cuiabá e aplicou outra goleada: 5 a 0 no Mixto, o campeão mato-grossense. A segunda partida nem aconteceu. A diretoria do Mixto alegou que estava com dificuldade para se deslocar, por transporte aéreo, até a cidade de Porto Alegre. A CBF declarou o Grêmio vencedor por WO.

Na terceira fase, não houve goleada. Mas o Grêmio passou com certa facilidade pelo Bahia, que havia se sagrado campeão brasileiro seis meses antes. Os gremistas venceram em Salvador por 2 a 0 e em Porto Alegre por 1 a 0. Assim, o clube gaúcho chegou à semifinal com 15 gols marcados e nenhum sofrido (seis vitórias, incluindo o WO, e nenhum empate ou derrota).  

Foi na semifinal que o Grêmio impôs a goleada mais impressionante. A primeira partida contra o Flamengo, no Estádio do Maracanã, começou com o clube carioca fazendo 2 a 0, mas terminou empatada em 2 a 2. Jogo disputado. A expectativa era a de que seria assim também no Rio Grande do Sul. Mas aconteceu o que ninguém esperava: vitória gremista por 6 a 1. “Grêmio massacra Fla”, informou a Folha de São Paulo. “Flamengo sai humilhado do Olímpico”, noticiou o Jornal dos Sports.

Com sete vitórias em oito jogos, nenhuma derrota e uma goleada sobre um dos maiores clubes do país, o Grêmio chegou à decisão na condição de favorito, obviamente.

Na outra semifinal, Sport e Goiás se equilibraram: 2 a 1 para os goianos em Goiânia e 1 a 0 para os pernambucanos em Recife. O clube recifense se classificou pelo critério do gol qualificado. A decisão não realizada de 1987 (Sport X Flamengo) quase aconteceu em 1989, o que certamente provocaria novos debates sobre a grande crise de dois anos antes. Os gremistas, porém, não deixaram. Estavam interessados em escrever outra história naquela Copa do Brasil.

Assis, do Grêmio, vibra após marcar o primeiro gol da final contra o Sport
(fonte: pelotadetrapoblog.wordpress.com/)

A final

Apesar do favoritismo gremista, o Sport não podia ser menosprezado. Estava há quase um ano sem sofrer derrota em seu estádio. O Grêmio, por outro lado, tinha melhor retrospecto (em nove partidas contra o adversário recifense, havia vencido cinco e empatado quatro). E estava muito claro o que aconteceria naquela primeira partida da decisão: o Sport partiria ao ataque em busca de uma vitória para poder jogar em condições vantajosas sete dias depois, no Estádio Olímpico.

Foi exatamente assim. Principalmente no segundo tempo. O Grêmio, porém, soube se defender como queria o seu técnico, Cláudio Duarte. O resultado final foi zero a zero

No dia 2 de setembro de 1989, Grêmio e Sport Recife entraram em campo, no Estádio Olímpico, para decidir a primeira Copa do Brasil. O público era de 62.807 torcedores. Um número muito animador. Havia, de fato, um assunto futebolístico mais importante naquele fim de semana. Era o jogo entre Brasil e Chile, no dia seguinte, pelas eliminatórias para a Copa do Mundo de 1990 (caso fosse derrotado, a seleção brasileira estaria fora da Copa pela primeira vez na história). Mas era inegável a importância daquela final, que definiria o primeiro clube brasileiro classificado para a Taça Libertadores da América do ano seguinte. A Rede Globo transmitiu o jogo para todo o país.

Quando o primeiro tempo terminou, o placar era 1 a 1 e favorecia o Sport, que seria o campeão (pelo critério do gol qualificado), caso o resultado final fosse aquele. Por isso, o gol de Cuca, aos 7 minutos do segundo tempo, entrou para a história do Grêmio. Foi o gol da vitória, relembrada e comemorada pelos gremistas até hoje. O Grêmio participaria da Taça Libertadores da América pela quarta vez em sua história no ano de 1990. Em Recife, os jornalistas esportivos criticavam o ataque do Sport por não conseguir sufocar a defesa do Grêmio, mas ressaltavam que o clube pernambucano havia sido um finalista valente, não uma presa fácil.

A Copa e as críticas

Zico, o ídolo flamenguista, fez duras críticas à Copa do Brasil naquele ano de 1989. O presidente do Flamengo, Gilberto Cardoso, também criticou. O jogador disse que a competição era deficitária e que havia sido criada para “pagar” o que Ricardo Teixeira devia às Federações estaduais.

Zico chegou a dizer que o Vasco da Gama havia forçado a sua desclassificação diante do Vitória (vice-campeão baiano) para poder disputar um outro torneio, o Ramón de Carranza (Espanha), que era mais rentável. Mas negou ter chamado a Copa do Brasil de torneio “caça-níqueis”. Declaração muito grave: afirmar que um clube havia forçado a própria desclassificação, ou seja, se deixado vencer. Ricardo Teixeira reagiu dizendo que as acusações eram injustas, que os países da Europa realizavam copas semelhantes e que a competição havia sido criada com o intuito único de promover a integração futebolística das cinco regiões do país (poucos acreditaram nessa última afirmação). Em razão de suas declarações, Zico foi julgado pelo Tribunal de Justiça Desportiva do Rio de Janeiro, que o absolveu por nove votos a um.

As críticas à Copa do Brasil continuaram e a situação piorava quando a CBF tomava decisões desastradas, como a de marcar para junho o início da competição em 1990, ou seja, iniciá-la com a Copa do Mundo sendo disputada na Itália. Mas a competição já havia demonstrado seus méritos em 1989 e oferecia um prêmio que não podia ser menosprezado: a classificação para a Taça Libertadores da América. A revista Placar, em junho de 1990, foi certeira: “Apesar das reclamações, os clubes sabem que a Copa do Brasil vale muito”.

Ao longo da década de 1990, a Copa do Brasil se remodelou. O número de clubes inscritos começou a crescer em 1995 (a pressão para aumentar o número de participantes revelava um interesse cada vez maior na competição). Dez anos depois da primeira Copa do Brasil, não havia mais dúvidas: a competição havia ganhado prestígio e se consolidado. “Pode não ser a competição com o melhor nível técnico do país, mas ao se deparar com a campanha dos quatro semifinalistas de 1999, uma coisa é certa: nada supera a Copa do Brasil em emoção” (Placar, jun.1999). Emoção conhecida desde 1989 e que continuava a atrair os torcedores e a imprensa.

Havia tanto interesse em participar da Copa do Brasil que no ano 2000 surgiu a proposta de transformá-la em um grande torneio com 200 inscritos (um modelo inspirado na Copa da Inglaterra, que tem mais de 500 clubes inscritos). A ideia sofreu um bombardeio de críticas e foi abandonada. Mas o número de participantes, alguns anos depois, foi aumentado e chegou a 91 (esse é o número atual de clubes inscritos).

Em 2019, uma pesquisa da Sport Track mostrou que, entre os brasileiros, o apreço pela Copa do Brasil só perde para o Campeonato Brasileiro e para a Taça Libertadores da América. Está à frente de competições importantes, como a Champions League (UEFA) e o Mundial de Clubes da FIFA.

E tudo começou naquela criticada Copa do Brasil de 1989.

Quais campeonatos de futebol você prefere? (fonte: Pesquisa – Sport Track, 2019)
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LEME e Ludopédio organizam mesa no Cinefoot

Na noite do dia 23 de novembro, o Laboratório de Estudos em Mídia e esporte e o portal Ludopédio estarão presentes na organização da mesa “Maracanã 70 anos de histórias”, promovida pelo festival Cinefoot. A décima primeira edição da mostra teve início no dia no dia 20 de novembro e termina no dia 27 do mesmo mês.

A proposta da mesa na qual o LEME fará parte é resgatar momentos pouco conhecidos e memórias não contadas do “Maior do Mundo” e da TV no Brasil. Assim, a mesa tem mais do que o compromisso de apenas relembrar as famosas histórias e grandes craques que pisaram no gramado do Maracanã que todos já conhecem.

Para encarar essa missão, estarão presentes Leda Maria, ex-jogadora da seleção brasileira; Julio Cesar “Uri Geller”, ex-jogador do Flamengo; Marcelo Carvalho, do Observatório da discriminação racial no futebol e Bruno Balacó, pesquisador da Rede Nordestina de Estudos em Mídia e Esporte (ReNEme). A mediação ficará por conta de Marco Lourenço, do Ludopédio.

A mesa terá início às 19h e a transmissão será online e poderá ser acessada através do Facebook do Ludopédio ou no canal do Youtube do mesmo portal. Com a promessa de levar histórias inéditas ao público, o encontro com esses craques está imperdível! Além da mesa de hoje, ao longo do evento serão apresentadas sete mesas redondas e a programação completa pode ser conferida no site do Cinefoot.

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O Futebol e “O Psicológico”

Por Laura Quadros e Leticia Quadros

Que atire a primeira pedra quem, no meio do esporte, nunca falou do “Psicológico” de algum atleta ou de algum time: “A equipe tem de controlar seu Psicológico”; “Fulano tem o Psicológico forte”… São apenas dois exemplos, de vários, que trazem essa referência em forma de entidade, como se fosse um ser independente, e que às vezes parece ter vontade própria. Mas afinal, quem é o tal “O Psicológico”?

De uma maneira bem simples, talvez a primeira coisa que venha à cabeça é que o Psicológico é o que atua na nossa mente, nosso poder de concentração, foco, pensamentos e até sensações. Há também a ideia dele ser uma expressão emocional, muitas vezes algo à parte, independente do jogador e seu universo mais imediato. Se nos voltarmos para a visão mais clássica, o predomínio da dicotomia razão-emoção, indivíduo-sociedade, natureza-cultura traz alguns equívocos na compreensão dessa misteriosa atuação do tal psicológico em nossas vidas.

Recentemente, o atacante do Fluminense Caio Paulista deu uma entrevista depois do jogo contra o Atlético Mineiro, no qual marcou seu primeiro gol como profissional, mencionando o trabalho da psicóloga do clube, Emily Gonçalves. Seguem as palavras de Caio:

“Foi a psicóloga do clube que conversou bastante comigo. Falou para mim durante a noite pensar no gol, pensar na jogada, respirar a cada movimento no jogo. Hoje acho que foi muito disso”.

Nessa fala espontânea e entusiasmada, percebemos que, provavelmente, há uma relação de confiança entre o jogador e a profissional que o acompanha no clube. Talvez, mais do que a ideia de pensar no gol, esteja ali envolvida uma gama de bons afetos que produzem um vínculo acolhedor entre esse atleta e a psicóloga do Fluminense, que procura acionar as potências nessa difícil tarefa que é a busca pela vitória.

Então, a questão que levantamos é: existe esse psicológico fora de uma relação? Se o atacante do Fluminense não acreditasse no processo com a psicóloga do clube, se ele não confiasse no trabalho que se dá no campo (e aqui não nos referimos ao campo de jogo, mas ao campo relacional), será que bastaria ele imaginar, que o gol iria sair? Não estamos aqui descartando, é claro, o trabalho feito nos treinos físicos e táticos, mas, se apenas pensar no gol fosse suficiente, qualquer um poderia fazê-lo, não é? Estamos, menos ainda, desqualificando qualquer recurso técnico utilizado pela psicóloga de acordo com as abordagens oriundas de estudos e pesquisas nessa área. O que estamos querendo colocar é que, para além do próprio esforço do atleta, a confiança na relação profissional, a aposta no trabalho com a psicóloga foram pontos chave para que ele ganhasse confiança. Seria ilusório dizer que o gol saiu exclusivamente pela técnica de mentalização aplicada, assim como seria leviano descartá-la totalmente do mérito no gol.

Sabemos que poucos times da séria A do Brasileirão contam com uma/um profissional de psicologia em seu plantel. Em 2019, apenas 8 clubes, entre os 20, dispunham desse trabalho. Sabemos também a enorme pressão que um atleta sofre dentro e fora de campo. Nesse sentido, a ideia de uma mente “forte” ou “fraca” constitui-se em um reducionismo, visto que são múltiplos os fatores que atravessam esse campo (sem trocadilhos) e afetam o rendimento dos atletas. Aliado a isso, mesmo em pleno século XXI, ainda há um preconceito muito grande, e não apenas no esporte, com a atuação da psicologia. Não é raro que ela seja considerada somente em situações extremas ou de adoecimento instalado.

A importância do reconhecimento da psicologia pelos clubes de futebol pode legitimar a noção de que o trabalho não deve se dar só em partes, mas sim privilegiar um todo. Isso inclui treinamentos táticos, físicos, nutrição, fisiologia, interação social, família, torcida, remuneração, bom ambiente de trabalho, enfim, toda vivência que afeta a vida do atleta e que acontece de forma integrada e não dicotomizada. Portanto, mais que um simples elogio, a declaração de Caio traz a público a força de um trabalho diário de afirmação de potências, de acolhimento aos temores, de desenvolvimento de recursos e, sobretudo, de reconhecimento de si mesmo em relação ao mundo.

Assim, o tal psicológico acontece num campo de forças coletivas e não sozinho como, às vezes, parece ser. Vimos, por exemplo, excelentes atletas perderem um pênalti, bem como jovens estreantes acertarem de primeira. Podemos atribuir apenas ao psicológico? Podemos excluir fatores como condicionamento físico, treinamento, vontade de bater, salários em dia, questões familiares, questões políticas, dentre outros?

Fonte: Wikipedia

Acreditamos que, nesse contexto, colocar na conta do psicológico o que não conseguimos discutir de forma ampla pode ser tanto uma injustiça, quanto uma estratégia de invisibilizar outros problemas mais indigestos.  Antes de culpar “o psicológico”, que tal dar uma olhadinha no que está em volta? Antes de criticar o psicológico do seu time, que tal procurar saber se, de fato, há um profissional da psicologia atuando no seu clube?

Se o psicológico fosse uma entidade autônoma, coitado dele! Viver sendo cobrado, enquanto a verdadeira cobrança por um trabalho sério da psicologia é sempre jogada para escanteio e esquecida pela imprensa, comissão técnica, torcida, atletas… A questão do futebol e o psicológico não é um embate entre duas entidades, mas sim uma aproximação de áreas que devem dialogar como um todo. Afinal, retomando nossa indagação inicial, o psicológico se constitui numa rede de relações que inclui pessoas, objetos, procedimentos, enfim, processos de vida que acontecem num movimento incessante. Destacar uma parte e tomá-la como todo empobrece a questão.  Afinal, como no futebol, um jogador, isoladamente, não ganha um jogo. É preciso trocar passes e manter a bola rolando para o melhor resultado. Parafraseando o poeta João Cabral de Melo Neto, “Um galo sozinho não tece uma manhã”. Então, vamos deixar o tal psicológico vestir a camisa do time e integrar a equipe. Quem sabe assim o jogo não fica mais interessante?

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“Aqui nasceu o Vasco!” Centro Cultural Cândido José de Araújo

Por GT de Pesquisa Histórica do Centro Cultural Cândido José de Araújo

Em meio a pandemia que afeta a todo o Planeta, afastando torcedores das arquibancadas, o vascaíno encontrou uma forma de atuar diretamente em prol de seu clube mesmo sem comparecer aos jogos. Em mais uma ação que ultrapassa a esfera esportiva, a torcida vascaína volta a escrever a história com suas próprias mãos e ainda presenteia a nossa cidade maravilhosa com mais um importante espaço de cultura.

Trata-se da revitalização do espaço da fundação do Club de Regatas Vasco da Gama, ocorrida no dia 21 de agosto de 1898, no imóvel localizado à época na Rua da Saúde nº 293 (atualmente Rua Sacadura Cabral nº 345). Por muito anos acreditou-se que a fundação teria ocorrido em outro local, mais exatamente na sede da Sociedade Dramática Particular Filhos de Talma, situada na Rua do Propósito, nº 12 (atual nº 20) onde, por duas vezes, o aniversário do clube foi lá celebrado, em que pese o equívoco histórico.

O primeiro passo para desfazer esse erro foi dado pelo pesquisador Henrique Hübner.  Ainda em 2013, ele pesquisou e revelou o verdadeiro local da fundação do clube através de uma série de consultas aos jornais, livros e plantas da época disponibilizados pela Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional; registros do 1.º Registro de Imóveis;  croquis e plantas da Superintendência Municipal de Urbanismo; bem como o acervo fotográfico do Arquivo Público da Cidade do Rio de Janeiro.

Em 2015, o Vasco publica a sua Ata de Fundação com o verdadeiro endereço. Unindo-se perfeitamente a ata de fundação às pesquisas realizadas, foi colocado o ponto final ao mistério da fundação do Clube. A divulgação da pesquisa no site Memória Vascaína do citado pesquisador, foram de fundamental importância para que a informação passasse a circular entre os vascaínos.

Mas foi somente no ano de 2020 que um passo decisivo foi dado para a retomada desse espaço pela tradição vascaína. Ao verificar que o imóvel da Rua Sacadura Cabral número 345 estava disponível para locação, o grupo “Guardiões da Colina” entrou em ação para promover a recuperação do local, alugando o imóvel por 5 meses com opção de compra ao final de contrato. O início do trabalho de revitalização contou com a fundamental ajuda de outros torcedores, entre eles os membros do grupo “Raízes Vascaínas” e diversos empresários e lojistas do ramo da construção, que passaram a doar materiais e serviços diversos. Arquitetos e designers se prontificaram a desenvolver projetos para a “nova” sede que ali surgia. Somaram-se ao projeto historiadores, geógrafos, pesquisadores e estudiosos no geral para contribuírem com suas pesquisas e produzirem conteúdo sobre o local e seu entorno.

O Centro Cultural Cândido José de Araújo nascia assim, batizado através de votação popular realizada pelo twitter. Candinho, como era conhecido por sócios e adeptos do clube, foi eleito no ano de 1904 e reeleito em 1905, após ser recordista em indicações para novos sócios do clube em 1903. Além disso, foi o primeiro presidente negro de um clube do Rio de Janeiro e até onde se tem conhecimento, de qualquer instituição esportiva do país.

O simbolismo em ter o nome associado a um homem negro no local é imenso, uma vez que o imóvel está situado no local conhecido como a “Pequena África do Rio de Janeiro”, localidade onde centenas de milhares de escravizados trazidos do continente africano desembarcaram e se fixaram. Mesmo após a abolição da escravatura em 1888, a “Pequena África” seguiu como moradia de milhares de afro-brasileiros que, junto a imigrantes Portugueses pobres que também habitavam a região, encontravam o sustento através do trabalho em feiras livres ou como empregados do comércio voltado para o Porto do Rio.

Toda essa história aumenta a responsabilidade daqueles que pretendem construir o Centro Cultural. É importante dizer que, mesmo sendo uma casa vascaína com conteúdo focado num Vasco nascido do congraçamento entre brasileiros e portugueses, foi criado um espaço aberto para todos aqueles que se interessem pela história da cidade e do esporte carioca. E é isso que o Centro Cultural Cândido José de Araújo busca: Construir um espaço de visitação com exposições fixas e temporárias que vão recontar a gênese do clube, desde os fatos mais marcantes da vida vascaína, tais como a participação de seus grandes ídolos, ou relembrando as camisas históricas e símbolos que tanto apaixonam o torcedor, até diálogos do clube com a cidade e com trabalhos acadêmicos. Um espaço para todos que desejam aprender a mais nobre história de um clube voltado inicialmente para o remo, o futebol, o esporte, a cidade e sua memória social. Um espaço de vascaínos, para os vascaínos e para a cidade.

Sendo assim, convidamos os vascaínos e todos os amantes do futebol a conhecer o espaço a partir do dia 31 de Outubro, com limite de capacidade devido às medidas de combate ao COVID-19. Para aqueles que não podem ir até o local, faremos um tour virtual, com previsão de lançamento na semana seguinte a inauguração do Centro Cultural. Para mais informações, nos sigam no twitter e instagram @aquinasceuvasco!

Fonte: Acervo dos autores
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Zagallo, o coadjuvante revolucionário

As efemérides deram o tom das últimas semanas no mundo do futebol. Inúmeras foram as homenagens prestadas àqueles que, para além das discussões estritamente técnicas que ganharam força desde a consolidação de Lionel Messi, seguem indubitavelmente como as duas maiores forças simbólicas a terem adentrado o campo de jogo: Pelé, que em 23 de outubro chegou aos oitenta anos, e Diego Armando Maradona, com seus seis decênios completados uma semana depois. Eternizadas numa época em que o esporte ainda era mais propício ao âmbito polissêmico da crônica literária do que à estatística pormenorizada em tempo real, suas trajetórias – e os modos de perpetuação que a comunicação de então permitia – parecem impossíveis de serem superadas. Ora, o brasileiro tinha o mundo aos seus pés já aos dezessete anos, quando, após uma final de Copa do Mundo em que marcou dois gols antológicos (o primeiro, com o famoso chapéu sobre o marcador, é decerto mais lembrado, mas a jogada do último tento da partida, conjugando uma soberana matada de bola no peito, um passe de calcanhar, a inteligente movimentação e a cabeçada fatal, é digna de nota), fez descer da tribuna do Estádio Råsunda o rei Gustavo Adolfo VI, da derrotada anfitriã Suécia, em busca de cumprimentos. Setenta anos após a abolição oficial da escravatura no Brasil, mal que perdurou formalmente por mais de três séculos pelas bandas de cá, a face que nosso país projetava para o planeta era enfim a de um jovem negro convertido em majestade. Quanto ao hermano, responsável maior pelo segundo título mundial argentino, as cenas do confronto contra a Inglaterra pelas quartas-de-final de 1986, quatro anos após o revés infligido pelos britânicos na Guerra das Malvinas, tornaram-se mesmo emblema político: em menos de cinco minutos, o visceral Pibe nos legava não apenas La Mano de Dios ­– o mais polêmico dos lances –, mas também El Gol del Siglo – a mais celebrada dentre todas as jogadas individuais. Por uma espécie de capricho, quis o destino que aquele Argentina x Inglaterra tivesse lugar no mesmíssimo Estádio Azteca que, em 1970, converteu-se no cenário para a coroação definitiva de Pelé após a conquista do tricampeonato.         

De Pelé e Maradona, é difícil imaginar algum feito que ainda não tenha sido registrado e minuciosamente analisado. Não por acaso, é a tensão entre os dois que, ao menos desde os anos 80, estrutura o universo futebolístico como uma espécie de mito cosmogônico, a fornecer ao todo sua própria sustentação e sentido. No entanto, gravitam ao redor destas figuras centrais alguns coadjuvantes de luxo que, embora não lhes possam fazer frente em termos de fundamentos (ao fim e ao cabo, quantos poderiam?), compõem o rol de desbravadores que revolucionaram o esporte em sua dimensão tática. Suas conquistas, porquanto mais discretas e sutis, nem sempre são festejadas com o entusiasmo que merecem – ou o são tão somente após sua morte. Nas próximas linhas, tentaremos lançar luz sobre um nome que atuou como fio condutor de alterações fundamentais para que o futebol viesse a se configurar como o entendemos hoje: Mário Jorge Lobo Zagallo.   

Fonte: pinterest.com

Comecemos por uma verdade paradigmática: em 1958 e 1962, Zagallo foi simplesmente o responsável pelo surgimento do 4-3-3 ao longo da campanha do bicampeonato mundial brasileiro. Mas, afinal, que elementos permitem que tal afirmação possa ser feita com tamanha segurança? Ocorre que, apesar de atuar como ponta-esquerda, função hoje extinta, ele também ajudava a compor o meio de campo, auxiliando o lendário botafoguense Nilton Santos na marcação quando necessário. Zagallo revezava, pois, entre duas funções – com e sem a bola –, e este trabalho incansável, prestimoso e em seu tempo inédito lhe rendeu o apelido de Formiguinha. Exemplo radical: na estreia contra a Áustria, com vitória do escrete por 3 x 0, o segundo gol, anotado pela Enciclopédia Nilton Santos, ganhou notoriedade pelo fato de um lateral, como ele o era, ter avançado contra a retaguarda adversária numa época em que a posição era estritamente defensiva. Tal postura parecia levar a termo flagrantemente uma tática kamikaze, já que a consequência de uma possível perda da posse de bola seria a exposição de todo um flanco do campo para o contra-ataque rival. No entanto, Nilton Santos não subiu à toa: Zagallo o cobria. Ali, ampliavam-se horizontes e possibilidades do jogo: o ponta ficava, o lateral avançava – em outras palavras, o responsável tradicional pela ofensiva defendia para que o até então defensor agredisse, surpreendendo a todos. “Enquanto o Vicente Feola [técnico brasileiro] gritava ‘Volta, volta!’ [para o Nilton], eu falava ‘Vai! Pode ir que eu tô cobrindo!’”. Alternando entre ponta e meia, Zagallo transitava pelo dobro da distância habitual de seus concorrentes. Sendo assim, ao retornar para a metade da cancha, seu movimento liberava o dito apoio de Nilton Santos – além do nada modesto trio Garrincha, Didi e Pelé. Ah, e é claro: de quebra, ele marcou um dos gols da final contra a Suécia – o quarto dos 5 x 2 que nos conduziu ao apogeu pela primeira vez.

Ademais, na campanha do tri, a quintessência do futebol desfilou no México sob seu comando. Em 1970, Zagallo entrou para a história como o técnico da seleção mais refinada e equilibrada já formada. Foi ele o mentor de um time que tinha simultaneamente Gérson, Jairzinho, Rivellino, Tostão e Pelé no gramado enquanto titulares. Na decisão contra a Itália, seu trabalho foi arrematado com o tento coletivo mais bonito de todas as Copas. E como aquele lance de cinema explica mais um brilhantismo tático? Antes de Zagallo, a Seleção fora treinada por João Saldanha, que adotava o 4-2-4 como sistema de jogo. Com o novo técnico, o Brasil passou a defender no 4-5-1. Este 1 era Tostão, que, apesar de jogar mais avançado no novo esquema, recuava se preciso fosse – compromisso para que a escalação de tantos gênios no meio funcionasse. Assim fez o atacante aos 41min do segundo tempo daquela final, quando pressionou o adversário e recuperou a posse de bola em nosso campo de defesa. De Tostão para Piazza, de Piazza para Clodoaldo, rápida triangulação com Pelé e Gérson, até que a pelota retorna a Clodoaldo. Tem início a mágica – quatro dribles desmoralizantes trazem o Azteca abaixo. Passe para Rivellino. Lembremos: Clodoaldo e Riva eram o mais das vezes reservas de Marco Antonio e Paulo Cézar Caju com Saldanha. Zagallo fez com que Rivellino compusesse o setor esquerdo sem a bola, de modo que Everaldo, o lateral do mesmo lado, não subisse. As investidas ofensivas ficavam a cargo de Carlos Alberto pela direita – o autor do gol –, aproveitando as infiltrações diagonais do ponta à sua frente, Jairzinho, o Furacão da Copa. Contudo, reparem em qualquer replay deste gol: é justamente Jairzinho quem recebe a pelota de Rivellino, mas desta vez pela canhota. O que o ponta-direita lá fazia? O treinamento de Zagallo explica: Jair era marcado individualmente naquela tarde por Giacinto Facchetti, icônico capitão da Azzurri; ao surgir do outro lado do relvado, o brasileiro puxou a marcação do italiano e o deslocou por completo, liberando um enorme corredor na direita para o avanço do Capita. Quando Pelé recebe na intermediária, com aquele 10 pertencente ao terreno do imemorial às costas, a zaga europeia já estava vendida há muito sem o saber. Seu olhar confirma num átimo a carreira de Carlos Alberto, que recebe o passe pitoresco da Majestade. Quem respira os ares do futebol sabe que aquele misto de displicência e imponência de Pelé continha uma mensagem inequívoca e incontestável: “Faz”. Como se irritado por não ter participado da trama até li, o acaso entrou em cena para reivindicar ao menos algum papel auxiliar: foi o quique que antecedeu e propiciou a finalização perfeita, um cruzado inapelável na veia. Os protagonistas, contudo, têm nome, dentre os quais fulgura o de Zagallo: de Clodoaldo e Riva, titulares na campanha imbatível no México, à inversão de Jairzinho a fim de criar espaços no lado oposto para Carlos Alberto, passando pela centralidade de Pelé, o Velho Lobo esteve presente. Multicampeão. Gigante. Histórico. Cinco finais em sete Copas disputadas (52 e 68 como jogador, 70 como técnico, 94 e 98 como assistente), com quatro delas na prateleira. Para a felicidade geral da nação, tiveram de engolir. Que, em seus 90 anos pela proa, tenhamos a oportunidade de transmitir devidamente às novas gerações, tão afeitas ao esquecimento, o tamanho deste legado esportivo.

Fonte: medium.com