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LEME, FGV e Ludopédio realizam homenagem a Ronaldo Helal

Realizar discussões coletivas sobre a obra de Ronaldo Helal – é com este intuito que surge o Webinar “Futebol, Sociologia e Comunicação – reflexões sobre a obra de Ronaldo Helal”. As inscrições são gratuitas e podem ser realizadas no site da FGV. Acompanhe o que irá acontecer nos três dias de evento:

03/03 – 14 às 16h

Mesa 1: Argentinos e franceses: os “outros” do futebol brasileiro
Pablo Alabarces (Dep. Antropologia Universidade de Buenos Aires/UBA)
Bernardo Buarque (Escola de Ciências Sociais/FGV-CPDOC)
Mediação: Daniela Araújo (doutoranda PPHPBC/FGV)
 
04/03 – 14 às 16h

Mesa 2: Idolatria no futebol e seu avesso: as mil faces do herói esportivo
José Carlos Marques (Dep. Comunicação/UNESP)
Luiz Henrique de Toledo (Dep. Antropologia/prof. titular UFSCar)
Mediação: Filipe Mostaro (Prof. Dr. LEME/UERJ)
 
05/03 – 14 às 16h

Mesa 3: Narrativas midiáticas da nação: apogeu e crise da Seleção em Copas do Mundo
Édison Gastaldo (Centro de Estudos de Pessoal/Forte Duque de Caxias)
Leda Costa (Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte/UERJ)
Mediação: Sérgio Giglio (UNICAMP/Portal Ludopédio)

O webinar faz parte das comemorações dos 30 anos da edição do livro O que é Sociologia do Esporte. Considerado um dos marcos dos estudos em Sociologia do Esporte no Brasil, o livro, editado pela Editora Brasiliense, se esgotou em pouco tempo após o lançamento e marcou gerações de pesquisadores. Em linguagem acessível, atinge também graduandos, que têm a oportunidade de se inserir no tema. “Ano passado, já fui homenageado pelo LEME, que fez um podcast, com alguns depoimentos, sobre esse livro que escrevi para a Coleção Primeiros Passos. Ao ver aqueles depoimentos e ver que influenciei vários pesquisadores importantes, eu já fiquei muito emocionado”, relembra Helal.

O evento é organizado por LEME, FGV e Portal Ludopédio. Para se inscrever, clique aqui.

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O Inesgotável Pelé (contém spoilers)

A imagem de um ídolo pode permanecer eterna? Em tempos onde megacomputadores e nuvens armazenam uma infinidade de dados, a resposta parece ser obviamente positiva, pelo menos quando se trata da preservação de dados ou imagens sobre ele. Mas é possível ir além de ser apenas mais um verbete numa imensa enciclopédia virtual? Nesse caso a situação é mais delicada, pois exigiria que esse ídolo, independentemente de sua área de atuação, estivesse mais presente no dia-a-dia das pessoas. É o caso de Edson Arantes do Nascimento, o Pelé; primeiro jogador a alcançar o patamar de ídolo mundial e que, por isso mesmo, se notabilizou com a alcunha de Rei do Futebol. Sua grandeza nos gramados foi de tal monta que até hoje tem a majestade eternizada graças a filmes, documentários, livros, histórias em quadrinhos e até videogames. Mesmo quase cinco décadas após “pendurar as chuteiras”, o Atleta do Século XX, mantém seu prestígio.

1981: Pelé recebe o título de atleta do século (fonte: L’Equipe)

O menino e a lenda

O brilho da carreira de Pelé, com suas atuações acima da média, conquistas e gols, muitos gols, gerou, evidentemente, um enorme interesse em torno do garoto talentoso que despontava no Santos Futebol Clube. Após a conquista do sonhado primeiro título mundial pela Seleção, em 1958, na Suécia, o jovem craque, de apenas 17 anos se tornou, então, o centro das atenções.

O franzino herói mal alçava a glória e sua trajetória já começava a ser contada, nem sempre, todavia, se baseando apenas na fidelidade jornalística dos fatos, como no caso do filme dirigido pelo argentino Carlos Hugo Christensen. A abertura do filme “O Rei Pelé”, de 1962 relata a seguinte frase, que teria sido dita pela parteira que trouxe o bebê Edson ao mundo: “O filho de vosmecê vai ser rei. Rei do mundo!”, numa clara alusão a uma suposta predestinação de Pelé. O longa metragem filmado em parceria com o produtor Fábio Cardoso se preocupava em reforçar a questão da superação da pobreza e “derrapava” no ufanismo ao descrever o Brasil como uma terra sem preconceito de cor, de raça ou de religião. Terra onde um menino como Pelé podia se tornar rei.

Cartaz do filme de 1962 (fonte: Internet)

Discursos assim estavam muito em voga nos anos 1960, os chamados “Anos Dourados”. No livro “Viagem em Torno de Pelé”, de 1963, o jornalista Mario Filho também tratou de narrar a vida daquele que classificou como “o primeiro cidadão do mundo que o Brasil já produziu” (esquecendo-se, propositalmente, de nomes como Carmen Miranda ou Santos Dumont, por exemplo). O enredo narra a saga de seu protagonista: um menino pobre e negro, que passa por uma série de dificuldades, mas, no final, conquista o seu reinado. A clássica trajetória do herói.

Não faltaram, em todos esses anos, livros e filmes sobre Pelé. Publicações chegam a quase 20, inclusive escritas por autores estrangeiros. Também há uma autobiografia publicada em 2006. Nas telas, além do filme citado acima, outras três produções foram realizadas sobre o jogador: “Isto é Pelé” (1974), “Pelé Eterno” (2004) e “Once in a lifetime” (“O mundo a seus pés”), sobre a passagem pelo New York Cosmos. Pelé também participou de alguns filmes como ator, interpretando papéis de ficção e até aparecendo como ele próprio, como no caso do filme “Os Trapalhões e o Rei do Futebol” (1986).

Um novo olhar

Independente de tudo o que já se falou e já se mostrou de Pelé, o tema parece nunca se esgotar. É o exemplo do mais recente documentário sobre o Rei, lançado recentemente pelo portal de streaming Netflix. Com o título “Pelé”, o documentário de 108 minutos de duração, dirigido pelos britânicos David Tryhorn e Ben Nicholas proporciona novas experiências, mesmo para aqueles que já conhecem mais profundamente a carreira de Edson Arantes do Nascimento.

 A chegada do ex-jogador para o local onde seria conduzida a entrevista já nos choca. Um frágil Pelé caminha com a ajuda de um andador até a cadeira situada em meio a uma sala vazia. Uma imagem que é o oposto de todas aquelas que nos acostumamos a guardar na memória.

Talvez por ser dirigido por dois estrangeiros e, provavelmente, para agradar um público mais amplo, “Pelé” se atém a analisar o personagem e não apenas por seu impressionante desempenho nos gramados, mas dando espaço ao Edson (como o próprio Rei gosta de se referir a si próprio; na terceira pessoa).

Mesmo em quase duas horas de filme, fica claro que é impossível abordar todos os aspectos necessários para um perfil completo. No entanto, o documentário nos traz questionamentos que muitas vezes relevamos, levados pela crença de sua predestinação para o talento. As cenas de um Pelé bem menino já envergando a camisa do Santos e revolucionando a história de um clube através de suas jogadas e gols, por exemplo, me fizeram refletir sobre como tal carga de responsabilidade poderia ser absorvida por aquele imberbe adolescente. Como lidar com cobranças e idolatria tamanhas? E para nosso espanto e de todos os que tiveram o privilégio de acompanhar o surgimento de um gênio da bola, a tarefa lhe parecia suave, talvez porque acreditasse piamente na frase dita por seu pai e ex-jogador Dondinho: “Não há o que temer. Dentro de campo todos são iguais”. Tanto que em seus primeiros 4 anos de carreira já havia marcado mais de 350 gols.

O menino que já era craque. (Fonte: “Pelé”/NETFLIX)

Da glória da conquista de 58 à frustração da contusão na Copa de 1962, no Chile, o documentário trata de mostrar como a vida do jovem de pouco mais de 20 anos havia mudado, com compromissos de carreira sendo mais implacáveis do que zagueiros “botinudos”. Pelé se transformara no mais requisitado garoto-propaganda e figura obrigatória em grandes eventos. A carreira e a vida pessoal sentiram.

Após o fiasco na Inglaterra, em 1966, onde mais uma vez saiu contundido, Pelé dava entrevistas afirmando que não dava sorte em Mundiais e que aquela seria sua última Copa, mesmo tendo apenas 26 anos.

O (a)político Pelé

Um dos motes do documentário era traçar um paralelo entre a carreira do Rei com o período da Ditadura Militar no Brasil. Tanto no depoimento para os diretores quanto em entrevistas ntigas fica claro que Pelé nunca se atreveu a questionar o cenário além das quatro linhas. Afirmava que não tinha como saber o que acontecia ao certo e que o papel dele era jogar futebol.

Após marcar o gol mil, que aliás contou com cenas que nunca tinha visto, inclusive com entrevistas antes e após a partida concedidas à jovem jornalista Cidinha Campos, Pelé foi convidado pelo presidente Emílio Garrastazu Médici para ir a Brasília. Foi levado do aeroporto ao Palácio do Planalto em carro aberto e lá recebeu os cumprimentos do ditador pelo feito.

O Rei e o ditador. (Fonte: “Pelé”/NETFLIX)

É claro que atitude foi mal vista por quem se opunha ao regime de opressão que, nos finais dos anos 1960, após a promulgação do AI-5, se encontrava mais sanguinário do que nunca. Exigiam do jogador uma postura mais combativa, como a tomada pelo boxeador americano Muhammad Ali, preso por se recusar a lutar na Guerra do Vietnã. Mas, em uma entrevista para o documentário, o jornalista Juca Kfouri lembra que eram situações bem diferentes. Segundo ele, Ali não seria morto na prisão, porém o mesmo não se podia dizer de Pelé. “Só quem já viveu numa Ditadura Militar sabe onde arde”, lembrou Juca.

O governo queria, a todo custo, que o Brasil vencesse a Copa do México e Pelé fazia parte dessa estratégia. O filme não deixa claro que tenha havido qualquer tipo de pressão para que ele revogasse a promessa de não mais jogar Mundiais, mas fica subentendido que havia uma cobrança sobre o Rei para a conquista da Taça. A comissão técnica era basicamente formada por militares e o treinador João Saldanha (um militante comunista), após classificar suas “Feras” nas eliminatórias, foi devidamente substituído por Zagallo. Mais um ponto para o documentário em relação à narrativa desse período turbulento; são apresentadas entrevistas raras de Saldanha que ajudam a mostrar como era clara sua postura beligerante em relação às normas que o Regime exigia, uma “briga” que respingou até para Pelé, acusado por Saldanha de ter um problema de visão que comprometeria suas atuações.

 Ao desembarcar de volta do México, com a taça em mãos, a primeira parada da Seleção foi na Capital Federal. O roteiro planejado tinha sido cumprido com louvor. E não apenas Pelé, mas todos aqueles jogadores, contrafeitos ou não, tiveram que participar da cerimônia.

Nas ruas, tanto durante o Mundial, quanto na recepção aos campeões, se deu uma espécie de hiato cívico, mesmo quem sabia que a vitória contava pontos para a Ditadura, acabou não resistindo à magia daquela seleção e comemorou.  Ao fim do documentário, numa rara opinião sobre essa questão, Pelé afirmou: “A Copa de 70 foi importante para o País. Se perdêssemos, poderia piorar tudo. O fato de a gente ser campeão fez com que o país todo desse uma respirada. Eu acho que 70 foi mais pro país do que pro futebol”.

A riqueza de um reinado

Um dos maiores méritos do documentário “Pelé” está na bela pesquisa de imagens e áudios que ajudou a resgatar pérolas da tão decantada carreira do Rei do Futebol e que se mantinham praticamente inéditas. Cenas que nos surpreendem, encantam e emocionam.

A fragilidade de Edson se contrapõe à vitalidade de cada lance, cada gol mostrado. Suas falas são curtas e não me parece que essa tenha sido uma opção da edição. Apesar de ainda ter 81 anos, o Rei parece um nobre cansado de tantas batalhas e se atém, quase todo tempo, apegado às mesmas respostas estudadas como fez durante toda a carreira, evitando riscos que julgue desnecessários à sua imagem.

Contudo, surpreendentemente, o documentário de Tryhorn e Nicholas nos traz um presente. Um outro Pelé, sorridente e descontraído, ao participar de um encontro com seus ex-companheiros de Santos. Parecem, mesmo, duas pessoas diferentes. Talvez, porque naquele instante, a máquina do tempo da emoção tenha entrado em ação. Naquela hora, ao lado daqueles que dividiram com ele o prazer do futebol, o Rei deixa cetro, manto e coroa de lado e se permite disfrutar aquele momento, livre de qualquer compromisso ou cobrança. Afinal, como bem disse Dondinho, ali, eram todos iguais.

Os Santos do Rei (Fonte: “Pelé”/NETFLIX)
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Quando Armando imaginou Kissinger como sócio honorário do Boca

Em 1976, o Boca contava com 360 sócio honorários. De acordo com seu estatuto, essa distinção pode ser concedida “em favor de pessoas que, pertencendo ou não ao Clube, tenham lhe prestado serviços excepcionais”. Essa distinção havia sido concedida pela última vez em 1972, quando receberam-na 45 homens pelos seus favoráveis “pronunciamentos administrativos inerentes às obras do Grande Estádio da Cidade Desportiva, com benefícios inestimáveis para o Boca Juniors”. Quatro anos depois, Alberto J. Armando, presidente da entidade entre 1954-1955 e entre 1960-1980, tentou aumentar a lista de sócios honorários com um personagem tão inusitado quanto ardiloso: Henry Kissinger, secretário de Estado dos Estados Unidos entre 1973-1977, durante as presidências de Richard Nixon e Gerald Ford e defensor da Junta Militar que governou o país depois do golpe cívico-militar de 1976 que derrubou Isabel Martínez de Perón.

A motivação de Armando, promotor do que seria o “futebol espetáculo” no final da década de cinquenta e começo da de sessenta, parece ter sido mais propagandística do que política. Kissinger poderia ter impulsionado a visibilidade internacional do Boca. Em 14 de junho de 1976, a menos de dois meses do golpe, Armando enviou uma carta a Kissinger, preservada em seu arquivo pessoal, manifestando o agrado do clube em saber, através da imprensa, de sua simpatia pela instituição que presidia. “O Clube mais popular da Argentina”, prosseguia a carta, “tem a partir de agora entre seus membros uma das figuras mais relevantes do governo dos Estados Unidos da América e campeão da paz mundial”, o que constituía uma “uma honra imensa”.

Junto com a carta, Armando enviou a Kissinger uma flâmula e uma insígnia do Boca, assim como uma credencial para que pudesse presenciar na famosa Bombonera as partidas da equipe principal. Dando-lhe as boas-vindas “à grande família boquense”, Armando antevia que ela [a família boquense] demonstraria seu afeto e sua alegria quando, em sua próxima visita ao país, Kissinger se sentasse no lugar de honra do estádio. Armando se despedia até “tão feliz momento”, anunciando que na próxima Assembleia Geral de Representantes “proporemos a designação do Senhor Secretário de Estado como Sócio Honorário do Clube”.

A carta de Armando foi traduzida no Departamento de Estado e respondida seis semanas depois. A assistente pessoal de Kissinger fez isso em seu nome. Ela disse a Armando que agradecia muito à flâmula, à insígnia e à credencial. Além disso, dizia saber o quanto Kissinger gostaria de presenciar a uma partida de futebol em sua próxima viagem ao país, se sua agenda o permitisse. A assistente pessoal também disse que Kissinger estaria muito honrado de ser proposto como um sócio honorário. O entusiasmo era verdadeiro, já que Kissinger adorava o futebol, esporte que praticou em sua juventude e promoveu nos Estados Unidos. Em outubro de 1978, foi nomeado presidente da Junta Diretiva da Liga da North American Soccer League (NASL) – Liga de Futebol da América do Norte –, que funcionou entre 1968-1984. Ele podia ser visto nas partidas do New York Cosmos, equipe da NASL, e se envolveu nas negociações que permitiram a Pelé jogar nessa equipe entre 1975-1977. Também teria um papel destacado na bem-sucedida candidatura dos Estados Unidos para ser sede da Copa do Mundo de 1994. O jornalista Daryl Grove argumenta que Kissinger tem sido uma das pessoas mais influentes no desenvolvimento do futebol nesse país.

Apesar do entusiasmo de Kissinger pela carta de Armando e suas credenciais futebolísticas, o Boca não lhe concedeu o título de sócio honorário. A Assembleia Geral Ordinária de Representantes, posterior à carta de Armando, foi realizada em 10 de setembro de 1976, mas o Relatório e o Balanço Geral do ano administrativo que terminava no final daquele mês mostrou que o número de sócios seguia sendo o mesmo: 360. Esse documento não especifica se Kissinger não foi proposto como sócio honorário ou se houve resistência à dita proposta. É provável que alguns sócios desejassem considerar os “serviços excepcionais”, como reza o estatuto do clube, prestados por Kissinger para merecer a distinção.

Ainda que não tenha sido aceito como membro honorário do Boca, Kissinger se relacionou sordidamente com o futebol argentino. Foi um convidado de honra da Junta Militar durante a Copa do Mundo de 1978. Ele até apareceu com Jorge Videla, o presidente da Junta Militar, posteriormente condenado por crimes contra a humanidade, no vestiário da equipe peruana antes da controversa partida que disputou, em Rosario, contra a Argentina pelas semifinais do torneio. No ano anterior, Videla havia entregado a Kissinger uma foto sua cuja legenda dizia: “Ao senhor HENRY KISSINGER, com particular estima e respeito”. Dado o apoio que concedeu à ditadura cívico-militar, a estima e o respeito eram mútuos. Videla estava convencido de que, como secretário de Estado, Kissinger havia defendido as ações de seu governo “contra o comunismo”. Sua presença na Copa do Mundo de 1978 foi encarada como legitimadora e, ao mesmo tempo, como contrapartida à posição de Jimmy Carter, que pressionava, desde sua posse na presidência, em fevereiro de 1977, a Junta Militar a respeitar os direitos humanos. De fato, em 1978, Raúl Castro, embaixador dos Estados Unidos na Argentina, escreveu estar preocupado com a visita de Kissinger para a Copa do Mundo, porque seus elogios à luta “contra o terrorismo” podiam ter subido à cabeça dos ditadores e porque existia a possibilidade de que eles se utilizassem disso para justificar um endurecimento das ações repressivas.

Qualquer que tenha sido o motivo para a frustração da ideia inicial de Armando, para o Boca foi benéfico não contar com Kissinger entre seus sócios honorários. Suas temerosas ações políticas estenderam-se a outros países da América Latina e também a outras zonas geográficas. Sua carreira no serviço público foi tão controversa que o cientista político Marcelo Cavarozzi afirmou que Kissinger é “produto de uma mente superior que não necessariamente trabalhava para encontrar o funcionamento e o desenvolvimento de sociedades mais justas, pacíficas e igualitárias”. Por sua vez, o jornalista Jon Lee Anderson se perguntou, à luz de novos documentos que confirmam seu apoio aos ditadores latino-americanos, se Kissinger tem consciência. Boa parte da família boquense, ao falar de Armando, pode ter se perguntando a mesma coisa. Ao menos eles não tiveram que se perguntar o que deveriam ter feito se tivessem concedido a Kissinger a distinção de sócio honorário do clube. Ao contrário da previsão de Armando, a Bombonera nunca demonstrou a Kissinger seu afeto e sua alegria.

Fonte: Página12

Texto originalmente publicado no site Página12 no dia 15 de fevereiro de 2021.

Tradução: Leticia Quadros e Fausto Amaro

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Os bastidores de partidas de futebol: relações que cresceram no afastamento social

Há uma crescente aproximação entre jogadores e torcedores conectados às redes sociais – em especial o Youtube, o Instagram e o Facebook. Nesse cenário, os vídeos dos bastidores das partidas dos clubes brasileiros têm sido prato cheio no consumo de informação clubística para os aficionados, principalmente com a caótica situação da pandemia, que afastou os fãs de seus ídolos.

 Desdobram-se, sobretudo nos últimos meses, mais e mais comentários, nas plataformas mencionadas, por parte de torcedores, com manifestações de apoios, críticas e, até mesmo, feedbacks positivos/negativos sobre o conteúdo que está sendo exposto nos vídeos de bastidores. Essas nem tão novas formas de interação floresceram diante da impossibilidade de os torcedores estarem nos estádios, apoiando seus clubes do coração. Mais um dos vários sintomas de uma pandemia que perdura e causa impactos claros também nos esportes.

Falta, assim, recordando o que diz o teórico Hans Ulrich Gumbrecht, a troca e a proximidade possibilitada pela simbiose dentro de um estádio, local que possui, segundo ele, uma “aura”, tornando-se “sagrado”. No estádio, é onde ocorre a performance do esporte, a presença, ou, ainda mais, a produção dela. Eis que a ferramenta comunicacional, que já vinha crescendo ano a ano, ganha novos contornos: sua função de aproximar os atores do futebol se alicerça, agora, numa urgência da produção de presença que necessariamente limita-se ao espaço virtual. Os já mencionados bastidores das partidas, gravados e editados pelos profissionais de comunicação dos clubes, tornaram-se os elos perdidos – e possíveis – num obrigatório relacionamento à distância.

Vale destacar que a exibição, pelos clubes, dos bastidores só se faz, em geral, nas ocasiões de vitórias. A exceção se dá quando ocorrem empates que carregam certo grau de dramaticidade; um empate que coloca o clube na liderança ou o livra da zona de rebaixamento, por exemplo.  

Essa fruição de espectadores e da audiência em geral se deu, pode-se dizer, desde os primeiros momentos de retorno da bola rolando no Brasil pandêmico, em junho de 2020. Juntou-se a esse caldeirão as polêmicas envolvendo alguns clubes e emissoras de tevê sobre direitos de transmissões de partidas. Alguns jogos – incluindo finais, vide o Fla-Flu do Campeonato Carioca – migraram para a transmissão no YouTube e levaram muitos torcedores aos canais oficiais dos clubes na plataforma, num engajamento superior a outros momentos.

O boom nos números de inscritos nas “tevês personalizadas” de cada instituição foi visível, principalmente se olharmos para o crescimento exponencial da taxa de seguidores no canal do Fluminense Football Club, por exemplo. O clube agora possui, com a sua “Flu TV”, mais de 600 mil inscritos no YouTube. Número seis vezes maior ao período anterior a toda essa trama que se desenrolou a partir da quarentena, na esteira de exibições ao vivo de jogos decisivos pela referida plataforma de vídeos.

É uma aproximação do torcedor, em outra esfera, com a marca, com o clube. Os departamentos de comunicação das marcas, responsáveis por essa relação, pareciam já perceber essa nova dinâmica bem antes. Está dentro de uma gama de estratégias de marketing, relacionamento e fidelização de seus públicos. A penetração dessas estratégias nos nichos encontrou, na pandemia, uma viabilidade ainda maior. E os bastidores de partidas tornaram-se essenciais na expansão do consumo do espetáculo.

Fazendo um recorte curto de uma edição do Campeonato Brasileiro para outra, num espaço de rodadas próximas, tomando o Fluminense como exemplo, nota-se a diferença de audiência. Na 35ª rodada do Brasileirão de 2019, no dia 29 de novembro de 2019, o vídeo dos bastidores da partida contra o Palmeiras, vencida pelo tricolor carioca por 1 a 0, soma – até o dia de produção deste texto, 08/02/2021 – pouco mais de 73 mil visualizações.

Já o vídeo dos bastidores da vitória sobre o Botafogo na 32ª rodada – bem próxima da rodada do primeiro caso – do Brasileirão 2020, lançado mais de um ano depois do exemplo comparativo, no dia 26 de janeiro de 2021, alcançou, em menos de um mês, quase o dobro do número dito alhures: 125 mil visualizações. Número que continua avançando a cada dia.

A manifestação do espectador aficionado

Tal importância pode ser notada pela leitura dos comentários em vídeos desse tipo. Pegando o exemplo de outro vídeo de bastidores de outra vitória do Fluminense, dessa vez sobre o Bahia por 1 a 0, na 34ª rodada do Brasileirão de 2020, conseguimos dimensionar o valor dado por parcela considerável da torcida do tricolor. Ela sintomatiza a relevância pungente; é quem sente e vivencia o impacto da distância de forma mais nítida, por ter sua presença barrada. Logo, a torcida é o ponto focal da estratégia diferenciada de aproximação que são os bastidores de partidas.

Há espaço, inclusive, para manifestações nessa relação. Alguns torcedores, por exemplo, cobram maior tempo para momentos que mostram o vestiário, a concentração nesse espaço. Estes fazem críticas, nas caixas de comentários dos vídeos inseridos no Youtube, cobrando justamente uma maior imersão nesse sentido, como nos exemplos abaixo:

Comentário de torcedor do Fluminense, no vídeo dos bastidores da vitória sobre o Bahia, com muitas curtidas. (Reprodução).
Comentário de outro torcedor do Fluminense, no mesmo vídeo dos bastidores da vitória sobre o Bahia, também com muitas curtidas. (Reprodução).

O propósito da ferramenta de comunicação fica explícito nestes comentários, que carregam, inclusive, reivindicação e feedback aos produtores. Ao que parece, a busca latente dos torcedores é, cada vez mais, o contato maior com seus ídolos, e isso parece estar sendo atenuado pelo contexto da pandemia.

Voltando a lembrar do que diz Gumbrecht, percebe-se uma possibilidade a mais de reencantamento secular que o esporte pode proporcionar com o novo cenário, ocasionado pelo aparente aumento da relevância de vídeos de bastidores de partidas em tempos de distanciamento social. Mais uma possibilidade numa realidade de desencantamento moderno, que vai permeando o tecido social a cada ano, e exacerba-se numa súbita pandemia.  

Indo um pouco mais na direção do teórico alemão, é em tal dinâmica que a gratidão pelo “herói” se manifesta nas expressões dos fãs do esporte, e as reações intensas e vagas não poderiam deixar de aparecer. Vagas – ele aponta –, pois, a princípio, ainda não há uma expectativa do interlocutor por uma resposta de seus ídolos. A resposta do ídolo com um agradecimento a possíveis elogios à sua performance é uma exceção para Gumbrecht. Mas esse novo cenário de muitas exceções pode também estar ressignificando essa possibilidade. Vamos pensar brevemente numa fala do jogador Felipe Melo, do Palmeiras.

Há um diálogo e uma nova dimensão de performance sendo construídos?

Pensando nesse processo de expansão na relação marca-torcedor, podemos lembrar de uma entrevista dada por Felipe Melo, jogador do Palmeiras, logo após o clube conquistar o título da Copa Libertadores, ainda no campo. Na entrevista, concedida à Fox Sports, o atleta já deixava subentendida a atenção e a importância que despendia aos vídeos de bastidores dos jogos, fazendo referência às suas falas ditas dentro de um futuro episódio no dispositivo que o replicava. Ele disse:

“Eu antes do jogo – na verdade não gosto de falar isso, se sair na TV Palmeiras, se colocarem lá, ótimo – mas vou falar hoje: Antes do jogo eu tava (no vestiário) procurando o que dizer para nossos atletas, e Deus me deu uma palavra (…)”, disse o atleta, citando diretamente a tevê personalizada de seu clube, mostrando uma preocupação com o que foi e com o que será veiculado por lá.

Continua sendo improvável que os heróis de epifanias temporais, que começam a se diluir no momento em que surgem, retribuam gratidões e elogios acalorados dos fãs do esporte, mas é notável que eles também sentem as novas dimensões de interação que a ferramenta de marketing vem proporcionando com sua consolidação no imaginário das torcidas. Estaria uma nova possibilidade de performance pelos atletas diante de câmeras que os miram fora do palco, na coxia do verdadeiro espetáculo?

Há espaço para respostas, diálogos, frases motivacionais inspiradoras, danças, brincadeiras com e sem a bola, e muitas outras coisas. A extensão da presença de um ídolo, que possibilita o vislumbre do cotidiano em ações espontâneas – ou não –, idênticas às de uma pessoa comum.

Nota-se clara relevância nessa ferramenta não tão nova. É interessante pensar sobre esse aumento de relevância num momento de não-presença das torcidas, um momento de relacionamento diferenciado, assim como perceber que as estratégias de engajamento, de alguns departamentos de comunicação de clubes, parecem estar cada vez mais alinhadas a isso. Os jogadores, pelo visto, também. A torcida anseia por mais vestiário, por mais minutos imersos no ambiente interno, na coxia do espetáculo. Por mais presença, materialidade. O conteúdo dos vídeos de bastidores de partidas recebe, como vimos, feedbacks para se enquadrarem em tais aspirações dos fãs de futebol. E, assim, o futebol – e tudo que permeia esse mágico esporte – continua nos mostrando que não é um fenômeno inalterável; ele está em constante mudança.

Fonte: Explosão Tricolor

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Sobre clubismo, resultadismo e ausência de craques

Poucas questões expõem, de forma tão didática, os vazamentos da objetividade no jornalismo esportivo do que as previsões daqueles que, nesse campo, apresentam-se como comentaristas de esporte. A recente contrição a que grande parte desses sujeitos foi levada pela rememoração de que, no início do Campeonato Brasileiro, apontavam o Santos como um dos candidatos ao rebaixamento foi apenas um dos, não poucos, capítulos em que, sob a capa de previsões ou palpites, deixam escapar o que muitos torcedores identificam como clubismo.

O clubismo, na editoria de esportes, seria o equivalente ao partidarismo na seção de política ou à defesa do rentismo nas páginas de economia. Uma diferença relevante, porém, é que, raramente, um jornalista dessas duas últimas editorias cogitaria a hipótese de explicitar as suas preferências político-partidárias ou de modelos econômicos. Essas têm de serem inferidas por leitores detentores de cardápio que vá além do senso comum ou da mera ignorância dos complexos interesses que envolvem aqueles dois campos.

Na seção de esportes, no entanto, não é incomum que jornalistas revelem suas preferências clubísticas, embora existam exceções em estados de polarização binária e radicalizada, como o Rio Grande do Sul. Tal explicitação de preferências, porém, raramente é acompanhada do reconhecimento de que elas podem implicar alinhamento profissional com os clubes pelos quais torcem. Ao contrário, o ordinário é a proclamação de que elas não interferem em suas análises e opiniões. Curiosa e emblematicamente, tal declaração de fidelidade à objetividade jornalística é diamentralmente oposta à percepção que um numeroso grupo de torcedores tem sobre esses profissionais.

Aqui, faz-se necessário ressalvar a crescente intolerância dos torcedores a qualquer crítica e/ou opinião que contrarie as suas próprias convicções sobre o seu clube e sobre os adversários. Certamente, a intolerância a opiniões divergentes não é um fenômeno que tenha surgido contemporaneamente. No entanto, a crescente polarização da nossa sociedade e o amplo acesso às mídias sociais potencializaram tal sentimento. Mas, para além da negação à alteridade, a atitude dos torcedores também é alimentada pela percepção de que muitos jornalistas são clubistas. Por essa ótica, não haveria grande distinção entre eles e os torcedores que, ao menos, explicitariam sua adesão incondicional a um clube sem qualquer compromisso profissional ou com a objetividade.

Tal percepção por parte de parcelas numerosas do público é potencializada pelo acesso que os torcedores têm às mídias sociais nas suas diferentes plataformas. Na batalha para defender seus clubes e atacar aqueles que consideram adversários das suas agremiações, os torcedores não se valem apenas da paixão. Não raro, como tratamos em artigo anterior[1], também recorrem à gramática jornalística, cobrando dos jornalistas coerência com opiniões pretéritas adotadas, em situações comparáveis, em relação a clubes adversários. Seja no tratamento da derrota numa partida importante ou na análise da atuação do VAR em lances capitais.

E, como confirma vasto material empírico disponível na internet, parte dele encontrável no texto anteriormente mencionado, torcedores céticos em relação à neutralidade do jornalismo esportivo têm fortes motivos de reafirmação da sua (des)crença. No entanto, não apenas a identificação de jornalistas ao clubismo e a negação à alteridade alimentam a descredibilização do jornalismo esportivo.

Dominada pelo resultadismo, a imprensa, e não apenas a brasileira, nos dizeres de Marcelo Bielsa, “se especializou em perverter os seres humanos de acordo com vitórias e derrotas”. Em encontro promovido pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF), em 2018, Bielsa justificou seu diagnóstico: “O mesmo comportamento que se utiliza para amplificar (o reconhecimento)  na vitória é o que se utiliza para condenar o comportamento na derrota”.

Ele exemplificou sua afirmação observando que, se Neymar retoma a bola de um adversário e a seleção brasileira ganha oito partidas seguidas, Tite seria elogiado por ter feito o atacante jogar coletivamente, e não apenas individualmente. No entanto, à primeira derrota, o mesmo treinador seria atacado pela imprensa porque, em vez de pôr Neymar mais perto da área adversária, optara por colocá-lo para perseguir o marcador rival.

Essa gramática esquizofrênica da imprensa apontada por Bielsa já fora sintetizada, no século passado, de forma mais crua pelo também treinador Oto Glória: “Se vences, és bestial. Agora, se perdes, és uma besta, mesmo.” Em essência, ela converge com a lógica passional do torcedor, que, em poucos minutos, pode passar da perseguição a determinado jogador do seu time, a gritar com entusiasmo o nome do mesmo jogador, após este marcar o gol da vitória.

Fonte: UOL

A diferença entre o resultadismo do torcedor e o do jornalista é que o primeiro, assumidamente, é amador, e o segundo, reivindica-se profissional e defensor da objetividade. Obviamente, como em qualquer esporte de competição, a vitória é o principal combustível do futebol. No entanto, deveria existir algum espaço para aqueles que se pretendem comentaristas ou analistas enxergarem além do resultado imediato e/ou não serem pautados pelas mídias sociais.

Embora o clubismo não confesso tenha origem bem mais distante da contemporaneidade, existe um elemento que tem contribuído para desmoralizar precocemente as previsões dos jornalistas: a ausência de craques nos gramados brasileiros. Num futebol cada vez mais nivelado por baixo, as diferenças salariais, ainda que substantivas, não se materializam, na mesma proporção, no campo.  Ainda que clubes com mais recursos possam, por exemplo, pagar salários até sete vezes superiores aos seus atletas em relação a jogadores dos adversários, os primeiros não conseguem jogar sete vezes mais do que os jogadores de um time que faça da entrega tática do seu elenco seu principal ativo.

Como, embalada pelo resultadismo e, não raro, resvalando no clubismo, a imprensa esportiva superfatura o futebol de bons jogadores, tornou-se comum que, em partidas decisivas, quando tensão, cobrança e marcação adversária são mais intensas, os “craques” da mídia esportiva não correspondam à construção dos personagens que ela própria criou.

Foi o que aconteceu, apenas para mencionar exemplo que, na montanha russa que marca o tempo no futebol, parece longínquo, ocorreu há menos de um mês e meio, nas semifinais da Copa do Brasil, entre Grêmio e São Paulo. Nesse confronto, “craques” como o veterano Daniel Alves não conseguiram desequilibrar as partidas a favor do São Paulo, particularmente, no segundo jogo, embora o clube paulista tivesse maior controle da partida, mas sem ameaçar o Grêmio. Resultado: em vez de constatar que, num futebol nivelado e sem craques, as partidas tendem a serem muito equilibradas e podem ser decididas por lampejos ou falhas individuais, a imprensa optou por…criticar Fernando Diniz. O mesmo que, na ótica de Bielsa, seria incensado se o São Paulo vencesse a partida, como esteve mais próximo de fazer no primeiro jogo em Porto Alegre. Enquanto isso, Renato Gaúcho era exaltado pelo mesmo jornalismo esportivo que, mais uma vez na gramática de Bielsa, o criticaria por recorrer à mesma tática que o levou à vitória, caso o vencedor fosse o time de Diniz.

Pouco mais de um mês depois, foi a vez de Cuca ser eleito “a besta” pelo jornalismo esportivo, após o Santos ser derrotado por 1 x 0, pelo Palmeiras, quase no último minuto de uma partida arrastada, em que os goleiros dos dois times não fizeram uma única defesa. Dessa vez, o “bestial”, para os jornalistas esportivos, foi o português Abel Ferreira, também candidato a ser execrado caso, a bola alçada à área poucos instantes antes da prorrogação parasse dentro do gol do Palmeiras.

Tal dicotomia impôs-se à questão que mais saltou aos olhos dos que veem além do resultado. Se os dois clubes com as duas melhores campanhas da Libertadores produzem uma final tão sem brilho e sem que nenhum único “craque” se destaque, isso não deveria sinalizar um diagnóstico mais amplo do nível do futebol praticado no Brasil e no continente para muito além dos dois times em campo? Ou a melhor síntese é mesmo que, entre Cuca e Abel Ferreira, deve-se escolher o segundo, como pregou, por exemplo, Juca Kfouri? Pelo menos, até o segundo ser derrotado pelo Tigres, do México, no Mundial de Clubes, numa partida em que sua equipe acertou apenas uma finalização na direção do gol do adversário.

Fonte: Gandula FC

[1] Internet x imprensa: um jogo paralelo no Mundial de Clubes –  Redes sociais recorrem ao jornalismo para criticar cobertura da imprensa (https://comunicacaoeesporte.com/2020/02/27/internet-x-imprensa-um-jogo-paralelo-no-mundial-de-clubes/)

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O retorno de Mato Grosso à primeira divisão do futebol nacional

Em 4 de agosto de 1968, o Operário de Várzea Grande estreou na Taça Brasil. Venceu o Atlético Goianiense por 2 a 0. Foi a primeira partida de futebol que um time de Mato Grosso disputou em uma competição nacional de clubes. Começou bem.

O Operário disputou mais três partidas naquela Taça Brasil. Venceu uma e perdeu duas. Ficou em segundo lugar no seu grupo. Classificou-se para a fase seguinte apenas o primeiro colocado (o Atlético Goianiense). O futebol de Mato Grosso teve que esperar cinco anos para voltar a disputar uma competição nacional de primeira divisão.

Vagas garantidas para Mato Groso até 1986

O Esporte Clube Comercial (da cidade de Campo Grande) foi incluído no Campeonato Brasileiro de 1973 porque a CBD queria ampliar o número de Estados com representantes na competição. O número de clubes participantes subiu para 40 em 1973, depois 42 em 1975, 54 em 1976, 62 em 1977. Chegou a 94 em 1979. Assim, os mato-grossenses tiveram vagas garantidas pela CBF na primeira divisão do Campeonato Brasileiro de 1973 a 1986.

Vagas garantidas, mas resultados nada animadores. Nenhum clube do Estado chegou a ficar entre os dez primeiros colocados durante todo esse período. O melhor desempenho foi o do Mixto Esporte Clube no campeonato de 1985. Ficou em 14º lugar. Já o Mato Grosso do Sul se destacava com o Operário de Campo Grande, que ficou em terceiro lugar no ano de 1977 e quinto em 1979. Os torcedores do Estado recém-criado podiam fazer galhofa: a separação de 1977 deixou o bom futebol no sul e os maus resultados no norte.

Jogadores do Mixto em 1985. 14º lugar no Campeonato Brasileiro. Fonte: Trivela

1987: o futebol de Mato Grosso fora da primeira divisão nacional

Em 1987, o futebol brasileiro passou por uma de suas maiores crises (a maior, na opinião do autor desse artigo) e o Campeonato Brasileiro teve o seu formato bruscamente modificado. Na Copa União (que a CBF também denominou de módulo verde), estavam os grandes clubes do país (congregados no Clube dos 13) e mais três clubes convidados. No módulo amarelo, estavam mais 16 clubes. Segundo a CBF, um desses 32 clubes (dos módulos verde e amarelo) seria o campeão brasileiro. E não havia nenhum clube de Mato Grosso entre os 32. Podia-se dizer, portanto, que pela primeira vez desde 1973 o futebol mato-grossense não estava incluído na primeira divisão nacional. E assim continuaria sendo por muito tempo após 1987.

No ano 2000, uma exceção. O Campeonato Brasileiro daquele ano foi realizado pelo Clube dos Treze e não teve divisão principal e divisão inferiores. Foi uma competição única com 116 participantes, em razão de uma outra crise que abalou o futebol nacional (a crise do rebaixamento do Gama em 1999). Ainda assim, esse campeonato excepcional, chamado Copa João Havelange, dividiu os clubes em quatro módulos e o único clube de Mato Grosso inscrito na competição (o União Rondonópolis) foi colocado em um dos módulos inferiores. Todos sabiam, de fato, que os módulos verde e branco equivaliam à terceira divisão e era no módulo branco que estava o representante do futebol mato-grossense.

Depois do ano 2000, Mato Grosso ficou vários anos sem representantes não só na primeira divisão (Série A), mas também na segunda (Série B). Além disso, os clubes mato-grossenses não conseguiam boas colocações na terceira divisão (Série C). Sequer chegavam à fase final. Foi assim até o campeonato de 2010. No campeonato de 2011, a situação começou a mudar.

Luverdense e Cuiabá: a nova geração do futebol mato-grossense

O Luverdense Esporte Clube ficou entre os oito melhores da Série C de 2011. Disputou a segunda fase, que era a fase semifinal, mas não conseguiu ficar entre os quatro clubes que ascenderam à Série B do ano seguinte. Em 2012, o Luverdense novamente superou a primeira fase e enfrentou a Chapecoense nas quartas-de-final. Caso vencesse essa disputa, subiria para a Série B de 2013. Não venceu, mas o acesso à Série B parecia estar cada vez mais perto.

Aconteceu, enfim, em 2013. O adversário nas quartas-de-final, dessa vez, foi o Caxias, do Rio Grande do Sul. O Luverdense venceu os dois jogos da disputa. Por 2 a 1 em Caxias do Sul e por 2 a 0 em Lucas do Rio Verde. “A cidade está em festa”, declarou o site do Globo Esporte de Mato Grosso.

O Luverdense ficou na Série B por quatro anos (2014 a 2017). Sua melhor colocação foi o nono lugar em 2016. No ano seguinte, foi rebaixado para a Série C. Mas o futebol mato-grossense não ficou muito tempo ausente da Série B. Já no ano de 2018 o Cuiabá Esporte Clube chegou às quartas-de-final da Série C. O adversário nessa fase decisiva da competição foi o Atlético do Acre. O Cuiabá, após vencer a primeira partida na Arena Pantanal e empatar a segunda no Estádio Florestão (Rio Branco), se classificou para a Série B de 2019.

Luverdense e Cuiabá, os dois clubes de Mato Grosso que chegaram à Série B na década de 2010, eram clubes novos, profissionalizados depois do ano 2000. Eram a nova geração do futebol profissional mato-grossense, que surgiu após a crise dos clubes tradicionais (Mixto, Dom Bosco e Operário de Várzea Grande).

Essa nova geração enfatizava a ideia de que um clube de futebol profissional precisava ser uma empresa desportiva eficiente e devia abandonar os improvisos típicos do amadorismo. O Cuiabá, por exemplo, foi comprado em 2009 pelo grupo empresarial Dresch e passou a ser tratado exatamente como uma empresa desportiva. Aliás, orgulha-se por ser o primeiro clube-empresa do futebol de Mato Grosso. Em entrevista à ESPN, o vice-presidente do Cuiabá, Cristiano Dresch, referiu-se à agremiação como uma “empresa saneada e enxuta”, não um clube saneado e enxuto. Uma empresa sem atraso no pagamento de salários, sem acúmulo de dívidas e sem outros problemas que marcaram os clubes tradicionais por tantos anos. As expectativas, então, eram boas.

Na Série B de 2019, o Cuiabá ficou em oitavo lugar com 52 pontos. Causou boa impressão e, no ano seguinte, a confiança cresceu. Thiago Mattos, do canal mato-grossense Chaco Bola (YouTube), arriscou que o Cuiabá chegaria a 60 pontos na Série B. Errou por pouco. O Cuiabá somou 61 pontos (17 vitórias e 10 empates em 38 partidas), ficou em quarto lugar e subiu à Série A de 2021.

Festa no vestiário: Cuiabá subiu à Série A. Fonte: G1 Mato Grosso

Cuiabá em festa

A grande festa do Cuiabá Esporte Clube aconteceu na penúltima rodada da competição. Em Maceió, o CSA enfrentou o Brasil de Pelotas. Esse jogo terminou com o placar de 1 a 1, o que garantiu a classificação do clube cuiabano entre os quatro melhores da Série B. A ótima notícia foi dada aos atletas do Cuiabá quando eles ainda estavam se aquecendo para enfrentar o Sampaio Corrêa naquela mesma noite. Jogadores e dirigentes comemoraram no gramado da Arena Pantanal e, minutos depois, o time estava pronto para mais uma partida oficial. Os torcedores, impedidos de entrar no estádio em razão da pandemia da Covid-19, vibraram e soltaram fogos de artifício nas ruas próximas ao local da partida.

O feito do Cuiabá foi tamanho que até os rivais o parabenizaram. Operário de Várzea Grande, Dom Bosco, União de Rondonópolis e Luverdense publicaram na internet as suas felicitações pelo êxito. O governador do Estado se manifestou entusiasmado: “Que alegria! Que alegria! Que alegria! (…) Estou muito alegre. Se Deus quiser, vamos fazer bonito no ano que vem”. O prefeito de Cuiabá também saudou a ascensão do clube da cidade à Serie A. A rede hoteleira cuiabana começou a rever suas projeções para 2021.

Dom Bosco parabeniza o Cuiabá. Fonte: internet

Em 5 de outubro de 1986, o Operário de Várzea Grande foi derrotado pelo Vasco da Gama no Estádio de São Januário. Derrotado com goleada: 6 a 0. Foi a última partida disputada por um time mato-grossense na primeira divisão nacional. A próxima será em breve. E o Cuiabá Esporte Clube acredita que pode obter resultado bem melhor.

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Webinar reflete sobre a obra de Ronaldo Helal

O webinar “Futebol, Sociologia e Comunicação – reflexões sobre a obra de Ronaldo Helal” acontece de 3 a 5 de março, das 14 às 16h. Com a presença de pesquisadores da área, como Pablo Alabarces, Bernardo Buarque de Holanda, Daniela Araújo, José Carlos Marques, Luiz Henrique de Toledo, Filipe Mostaro, Édison Gastaldo, Leda Costa e Sérgio Giglio, o evento discutirá a obra do coordenador do LEME (Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte) Ronaldo Helal. “Confesso que estou bastante honrado e lisonjeado. Eu acho tudo isto muito estranho, porque não me vejo desta forma, mas fico muito, muito feliz”, diz o homenageado.

O webinar faz parte das comemorações dos 30 anos da edição do livro O que é Sociologia do Esporte. Considerado um dos marcos dos estudos em Sociologia do Esporte no Brasil, o livro, editado pela Editora Brasiliense, esgotou em pouco tempo após o lançamento e marcou gerações de pesquisadores. Em linguagem acessível, atinge também graduandos, que têm a oportunidade de se inserir no tema. “Ano passado, já fui homenageado pelo LEME, que fez um podcast, com alguns depoimentos, sobre esse livro que escrevi para a Coleção Primeiros Passos. Ao ver aqueles depoimentos e ver que influenciei vários pesquisadores importantes, eu já fiquei muito emocionado”, relembra Helal.

O evento é organizado por LEME, FGV e Portal Ludopédio, e, para assistir as discussões, é necessária a inscrição prévia no site do CPDOC (acesse aqui).

Acompanhe a programação:

03/03 – 14 às 16h

Mesa 1: Argentinos e franceses: os “outros” do futebol brasileiro
Pablo Alabarces (Dep. Antropologia Universidade de Buenos Aires/UBA)
Bernardo Buarque (Escola de Ciências Sociais/FGV-CPDOC)
Mediação: Daniela Araújo (doutoranda PPHPBC/FGV)
 
04/03 – 14 às 16h

Mesa 2: Idolatria no futebol e seu avesso: as mil faces do herói esportivo
José Carlos Marques (Dep. Comunicação/UNESP)
Luiz Henrique de Toledo (Dep. Antropologia/prof. titular UFSCar)
Mediação: Filipe Mostaro (Prof. Dr. LEME/UERJ)
 
05/03 – 14 às 16h

Mesa 3: Narrativas midiáticas da nação: apogeu e crise da Seleção em Copas do Mundo
Édison Gastaldo (Centro de Estudos de Pessoal/Forte Duque de Caxias)
Leda Costa (Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte/UERJ)
Mediação: Sérgio Giglio (UNICAMP/Portal Ludopédio)

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Lutador e Peronista


Por Cesar Torres* e David M. K. Sheinin**

Nascido em 1976 no bairro portenho de La Paternal, F relata uma experiência muito comum na comunidade judaica argentina. Seu pai morreu quando tinha oito anos. Entretanto, foi na vida adulta que tomou conhecimento de um segredo profundo do qual seus familiares haviam falado apenas em sussurros: seu pai, um operário industrial, havia sido peronista.

Não foi simplesmente como se seu pai tivesse se “equivocado” como seguidor judeu de Juan Domingo Perón, mas sim que sua identidade peronista envergonhava aos familiares. Este trabalhador industrial representou a antítese à ascensão da classe média judaico-portenha. A história que F contou corresponde com a imagem do jornalista Jacobo Timerman no livro Timerman: el periodista que quiso ser parte del poder. A autora, Graciela Mochkofsky, conecta a identidade judaica de Timerman (e de outros judeus argentinos) à modernidade do século XX, associada com os ideais liberais do século anterior, originados na França napoleônica, e aos princípios de cidadania completa e livre para os judeus na Europa.

Em seu livro Los muchachos judíos peronistas, o historiador Raanan Rein demonstra que a distância entre os judeus e o peronismo era um mito. Enquanto muitas pessoas ainda associam Perón com o antissemitismo, antes de Rein não havia sido apresentado de forma tão contundente que dentro da comunidade judaica houve um apoio notável a Perón. Levando em conta a insistente associação do peronismo com a identidade argentina, o mito do distanciamento entre a comunidade judaica e o peronismo constata o tom preconceituoso quando ela é apresentada como estrangeira. Los muchachos judíos peronistas explica que o peronismo é também parte da história da comunidade judaica argentina no século XX. Perón declarou explicitamente que a etnia judaica – assim como a árabe ou a japonesa – não diminuiria a identidade argentina. Ao contrário, o peronismo representou o primeiro movimento político argentino que afirmou a argentinidade das diferentes comunidades étnicas e religiosas. Para muitos argentinos judeus, o peronismo ofereceu uma entrada livre de dúvidas à nova sociedade argentina – a Nova Argentina de Perón na fórmula partidária – forjada a partir dos anos quarenta.

Fonte: eraseperonia.com

O esporte peronista

Perón praticou todo tipo de esporte, desde boxe à esqui, desde esgrima ao motociclismo. Mais do que reforçar sua própria masculinidade com o cultivo de uma imagem pública de atleta vigoroso, Perón chegou à presidência com uma visão de inclusão social que incorporava o esporte para beneficiar as classes populares. Os dez anos peronistas foram, segundo o antropólogo Eduardo Archetti, “exemplares e não houve, posteriormente, outras intenções sistemáticas de vincular o esporte com a nação através de políticas estatais claras e articuladas”. Além da participação de milhares de jovens nos Jogos Evita e da organização de espetáculos desportivos como os primeiros Jogos Desportivos Pan-americanos de 1951 e da construção de infraestrutura esportiva como o Autódromo Municipal, Perón apoiou a muitos atletas, desde boxeadores de bairros até automobilistas famosos. O boxeador José María Gatica, por exemplo, era o favorito de Perón. Seu laço com o peronismo ia mais além desse apoio, Gatica se autoidentificou com o movimento e a noção de que o público o percebia como peronista marcou um pertencimento social e cultural que excedia a política que o movimento promovia. Como lutador, como trabalhador e como uma pessoa que buscava a vida bem-sucedida, Gatica representava a esperança que a classe trabalhadora associava com a Argentina do futuro sob a tutela do peronismo. Da mesma forma, quando Evita Perón apoiou a equipe do Club Atlético Banfield no campeonato de futebol masculino da primeira divisão de 1951, essas mesmas qualidades foram reconhecidas em jogadores pouco conhecidos do subúrbio de Buenos Aires: lutadores, trabalhadores e batalhadores.

León Genuth um lutador judeu argentino que se destacou a nível nacional e interacional durante o peronismo exemplificou as qualidades citadas. Relembrando seus treinamentos do começo dos anos cinquenta, disse que “convivia com muito entusiasmo e sacrifício”. Manifestou, por exemplo, que “se a eletricidade fosse cortada, sem acovardar-se, as velas eram colocadas ao redor dos tapetes nas cadeiras, para não parar a atividade e continuar o treinamento; também, na maioria das vezes, tínhamos que tomar banho frio em pleno inverno”; Genuth admitiu que “sempre tomei como meu o lema macabeu ‘¡Jazaak Veematz!’ (seja forte e valente), que guiou minha vida e minha atividade desportiva”. Essa dedicação estava em consonância com a ideia que Perón tinha do esporte. Em uma carta enviada aos desportistas argentinos que participariam nos Jogos Desportivos Pan-americanos de 1951, grupo do qual Genuth fazia parte, Perón expressou aos atletas que “defender as cores sagradas da nossa bandeira em um evento esportivo pressupõe a mesma honra e o mesmo sacrifício que fazê-lo em qualquer outra ocasião. A pátria se defende de uma só maneira: com toda a alma, com toda a vida”. E completou: “lembre companheiro que nessa defesa você é a síntese de todo um povo”, para salientar que “nos esportes, como em todas as coisas da vida, se vence com a cabeça, se chega com o coração e se chega ainda mais longe com a vontade tenaz e inflexível de vencer”.

A carreira esportiva de León Genuth

Ainda que tenha nascido na Província de Entre Rios em 1931, Genuth se desenvolveu como lutador na Organização Hebraica Argentina Macabi da cidade de Buenos Aires. Destacou-se rapidamente tanto no estilo livre como no greco-romano. Em 1949, ainda tendo idade da categoria juvenil, foi campeão argentino de peso médio em ambos os estilos, título que manteve por vários anos. Por esse rendimento foi selecionado para competir no ano seguinte na Terceira Macabeada, a primeira celebrada no Estado de Israel, estabelecido em 1948. Era a estreia argentina nesse festival, que promove as tradições, a identidade e a solidariedade judaica através do esporte. Genuth obteve o primeiro lugar em seu peso, em ambos estilos. De acordo com o testemunho do lutador, Pablo Manguel, dirigente da Organização Israelita Argentina, e embaixador argentino em Israel entre 1949 e 1954, dedicou seus triunfos sobre o tatame a Perón, quem o havia designado para o cargo. O historiador Ignacio Klich afirma que Manguel, o primeiro latino-americano com cargo de embaixador naquele país, fazia parte “de um pequeno grupo de judeus peronistas”.

Na volta à Argentina, Genuth conheceu Perón através de Rodolfo Valenzuela, presidente da Confederação Argentina de Esportes-Comitê Olímpico Argentino. Perón entregou-lhe um troféu e perguntou se o lutador estava concentrado em Ezeia, onde havia sido erguido um centro de treinamento descrito como “um laboratório do triunfo”, com o plantel que competiria nos Jogos Desportivos Pan-americanos no começo de 1951. Como não fazia parte desse plantel, Valenzuela disse-lhe que passaria umas férias com a equipe de luta. Genuth respondeu que não lhe interessavam as férias, mas sim ter a possibilidade de participar das provas seletivas que determinariam a confirmação final da equipe. Foi lhe dada a permissão, Genuth foi selecionado e ganhou a medalha de ouro no estilo livre na divisão de 79kg. No ano seguinte, Genuth foi membro da delegação argentina nos Jogos Olímpicos de Helsinki, onde obteve o sexto lugar no mesmo estilo e divisão. Seu último combate foi em 22 de julho, quatro dias antes do falecimento de Evita Perón. El Gráfico anunciou “que a delegação argentina recebeu um duro golpe com a notícia”. Já o Mundo Deportivo informou que “em Helsinki se chorou a porta-bandeira dos humildes” e que aqueles “dias nebulosos e tristes, foram desconcertantes e angustiantes para os jovens integrantes da delegação argentina”.

Em 1953, Genuth competiu na Quarta Macabeada, organizada pela segunda vez em Israel, onde manteve os títulos obtidos em 1950. Da mesma maneira, nos segundos Jogos Desportivos Pan-americanos, organizados em 1955 na Cidade do México, Genuth defendeu com sucesso o título obtido em Buenos Aires quatro anos antes. Tudo indicava que tinha grandes chances de se destacar nos Jogos Olímpicos de 1956 que seriam realizados em Melbourne. O mesmo lutador recordou tempos depois que figurava em primeiro no ranking nacional para representar a Argentina no evento. Entretanto, a destituição de Perón pela ditadura civil-militar autodeterminada Revolução Libertadora, quase seis meses depois de sua volta do México, frustraria suas aspirações. Os líderes da Revolução Libertadora pretendiam expulsar o peronismo da vida nacional, incluindo o esporte. Para isso, formaram uma comissão que investigou supostas irregularidades no funcionamento das federações desportivas nacionais e atos considerados em violação ao código amador durante a década peronista. Desta maneira, foram suspendidos, por um processo irregular, arbitrário e vingativo, um grande número de dirigentes e atletas. Até outubro de 1956, Genuth figurava como membro da delegação que viajaria a Melbourne. Porém, a poucos dias de embarcar na viagem, foi excluído dela. Genuth explicou que “a desculpa foi que ao ter ganhado no ano anterior os Jogos Pan-americanos no México, teriam que investigar se (os melhores representantes de vários esportes) estavam competindo por regalias”. Segundo o jornalista Dante Panzeri, “de León Genuth não existiam provas de ter recebido a quarta parte de um carro dos que foram distribuídos aos campeões pan-americanos no México”. Mas, prosseguia Panzeri, quem apoiava, em suas palavras, a “Revolução que há mais de um ano pôs fim a uma longa noite da vida argentina”, como “(Alberto) Longarella (outro lutador que também havia ganhado uma medalha de ouro no México) declarou que teria repartido com pessoas entre as quais estava Genuth, e ali ele caiu”.

Para o historiador Roberto Baschetti, após a amarga provação, Genuth “foi para o exílio empurrado pelos ‘libertadores’”. Entre 1957 e 1959, Genuth trabalhou no México e nos Estados Unidos ensinando luta e em sua volta à Argentina assumiu o comando na Sociedade Hebraica Argentina. Em pouco tempo, a Federação Argentina de Luta o designou como treinador da seleção nacional, preparando equipes para vários eventos internacionais. Em 1967, Genuth foi contratado para desenvolver a luta livre no Peru, onde morou por dez anos. Ao retornar à Argentina, se encarregou da luta livre na Organização Hebraica Argentina Macabi, e a Federação Argentina de Luta o designou como treinador de todas as seleções nacionais.

Um lutador peronista

A vitoriosa carreira desportiva de Genuth, assim como seu final repentino, coincidiu com a década peronista. Dessa maneira, esteve marcada pelas diretrizes, políticas e dificuldades do governo de Perón. Genuth foi o desportista judeu argentino de maior relevância durante esse período e, talvez, um dos mais transcendentes da história nacional. Não se tem conhecimento de pronunciamentos públicos sobre sua posição a respeito do peronismo. Em relação a sua exclusão, pela Revolução Libertadora, da delegação que competiria nos Jogos Olímpicos de Melbourne em 1956, Genuth declarou criticamente “que se afastou do amadorismo (e não seguiu competindo) por dar-se conta da politização do esporte”. Qualquer que tenha sido sua posição a respeito do peronismo, sua figura representou, nas palavras de Rein, a legitimação peronista do “mosaico de identidades de diferentes grupos étnicos (e religiosos) no seu país” e a semelhança, por exemplo, entre ser um bom argentino e ser um bom judeu. A coincidência de sua visão de esporte com a de Perón não é surpreendente. É nesse sentido que Genuth pode considerar-se como um lutador peronista. Assim, foi símbolo da integração social promovida pelo peronismo sem ter que renunciar ao componente judaico de sua identidade. Com Genuth, e a partir do impulso do peronismo, os esportistas judeus passaram a formar parte da polis desportiva argentina. Uma crônica do Mundo Deportivo sobre o torneio de luta dos Jogos Desportivos Pan-americanos de 1951 mencionava sua medalha de ouro e destacava sua atuação no ano anterior na Terceira Macabeada. A revista também ressaltava que, graças à destreza dos lutadores nacionais e ao estímulo do público, “a vitória geral foi nossa”. Genuth, um lutador argentino judeu peronista, era um deles.

Texto originalmente publicado no site Erase Una Vez En Peronia no dia 27 de janeiro de 2021.

* Cesar Torres Doutor em filosofia e história do deporte. Docente na Universidade do Estado de Nova York (Brockport)

** David M. K. Sheinin Duotor em história. Docente ma Universidade de Trent.

Tradução: Leticia Quadros e Fausto Amaro

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Dois anos do incêndio no Ninho do Urubu: algo mudou nas categorias de base brasileiras?

No próximo dia 8 de fevereiro de 2021 completam dois anos do incêndio no alojamento das categorias de base do futebol do Clube de Regatas do Flamengo. Naquela madrugada, dez jovens morreram e outros tantos ficaram feridos em decorrência das instalações improvisadas e dos falhos protocolos de segurança oferecidos pelo clube aos seus jovens atletas.

Dois anos após a maior tragédia da história do futebol de base do Brasil, as investigações e responsabilizações dos culpados ainda caminham de forma lenta. Somente no início de 2021, quase dois anos após o incidente, a justiça recebeu denúncia e tornou réus onze pessoas, entre elas o ex-presidente do clube Eduardo Bandeira de Mello. No que tange as indenizações pelo incêndio, as negociações com muitas famílias se arrastaram por mais de um ano e meio, sendo que, ainda existem famílias que não conseguiram entrar em acordo com o clube.

O incêndio no alojamento da base do Flamengo no Ninho do Urubu foi o evento mais trágico, mas infelizmente não foi o único no Brasil. Outros ocorreram anteriormente e foram tratados pela mídia com igual atenção. Isso nos mostra que, os problemas que afetam as categorias de base no Brasil são muito mais amplos que a tragédia no Ninho do Urubu e, não se resumem a ela. É difícil, mas temos que reforçar que não se trata de um caso isolado. Quando nos vemos frente a um fato tão traumático e amplamente noticiado pelos veículos de imprensa normalmente vemos surgir debates e cobranças sobre como podemos evitar situações parecidas.

Relatórios encomendados pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) em 2018 sobre as categorias de base do futebol no Brasil apontam para existência de pouca estrutura física e organizacional para acolher os jovens atletas em formação. Isso significa ausência de alojamentos, refeitórios, profissionais para o acompanhamento diário e até mesmo documentação válida para se responsabilizarem por esses jovens. Além disso, reportagens vinculadas na mídia, bem como documentários dão conta do descumprimento da legislação vigente por parte de muitos clubes. Entre as principais infrações estão: Não matricular os atletas em escolas, mantê-los em condições análogas à escravidão, entre outras. Os problemas citados são potencializados pela pouca fiscalização dos órgãos governamentais e esportivos.

Diante disso, o que mudou na legislação e/ou na fiscalização das categorias de base brasileiras de 2019 para cá? Infelizmente a comoção da tragédia não se traduziu num movimento político-social em torno de uma maior regulamentação por parte dos direitos dos jovens atletas e da fiscalização dos centros de treinamento.

esportes.r7.com

Juridicamente nada foi proposto à nível municipal, estadual ou federal para que houvesse maior regulamentação sobre os centros de treinamento ou para que a condição de jovem atleta fosse tipificada nas leis para protegê-los melhor.

No Brasil, os jovens atletas continuam vivendo numa situação de subinclusão decorrente de inúmeras lacunas no direito brasileiro. A legislação reconhece a profissionalização, a educação, o lazer e a dignidade como direito dos jovens, mas inexiste a figura do atleta com vistas à profissionalização esportiva. As especificidades enfrentadas pelo jovem atleta em formação não são encaradas como necessárias a um tratamento particular a ponto de prover todos os seus direitos fundamentais, entre eles o direito à profissionalização.

A tragédia do Ninho do Urubu não conseguiu jogar luz sobre o debate dos problemas jurídicos acerca da efetivação dos direitos dos jovens atletas em formação. Mantem-se a estrutura pontuada pelos “emaranhados legais”, no qual diversas legislações citam tangencialmente determinados grupos sociais como possuidores de direitos, mas não se criam legislações específicas de proteção a esses grupos.

O reconhecimento das especificidades de certos grupos encontra vários exemplos na legislação brasileira. É sabida a existência de legislações específicas que abarcam as mulheres, os idosos, as crianças e outros grupos sociais. Essas legislações especificas visam tratar a situação de vulnerabilidade social na qual esses grupos se encontram.

A legislação brasileira contempla o jovem trabalhador, o jovem aprendiz e o jovem estudante, mas mostra-se lacunar pela ausência de um dispositivo que trate a especificidade do jovem que almeja a profissionalização esportiva. Infelizmente esse debate não foi proposto após uma tragédia de proporções tão grandes.

A CBF tão pouco preocupou-se em estabelecer uma política nacional de formação de base, ou pelo menos fomentar uma política descentralizada e estadual de formação, por meio das federações locais. Limitou-se apenas a manter a certificação dos clubes brasileiros por meio do “certificado de clube formador” (CCF), mas sem impor sanções esportivas ou jurídicas àqueles que não obtivesse o selo proposto por ela. Atualmente no universo de aproximadamente 776 clubes profissionais no Brasil, menos de 50 possuem o certificado que atesta as condições básicas para o acolhimento dos jovens e desenvolvimento da prática esportiva.

pressfut.com

A situação mencionada mostra como as categorias de base no Brasil necessitam de fiscalização, contudo nenhum órgão foi criado nesse sentido. Basicamente o que vemos é a atuação quase heroica dos ministérios públicos do trabalho dos estados na investigação de denúncias nos centros de treinamentos Brasil a fora. Com destaque para o MPT de Minas Gerais e do Rio de Janeiro.

O cenário exposto nos mostra que a tragédia ensinou pouco ou quase nada aos clubes brasileiros, os gestores do futebol e aos legisladores do Brasil. Momentos de dor são normalmente oportunidades de reflexão e crescimento, mas o Brasil mais uma vez perdeu a chance de avançar e debater um assunto que envolve o sonho de milhões de crianças país a fora.

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Estaria Portugal recolonizando o Brasil?

Todo mundo já deve ter respondido a pergunta “quem descobriu o Brasil?” alguma vez na vida. A resposta certeira, “Pedro Álvares Cabral”, confirma o laço incontornável que une terras lusitanas e tupiniquins.

A história, em geral, é contada de forma romantizada colocando os colonizadores na posição de heróis, quando, na verdade, sabemos que não foi bem assim. O que se firmou em 1500 foi um vínculo entre colonizadores e colonizados que perdurou durante séculos anos a fio. Mesmo depois da Independência decretada por D. Pedro II, essa noção de atraso e subserviência continuou – e continua – marcante na atmosfera nacional. Não à toa uma das máximas de Nelson Rodrigues para justificar o comportamento brasileiro continua a fazer sentido até hoje. Sofríamos, segundo o escritor, de um “complexo de vira-latas”.

Se a relação entre Brasil e Portugal é marcada por certo ar de superioridade português, no futebol essa situação é diferente. Em vinte confrontos entre as duas seleções, são treze vitórias canarinhas e apenas quatro lusitanas. O Brasil, em número de grandes jogadores revelados e nível de dificuldade dos campeonatos nacionais é muito superior a Portugal. Entretanto, em 2019, “o jogo virou”. Devido ao meteórico e inquestionável sucesso do português Jorge Jesus a frente do Flamengo, os caminhos de Brasil e Portugal voltaram a se cruzar de forma mais intensa. Começou-se um questionamento imediato da qualidade dos técnicos brasileiros e uma corrida pela contratação de comandantes estrangeiros.

E foi exatamente mais um português que, no dia 30 de janeiro de 2021, sagrou-se campeão da Taça Libertadores da América. Torneio cujo nome é uma homenagem à libertação das nações da América do Sul. Irônico, não? As duas últimas conquistas da Libertadores tiveram como protagonistas duas figuras portuguesas colocando suas mãos na taça. Mãos diferentes das que chegaram aqui séculos atrás para nos colonizar, mas com o mesmo objetivo: a conquista da América.

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A vitória agora não era a única coisa que importava. Entrou em jogo a nova palavra da moda – performance. Uma das novas palavras da moda entrou em jogo. Encantar, vibrar, marcar. Todos em busca do modelo que JJ implantou no Flamengo em poucos meses de trabalho. Com essa expectativa, o olhar do Brasil se voltou novamente para a Europa em busca de outro técnico que repetisse o sucesso de Jesus. Na temporada de 2020, a série A do Campeonato Brasileiro bateu o recorde de técnicos estrangeiros. Um quarto dos times foi comandado por profissionais de outra nacionalidade. Foram eles: Eduardo Coudet (Internacional); Jorge Sampaoli (Atlético-MG); Domenéc Torrent (Flamengo); Ricardo Sá Pinto (Vasco) e Abel Ferreira (Palmeiras). Todos, exceto Sá Pinto, têm (ou tiveram), em seus clubes um aproveitamento superior a 60%. E, destaca-se, dois desses cinco técnicos estrangeiros são portugueses.

A minha posição nesse texto não é, de forma alguma, criar uma espécie de “nós contra eles”. Eu acho, sinceramente, maravilhosa e necessária a abertura de olhar do mercado brasileiro para o estrangeiro. Entretanto é inevitável a pergunta: ficaremos olhando técnicos estrangeiros dominarem nosso futebol? Novamente, não proponho esse questionamento por ser contra nenhum técnico estrangeiro. A questão não é de onde vêm, mas sim o que fazem. Entristece-me perceber que, quando olhamos para os técnicos que temos, não consigamos listar mais do que cinco (se tanto) que sejam de alto nível. Tite? Diniz? Cuca? Renato? Ceni? Nenhum é consenso. Com todo respeito aos “professores” brasileiros que comandam seus times, está na hora de fazer uma autocrítica, de entender que o futebol requer trabalho, que o modelo “paizão” está ultrapassado, que variações táticas são necessárias, que respeitar as características de cada jogador é essencial, e, principalmente, que estudar é parte importantíssima do ofício. E não é apenas sobre estudar o time adversário. É estudar o futebol. E de forma contínua.

Os técnicos estrangeiros são uma realidade. Resta ver o que os técnicos brasileiros farão diante disso. Ficaremos sentados sobre o famoso complexo de vira-latas ou absorveremos novas fontes como potência e estudo para termos um mercado nacional de técnicos igualmente competitivo? Espero que o Campeonato Brasileiro continue a ser fonte de um intercâmbio de ideias, estilos e técnicos, mas que isso também venha a fortalecer o nosso mercado interno. Nem todos os técnicos de outros países terão sucesso. Nem todos os brasileiros deixarão de ser campeões. Teremos trabalhos bons e ruins para todos os lados, mas inevitavelmente de 2019 para cá o olhar para esse grupo mudou. Não é sobre a busca desesperada por um técnico de outro país. E nem sobre a necessidade de algum brasileiro ser melhor do que eles. É sobre refletir o que estamos fazendo por aqui. Na coletiva depois da conquista da Libertadores, Abel Ferreira disse: “não há bons treinadores sem bons jogadores”. É uma daquelas frases que entra para o clube do ovo e da galinha. Bons jogadores nós temos. E muitos. Talvez nos faltem os treinadores…

Se for para o bem do futebol e felicidade geral dos torcedores, que os portugueses (e técnicos de quaisquer nacionalidades) possam ficar por aqui. E que possamos estabelecer uma relação de troca e simetria em prol do espetáculo.