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Piscinas de ondas: mídia, consumo e novas territorialidades do surfe

Frame do comercial do condomínio Praia da Grama. Agência Ginga.

Esportes considerados de aventura, como o surfe, são esportes que tendem a expandir o espaço esportivo, pois usualmente não são praticados em ambientes fechados ou artificiais, como as quatro linhas de um campo de futebol (MASCARENHAS, 2003). Por exemplo, a descoberta de novas ondas em novos picos[1] é um fato gerador de motivação para os surfistas ao apresentar novos desafios e até novos perigos, e essa busca contínua está arraigada à cultura do surfe que foi eternizada no filme de 1964 chamado The Endless Summer, assim como em uma das campanhas publicitárias mais emblemáticas do esporte, a The Search, da empresa de surfwear Rip Curl.

Em ambos, e em boa parte da comunicação relacionada ao esporte, a narrativa, o cenário e a estética são similares: surfistas aventureiros viajando o mundo atrás de ondas perfeitas, nunca surfadas, sem crowd[2], em paraísos distantes e isolados. Esse sonho faz parte do imaginário de gerações de surfistas, mas pode ser que comece a mudar com a proliferação de piscinas de ondas como a projetada pelo onze vezes campeão mundial Kelly Slater, localizada no Surf Ranch, no interior da Califórnia, ou como as que estão desembarcando no Brasil, a Praia da Grama, inaugurada em julho de 2021, situada em um condomínio de luxo no interior de São Paulo[3], mais duas que estão em fase de construção: a Surfland, que fica em Garopaba, Santa Catarina, outra, também no interior de São Paulo, dentro do condomínio Boa Vista Village, e mais uma que está planejada para começar a ser construída em 2023 na capital de São Paulo, no São Paulo Surf Club.

Estas piscinas são capazes de gerar ondas de até dois metros de altura desenhadas com o auxílio de supercomputadores para que tenham características específicas que se adaptem ao nível de experiência dos surfistas, sejam eles iniciantes, intermediários ou profissionais. Dessa forma, podem ser menores e mais lentas para facilitar o aprendizado, tubulares para proporcionar um tubo limpo e profundo, triangulares e com junções para a execução de aéreos altos e manobras de alta performance. Na Praia da Grama, por exemplo, a tecnologia pode produzir mais de trinta tipos de ondas, com características completamente diferentes entre elas.[4]

Enquanto isso, na natureza a capacidade de gerar ondas perfeitas é reduzida e um dia de mar clássico[5] é raro, pois é necessário um alinhamento de uma série de condições como ondulação, vento, maré e perfil do fundo para que a mágica aconteça[6]. Ou seja, ter ondas semelhantes ou até melhores que as encontradas na natureza a um simples apertar de botões sugere que a busca pela onda perfeita talvez tenha chegado ao fim. Com a novas piscinas de ondas desaparece a incerteza de quando será possível surfar o próximo mar inesquecível, assim como alguns valores historicamente incorporados no imaginário dos surfistas também saem de cena, como a conexão com a natureza e aventura de encontrar mais uma onda espetacular e “selvagem”. Portanto, essas piscinas podem começar a ressignificar a cultura do surfe de uma maneira geral, mas os seus desdobramentos e possibilidades não param por aí.

Em relação aos aspectos do espetáculo esportivo e midiático, o surfe sempre foi um esporte problemático devido a escassez de infraestrutura tecnológica em lugares remotos para realização das transmissões, o caráter impreciso das condições climáticas (qualidade das ondas, que podem impedir a realização da etapa; neblina, que pode dificultar que os juízes enxerguem e julguem os atletas), a imprevisibilidade de incidentes, como casos envolvendo tubarões[7], o julgamento subjetivo e a dificuldade de entendimento pelos fãs. Dirk Ziff, dono da World Surf League, a WSL[8], relatou as dificuldades em um discurso, em 2018:

Esperar que o oceano nos traga as condições ideais tem sido uma questão. Tal como a cultura do acesso gratuito. Os fãs de outros esportes sabem que a transmissão inicia às 3h de sábado à tarde, e não em algum momento dos próximos 12 dias quando o comissário faz a chamada. E os eventos ocorrem em arenas e estádios lotados. Se todos os horários de início da competição fossem completamente incertos e a participação fosse gratuita, gostaria de saber quantos esportes seriam bem-sucedidos hoje? A capacidade miraculosa de se tornar nosso próprio distribuidor de difusão, enviando notificações e transmitindo ao vivo para dispositivos móveis e de desktop em todo mundo, foi essencial para a nossa missão (…). Os eventos ainda são mais longos do que a maioria dos bons swells, e vários dias de lay day podem ser um matador para a empolgação da audiência. Imagine um jogo de basquete que faz uma pausa no intervalo e será retomado em algum ponto desconhecido nos próximos dias. Quantos fãs permaneceriam envolvidos?[9]

Com o novo ambiente estável e previsível das piscinas um leque de possibilidades se abriu para o mercado, como a realização de competições com data e hora marcada, que reduz os custos de produção do evento e viagem dos atletas e suas equipes, que podem fazer reservas com mais precisão[10], possibilidade de cobrança de ingressos, venda de comidas e bebidas, venda de publicidade e direitos de transmissão (CAVALCANTI, 2018). Não é à toa que desde 2016 a WSL se tornou sócia majoritária do Surf Ranch[11]e desde então já realizou três etapas do circuito mundial no local. Segundo a ex-CEO da entidade, Sophie Goldschmidt, a piscina de ondas é uma importante aposta para tornar a primeira liga do surfe mundial lucrativa[12]. Mas a despeito do suposto sucesso operacional, alguns atletas e espectadores se queixaram da monotonia tanto em surfar quanto em assistir uma competição de surfe em uma piscina. O surfista profissional sul-africano Jordy Smith disparou: “não é tão emocionante para os telespectadores depois de assistir o décimo surfista voltar para o tubo por mais dez segundos. É o evento mais desinteressante da turnê.”[13]    

Na perspectiva nacional, essas piscinas estão surgindo atreladas a empreendimentos de luxo, como condomínios e resorts, e são vendidas como equipamentos âncoras que se destacam na publicidade desses locais entre esportes voltados paras as classes mais altas, como golfe, tênis e hipismo, o que nos leva a crer que há um deslocamento simbólico em curso, que está transformando a prática esportiva do surfe em objeto de desejo a ser consumido pela elite como um novo estilo de vida. É certo que hoje, no contexto mundial, o surfe brasileiro vive um dos seus melhores momentos: o país é uma das três grandes potências no esporte e já garantiu cinco títulos mundiais, três com Gabriel Medina, em 2014, 2018 e 2021, mais um com Adriano de Souza, o Mineirinho, em 2015, e outro com Ítalo Ferreira, em 2019[14].

Praia da grama. Fonte: Waves.

Após a estreia do surfe nos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020 e a vitória histórica de Ítalo Ferreira, a quantidade de fãs de surfe no Brasil saltou de 14 milhões de indivíduos, em 2013, para 45 milhões em 2021.[15] Mas esses não parecem ser os únicos motivos para atrair investimentos da ordem de centenas de milhões de reais[16] de incorporadoras como a KSM[17], de Oscar Segall, para a criação cópias hipe-reais da natureza (ECO, 1984). Há uma fetichização da praia ideal, hipermoderna, hiperespetacular (LIPOVETSKY; SERROY, 2015), segura, onde os muros deixam tudo que não é desejado na natureza estetizada do lado de fora: os perigos do mar, a poluição, os ambulantes.

Neste sentido, mais do que ser uma solução para uma demanda crescente por um recurso escasso e valorizado pelos surfistas, as ondas perfeitas, as novas piscinas de ondas são bens que quando consumidos assumem usos, valores e papeis distintos na nossa sociedade, e portanto, aprofundar as investigações sobre esse fenômeno que está em curso pode ser útil para ampliar os estudos em comunicação e antropologia do consumo.


Referências

CALDEIRA, Teresa Pires do Rio. Cidade de muros: crime, segregação e cidadania em São Paulo. São Paulo: Edusp, 2000.

ECO, Umberto. Viagem na irrealidade cotidiana / Umberto Eco; tradução de Aurora Fornoni Bernardini e Homero Freitas de Andrade – Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 1984.

LIPOVETSKY, Gilles; SERROY, Jean. A estetização do mundo. Viver na era do capitalismo artista. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

MASCARENHAS, G. . A leviana territorialidade dos esportes de aventura: um desafio à gestão do ecoturismo. In: BRHUNS, H.; MARINHO, A. (Org.). Turismo, lazer e natureza. Campinas: Manole, 2002, v. 1, p. 75-99.

PISCINA dos sonhos. Direção: Rosaldo Cavalcanti. Brasil: 2018


[1] A definição de pico utilizada por Alves Neto (2011) demonstra como as territorialidades no surfe podem ser flexíveis: “Defino como uma territorialidade móvel, fluida e flexível, que surge a partir das condições oceânicas e é delimitado pelas relações de sociabilidade entre os surfistas. O pico pode ser pensado como um território do vazio (CORBIN, 1988) que é criado e recriado por e pelas ondas e por e pelas relações sociais (ALVES NETO, 2011, p. 121).

[2] Aglomeração de surfistas em um mesmo pico, motivo de disputas acirradas por ondas.

[3] Itupeva, cidade próxima de Campinas.

[4] Disponível em: <https://www.praiadagrama.com.br/tecnologia/&gt;. Acesso em: 22 maio 2022

[5] Dia com boas ondas.

[6] Segundo o historiador Matt Warshaw: “As diferenças de onda para onda são quase infinitas, mas os princípios básicos da formação e deslocamento das ondas são constantes: ventos de tempestade sopram pela superfície do oceano e criam uma transferência de energia para a água; a energia é parcelada, armazenada, organizada e transmitida ritmicamente nos oceanos e mares circundantes até atingir águas rasas (geralmente um litoral, muitas vezes a milhares de quilômetros de distância da fonte da tempestade) e liberar a energia como ondas quebrando” (WARSHAW, 2005, p. 684). 

[7] “Após ataque de tubarão, WSL anuncia que feminino mudará de local no Havaí; Pipe é uma opção.” Disponível em: <https://globoesporte.globo.com/radicais/surfe/mundial-de-surfe/noticia/apos-ataque-de-tubarao-wsl-anuncia-que-feminino-mudara-de-local-no-havai-pipe-e-uma-opcao.ghtml&gt;. Acesso em: 14 jan. 2021

[8] Entidade que representa a divisão de elite do surfe.

[9] Disponível em: https://www.waves.com.br/variedades/novidade/dirk-ziff-dono-da-wsl-abre-o-jogo/&gt;. Acesso em: 22 maio 2022

[10] Atualmente os campeonatos utilizam uma janela de duas semanas para que as disputas sejam realizadas nas melhores condições do mar.

[11] Disponível em: <https://www.uol.com.br/esporte/surfe/ultimas-noticias/2018/09/06/de-olho-em-olimpiada-piscinao-de-kelly-slater-inicia-nova-era-do-surfe.htm&gt;. Acesso em: 14 jan. 2021

[12] A Association of Surfing Professionals (ASP) foi comprada em 2014 pelo bilionário americano Dirk Ziff. um dos herdeiros do magnata da mídia William Ziff Jr. Desde então, a WSL vem tendo dificuldades de encontrar formatos atrativos que possam torná-la lucrativa. Disponível em: <https://www.waves.com.br/variedades/novidade/dirk-ziff-dono-da-wsl-abre-o-jogo/&gt;. Acesso em: 22 maio 2022

[13] Disponível em: <https://beachgrit.com/2021/06/why-did-surf-ranch-fail-as-wave-pool-tech-and-as-a-contest-so-spectacularly-a-dull-ache-of-unrealised-desire-at-the-deathless-sight-of-that-impossibly-perfect-wave/>. Acesso em: 7 ago. 2021

[14] Disponível em:<https://ge.globo.com/radicais/surfe/mundial-de-surfe/noticia/confira-a-lista-dos-campeoes-do-circuito-mundial-de-surfe.ghtml&gt; Acesso em: 8 maio 2022 

[15] Disponível em: <https://www.waves.com.br/variedades/novidade/pesquisa-do-ibope-recorde-de-fas-do-brasil/&gt;. Acesso em: 11 ago. 2022

[16] A piscina da praia da Grama custou R$180 milhões. Disponível em: < https://exame.com/casual/com-praia-artificial-de-700-metros-condominio-em-sp-anuncia-ultimos-lotes/&gt;. Acesso em 14 ago. 2022

[17] Empresa que construiu a piscina do condomínio Praia da Grama.

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Futebol: do patrocínio na camisa à era digital

O futebol parece estar finalmente aflorando para o mercado digital. Desde quando o Flamengo, em 2008, foi o primeiro clube a investir num canal do Youtube para cá, o que parecia ser visionário é quase que quesito obrigatório. Além dos perfis nas redes sociais, a criação das TVs de clubes tem sido uma realidade. O que ainda não está bem claro é como monetizar, ou seja, como fazer com que as redes sociais e os canais no Youtube sejam parte importante do planejamento orçamentário dos clubes. Pensando nisso, entrevistei dois ex-vice presidentes de Marketing de Flamengo e Vasco, Daniel Orlean e Bruno Maia, respectivamente.

Quando falamos da mídia digital, temos a questão da valoração. Tratando-se de uma mídia tangível, como, por exemplo, os patrocínios em uniformes, chegar ao resultado da equação valor + preço parece mais fácil. Mas quando pensamos no digital, ainda há muito o que se estudar, como aponta Bruno Maia:

Falando de maneira geral, um veículo – qualquer que seja ele, blog, TV – para gerar receita é um projeto de médio prazo, precisa gerar audiência e relevância e gestão do contato com a sua audiência. A VascoTV agora passou a ter uma plataforma própria e ela também funciona muito no Youtube, o que limita muito. Óbvio que se consegue algo com anúncio, mas parte da receita fica no Youtube. No começo é bom porque o Youtube já tem toda a estrutura e seria um alto investimento para o clube. Por exemplo, o patrocínio de camisas do clube que leva x minutos da Vasco TV, isso é ruim. A gente precisa fazer uma valoração do quanto vale aquele minuto. Tratar como complemento para vender uma mídia principal. O ideal seria saber qual o valor mensurável disso para realmente vender um pacote.

Fazendo um paralelo com a declaração de Bruno e com o que explica De Marchi (2018), os clubes entraram na lógica dos derivativos. Como ressalta o autor, as transações virtuais acontecem graças ao algoritmo, que é um conjunto de regras que fornecem resultado específico a partir de fórmulas matemáticas e dividem as informações em distintos fragmentos ou atributos, desenhando cenários possíveis. Desta forma, as plataformas digitais têm se valido das técnicas do mercado de derivativos.

De forma geral, programam-se algoritmos proprietários (de código fechado) para que fragmentem um ativo subjacente em diferentes atributos, utilizando parâmetros que lhes permitem tornar comparáveis entidades aparentemente incompatíveis. Em seguida, recompõem-se tais atributos num composto derivado, uma unidade informacional abstrata. Tal como ocorre no mercado de arbitragem, a este produto atribui-se algum valor monetário, a partir do qual outros compostos serão avaliados em seu valor intrínseco. Assim, uma ampla gama de práticas sociais se torna passível de codificação, pois são padronizadas e intercambiáveis (DE MARCHI, 2018, p. 204).

Transportando essa lógica para o futebol, se você segue um clube na rede social, por exemplo, podem aparecer anúncios de produtos deste mesmo clube em outras plataformas na rede. É como se você deixasse as suas pegadas e fosse construindo um caminho a ser seguido pelas empresas de materiais esportivos ou até mesmo pelo próprio clube. A partir dos seus dados, o conteúdo vai sendo retroalimentado. Desta forma, como nos conta Orlean, há a possibilidade de chegar ao público digital de maneira mais precisa:

Eu consigo dizer: eu quero atingir as mulheres de 25 a 35 anos, com este produto, os homens de 18 a 25 com este produto. Ou seja, trabalhar a informação digital dos meus torcedores. De maneira macro, eu não sei quem são os 40 milhões de torcedores, mas no digital, mesmo sendo, vamos supor, 6 milhões, eu consigo ter mais informações sobre ele. Já o esporte eletrônico, ele nasce digital, com target, eu sei quem é cada pessoa que está assistindo aquela partida porque ela assiste pela Twitch TV, comenta durante o jogo. O esporte eletrônico já veio com este modelo e fomos tentando adaptar ao futebol tradicional. Sair da visão de broadcasting, de transmitir para todo mundo e não sei para quem, para uma visão mais individualizada, mais digitalizada, e aí a gente consegue rentabilizar de várias formas. Eu rentabilizo porque posiciono a marca digitalmente, rentabilizo porque eu converto clientes de forma muito mais específica, rentabilizo porque eu consigo licenciar aquele conteúdo de várias formas diferentes, rentabilizo porque a própria plataforma me paga, seja o Youtube, seja o Twitch TV. 

Desta forma, ocorre uma segmentação de público-alvo e este público, digital, pode gerar também patrocinadores que estão nesta ambiência. É o caso do Vasco, que fechou parceria com a plataforma de apostas NetBet e com o banco digital da BMG, como conta Maia: “O Vasco foi o primeiro clube a ter um site de apostas como patrocinador. Parceiros com natureza mais digital acabam valorizando e tendo mais percepção da importância das mídias digitais”.

Já o Flamengo fechou, em abril de 2021, contrato com a empresa Mercado Livre: 30 milhões por 18 meses, ou seja, 1,5 milhão por mês[1]. No mesmo mês, o clube fez parceria pontual com a Amazon Prime Vídeo, para a partida final da SuperCopa[2], o que pode ainda se tornar, no futuro, uma parceria efetiva, apesar do fechamento do contrato com o Mercado Livre que, de certa forma, é concorrente em alguns segmentos de mercado da Amazon. Maia analisa o potencial dessa parceria:

Em relação ao patrocínio do Flamengo com a Amazon, eu acho promissora por um lado e problemática por outro. Uma empresa que trabalha com dados como a Amazon é bem vista no futebol. A maior marca de fãs do Brasil unida com a maior marca do mundo de tratamento de dados é lógico que você está falando de uma coisa com potencial absurdo. Mas você tem dezenas de complexidades que vão desde cultura de empresa, modelos estruturais de negócios, de cada um destes stakeholders, é uma empresa na bolsa de valores, uma das maiores do mundo e a outra é uma empresa política, que os acionistas são sócios estatutários, o presidente eleito a cada três anos. Você tem uma série de desafios a estruturar uma parceria como essa. É um terreno quase virgem no futebol brasileiro a exploração de dados em favor do negócio. É uma promessa grande em se tratando de teoria, mas não é simples.

Maia aponta ainda que o mercado do futebol no Brasil ainda é muito tradicional:

O futebol circula com patrocinadores que também têm uma visão que combina com a visão velha do futebol. Então é muito comum como passamos anos apresentando o digital como algo complementar à mídia principal, os próprios patrocinadores tinham pouco interesse sobre essas informações. Você lida com marcas menores no futebol brasileiro. No tempo que eu estive, nenhuma das 40 maiores empresas do país estava no futebol brasileiro. E eles usam atalho pra falar com o público pela televisão. Até as empresas digitais a gente tinha que mostrar os dados. Quanto mais digital o futebol for e tiver mais cases, ele vai conseguir atrair estes patrocinadores. 

Sendo assim, podemos dizer que a presença dos clubes na ambiência digital ainda encontra entraves na própria maneira de pensar o mercado de divulgação de produtos e serviços. Podemos inferir que, a partir do momento que os patrocinadores perceberem que podem obter lucros por meio da financeirização da vida cotidiana do próprio torcedor, ou seja, observarem que os hábitos cotidianos deles na rede são informações valiosas, mais contratos serão fechados. 

Seguindo esta tendência, tem sido comum os clubes criarem produtos para suas TVs próprias, com conteúdo específico. O Flamengo lançou, em 2021, um pacote de pay-per-view do Campeonato Carioca. Segundo o site do clube, os torcedores teriam: “uma cobertura muito ampla do pré e do pós-jogo e a narração totalmente rubro-negra dos jogos do Mengão[3]”. Além da cobertura pela FlaTV, alguns jogos também foram transmitidos pela TV Record. Ou seja, os clubes perdem em receita para a TV, porque não dão exclusividade a ela, mas podem transmitir as partidas buscando patrocinadores específicos, gerenciando os seus próprios dados. Foi a primeira vez que o Campeonato Carioca foi rentabilizado de forma digital, em multiplataformas. Orlean aponta que o ideal é justamente o modelo conteúdo exclusivo + transmissão na TV aberta: 

Fonte: Olhar digital.

É uma tendência ter estes canais mais exclusivos. Mas exclusivos não tem que ser elitista. Não precisa não passar na TV aberta. Pode passar também na aberta e ter uma venda de transmissão com uma pegada mais exclusiva, com um conteúdo mais exclusivo. Porque o Flamengo cresceu muito sendo popular, se você passa a transmitir somente via streaming para pouquíssimas pessoas, você começa a perder a essência popular que o clube tinha e começa a perder em outras frentes, vai vender menos camisa, vai vender menos ingresso quando voltar, vai ter menos sócio torcedor. Não podemos ir num caminho de elitizar. Tem rubro-negro que não tem 35 reais de sócio torcedor, mas o que tem, muitas vezes não têm uma internet boa o suficiente para essas transmissões. 

A fala do ex-dirigente vai ao encontro do que diz Schradie (2017) ao apontar que as formas democráticas de participação na internet não foram confirmadas, pois a filosofia igualitária da rede se choca com as desigualdades de classe social, em uma economia de livre mercado.

Ainda assim, se pensarmos que a probabilidade é de que o acesso à internet aumente, como tem crescido nos últimos anos e que há a possibilidade de quem ganha mais, acessar mais, este mercado é um grande potencial para os clubes, como diz Maia:

A plataforma nunca cria torcedor. O que ela faz é moldar o tipo de consumo.  A TV estimula você a torcer e os streamings fazem isso também. Nos estimulam para vender o que tem de tecnologia e de escala. O futebol está descobrindo um tamanho que ele não imaginava, precisa se entender. A gente consome futebol da mesma maneira que consome uma música instrumental em Botsuana. Agora o que é hegemônico é fragmentado. As plataformas contribuem para o que todas as mídias já contribuíram, para o que é característico de nossa espécie: a contação de história, a capacidade de emocionar. Os formatos que queiram fazer, a gente vai continuar vendo futebol, provocação, rivalidade, aquilo que transcenda a nossa vida em 90 minutos. Quanto mais ferramentas e linguagens as plataformas digitais criarem para estimular este tipo de coisa, que é humano, que é a mesma coisa que o cinema estimula, que os e-sports estimulam, que a música, que a moda, religião estimulam, essa transcendência, sensação de conseguir se superar, é com as características das próprias plataformas, com o que elas tiverem, e que case com isso, o esporte vai usar bem.

Partindo dessa lógica defendida por Maia, o próprio Vasco, em março, realizou parceria com a empresa MetaSoccer, além do patrocínio no short, os torcedores poderão criar seu próprio clube e gerar renda, nesta plataforma que é a primeira com jogo de futebol dentro do metaverso. Isto faz parte do projeto que o clube tem para a esfera digital, neste novo contexto, enquanto espera a formalização da venda de 70% da Sociedade Anônima do Futebol (SAF) para o fundo de investimentos 777 Partners. Ou seja, muitas ainda são as possibilidades desconhecidas do universo digital.

BIBLIOGRAFIA

BETING, Erich. |Exclusivo: Vasco lança relatório digital de olho em venda para 777 Partners. Disponível em https://maquinadoesporte.com.br/futebol/exclusivo-vasco-lanca-relatorio-digital-de-olho-em-venda-para-777-partners/. Acesso em 04 maio. 2022.

BURLÁ, Leo. Flamengo terá patrocínio do Amazon Prime Video na final da Supercopa, Uol, 9 abr. 2021. Mais informações em https://www.uol.com.br/esporte/futebol/ultimas-noticias/2021/04/09/flamengo-tera-patrocinio-da-amazon-na-final-da-supercopa.htm. Acesso em 17 mai. 2021.

DE MARCHI, Leonardo. Como os algoritmos do Youtube calculam valor? Uma análise da produção de valor para vídeos digitais de música através da lógica social de derivativo. Matrizes, v 12, nº2, maio/ ago. 2018, São Paulo, Brasil, pp.193-215.

EXTRA. Flamengo é o primeiro clube brasileiro a ter canal oficial no Youtube. Disponível em: https://extra.globo.com/esporte/flamengo-o-primeiro-clube-brasileiro-ter-canal-oficial-no-youtube-551770.html. Acesso em 28 jul.2022.

FLAMENGO. Mais informações disponíveis em https://www.flamengo.com.br/noticias/institucional/flamengo-lanca-pay-per-view-para-transmissao-do-carioca-2021-em-plataforma-propria-de-streaming. Acesso em 17 maio 2021.

IBOPE REPUCOM. Ranking digital dos clubes brasileiros. Maio de 2021. Disponível em https://www.iboperepucom.com/br/rankings/. Acesso em 9 mai. 2021.

LANCE. MyCujoo vai reembolsar torcedores do Flamengo; saiba como, 5 jul. 2020. Mais informações disponíveis em https://www.lance.com.br/flamengo/mycujoo-reembolsara-torcedores-saiba-como.html. Acesso em 17 maio. 2021.

MATTOS, RODRIGO. Flamengo fecha com Mercado Livre após negociar com concorrente Amazon, Uol, 27 abr. 2021. Mais informações disponíveis em https://www.uol.com.br/esporte/futebol/colunas/rodrigo-mattos/2021/04/27/flamengo-fecha-com-mercado-livre-apos-negociar-com-concorrente-amazon.htm?cmpid=copiaecola. Acesso em 17 mai. 2021.

MOROZOV, Evgeny. Big Tech: a ascensão dos dados e a morte da política. São Paulo: Ubu, 2018.

SCHRADIE, Jen. Ideologia do Vale do Silício e desigualdade de classe: um imposto virtual em relação à política digital. Parágrafo, jan / jun 2017, v 5, nº1, São Paulo, 2017.

TIC DOMICÍLIOS, maio de 2021. Disponível em https://cetic.br/pt/tics/domicilios/2019/domicilios/A4/. Acesso em 17 mai. 2021.

VASCO. Vasco e MetaSoccer iniciam parceria de patrocínio e licenciamento. Disponível em https://vasco.com.br/vasco-e-metasoccer-iniciam-parceria-de-patrocinio-e-licenciamento/. Acesso em 04 ago. 2022.


[1] Mais informações disponíveis em < https://www.uol.com.br/esporte/futebol/colunas/rodrigo-mattos/2021/04/27/flamengo-fecha-com-mercado-livre-apos-negociar-com-concorrente-amazon.htm?cmpid=copiaecola>. Acesso em 17 mai. 2021.

[2] Mais informações em < https://www.uol.com.br/esporte/futebol/ultimas-noticias/2021/04/09/flamengo-tera-patrocinio-da-amazon-na-final-da-supercopa.htm>. Acesso em 17 mai. 2021.

[3] Mais informações disponíveis em < https://www.flamengo.com.br/noticias/institucional/flamengo-lanca-pay-per-view-para-transmissao-do-carioca-2021-em-plataforma-propria-de-streaming>. Acesso em 17 maio 2021.

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A Copa do Mundo masculina e as escolas

A importância de pensar a competição como um fato cultural transcendente que vale a pena abordar a partir das instituições de ensino. Um olhar a partir da antropologia e da filosofia.

O ministro da Educação da Nação, Jaime Perczyc, foi questionado há alguns dias sobre o que as escolas fariam durante a Copa do Mundo masculina que ocorrerá no fim do ano no Catar. Sobre isso, ele afirmou: “Acreditamos que as partidas da Argentina devem ser exibidas nas escolas e repletas de conteúdo”. E acrescentou que o evento “é uma excelente oportunidade para despertar o interesse e para trabalhar vinculando questões de ética, história, ciências sociais, geografia, literatura ou matemática”.

As declarações de Perczyc dão continuidade a uma saudável iniciativa que o ministério apoiou ao menos nas últimas quatro edições do mundial masculino. Desde 2006, publica, como esclareceu a cartilha daquele ano, “material didático (para explorar a Copa do Mundo) para todas as escolas do país”. Quatro anos depois, a publicação destacou que tinha “um objetivo claramente definido e que é transformar a Copa do Mundo de 2010 em uma oportunidade educacional”. Em 2014, Perczyc, então Secretário de Educação do país, indicava: “A escola pode se apropriar dessa enorme oportunidade pedagógica” e é capaz de “incluir nas salas de aula as experiências que nos fazem ser quem somos”. A apresentação da última publicação, em 2018, destaca que o torneio é um evento cultural transcendente que as escolas deveriam abordar.

Nessa iniciativa, subjaz uma concepção de esporte, proposta pelo antropólogo Clifford Geertz, como um texto (uma estrutura simbólica criada e sustentada coletivamente) por meio do qual as pessoas contam histórias sobre si mesmas. Seu colega Eduardo Archetti dizia, de forma diferente, mas com pontos de contato: o esporte é um espelho para se ver e ser visto. Essa atividade, prosseguia, é “um espaço para a produção de imaginários, símbolos e heróis”. Ver-se e ser visto implica, nos termos de Geertz, narrar-se. Dessa forma, o futebol, por sua popularidade, se articula como um texto digno de interpretação, porque nele se manifesta o ethos (ou caráter) de um povo. Por essa razão, Geertz argumentou que o esporte é um tipo de educação sentimental onde se aprende esse ethos. Assim, Perczyc explicou que o futebol nos faz ser quem somos.

“É possível, e muito proveitoso, fornecer conteúdo para a próxima Copa do Mundo masculina, articulando o futebol como um texto, bem como uma prática social intrinsecamente valiosa.”

A concepção geertziana de esporte é adequada para que os professores forneçam conteúdo à Copa do Mundo masculina. Abordar e investigar o que o futebol, nacional e internacional, nos diz abre ricas oportunidades para vinculá-lo a diferentes áreas do currículo atual. Afinal, entende-se melhor como se manifesta o ethos nacional no mundial masculino de futebol, e como nos familiarizamos com ele e com suas complexidades, analisando sua história, suas dimensões sociais, políticas e econômicas, bem como suas relações com outros textos como a música, o cinema ou a literatura. Geertz propunha que as sociedades contêm, nos esportes e demais textos, suas próprias interpretações. “A única coisa necessária”, afirmou, “é aprender a maneira de ter acesso a elas”. A articulação pedagógica cuidadosa e contínua da Copa do Mundo masculina nas escolas contribui para esse aprendizado.

Fonte: Terra

Apesar de suas vantagens, a concepção geertziana de esporte tende a ser complementada pela ênfase em sua lógica constitutiva e sua moralidade interna, questões que podem ser perdidas de vista ou relegadas ao enfatizar que é um meio de dizer “algo sobre algo”. Seguindo o filósofo Alasdair MacIntyre, pode-se argumentar que o esporte é uma prática social. Ou seja, é uma atividade coerente e complexa, de caráter cooperativo, com bens internos (aqueles que só se materializam pela prática em questão – no caso do futebol, suas habilidades e táticas), padrões de excelência e virtudes. Os dois primeiros elementos são importantes porque, ao constituí-los e defini-los, conferem às práticas sociais uma identidade própria e única.

O terceiro porque permite sua manutenção e prosperidade. Neste sentido, o esporte é intrinsecamente valioso. Reconhecê-lo como tal abre a possibilidade de levar uma vida significativa marcada pelo seu cultivo e enobrecimento. Essa perspectiva do esporte também deve fazer parte do conteúdo que os professores fornecerão na próxima Copa do Mundo masculina. O evento facilita e convida a explorar o lugar que deveria ocupar o futebol em uma vida satisfatória, o que significa viver o futebol com sucesso ou que tipo de satisfação emerge de uma vida futebolística.

“Geertz argumentou que o esporte é um tipo de educação sentimental onde  se aprende o ethos de um povo.”

É possível, e muito proveitoso, fornecer conteúdo para a próxima Copa do Mundo masculina articulando o futebol como texto e como prática social intrinsecamente valiosa. Isso, como destacou Alberto Sileoni, então Ministro da Educação do país, em 2014, deve ser feito criticamente e questionando preconceitos, para fazer suas próprias perguntas, evitando estereótipos e “remontando uma realidade mais ampla, mais rica e, sobretudo, enraizada nos valores de liberdade, justiça e democracia”. Somente assim se “aproveita, educativamente, essa genuína paixão nacional”. A chave é quebrar as maneiras pelas quais, muitas vezes, o esporte marginaliza.

As recentes declarações de Perczyc foram feitas durante a Copa América feminina. Infelizmente, esse torneio só é acessível com uma assinatura de um canal de televisão a cabo. Seria acertado que as assimetrias de gênero no futebol, que invisibilizam a categoria feminina, fizessem parte da iniciativa do Ministério da Educação. A cartilha elaborada para o mundial masculino de 2018 explicava que “nos últimos tempos, as mulheres vêm conquistando espaços de participação ao derrubar barreiras que as excluíam e as renegavam”. No entanto, apesar desses avanços, ainda estamos longe da igualdade de gênero. Quando chegará o dia em que as autoridades educacionais permitirão e incentivarão a assistir às partidas mais importantes da seleção feminina de futebol nas escolas? Afinal, o futebol feminino também diz algo sobre a sociedade e forma um horizonte vital para suas praticantes.

* Cesar Torres é doutor em Filosofia e História do Esporte. Professor da State University of New York (Brockport).

Texto originalmente publicado pelo site Página 12 no dia 23 de julho de 2022

Tradução: Anabella Léccas e Fausto Amaro

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E torcedor entende de futebol?

A pergunta provocativa surge a propósito do antagonismo, aparentemente cada vez mais crescente, entre as expectativas de torcedores dos mais variados times e os diagnósticos de treinadores e do jornalismo esportivo. Não é incomum que vaias ou críticas nos estádios e nas redes sociais sejam apontadas por jornalistas esportivos como fruto do “imediatismo do torcedor” e sejam seguidas de conclamações, como a de que é “preciso dar tempo para o treinador mostrar os frutos do seu trabalho”. 

Embora o resultado dessa tensão pareça soar um tanto esquizofrênico – se só um time pode ser campeão e, se para um time vencer, o outro tem de perder, a conta não tem como fechar – é possível, no entanto, admitir que determinadas reclamações dos torcedores são críveis e portadoras de alguma consistência. Apesar de, teoricamente, um trabalho de médio e longo prazo ter mais chances de mostrar resultados, essa não é uma tese que independa da qualidade do treinador contratado. 

Afinal, como ensina um antigo ditado do mercado publicitário a melhor forma de destruir um produto ruim é expô-lo ao máximo. Ou seja, o torcedor não precisa esperar ver o seu time sofrer por cinco rodadas para ter a convicção – com grande margem de acerto – de que um determinado técnico não tem condições de produzir resultados. Um exemplo emblemático foi a apresentação de Waldemar Oliveira como treinador do Flamengo, em outubro de 2003. 

Uma rápida busca no Google por “O novo técnico do Flamengo é o senhor Waldemar”, pronunciada pelo então diretor de Futebol do clube, Eduardo Moraes, confirma que a reação da torcida rubro-negra ao anúncio virou um dos memes mais longevos do futebol. No entanto, para além do folclore, o tempo confirmou que os torcedores tinham razão para recusarem a contratação. Waldemar foi demitido, em dezembro daquele mesmo ano, após dirigir o time por apenas 11 partidas. O breve desfecho mostrou que os torcedores não precisavam esperar dois meses para formar seu juízo sobre a inconveniência da contratação, contrariando os tradicionais pedidos do jornalismo esportivo por mais tempo para os treinadores desenvolverem seu trabalho.

Fonte: Lei em Campo.

O mesmo feeling torcedor vale para determinadas contratações apresentadas como reforços que “precisam de tempo para mostrarem seu futebol”. Com poucas exceções que servem para reforçar a regra, muitos desses “reforços” costumam ser recebidos com desconfiança que, não raro, se confirma. Obviamente, que todas as torcidas erram, e muito, como confirma a perseguição de torcedores do São Paulo ao então jovem Kaká, cujo desempenho oscilava enquanto maturava o desenvolvimento do talento que viria a exibir na Europa, onde recebeu o prêmio de melhor jogador da temporada, que o forte marketing europeu promoveu a “Melhor jogador do mundo”. 

No entanto, embora possa errar e, eventualmente, não entender de meandros da técnica, o torcedor tem uma espécie de sentimento de que as coisas não vão dar certo, seja numa partida ou numa competição. Tal sentimento parece vir da experiência empírica forjada no acompanhamento do mesmo clube temporada após temporada, jornada que, não rara, começa na infância e vai sendo maturada, mas não desidratada com o passar dos anos.

Além disso, ele tem vantagens comparativas simbólicas e concretas sobre o jornalismo esportivo e, eventualmente, até sobre o treinador do momento: conhece a história do clube e segue de perto seus jogadores. O técnico, embora por obrigação profissional deva estudar o maior número de times, seja por ser um adversário, seja por ser um potencial futuro empregador, nem sempre tem a mesma compreensão do ethos do clube, não raro, tão ou mais decisivo para o desenvolvimento do trabalho do que seus méritos táticos, como comprovam declarações vistas como depreciativas pelos torcedores, principalmente quando envolvem comparações com os rivais que estes julgam desfavoráveis. 

Já o jornalismo esportivo se limita a acompanhar um número reduzido de clubes, basicamente os três grandes da capital de São Paulo e o Flamengo, no Rio, com acréscimos residuais de intrusos que se apresentem numa fase excepcional, situação que não afeta o espaço destinado aos quatro eleitos. 

Tais escolhas podem ser conferidas, tanto nos espaços extremamente assimétricos destinados nas mesas redondas ao quarteto num Campeonato Brasileiro com 20 clubes, dos quais, ao menos 12 tradicionais nacionalmente, quanto em comentários aleatórios nas transmissões de partidas de times fora do quarteto. Assim, vemos comentaristas, como Roger Flores, pedindo, para surpresa e revolta dos alvinegros que, num jogo da segunda divisão do ano passado em que o Botafogo lutava, no fim de uma partida, para conter o ímpeto do adversário para manter o resultado positivo , a entrada do He Man, que, próximo da aposentadoria, trotava em campo.

As percepções, cada vez mais divorciadas, entre jornalismo esportivo e torcedores são alimentadas, ainda, pelo fato de as ponderações para que os segundos reduzam suas expectativas de curto prazo sofram modulações diferentes quando a mesma questão apresenta-se em relação a outros times, em geral superestimados, tanto por seus torcedores, quanto por jornalistas.

A interseção do clubismo entre pontas que, oficialmente, se apresentam de lugares de fala diferentes, porém, está cada vez mais exposta na era da polifonia palavrosa e prolixa das mídias digitais. E também ajuda a explicar, ao menos parcialmente, o processo de erosão da credibilidade do jornalismo esportivo, que, durante muito tempo, foi reconhecido como autoridade sênior na matéria. Embora, por tratar-se de universo catártico como o futebol, tal poder sempre tenha sido passível de questionamentos, parece indiscutível que gozava de reconhecimento bem superior ao do que, ainda, lhe resta na era das mídias sociais.

O crescimento dos questionamentos à isenção dos profissionais desse campo contribui para o aumento das fricções quando se trata de analisar a expectativa dos torcedores em relação à performance dos seus times. Tem-se o choque entre torcidas (quase) permanentemente insatisfeitas com suas equipes e os pedidos de “moderação” e “paciência” de jornalistas esportivos, que, no entanto, não estendem tais conclamações aos torcedores de determinados clubes, percebidos pelos demais como favorecidos pela cobertura da imprensa.

É preciso, ainda, reconhecer que, enquanto tenha aparecido aqui como sujeito único, o torcedor ou a torcida deve ser visto como ente plural que engloba uma polissemia de fatores constitutivos do futebol, como idiossincrasias em relação a determinados jogadores, análise do nível dos adversários, maior ou menor tolerância a críticas ao seu time. No entanto, mesmo com a ressalva de que não deve ser considerado um ser monolítico nem muito menos infalível, o torcedor também tem as suas razões e, por vezes, mostra um número de acertos nas suas críticas superior ao dos movimentos prospectivos do jornalismo esportivo, principalmente quando este acompanha aquele clube apenas de forma panorâmica e/ou bissexta.

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O sucesso dos Clubes brasileiros na Libertadores para além do fator econômico.

Na última semana, o jornal Clarín, principal periódico argentino, suscitou o debate sobre a predominância cada vez maior dos clubes brasileiros na Copa Libertadores da América. Tal discussão também fora realizada anteriormente por analistas brasileiros e por diversos produtos de entretenimento esportivo nas televisões e rádios. 

As avaliações no Brasil, normalmente habitam dentro de um consenso de que o destaque das equipes do nosso país é, atualmente, maior do que eram nas últimas décadas. Diante do exposto, justificam que a principal razão para isso, deve-se ao poderio econômico dos clubes brasileiros frente aos rivais sul-americanos, cada vez mais fragilizados pelo valor do câmbio e do desenvolvimento econômico frente ao Brasil.

Ao analisar os dados sobre a Copa Libertadores da América deste século, ou seja, de 2001 até a atualidade, e os contextos político-esportivos do continente, podemos concluir que tais afirmações não conseguem captar por completo o fenômeno de ascensão dos clubes brasileiros ao posto de hegemônicos no continente.

O primeiro ponto a ser desconstruído é aquele sobre um destaque apenas recente das equipes brasileiras na Copa Libertadores. Neste século, das vinte e uma edições realizadas, os brasileiros estiveram em dezesseis finais, sendo que, em quatro dessas, fizeram uma final brasileira, respectivamente em 2005, 2006, 2020 e 2021. Os clubes brasileiros estiveram fora das finais apenas em 2001 (Boca Jrs X Cruz Azul); 2014 (San Lorenzo X Nacional); 2015 (River Plate X Tigres); 2016 (Atlético Nacional X Ind. Del Valle) e 2018 (Boca Jrs X River Plate). Isso significa que em 77% das finais deste século, os clubes brasileiros estiveram presentes e saíram vitoriosos em onze decisões, perfazendo 53% das edições do século vinte e um.

Fonte: Placar.

Posta essa questão, deveríamos dizer que o destaque dos clubes brasileiros, pelo menos nos últimos vinte e um anos sempre esteve presente, mas agora verificamos um aprofundamento do processo, rumo a uma hegemonia brasileira dentro da Copa Libertadores da América.

No século vinte e um, o Brasil possui destaque e protagonismo na Copa Libertadores da América com a disputa de seguidas finais, mas, normalmente, os clubes que alcançaram as decisões faziam campanhas solitárias, em que somente eles chegavam às fases mais agudas como representantes brasileiros. 

Entre 2001 e 2016, a quantidade de clubes brasileiros que alcançaram as quartas de final oscilaram entre dois e três participantes em catorze oportunidades, sendo a exceção as edições de 2012, 2010 e 2009 quando quatro representantes ocuparam as oito vagas possíveis da competição naquele momento. Cabe ressaltar, que, nesse mesmo período, a presença de clubes de diferentes países da América latina era muito mais acentuada. Verifica-se a partir de 2016, uma concentração das vagas entre os clubes brasileiros e argentinos com a tentativa de alternados clubes paraguaios, uruguaios, equatorianos e colombianos de transpor esse cenário.

A resposta, dada por muitos analistas esportivos, reside no argumento econômico do investimento acelerado e crescente feito pelos clubes brasileiros na última década. Tal argumento se baseia no aumento da arrecadação dos clubes, nos investimentos em estrutura e na contratação de jogadores destacados na América do Sul, bem como no repatriamento de atletas da Europa na liga brasileira. 

O argumento econômico é valido, mas não ajuda a explicar totalmente o avanço do processo hegemônico dos clubes brasileiros na Copa Libertadores da América. Durante o século vinte e um foram diversos os casos de clubes brasileiros que, com orçamento e estrutura muito superiores aos seus adversários sul-americanos, se viram eliminados de forma surpreendente na competição. 

Entre os casos mais emblemáticos temos as eliminações do Corinthians para o Tolima na pré-libertadores de 2011, a do Flamengo para o Racing nas oitavas de 2020, a do Corinthians para o Guaraní do Paraguai nas oitavas de 2015, a do Atlético Mineiro para o Jorge Wilstermann da Bolívia em 2017 e a do São Paulo para o Talleres na pré-libertadores de 2019. Os elementos comuns entre todas elas foram a diferença dos elencos e os investimentos realizados pelos clubes brasileiros e seus adversários.

Caso o argumento exclusivamente econômico se sustentasse, essas eliminações seriam exceções na história da Copa Libertadores neste século. Contudo, os exemplos florescem em quantidade e frequência. É importante salientar que das cinco vezes em que estiveram fora das finais da Copa Libertadores neste século, quatro delas ocorreram de 2010 para cá, quando os dados sobre investimentos dos clubes brasileiros já evidenciavam desequilíbrio financeiro do futebol na América latina.

Fonte: Mercado do Futebol.

Não se discorda que o fator econômico é relevante no avanço do processo de hegemonia do futebol brasileiro na Copa Libertadores da América, mas existem outros elementos a serem considerados. Um deles é a saída dos clubes mexicanos da competição desde 2016 para participarem somente do torneio organizado pela Concacaf. Não é por acaso que a partir da saída dos mexicanos da Copa Libertadores em 2016, as quartas de final passaram a ser “duopolizadas” por Brasil e Argentina com um mínimo de seis times entre os oito melhores.

A saída dos times mexicanos da competição trouxe duas consequências importantes para o torneio. A primeira foi a abertura de mais vagas para o Brasil e a Argentina, que passaram a ter sete vagas e não mais quatro, como era antes. A segunda consequência foi a retirada de um país que possui times com alto investimento dos clubes, bem como uma liga profissional fortalecida. O efeito combinado possibilitou que os dois países com mais investimento (Brasil e Argentina), herdassem vagas dos mexicanos e, ao mesmo tempo, tivessem menos concorrentes com a capacidade de investimentos que eles pudessem fazer.

Não foi apenas a questão econômica que proporcionou um avanço da hegemonia do Brasil na Copa Libertadores da América, mas também a movimentação de peças no tabuleiro político da CONMEBOL, com vistas a criar uma concentração de vagas nas duas federações mais influentes.

Em conjunto com aspectos econômicos e políticos, podemos verificar uma gradual transformação nos padrões táticos de jogo dos clubes brasileiros nos últimos dez anos, mas, em especial, de 2018 para cá. Influenciados pela chegada de técnicos estrangeiros da Europa e da América do Sul, algumas ideias sobre posicionamento, treinamentos, parte física e tática vem ganhando espaço nos clubes brasileiros. O intercâmbio de ideias vem oxigenando práticas e, paulatinamente, substituindo a concepção acerca da imutabilidade do futebol fora das quatro linhas.

A mudança no fator tático é um ponto importante, pois, nas diversas eliminações de clubes brasileiros na Copa Libertadores para adversários considerados de investimento mais modesto, a aplicação do time estrangeiro e a disciplina tática dos atletas foi vista como um elemento preponderante para a vitória da equipe adversária.

Diante do exposto, é preciso repensar algumas máximas contemporâneas do futebol e relativizar o fator econômico no processo de construção da hegemonia dos clubes brasileiros na Copa Libertadores da América. Outros fatores de ordem política, comportamental e tática precisam ser considerados para construir esse mosaico em conjunto com o fator econômico, considerado o elemento exclusivo para o sucesso do Brasil. 

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“Ganhar ou perder, mas sempre com democracia”

“O Brasil hoje é uma casa velha, antiquada, sem condições de moradia e que precisa ser demolida. Então precisamos demolir essa casa, construir outra, com concorrência pública, isso quer dizer: a população do país precisa participar dessa concorrência pra construir uma casa que se espera que seja suficiente pra se poder viver bem. E que nós possamos fazer uma casa maravilhosa.” (BRASILEIRO, s/p., 2014).

O trecho do depoimento do jogador Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira, que integra o documentário Democracia em Preto e Branco[1], do diretor Pedro Asbeg (2014), remonta à Emenda Dante de Oliveira, a qual propunha eleições diretas para presidente em 1984, após 20 anos de regime militar no Brasil. Esse trecho, recuperado em entrevista de arquivo no longa-metragem, também ilustra o momento em que a Democracia Corinthiana (DC) se consolida enquanto movimento político e não mais meramente restrito à esfera do futebol. Constituída durante a redemocratização do Brasil, a DC compreende o período que vai de março de 1981 a março de 1985, sob as duas gestões do presidente Waldemar Pires, quando foram estabelecidas regras mais flexíveis para gerir o clube e o elenco, considerando-se os jogadores como parte essencial nos processos decisórios do time: contratações, regras de concentração, consumo de bebidas alcoólicas, entre outras questões pertinentes ao dia a dia dos clubes de futebol.

Contudo, as pesquisadoras Mariana Martins e Heloisa dos Reis – autoras de um artigo que avalia os significados atribuídos ao sentido de democracia por jogadores, técnicos e dirigentes que participaram da Democracia Corinthiana – ponderam que

“esta forma de organização do clube, pensada a partir da formação de uma burocracia especializada, não tem relação direta e, tampouco, necessária com a democracia, por mais que Waldemar Pires tenha a denominado assim” (MARTINS; REIS, 2014, p. 88).

Aqui vale um adendo para salientar que a expressão “Democracia Corinthiana” em si foi criada pelo publicitário Washington Olivetto, inspirado por uma citação do jornalista Juca Kfouri, um dos pioneiros em correlacionar as conotações de liberdade do movimento ao momento político vivido pelo Brasil na época.

“Nós começamos a verbalizar o que estávamos fazendo, aí o Juca uma hora falou ‘ah, se eu tô entendendo, isso é uma democracia de corinthianos’. Ao que Juca falou, eu falei ‘puxa, achei o nome’ e anotei: democracia corinthiana.” (OLIVETTO, 2014, s/p.).

Na ótica de Martins e Reis (2014), a confluência dos movimentos pode ser explicada pelo sentido unívoco de democracia que pairava sob o país nesse período.

“Os anos de ditadura militar no Brasil fizeram com que surgisse uma expectativa unívoca com relação à democracia. A reivindicação por esta, contida na agenda da campanha das “Diretas Já”, confluiu num sentido pretensamente universal, homogeneizando os distintos significados contidos nas aspirações democráticas dos movimentos populares, sindicais e partidários.” (MARTINS; REIS, 2014, p. 85).

Enquanto o período de redemocratização se consolidava no Brasil, o Corinthians vinha de péssimas campanhas na esfera esportiva, como os fiascos nos campeonatos Brasileiro e Paulista de 1981. Com o fim da gestão de Vicente Matheus na presidência do clube, Waldemar Pires é eleito, escolhendo para o cargo de diretor de futebol o sociólogo Adilson Monteiro Alves. Pode-se dizer que a atuação de Adilson, aliada à presença de jogadores politizados no elenco do clube – liderados pelo meia Sócrates – compôs o embrião que daria origem à Democracia Corinthiana, um movimento inicialmente de cunho futebolístico que foi ganhando proporções cada vez mais políticas e sociais.

Em termos desportivos, Adilson prezava por ouvir sua equipe, de modo que as decisões do grupo fossem tomadas por meio do voto igualitário de seus membros. A opinião do diretor Adilson, portanto, valia tanto quanto a de um jogador ou de um funcionário da agremiação. E assim criou-se essa espécie de autogestão do Corinthians, na qual as decisões mais importantes envolvendo os aspectos técnicos do clube eram tomadas em conjunto, votadas democraticamente, algo bastante revolucionário para os moldes como os clubes brasileiros em geral são administrados – mais revolucionário ainda se considerarmos que no Brasil do início dos anos 1980 não se votava nem para presidente. 

Fonte: Manatí

Em depoimento para o documentário “Democracia em Preto e Branco”, que introduz esse texto, o jornalista Juca Kfouri é conclusivo ao descrever o processo de tomada de decisão que se consolidava no Corinthians: “Eram votos abertos. É claro que com a inteligência do Sócrates e do Adilson a coisa caminhava pro lado que eles caminhavam. Eu não lembro de eles terem perdido nenhuma votação.” (KFOURI, 2014, s/p.). 

Além da questão do voto para definir aspectos como contratação, regras de concentração e horários dos treinos, outros fatores socializantes emergiram na Democracia Corinthiana, a exemplo da divisão do “bicho”. Essa premiação paga em dinheiro para os atletas pelas vitórias e títulos conquistados passava agora a ser dividida com os demais funcionários do clube. 

“Massagista, auxiliar, esse pessoal mais humilde, o roupeiro… eles não participavam do bicho. E a democracia mudou essa filosofia mostrando que ela tinha uma visão um pouco de esquerda, um pouco socializante da história”. (KFOURI, 2014, s/p.). 

Também em depoimento ao longa-metragem, o ex-diretor de futebol Adilson Monteiro fala sobre a importância de seus jogadores se posicionarem politicamente naquele momento, ainda que inicialmente circunscritos à esfera futebolística. Em crítica aos modelos de gestão vigentes na época, ele relembra seu posicionamento diante do grupo ao assumir o Corinthians em 1981:

“Acho que futebol não é desse jeito, mas eu não sei como é. E gostaria que a gente descobrisse juntos uma maneira de fazer futebol, de jogar futebol, de viver futebol e, principalmente, de participar da sociedade, de participar do momento que o país tá vivendo. O país tá num momento… era a final de 81… muito duro. E vocês estão assistindo. Nenhuma participação, nenhuma opinião, sendo que, qualquer coisa que vocês digam é muito importante.” (MONTEIRO, 2014, s/p.).

Foi, portanto, dessa convergência de pensamento do então diretor Adilson com alguns jogadores do Corinthians que surgiu a revolucionária forma de gestão do clube, na qual tudo era pensado e discutido em conjunto, com o objetivo inicial de retirar o time da situação desportiva calamitosa em que se encontrava. Diversos movimentos de resistência pelo Brasil figuravam como pano de fundo da Democracia Corinthiana, a exemplo do movimento operário do ABC, liderado por Luiz Inácio “Lula” da Silva. Em depoimento ao documentário aqui citado, Lula relata que a entrada dos trabalhadores em cena pelo direito de greve e melhoria de salários também foi decisiva na luta pela democracia, considerando-se o apelo popular de dimensões cada vez maiores em torno de um mesmo objetivo: “Era um momento de êxtase de uma sociedade. Não era de um partido político ou de um governador. Era da sociedade como um todo.” (SILVA, 2014, s/p.).

“Eu lembro que eu fui ver um jogo, Corinthians x Guarani, e tinha muita gente no Morumbi, e eu tava com um grupo de companheiros e diziam assim pra mim: o dia que a gente levar essa quantidade de gente na Assembleia a gente começa a mudar a história do Brasil. E quando foi em março de 79 a gente colocou 100 mil pessoas no estádio, ou seja, foi uma coisa boa.” (SILVA, 2014, s/p.).

Ainda em depoimento ao documentário Democracia em Preto e Branco, Lula acrescenta que os jogadores que lideraram a Democracia Corinthiana – Sócrates, Casagrande e Wladimir – assumiram esse posto de líderes ao perceberem que teriam apoio da torcida corinthiana, que, segundo ele, não era uma torcida qualquer, mas, sim, “um bando de militante” (SILVA, 2014, s/p.). A conscientização política de Sócrates – “um médico, de um metro e noventa, com pé 41, que resolvia as coisas com calcanhar porque se tivesse que virar o corpo caía” (KFOURI, 2014, s/p.) – aliada ao posicionamento do líder sindical Wladimir Rodrigues dos Santos – que assumia também a lateral esquerda do Corinthians – e somada à personalidade rebelde do jovem centroavante Walter Casagrande Júnior, fizeram deste trio os porta-vozes do movimento pioneiro que alterava as relações de trabalho dentro de um clube de futebol, flertando dia após dia com o ambiente de redemocratização do país.

Sócrates considerava o atleta Wladimir como o pilar mais importante do processo, não só pelo fato de a história do lateral ser intrinsicamente atrelada ao Corinthians e pela sua atuação política como presidente do Sindicato de Atletas Profissionais de São Paulo nos anos 1970, mas, também, pelo fato de ele ser negro:  “Num país tão racista quanto o nosso, cuja cor de pele é sinônimo de riqueza ou pobreza, é fundamental que tenhamos alguém que represente a maior parte da nação.” (BRASILEIRO, 2014, s/p.). 

Casagrande, por sua vez, “era a dose de rebeldia que faltava na receita”, conforme narra a cantora Rita Lee também no referido documentário. Em um dos takes, inclusive, Casagrande, Sócrates e Wladimir relembram o icônico momento em que sobem ao palco do Ginásio do Ibirapuera em um show da cantora – que é torcedora do Corinthians – e entregam a ela uma camisa do clube[2]. Vestida “a caráter”, Rita e os jogadores aproveitam o momento para endossar sutilmente o discurso que seria a base da campanha das Diretas Já, cujo último comício, realizado em abril de 1984, reuniria cerca de um milhão e meio de pessoas no Vale do Anhangabaú.

“Nós íamos em todos os shows que tinha em São Paulo na sexta-feira, se a gente concentrava no sábado. Nós fomos ver a Blitz, Maria Bethânia, Djavan, Ney Matogrosso, Moraes Moreira, Caetano Veloso… todos os shows a gente ia. E da Rita eu falei “Pô! Da Rita tem que ir!” […] Aí eu olhei e tinha um cara no público com a camisa do Corinthians, no show né, aí eu cheguei no cara e falei assim “Ô meu! Vem cá! Cê num me dá essa camisa do Corinthians?!”, aí o cara falou “Porra, mas você não é o Casagrande?! Você joga no Corinthians, meu!”. “Mas eu não tenho a camisa. E eu quero dar a camisa pra Rita Lee!”. (CASAGRANDE, 2014, s/p.).

Nessa ocasião, Casagrande ainda convidou a cantora para comparecer à decisão do Campeonato Paulista de 1982 – contra o São Paulo no Morumbi, que ocorreria alguns dias após o show – e prometeu fazer o “gol Rita Lee”. O Corinthians venceu aquele jogo por 3 x 1, com dois gols de Biro Biro e um de Casagrande, que assim cumpriu a promessa feita para Rita, enquanto ela assistia à partida da arquibancada. Vale lembrar que, nesse mesmo período, a cena musical brasileira via nascer o chamado rock nacional, cuja produção artística, assim como a Democracia Corinthiana, dialogava bastante com o contexto de redemocratização do país. Esse novo gênero configurava-se, portanto, como uma obra bastante significativa não só do ponto de vista cultural, mas também político e social àquela época.

 “O momento em que essa geração começa a fazer o rock em português – sem se sentir um cachorro magro por isso – e começa a bater pesado, começa a ter letras muito consistentes… aquilo pra gente vira um grande estímulo. É uma voz.” (SOUZA, 2014, s/p.).

Nesse contexto, já estavam evidentes os vieses que tais fenômenos carregavam. Se a Democracia Corinthiana começou como um movimento de vestiário, seus contornos de militância ficaram claros em 1982. Segundo Sócrates, até então o movimento não era tão abertamente político. 

“Era um processo, digamos, de uma micro sociedade que tava querendo se organizar melhor pra ter condições de convivência mais satisfatórias e com expectativa de resultados melhores.” (BRASILEIRO, 2014, s/p.).

Porém, enquanto a crítica cultural elevava o rock nacional a um patamar de destaque e o Congresso Nacional aprovava por unanimidade de votos eleições diretas para os governadores estaduais, a Democracia Corinthiana já claramente politizada começava a sucumbir diante das pressões ideológicas de quem se opunha ao movimento, que chegou até a ser apelidado pelos mais conservadores como “anarquia corinthiana”. Inclusive, vale destacar que, antes mesmo de chocar essa parte conservadora da sociedade brasileira e a “estrutura carcomida do nosso futebol”, a DC chocou a imprensa esportiva em geral: “Você conta nos dedos, de uma mão, quem apoiou a democracia corinthiana.” (KFOURI, 2014, s/p.).

Sobre esse fato, Martins e Reis (2014) chamam atenção para os esforços institucionais do Corinthians em ressaltar as responsabilidades e deveres de seus atletas como elementos componentes da democracia – aqui no sentido amplo da palavra – de modo a rebater às críticas que davam um tom anárquico ao movimento.

“Tais elementos eram constantemente enfatizados pelos sujeitos do movimento alvinegro para se diferenciar de uma ideia corrente que relacionava democracia ao sentido mais corriqueiro de anarquia. […] No contexto de regime militar, as liberdades estavam restritas, de modo que a vivência delas poderia suscitar dúvidas sobre o seu conteúdo, o que alimentaria visões equivocadas sobre a mesma. Daí a necessidade de se enfatizar constantemente que sujeitos de direito também são de deveres, de modo que essa concepção precisava ser divulgada e aceita, firmando uma ideia de democracia que não se contrapusesse à ordem.” (MARTINS; REIS, 2014, pp. 92-93).

Mas, embora a Democracia Corinthiana e seu revolucionário modelo de autogestão viesse sendo contestada pelos conservadores de forma mais veemente a cada derrota do time em campo, o clima nas ruas ainda era de esperança.  Soma-se a isso o fato de o Brasil ter ido como favorito para a Copa do Mundo de 1982 na Espanha, com Sócrates de capitão. Entretanto, para a decepção de um povo que se embrionava no espírito da luta pelas Diretas Já – que viria a se consolidar nos dois anos seguintes – a Seleção volta para casa sem o título, amargando o quinto lugar no Mundial e enterrando no Estádio de Sarriá o famoso futebol-arte que tanto o distinguia.

Dentro de campo, contudo, o clube alvinegro aproveitava os momentos decisivos para reforçar seu compromisso com a Democracia Corinthiana e com a dimensão política que o movimento havia ganho. Não à toa, na final do Campeonato Paulista em dezembro de 1983 – novamente contra o São Paulo, como em 1982 – o time adentrou o gramado portando uma faixa com os seguintes dizeres: “ganhar ou perder, mas sempre com democracia”.

Fonte: Irmo Celso/Placar/ Divulgação Corinthians

As conquistas corinthianas valorizavam a equipe e começavam a pôr em xeque a permanência de Sócrates no clube, tendo em vista as propostas milionárias que chegavam para ele do futebol europeu, mais precisamente dos clubes italianos Inter de Milão, Napoli e Fiorentina. Nesse impasse, a mobilização nacional quase unânime pelas eleições diretas para presidente chegava ao seu auge com a votação da Emenda Dante de Oliveira, proposta em março de 1983 e que seria votada em abril do ano seguinte.

Foi quando, no último comício das Diretas – realizado em 16 de abril de 1984 – Sócrates prometeu que, caso a Emenda fosse aprovada no Congresso Nacional, ficaria no Brasil. Entretanto, na noite de 25 de abril de 1984, a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) nº 5 – conhecida pelo nome de seu autor, o jovem deputado Dante de Oliveira – foi derrubada em votação na Câmara por apenas 22 votos de diferença.

Foram 298 votos a favor, 65 contra, 113 ausências e 3 abstenções. Para que a Emenda fosse aprovada, seriam necessários 320 votos a favor (2/3 da Casa). Apesar do baque da derrota, a democracia brasileira se consolidaria com a Constituição de 1988, ainda que sobreviva constantemente sob ameaças. Sócrates, por sua vez, sucumbiu à amargura da derrota no Congresso e, em junho de 1984, optou por deixar o país rumo à Itália para jogar na Fiorentina. Findava-se aí o movimento que até hoje, quase 40 anos depois, retroalimenta o imaginário de popularidade arraigado ao Sport Club Corinthians Paulista.

 Em depoimento ao documentário Democracia em Preto e Branco, que embasa a discussão aqui proposta, Sócrates atribui a importância do movimento ao fato de, naquela época, o grupo ter sido capaz de discutir política com a linguagem do futebol, considerada universal e, portanto, plenamente acessível. Foi isso que, segundo ele, possibilitou a compreensão da ação política atrelada ao movimento, fazendo-o funcionar como mais um dos mecanismos propulsores da transformação que o país exigia (BRASILEIRO, 2014, s/p.).

Já Walter Casagrande recorre a uma metáfora futebolística para ponderar que a Democracia Corinthiana “nada mais fez de importante do que bater o pênalti que o time anterior tinha construído” (2014, s/p.), atribuindo a consolidação do cenário de redemocratização a todos “que lutaram desde 64, que morreram, que sumiram, que foram torturados, que foram presos […]. Eles fizeram todas as jogadas, só que na hora de bater o pênalti não tinham mais força, estavam já exaustos, de tanto apanhar.”.

Vale destacar ainda a conclusão do pesquisador José Paulo Florenzano em sua tese “A democracia corinthiana: práticas de libertação no futebol brasileiro” (2003), na qual o autor discorre sobre a DC enquanto um fator de desestabilização do paradigma do ópio do povo. Conforme o pesquisador, esse movimento foi uma maneira legítima de desvincular o futebol do sentido que corriqueiramente era atribuído à prática: uma forma de domínio cultural sobre a classe trabalhadora (FLORENZANO, 2009).

Para Martins e Reis (2014, p. 96), a “pluralidade contida na Democracia Corinthiana permite vislumbrar um momento no qual o esporte e a política estabeleceram uma relação excepcional entre si”, possibilitando que os jogadores, sob a liderança de Sócrates, se afirmassem como sujeitos históricos e políticos para exercerem seu papel de cidadão ao representarem o ideário populacional quase unânime à época: a redemocratização do país.

Sócrates, que se mudou do Brasil devido à amargura da derrota no Congresso em 1984, veria o retorno às urnas em dezembro de 1989, um ano após a promulgação da Constituição de 1988. Em entrevista de arquivo rememorada no documentário aqui citado, Sócrates é perguntado se a escolha de seu nome teve relação com o filósofo grego homônimo, um dos ícones da tradição filosófica ocidental. A resposta, em tom sagaz, poderia remeter também ao simbolismo de sua liderança no legado da Democracia Corinthiana: “É um nome que eu gosto, principalmente porque é Sócrates Brasileiro”.

Referências

ASBEG, Pedro. Democracia em Preto e Branco. São Paulo: ESPN Brasil, 2014.

BRASILEIRO, Sócrates. Depoimento em: ASBEG, Pedro. Democracia em Preto e Branco. São Paulo: ESPN Brasil, 2014.

CASAGRANDE, Walter. Depoimento em: ASBEG, Pedro. Democracia em Preto e Branco. São Paulo: ESPN Brasil, 2014.

FLORENZANO, José. A democracia corinthiana: práticas de libertação no futebol brasileiro. 2003. 306 f. Tese (Doutorado em Ciências Sociais). Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2003.

KFOURI, Juca. Depoimento em: ASBEG, Pedro. Democracia em Preto e Branco. São Paulo: ESPN Brasil, 2014.

MARTINS, Mariana; REIS, Heloisa. Significados de democracia para os sujeitos da Democracia Corintiana. Movimento. Porto Alegre, v. 20, n. 1, p. 81-101, 2014.

MONTEIRO, Adilson. Depoimento em: ASBEG, Pedro. Democracia em Preto e Branco. São Paulo: ESPN Brasil, 2014.

OLIVETTO, Washington. Depoimento em: ASBEG, Pedro. Democracia em Preto e Branco. São Paulo: ESPN Brasil, 2014.

SANTOS, Wladimir. Depoimento em: ASBEG, Pedro. Democracia em Preto e Branco. São Paulo: ESPN Brasil, 2014.

SILVA, Luiz Inácio. Depoimento em: ASBEG, Pedro. Democracia em Preto e Branco. São Paulo: ESPN Brasil, 2014.

SOUZA, Marcelo. Depoimento em: ASBEG, Pedro. Democracia em Preto e Branco. São Paulo: ESPN Brasil, 2014.


[1] O documentário Democracia em Preto e Branco é um filme longa-metragem dirigido pelo cineasta Pedro Asbeg. Lançado em 2014 em uma coprodução da ESPN Brasil com a TV Zero, o longa resgata o caráter político do movimento que ficou conhecido como Democracia Corinthiana no período da redemocratização brasileira, que culminou na campanha das Diretas Já em 1984. O filme mescla imagens de arquivo, entrevistas com os líderes do movimento (Sócrates, Casagrande e Wladimir) e depoimentos de personalidades inseridas neste contexto, como políticos, jornalistas e artistas. A narração do texto em off do documentário é feita pela cantora Rita Lee. Importante destacar que o longa começou a ser filmado em 2010, ano em que foram realizadas entrevistas exclusivas com alguns atletas, entre eles Sócrates, que faleceu em dezembro do ano seguinte, em decorrência de choque séptico.

[2] Essa história foi registrada em reportagem do Esporte Espetacular, da Rede Globo, de dezembro de 1982. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=RLYpx1BfTKY.

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Um golaço de Richarlyson ou um frangaço do futebol de homens

Na memória recente, o Flamengo de 2019, o Atlético MG de Hulk e o Palmeiras bicampeão da Libertadores podem aparecer como os grandes times dos últimos tempos no futebol brasileiro. Como clubista nada isento poderia citar o Grêmio de Marcelo Grohe, Arthur e Luan. Mas ao contrário do que pensam os jovens, o futebol já existia em anos anteriores. Na primeira década deste século, o São Paulo, campeão mundial em 2005 e tricampeão brasileiro em 2006, 07 e 08, parecia construir uma dinastia sem data para acabar. O time comandado por Paulo Autuori e, especialmente, por Muricy Ramalho teve grandes jogadores. Pessoalmente me encantava a dupla de volantes. Primeiro Josué e Mineiro. Depois, para grande surpresa mantendo a mesma qualidade, Hernanes e Richarlyson. Mais jovens, os dois últimos conseguiram tornar o meio campo ainda mais dinâmico. Richarlyson jogava e marcava com a mesma facilidade. Quando necessário, exagerava um pouco na virilidade e poderia ser excessivamente ríspido com seus adversários.

Apesar de ter sido protagonista em um meio campo campeão e de bom futebol, Richarlyson ficou marcado pela entrevista dada pelo ex-dirigente do Palmeiras, José Cyrillo Júnior, que em 2007 insinuou que o jogador era homossexual. O jogador denunciou o dirigente por preconceito, mas teve seu caso arquivado. O juiz Manoel Maximiliano Junqueira Filho, à época, “sugeriu que se o jogador fosse homossexual, ‘melhor seria que abandonasse os gramados’”.

A própria torcida do São Paulo passou a tratar o talentoso e multicampeão jogador de forma discriminatória ao não citar seu nome quando “escalava” a equipe. Um integrante da torcida organizada Independente afirmava com orgulho. “Nós mandamos o Richarlyson embora”. Segundo o torcedor, “ele [Richarlyson] manchava a imagem da instituição”. Mesmo tendo defendido Richarlyson no processo, em 2007, “o presidente do Sindicato dos Atletas Profissionais de São Paulo, Rinaldo Martorelli, também faz ressalvas. ‘Não aconselharia nenhum jogador a se assumir. É algo que traria muito desgaste à carreira’”.

Em 2012, o Palmeiras estudava a contratação do jogador. A torcida palmeirense protestou contra essa hipótese. Uma das faixas de protesto da torcida contra essa contratação dizia: “A homofobia veste verde”. Um integrante da Mancha Verde (principal torcida organizada do clube) negava o envolvimento da torcida na produção do material, ao mesmo tempo em que dizia que “não via nada de agressivo na faixa”.

Em 2017, Richarlyson foi contratado para jogar o Campeonato Brasileiro da série B pelo Guarani, de Campinas. Pouco antes de ser apresentado como jogador do clube, dois torcedores identificados com camisetas do clube “atiraram bombas em frente ao estádio Brinco de Ouro como forma de protesto pela contratação”. Na página oficial do Guarani no Facebook, apareceram diversas manifestações, algumas de apoio e outras com insultos. Esses insultos foram proferidos tanto por torcedores da equipe quanto por rivais. O vereador da cidade de Campinas, Jorge Schneider, torcedor do principal rival do Guarani, a Ponte Preta, ironizou: “A pessoa certa no lugar certo”.

Agora em junho de 2022 foi lançado o podcast do GE Nos armários dos vestiários, produzido pela Feel The Match apresentado por Joanna de Assis e William de Lucca. Em seu episódio de estreia, Richarlyson, hoje comentarista da Rede Globo, se sentiu à vontade para informar que já teve relacionamento sexual tanto com homens quanto com mulheres. No programa ele afirmou:

Com certeza minha carreira poderia ter sido muito melhor em termos midiáticos por aquilo que eu construí dentro do futebol se não tivesse essa pauta (sexualidade). Isso é visível, todo mundo sabe disso, mas chegou num ponto em que eu fiquei saturado mesmo. Chegou um ponto que alguém me pedia entrevista, e eu perguntava: “Vai falar sobre o quê?”. Mas questionamento de que poderia ser melhor? Sim, poderia.           

Foto extraída da página: Jornal de Brasília

A manifestação do ex-jogador foi muito bem recebida por militantes LGBTQIA+, especialmente aqueles vinculados aos esportes em geral e ao futebol em específico. Em um ambiente muito machista e cisheteronormativo, um jogador de grande qualidade e projeção “assumir” uma posição não-normativa além da direta ação afirmativa pode permitir que se tente, minimamente, implodir essa premissa esportiva masculina/machista e cisheteronormativa. Ao mesmo tempo em que a positividade da manifestação de Richarlyson se fez destacar e encheu de alegria meu coração de torcedor militante, não consegui abdicar do exercício intelectual de discutir nesse espaço do futebol de homens quais os comportamentos são definitivos para marcar um jogador e quais não são.

Meu amigo e idealizador do Observatório da Discriminação Racial no Futebol, Marcelo Carvalho, afirma que uma das grandes dificuldades de engajar jogadores negros para que eles realizem denúncias contra casos de racismo é que na maioria das vezes todos os seus atributos profissionais são colocados a margem e o atleta fica sempre identificado como aquele do episódio de racismo. Mesmo com todo seu esforço, Richarlyson acabou ocupando o lugar da masculinidade em suspeição mesmo sem disposição de fazer isso.

Diego Maradona sempre teve a brilhante trajetória esportiva e midiática marcada por problemas que incluíram sobrepeso e o abuso de drogas ilícitas. O não reconhecimento da paternidade de Diego Sinagra, entretanto, parece ter pesado pouco sobre sua construção biográfica. Mesmo com teste de DNA confirmando, o rei Pelé nunca reconheceu sua paternidade em relação a Sandra Regina Machado. Richarlyson foi excelente, mas não foi Pelé nem Maradona, mas não me parece que a diferença de tratamento dada as suspeitas sobre sua sexualidade e as confirmadas ausências paternas dos maiores jogadores de todos os tempos se baseie no que fizeram em campo. Me parece que nossa “cultura futebolística” se preocupa muito mais com homens que não performam a cisheteronormatividade do que homens que abandonam a prole.

Além dos títulos com o São Paulo, Richarlyson também ganhou a Libertadores com o Atlético MG treinado por Cuca. Então jogador do Grêmio, Cuca foi condenado por participação em estupro coletivo de uma menina de 13 anos em 1987 enquanto o clube realizava uma excursão na Suíça. Vejam, Cuca foi condenado a 15 meses de prisão por violência sexual contra pessoa vulnerável, não foi acusado, denunciado ou suspeito. Ainda assim, segue sua brilhante carreira de treinador sem dar muitas explicações sobre o ocorrido sendo fortemente considerado como possível treinador para a seleção brasileira após a Copa do Mundo de 2022.Condenado em primeira instância em 2017 por estupro coletivo realizado contra uma mulher albanesa na Itália em 2013, Robinho conseguiu atuar sem maiores dificuldades no futebol turco por dois anos e meio. O jogador condenado em última instância no início de 2022 teve problemas apenas em seu retorno ao Santos em outubro de 2020. Mais do que o protesto de torcedoras, o clube paulista desistiu de sua contratação após pressão de seus patrocinadores.

Parece um tanto fora de qualquer possibilidade imaginar que jogadores condenados ou acusados de violência sexual ou agressão contra mulheres resolvam assumir essas condutas, mas me chama atenção que temos muito mais facilidade em colocar essas condutas como do âmbito do privado enquanto uma forma de correr que possa colocar a masculinidade de um atleta em risco vire assunto de domínio público.

Sem dúvida, Richarlyson marcou um golaço, mas não deixa de ser mais um frangaço do futebol de homens que permite que exige/obriga que um jogador LGBTQIA+ se assuma ao mesmo tempo em que toleram jogadores ou ex-jogadores que são pais ausentes. Quantos jogadores ou ex-jogadores acusados ou condenados por violência doméstica ou sexual seguem suas trajetórias sem serem importunados?

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A corrida pela sobrevivência do esporte diante da mudança climática

Em setembro do ano passado, Tottenham X Chelsea, pela quinta rodada da Premier League, entrou para a história como “a primeira partida de um grande campeonato de futebol a ter emissão zero de carbono”. As duas equipes se locomoveram em ônibus movidos a biocombustíveis, torcedores foram incentivados a pedalar ou a usar o transporte público para ir ao jogo, a comida servida dentro do estádio teve opções vegetarianas e as garrafas plásticas foram destinadas à reciclagem.

O objetivo não era apenas conscientizar, muito menos ganhar cliques em uma iniciativa de marketing. Eles ainda são exceção, mas os eventos “carbono zero” em todas as modalidades são uma corrida contra o tempo, na qual o esporte contribuiu para o caos climático e, agora, luta pela própria sobrevivência.

A pegada de carbono dos eventos esportivos é similar às emissões de gases de Bolívia e Espanha, segundo o estudo “Jogando contra o relógio: esporte mundial, emergência climática e mudanças urgentes”, da rede de organizações ambientais “Rapid Transition Alliance” (RTA).

No ano passado, a Conferência da Organização das Nações Unidas (ONU) para mudanças climáticas, a COP26, debateu o impacto do esporte no aquecimento global em um painel exclusivo. Organizações esportivas, como o Comitê Olímpico Internacional, a FIFA, a Premier League e a Fórmula 1 e Fórmula E, se comprometeram a alcançar as emissões zero até 2040 e reduzir as emissões de gases de efeito estufa em 50% até 2030.

Desde 2018, quando o painel “Esportes para Ação Climática” da ONU foi criado e chamou, pela primeira vez, a atenção do setor para o tema, cerca de 280 entidades esportivas se comprometeram a cumprir as metas do Acordo de Paris, que pretende, até o final do século, limitar em até 1,5°C o aumento da temperatura global. É uma mobilização sem precedentes e reflexo de que as consequências já são percebidas.

Tempestade inundou, em 2015, o campo do Carlisle, time da quarta divisão do futebol inglês. Clube foi forçado a sair do estádio por dois meses. Foto: Getty Images

A maratona dos Jogos Olímpicos de Tóquio-2021 foi transferida da capital japonesa para outra cidade, Sapporo, devido ao intenso calor. Segundo o estudo da RTA, 25% dos campos de futebol da Inglaterra, onde aconteceu o “Tottenham x Chelsea carbono zero”, podem sofrer inundações. Metade dos países que já sediaram Olimpíadas de Inverno correm o risco de não conseguir mais realizar novamente o evento no futuro. Se o ritmo das mudanças climáticas não for freado até 2050, será praticamente impossível realizar atividades físicas ao ar livre por longos períodos, dada a elevação das temperaturas e a degradação da umidade e da qualidade do ar.

O esporte está em uma encruzilhada, em uma crise existencial. O futuro das competições e de novos atletas está ameaçado em meio ao aumento da temperatura global. A transição verde e a descarbonização precisam acontecer, motivadas ou por uma real preocupação quanto ao futuro da Terra, ou pela necessidade financeira de que os eventos simplesmente aconteçam.

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Por que tantas transmissões de jogos ficam restritas a pagamento?

Na semana em que escrevo este texto, o atual campeão da Taça Libertadores da América jogará a partida de ida das oitavas-de-final da competição com transmissão audiovisual exclusiva a uma plataforma paga, cujo acesso é restrito a assinantes de duas distribuidoras de TV fechada e suas respectivas possibilidades na internet. Não só, pois todos os jogos da Copa Sul-Americana no Brasil estão restritos a esta plataforma, independentemente de ser fase decisiva e/ou envolver grandes equipes brasileiras. Há o que fazer?

Fonte: print do Prime Video

O que me motivou a escrever este texto e responder a isso foi um tuíte do perfil @cornetafpfpe com o seguinte conteúdo:

“Tem que se regulamentar a transmissão por streaming, times como Bahia, CAP, a dupla cearense, o choque rei, não podem ter seus jogos exclusivos neles, acaba excluindo muita gente, até no ponto de acesso à informação. O que acha, Anderson?”.

A citação à dupla cearense se refere à transmissão do Clássico-Rei da Copa do Brasil pela Amazon Prime Video, na semana passada; mas pode ser aplicada aos jogos sul-americanos. Mesmo caso de Bahia X Athletico.

Após a resposta inicial, veio um novo comentário:

“Acho que deveria ter alguma regulamentação que jogos de times que possuem mais de 1mi de torcedores tem que ser disponibilizados em tv se a competição tiver vendido direitos de tv”.

A justificativa dele era que essa exclusividade restringia o acesso para quem poderia pagar e sabia usar os aplicativos.

Vamos às respostas

Eu também queria e defendo o maior acesso possível para o público torcedor ao programa futebol quando o seu time está na tela e em campo. Tanto a minha dissertação de mestrado, transformada em livro (SANTOS, 2019), quanto a minha tese de doutorado (SANTOS, 2021) partem da premissa de que alguns jogos de futebol são “conteúdos de interesse social”, como consta em legislações de vários países, inclusive na Lei Pelé (Lei nº 9.615/1998), que considera assim os jogos da seleção brasileira de futebol.

Não há muito o que fazer para garantir a transmissão de todas as partidas na TV aberta de tantos clubes. Tudo não dá e, na minha avaliação, delimitar por quantidade de torcida em torneios nacionais seria também gerar privilégios.

Fonte: canal do CAP no YouTube

No caso de Athletico (Brasileiro) e Bahia (Baiano e Copa do Nordeste) passa ainda por opção das diretorias em certos campeonatos. Ou seja, apresentar tudo na TV aberta acabaria com uma fonte de receitas importante para o próprio clube.

Desde o contrato para transmissão da Série A do Brasileiro, a partir de 2019, que a partilha de receitas de transmissão está mais próxima entre as plataformas de transmissão, caminhando para as plataformas pagas colocarem mais dinheiro. E aí, onde tem mais dinheiro vira prioridade para os clubes, mesmo que seja a torcida o público-alvo também da transmissão.

As licitações para a transmissão dos torneios sul-americanos demonstraram isso. Se não passarão mais pela Conmebol TV (ainda bem!), com jogos exibidos pela Globo (Libertadores) e SBT (Sul-Americana), mas também pelo Paramount+ e, provavelmente com mais jogos exclusivos no Star+.

O mercado se encaminha para poucos jogos por rodada na TV aberta, como quase sempre foi, aliás. Num momento inicial, por falta de condições técnicas para exibir todos os jogos. Depois, para não acabar com o modelo de negócio dos canais esportivos na TV paga e no pay-per-view (ppv), iniciados em momentos diferentes da década de 1990.

Vale ressaltar que os jogos transmitidos em plataformas pagas sempre foram de acesso restrito porque poucas pessoas, proporcionalmente falando, podiam pagar TV fechada e, a mais, o ppv. Nem precisava falar qual era a prioridade para transmissão em rede na TV aberta nas décadas de 1980 a meados da de 2010: times de Rio de Janeiro e São Paulo.

A diferença de agora é que a maior parte dos jogos estão/estarão espalhados em uma ou mais plataformas pagas. Cenário realmente pior para quem assiste/paga porque precisará ter a assinatura de mais de um serviço, talvez pagando muito por isso – considerando ainda a necessidade de uma boa internet banda larga – e com a necessidade de ter mais conhecimento sobre como cada aplicativo funciona.

Importante ressaltar ainda que o modelo de TV paga segue minguando no Brasil, então não pode ser mais considerado isolado, mas dentre as possibilidades de acesso pago aos jogos. Por um lado, os problemas econômicos que afetam o país a partir de 2015 diminui a base de assinantes por questões financeiras individuais. Por outro, a mudança do mercado de audiovisual, com a entrada do streaming, faz com que o público opte pela assinatura de plataformas de streaming e que os grandes grupos empresariais escolham focar mais nessa mídia que nos canais de TV fechada – como mostra a ESPN com o Star+.

Isso se dá por uma questão simples. Se falamos em “futebol-negócio” é porque esta prática de lazer foi normatizada, controlada por um agente privado (ou de característica paraestatal), com extensão da mercantilização sobre o jogo a partir das transformações do modo de produção capitalista a partir da década de 1970.

Não ter tanto jogo de “graça” é porque o próprio esporte se voltou mais ao estímulo ao consumo, ou seja, à compra de produtos e serviços ligados a ele, inclusive o acesso à assistência dos jogos; que para uma aproximação social. Enfim, reflexos de uma prática profissional que se desenvolve no âmbito da disputa e das contradições capitalistas.

Fonte: print de canal do YouTube “Lances Hoje” com melhores momentos de The Strongest 1X2 Ceará

Mas o que dá para fazer?

A possibilidade que defendo na tese, dentro de uma proposta regulatória mais ampla, é garantir que jogos relevantes (número restrito) sejam transmitidos na TV aberta. Considero que o acesso é mais amplo, irrestrito e de forma igual no tempo (sem muito atraso por condições técnicas estruturais) que a internet, mesmo que nesta seja de forma gratuita.

É preciso entender que cabe às agências reguladoras evitarem prejuízos de ordem econômica para a concorrência entre os agentes (que transmitem ou em competição). Porém, é necessário que elas tratem também de determinados produtos como de interesse social, que devem ter acesso facilitado ou gratuito a quem é cidadã/o.

É por isso que as leis normalmente tratam do “flagrante jornalístico”, ou seja, a possibilidade de acesso ao principal do evento esportivo enquanto informação, inclusive com imagens, mas sem que isso possa ocorrer ao vivo e prejudique quem adquiriu o evento. Ou também de quais jogos devem ter transmissão em TV aberta, casos de partidas decisivas de torneios importantes.

Ampliar isso para jogos em escala regional envolve outros tipos de acordos ou indicação de necessidades, especialmente num país do tamanho do Brasil. Recordando ainda que a nossa radiodifusão por sons e imagens, para usar os termos da lei, nunca se preocupou na regionalização do conteúdo, privilegiando os centros econômicos (inclusive, dentro dos estados).

Referências

SANTOS, A. D. G. dos. Os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro de Futebol. Curitiba: Appris, 2019.

SANTOS, A. D. G. dos. Um modelo para regulação dos direitos de transmissão de futebol. 2021. 461 f. Tese (Doutorado em Comunicação) – Programa de Pós-Graduação em Comunicação, Universidade de Brasília, Brasília, 2021. Disponível em: https://repositorio.unb.br/handle/10482/42947. Acesso em: 19 fev. 2022.

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As redes de rádio: um pouco de história e reflexão sobre as transmissões esportivas de futebol

O ponto de partida da relação entre redes de rádio e transmissões esportivas é muito mais antigo do que parece. Segue um pouco o caminho da ligação entre o rádio e o futebol. Tudo isso nos remete ao início, nos anos 1920 e também à década de 1930. Se a gente pensar um pouquinho, admitindo espaço para reconstruções, dá para considerar que são histórias quase centenárias. 

Durante os anos 1920, alguns registros indicam o começo das primeiras transmissões esportivas, fossem elas de forma parcial ou não oficial. Isso se deu pelo fato de que transmitir um jogo de futebol naquela época era uma missão quase impossível e três dificuldades eram centrais: tecnologia inexistente, falta de estrutura nos estádios ou de pessoal, resistência política escassa. Essa última expressa pela resistência de clubes (a exemplo de Botafogo, Fluminense e da própria Confederação Brasileira de Futebol) que, naquela época, chegaram a proibir que as primeiras emissoras transmitissem partidas. O argumento era que o rádio gerava concorrência ao espetáculo e, com isso, o público deixaria de ir até os estádios para ouvir os jogos em casa. 

Nos anos 1930, o cenário muda um pouco e marca temporalmente a primeira transmissão internacional de futebol via rede de rádio. Um dos feitos do começo dessa década também é a já conhecida narração oficial e ininterrupta de uma partida de futebol, protagonizada por Nicolau Tuma em 19 de julho de 1931, o jogo válido foi entre as seleções de São Paulo e Paraná. A transmissão em rede de rádio seria protagonizada quase sete anos depois. No dia 05 de junho de 1938, a Rede Verde-Amarela transmite a partida da seleção do Brasil contra a Polônia diretamente da França, válida pela Copa do Mundo daquele ano. A recepção foi feita pela Rádio Club do Brasil (RJ), com formação da maior cadeia de estações de rádio da época. 

Fonte: Futebol Na Veia

O feito da Rede Byington pode ser atribuído, em parte, ao nome de Alberto Byington Júnior, que já havia atuado como secretário na Rádio Educadora Paulista, a qual, por sua vez, deu início (ainda nos anos 1920) ao sistema de permutas parciais de programação e de transmissões simultâneas entre emissoras. Alberto Jr. também foi atleta da delegação brasileira nas Olimpíadas de Paris (1924). Um ano antes, já competia pelo Clube Paulistano de Atletismo nos 110 metros com barreira. A transmissão de 1938 representou um momento de ápice da Rede Verde-Amarela, com emissoras espalhadas por diversos estados do país. Depois da transmissão feita diretamente da França, a rede se desfez por conta de questões técnicas e também políticas, uma vez que havia muito ruído nas transmissões e porque houve a negação da concessão de canais em ondas curtas por parte da Comissão Técnica de Rádio (criada por Vargas em 1932). 

O que se tem depois é um período no qual o futebol brasileiro e o próprio rádio se consolidam, ainda um momento em que as próprias coberturas esportivas são sistematizadas. Logo, vale considerar que as transmissões esportivas via rede de rádio praticamente passam por um momento de estagnação até o fim dos anos 1950. No ano de 1958, a Rádio Bandeirantes de São Paulo estrutura a Cadeia Verde-Amarela Norte Sul do Brasil. O objetivo era transmitir em rede as partidas da Copa do Mundo na Suécia. O feito envolveu mais de 400 emissoras em todo o país em um tempo no qual o rádio era o principal meio nas coberturas com transmissão via linhas telefônicas. 

Nos anos 1970, o destaque é para a parceria firmada entre a Rádio Guaíba de Porto Alegre e a Rádio Continental do Rio de Janeiro, para a Copa do Mundo, na chamada Grande Rede Brasileira dos Esportes. A rede incluiu, conforme o Blog “Uma História do Rádio no Rio Grande do Sul”, também emissoras de outros estados como Goiás, Mato Grosso, Paraná, Santa Catarina e São Paulo, e uma estação do Uruguai. Na final, cada tempo da partida acabou sendo irradiado pela equipe de uma emissora.

As redes de rádio como conglomerados de mídias vão surgir mais ou menos nos anos 1980, numa perspectiva dominante de transmissão pela capacidade de alcance da programação radiofônica para uma grande audiência em diferentes mercados distribuídos pelo interior do país. Aqui o fator tecnológico são as transmissões via satélite e o econômico, baseado no suporte financeiro dos conglomerados que, por sua vez, concentram a maior parcela do bolo publicitário. Para as emissoras menores, a associação ou afiliação a uma grande rede significa redução de custos e conteúdo disponível para abastecer suas programações. As redes de rádio, conforme regulamentado pela Anatel (Decreto 52.975 de 31 de outubro de 1963) são definidas, no Artigo 5º, em algumas modalidades: a estação geradora, rede local, nacional e regional.

Com base especialmente na estrutura técnica, de pessoal e financeira é que as redes de rádio transmitem eventos esportivos como parte de suas programações (já que algumas também trabalham com informação ou entretenimento). No Brasil, por exemplo, a Rede Globo detém os direitos sobre as transmissões da Copa do Mundo de 2022. Nesse caminho, vendeu os direitos para as seguintes rádios: Itatiaia (MG), Grupo Bandeirantes (Bandeirantes e BandNews FM), Transamérica (SP), Gaúcha (RS), Joven Pan (SP), Energia 97 (SP) e Jornal (PE). Esse número de 8 emissoras (considerando a própria Rede Globo de Rádio) é muito pequeno se comparado, por exemplo, ao número de emissoras que transmitiu a Copa de 2014 realizada no Brasil. Naquele ano, 23 emissoras adquiriram os direitos de transmissão. Em 2010, na África do Sul, foram 22 emissoras credenciadas. A redução, praticamente a metade do número de rádios se comparado com 2018, tem entre os fatores os altos custos cobrados pela Fifa e também a outra modalidade de negociação, que aposta em canais de streaming (cujos acordos seguem abertos até o momento).

Pensar e compreender o papel das redes de rádio nas transmissões de futebol significa considerar todos os aspectos históricos e de transformações ao longo do tempo. Assim como nos primórdios, essa relação ainda permanece muito próxima e hoje é atravessada por novos canais de transmissão que se tornam concorrentes. Se antes a promoção do esporte – como espetáculo midiático – também passava pelo rádio, hoje a era do streaming condiciona e leva grande parte da audiência, especialmente a mais jovem.

 

Fonte: Torcida K

O encolhimento visível no número de redes com transmissão também traz reflexos a partir das reduções no próprio jornalismo esportivo, seja de pessoal, estrutura e investimentos. Para aquelas que se mantêm e têm base financeira para custear direitos, viagens e toda a cobertura em si, as transmissões são uma forma de realização de grandes coberturas e de impulsionamento de verbas publicitárias. Seguem ainda cumprindo seu papel primordial de documentar eventos esportivos. Já as emissoras que ficam de fora dos grandes eventos midiáticos têm como possibilidade a venda e a formação de parcerias para cobertura de jogos em campeonatos regionais também em períodos determinados. Têm um papel como geradoras de conteúdos para mercados interioranos. Se as grandes redes trazem uma programação mais genérica considerando o território nacional, as redes regionais têm a possibilidade de explorar além do futebol, aspectos da identidade local que também passam pelo esporte. 

Referências

AVRELLA, Bárbara. ALEXANDRE, Tássia Becker. A trajetória histórica das redes de rádio no Brasil. Encontro Regional Sul de História da Mídia, 5. Anais: Florianópolis: Alcar Sul, 2014.

GUIMARÃES, Carlos. O início da narração esportiva no rádio brasileiro. In: RADDATZ, Vera. KISCHINHEVSKY, Marcelo. LOPEZ, Cristina. ZUCULOTO, Valci (Org.). Rádio no Brasil: 100 anos de História em (Re)Construção.. Ijuí: Unijuí, 2020.

RUTILLI, Marizandra. A rede verde-amarela, o pioneirismo esquecido da Família Byington. In: RADDATZ, Vera. KISCHINHEVSKY, Marcelo. LOPEZ, Cristina. ZUCULOTO, Valci (Org.). Rádio no Brasil. 100 anos de História em (Re)Construção. Ijuí: Unijuí, 2020.

SOARES, Edileuza. A bola no ar. O rádio esportivo em São Paulo. São Paulo. Summus, 1994.