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Resenha do artigo “’Um jogador infernal’, a construção social da precoce carreira de Lionel Messi”

“Quais foram os contextos e circunstâncias que impulsionaram o jovem Lionel Messi da sua cidade de Rósario na Argentina para o Fútbol Club Barcelona com 13 anos de idade e, posteriormente, para o estrelato global?”. É a partir desse pergunta que os autores Fernando Segura Millan Trejo e John Williams escreveram o artigo em inglês “‘Um jogador infernal’ a construção social da precoce carreira de Lionel Messi: para uma análise sociológica” [“A hell of a player”: the social construction of the early career of Lionel Messi: towards a sociological analysis, publicado na revista Soccer & Society em setembro 2019. A abordagem utilizada por Segura e Williams reconhece as prematuras manifestações de habilidade na infância de Messi, mas também argumenta que o desenvolvimento do seu talento pode ser melhor compreendido, sociologicamente, dentro do contexto do enfoque do autor Everett Hughes e sua ideia de turning points (pontos de virada), quando momentos e eventos capitais marcam significantes mudanças na vida de uma pessoa.

O propósito do artigo é articular as ideias do trabalho de Hughes com os escritos do sociólogo francês Pierre-Michel Menger sobre o desenvolvimento e sucesso de artistas criativos, baseado em quatro varáveis: 1- talento excepcional; 2- a qualidade da “equipe” que rodeia o artista; 3- as condições materiais que ajudaram a moldar sua carreira; 4- as avaliações contínuas que são feita de seu trabalho. A adoção dessa abordagem integrada pode ajudar a entender mais profundamente a produção de talentos esportivos. Para embasar o artigo, Segura e Williams entrevistaram personagens-chave que ajudaram a moldar os primeiros passos de Messi: seu primeiro técnico no clube Grandoli; o gerente da academia de jovens do Newell’s Old Boys; o médico que forneceu a Messi o primeiro tratamento hormonal e um técnico da Fundação Messi que trabalhou com ele na chegada ao Newell´s. Dois jornalistas locais argentinos, Sergio Levinsky e Hernan Ames também foram entrevistados. Além disso, foram utilizadas biografias selecionadas de Messi e documentários, a fim de obter mais informações sobre os períodos iniciais de sua vida.

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Desde muito pequeno, Lionel já dava sinais de que seria um grande jogador. Nascido e criado em uma vizinhança de classe-média baixa, no sul de Rosario, Messi começou sua carreira, efetivamente, no mesmo clube por onde passaram grandes jogadores, como Jorge Valdano, Tata Martino, Gabriel Batistuta, Maxi Rodríguez, o Newell’s Old Boys. Antes, porém, de chegar em um dos dois tradicionais clubes argentinos de Rosario (Newell’s Old Boys e Rosario Central), sua avó, Celia o levou para dar os primeiros passos (ou passes) no Fútbol Club Grandoli, a poucas quadras de sua casa.

A primeira oportunidade surgiu aos cinco anos, quando o técnico do Grandoli, Salvador Aparicio, precisava de um jogador para compor um time de meninos um pouco mais velhos. A hesitação inicial do treinador logo desapareceu nos primeiros movimentos do pequenino garoto, que exibia equilíbrio, habilidade de drible e uma determinação atípica em jogadores tão jovens. Depois disso ele foi convidado a integrar as divisões de base do clube. Messi, então, começou a ter a sua volta, uma equipe – a segunda variável proposta por Menger. Aquele espaço, tão banal para alguns, começava a se configurar como um lugar virtuoso para o jovem jogador.

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Fonte: GloboEsporte.com

O apoio familiar de Messi e sua determinação são elementos sociológicos a serem levados em conta na análise da construção de sua carreira. Esses fatores, porém, não se sustentam sozinhos. Seu pai, Jorge, que veio a ser seu treinador na categoria baby do Grandoli, foi crucial para sustentar e reforçar essas etapas formativas do desenvolvimento “artístico” de Messi, mas foi o encontro com Jorge Griffa, representante do centro de treinamento do Newell’s Old Boys, um recrutador-chave nos termos de Menger – que constituiu um ponto de virada capital para o argentino. Na perspectiva interacionista de Hughes, a união entre o jogador em potencial, e a instituição moldou o período seguinte de sua trajetória. Ernesto Vecchio (primeiro treinador de Lionel) revelou em uma entrevista conduzida em Rosario que trabalhava, desde cedo, não só as habilidades de Messi, mas também sua consciência tática. Durante esse período no Newell’s seu status tinha subido, de “ser um jogador importante, mas de clube de futebol local e amador”, para “um clube de futebol profissional, nacional e historicamente conhecido”. A visibilidade do Newell’s e as conquistas e o prestígio do grupo trouxeram convites internacionais.

Para que Messi pudesse sair de um reconhecimento local para um reconhecimento mundial, de acordo com a abordagem de Hughes, era necessário que alguns eventos o levassem até isso. Um deles foi o tratamento médico que Lionel precisou fazer para crescer como uma “criança normal”. Os autores investigaram que o alto custo foi coberto durante os dois primeiros anos de tratamento 50% pelo seguro social, 25% pelo seguro mútuo e 25% pela fundação Acindar (empresa na qual o pai trabalhava). Entretanto, esse modelo tornou-se insustentável em longo prazo, e as novas condições oferecidas (terceira variável proposta por Menger) mostraram-se pouco confiáveis para o bom desenvolvimento do projeto. Nesse ambiente conturbado e inquietante, as tensões e incertezas envolvidas convenceram a família de Messi que eles deveriam procurar outro lugar.

O primeiro movimento foi dentro de seu país. Lionel, em 1999, foi a Buenos Aires fazer uma avaliação no River Plate. Apesar de ter impressionado os observadores, eles não quiseram correr o risco de assinar com o menino e entrar em um conflito com Newell´s. Esse evento pode ser encarado pela combinação das abordagens de Hughes e Menger, como um ponto de virada chave, que Messi perdeu e que poderia ter mudado inteiramente sua história. Apesar da recusa, em Rosario, o jovem menino ainda era encarado como um talento próspero. Com isso, aproveitando-se da insatisfação da família com o suporte do Newell’s nas categorias de base, apareceu um agente de futebol que, junto com uma equipe de pessoas – segunda variável do modelo de Menger –, agiram para abrir novas portas a Messi. Portas essas que o levariam para fora de seu país.

Messi é parte de uma inegável consequência do futebol contemporâneo globalizado: a migração de jovens promessas sul-americanas para o velho continente. O jogador tem ilustrado bem os novos mecanismos do mercado global, no qual atletas latinos passam a ser educados na cultura do futebol europeu. Isso, inclusive, é o cerne de uma questão que gera muitas discussões: Messi é um ídolo nacional? Com a chegada de Lionel, o papel que por muitos anos era, inquestionavelmente, de Diego Armando Maradona começou a ser colocado em cheque. A falta de compatibilidade, todavia, entre Messi e as características “tipicamente argentinas” segundo uma parte importante da imprensa e do senso comum, não têm permitido ocupar esse lugar completamente. Segundo este argumento colocado na mídia argentina com frequência, Maradona é supostamente identificado inteiramente com o caráter dos argentinos, não apenas pela sua personalidade, mas por ter se consolidado no seu país antes de ir para a Europa, Messi sofre com o fato de ter ido, ainda muito novo, para o FC Barcelona e, assim, para vários críticos, ter uma personalidade mais europeia do que argentina. Além disso, a dificuldade de Messi em repetir suas atuações de gala pela seleção nacional (apesar de ser o maior artilheiro da seleção e ter ajudado a equipe a participar de uma final da Copa, depois de 24 da Argentina não ter ultrapassado as quartas) gera um ruído ainda maior entre o seu indiscutível talento e o seu lugar de ídolo argentino. Segura e Williams destacam que seria interessante analisar as quatro variáveis propostas por Menger, aplicadas às seleções argentinas nas quais Messi jogou.

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Fonte: Esporte IG

A falta de uma suposta falta de identificação com uma “identidade nacional” não foi o único enfrentamento que Messi teve que encarar ao longo da sua carreira. A ida tão jovem para um novo continente não ocorreu sem desafios. Com condições pouco usuais, mas muito favoráveis – terceira variável de Menger –, ao chegar ao FC Barcelona Messi, o clube colocou um apartamento para a família, um emprego para seu pai (permitindo assim que toda sua família fosse para a Espanha), bônus financeiro por desempenho; isto é, um ambiente muito diferente para treino e a continuação do oneroso tratamento para crescimento. Porém, ainda que tivesse uma atmosfera propicia, o percurso não foi fácil. Por conta da depressão de sua irmã, sua mãe e seus irmãos voltaram para Rósario, fazendo com que Lionel com 14 anos tivesse que decidir entre continuar na Espanha com seu pai ou retornar para a Argentina. Tendo escolhido a primeira opção, o segundo desafio de Messi foi a recusa do novo gerente do centro de treinamento em pagar o bônus previsto.

Em meio a um cenário turbulento, o arquirrival do Barcelona, o Real Madrid, mostrou-se interessado no jogador. Duas opções e, portanto, diferentes direções estavam em jogo: renegociar com o Barça, ou romper com o clube catalão para uma chance no seu grande oponente. Esse novo fato acelerou um novo acordo entre o jogador e o FC Barcelona, bem como a definição de que Jorge Messi atuaria como o único agente de seu filho. O desgaste que Lionel sofreu por conta desse episódio fez com que sua condição física piorasse, resultando ao mesmo tempo na interrupção do tratamento hormonal, pelo médico do clube Josep Borrel.

A transferência definitiva de um jogador tão jovem causou desconforto e oposição de algumas partes, entre elas o clube de origem, Newell´s, necessitando da intervenção da FIFA decretando que ninguém poderia ser impedido de jogar futebol. Em meio a esse processo, um ano após sua chegada ao clube Catalão, Messi fez sua estreia oficial. A decisão da maior entidade do futebol e a intervenção do técnico Tito Vilanova, que deu confiança ao menino para se desenvolver como o clássico camisa 10, foram cruciais, no modelo interacionista de Hughes, para a construção social da futura trajetória do jogador argentino.

A mídia já começava então a noticiar o nome do Lionel Messi. Ele ganhou destaque em revistas da Argentina e de Barcelona. Na temporada 2003/2004, Messi despertou o interesse do treinador do time principal, Frank Rijkaard, e, em novembro de 2003, ele fez sua estreia em um amistoso contra o FC Porto. Aqui ele passava por mais uma etapa necessária do modelo de Menger, a avaliação positiva de especialistas. O desempenho na equipe principal foi decisivo na transição de Messi para o “circuito profissional de elite” e para a mudança de seu status. Como já foi dito, um dos fatores-chave no sucesso de um artista é a “equipe” que cerca e apoia esse talento. Em 2005, o time nacional sub-20 da Argentina venceu a Copa do Mundo da FIFA na Holanda, com Messi, o melhor goleador e jogador do torneio. Suas performances confirmaram “oficialmente” um novo ponto de virada: a mudança de status no FC Barcelona e uma mudança de status internacional, como o “jovem jogador de futebol profissional emergente de sua geração”.

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Fonte: O Globo.com

A primeira variável óbvia para se levar em conta é o inegável talento do jogador – como Menger explica, essa é uma condição chave para o sucesso em qualquer comunidade de artistas. Mas ela não se sustenta sozinha. Messi nasceu em um país e em uma cidade nos quais o futebol está enraizado como um componente essencial da vida social. O suporte e a crença de sua família também foram fundamentais, mas o primeiro ponto de virada relevante em direção ao circuito profissional veio com a transição para o prestigiado centro de treinamento do Newell’s Old Boys. Claramente, o ponto de virada mais significante da carreira de Messi foi a decisão de se mudar aos treze anos de idade para Barcelona. As outras três variáveis propostas por Menger para explicar o sucesso do “artista” estavam presentes nesse novo ambiente: primeiro, uma equipe de trabalho, na qual seu pai era uma figura central, que cercava e sustentava seu talento. Segundo, condições materiais e, terceiro, boas evoluções do seu início de trabalho como jogador.

As variáveis expostas e as características próprias de Messi ajudaram-no a trilhar esse caminho, passando por bons e maus momentos, e a se tornar o jogador que ele é hoje. Não só as experiências “interclubes”, mas também seu percurso na seleção argentina, marcado por algumas conquistas, e muitos traumas. Essa trajetória, com a qual seria possível escrever um novo artigo, marca uma nova era no posto de ídolo nacional argentino: Lionel Messi como uma figura que desafiou a aura sagrada da mitologia de Maradona. Com habilidades semelhantes em campo, mas com estilos bastante diferentes de liderança e representações nacionais, Messi veio para assumir esse protagonismo, ainda que para isso tenha que provar, para alguns, seu potencial para ocupar esse lugar. O resto, como se costuma dizer, é história.

Para ler o artigo em inglês completo, acesse este link.