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Bom para quem? Das promessas ao futebol brasileiro: “arena”, “clube-empresa” e o “Direito do Mandante”

De tempos em tempos o futebol brasileiro é recebido com novas promessas de “resgate da sua grandeza”. Mal completamos uma década da construção das custosas e deficitárias arenas multiuso pós-Copa do Mundo e logo em seguida já embarcamos em outras duas naus rumo ao novos Eldorados do futebol: os clubes-empresa e, mais recentemente, os famigerados “direitos do mandante”.

Já sabemos que as arenas da Copa – e as suas poucas versões independentes, mas ainda relacionadas ao movimento de arenização dos anos 2010 – ainda não apresentaram viabilidade financeira, tampouco sucesso no seu projeto de transformação do público dos estádios ou ampliação relevante da receita dos clubes. Como ideia ruim não tem pai, absolutamente nenhum dos entusiastas desse conceito de equipamento e consumo esportivo traz para si a responsabilidade de dar solução aos problemas previsíveis que enfrentávamos nas praças desportivas brasileiras até a chegada da pandemia. 

O comportamento típico dos ditos especialistas de gestão e marketing esportivo já é sabido há tempos, mas seguem sendo esses os principais formuladores e promotores de novas promessas de “resgate da grandeza”. Graças à capacidade de promoção de suas empresas, esses atores influenciam e convencem profissionais de imprensa a aderirem aos seus projetos, que por sua vez servem de mediadores para a criação do consenso entre dirigentes, patrocinadores, membros de clubes, torcedores e consumidores gerais de futebol.

Nos últimos três anos a discussão da transformação dos clubes brasileiros em sociedades empresárias (ou clubes-empresa) já mostrou a reprodução de um método de atuação semelhante. Primeiro se faz a referência sem ponderações ao futebol europeu – através da proposta de replicação de fórmulas infalíveis para o alcance de um sucesso financeiro equivalente -, depois se misturam os interesses privados com os “benefícios coletivos” em meio a essas proposições – dado que essas empresas atuam nesse mercado e buscam sempre expandir seu campo de atuação -; e posteriormente o processo de abstenção geral de qualquer responsabilidade por eventuais problemas de percursos ou fracassos retumbantes – como ocorreu às arenas e como a empresarização dos clubes já provou ser em diversos países.

Comportamento de oportunidade à parte, uma vez que o peso dos interesses particulares não pode ser excluídos dessa equação, é crucial observar que essas iniciativas frustradas e fórmulas falhas partem de dois grandes problemas: 1) a “filosofia” hegemônica do pensamento dos operadores do negócio do futebol, muito além das propostas gerenciais, são verdadeiras cartilhas político-ideológicas; 2) consequência da anterior, a preponderância da abordagem meramente “mercadológica”, isto é, restrita à análise da ordem e funcionamento do “mercado”, geralmente entendendo-o como um entidade independente da conjuntura e estrutura, portanto pobre em leituras sociológicas e político-econômicas.

São problemas que explicam tanto a causa quanto a consequência (negativa) desses projetos. O futebol brasileiro é periférico por uma questão macroeconômica, não por uma questão meramente gerencial. A proeminência midiática gerada pelo alcance de mercados consumidores populosos, como o asiático, explica o volume das receitas dos clubes europeus, não havendo possibilidade de reversão dessa ordem a favor do futebol brasileiro.  A promoção de modelos adotados no futebol europeu, um dos centros econômicos e políticos do sistema-mundo e epicentro da indústria do futebol global, não vai entregar os mesmos resultados financeiros que foram entregues no futebol “da Europa”.

É possível ir além: estamos realmente falando de resultados concretos ou apenas deixando de entendê-los como subprodutos, também, da preponderância midiática do futebol desses locais? Estamos levando em conta como a posição central de (poucos países) europeus atraiu grandes compradores (gastadores) que controlam clubes que raramente dão resultados financeiros concretos? 

Fonte: http://www.suafranquia.com

Uma indústria em questão

Afinal, coisa bem pouco comentada na atualidade, não importa o grau de crescimento dos valores movimentados pelo futebol global, os maiores clubes do mundo raramente rendem retorno aos seus envolvidos, e quando rendem, são valores minúsculos se levados em consideração os altos riscos e custos de operação do negócio futebol.

Portanto não há grandeza a ser resgatada no futebol brasileiro se o futebol global sofreu transformações dessa ordem. Proprietários de clubes não são necessariamente empreendedores de um negócio rentável. A indústria do futebol dá dinheiro, mas clubes de futebol não dão. A grandeza financeira desses clubes reside em duas razões principais: parte pelo aporte financeiro desses proprietários na aquisição de jogadores-marcas capazes de render resultados esportivos, mas também visibilidade midiática a nível global, parte pela alavancagem consecutiva recente das receitas oriundas de direitos de transmissão, consequência direta da razão anterior.

Aqui os assuntos se encontram. Proprietários dos maiores clubes do planeta não colhem resultados financeiros, mas colhem muita visibilidade e poder. O clube de futebol na atualidade existe como uma ferramenta de projeção de grupos financeiros e grupos políticos, um instrumento de publicidade e propaganda que atrai o interesse de fundos de investimento em expansão para novos mercados, companhias multinacionais interessadas em atrair investidores para suas novas empreitadas, passando por partidos políticos visando sucesso eleitoral em curto prazo ou mesmo chefes de estados monárquicos ou teocráticos do Oriente Médio.

Na ordem de grandeza da riqueza ou interesse dos compradores de clubes da atualidade, o gasto excessivo com a atividade futebol é irrelevante: o retorno para a projeção da imagem dos seus envolvidos é suficientemente recompensador para seus objetivos finais.

Esse ciclo se retroalimenta sem necessariamente significar saúde financeira real e efetiva da parte dos clubes. Proprietários gastam além do que arrecadam, concentram os principais jogadores do planeta (o star system da bola), atraem maior audiência em mercados globais, e com isso as receitas se alavancam. Mas a necessidade de manter o clube competitivo e operando no topo faz com que os gastos com contratações e sedutores salários sempre estejam acima do poder real de valorização do espetáculo do futebol enquanto produto final dessas empreitadas.

Afinal, agentes de atletas sabem o quanto essa indústria movimenta anualmente, e exigem aumento equivalente na remuneração dos seus atletas e na valorização dos seus valores de mercado.

Isso inclusive nos obriga a considerar a importância das “esferas” e “escalas” que o futebol global estabeleceu em sua discrepância financeira absoluta. O “futebol europeu” ao qual nos acostumamos a tratar a elite do futebol global, a bem da verdade se resume a 5 países, que concentram mais da metade da receita global do futebol do continente.

Entretanto, todos os menores e até irrelevantes países que orbitam ao redor dessas grandes ligas, queiramos nós ou não, estão circunscritos à esfera do futebol da UEFA. Não apenas por compartilharem o euro, a moeda mais valorizada do planeta; mas principalmente por compartilharem do mesmo círculo de competições. A Bulgária é um pequeno país, pouco competitivo a nível de Champions League? Sim. Mas ainda está no ambiente do futebol europeu, e portanto é um destino atraente para determinados atletas em busca de visibilidade e trânsito no maior mercado do futebol do planeta.

O Brasil pode formar os melhores jogadores do mundo, pode ter a maior seleção mais vencedora da história, pode até ajustar os problemas financeiros que acometem os clubes locais, e ainda assim será incapaz de contornar essa relação de escala e esfera que torna países periféricos europeus mais relevantes do que países centrais sul-americanos.

O “direito do mandante”

É dentro dessa falta de compreensão que o tema dos direitos de transmissão ganhou força no debate público no país, ofuscando inclusive os projetos que tratavam da conversão dos clubes em empresas. Uma discussão antiga que acabou por ganhar relevância a partir de uma iniciativa isolada do Presidente da República e do presidente do Clube de Regatas Flamengo, maior público consumidor do país, e maior beneficiado com a proposta em questão.

A Medida Provisória 984 promovia uma alteração na Lei Pelé que determinava que os “direitos de transmissão” de cada partida pertenceriam ao clube mandante naquela ocasião. Independente do campeonato em questão, os clubes sem contrato poderiam negociar a venda dessas partidas como bem entendessem, até mesmo podendo fazer suas próprias transmissões. O que beneficiou o Flamengo, que não havia fechado acordo com a Globo para a disputa do Campeonato Carioca, diferente de todos os outros clubes do certame.

Esse artigo derrubava a exigência de que a partida precisasse contar com a anuência das duas equipes em campo para ser transmitida, eliminando o texto que apontava que os clubes possuíam direitos sobre suas respectivas imagens naquele certame, inclusive sendo visitante. A Globo não poderia transmitir jogos do Flamengo, tampouco o Flamengo poderia transmitir seus jogos como mandante contra qualquer clube. Coisa que fez, primeiro no Youtube e depois na SBT, respaldado pela MP. O que levou posteriormente a Globo a romper o contrato do Campeonato Carioca de vez.

A MP 984 então ocupou as principais manchetes do futebol brasileiro graças à insegurança jurídica de desatou: os contratos entre clubes e empresas de mídia estavam ou não valendo? Inúmeros casos foram para na Justiça com variadas motivações provocadas pela mesma mudança provisória no texto da lei.

Encontro do Presidente, durante a pandemia, com dirigentes de clubes que eram a favor da MP984. Fonte: uol.com.br

Com relação à Série A do Campeonato Brasileiro, nos contratos de TV aberta e pay-per-view não houve conflito. O problema central era porque 8 clubes possuíam contrato de transmissão de jogos em “TV fechada” com a Turner, enquanto outros 12 possuíam contrato com o Grupo Globo. De acordo com o texto original, para que a Turner ou a Globo transmitissem o jogo, precisariam contar com a anuência da concorrente.

A falta de um acordo causou os chamados “apagões”, problema comum em 2019 que aparentemente se encaminhava para um acordo entre as empresas concorrentes – claramente prejudicada pela MP. A Turner buscou se respaldar no texto da MP para transmitir jogos dos seus 8 clubes como mandante, enquanto a Globo alegava que o contrato estabelecido com os 12 clubes garantia exclusividade sobre o direito de imagem tanto como mandante, quanto como visitante – afinal, era o que a lei determinava.

A medida provisória tinha a validade de 6 meses e deveria ser votada pelo Congresso para ganhar validade enquanto lei, ou caducaria. Entendendo a ideia de “direito de mandante” como positiva, nada menos que 46 clubes de todos os tamanhos passaram a mobilizar suas redes sociais de modo a tentar convencer o torcedor da importância da medida. O movimento se inicia pelos clubes do chamado “bloco da Turner” – os oito clubes com contrato com a empresa estrangeira –, mas alcançou também clubes com direitos de transmissão acordados com a Globo.

O “Movimento Futebol Mais Livre” produziu materiais de divulgação da MP 984, levantando os supostos pontos positivos da mudança. Em seu perfil do Twitter trazia a descrição “Por um futebol brasileiro mais forte. Pela liberdade de todos os Clubes. Pela democratização das transmissões! #PelaLeiDoMandante”.

Não rendeu. Apesar de algumas peças constarem com argumentos fora do lugar, meias verdades ou distorções da realidade, o “movimento” não ganhou força e a MP caducou. No dia seguinte, entretanto, um projeto de lei já era apresentado, e em um espaço de uma semana já eram quatro projetos com teor idêntico, ou ao menos semelhante ao conteúdo, da MP 984. Deputados de oposição, do chamado centrão e, obviamente, da situação, bancaram a ideia. Da oposição, vale ressaltar, o projeto parte de André Figueiredo (PDT/CE), ex-diretor e conselheiro do Ceará Sporting Club, um dos integrantes do “bloco da Turner” – junto ao rival Fortaleza.

O novo Eldorado

É importante falar do Fortaleza porque parte do seu presidente, Marcelo Paz, a declaração mais fora de lugar, que trata exatamente dos maiores riscos da adoção de um regime de “direito de mandante” na lei sobre direitos de transmissão para o futebol brasileiro. Em entrevista para o jornal O Povo, assim respondeu o mandatário do Fortaleza:

“Nos países em que esse modelo vigora há um equilíbrio muito maior de distribuição (do dinheiro arrecadado com venda de direitos de transmissão) do primeiro para o último que recebe. É uma distância bem menor do que acontece no Brasil. Desta forma, (todo clube) passa a ter o mesmo poder na quantidade de jogos. Tenho no mínimo 19 jogos como mandante. E se cada clube se associar com mais clubes, que é a medida mais inteligente, cria uma força maior. Inteligente e todos os clubes se juntarem e venderem (os direitos de transmissão) por um valor maior com divisão financeira mais justa”.

O misto de otimismo e expectativa desejosa faz da fala de Marcelo Paz uma contradição completa. Ela não está totalmente errada, mas está muito errada. Há uma confusão tremenda entre os modelos adotados em outros países e o formato que se desenha no futebol brasileiro na atualidade.

Sim, é fato que os países onde a divisão dos direitos de transmissão é mais equilibrada, vigora o modelo de “direito de mandante”: Inglaterra, Itália e Alemanha. Entretanto, no país onde há um pior caso de desequilíbrio entre os valores dos direitos de transmissão, também vigora esse modelo: em Portugal, onde Benfica, Porto e Sporting, clubes de maior torcida do país, arrecadam até 13 vezes mais do que o resto dos clubes locais. Então essa relação de causa e efeito não é real.

O que ocorre na Itália, na Inglaterra e na Alemanha é exatamente o que não ocorre em Portugal: a centralização dos direitos de transmissão em uma liga, que se responsabiliza por negociar os direitos de transmissão de todo o campeonato. Ou seja: nos países onde há equilíbrio, o direito de mandante existe, mas nada significa, uma vez que todos os direitos de mandante pertencem a uma mesma entidade, que é a liga dos clubes daquela competição.

Em Portugal os maiores clubes não aceitaram negociar em liga, exerceram o direito de mandante e sugaram todos os recursos disponíveis no mercado. Sozinhos passaram a ganhar mais do que os outros 15 clubes juntos – que fizeram um bloco pra negociar e nem assim obtiveram capacidade competitiva.

Onde há liga, os clubes maiores devem atender ao mínimo de exigências feitas pelos clubes menores, criando sistemas de divisão dos direitos de transmissão “de todos” de uma forma mais equilibrada. Apesar dos diferentes modelos existentes, onde o equilíbrio impera há separação de uma faixa de valor a ser dividido de forma totalmente equânime (em alguns casos 50% do global) e outras de acordo com a posição do clube no campeonato anterior, ou de acordo com a capacidade de atração de audiência (geralmente 25% do global). Uma equação que faz o maior clube receber, quando muito, o dobro da média global.

Portanto, a grande questão não é o “direito de mandante”, o Eldorado que futebol brasileiro hoje persegue. Mas a existência de uma liga de clubes com divisão equilibrada, onde o “direito de mandante” serve aos menores como contrapeso.

No podcast “Na Bancada” produzimos uma série de conteúdos discutindo sobre o tema, de onde tiramos algumas conclusões sobre os efeitos de uma mudança desse porte na atual conjuntura do futebol brasileiro.

A primeira conclusão é que os clubes dificilmente conseguirão viabilizar suas próprias plataformas para transmissão de jogos, assunto muito comentado nos primeiros meses de vigência da MP, como se isso significasse a abertura imediata de uma nova receita para os clubes. Os poucos casos existentes no mundo não apontam para sucesso no modelo (alto custo, alto risco, pouco retorno). Tampouco parece fazer sentido um clube buscar isso em um campeonato como o brasileiro.

O segundo ponto é uma curiosa ilusão que se criou no país com relação ao volume do interesse/capacidade nesse mercado. Poucas empresas estão em condições de disputar contratos de direito de transmissão no futebol brasileiro, e isso não é necessariamente ruim. O produto é custoso, se viabiliza pela via da publicidade, que paga pela audiência. Caso disperso em muitos meios e mídias, o produto geral (o campeonato) tende a perder valor. Há também o fator qualidade, que geralmente é prejudicado pela necessidade dos meios/empresas em controlar os custos de produção, de modo a manter competitividade financeira.

Há também um ponto que compete diretamente ao consumidor. Na faixa de negociação de pay-per-view há a chance de concentração de jogos em plataformas pagas, e do jeito que se desenha, possível que surjam até 4 diferentes assinaturas a serem pagas para acessar os jogos em que o time de preferência joga de visitante. Quando não é diretamente impeditivo, esse formato é insustentável.

Mas o ponto principal demanda uma explicação mais profunda.

O risco real

Fica claro que sem uma liga capaz de concentrar os direitos de transmissão e regulamentar uma divisão equilibrada dos recursos, a tendência é a proeminência de clubes como Flamengo e Corinthians, há décadas dominantes nas principais pesquisas sobre a preferência clubística do brasileiro. Ainda que se argumente que uma empresa que detenha os jogos dos rivais do Flamengo ou Corinthians (portanto, com os jogos em que a maior audiência está do lado de visitante), o exemplo de Portugal mostra que essa é uma etapa secundária da negociação.

O grosso dos recursos é realmente investido na aquisição dos 19 jogos em que o clube de maior audiência é mandante. É uma opção mais segura e efetiva de exploração financeira de alta rentabilidade. As empresas que concorrem pelos jogos dos menores pagam para esses clubes praticamente o valor da exploração desses poucos jogos contra os maiores.  Todo o resto tende a ser conteúdo sem valor. É como imaginar que uma empresa realiza, em venda de publicidade, apenas nos 38 jogos de 2 clubes do grande torcida, o mesmo valor que a outra realiza com 324 jogos dos outros 18 clubes. Mas com um custo muito menor.

De certa forma, na atual realidade do futebol brasileiro, apenas Flamengo e Corinthians têm garantias reais de que sairão ganhando no modelo de “direito de mandante”. Mesmo Palmeiras, São Paulo e Vasco, clubes com grande número de consumidores em todo Brasil, podem ser prejudicados por essa lógica do “salve-se quem puder”.

Foi o que ocorreu a esses clubes quando o Clube dos 13 foi dissolvido. Essa entidade beneficiava os seus 13 fundadores e alguns “convidados” com valores maiores na negociação dos direitos de transmissão do Brasileirão, inclusive em caso de rebaixamento, e apresentava um desequilíbrio menor do que a ordem atual. Com o fim desse “bloco” de privilegiados, estabeleceu-se a “negociação individual” (ainda que sem direito do mandante), e Flamengo e Corinthians passaram a receber muito mais que os seus rivais, como os já citados Palmeiras, São Paulo e Vasco.

Abaixo, também poderíamos colocar os clubes de torcida nacional mais reduzida, como Botafogo, Fluminense e Santos, que não conseguiram manter o mesmo patamar que os rivais. O Botafogo é comumente usado como exemplo, uma vez que Mauricio Assumpção, seu então presidente quando da dissolução do Clube dos 13, alegou que o clube ganharia mais com a nova lógica de negociação. Até ganhou – subiu cerca de 50% – mas viu o seu rival Flamengo duplicar a sua arrecadação e a distância entre os dois aumentar drasticamente.

Situação pior ficou para outros clubes ditos grandes, com prateleiras cheias de troféus, mas com torcidas basicamente regionais, como é o caso de Cruzeiro, Atlético, Grêmio e Internacional. Não importa se todos os quatro clubes tem taças de Brasileiro, Copa do Brasil e Libertadores em suas sedes. Seu público consumidor não possui alcance nacional, portanto eles não são capazes de gerar audiências passíveis de contratos de direitos de transmissão equiparáveis aos outros ditos “grandes”.

Quanto aos clubes periféricos, como é o caso do supracitado Fortaleza – e os demais clubes do Nordeste -, soa desnecessário imaginar o quanto ficarão abaixo dos principais clubes do país. No máximo, e parece óbvio que tentarão recorrer a isso para evitar a desvalorização, formarão blocos entre si. E Portugal está ali para provar que isso não é suficiente.

Em suma, sem uma liga, o “direito de mandante” só serve a quem tem maior poder de barganha, em outras palavras, os clubes que historicamente mobilizam maior audiência para seus produtos a nível nacional. Ainda que todos os clubes de capitais consigam ter poder em suas respectivas praças – como provam os números recentes mesmo em Salvador, Recife, Fortaleza –, a concorrência mais ferrenha será pelos direitos de transmissão dos clubes que estouram a audiência em absolutamente todas as grandes praças. Ao resto sobrarão as migalhas.

Em suma, sem uma liga, o “direito de mandante” funciona como um guarda-chuva em um dia ensolarado de meio de semana: você sabe que tem uma utilidade, mas para que ele seja útil é necessário que chova. Sem a chuva o seu guarda-chuva não passa de um peso desnecessário.

Há ainda um efeito silencioso que vem a reboque de um processo de grande desequilíbrio financeiro, como se desenha para o futuro com uma PL de “Direito do Mandante” com negociação individual: a hiperinflação dos salários e a concentração dos melhores atletas antes da sua internacionalização.

Em todo o mundo se nota um efeito inflacionário em formato de cascata provocado pelo gasto desenfreado dos grandes clubes. No Brasil, há o risco de enfrentarmos uma realidade onde os clubes que não conseguiram boas negociações dos direitos de transmissão sofrerem de forma dobrada. Em um primeiro momento não serão capazes de oferecer propostas salariais competitivas para os bons jogadores, em um segundo momento precisarão se desfazer dos seus principais jogadores em tempo acelerado, perdendo-os, via de regra, para os adversários mais ricos do próprio país.

É um ciclo vicioso altamente previsível, onde os clubes mais competitivos vão atacar o escasso mercado qualificado de pé-de-obra, gozando da sua preponderância financeira, mesmo que seja para não utilizar determinado jogador – colocando-o na reserva ou em posição secundária, mas conseguindo impedir a competitividade esportiva de um adversário em potencial.

Por fim, é importante entender que o futebol brasileiro está localizado no meio do grande gap que divide a elite do futebol europeu do futebol sul-americano. Nem mesmo uma hipotética imensa majoração desses valores de direitos de transmissão será capaz de fazer os clubes brasileiros competirem em pé de igualdade com os clubes europeus (mesmo de países periféricos).

Haja visto que nem mesmo a atual superconcentração de recursos conseguiu fazer o Flamengo – um dos maiores públicos consumidores globais de um único clube dentro do seu próprio país e colecionador de taças em 2019 -, alcançar a trigésima maior receita do futebol europeu – a do Lyon, com 164 mi euros (mais de 1 bilhão de reais).

O sensação de mudança de patamar, se muito, será sentida na permanência um pouco mais duradora de jogadores qualificados – apenas nos clubes mais ricos –, e sobre os países da América do Sul, que disputam a Copa Libertadores em comum. Aliás, competição que já é dominada e produzida anualmente para dar preferência aos clubes oriundos do grande mercado consumidor do Brasil, país mais rico e mais populoso do continente.

De promessas o futebol brasileiro está bem servido. Precisa agora é de uma leitura menos otimista, mais materialista. Os números enganam porque, apesar de não mentirem, também não comunicam nada. Há quem saiba disso tudo que foi falado nesse texto, mas que acha inconveniente colocar na discussão, em um momento tão frutífero de “transformações” que virão para deixar tudo como está.

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Os donos no futebol

Os clubes do século XXI foram controlados por perfis facilmente classificáveis de “investidores”. Todos absolutamente cientes de uma verdade inconveniente da qual essa indústria jamais conseguiu se desprender e admitir: clube de futebol não dá dinheiro.

Não há qualquer exagero nessa afirmação. Desde a irreverente literatura da dupla Simon Kuper & Stefan Szymanski (2009)[1] até a radical crítica de David Kennedy e Peter Kennedy (2016)[2], são notórios os indícios de que a propriedade de clubes de futebol não se configura como “um grande negócio”, e pior, mal pode ser considerada “um negócio”. A propriedade de clubes de futebol não opera em uma ordem guiada pelo lucro, não costuma ter suas ações negociadas em ritmos convencionais, não estabelece faturamentos comparáveis a segmentos periféricos do terceiro setor, não repassa dividendos para os seus envolvidos… por que, então, alguém teria tanta vontade de ter um clube? Porque futebol movimenta as multidões. E as multidões alteram o rumo dos ventos.

Os donos de clubes de futebol hoje podem ser divididos em quatro grandes grupos. Três deles são diretamente relacionados à utilização do clube como ferramenta de propaganda e/ou publicidade; o último é mais diverso: 1) geopolítica: Estados interessados em fazer dos clubes suas ferramentas de “soft power”; 2) política eleitoral: personalidades ou grupos políticos dispostos a investir em um clube de massas para reverter seu sucesso esportivo em capital político; 3) mercado de capitais: grupos financeiros, e seus respectivos representantes públicos, em busca de projeção de suas imagens e marcas para a atração de investidores para seus projetos; e 4) os alheios: ora desinformados, ora aventureiros, ora mal intencionados, muitas vezes notórios lumpenburgueses.

1) Geopolítica – O uso do clube de futebol como instrumento de “soft power”, isto é, o exercício do poder sem uso da violência, pode apresentar diversas finalidades, mas, em geral, se define pela intenção de facilitar o trânsito dessas lideranças/Estados dentro de países centrais da economia global. O esporte tem sido utilizado com esse princípio há muitos anos, mas esse tipo de “comprador de clube de futebol” está basicamente relacionado a quatro países.

O primeiro seria o emirado de Abu Dhabi, o mais importante e rico dos Emirados Árabes Unidos, que adquiriu o Manchester City em 2008 e posteriormente criou o City Football Group, maior holding global do segmento.[3] O segundo seria o emirado do Qatar, atual proprietário do Paris Saint-Germain, da França, que adquiriu o clube em 2011. O terceiro, em processo que até maio de 2020 não estava concluído, seria a Arábia Saudita, prestes a adquirir o tradicional Newcastle United, da Inglaterra. Nesses três casos, se tratam de Estados teocráticos que mobilizam seus fundos públicos de investimento para adquirir grandes marcas do futebol global e se dispõem a realizar gigantescos investimentos. O quarto deles é o Estado chinês, responsável por financiar investimentos em dezenas de clubes localizados em territórios que representam pontos estratégicos dos interesses desse Estado.[4]

2) Política eleitoral – em países democráticos, a busca pelo voto é um dos poucos verdadeiros desafios da vida de homens ricos. Uma vez que é difícil, custoso, ilegal e arriscado comprar o número necessários de votos para se eleger a um cargo público, empresários milionários de diferentes países tiveram uma grande ideia: tornar legal a compra do instrumento de mobilização apaixonada de milhares de cidadãos. Dessa forma, era preciso tornar os clubes compráveis. Três exemplos ilustram isso tipo de fenômeno.

Silvio Berlusconi, na Itália, adquiriu o Milan em 1986, na esteira da nova lei das sociedades por ações. Tornou o Milan uma máquina de comprar jogadores com imensos aportes financeiros sustentados pelo seu império de telecomunicações. Oito anos depois, conquistados quatro campeonatos nacionais e três taças continentais, Berlusconi era eleito primeiro-ministro do país pelo partido Forza Italia, criado por ele mesmo naquele exato ano de 1994. Ocupou o cargo em outras duas oportunidades.

Em um perfil mais modesto, também está a figura pitoresca do espanhol Jesus Gil, eleito em 1987 com margem apertada para a presidência do Atlético de Madrid em uma eleição com 22 mil votos. No cargo, torna-se um dos principais entusiastas da Ley de Deportes. Com a sua aprovação, se torna imediatamente sócio majoritário do clube que até então presidia. No ano seguinte, funda o partido Grupo Independiente Liberal (GIL) e se elege prefeito da cidade de Marbella, onde é reeleito três vezes antes de ser obrigado a abandonar a vida pública por envolvimento em um caso de corrupção realizado com o nome do Club Atlético de Madrid.

O caso mais emblemático talvez seja o de Sebástian Piñera, do Chile. Um empresário bilionário, cuja família teve relações firmes com os primeiros anos da ditadura Pinochet, já havia sido senador apesar das imensas dificuldades de emplacar eleitoralmente o Partido Renovación Nacional, do qual era presidente. No começo dos anos de 2000, começa a advogar pela conversão dos clubes chilenos em empresas, logo após impulsionar a revisão de uma lei em um processo que gerou uma dívida “retroativa” para os clubes. Logo depois, torna-se sócio majoritário da Blanco y Negro S.A., empresa que assumiria a gestão do Colo-Colo, clube mais popular do Chile (e rival da Universidad Católica, clube do qual declarou anteriormente ser torcedor). Em 2010, após quatro títulos nacionais sustentados por apoiadores/acionistas, Sebástian Piñera se torna presidente do Chile.[5]

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3) Mercado de capitais – Mais do que necessariamente o uso do clube como forma de unir seu sucesso esportivo à imagem do seu proprietário, como mencionado anteriormente, esse quesito também envolve a limpeza da imagem de empresários com pregressos envolvimentos em atividades ilícitas. A força popular de um clube é capaz de blindar seus donos da lei.

Esses casos geralmente dependem das taças para lograr, e motivam grandes investimentos. É o caso do bilionário israelense-russo Roman Abramovich, que fez fortuna com a privatização das empresas estatais da antiga URSS, mais notadamente nos setores de mineração e petróleo. Em 2003, comprou o Chelsea, modesto clube de Londres, por meio do qual protagonizou o primeiro caso de megainvestimento do século XXI, rendendo diversos títulos, incluindo uma Champions League em 2012. Os resultados esportivos do Chelsea lhe renderam prestígio suficiente para se instalar com conforto no país. O final da década de 2010, no entanto, representou um gradual abandono dos investimentos, levando o clube a já não contratar como antes, a perder protagonismo e a suspender o projeto de um novo estádio. Roman Abramovich havia sido identificado como peça-chave de uma trama excepcionalmente complexa, que envolvia espionagem, guerra diplomática e lavagem de dinheiro, e, por isso, teve seu visto de residência no Reino Unido negado.

Em 2010, foi a vez do sheik Abdallah Ben Nasser Al-Thani comprar o Málaga CF, da Espanha, levando clube até a uma inédita Champions League em 2013. Esse caso não pode ser confundido como um exemplo de soft power, uma vez que Al Thani intencionava projetar sua própria ambição no mercado imobiliário espanhol. Alguns indícios apontam que o drástico desinvestimento do sheik no clube andaluz ocorreu por causa de uma série de frustrações aos seus planos empresariais, em especial pelo impacto das movimentações políticas contrárias aos seus projetos de arranha-céus na zona portuária da cidade. Em 2018, o Málaga CF é rebaixado para a segunda divisão espanhola. Em fevereiro de 2020, Al Thani foi afastado do conselho administrativo do clube por decisão da justiça espanhola, sob denúncia de apropriação indébita dos fundos da SAD.

Há também o caso de Peter Lim, bilionário financista de Singapura que adquiriu o Valencia Club de Fútbol em 2014, no rastro de uma crise causada pelo desastroso projeto de um novo estádio. Peter Lim somou fracassos dentro de campo, mas acabou por conquistar uma improvável Copa del Rey em maio de 2019, tirando o clube de 11 anos de jejum. Ainda assim, nunca gozou de prestígio junto aos torcedores e pequenos acionistas, que realizaram inúmeros protestos massivos desde a sua chegada. Com uma política austera nas contratações, Peter Lim ainda nomeou como presidente da SAD o seu conterrâneo Anil Murthy, um ex-diplomata, cuja experiência com o futebol era absolutamente zero. Sob sua gestão, o Valencia fracassou na tentativa de finalizar o antigo sonho do Nou Mestala, novo estádio que estava previsto para ficar pronto em 2010.

4) Os Alheios: aqui está um tipo de investidor que não dispõe de grandes fundos como os listados anteriormente. Ao se apresentarem como homens de negócios bem-sucedidos, conquistam a confiança de clubes que pretendiam adquirir. Como resultado, é comum vê-los levando-os à bancarrota junto com seus próprios fracassos financeiros.

O empresário iraniano Majid Pishyar desembarcou em Portugal, promovido por sua experiência bem-sucedida de promoção à primeira divisão com o Servette FC, clube da Suíça. Por meio do 32Group, um grupo de investimentos criado em 2008, Pishyar assume a SAD do Beira-Mar e promete torná-lo o “quarto grande” do país. No ano seguinte, é forçado a admitir que estava abrindo pedido de falência no clube suíço e, em 2014, já repassava a sua participação no clube português para outro interessado. O Beira-Mar saiu dessa experiência falido e Majid Pishyar, apesar disso, continua desenvolvendo outras atividades financeiras com o 32Group. Hoje, os torcedores do Beira-Mar tentam refundar o clube nas divisões inferiores de Portugal.

No Brasil, esse foi o tipo de investidor que chegou ao Esporte Clube Vitória no ano de 1998, quando o clube baiano adotou o modelo de sociedade anônima no rastro do movimento gerado pela Lei Pelé. O Exxel Group, conglomerado financeiro argentino em franca ascensão, controlado pelo uruguaio Juan Navarro, adquire 50,1% das ações da Vitória S.A, por cerca de 6 milhões de dólares, faturando as dívidas que o clube possuía à época e planejando entrar no mercado de jogadores de futebol. Por ser esse um dos seus movimentos de expansão dentro do mercado sul-americano, o Exxel prometeu investimentos de 12 milhões de dólares ao longo de 5 anos. Antes de decolar, o grupo que também havia comprado o clube argentino Quilmes, é impactado pela crise cambial argentina e por uma grave denúncia de fraude financeira. O Exxel Group abandona o Vitória, não faz o aporte financeiro prometido, vai à falência e aceita negociar a recompra das suas ações pelo EC Vitória em 2006, quando o clube jogava uma inédita Série C em sua história. O clube associativo restabeleceu o controle do seu futebol, extinguiu a Vitoria S.A. e voltou aos trilhos.[6]

Outro caso digno de nota é a aventura de Marcos Ulloa à frente do Deportes Concepción, clube chileno que sempre foi um dos mais tradicionais emblemas fora da capital. Tal empresário chegou ao clube em 2006 com a proposta de investir recursos de um grupo alemão representado por Mario Munzemayer. Recursos em tese suficientes para cobrir as dívidas da agremiação, para construir um novo centro de treinamentos e um estádio semelhante ao do alemão Schalke 04. O clube aceita a entrada de Ulloa na SAD, mas o dinheiro não existe. O Concepción foi rebaixado antes de conseguir desfazer o acordo com os falsos investidores e, em uma segunda tentativa de restabelecimento com novos investidores em uma nova SADP, mergulha em dívidas que levam à sua desfiliação da liga. Marcos Ulloa foi preso. Hoje os torcedores tentam restabelecer a associação.

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Com a exceção do grupo 4 desse exercício ilustrativo, no fim das contas, do ponto de vista dos proprietários e de suas finalidades, o futebol de empresas do século XXI acabou adotando uma configuração semelhante à do futebol inglês no final do século XIX: clubes deficitários voltados para agregar à imagem do seu proprietário. A diferença agora é a proporção: em um futebol super consumido, televisionado para os quatro cantos do mundo, clubes provocam impactos reais no cenário eleitoral de uma nação, reposicionam geopoliticamente líderes globais, viabilizam projetos financeiros fraudulentos e limpam a imagem de empresários de origem e práticas duvidosas. Nessa escala, o futebol-negócio de clubes-empresa serve basicamente a interesses potencialmente perigosos.

É justo destacar que o futebol espanhol até meados dos anos 2010 ainda resguardava uma característica que lhe conferia certa diferenciação. Uma vez que seus antigos sócios tiveram prioridade na aquisição das ações da nova SAD, em muitos clubes os sócios mais ricos e influentes ocuparam os postos majoritários dessas sociedades. Até ali, por mais que também imperassem interesses como os já listados, se tratavam ao menos de proprietários de origem comum ao clube, muitas vezes até descendentes dos fundadores das associações. Mas esse tempo já passou.

Notas de fim

[1] “Se a Deloitte classificasse os clubes segundo o lucro, os resultados seriam constrangedores. Não apenas a maioria dos clubes tem prejuízo e não paga dividendos a seus acionistas, como muitos dos “maiores” clubes estariam no final da lista […]. Qualquer que seja o parâmetro, nenhum clube de futebol é um grande negócio”. (KUPER; SZYMANSKI, 2009, p. 88).

[2] “Um exame forense do estado da elite do futebol europeu confirma isso, revelando uma realidade totalmente diferente do dito sucesso comercial: é a realidade do débito, da falência, da perda do balanço competitivo e um contido ressentimento dos torcedores pela exploração financeira enquanto ‘consumidores’ e pela sua falta de poder de decisão”. (KENNEDY; KENNEDY, 2016, p. 25).

[3] Ver Capítulo 13 “Multi-club ownership: um novo estágio da globalização dentro do futebol”, de João Ricardo Pisani.

[4] Ver Capítulo 11 “Faixa, rota e bola: o futebol como instrumento de soft power chinês” e Capítulo 12 “Soft power e futebol: os casos de Catar, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita”, ambos de Emanuel Leite Junior e Carlos Rodrigues.

[5] Ver Capítulo 3 “Sociedades anónimas deportivas no Chile: o declínio do futebol social”, de Sebástian Campos Muñoz.

[6] A bem da verdade, o Exxel Group não “investia” no Vitória. Apesar de ter se tornado proprietário da maior parte da Vitoria S.A. a partir do ano 2000, o aporte de 12 milhões de dólares estava disponível como crédito a juros de 8% a.a.. Cerca de 60% desse montante foi utilizado, em um contexto de crise generalizada no futebol brasileiro, mas o resto desse valor foi bloqueado pelo credor unilateralmente, impactado pela crise cambial argentina que originou a sua falência. Ver: CARNEIRO, Paulo. “A vantajosa recompra das ações do Vitória S.A feita em 2004”, Blog de Paulo Carneiro. 30 mar 2010.

Artigos

A dimensão ideológica da empresarização dos clubes

O post que segue corresponde ao tópico “Dimensão política-ideológica”, terceiro item dos cinco presentes no artigo “Clube-empresa: histórico, impactos reais e abordagens alternativas”. Este artigo, de minha autoria, é o texto introdutório do livro Clube Empresa: abordagens críticas globais às sociedades anônimas no futebol, lançado em junho de 2020 pela Editora Corner. Trata-se de uma coletânea de artigos cujo sumário segue após o texto.

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Muita coisa acontece entre a concepção de uma ideia e a aprovação de uma lei. Modelos jurídicos tendem a ser moldados pela correlação de forças conjuntural do parlamento que legisla sobre ela. Os modelos dos países elencados não apenas são consideravelmente distintos, como também possuem suas realidades particulares como ponto de partida, as suas características sociopolíticas como meio e a decisão particular de cada clube como a camada mais superficial e visível desse processo.

Como dito anteriormente, a ideia de clubes como empresas está alicerçada em concepções ideológicas de natureza políticas muito sólidas e coesas. O próximo item busca revelar essa relação.

Dimensão política-ideológica

Utilizado de forma exaustiva, repetitiva e, muitas vezes, meramente protocolar por seus críticos, o termo “neoliberalismo”, ou “pensamento neoliberal”, é comumente considerado equivocado e inexato por aqueles que nele seriam enquadrados. Pouco importa aqui a terminologia consensual que vai evitar que o leitor feche este livro logo nas suas páginas iniciais. Conceitos tomam a forma de termos para resumir longas cadeias de raciocínio. Importa menos a terminologia que mais agrade a uma ou outra linha intelectual do que a concordância inevitável da gravidade da ruptura provocada pela “renovação” do pensamento liberal. Esse novo liberalismo submeteu seus seguidores a um profundo reenquadramento conceitual, mesmo que não se percebesse.

Muitas ideias atravessam os tempos de forma silenciosa, expressadas e encampadas por interlocutores que podem ignorar suas raízes. No caso em questão, da defesa de que clubes de futebol se transformem em empresas, aparenta muito mais terem sido objeto de assimilação osmótica de um discurso que arroga tecnicidade apolítica, do que necessariamente uma reivindicação consciente de um modo de enxergar a realidade. O que friso é que essas são crenças oriundas de um fundo ideológico muito mais profundo e que existem conexões muito sólidas entre essas concepções.

Perry Anderson (2012, p. 29-30) definia uma das características desse movimento como uma aversão à “política”, dentro de um conceito filosófico muito específico que, na verdade, significava a denúncia da própria ideia clássica de democracia. Uma linha político-filosófica contrária à ampliação do poder decisório ao que se entendia por “massas”, cuja fonte de poder residiria no número, no volume, e não no saber. A rejeição não era necessariamente às formas institucionais em si, mas aos modos como estavam sendo aceitos os processos decisórios de sua constituição. Daí a defesa de uma individualidade radical contra a “servidão”.

Desse modo, “democracia” é um conceito relativo, enquanto que a “liberdade” não. Para combater tal servidão da imposição coletiva, seria admissível a instauração de um regime de caráter autoritário e centralizado, por ser mais suscetível à eficiência pretendida pelos modelos econômicos desejados. Anderson (2012, p. 35) revela como influenciadores intelectuais importantes dessa linha eram totalmente francos quando afirmavam que a instituição democrática, como estava concebida, conduzia a sociedade a uma ordem totalitária. Neles, totalitarismo se opõe à liberdade, autoritarismo se opõe à democracia. Era perfeitamente cabível aceitar um “autoritarismo garantidor das liberdades”. Um conceito muito específico de liberdade, calcado em uma crença absoluta da concorrência de mercado como motor de progresso.

Essa renovação do pensamento liberal, cujos debates inaugurados nos anos de 1930 e de 1940 foram decisivos, não pode ser perdida de vista em sua importância histórica. É comum remeter como ato fundacional desse movimento político e econômico de renovação do pensamento liberal a partir da Sociedade Mont-Pèlerin, fundada em 1947 por Friedrich Von Hayek, seu mestre Ludwig Von Mises, Karl Popper, Milton Friedman, dentre outros. Mas Pierre Dardot e Christian Laval (2016, p. 71) defendem que se leve em consideração o papel importante do Colóquio Walter Lippmann, ocorrido em Paris, com vários desses nomes, no ano de 1938. Lá, pela primeira vez, o termo “neoliberalismo” é utilizado, já dentro do espírito fundacional de um movimento, que apenas se consolidou em Mont-Pèlerin, após o fim da guerra.

Ainda que tenha caído em desuso, o fato é que seus primeiros agitadores almejavam redefinir o liberalismo em sua renovação neoliberal. A sua formação é oriunda de um período de grave crise no campo que acreditava estar “ao centro” do espectro político, se opondo em ambos os flancos pelos “totalitarismos” de esquerda e de direita – a ameaça socialista internacional e o trauma recente do horror nazifascista. Mas a grave crise também estava no próprio entendimento da raiz fundamental do pensamento liberal: ao longo de muito tempo dominado por uma tendência conservadora que dava ao mercado uma acepção “natural” e, portanto, não passível de ser provida de uma intervenção estatal – que seria até ali invariavelmente negativa, independente de sua finalidade –; esse campo buscava se reformular sob novos marcos. Depois da grande guerra, novamente Perry Anderson (2012, p. 44), “o antigo mundo político de governantes proprietários fundiários, eleitorados limitados, orçamentos modestos e moedas estáveis desabou”.

O domínio do direito se torna um elemento central para a eliminação dessas crenças naturalistas sobre a lógica de mercado. Entender a economia como um domínio isolado da política era um equívoco, pois o mercado era, em suma, um produto do direito. Um equívoco que acreditavam estar no cerne da permissividade que gerou o crescimento do socialismo e de outras práticas “niveladoras”. Contratos estabelecem mercados e protegem a propriedade, o direito dá validade e estabilidade aos contratos. Não haveria nada de natural na constituição deles. Seu desafio era colocar isso em prática, a partir do Estado, sem extrapolar suas competências, sob o risco de contaminar-se de um sedutor desejo de intervenção. O laissez faire não simplesmente existiria, ele precisaria ser constituído.

Esse liberalismo renovado precisava então formular uma ideia de Estado que nunca esteve no cerne das discussões intelectuais desse campo político e teórico. Era preciso deixar de lado o espontaneísmo, para elaborar um programa político, uma agenda concisa e disposta a formalizar os dispositivos capazes de fazer da ordem de mercado uma ordem estabelecida. Um liberalismo disposto a elaborar, anotam Dardot e Laval (2016 p. 85), um ‘“intervencionismo liberal, um ‘liberalismo construtor’, um dirigismo do Estado que convém distinguir de um intervencionismo coletivista e planista”. Caberia a esse intervencionismo liberal garantir o equilíbrio do jogo da concorrência em regras claras, proporcionando à sociedade a chance de colher os “benefícios da competição”.

Pierre Dardot e Christian Laval são precisos ao observar que esse movimento opera a construção de uma nova “racionalidade governamental”, ou uma “governamentalidade”. Não apenas uma doutrina, mas o “desenvolvimento da lógica do mercado como lógica normativa generalizada, desde o Estado até o mais íntimo da subjetividade” (2016, p. 34), uma racionalidade que tem como característica principal a “generalização da concorrência como norma de conduta e da empresa como modelo de subjetivação” (2016, p. 17).

O liberalismo renovado olha de longe seus adversários ideológicos, disseca-os e percebe que a produção de um “novo homem” também era objeto de sua ambição. Suas ideias não atravessam o tempo apenas por aderência natural e consciente, mas constroem um mundo onde não parece ser possível viver sem aderi-las. Cada sujeito é um empreendimento que determina seus concorrentes e parceiros, não mais em relações sociais. O princípio da concorrência atravessa verticalmente todas as escalas da vida e da sociedade: nas políticas públicas, nas relações econômicas mundiais, na subjetividade dos indivíduos. E também do futebol.

Não é preciso ir muito longe para perceber que essas são as bases ideológicas que, transferidas para o campo do futebol, atacaram as associações civis sem fins lucrativos, com suas estruturas “políticas” eleitorais inadequadas ao futebol-negócio que florescia nessa conjuntura de crescimento econômico sem precedentes. Em sua contraposição, nada menos seria possível do que a constituição de uma ordem na qual imperasse o anseio individual pelas conquistas e riquezas, única via politicamente saudável e eficiente para o desenvolvimento: a lógica de mercado.

E daí, novamente, se fosse o caso para a aceitação de uma ordem autoritária e centralizada, capaz de controlar a “política” e atuar a favor do equilíbrio, da estabilidade e do crescimento, que assim fosse. A associação civil democrática então deveria ser expurgada da instituição esportiva produtora de riquezas. Cortada a raiz da “serfdom”, ao público dos estádios seria oferecido o produto de excelência, guiado pelos preceitos adequados de administração: uma norma técnica, apolítica e gananciosa de procedimento gerencial.

É importante relembrar que as associações, em geral, sempre foram regidas por princípios muito próximos de uma república liberal moderna, a constituição anteriormente explicada de três órgãos que dinamizavam funções semelhantes aos poderes executivo, legislativo e judiciário é o retrato mais cristalino disso. Maiores ou menores distorções desse organismo, por outra perspectiva política próxima, seriam parte do caro processo político demandado pela democracia. Mas, para essa abordagem mais radical do liberalismo renovado, a opinião até importaria, desde que a vontade popular não pudesse se tornar autoridade. Aqui, ser um fã de uma empresa produtora de espetáculo futebolístico é ter a “liberdade” de manifestar sua posição por meio do consumo ou do não consumo – essa forma de “protesto” autorizada aos cidadãos-clientes –, jamais do voto ou da voz.

Dentro desses pressupostos, a ausência de finalidade lucrativa não apenas impedia o clube de alcançar padrões superiores de eficiência administrativa, como também era responsável pela coexistência de valores e interesses conflitantes, muitas vezes espúrios, constantemente inconciliáveis, portanto, nefastos. No seu lugar, uma sociedade dirigida por finalidades lucrativas seria capaz de suplantar as diferenças e congregar os anseios, oferecendo óbvios benefícios aos seus proprietários, e gerando vantagens aos seus consumidores. Definitivamente, mais do que uma questão operacional, a transformação de clubes em empresas também foi um debate profundamente político e ideológico.

Falta, entretanto, uma abordagem escalar. Esses pressupostos consideravam que a concorrência “generalizada e sem tréguas”, mas em situações leais, resultaria na vitória dos mais aptos. A grande questão aqui é que o mérito esportivo é absolutamente transplantado pelo mérito econômico. Os menos aptos, portanto, teriam o fatal e inevitável destino da sua extinção. Já compreendíamos a total ausência de equivalência entre os resultados esportivos e os resultados financeiros no futebol, sob essa racionalidade, então, se produz uma razão ainda mais inadequada.

Quando esse liberalismo renovado ganhou a forte marca de distinção da “Escola de Chicago”, seus atores políticos-ideológicos já estavam articulados de forma muito concisa. Dos primeiros anos do regime ditatorial de Augusto Pinochet no Chile, Milton Friedman, prócere dessa instituição, discípulo de Hayek e um dos nomes fundadores da Sociedade Mont-Pèlerin, é um nome muito recorrente dos círculos intelectuais político-econômicos. O país sul-americano sempre é destacado como “laboratório” das ideias neoliberais, mas também é de onde tiramos os melhores exemplos de como as novas propostas para um futebol de empresas tem fundamentos políticos-ideológicos profundos.

A participação de Friedman na formação de uma nova elite intelectual e política daquele país foi diretamente realizada pela Fundación de Estudios Económicos BHC, ligada ao Banco Hipotecário de Chile (BHC). Essa instituição, então quase centenária, foi extremamente relevante dentro desse período histórico, publicando “Milton Friedman em Chile: Bases para un desarrollo económico” em 1975, uma obra-símbolo das ideias que norteavam os grupos de apoio ao regime de Pinochet (quando ainda era possível considerá-lo como uma “salvação” à ameaça socialista de Salvador Allende). Essa obra conta com a íntegra de uma carta enviada por Milton Friedman a Augusto Pinochet. Foi do BHC que saiu o grupo apelidado de “Los Pirañas”, uma fração da versão chilena da marca de distinção intelectual e gerencial mundialmente conhecida como “Chicago Boys”.

Daniel Matamala (2015, p. 84) observa o imenso peso intervencionista do regime: “O processo que girou o país em 180 graus em seu desenvolvimento político, econômico e social, praticamente não deixou área da vida nacional intocada”. O regime manobra politicamente para “eleger” um novo presidente da Asociación Central de Fútbol, e empossa o general Eduardo Gordon Cañas.

Mas são “Los Pirañas” as peças-chave do episódio em que o ditador Augusto Pinochet se sentiu ameaçado pela eleição no Club Social de Deportivo Colo-Colo em 1976, clube mais popular do país. A chapa favorita era formada por Antonio Labán, que contava com apoio público de Tucapel Jiménez, sindicalista, opositor e figura incômoda ao regime.[1] A solução encontrada por Pinochet foi criativa: suspendeu as eleições no Colo-Colo, alegou que as altas dívidas do clube exigiam uma intervenção, e designou o Grupo BHC para a função.

“Nessa época o predomínio dos Chicago Boys na equipe econômica já estava dado, e os novos grupos financeiros adquiriram cotas importantes de poder. Foi quando o governo decidiu levar suas receitas econômicas ao futebol”, contextualiza Daniel Matamala (2015, p. 176). Alberto Simián, então gerente da Financiera Nacional, (propriedade do Grupo Vial, como o BHC) foi o nome colocado pelo banco no Colo-Colo em 2 de abril de 1976.

As páginas da Revista Estádio exaltavam a iniciativa, estampando o novo gestor como alguém formado nos Estados Unidos, “um vencedor”, trajando terno e gravata. Simián declara que “Los Pirañas” estavam preparados para o desafio: “Sabendo como somos na área empresarial, sabemos que faremos bem. Se houvesse alguma dúvida, a menor dúvida, não teríamos aceitado”.[1] A manchete da matéria era “Empresas com camiseta”, uma clara alusão a essa nova ideia em formação. Matamala completa: “A decisão tinha uma lógica impecável: o que poderia ser melhor para legitimar a nova ortodoxia econômica, senão usando-a para tirar de seus problemas crônicos a instituição mais popular do país?” (2015, p. 176).

A experiência de gerenciamento privado imposta por Pinochet ao clube Colo-Colo foi desastrosa, para não dizer “altamente suspeita”. Para além da falta de tino para o futebol, Simián se complicou com promessas de títulos não cumpridas e jogadores em greve por conta de salários atrasados. Ao final de 1978, o Colo-Colo não tinha títulos e quase não tinha jogadores: apenas 10 atletas tinham contratos com o clube comandado pelos Chicago Boys. Em dezembro daquele mesmo ano, toda a cúpula do BHC renuncia. Exceto Alberto Simián, que teria a missão de recuperar o dinheiro investido pelo grupo.

O Colo-Colo saiu ainda mais endividado do que se encontrava antes da intervenção, com débitos milionários dos quais cerca de 60% eram devidos exatamente ao BHC, a instituição que assumiu a sua gestão para resolver tais pendências. É certo que regimes ditatoriais, clássicos falseadores históricos, tendem a não deixar registros dos seus feitos, mas estão devidamente marcadas as referências que os jovens Chicago Boys traziam na bagagem ainda em 1976, na defesa de que os clubes se transformassem em sociedades anônimas.[2]

Maior coincidência que isso, só o fato de terem fracassado redondamente quanto à missão à qual serviam: sob os desígnios de uma ditadura, a favor da liberdade de mercado e contra um clube de caráter democrático com uma diretoria eleita pelos membros de sua associação civil formadora. A conclusão deste artigo, e da obra que o hospeda, é de que tais pressupostos sequer se sustentam frente aos fatos. É na observação honesta dos atores políticos e econômicos que compuseram as castas proprietárias dos clubes de futebol que poderemos observar de uma forma mais concreta o fracasso dessas perspectivas. Principalmente, e acima de tudo, no que a propriedade de clubes de futebol ao redor do mundo revela da quase ausência de uma lógica de mercado nesse segmento.

Notas de fim

[1] Tucapel Jímenez era presidente da Asociación Nacional de Empleados Fiscales e militante do Partido Radical. Foi assassinado pela inteligência do exército em 1982.

[2] Vários outros clubes se encantaram com a ideia de um gerenciamento privado. O período se encerrou com um grave quadro de endividamento dos clubes locais.

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