Artigos

Só nos resta jogar diferente

Os tempos são de dor. De agonia. De incertezas. Tudo o que nossa sociedade se especializou em fazer como pensar no futuro e programar ações está em quarentena. Ninguém programa nada. Está tudo suspenso. O jogo social com o qual nos acostumamos não pode mais ser jogado. Tudo que achávamos sólido se desmanchou com o vírus. Não se sabe quando tudo isso vai passar e como estaremos depois de tudo isso. Enquanto o futuro se torna algo difícil de observar em meio a esta nuvem sombria proporcionada pelo vírus e pelo desprezo da ciência, como ficamos sem o jogo?

São algumas alternativas. Antes que o leitor mais apressado enfatize que os esportes estão parados em praticamente todo o mundo, cabe ressaltar o que podemos chamar de jogo. Temos o Esporte Moderno, produto cultural do século XIX, que instituiu regras, modalidades, ligas e adquiriu um espaço significativo no campo econômico, fato que o transformou em uma grande indústria. Esse esporte, que conhecemos muito bem pela ampla divulgação através das mídias está parado. Não há nada de novo acontecendo no Esporte Moderno. Nem mesmo as especulações de contratações, algo comum durante as férias dos atletas, conseguem suprir a atenção dos aficionados pelo esporte. Nessa aridez de novos jogos e novas sensações que o esporte sempre provocou, podemos achar que o jogo também está suspenso?

Não se entendermos o jogo como algo mais amplo, que está presente no Esporte Moderno, mas existe sem ele. O jogo em sua essência, descrito por Johan Huizinga no clássico Homo Ludens, é uma forma elementar das manifestações do espírito humano. O jogo nos envolve “por inteiro”, somos impulsionados a “jogar” e se “perder” na dimensão da intensidade que o jogo tem. O envolvimento e excitação proporcionada pelo jogo são “a própria essência e a característica primordial do jogo” (HUIZINGA, 1971, p.5). O jogo tem uma função social, nos leva a intensidade e pode ser considerado um “intervalo da vida real”. Enquanto a “vida comum” está pausada o jogo nos salva. Até mesmo uma “brincadeira” sem propósito é uma forma de jogo. Criar brincadeiras com seus filhos, sobrinhos para passar a quarentena é jogar. Baixar jogos on-line, jogar cartas e se perder na intensidade lúdica que eles proporcionam também é jogar. Uma criança, por exemplo, pode ficar horas chutando uma bola na parede sem que, para aqueles não envolvidos neste jogo (brincadeira), exista motivo. Mas para ela tem. Enquanto vivemos, estamos jogando.

Fonte: vittude

A narrativa também é uma forma de jogar. De estabelecer regras momentâneas para nos comunicarmos e, a partir das reações do interlocutor, adaptarmos nossa atuação neste jogo narrativo. Ela é intensa, nos absorve se “jogarmos seu jogo” com vigor. Ela impulsiona paixões, orienta nossa visão de mundo e também nos remete a histórias do passado. Essa é outra alternativa observada. Na falta de algo novo, algumas emissoras recontam jogos do passado. Neste recontar se entende com mais clareza como o jogo e narrativa andam juntos. O filósofo Paul Ricouer defende que a narrativa cria mundos. Assim como a narrativa, o jogo é um mundo a parte com regras tácitas entendidas e seguidas pelos praticantes do jogo. Com o poder da narrativa também se viaja no tempo. Quem nunca se emocionou e se envolveu novamente em uma velha história de família ou pessoal. Recontar é como pegar uma máquina do tempo e voltar ao passado, porém com toda a bagagem que temos agora. É como nos filmes de ficção cientifica em que o indivíduo que volta no tempo sabe tudo o que aconteceu e mesmo assim se envolve.

No mundo esportivo parado, ver os jogos antigos é jogarmos novamente, é sentirmos emoções, é lembrarmos onde estávamos naquele dia, com quem, o que bebemos, o que comemos e como reagimos. É recuperar a memória. O jogo nos proporciona isso. É um local extremamente fértil para nos envolvermos e a partir daí surgirem dramas e histórias possíveis de serem contadas por gerações. Também nos remete a um “passado mágico”, que “nunca mais vai existir”, do tempo “mais puro”, tempo talvez que éramos mais jovens para nos deixarmos jogar e viver a intensidade do jogo e das suas narrativas.

Fonte: globoesporte

Enquanto a sociedade atual está parada, contando mortos, e observando a marcha da insensatez de alguns governantes, o jogo é o que nos mantém vivos. Se perder na intensidade do agora (mesmo que seja o jogo reprisado) é o que nos resta. Em tempo de dor, a transcendência do jogo é a oração de muitos. Essa máquina do tempo também nos permite compreender qual jogo estava sendo jogado anteriormente. É na força do jogo que podemos “jogar diferente”, quando tudo isso passar. É pelo jogo que podemos envolver as pessoas em um mundo diferente, mais humano, menos ganancioso, com gente sendo maior que a economia, a partilha sendo maior que o individualismo, a ajuda ao próximo maior que acumulação desenfreada e destrutiva do campo em que jogamos. É no curso do jogo que se adapta e se muda regras antigas, obsoletas e que não estão dando certo. Não deixemos de jogar, jogar para melhorar. Que joguemos outro jogo após essa tragédia.

Artigos

O “lugar” do negro no futebol brasileiro

Não deveria chamar atenção e ter uma repercussão grande dois treinadores negros, que foram destaque como jogadores, estarem se enfrentando na área técnica. Para mim isso é a prova que existe um preconceito, à medida que a gente tem 50% da população negra e a proporcionalidade que se representa não é igual. A gente tem… Continuar lendo O “lugar” do negro no futebol brasileiro

Avalie isto:

Artigos

Saudades do jogador que você nunca se tornou*

Neymar sempre permeou os estudos de nosso laboratório. Vários integrantes já publicaram artigos sobre sua trajetória e analisaram as possibilidades iminentes de se tornar um grande ídolo nacional[1]. Como nosso foco é se aprofundar nas relações entre mídia e esporte, abordávamos mais os efeitos simbólicos de Neymar fora de campo do que seu desempenho dentro… Continuar lendo Saudades do jogador que você nunca se tornou*

Avalie isto:

Artigos

A Copa e o encontro de mundos que escancara a mediocridade do Jornalismo técnico

França campeã! Não foi o time que encheu os olhos, apesar de grandes jogadores. Jogou “pro gasto”, o que os tecnocratas costumam chamar de eficiência. Para Croácia e Bélgica sobrou bola e vontade, mas faltou, como o técnico brasileiro Tite justificou a eliminação brasileira, o aleatório. Este “tal” aleatório está sempre presente no jogo e… Continuar lendo A Copa e o encontro de mundos que escancara a mediocridade do Jornalismo técnico

Avalie isto:

Artigos

Ela está chegando…

Aguardada pelos amantes do futebol, a Copa do Mundo é um objeto amplamente estudado nas pesquisas voltadas para o esporte no campo acadêmico. Antropólogos, sociólogos, historiadores, geógrafos, publicitários e jornalistas encontram um ambiente fértil na produção de símbolos que esta competição oferece, desde a sua primeira edição em 1930. Seja na produção de mitos, heróis… Continuar lendo Ela está chegando…

Avalie isto:

Artigos

O que Tite há de temer

Em meio ao desmonte do Estado Brasileiro operado pelo golpista Michel Temer e seus três por cento de apoiadores, uma notícia representativa ganhou forma na semana passada: o golpista utilizaria a representação do treinador Tite para “melhorar sua imagem” nas redes sociais. Isso é claro, depois de se safar da segunda denúncia na Câmara com… Continuar lendo O que Tite há de temer

Avalie isto:

Artigos

Quando o dinheiro não é tudo

Em um mundo onde o capital tem regido leis, mantido presidentes notoriamente corruptos e um Congresso que não esconde mais suas intenções nefastas contra a maioria da população, a narrativa sobre o futebol não tem conseguido se desvencilhar desta lógica mercadológica. Planejamento, balancetes positivos e a gestão, assuntos muito mais voltados para o campo econômico,… Continuar lendo Quando o dinheiro não é tudo

Avalie isto:

Artigos

O bem público está se tornando cada vez mais privado

Final de domingo quente no Rio de Janeiro. Enquanto dividia a atenção entre meu feed de notícias do Facebook e o jogo Flamengo e Madureira, vi uma novidade que me encheu de esperança: o clássico Atletiba seria transmitido via Youtube e Facebook nos canais oficiais dos clubes. Sim, também fiquei com vergonha de só saber… Continuar lendo O bem público está se tornando cada vez mais privado

Avalie isto:

Artigos

“Não é so futebol”, não mesmo!

Estava com o texto pronto, falaria sobre o final do Campeonato Brasileiro com o foco nas narrativas sobre a gestão do futebol. Palmeiras, campeão, e Flamengo entrariam na análise que abordaria como “mecenas” do futebol e uma organização financeira ganham força nas representações de sucesso do futebol. O texto fica para outra oportunidade, já que… Continuar lendo “Não é so futebol”, não mesmo!

Avalie isto:

Artigos

Imprensa e futebol-arte: as narrativas da nossa “essência” futebolística

Em dezembro de 2014, defendi minha dissertação de Mestrado com orientação do professor Ronaldo Helal e que procurava refletir sobre a construção da ideia de que temos um estilo de futebol singular, baseado no talento de nossos atletas. Ampliamos a pesquisa, que inicialmente se limitou as Copas de 1970, 1982, 1982 e 1994, até a… Continuar lendo Imprensa e futebol-arte: as narrativas da nossa “essência” futebolística

Avalie isto: