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Zagallo, o coadjuvante revolucionário

As efemérides deram o tom das últimas semanas no mundo do futebol. Inúmeras foram as homenagens prestadas àqueles que, para além das discussões estritamente técnicas que ganharam força desde a consolidação de Lionel Messi, seguem indubitavelmente como as duas maiores forças simbólicas a terem adentrado o campo de jogo: Pelé, que em 23 de outubro chegou aos oitenta anos, e Diego Armando Maradona, com seus seis decênios completados uma semana depois. Eternizadas numa época em que o esporte ainda era mais propício ao âmbito polissêmico da crônica literária do que à estatística pormenorizada em tempo real, suas trajetórias – e os modos de perpetuação que a comunicação de então permitia – parecem impossíveis de serem superadas. Ora, o brasileiro tinha o mundo aos seus pés já aos dezessete anos, quando, após uma final de Copa do Mundo em que marcou dois gols antológicos (o primeiro, com o famoso chapéu sobre o marcador, é decerto mais lembrado, mas a jogada do último tento da partida, conjugando uma soberana matada de bola no peito, um passe de calcanhar, a inteligente movimentação e a cabeçada fatal, é digna de nota), fez descer da tribuna do Estádio Råsunda o rei Gustavo Adolfo VI, da derrotada anfitriã Suécia, em busca de cumprimentos. Setenta anos após a abolição oficial da escravatura no Brasil, mal que perdurou formalmente por mais de três séculos pelas bandas de cá, a face que nosso país projetava para o planeta era enfim a de um jovem negro convertido em majestade. Quanto ao hermano, responsável maior pelo segundo título mundial argentino, as cenas do confronto contra a Inglaterra pelas quartas-de-final de 1986, quatro anos após o revés infligido pelos britânicos na Guerra das Malvinas, tornaram-se mesmo emblema político: em menos de cinco minutos, o visceral Pibe nos legava não apenas La Mano de Dios ­– o mais polêmico dos lances –, mas também El Gol del Siglo – a mais celebrada dentre todas as jogadas individuais. Por uma espécie de capricho, quis o destino que aquele Argentina x Inglaterra tivesse lugar no mesmíssimo Estádio Azteca que, em 1970, converteu-se no cenário para a coroação definitiva de Pelé após a conquista do tricampeonato.         

De Pelé e Maradona, é difícil imaginar algum feito que ainda não tenha sido registrado e minuciosamente analisado. Não por acaso, é a tensão entre os dois que, ao menos desde os anos 80, estrutura o universo futebolístico como uma espécie de mito cosmogônico, a fornecer ao todo sua própria sustentação e sentido. No entanto, gravitam ao redor destas figuras centrais alguns coadjuvantes de luxo que, embora não lhes possam fazer frente em termos de fundamentos (ao fim e ao cabo, quantos poderiam?), compõem o rol de desbravadores que revolucionaram o esporte em sua dimensão tática. Suas conquistas, porquanto mais discretas e sutis, nem sempre são festejadas com o entusiasmo que merecem – ou o são tão somente após sua morte. Nas próximas linhas, tentaremos lançar luz sobre um nome que atuou como fio condutor de alterações fundamentais para que o futebol viesse a se configurar como o entendemos hoje: Mário Jorge Lobo Zagallo.   

Fonte: pinterest.com

Comecemos por uma verdade paradigmática: em 1958 e 1962, Zagallo foi simplesmente o responsável pelo surgimento do 4-3-3 ao longo da campanha do bicampeonato mundial brasileiro. Mas, afinal, que elementos permitem que tal afirmação possa ser feita com tamanha segurança? Ocorre que, apesar de atuar como ponta-esquerda, função hoje extinta, ele também ajudava a compor o meio de campo, auxiliando o lendário botafoguense Nilton Santos na marcação quando necessário. Zagallo revezava, pois, entre duas funções – com e sem a bola –, e este trabalho incansável, prestimoso e em seu tempo inédito lhe rendeu o apelido de Formiguinha. Exemplo radical: na estreia contra a Áustria, com vitória do escrete por 3 x 0, o segundo gol, anotado pela Enciclopédia Nilton Santos, ganhou notoriedade pelo fato de um lateral, como ele o era, ter avançado contra a retaguarda adversária numa época em que a posição era estritamente defensiva. Tal postura parecia levar a termo flagrantemente uma tática kamikaze, já que a consequência de uma possível perda da posse de bola seria a exposição de todo um flanco do campo para o contra-ataque rival. No entanto, Nilton Santos não subiu à toa: Zagallo o cobria. Ali, ampliavam-se horizontes e possibilidades do jogo: o ponta ficava, o lateral avançava – em outras palavras, o responsável tradicional pela ofensiva defendia para que o até então defensor agredisse, surpreendendo a todos. “Enquanto o Vicente Feola [técnico brasileiro] gritava ‘Volta, volta!’ [para o Nilton], eu falava ‘Vai! Pode ir que eu tô cobrindo!’”. Alternando entre ponta e meia, Zagallo transitava pelo dobro da distância habitual de seus concorrentes. Sendo assim, ao retornar para a metade da cancha, seu movimento liberava o dito apoio de Nilton Santos – além do nada modesto trio Garrincha, Didi e Pelé. Ah, e é claro: de quebra, ele marcou um dos gols da final contra a Suécia – o quarto dos 5 x 2 que nos conduziu ao apogeu pela primeira vez.

Ademais, na campanha do tri, a quintessência do futebol desfilou no México sob seu comando. Em 1970, Zagallo entrou para a história como o técnico da seleção mais refinada e equilibrada já formada. Foi ele o mentor de um time que tinha simultaneamente Gérson, Jairzinho, Rivellino, Tostão e Pelé no gramado enquanto titulares. Na decisão contra a Itália, seu trabalho foi arrematado com o tento coletivo mais bonito de todas as Copas. E como aquele lance de cinema explica mais um brilhantismo tático? Antes de Zagallo, a Seleção fora treinada por João Saldanha, que adotava o 4-2-4 como sistema de jogo. Com o novo técnico, o Brasil passou a defender no 4-5-1. Este 1 era Tostão, que, apesar de jogar mais avançado no novo esquema, recuava se preciso fosse – compromisso para que a escalação de tantos gênios no meio funcionasse. Assim fez o atacante aos 41min do segundo tempo daquela final, quando pressionou o adversário e recuperou a posse de bola em nosso campo de defesa. De Tostão para Piazza, de Piazza para Clodoaldo, rápida triangulação com Pelé e Gérson, até que a pelota retorna a Clodoaldo. Tem início a mágica – quatro dribles desmoralizantes trazem o Azteca abaixo. Passe para Rivellino. Lembremos: Clodoaldo e Riva eram o mais das vezes reservas de Marco Antonio e Paulo Cézar Caju com Saldanha. Zagallo fez com que Rivellino compusesse o setor esquerdo sem a bola, de modo que Everaldo, o lateral do mesmo lado, não subisse. As investidas ofensivas ficavam a cargo de Carlos Alberto pela direita – o autor do gol –, aproveitando as infiltrações diagonais do ponta à sua frente, Jairzinho, o Furacão da Copa. Contudo, reparem em qualquer replay deste gol: é justamente Jairzinho quem recebe a pelota de Rivellino, mas desta vez pela canhota. O que o ponta-direita lá fazia? O treinamento de Zagallo explica: Jair era marcado individualmente naquela tarde por Giacinto Facchetti, icônico capitão da Azzurri; ao surgir do outro lado do relvado, o brasileiro puxou a marcação do italiano e o deslocou por completo, liberando um enorme corredor na direita para o avanço do Capita. Quando Pelé recebe na intermediária, com aquele 10 pertencente ao terreno do imemorial às costas, a zaga europeia já estava vendida há muito sem o saber. Seu olhar confirma num átimo a carreira de Carlos Alberto, que recebe o passe pitoresco da Majestade. Quem respira os ares do futebol sabe que aquele misto de displicência e imponência de Pelé continha uma mensagem inequívoca e incontestável: “Faz”. Como se irritado por não ter participado da trama até li, o acaso entrou em cena para reivindicar ao menos algum papel auxiliar: foi o quique que antecedeu e propiciou a finalização perfeita, um cruzado inapelável na veia. Os protagonistas, contudo, têm nome, dentre os quais fulgura o de Zagallo: de Clodoaldo e Riva, titulares na campanha imbatível no México, à inversão de Jairzinho a fim de criar espaços no lado oposto para Carlos Alberto, passando pela centralidade de Pelé, o Velho Lobo esteve presente. Multicampeão. Gigante. Histórico. Cinco finais em sete Copas disputadas (52 e 68 como jogador, 70 como técnico, 94 e 98 como assistente), com quatro delas na prateleira. Para a felicidade geral da nação, tiveram de engolir. Que, em seus 90 anos pela proa, tenhamos a oportunidade de transmitir devidamente às novas gerações, tão afeitas ao esquecimento, o tamanho deste legado esportivo.

Fonte: medium.com

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A tão merecida taça

O futebol é a coisa mais importante dentre as coisas menos importantes.

A frase acima – que, de tão lapidar, poderia ser atribuída às páginas rodrigueanas por compreensível equívoco – foi cunhada em verdade não por um literato, mas por Arrigo Sacchi, técnico de equipes como o histórico Milan que deslumbrou o mundo no fim dos anos 80 e da esquadra italiana derrotada pela Seleção nos ditosos pênaltis de 1994. Eu, nascido praticamente um mês após o mesmo Sacchi conquistar seu único título da Serie A, num remoto ano de 1988, jamais havia experimentado um evento que dotasse sua máxima de tamanho sentido como o que segue a nos assolar. Refiro-me, por óbvio, à pandemia da covid-19 – cujas consequências supostamente levariam a humanidade, num necessário e tardio despertar, a revisar a dinâmica de suas interações em prol da construção de uma sociedade mais razoável, compreensiva e justa. Ao menos no que diz respeito ao papel do esporte nesta pretensa equação, no entanto, faltou combinar tais termos com os atores da alta cúpula de nosso futebol.

O que foi preciso ignorar para que o Flamengo levantasse, ao cabo de um dia com 1.261 perdas mais causadas pelo coronavírus no país, sua trigésima sexta taça estadual ao derrotar o Fluminense – aquele do qual se desgarrou em 1911, num litígio de contornos míticos, para só então iniciar suas campanhas pelos estádios deste mundo? Em que poço sem fundo nos encontramos quando também o futebol, geralmente reconhecido como um dos maiores pilares comunitários de nossa cultura, reduz-se a mero dispositivo de acirramento de ânimos, mobilizando para tanto posições obscurantistas e indiferentes ao sofrimento do outro? Afinal, o que o Campeonato Carioca de 2020 deixará registrado para a posteridade acerca de quem somos hoje?

Para além do célebre provérbio, a menção a Sacchi ao abrir este texto se torna ainda mais elucidativa se atentarmos para o fato de que Milão, metrópole que o projetou para o planeta desde o banco do San Siro, está localizada na região da Lombardia – o epicentro inicial da pandemia na Europa. Foi na Itália que o vírus, após alarmar de início populações orientais, anunciou-se terrivelmente para o Ocidente, logo estupefato em face de toda a provação deflagrada na terra do calcio. No mês de março, quando as cenas geradas pelo coronavírus ainda eram uma novidade assistida à distância por nós, causavam espanto as atualizações que anunciavam um cômputo ainda inédito de 600 mortes diárias. Atônitos, vivíamos a cada amanhecer a descoberta de uma nova dimensão para a fatalidade. Março, contudo, logo ficou para trás. O vírus, como havia de ser, não apenas nos alcançou, mas também encontrou pelas bandas de cá um sem número de tipos capazes de potencializar em muito seus danos. O luto italiano de outrora parecia nos comover mais que o presente padecimento brasileiro.

Convenhamos, somos capazes de banalizar o horror de um modo que nos é peculiar – há, digamos, um jeitinho todo brasileiro de lidar com a mortandade amplificada por desajustes sociais. Pois bem, nesta semana, enquanto a bola chutada por Vitinho desviava no zagueiro Nino e, ao encontrar o caminho das redes tricolores durante os últimos instantes da final do Campeonato Carioca, sacramentava outra conquista de um já emblemático elenco rubro-negro, o hospital de campanha montado no interior do complexo esportivo do Maracanã contabilizava mais algumas despedidas para os registros. Que elas decerto não ocorreram por haver uma partida de futebol no estádio ao lado é um fato evidente. Ainda assim, que tenha sido realizada uma partida de futebol a despeito da luta ainda travada por tantos pela própria vida é outro fato evidentemente sintomático. Não nos deixemos enganar por celebrações temporãs: o gol de Vitinho, como todos aqueles que o antecederam desde o retorno do futebol no Rio de Janeiro, nasceu sob o signo do descaso ostensivo em relação ao pranto dos nossos. A troco exatamente de quê? Receio que jamais será possível responder a esta questão apelando para o bom senso.

Fotos: Del Piero - 09/02/2013 - UOL Esporte
uol.com.br

Voltemos, por exemplo, à Itália de Sacchi. Por lá, medidas de isolamento social foram adotadas e respeitadas em ampla escala por seus habitantes. Apenas após a diminuição significativa dos números relativos à covid-19 a bola voltou a rolar: no dia 13 de junho, sem permissão de acesso de torcedores ao estádio, a Copa da Itália foi responsável pela retomada do calendário de competições. Quando chegou a vez de o Campeonato Italiano reiniciar suas atividades, uma semana depois, o país registrou 262 novos infectados – confirmando queda da média diária de casos pela 12ª semana seguida – e 49 óbitos. Na tentativa de encontrar um difícil arranjo entre saúde e economia, preservando a credibilidade de suas ligas, protocolos similares foram adotados em datas próximas nos três principais centros futebolísticos do globo: Alemanha, Espanha e Inglaterra. A Federação Holandesa, por seu turno, encerrou o campeonato local sem definição de vencedor ou rebaixados. Na França, outro caso insólito: o Paris Saint-Germain foi declarado campeão nacional após desfecho prematuro da Ligue 1 em respeito às orientações de saúde pública.

Mas, se além-mar a possibilidade de cogitar a entrada dos times em campo esteve sempre condicionada à melhora dos índices sanitários e à séria observância a diretrizes científicas, a famigerada Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (FERJ) – graças a uma aliança pactuada com os pequenos clubes a ela filiados, com o Vasco da Gama e, sobremaneira, com o Flamengo – determinou o retorno de seu cada vez mais moribundo campeonato em tensa reunião arbitral havida no dia 17 de junho, em que tão somente Botafogo e Fluminense se opuseram de modo incisivo à maioria formada. Segundo levantamento empreendido por um consórcio que reuniu grandes veículos de imprensa devido à possível manipulação de dados por parte do próprio governo do país da subnotificação, houvera então 31.475 novos diagnósticos e 1.209 mortes por covid-19 no Brasil. Com efeito, a informação a seguir exige reflexão: quando Flamengo e Bangu se enfrentaram pelo Campeonato Carioca no dia 18 de junho, em meio a 1.204 vidas concidadãs perdidas pela doença, o Campeonato Italiano sequer havia recomeçado. Dada a aviltante resolução confirmada pela FERJ, a dupla de agremiações discordante, em flagrante desvantagem numérica e em termos de influência política no cenário nacional, aventou a hipótese de acionar a Justiça Comum em caso de derrota nos tribunais desportivos ao pleitear a suspensão do retorno do torneio no estado – um caso extremo e suscetível a muitas polêmicas jurídicas. Na prática, porém, não houve revogação do veredicto: o show tem que continuar…

Posto isso, seria possível redigir daqui em diante um texto recapitulando, passo a passo, os imorais episódios proporcionados pelo Carioca desde então. Elementos não faltariam: a lamentável associação entre FERJ, Flamengo e demais clubes contra Botafogo e Fluminense, os únicos que mantiveram uma postura minimamente louvável ao longo de todo este imbróglio (recuso-me a crer que haverá aqui acusações de clubismo); a cobrança de despesas operacionais até dez vezes maiores nos jogos dos dissidentes em sinal de represália; o impedimento de vários jogadores irem a campo defender as cores de seus uniformes devido a inevitáveis testagens positivas para o coronavírus durante o auge da crise; o conluio político que deu à luz a Medida Provisória 384, alterando os princípios concernentes aos direitos de transmissão das partidas com o campeonato em curso e gerando flagrante instabilidade jurídica; o desrespeito, por parte dos dirigentes da Gávea, às prescrições da mesma MP – exarada graças à defesa de seus interesses de ocasião, prontamente abandonados em seguida, junto ao Palácio do Planalto –, na medida em que lutaram para transmitir um Fla-Flu com mando de campo sorteado para o time das Laranjeiras, portanto detentor exclusivo da prerrogativa de veicular as imagens ao vivo segundo a tal normativa de tintas rubro-negras etc. Essas etapas, de todo modo, estão fartamente documentadas e são consabidas.

Quanto àquilo que se restringe às quatro linhas – que, por forças de ordem metafísica, é capaz de suspender o redor pelos minutos transcorridos até o apito derradeiro –, não seria difícil, por exemplo, elencar os inúmeros porquês de este Flamengo, apesar de seus dirigentes e mesmo jogando em intensidade abaixo da regular, seguir como o time a ser batido nos torneios que disputar – e isto independentemente da confirmada transferência de Jorge Jesus, mentor da fase de glórias vigente, para o Benfica. No que tange ao Fluminense, poder-se-ia elogiar a conduta digna do clube também dentro de campo, pois, embora tecnicamente inferior ao arquirrival, ele se manteve vivo na disputa ao longo dos últimos três clássicos, logrando inclusive suplantar o forte adversário na disputa pela Taça Rio. Ou seria cabível observar que, ao tricolor, faltam sem dúvida contundência no arremate – o time segue precisando criar ao menos três boas chances de gol para converter uma, aproveitamento fatalmente comprometedor diante de um oponente mais qualificado – e segurança nas laterais (Gilberto cometeu erro crasso de posicionamento e marcação no gol marcado por Pedro no primeiro jogo da final; Egídio, por sua vez, arriscou um bote incompreensível sobre Gabigol no lance que resultou na virada rubro-negra naquele confronto e, ademais, falhou na saída de bola que acarretou o último tento do torneio). O que acabou por contaminar a escrita, entretanto, foi um sentimento mais amargo do que qualquer justa derrota esportiva, e anterior a toda análise focada em aspectos menores neste momento.

Que os cartolas brasileiros foram e são historicamente incapazes de conceber o futebol nacional em sua dimensão coletiva, na qual cada clube necessariamente depende da grandeza dos outros, é algo notório desde que dedico boa parte da vida a torcer numa arquibancada. Que as paixões particulares por nossos clubes não raro tendem a estabelecer leituras parciais e demasiadamente interessadas também não equivale a nenhuma novidade. Entretanto, que o futebol sirva como instrumento político vil até mesmo durante a mais grave crise sanitária desde a gripe espanhola de 1918 é fenômeno que, se não chega a surpreender, tampouco deixa de abalar ainda mais as convicções em relação ao caráter potencialmente socializante da bola por aqui. Em vez de arena comunitária capaz de congregar diferenças na dor, nem que seja por ensaiada condolência, hoje o esporte sucumbe diante de um cenário em que a morte se fortalece como capital político. No lugar da cultura que alumia, emerge só a pura indústria que massacra simulando afagos.

Estádios, bem o sabemos, constituem um microcosmo da sociedade em que estamos inseridos. Por algum tempo, haverão de permanecer vazios. Apesar disso, o temor no Brasil não surge exatamente pela ausência de torcedores nas arenas do novo século: o verdadeiro risco é o de que, à primeira oportunidade, elas se façam cheias, em mais uma experiência de entretenimento fúnebre. Desejo não faltou à Prefeitura, que chegou a liberar momentaneamente a presença de público em partidas oficiais. Tal cenário nos conduz à pergunta que serve como epítome destes tempos: e daí? Para os responsáveis pelo desfecho do Campeonato Carioca de 2020, concordar com a sentença de Sacchi afinal pode ser bem simples: basta que, entre as ditas coisas menos importantes da existência humana, possamos elencar o respeito à saúde e à vida, estes valores fora de moda, bem abaixo do futebol – enfim convertido em útil ferramenta a ser submetida à verdadeira senhora de todos nós, a importância das importâncias!: a fria lei do cifrão. Ao fim e ao cabo, vá lá, o desenlace teve sua dose de coerência: angariou a taça o clube cuja direção fez de tudo para merecê-la – ainda que para isso tenha precisado abrir mão da moralidade. Que a recompensa lhe caia bem.

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A peste e o gol por vir

“O resto do almoço se desenrolou à procura de um assunto. Mas tudo se tornou muito fácil quando Rambert descobriu que o cara de cavalo era jogador de futebol. Ele próprio praticara esse esporte. Falou-se, portanto, do campeonato da França, do valor dos times profissionais ingleses e da tática em W. No fim do almoço, o cara de cavalo estava animadíssimo e tratava Rambert de tu, para persuadi-lo de que não havia lugar mais belo num time que o de meio-campo. ‘Compreendes’, dizia ele, ‘meio-campo é quem distribui o jogo. E distribuir o jogo, isso é futebol’. Rambert era da mesma opinião, embora tivesse jogado na posição de centroavante. A discussão foi interrompida apenas por um aparelho de rádio que, depois de ter entoado em surdina melodias sentimentais, anunciou que na véspera a peste fizeram 137 vítimas. Ninguém reagiu na sala. O homem com cara de cavalo encolheu os ombros e levantou-se. Raul e Rambert imitaram-no.”

Estes curiosos acontecimentos ocorreram no indeterminado ano de 194…, na cidade argelina de Orã. Planejava-se então uma fuga. Raymond Rambert, jornalista que vivia do outro lado do Mediterrâneo, em meio aos ardores e amores da metrópole parisiense, vira-se aprisionado de maneira repentina por uma situação terrivelmente insólita: enquanto buscava informações acerca das condições de vida dos árabes locais para um grande periódico francês, uma peste passou a se alastrar assustadoramente pela urbe africana, levando seu prefeito – não sem antes muito hesitar, como sói acontecer – a declarar o fechamento total das fronteiras sob sua jurisdição. Suspendia-se, pois, o direito de ir e vir para além daqueles limites por tempo indeterminado. Após colecionar negativas pelas vias oficiais quanto ao seu retorno à Europa, um já desesperançado Rambert passara a recorrer aos submundos daquele município aziago – apelando a desconhecidos como aquele “cara de cavalo” à mesa de um restaurante espanhol. Seria de algum modo possível conduzir um arranjo deste tom a uma conversa minimamente agradável, ainda que breve? Ora, voilà, ei-lo sempre na manga: o futebol! Adeus, cerimônias e impessoalidades! Por instantes, toda aflição fora colocada para escanteio, e o tétrico dera lugar ao tático. A questão é que não há celebração que se sustente onde impera a morte: sem muitas delongas, o rádio – uma das únicas pontes ativas com o exterior – logo lhes lembrava que, porta afora, 137 pessoas mais deixavam de ser. A doença, insensível às venturas humanas, cumpria religiosamente seu rito funesto. Era hora de partir.

A cena acima compõe o enredo de A Peste, clássico instantâneo publicado originalmente em 1947, numa Europa em escombros devido às atrocidades impostas pela Segunda Guerra Mundial. Para quem é afeito a discussões do gênero, o livro costuma disputar com seu antecessor, O Estrangeiro, trazido à luz cinco anos antes, o posto de obra-prima do trabalho de Albert Camus. Franco-argelino como a infecta Orã que concebera (morto aos 46 num acidente de carro, em 1960, o autor não pôde viver a independência de seu país natal, havida somente em 1962), Camus seria laureado com o Prêmio Nobel de Literatura, a maior honraria do circuito oficial das letras, dez anos depois da disseminação de sua Peste – passível de ser lida tanto ao pé da letra, enquanto relato de vidas assoladas por uma epidemia mortal, como a representar metaforicamente uma França até havia pouco ocupada pelas não menos mortais tropas nazistas. Pois bem, foi justo a estas páginas que recorri quando me impus, aturdido, ao necessário isolamento social pelo qual estamos passando ao redor do globo – na miséria do possível a cada um – devido à propagação pandêmica da Covid-19, experimentando um estado de calamidade mundial inédito para as gerações posteriores àquela mesma guerra que um dia ardeu às retinas do escritor. A propósito, fazê-lo caiu no lugar-comum: na Itália, epicentro europeu da crise, A Peste foi alçada à lista dos mais vendidos sete decênios depois de seu lançamento; na França, que também vem perdendo milhares de cidadãos para o vírus, quadruplicaram-se as vendas do título em uma semana (1); por aqui, efeito similar levou a editora que hoje publica Camus a indicar um aumento de 65% em relação à mesma procura (2). Febre sintomática, infelizmente. A temática da contaminação como disseminadora da dor está presente no imaginário ocidental ao menos desde os gregos antigos – basta lembrarmos que a Ilíada, considerada o pilar fundamental da Literatura por estas bandas, tem início com as baixas que flechas infecciosas de um colérico Apolo impõem ao exército grego intentando vingar Crises, sacerdote ultrajado pelo rei Agamêmnon no acampamento de guerra próximo à Troia, e que Édipo Rei, a mais célebre das tragédias clássicas, representa a ruína de seu protagonista a partir da tentativa de livrar Tebas de uma misteriosa peste –, mas é decerto com Camus que ela encontrou uma versão terminante.

Fonte: blogbertrand.

Enquanto redijo este texto, na madrugada de 08 de abril de 2020, absorto em reflexões sobre o que poderá ser de nós, a chuva lava a vila em que moro, localizada à sombra de um melancólico Maracanã – como tantas vezes em sua história recente, gigante impotente forçado ao silêncio. As 137 mortes da rádio argelina de Camus ecoam de modo assustador no último noticiário nacional: tornamo-nos o primeiro país da América Latina a ultrapassar oficialmente a centena de perdas em vinte e quatro horas. No dia que acaba de findar, 114 famílias choraram a perda dos seus – em última instância, a despeito das diferenças de um país cindido, dos nossos (3). O prognóstico, sabemos, é dos piores. A fim de torcer a tarefa desta escrita na direção de algum alento, lanço-me a um futuro sem prazos imagináveis: que sensação nos tomará de assalto quando voltarmos às arquibancadas de nossa cidade, Orã dos tristes trópicos, a entoar cânticos ao longo do espetáculo singular que é uma partida de futebol?

2º - Corinthians: 20.702.001Corinthians encara Flamengo em busca de semana mais tranquila
Fonte: Portal R7.

Camus não me ajuda a pensá-lo apenas por sua contribuição à Literatura e ao Teatro. Ao lado de sua obra, há a sua própria vida (4). Antes de se tornar um craque com as palavras – digamos, meio-campista a distribuir o jogo –, ainda jovem ele sonhara em ser futebolista. Conta-se que, durante a infância paupérrima que teve, sua avó não lhe poupava reprimendas após as peladas que disputava pelas zonas populares de Argel, pois elas punham em risco a integridade dos parcos sapatos que o menino possuía. Quis o destino que, na universidade, Camus abandonasse em definitivo a pretensão de atuar em qualquer uma das dez posições móveis do jogo para se dedicar à derradeira proteção das redes: tornou-se goleiro da Racing Universitaire Algérois (RUA), numa época em que foi deveras reconhecido como bom jogador. Ao cabo, sua carreira foi abreviada – coincidência maldita nestes tempos de coronavírus – graças à ação de uma doença respiratória: a tuberculose, que havia tempos lhe acompanhava e por fim se agravava. De todo modo, a paixão pelo futebol o dominou ao longo de toda sua existência. São lindas as imagens registradas no Parc des Princes em outubro de 1957, em que Camus, um dos 35.000 presentes ao confronto entre Mônaco e Racing Club de Paris – clube com as mesmas cores do time universitário que defendera na Argélia –, expressa indulgência em face de uma reação irremediavelmente lenta do porteiro da equipe parisiense. Entrevistado depois do gol, Camus defende seu confrade das insinuações de culpa, afirmando em tom compassivo que é preciso assumir o encargo de atuar sob as traves para saber quão difícil é suportá-lo. Afinal, o goleiro que, uma vez humilhado, busca a bola ao fundo das redes e retorna ao seu posto de cabeça erguida age qual um Sísifo amplificado, a rolar sempre e novamente sua pedra ante a multidão que dele desdenha. Não é preciso muita imaginação para pintar um encontro entre Camus e Nelson Rodrigues, a dramatizarem juntos, envoltos na fumaceira de seus cigarros, defesas candentes e indeléveis em prol do mais descabido dos frangos.

Mortais, quando este pesadelo passar – e haverá de passar –, quando enfim pudermos experimentar a banalidade metafísica do primeiro gol pós-apocalíptico, que possamos novamente nos entregar sem receios ao abraço no desconhecido – um cara de cavalo qualquer, da Argélia ao Brasil de Oiticica, com o mesmo escudo ao peito –, sem receios de que este gesto fraterno nos condene a jamais participar de novas peregrinações aos estádios. Eis a verdade: embora absurdo – ou porque absurdo? –, jaz no futebol uma fonte inesgotável de sentido para a tragédia que somos. Camus bem o sabia. Sabemos bem todos nós.

Notas de Rodapé:

(1) O Globo.

(2) O Globo.

(3) Folha de SP.

(4) Folha de SP.

(5) Youtube.

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E agora, José?

26 de maio de 1999. Camp Nou, Barcelona. Mais de noventa mil pessoas fixavam seus olhares em David Beckham, posicionado, aos 48 minutos do segundo tempo, para cobrança de novo escanteio a favor do Manchester United. A cena ganhava contornos de déjà vu: apenas um par de minutos antes, o então jovem meio-campista alçara a… Continuar lendo E agora, José?

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