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Futebol: do patrocínio na camisa à era digital

O futebol parece estar finalmente aflorando para o mercado digital. Desde quando o Flamengo, em 2008, foi o primeiro clube a investir num canal do Youtube para cá, o que parecia ser visionário é quase que quesito obrigatório. Além dos perfis nas redes sociais, a criação das TVs de clubes tem sido uma realidade. O que ainda não está bem claro é como monetizar, ou seja, como fazer com que as redes sociais e os canais no Youtube sejam parte importante do planejamento orçamentário dos clubes. Pensando nisso, entrevistei dois ex-vice presidentes de Marketing de Flamengo e Vasco, Daniel Orlean e Bruno Maia, respectivamente.

Quando falamos da mídia digital, temos a questão da valoração. Tratando-se de uma mídia tangível, como, por exemplo, os patrocínios em uniformes, chegar ao resultado da equação valor + preço parece mais fácil. Mas quando pensamos no digital, ainda há muito o que se estudar, como aponta Bruno Maia:

Falando de maneira geral, um veículo – qualquer que seja ele, blog, TV – para gerar receita é um projeto de médio prazo, precisa gerar audiência e relevância e gestão do contato com a sua audiência. A VascoTV agora passou a ter uma plataforma própria e ela também funciona muito no Youtube, o que limita muito. Óbvio que se consegue algo com anúncio, mas parte da receita fica no Youtube. No começo é bom porque o Youtube já tem toda a estrutura e seria um alto investimento para o clube. Por exemplo, o patrocínio de camisas do clube que leva x minutos da Vasco TV, isso é ruim. A gente precisa fazer uma valoração do quanto vale aquele minuto. Tratar como complemento para vender uma mídia principal. O ideal seria saber qual o valor mensurável disso para realmente vender um pacote.

Fazendo um paralelo com a declaração de Bruno e com o que explica De Marchi (2018), os clubes entraram na lógica dos derivativos. Como ressalta o autor, as transações virtuais acontecem graças ao algoritmo, que é um conjunto de regras que fornecem resultado específico a partir de fórmulas matemáticas e dividem as informações em distintos fragmentos ou atributos, desenhando cenários possíveis. Desta forma, as plataformas digitais têm se valido das técnicas do mercado de derivativos.

De forma geral, programam-se algoritmos proprietários (de código fechado) para que fragmentem um ativo subjacente em diferentes atributos, utilizando parâmetros que lhes permitem tornar comparáveis entidades aparentemente incompatíveis. Em seguida, recompõem-se tais atributos num composto derivado, uma unidade informacional abstrata. Tal como ocorre no mercado de arbitragem, a este produto atribui-se algum valor monetário, a partir do qual outros compostos serão avaliados em seu valor intrínseco. Assim, uma ampla gama de práticas sociais se torna passível de codificação, pois são padronizadas e intercambiáveis (DE MARCHI, 2018, p. 204).

Transportando essa lógica para o futebol, se você segue um clube na rede social, por exemplo, podem aparecer anúncios de produtos deste mesmo clube em outras plataformas na rede. É como se você deixasse as suas pegadas e fosse construindo um caminho a ser seguido pelas empresas de materiais esportivos ou até mesmo pelo próprio clube. A partir dos seus dados, o conteúdo vai sendo retroalimentado. Desta forma, como nos conta Orlean, há a possibilidade de chegar ao público digital de maneira mais precisa:

Eu consigo dizer: eu quero atingir as mulheres de 25 a 35 anos, com este produto, os homens de 18 a 25 com este produto. Ou seja, trabalhar a informação digital dos meus torcedores. De maneira macro, eu não sei quem são os 40 milhões de torcedores, mas no digital, mesmo sendo, vamos supor, 6 milhões, eu consigo ter mais informações sobre ele. Já o esporte eletrônico, ele nasce digital, com target, eu sei quem é cada pessoa que está assistindo aquela partida porque ela assiste pela Twitch TV, comenta durante o jogo. O esporte eletrônico já veio com este modelo e fomos tentando adaptar ao futebol tradicional. Sair da visão de broadcasting, de transmitir para todo mundo e não sei para quem, para uma visão mais individualizada, mais digitalizada, e aí a gente consegue rentabilizar de várias formas. Eu rentabilizo porque posiciono a marca digitalmente, rentabilizo porque eu converto clientes de forma muito mais específica, rentabilizo porque eu consigo licenciar aquele conteúdo de várias formas diferentes, rentabilizo porque a própria plataforma me paga, seja o Youtube, seja o Twitch TV. 

Desta forma, ocorre uma segmentação de público-alvo e este público, digital, pode gerar também patrocinadores que estão nesta ambiência. É o caso do Vasco, que fechou parceria com a plataforma de apostas NetBet e com o banco digital da BMG, como conta Maia: “O Vasco foi o primeiro clube a ter um site de apostas como patrocinador. Parceiros com natureza mais digital acabam valorizando e tendo mais percepção da importância das mídias digitais”.

Já o Flamengo fechou, em abril de 2021, contrato com a empresa Mercado Livre: 30 milhões por 18 meses, ou seja, 1,5 milhão por mês[1]. No mesmo mês, o clube fez parceria pontual com a Amazon Prime Vídeo, para a partida final da SuperCopa[2], o que pode ainda se tornar, no futuro, uma parceria efetiva, apesar do fechamento do contrato com o Mercado Livre que, de certa forma, é concorrente em alguns segmentos de mercado da Amazon. Maia analisa o potencial dessa parceria:

Em relação ao patrocínio do Flamengo com a Amazon, eu acho promissora por um lado e problemática por outro. Uma empresa que trabalha com dados como a Amazon é bem vista no futebol. A maior marca de fãs do Brasil unida com a maior marca do mundo de tratamento de dados é lógico que você está falando de uma coisa com potencial absurdo. Mas você tem dezenas de complexidades que vão desde cultura de empresa, modelos estruturais de negócios, de cada um destes stakeholders, é uma empresa na bolsa de valores, uma das maiores do mundo e a outra é uma empresa política, que os acionistas são sócios estatutários, o presidente eleito a cada três anos. Você tem uma série de desafios a estruturar uma parceria como essa. É um terreno quase virgem no futebol brasileiro a exploração de dados em favor do negócio. É uma promessa grande em se tratando de teoria, mas não é simples.

Maia aponta ainda que o mercado do futebol no Brasil ainda é muito tradicional:

O futebol circula com patrocinadores que também têm uma visão que combina com a visão velha do futebol. Então é muito comum como passamos anos apresentando o digital como algo complementar à mídia principal, os próprios patrocinadores tinham pouco interesse sobre essas informações. Você lida com marcas menores no futebol brasileiro. No tempo que eu estive, nenhuma das 40 maiores empresas do país estava no futebol brasileiro. E eles usam atalho pra falar com o público pela televisão. Até as empresas digitais a gente tinha que mostrar os dados. Quanto mais digital o futebol for e tiver mais cases, ele vai conseguir atrair estes patrocinadores. 

Sendo assim, podemos dizer que a presença dos clubes na ambiência digital ainda encontra entraves na própria maneira de pensar o mercado de divulgação de produtos e serviços. Podemos inferir que, a partir do momento que os patrocinadores perceberem que podem obter lucros por meio da financeirização da vida cotidiana do próprio torcedor, ou seja, observarem que os hábitos cotidianos deles na rede são informações valiosas, mais contratos serão fechados. 

Seguindo esta tendência, tem sido comum os clubes criarem produtos para suas TVs próprias, com conteúdo específico. O Flamengo lançou, em 2021, um pacote de pay-per-view do Campeonato Carioca. Segundo o site do clube, os torcedores teriam: “uma cobertura muito ampla do pré e do pós-jogo e a narração totalmente rubro-negra dos jogos do Mengão[3]”. Além da cobertura pela FlaTV, alguns jogos também foram transmitidos pela TV Record. Ou seja, os clubes perdem em receita para a TV, porque não dão exclusividade a ela, mas podem transmitir as partidas buscando patrocinadores específicos, gerenciando os seus próprios dados. Foi a primeira vez que o Campeonato Carioca foi rentabilizado de forma digital, em multiplataformas. Orlean aponta que o ideal é justamente o modelo conteúdo exclusivo + transmissão na TV aberta: 

Fonte: Olhar digital.

É uma tendência ter estes canais mais exclusivos. Mas exclusivos não tem que ser elitista. Não precisa não passar na TV aberta. Pode passar também na aberta e ter uma venda de transmissão com uma pegada mais exclusiva, com um conteúdo mais exclusivo. Porque o Flamengo cresceu muito sendo popular, se você passa a transmitir somente via streaming para pouquíssimas pessoas, você começa a perder a essência popular que o clube tinha e começa a perder em outras frentes, vai vender menos camisa, vai vender menos ingresso quando voltar, vai ter menos sócio torcedor. Não podemos ir num caminho de elitizar. Tem rubro-negro que não tem 35 reais de sócio torcedor, mas o que tem, muitas vezes não têm uma internet boa o suficiente para essas transmissões. 

A fala do ex-dirigente vai ao encontro do que diz Schradie (2017) ao apontar que as formas democráticas de participação na internet não foram confirmadas, pois a filosofia igualitária da rede se choca com as desigualdades de classe social, em uma economia de livre mercado.

Ainda assim, se pensarmos que a probabilidade é de que o acesso à internet aumente, como tem crescido nos últimos anos e que há a possibilidade de quem ganha mais, acessar mais, este mercado é um grande potencial para os clubes, como diz Maia:

A plataforma nunca cria torcedor. O que ela faz é moldar o tipo de consumo.  A TV estimula você a torcer e os streamings fazem isso também. Nos estimulam para vender o que tem de tecnologia e de escala. O futebol está descobrindo um tamanho que ele não imaginava, precisa se entender. A gente consome futebol da mesma maneira que consome uma música instrumental em Botsuana. Agora o que é hegemônico é fragmentado. As plataformas contribuem para o que todas as mídias já contribuíram, para o que é característico de nossa espécie: a contação de história, a capacidade de emocionar. Os formatos que queiram fazer, a gente vai continuar vendo futebol, provocação, rivalidade, aquilo que transcenda a nossa vida em 90 minutos. Quanto mais ferramentas e linguagens as plataformas digitais criarem para estimular este tipo de coisa, que é humano, que é a mesma coisa que o cinema estimula, que os e-sports estimulam, que a música, que a moda, religião estimulam, essa transcendência, sensação de conseguir se superar, é com as características das próprias plataformas, com o que elas tiverem, e que case com isso, o esporte vai usar bem.

Partindo dessa lógica defendida por Maia, o próprio Vasco, em março, realizou parceria com a empresa MetaSoccer, além do patrocínio no short, os torcedores poderão criar seu próprio clube e gerar renda, nesta plataforma que é a primeira com jogo de futebol dentro do metaverso. Isto faz parte do projeto que o clube tem para a esfera digital, neste novo contexto, enquanto espera a formalização da venda de 70% da Sociedade Anônima do Futebol (SAF) para o fundo de investimentos 777 Partners. Ou seja, muitas ainda são as possibilidades desconhecidas do universo digital.

BIBLIOGRAFIA

BETING, Erich. |Exclusivo: Vasco lança relatório digital de olho em venda para 777 Partners. Disponível em https://maquinadoesporte.com.br/futebol/exclusivo-vasco-lanca-relatorio-digital-de-olho-em-venda-para-777-partners/. Acesso em 04 maio. 2022.

BURLÁ, Leo. Flamengo terá patrocínio do Amazon Prime Video na final da Supercopa, Uol, 9 abr. 2021. Mais informações em https://www.uol.com.br/esporte/futebol/ultimas-noticias/2021/04/09/flamengo-tera-patrocinio-da-amazon-na-final-da-supercopa.htm. Acesso em 17 mai. 2021.

DE MARCHI, Leonardo. Como os algoritmos do Youtube calculam valor? Uma análise da produção de valor para vídeos digitais de música através da lógica social de derivativo. Matrizes, v 12, nº2, maio/ ago. 2018, São Paulo, Brasil, pp.193-215.

EXTRA. Flamengo é o primeiro clube brasileiro a ter canal oficial no Youtube. Disponível em: https://extra.globo.com/esporte/flamengo-o-primeiro-clube-brasileiro-ter-canal-oficial-no-youtube-551770.html. Acesso em 28 jul.2022.

FLAMENGO. Mais informações disponíveis em https://www.flamengo.com.br/noticias/institucional/flamengo-lanca-pay-per-view-para-transmissao-do-carioca-2021-em-plataforma-propria-de-streaming. Acesso em 17 maio 2021.

IBOPE REPUCOM. Ranking digital dos clubes brasileiros. Maio de 2021. Disponível em https://www.iboperepucom.com/br/rankings/. Acesso em 9 mai. 2021.

LANCE. MyCujoo vai reembolsar torcedores do Flamengo; saiba como, 5 jul. 2020. Mais informações disponíveis em https://www.lance.com.br/flamengo/mycujoo-reembolsara-torcedores-saiba-como.html. Acesso em 17 maio. 2021.

MATTOS, RODRIGO. Flamengo fecha com Mercado Livre após negociar com concorrente Amazon, Uol, 27 abr. 2021. Mais informações disponíveis em https://www.uol.com.br/esporte/futebol/colunas/rodrigo-mattos/2021/04/27/flamengo-fecha-com-mercado-livre-apos-negociar-com-concorrente-amazon.htm?cmpid=copiaecola. Acesso em 17 mai. 2021.

MOROZOV, Evgeny. Big Tech: a ascensão dos dados e a morte da política. São Paulo: Ubu, 2018.

SCHRADIE, Jen. Ideologia do Vale do Silício e desigualdade de classe: um imposto virtual em relação à política digital. Parágrafo, jan / jun 2017, v 5, nº1, São Paulo, 2017.

TIC DOMICÍLIOS, maio de 2021. Disponível em https://cetic.br/pt/tics/domicilios/2019/domicilios/A4/. Acesso em 17 mai. 2021.

VASCO. Vasco e MetaSoccer iniciam parceria de patrocínio e licenciamento. Disponível em https://vasco.com.br/vasco-e-metasoccer-iniciam-parceria-de-patrocinio-e-licenciamento/. Acesso em 04 ago. 2022.


[1] Mais informações disponíveis em < https://www.uol.com.br/esporte/futebol/colunas/rodrigo-mattos/2021/04/27/flamengo-fecha-com-mercado-livre-apos-negociar-com-concorrente-amazon.htm?cmpid=copiaecola>. Acesso em 17 mai. 2021.

[2] Mais informações em < https://www.uol.com.br/esporte/futebol/ultimas-noticias/2021/04/09/flamengo-tera-patrocinio-da-amazon-na-final-da-supercopa.htm>. Acesso em 17 mai. 2021.

[3] Mais informações disponíveis em < https://www.flamengo.com.br/noticias/institucional/flamengo-lanca-pay-per-view-para-transmissao-do-carioca-2021-em-plataforma-propria-de-streaming>. Acesso em 17 maio 2021.

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Financeirização da vida cotidiana: o jornalismo esportivo na era digital

Reprodução: Internet

Durante as últimas décadas, o futebol foi assistido pela televisão. Com a internet, ficou cada vez mais constante a presença de comentários de torcedores nas transmissões ao vivo, seja por envio de mensagens aos veículos de comunicação ou ainda com o uso de hashtags, nas quais os telespectadores marcam a transmissão que estão assistindo. Nos últimos anos, o torcedor / consumidor deste esporte tem sido bombardeado por outros tipos de transmissões e programas jornalísticos. Jogos agora também são transmitidos via streaming ou ainda por meio dos canais dos clubes. Jornalistas consagrados também têm seus canais no Youtube. Este artigo, visando observar este fenômeno, entrevistou o jornalista Mauro César que, após 16 anos na ESPN, saiu da emissora e está se dedicando a sua coluna no Portal Uol e ao seu canal no Youtube.

De acordo com dados de outubro de 2021, o canal do Mauro Cezar tem 617 mil inscritos. Em dezembro de 2020, foi lançado o Clube de Membros, dividido em três categorias, com pagamentos mensais: Nada Pífio (R$2,99), na qual os internautas têm direito aos emojis e selos de membros; Nada Patético (R$7,99), que dá direito a participar do Mauro Cezar responde: o participante vai na comunidade, coloca as perguntas, o jornalista faz um vídeo, no qual os nomes das pessoas são citados e as perguntas respondidas, além disso, começam os acessos aos vídeos exclusivos; Nem Pífio e nem Patético (R$14,99), além dos benefícios dos demais pacotes, em formato de mesa redonda online, quatro membros participam da conversa, dando a vez posteriormente para mais quatro membros, ou seja, oito por programa. Os que não participam do programa de Membros têm acesso para assistir as interações no Youtube e aos vídeos de análises das partidas:

Quando terminam os jogos, eu vou para o canal ficar conversando com os internautas. Ali não é o momento de análises profundas. Isto eu deixo para as gravações em meu canal. Ali é o momento das pessoas conversarem comigo. O pós-jogo é eu e você. E quem é super chat, ou seja, membro do canal, tem, de certa maneira, prioridade no momento da conversa, afinal, ele contribui para a minha receita. Eu acho que o mundo mudou e é muito legal ter o feedback, na hora, das pessoas, é muito bom também sentir o carinho delas. Não é mais a mesma coisa que estar na televisão. As pessoas se sentem batendo papo com o apresentador, ao vivo. Imagina, tem dia que eu tenho 20 mil pessoas querendo conversar comigo. É muito legal!

Mauro Cezar conta que seu engajamento nas redes começou no Twitter, de forma esporádica e que, um dia fez vídeos de bastidores de torcida e não tinha onde compartilhar com as pessoas e resolveu subir um canal no Youtube.  A partir de 2011, as gravações passaram a ser constantes. “Já em 2016, 2017, eu pensei: ‘não comentei tal assunto na TV, ficou faltando. Vou fazer um vídeo’. Fiz e vi que tinha muita demanda este tipo de pauta. Em 2018, eu tinha 50 mil seguidores e passei a trabalhar melhor”.

A saída de Mauro Cezar da ESPN se deu em janeiro de 2021, porque a Disney, detentora dos direitos do canal esportivo, pediu exclusividade. A decisão do jornalista, de abandonar a TV, parece ter dado certo: “Em fevereiro, eu alcancei 100 milhões de visualizações. 10% deste índice, ou seja, 10 milhões de visualizações ocorreram em janeiro e fevereiro. Não chegaria nem perto disso estando na televisão”.

A ideia de cobrar pelo seu serviço de conteúdo vai contra os modelos de freemium adotado pela maioria das grandes plataformas. De acordo com Morozov (2018), o modelo freemium foi exaltado por muitos como um novo tipo de capitalismo, humanitário e benéfico para os mais pobres, mas, na verdade, tem se revelado apenas como uma etapa transitória da transformação digital. Ou seja, realizar cobranças é uma tendência, pois fica mais fácil identificar usuários e adequar a gama de produtos e serviços oferecida a eles. O autor afirma ainda que está sendo construída uma “cerca invisível de arame farpado” ao redor de nossas vidas, pois estamos sob vigilância o tempo todo, através do rastro que deixamos por meio de nossos dados na internet.

No caso dos consumidores de Mauro Cezar, a maioria é de flamenguistas e o próprio jornalista afirma que é torcedor do clube e não vê isto como um problema no tocante à audiência.

No Youtube, conseguimos ter métricas, eu sei quem está acompanhando o canal, por exemplo. E eu sei que 60% dos inscritos são flamenguistas. Desta forma, eu tenho que dar notícias para a minha audiência. Desde quando eu iniciei o programa, no formato que estou, as métricas não indicaram que eu preciso fazer alterações, mas eu vou acompanhando os dados. 

O fato de Mauro Cezar saber quem são os consumidores de seu canal e seu perfil de consumo faz com que ele trabalhe com métricas para gerar cada vez mais receita. É a lógica do mercado financeiro sendo aplicada ao jornalismo esportivo. Como explica o professor da faculdade de Comunicação da UFRJ Leonardo de Marchi (2018), a financeirização da vida cotidiana tem sido observada por pesquisadores de diferentes áreas, haja vista a sistemática aplicação da lógica operacional do mercado financeiro na condução da vida social, vivida no online. Ainda como explica o autor, foram desenvolvidas tecnologias que permitiram fragmentar virtualmente qualquer ativo subjacente, a fim de criar novos produtos financeiros.

Desta forma, podemos perceber que essa nova maneira de pensar o futebol possibilita que um jornalista como Mauro Cezar, por meio de seu canal, adentre cada vez mais na vida cotidiana dos espectadores:

De forma geral, programam-se algoritmos proprietários (de código fechado) para que fragmentem um ativo subjacente em diferentes atributos, utilizando parâmetros que lhes permitem tornar comparáveis entidades aparentemente incompatíveis. Em seguida, recompõem-se tais atributos num composto derivado, uma unidade informacional abstrata. Tal como ocorre no mercado de arbitragem, a este produto atribui-se algum valor monetário, a partir do qual outros compostos serão avaliados em seu valor intrínseco. Assim, uma ampla gama de práticas sociais se torna passível de codificação, pois são padronizadas e intercambiáveis (DE MARCHI, 2018, p. 204).

Podemos inferir, então, que o tipo de conexão torcedor / consumidor de futebol é o que também atrai os patrocinadores do programa do Mauro Cezar. Dentre eles, o aplicativo de notícias de futebol One Football. Segundo o jornalista, não há uma pessoa responsável pelo departamento comercial de seu canal, ele trata pessoalmente com as empresas:

Quem me acompanha, sabe que eu nunca fiz merchan na TV. Hoje eu falo, porque o merchandising é para mim. Não há intermediários. Não estou fazendo para ninguém gerar receita. Por exemplo, quando fazia programas na televisão, existiam quadros nos quais eu e meus colegas dávamos palpite de quanto seria o placar dos jogos.  Muitas vezes uma empresa de apostas tinha pautado esta iniciativa. Ou seja, o diretor comercial, o contato comercial, todos na TV ganhavam comissão, mas nós, jornalistas, não. Hoje ninguém ganha nas minhas costas. Além disso, eu me livro de debater assuntos inúteis que, muitas vezes, são colocados na televisão.

Além da autonomia para escolher as pautas, o jornalista apontou que agora tem tempo para se dedicar a outras tarefas, como ler um livro no meio da tarde, não estando sujeito a uma escala de trabalho.  “Claro que, em dias de jogo, eu tenho que parar para escrever, assistir aos jogos, mas agora eu não tenho patrão, não tenho chefe. Sou dono do meu horário. Entrevisto quem eu quero, escrevo o que eu quero e comento sobre o que quero”.

A ideia de liberdade de conteúdo de Mauro Cezar vai ao encontro do que Morozov (2018) chama de “despojar as pessoas de seus recursos”. Ou seja, o capital libera o potencial criativo dos indivíduos, ao oferecer-lhes meios muito sofisticados, e amplamente acessíveis, de cuidarem de si, mobilizando-as a lutar pelos seus objetivos por intermédio de outras modalidades da economia do conhecimento. Desta forma, Mauro abre caminho para um novo tipo de jornalismo esportivo no Brasil que, ao mesmo tempo que é mais autônomo, segue métricas de mercado, mas nas quais ele pode trabalhar os dados ao seu favor. “É um caminho que nem asfaltado ainda está, me sinto dirigindo uma BMW, num terreno acidentado. Eu estou abrindo um caminho, mas ele é acidentado, tem que ter gás”.

Sendo assim, podemos concluir que, quando falamos da ambiência digital e canais próprios de jornalistas, temos uma nova maneira não somente de transmitir notícias, como também de eliminar intermediários em transações comerciais de patrocínio. O anunciante trata diretamente com o profissional que, por sua vez, decide quem serão seus anunciantes e suas pautas, não dependendo da influência direta ou indireta dos grandes conglomerados de mídia. O torcedor / consumidor se atrai por este serviço de notícias porque também vê nele a possibilidade de ser coprodutor de conteúdo, interagindo de forma direta com o jornalista. Este fato gera, ainda, mídia espontânea, pois o impele a compartilhar sua participação nos programas, o que pode proporcionar novos usuários para o próprio canal.

Desta forma, o jornalismo esportivo engatinha em sua jornada na era digital, com um mercado potencialmente grande a se expandir, aproveitando-se de informações geradas pela financeirização da vida digital cotidiana do torcedor / consumidor.

Referências

DE MARCHI, L. Como os algoritmos do Youtube calculam valor? Uma análise da produção de valor para vídeos digitais de música através da lógica social de derivativo. Matrizes, v. 12, n. 2, maio/ ago. 2018, São Paulo, Brasil, p.193-215.

MOROZOV, E. Big Tech: a ascensão dos dados e a morte da política. São Paulo: Ubu, 2018.

SCHRADIE, J. Ideologia do Vale do Silício e desigualdade de classe: um imposto virtual em relação à política digital. Parágrafo, jan./jun. 2017, v. 5, n. 1, São Paulo, 2017.

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Atletas paralímpicos: os invisíveis durante a quarentena

Muito tem se falado sobre a preparação dos atletas olímpicos e dos jogadores de futebol em meio a quarentena. Entre os assuntos mais comentados dos últimos meses estão: como treinam, como ficam o condicionamento físico, a estabilidade emocional e a rotina alimentar. Resolvi fazer uma pesquisa no Google[1] com a seguinte frase: “atleta olímpico quarentena”, obtive 1.310.000 resultados. Posteriormente, pesquisei nova frase: “atleta paralímpico quarentena”. Número de resultados: dois!

O pior de tudo: esta busca levou a notícia do fim do departamento paralímpico do Vasco da Gama. Em reportagem do GloboEsporte.com, de 13 de maio, o departamento paralímpico emitiu nota com o seguinte questionamento: “por que apenas os deficientes precisam deixar o clube?”. Ao todo 128 alunos e atletas deixaram as instalações do Vasco. Ainda segundo a matéria, a principal reclamação destes é em relação a baixa folha salarial da modalidade: R$ 17.800.  Será que esta economia pode ajudar sobremaneira ao Vasco em meio ao coronavírus? Será que outros clubes também encerraram suas atividades paralímpicas? Busquei esta informação e não tive respostas, nem das confederações, nem de colegas que trabalham na mídia e tampouco na internet. Será que por não existirem mais fechamentos de unidades ou por que o assunto não interessa?

Em meio as minhas pesquisas, descobri também que, enquanto “a bola ainda não rolava”, o Brasil ganhou uma medalha de bronze pela Copa do Mundo de Halterofilismo Paralímpico. A modalidade aconteceu online e Mariana D’Andrea foi nossa medalhista. O Portal UOL e o site Globoesporte.com fizeram reportagens sobre a participação do Brasil na competição. Fora estes dois sites, aparente, silenciamento dos veículos de grande alcance.

Como diria meu amigo Márcio Felipe, especialista em Tecnologia da Informação e, por um acaso da vida, cego: “nós somos invisíveis”. Talvez seja por isso que pouco se fala sobre a modalidade paralímpica até nos noticiários esportivos; afinal, não seria a Comunicação um fragmento da sociedade?

Segundo Cardoso (et al, 2018), o papel da mídia é fundamental para que o esporte paralímpico ganhe espaço e seja divulgado de forma que destaque os feitos esportivos dos atletas, mostre suas capacidades atléticas e desmistifique alguns estigmas relacionados a eles, como de incapazes, frágeis e passivos. Desta forma, ainda segundo os autores, a mídia poderia contribuir com a formação de ídolos paralímpicos e, consequentemente, com o aumento do interesse pela prática esportiva, incentivando uma nova geração de atletas medalhistas.

Recorrendo ao site da Confederação Brasileira de Desportos de Deficientes Visuais (CBDV), tive a informação que o Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) lançou, este mês, a plataforma Movimente-se. Direcionada para a atividade física, Movimente-se tem aulas gratuitas exclusivamente voltadas aos deficientes visuais e físicos (cadeirantes, paralisados cerebrais e amputados), que nunca praticaram atividade física ou não possuem orientação profissional. Com cinco vídeos semanais, diferenciados por tipo de deficiência, atletas paralímpicos e técnicos do CPB ministram as aulas. No caso dos deficientes visuais, dois vídeos estarão disponíveis, um para baixa visão e outro com o serviço de audiodescrição, ambos com o mesmo conteúdo de exercícios.

Fonte: flickr

Ainda realizando pesquisa em relação ao interesse da mídia em divulgar ações referentes aos atletas paralímpicos, fiz nova pesquisa no Google, utilizando o nome da plataforma “Movimente-se”. O único veículo de grande circulação que realizou reportagem foi o Estadão, sendo que é exclusiva para assinantes. O site O tempo, conhecido em Minas Gerais, também apresentou matéria.

Também recorri ao site do CPB em busca de notícias. Lá, matéria de extrema importância: a criação do curso Movimento Paralímpico: fundamentos básicos do esporte. Direcionado para professores de Educação Física, a plataforma online capacita professores a discutirem e ensinarem esportes para pessoas com deficiência. Com carga horária de 40 horas, divididas em quatro módulos, os alunos estudam gratuitamente sobre: história dos esportes Paralímpicos, as principais regras de cada modalidade e ainda têm acesso a entrevistas com atletas brasileiros.

Ao realizar pesquisa no Google, não encontrei a veiculação desta iniciativa em nenhum site de grande circulação e gostaria de pedir licença aos leitores para abordar algumas questões pessoais: desde quando conheci Marcio Felipe, há pouco mais de dois anos, meu senso de coletividade mudou. Logo no começo de nossa amizade, ele e sua esposa Verônica Mattoso, professora da UFRJ e uma das principais pesquisadoras de comunicação/tecnologia da informação e acessibilidade que temos neste país, me fizeram (vejam que irônico) enxergar o mundo do Márcio. Tive jantares às cegas (sim, eles colocaram uma venda em mim para que eu aprendesse a comer sem ver), assisti partida de futebol vendada (esse o exercício mais difícil), fiz caminhadas nas quais  Márcio me guiou. Eu fico imaginando (sou professora da rede Estadual do Rio), o quão rico seria para a formação de nossos jovens se, por meio das aulas de Educação Física, eles tivessem a possibilidade de conhecer mais sobre os jogos paralímpicos, os atletas e, quem sabe, realizar partidas de futebol, basquete e handebol adaptadas, nos quais eles estivessem vendados ou simulando alguma deficiência. Como afirmam os pesquisadores de Sergipe, Zoboli, Quaranta e Mazzaroba:

Seja no ambiente de trabalho, na educação, no transporte público, no direito ao lazer, nas políticas de acessibilidade, nos esportes, todas estas dimensões sociais passam por momentos de aculturação na medida em que algumas leis se colocam “forçosamente” em prática; também, na medida em que várias práxis que norteiam o âmbito social, no que tange às pessoas deficientes, vão sensibilizando as pessoas a perceberem novos mundos, novas metáforas para o existir humano onde caiba o diferente (ZOBOLI, QUARANTA, MEZZAROBA, 2013, p.265).

Desta forma, como a informação sobre o curso voltado para professores de Educação Física poderia nos ajudar a construir o tão sonhado “mundo melhor”? Como apontou minha amiga Verônica Mattoso, em sua dissertação apresentada, em 2012, no IBICT, em um mundo organizado por e para quem vê, alguns questionamentos passam ao largo.

Fonte: Flickr

Notas de Rodapé

[1] O levantamento foi realizado no dia 22 jun. 2020,  através de uma simples busca no Google. Na primeira tentativa, apareceram 1.310.000 matérias para os atletas olímpicos e duas para os atletas paralímpicos. Na medida em que eu fui refinando minha busca, a última pesquisa revelou 1.270.000 matérias para os atletas olímpicos e 132.000 para os paralímpicos. Entendo que há, devo sublinhar, a forte influência dos algoritmos dos sistemas de busca que, como bem argumentou Eli Pariser (2012), direcionam os resultados de acordo com um processo de aprendizado de máquina.

Referências bibliográficas

CARDOSO, Vinícius; HAIACHI, Marcelo; POFFO, Bianca; VELASCO, Amanda; GAYA, Adroaldo. A construção da mídia na construção dos ídolos paralímpicos brasileiros. Brazilian Journal of Education, Technology and Society (BRAJETS) – Especial Section, “Disability, Education, Technology and Sport” 2018, Vol. 11, No. 01, jan-mar.

COMUNICAÇÃO CBDV. Comitê lança programa on-line de exercícios a pessoas com deficiência. Disponível em: http://cbdv.org.br/fases-de-treinamento/comite-lanca-programa-on-line-de-atividade-fisica-a-pessoas-com-deficiencia. Acesso em 23 jun.2020.

CPB. Curso EAD Movimento Paralímpico. Disponível em: https://impulsiona.org.br/esporte-paralimpico/. Acesso em 23 jun.2020.

GOOGLE. Disponível em: www.google.com.br. Acesso em 22 jun.2020.

GLOBOESPORTE.COM. Esporte paralímpico do Vasco encerra atividades e alfineta gestão do clube: “Luta desleal”. Disponível em: https://globoesporte.globo.com/paralimpiadas/noticia/esporte-paralimpico-do-vasco-encerra-atividades-e-alfineta-gestao-do-clube-luta-desleal.ghtml. Acesso em 22 jun.2020.

MATTOSO, Verônica. Ora, direis, ouvir imagens? Um olhar sobre o potencial informativo da áudio-descrição aplicada a obras de artes visuais bidimensionais como representação sonora da informação em arte para pessoas com deficiência visual. Dissertação. Programa de pós-graduação em Ciência da Informação IBICT/ UFRJ, Rio de Janeiro, 2012.

PARISER, Eli. O filtro invisível – O que a internet está escondendo de você. Editora Zahar, 2012.

ZOBOLI, Fabio; QUARANTA, André Marsiglia; MEZZAROBA, Cristiano. Oscar Pistórius, um deficiente eficiente? Considerações sobre a segregação / inclusão no paradesporto: um olhar a partir da mídia.  ATOS DE PESQUISA EM EDUCAÇÃO – PPGE/ME, v. 8, n. 1, p. 259-286, jan./abr., 2013.

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Será que podemos torcer e jogar futebol como mulheres?

Nesta semana de Dia Internacional da Mulher, ter espaço para falar no blog do Leme me leva a um lugar não apenas de pesquisadora, mas de mulher e de torcedora.  Por, desde pequenas, gostarmos de futebol, temos nosso cotidiano repleto de violências simbólicas. Nossas opiniões são, constantemente, invisibilizadas e colocadas em cheque; nosso amor questionado;… Continuar lendo Será que podemos torcer e jogar futebol como mulheres?

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Mulheres torcedoras: a busca por visibilidade em um ambiente marcante pela masculinidade

Quando o Ibercom (Congresso Iberoamericano de Comunicação) divulgou o tema para a edição deste ano, que acontece no final de novembro, em Bogotá (Colômbia), conversei com meu orientador de mestrado, Ronaldo Helal, sobre a possibilidade de escrevermos um artigo. O tema do congresso este ano é “Comunicação, violências e transições”, e eu, como torcedora e… Continuar lendo Mulheres torcedoras: a busca por visibilidade em um ambiente marcante pela masculinidade

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A Copa do Mundo e a polarização das eleições presidenciais

A camisa da seleção brasileira de futebol não é apenas um símbolo de um país, mas uma marca de um grupo político para algumas pessoas e isto fica mais evidenciado ainda em uma competição como a Copa do Mundo de futebol. A matéria “Camisa da seleção, o símbolo contaminado por rixas ideológicas e negociatas dos… Continuar lendo A Copa do Mundo e a polarização das eleições presidenciais

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Feminismo invade o futebol brasileiro e a mídia esportiva

A representatividade feminina no futebol tem sido uma constante este ano. Além de o Brasil ganhar a Copa América com o time feminino, atletas e repórteres estão engajadas com o propósito de aumentar os patrocínios, diminuir o machismo e exigir, cada vez mais, o respeito. O Corinthians, atual campeão da Taça Libertadores da América no… Continuar lendo Feminismo invade o futebol brasileiro e a mídia esportiva

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