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Transmissões televisivas e a elitização do sofá de casa

Reprodução: Internet

Desde a virada do século XX para o século XXI é possível perceber a estruturação de um processo de elitização do público nos estádios brasileiros, por meio do aumento nos valores dos ingressos e da busca por uma disciplinarização dos comportamentos esperados pelos torcedores nas arquibancadas (GAFFNEY, 2004). Amparados por uma noção do futebol cada vez mais atrelada à mercadoria e a espetacularização, os clubes brasileiros, bem como as empresas promotoras de eventos ligados ao esporte procuraram transformar os estádios em espaços voltados para o consumo e entretenimento. Lojas, alimentação, experiências no campo de jogo, e tudo mais que possa ser explorado comercialmente são feitos tendo a partida como fio condutor (HOLZMEISTER, 2005).

O processo de elitização dos estádios se aprofunda no Brasil a partir do fim da primeira década do século XXI, quando motivados pela promoção da Copa das Confederações (2013), Copa do Mundo (2014) e Olimpíadas (2016) passam a ser reformados ou construídos novos estádios que materializaram o novo projeto de torcedor/fã e arena de consumo esportivo.

A construção ou remodelamento desses estádios atrelados a uma nova forma de torcer e consumir constitui o processo de arenização na qual as praças esportivas passam a ser pensadas não mais a partir daqueles que frequentam – a torcida- mas sim das exigências das empresas consumidoras/patrocinadoras e dos indivíduos que pretendem desfrutar de um entretenimento. O estádio-nação, ou seja, o espaço de representação da identidade social dá lugar ao estádio-shopping, local estritamente comercial (MARCELLINO, 2013).

O avanço dessa realidade de elitização, na qual a arenização é sua característica mais atual acabou por paulatinamente afastar grande parte das camadas populares dos estádios, mas também parte da classe média intitulada atualmente como “nova classe C”. A principal razão para esse afastamento está nos altos custos dos ingressos que acabam por alijar os mais pobres do acesso ao estádio.

Tendo seu acesso dificultado e/ou impedido, essas classes sociais encontraram nas transmissões televisivas um meio de continuar acompanhando seus clubes, mesmo que à distância. Para a maioria por meio da “televisão aberta” e para uma parcela, principalmente da nova classe C, também por meio da “televisão fechada”. Se o estádio de futebol cada dia mais estava “fechado” para esses grupos, pelo menos as transmissões televisivas ajudavam a mitigar os efeitos da desigualdade de acesso as partidas. Esse fato que já havia sido observado no processo de elitização do futebol inglês como evidenciou Alvito (2014).

No Brasil o televisionamento das partidas se difundiu no final da década de 1980, quando mais de 70% dos lares do país possuíam aparelhos televisores (BOLAÑO,1988). Durante o período entre 1980 e 2020 pôde-se perceber que o avanço das transmissões foi feito através de um controle cada vez maior da Rede Globo e suas afiliadas, que passaram a ter o direito de transmissão dos principais campeonatos esportivos tais como: Estaduais, Campeonato Brasileiro, Copa do Brasil, Libertadores, Copa do Nordeste, entre outros. Nesse caminho passou também a monopolizar a expertise no processo de produção técnica dos jogos e consolidou-se como a “dona” do futebol brasileiro ofertando nos meios de semana e finais de semana partidas na televisão aberta.

Nos anos de 1990 com a chegada dos canais pagos da televisão fechada, a oferta de transmissão de jogos aumentou com a introdução de canais esportivos, sendo que nos anos 2000 ocorreu a chegada da ESPN e SPORTV à grade de programação, bem como a oferta de pacotes de transmissão completa como o pay-per-view. A existência dessa oferta de canais pagos possibilitou a determinada parcela da população, principalmente da classe C, acompanhar todos os jogos de futebol do seu time a um custo inferior do que aquele gasto no valor dos ingressos.

O monopólio da Rede Globo nessas transmissões abertas e fechadas permitia aos torcedores terem acesso a todas as partidas (do seu time e dos adversários) adquirindo somente um produto, a saber o pay-per-view (SANTOS, 2013). No entanto, nos últimos anos podemos perceber mudanças na dinâmica das transmissões televisivas com o aparecimento de novas plataformas de comunicação com destaque para o serviço de streaming, além do interesse de novos players na transmissão das partidas devido o aumento do potencial comercial delas.

Entre os novos interessados nas transmissões das partidas temos emissoras tradicionais como Bandeirantes e SBT, mas também novos atores como é o caso do Facebook, da Conmebol e dos próprios clubes de futebol. A disputa pelas transmissões evidencia uma visão de que os campeonatos transmitidos são uma mercadoria valorizada que pode se converter em crescimento de receita para esses possíveis proprietários. O desenvolvimento dessa concorrência também está relacionado a uma difusão das tecnologias e técnicas de transmissão dos eventos esportivos entre os meios tradicionais (televisão), e os novos meios (redes sociais e streaming).

A configuração desse cenário concorrencial inicialmente nos permitiria concluir que o torcedor ganharia com esse processo, pois segundo as leis do mercado, com a quebra do monopólio da Globo e o aumento da oferta de opções de produtos por vários canais e plataformas, o preço cairia. Essa concepção do monopólio da emissora como algo ruim ganhou força durante muito tempo e foi reforçada através do processo de demonização da Rede Globo, vista como a principal culpada pelos calendários, horários e regras do futebol brasileiro (SANTOS, 2013).

No entanto, a quebra do monopólio das transmissões, seja pela não renovação de contratos vencidos e/ou pelo aparecimento de novos meios de vinculação não cobertos pelos contratos, fez surgir um efeito perverso sobre o acesso ao televisionamento dos jogos em “televisão fechada”, a saber o fatiamento dos produtos com segmentação e sobreposição de propriedades sobre os campeonatos transmitidos. Essa situação pôde ser verificada, por exemplo, com a transmissão dos jogos da Libertadores da América e Sul-americana, que saíram do portfólio da Globo e, passaram a ser oferecidos somente pela Conmebol TV. A consequência imediata disso para o torcedor/telespectador se traduz num aumento do custo para acompanhar todas as competições do seu time ou a necessidade de escolha dos campeonatos que mais lhe agradam para serem pagos e consumidos.

Se na televisão fechada esse movimento de aumento dos custos para acompanhamento das partidas já avança a passos largos, na televisão aberta ele começa a se desenhar principalmente nos campeonatos estaduais, nos quais os contratos que estão vencendo não estão sendo renovados por discordância nos valores ofertados pela Globo e a expectativa dos clubes.

Livres no mercado para disponibilizarem a transmissão das partidas como bem entenderem, alguns clubes, como é o caso do Flamengo e do Athletico Paranaense, criaram recentemente serviços de streaming com pacotes pagos para a transmissão dos campeonatos estaduais em 2021. Consequentemente os jogos desses times pararam de ser transmitidos na televisão aberta nos estaduais e a possibilidade de assisti-los estava atrelada ao pagamento de um valor de 129,00 por todo o campeonato. O desdobramento disso foi a impossibilidade das camadas mais pobres de acompanharem esses jogos na televisão.

 Com a recente aprovação da lei do mandante (lei nº14.205/2021), que permite aos clubes de futebol o direito de negociação das transmissões e reproduções dos seus próprios jogos quando forem mandantes sem a necessidade de anuência do visitante, o movimento de avanço da oferta de serviços de pacotes de campeonatos pelos clubes sobre os seus próprios jogos deve ganhar fôlego. Diante disso, podemos nos deparar com uma realidade na qual os jogos migrariam da televisão aberta para esses serviços de streamings oferecidos pelos clubes.

 O desenvolvimento desse processo visa diretamente o interesse dos clubes em obter novas receitas através do oferecimento de um serviço que antes estava vedado a eles. Contudo, aprofunda o processo de elitização do futebol, pois cria um novo nível de exclusão dos torcedores/telespectadores no objetivo de acompanhar o seu time do coração. Se num primeiro momento o aumento do valor dos ingressos significou a elitização dos estádios e a exclusão dos mais pobres do acesso as partidas em loco, agora a fragmentação dos pacotes de transmissão de jogos e a diminuição da oferta de partidas na televisão aberta caminha para ser um segundo estágio desse processo.

Com a elitização do sofá de casa, o torcedor mais pobre ficará ainda mais distante do seu clube do coração e terá novamente que obter novos meios para alimentar a sua paixão diante de um esporte que se propõem cada dia mais comercial e menos passional.

Referências

ALVITO, M. A Rainha de Chuteiras: Um ano de futebol na Inglaterra. Rio de Janeiro. Ed Apicuri, 2014.

BOLAÑO, C. Mercado Brasileiro de Televisão. Aracaju, Universidade Federal de Sergipe, PROEX/CECAC/ programa Editorial, 1988.

GAFFNEY, C. T.; Mascarenhas, G. O estádio de futebol como espaço disciplinar. In: Seminario Internacional Michel Foucault, 2004, Florianopolis. Seminario Internacional Michel Foucault – Perspectivas, 2004.

HOLZMEISTER, A. A nova economia do futebol: uma análise do processo de modernização de alguns estádios brasileiros / Antônio Holzmeister Oswaldo Cruz. – Rio de Janero: UFRJ/PPGAS, Museu Nacional, 2005.

MARCELLINO, N. C. Legados de megaeventos esportivos. Campinas: Papirus, 2013.

SANTOS, A. David G. dos. A consolidação de um monopólio de decisões: a Rede Globo e a transmissão do Campeonato Brasileiro de Futebol. UNISINOS 2013.

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Dois anos do incêndio no Ninho do Urubu: algo mudou nas categorias de base brasileiras?

No próximo dia 8 de fevereiro de 2021 completam dois anos do incêndio no alojamento das categorias de base do futebol do Clube de Regatas do Flamengo. Naquela madrugada, dez jovens morreram e outros tantos ficaram feridos em decorrência das instalações improvisadas e dos falhos protocolos de segurança oferecidos pelo clube aos seus jovens atletas.

Dois anos após a maior tragédia da história do futebol de base do Brasil, as investigações e responsabilizações dos culpados ainda caminham de forma lenta. Somente no início de 2021, quase dois anos após o incidente, a justiça recebeu denúncia e tornou réus onze pessoas, entre elas o ex-presidente do clube Eduardo Bandeira de Mello. No que tange as indenizações pelo incêndio, as negociações com muitas famílias se arrastaram por mais de um ano e meio, sendo que, ainda existem famílias que não conseguiram entrar em acordo com o clube.

O incêndio no alojamento da base do Flamengo no Ninho do Urubu foi o evento mais trágico, mas infelizmente não foi o único no Brasil. Outros ocorreram anteriormente e foram tratados pela mídia com igual atenção. Isso nos mostra que, os problemas que afetam as categorias de base no Brasil são muito mais amplos que a tragédia no Ninho do Urubu e, não se resumem a ela. É difícil, mas temos que reforçar que não se trata de um caso isolado. Quando nos vemos frente a um fato tão traumático e amplamente noticiado pelos veículos de imprensa normalmente vemos surgir debates e cobranças sobre como podemos evitar situações parecidas.

Relatórios encomendados pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) em 2018 sobre as categorias de base do futebol no Brasil apontam para existência de pouca estrutura física e organizacional para acolher os jovens atletas em formação. Isso significa ausência de alojamentos, refeitórios, profissionais para o acompanhamento diário e até mesmo documentação válida para se responsabilizarem por esses jovens. Além disso, reportagens vinculadas na mídia, bem como documentários dão conta do descumprimento da legislação vigente por parte de muitos clubes. Entre as principais infrações estão: Não matricular os atletas em escolas, mantê-los em condições análogas à escravidão, entre outras. Os problemas citados são potencializados pela pouca fiscalização dos órgãos governamentais e esportivos.

Diante disso, o que mudou na legislação e/ou na fiscalização das categorias de base brasileiras de 2019 para cá? Infelizmente a comoção da tragédia não se traduziu num movimento político-social em torno de uma maior regulamentação por parte dos direitos dos jovens atletas e da fiscalização dos centros de treinamento.

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Juridicamente nada foi proposto à nível municipal, estadual ou federal para que houvesse maior regulamentação sobre os centros de treinamento ou para que a condição de jovem atleta fosse tipificada nas leis para protegê-los melhor.

No Brasil, os jovens atletas continuam vivendo numa situação de subinclusão decorrente de inúmeras lacunas no direito brasileiro. A legislação reconhece a profissionalização, a educação, o lazer e a dignidade como direito dos jovens, mas inexiste a figura do atleta com vistas à profissionalização esportiva. As especificidades enfrentadas pelo jovem atleta em formação não são encaradas como necessárias a um tratamento particular a ponto de prover todos os seus direitos fundamentais, entre eles o direito à profissionalização.

A tragédia do Ninho do Urubu não conseguiu jogar luz sobre o debate dos problemas jurídicos acerca da efetivação dos direitos dos jovens atletas em formação. Mantem-se a estrutura pontuada pelos “emaranhados legais”, no qual diversas legislações citam tangencialmente determinados grupos sociais como possuidores de direitos, mas não se criam legislações específicas de proteção a esses grupos.

O reconhecimento das especificidades de certos grupos encontra vários exemplos na legislação brasileira. É sabida a existência de legislações específicas que abarcam as mulheres, os idosos, as crianças e outros grupos sociais. Essas legislações especificas visam tratar a situação de vulnerabilidade social na qual esses grupos se encontram.

A legislação brasileira contempla o jovem trabalhador, o jovem aprendiz e o jovem estudante, mas mostra-se lacunar pela ausência de um dispositivo que trate a especificidade do jovem que almeja a profissionalização esportiva. Infelizmente esse debate não foi proposto após uma tragédia de proporções tão grandes.

A CBF tão pouco preocupou-se em estabelecer uma política nacional de formação de base, ou pelo menos fomentar uma política descentralizada e estadual de formação, por meio das federações locais. Limitou-se apenas a manter a certificação dos clubes brasileiros por meio do “certificado de clube formador” (CCF), mas sem impor sanções esportivas ou jurídicas àqueles que não obtivesse o selo proposto por ela. Atualmente no universo de aproximadamente 776 clubes profissionais no Brasil, menos de 50 possuem o certificado que atesta as condições básicas para o acolhimento dos jovens e desenvolvimento da prática esportiva.

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A situação mencionada mostra como as categorias de base no Brasil necessitam de fiscalização, contudo nenhum órgão foi criado nesse sentido. Basicamente o que vemos é a atuação quase heroica dos ministérios públicos do trabalho dos estados na investigação de denúncias nos centros de treinamentos Brasil a fora. Com destaque para o MPT de Minas Gerais e do Rio de Janeiro.

O cenário exposto nos mostra que a tragédia ensinou pouco ou quase nada aos clubes brasileiros, os gestores do futebol e aos legisladores do Brasil. Momentos de dor são normalmente oportunidades de reflexão e crescimento, mas o Brasil mais uma vez perdeu a chance de avançar e debater um assunto que envolve o sonho de milhões de crianças país a fora.

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A parte que nos cabe nessa pandemia

O período de 2020 certamente ficará lembrado na história como o ano das incertezas. Esse cenário, em muito, está relacionado com a pandemia do COVID-19 que redefiniu nossas formas de convivência social, de higiene com o corpo, de trabalho e de lazer.

Reconhecida no mundo desde dezembro de 2019, a doença se caracteriza por uma fácil disseminação entre as pessoas e uma dificuldade de identificação daqueles indivíduos que estão com a doença (assintomáticos). Nesse cenário, até o momento, a doença levou quase 1 milhão de pessoas a óbito no planeta todo e ultrapassou a casa dos 30 milhões de infectados. No Brasil, terceiro maior país afetado pela COVID-19, o número de óbitos está próximo de 140 mil e o de infectados é de quase 4,5 milhões de pessoas.

O desconhecimento acerca dessa nova doença (sintomas, profilaxias, tratamentos e consequências clínicas) ainda hoje representa um desafio para a comunidade cientifica e a população mundial. Como medida de combate ao novo coronavírus, uma das ações reconhecidamente eficazes para mitigação do contágio foi a implementação do distanciamento social e das medidas de lockdown (fechamento de serviços não-essenciais) com a intenção principal de diminuir a curva de infecção da doença e não sobrecarregar a estrutura hospitalar dos países.

As estratégias de distanciamento social e lockdown foram eficazes em reduzir as mortes e contágios, mas impactaram diretamente no desenvolvimento econômico dos países afetados provocando crises na cadeia de produção, retração do consumo, falências, desemprego e recessão. Essa crise causada pelo novo coronavírus também atingiu o futebol, já que esse faz parte da indústria do entretenimento, uma das mais afetadas pelas medidas de distanciamento social.

No caso do Brasil, o futebol é uma indústria que movimenta muito dinheiro. Segundo dados da consultoria Ernest Young, em 2019 o futebol gerou 53 bilhões de reais à economia nacional. Dentro desse montante, estão inseridos pagamentos de salários, patrocinadores, cotas de televisão, mão de obra indireta para realização das partidas, dentre outros. Com o advento da COVID-19 essa indústria se viu seriamente atingida pela suspensão das partidas, impossibilidade de público e o cenário de incertezas acerca das chances de retorno.

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Após quase 4 meses de interrupção dos campeonatos no Brasil, os clubes brasileiros, as federações, a CBF e a mídia esportiva começaram a debater as possibilidades de retorno do futebol. Nesse aspecto, posições antagônicas foram verificadas entre aqueles que defendiam a volta sob condições específicas de protocolos sanitários e outros que enxergavam a volta como precipitada, principalmente pelo contexto de aumento das mortes e do contágio visto nos meses de junho e julho.

Passados quase 3 meses da volta do futebol, podemos constatar que os protocolos sanitários utilizados no futebol vêm tendo relativo sucesso em mitigar o contágio entre os atletas e os funcionários que trabalham no entorno do espetáculo. Contudo, é evidente a existência de desproporcionalidades nas possibilidades de aplicação dos protocolos em face das desigualdades existentes entre clubes e federações dentro do Brasil. Além disso, os casos verificados recentemente no Flamengo, com 7 jogadores infectados no Equador, ou os 14 infectados no Boca Juniors reforçam a compreensão de que não existe protocolo 100% eficaz.

Ao entrarem em campo pelos campeonatos e realizarem deslocamentos cada vez maiores, seja pelo Brasil nos campeonatos nacionais ou pela América do Sul nos campeonatos internacionais, esses atletas estarão inevitavelmente se expondo ao risco de contaminação existente nos hotéis, estádios, aeroportos e transportes fretados.

A possibilidade de infecções e surtos entre os atletas era e ainda continua sendo um dos pontos principais do debate sobre o retorno do futebol, principalmente por aqueles que advogam que o retorno foi precipitado. Há riscos? Sim, Claro! Os casos de Flamengo, Boca Juniors, Corinthians e Atlético Goianiense nos mostram que a criação de bolhas é cada vez mais difícil.

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Diante dos riscos óbvios e da possibilidade factível de óbito, à época dos debates sobre a volta do futebol muito foi debatido sobre a necessidade de alteração dos formatos dos campeonatos. Os argumentos para mudanças versavam sobre: minimizar riscos de contágios criando uma sede única para as competições; extinção dos estaduais; e redução das rodadas dos campeonatos para que isso não inchasse ainda mais o calendário brasileiro, já tão cheio.

A grande imprensa televisiva, impressa e digital em seus debates pontuou que havia por parte dos clubes uma dose de irresponsabilidade e insensibilidade por preconizarem os campeonatos nos moldes existentes pré-pandemia. Alguns analistas até viram doses de negacionismo nos clubes e seus dirigentes. A intenção desse artigo não é defender os clubes e seus dirigentes, mas entender os motivos pelos quais não abriram mão do formato estabelecido em períodos de normalidade.

O futebol é como um produto econômico, formado por uma cadeia de agentes que produzem, distribuem e consomem um bem com vistas a obtenção de lucro. Nesse sentido, os clubes são apenas uma parte desse processo. Colocar-lhes toda a culpa é perder de vista o fenômeno como um todo, ou como remete o título, a parte que nos cabe nessa pandemia.

Uma das maiores preocupações dos clubes com a mudança de fórmulas e redução de campeonatos residia na diminuição das cotas de televisão e de patrocínio que ganhariam das emissoras e das empresas atreladas a eles. Lembremos que no Brasil, segundo dados do Itaú BBVA, os direitos de transmissão e os patrocínios representaram, em 2019, respectivamente 41% e 11% de todas as receitas produzidas pelos clubes, ou seja, mais de 50% da arrecadação bruta.  

Em campeonatos com menos rodadas, as emissoras pagariam proporcionalmente ao tamanho deles, dito isso, torneios com 19 rodadas, ao invés de 38 rodadas, renderiam aos clubes metade daquilo que estava previsto. Num efeito em cascata, os patrocinadores estampados em camisas, placas de publicidade, matchday e marketing de ativação também corrigiriam seus pagamentos proporcionalmente.

Num cenário no qual os clubes brasileiros estão afundados em dívidas e muitas das rendas futuras já estão penhoradas para pagar débitos, perder essas cotas significaria mais um duro golpe nos clubes. Ainda mais porque receitas como bilheteria (14% da arrecadação bruta) e venda de jogadores (23% da arrecadação bruta) estariam comprometidas nesse momento de pandemia. Na verdade, é possível dizer que os clubes não tiveram muita opção de escolha pelo formato. Os imperativos do mercado e a situação financeira deles não possibilitaram margem de manobra razoável para escolher.

O ponto principal é a reflexão sobre a responsabilidade que cada agente dentro desse campo deveria ter tido para que os atletas e profissionais envolvidos no espetáculo não se expusessem aos riscos de uma volta precoce e nos formatos pré-pandemia. Emissoras, empresas, patrocinadores e investidores do futebol deveriam ter pensado “qual parte me cabe nessa pandemia?”. Obviamente a pergunta seguinte a ser feita seria: O que poderia ser feito por esses agentes? Eles poderiam manter os valores a serem pagos esse ano pelos formatos antigos, mesmo implantando um novo formato de exceção. No futuro negociava-se a restituição desses valores parcelada. Poderia ter sido criado um fundo de ajuda aos clubes por parte da CBF ou criação de um sistema de empréstimos a juros baixos junto aos clubes, mas fixado as cotas de patrocínio e televisão do futuro.

Todas essas propostas são possibilidades e especulações, mas reforçadas por uma certeza: a principal conta da pandemia no futebol recaiu sobre os clubes e os atletas. Ao mesmo tempo, parte da mídia esportiva construiu uma narrativa que “vilanizou” as agremiações esportivas e seus dirigentes, sem, no entanto, refletir sobre a parte de esforço que cabia a outros agentes do futebol para proteger os atletas e os profissionais envolvidos no espetáculo. Se todos – empresas, emissoras, clubes, jogadores, investidores – tivessem socializado parte das perdas, abrindo mão de algum quinhão dos seus recursos, talvez não tivéssemos que impor aos clubes uma “escolha de Sofia” que aumenta o risco de todos ao contágio. Às emissoras caberia ultrapassar o limite do discurso de preocupação com a volta do esporte e agir ativamente para apoiar os clubes para que eles não precisassem voltar agora, e aos comentaristas debater o todo do problema e não somente uma fração dele.

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Mercado esportivo mundial e sua influência na formação de atletas brasileiros

O mercado esportivo deve ser pensado como ambiente social ou virtual propício às condições para a troca de bens, serviços e performances atléticas com vista a transformação desses em produtos econômicos (PRONI, 2000: 98). O mercado esportivo se caracteriza pela inserção de atletas profissionalizados de alto rendimento em um ambiente competitivo caracterizado por competições regulares e estáveis que cada vez mais se associam com o capital econômico para transformar o esporte em um produto de consumo e retorno financeiro para seus patrocinadores e investidores através da exposição midiática, do marketing e da publicidade.

O mercado esportivo é parte integrante de um mercado econômico global mais amplo de produção de bens e entretenimento. Por isso, o mercado esportivo é em determinadas características correlato ao mercado econômico mundial, possuindo também seus centros e suas periferias, seus fornecedores de commodities e os de produtos industrializados, bem como seus polos atrativos de mão-de-obra qualificada.

No tocante ao futebol, os países europeus como Inglaterra, Itália, Portugal, Espanha e Alemanha compõem o núcleo (centro do mercado), pois possuem os campeonatos mais valorizados, as melhores possibilidades de exposição midiática, o maior poder econômico e são o grande destino dos trabalhadores migrantes do futebol. Ao redor desse centro, existem as periferias mais próximas como é o caso da América do Sul e Central (sendo o Brasil parte dela) e as periferias mais distantes como o continente africano, a Ásia, a América do Norte e a Oceania respectivamente.

O funcionamento desse circuito faz com que muitos atletas brasileiros saiam do país rumo a Europa e que os clubes brasileiros se tornem fornecedores de pés-de-obra para esse mercado. Segundo dados do site da FIFA, o número de jogadores brasileiros que saíram do país em 2017 chegou a 806 e até o meio do ano de 2018 o dispositivo TMS já havia registrado 412 saídas de atletas para o exterior. Ainda segundo essas informações 397 tinham ido para a Europa ingressar nas ligas dos mais diversos tipos e apelos econômicos evidenciando que o mercado europeu ainda é o principal polo de migração dos jogadores brasileiros.

Fica claro que nesse mercado esportivo o Brasil ocupa papel homólogo ao seu no mercado econômico: exportador de matérias-primas. Essas matérias-primas no caso são os jogadores de futebol que servirão aos campeonatos mais valorizados. Essa exportação regular de jogadores de futebol, não se dá apenas pela discrepância entre os poderes econômicos dos clubes e o valor de suas ligas, mas também pela necessidade de muitos clubes brasileiros equacionarem dívidas e equilibrarem suas finanças. Depois das cotas de televisão e mais recentemente o valor dos patrocínios, a venda de jogadores ainda é o terceiro maior meio de obtenção de recursos financeiros como mostra o gráfico.

(Dados retirados de globoesporte)

O sucesso nas transferências se torna no futebol brasileiro condição básica para tentativa de equilíbrio das finanças dos clubes. Cabe lembrar que nesse mercado esportivo mundial, os atletas são mercadorias, ou seja, produtos e como em qualquer mercado o produto é mais valorizado à medida que engloba mais características valorizadas naquele circuito. Desse modo, No Brasil há um processo de formação calcado num número muito maior de horas e preparação porque desde pequenos esses atletas são encarados como possíveis produtos de exportação. Esse modelo brasileiro foi descrito por Damo, no seu livro “Do Dom a Profissão” como formação “à brasileira” e nele os clubes direcionam quase que exclusivamente o tempo dos atletas para as atividades físicas e internalizações de disposições futebolísticas renegando qualquer outra atividade para segundo plano.

O tempo de treino é então privilegiado e isso se reflete na alta carga horária de treinos e atividades relacionadas a prática esportiva tais como competições e deslocamentos. Estudos realizados por Melo (2010), Correia (2014) e Rocha (2017) expõem dados que mostram que o tempo semanal médio destinado ao futebol é em torno de 18 horas e 26 minutos. Esses números são referentes ao Rio de Janeiro como um todo.

O treinamento dos atletas brasileiros evidencia uma formação futebolística híbrida no Brasil, ou seja, uma formação que busca abastecer o mercado interno (produção endógena), mas que conforme conveniência do mercado privilegia sua exportação para outros países dos integrantes do mercado esportivo. Nesse cenário, os jovens brasileiros, desde muito cedo são submetidos a treinamentos diários – cinco vezes na semana – com carga horária muito semelhante àquela encontrada nos treinamentos dos atletas profissionais.

No processo de estruturação dessa jornada de treinamento, muitos atletas possuem dificuldades de construção de caminhos alternativos ao futebol, pois essa atividade demanda deles uma dedicação quase em tempo integral. Ao se dedicarem desde muito cedo a profissionalização no futebol e durante muitas horas ao dia, esses jovens acabam tendo dificultadas as chances de obtenção de outras credenciais formativas para além do esporte, como por exemplo, a escola. Diante disso, caso não consigam se profissionalizar, uma reconversão profissional para o mercado de trabalho ordinário passa a ser mais difícil e precarizada.

No Brasil a legislação para proteção dos jovens nos centros de formação foi aprovada somente no ano de 2011, com a responsabilização dos clubes sobre a formação esportiva e educacional desses atletas. Todavia não há qualquer regulamentação do Estado sobre os limites de carga horária dos treinos e sobre as estratégias de reforço na escolarização desses indivíduos. Dessa forma, a lei foi criada, mas ela pouco normatiza quais são os comportamentos necessários para os clubes respeitarem.

Diante desse cenário, os clubes tensionam os dispositivos legais e agem dentro das diversas interpretações existentes na legislação para que possam continuar exercendo suas atividades com vista a maximizar os resultados dos treinos e aumentar o valor de mercado dos seus atletas. Num cenário esportivo pautado principalmente por um viés econômico de lucro, os clubes tendem a privilegiar seus investimentos e patrimônios com a anuência das leis pouco específicas e dos legisladores pouco observadores do que acontece dentro dos centros de treinamento.

No caso do futebol a comparação do Brasil com outros países pode ajudar na compreensão das especificidades da formação dos futebolistas brasileiros e sua relação com a escola, bem como explicitar outros modelos de formação pelo mundo.

 

Referências

CORREIA, C. A. J. Entre a Profissionalização e a Escolarização: Projetos e Campo de Possibilidades em jovens atletas do Colégio Vasco da Gama. 2014. Dissertação (Mestrado em Educação) – Programa de Pós-graduação em Educação, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2014.

DAMO, A. S. Do Dom a Profissão: formação de futebolistas no Brasil e na França. São Paulo: Aderaldo e Rothschild Editora, Anpocs, 2007.

MELO, L. B. S. Formação e escolarização de jogadores de futebol do estado do Rio de Janeiro. Dissertação (Mestrado em Educação Física) – Universidade Gama Filho, Programa de Pós-Graduação em Educação Física. Rio de Janeiro, 2010.

 

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Novas dinâmicas na circulação de futebolistas brasileiros entre a Europa e o nosso país

Hoje em dia o futebol é o esporte mais popular e mais consumido de todo o planeta. Ele e suas variadas matrizes se apresentam atualmente como uma linguagem uníssona, atravessando segmentações e fronteiras. Conhecidamente marcado pelas paixões e pelas disputas identitárias, o futebol cada vez mais se torna um filão da indústria do entretenimento e… Continuar lendo Novas dinâmicas na circulação de futebolistas brasileiros entre a Europa e o nosso país

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