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A parte que nos cabe nessa pandemia

O período de 2020 certamente ficará lembrado na história como o ano das incertezas. Esse cenário, em muito, está relacionado com a pandemia do COVID-19 que redefiniu nossas formas de convivência social, de higiene com o corpo, de trabalho e de lazer.

Reconhecida no mundo desde dezembro de 2019, a doença se caracteriza por uma fácil disseminação entre as pessoas e uma dificuldade de identificação daqueles indivíduos que estão com a doença (assintomáticos). Nesse cenário, até o momento, a doença levou quase 1 milhão de pessoas a óbito no planeta todo e ultrapassou a casa dos 30 milhões de infectados. No Brasil, terceiro maior país afetado pela COVID-19, o número de óbitos está próximo de 140 mil e o de infectados é de quase 4,5 milhões de pessoas.

O desconhecimento acerca dessa nova doença (sintomas, profilaxias, tratamentos e consequências clínicas) ainda hoje representa um desafio para a comunidade cientifica e a população mundial. Como medida de combate ao novo coronavírus, uma das ações reconhecidamente eficazes para mitigação do contágio foi a implementação do distanciamento social e das medidas de lockdown (fechamento de serviços não-essenciais) com a intenção principal de diminuir a curva de infecção da doença e não sobrecarregar a estrutura hospitalar dos países.

As estratégias de distanciamento social e lockdown foram eficazes em reduzir as mortes e contágios, mas impactaram diretamente no desenvolvimento econômico dos países afetados provocando crises na cadeia de produção, retração do consumo, falências, desemprego e recessão. Essa crise causada pelo novo coronavírus também atingiu o futebol, já que esse faz parte da indústria do entretenimento, uma das mais afetadas pelas medidas de distanciamento social.

No caso do Brasil, o futebol é uma indústria que movimenta muito dinheiro. Segundo dados da consultoria Ernest Young, em 2019 o futebol gerou 53 bilhões de reais à economia nacional. Dentro desse montante, estão inseridos pagamentos de salários, patrocinadores, cotas de televisão, mão de obra indireta para realização das partidas, dentre outros. Com o advento da COVID-19 essa indústria se viu seriamente atingida pela suspensão das partidas, impossibilidade de público e o cenário de incertezas acerca das chances de retorno.

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Após quase 4 meses de interrupção dos campeonatos no Brasil, os clubes brasileiros, as federações, a CBF e a mídia esportiva começaram a debater as possibilidades de retorno do futebol. Nesse aspecto, posições antagônicas foram verificadas entre aqueles que defendiam a volta sob condições específicas de protocolos sanitários e outros que enxergavam a volta como precipitada, principalmente pelo contexto de aumento das mortes e do contágio visto nos meses de junho e julho.

Passados quase 3 meses da volta do futebol, podemos constatar que os protocolos sanitários utilizados no futebol vêm tendo relativo sucesso em mitigar o contágio entre os atletas e os funcionários que trabalham no entorno do espetáculo. Contudo, é evidente a existência de desproporcionalidades nas possibilidades de aplicação dos protocolos em face das desigualdades existentes entre clubes e federações dentro do Brasil. Além disso, os casos verificados recentemente no Flamengo, com 7 jogadores infectados no Equador, ou os 14 infectados no Boca Juniors reforçam a compreensão de que não existe protocolo 100% eficaz.

Ao entrarem em campo pelos campeonatos e realizarem deslocamentos cada vez maiores, seja pelo Brasil nos campeonatos nacionais ou pela América do Sul nos campeonatos internacionais, esses atletas estarão inevitavelmente se expondo ao risco de contaminação existente nos hotéis, estádios, aeroportos e transportes fretados.

A possibilidade de infecções e surtos entre os atletas era e ainda continua sendo um dos pontos principais do debate sobre o retorno do futebol, principalmente por aqueles que advogam que o retorno foi precipitado. Há riscos? Sim, Claro! Os casos de Flamengo, Boca Juniors, Corinthians e Atlético Goianiense nos mostram que a criação de bolhas é cada vez mais difícil.

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Diante dos riscos óbvios e da possibilidade factível de óbito, à época dos debates sobre a volta do futebol muito foi debatido sobre a necessidade de alteração dos formatos dos campeonatos. Os argumentos para mudanças versavam sobre: minimizar riscos de contágios criando uma sede única para as competições; extinção dos estaduais; e redução das rodadas dos campeonatos para que isso não inchasse ainda mais o calendário brasileiro, já tão cheio.

A grande imprensa televisiva, impressa e digital em seus debates pontuou que havia por parte dos clubes uma dose de irresponsabilidade e insensibilidade por preconizarem os campeonatos nos moldes existentes pré-pandemia. Alguns analistas até viram doses de negacionismo nos clubes e seus dirigentes. A intenção desse artigo não é defender os clubes e seus dirigentes, mas entender os motivos pelos quais não abriram mão do formato estabelecido em períodos de normalidade.

O futebol é como um produto econômico, formado por uma cadeia de agentes que produzem, distribuem e consomem um bem com vistas a obtenção de lucro. Nesse sentido, os clubes são apenas uma parte desse processo. Colocar-lhes toda a culpa é perder de vista o fenômeno como um todo, ou como remete o título, a parte que nos cabe nessa pandemia.

Uma das maiores preocupações dos clubes com a mudança de fórmulas e redução de campeonatos residia na diminuição das cotas de televisão e de patrocínio que ganhariam das emissoras e das empresas atreladas a eles. Lembremos que no Brasil, segundo dados do Itaú BBVA, os direitos de transmissão e os patrocínios representaram, em 2019, respectivamente 41% e 11% de todas as receitas produzidas pelos clubes, ou seja, mais de 50% da arrecadação bruta.  

Em campeonatos com menos rodadas, as emissoras pagariam proporcionalmente ao tamanho deles, dito isso, torneios com 19 rodadas, ao invés de 38 rodadas, renderiam aos clubes metade daquilo que estava previsto. Num efeito em cascata, os patrocinadores estampados em camisas, placas de publicidade, matchday e marketing de ativação também corrigiriam seus pagamentos proporcionalmente.

Num cenário no qual os clubes brasileiros estão afundados em dívidas e muitas das rendas futuras já estão penhoradas para pagar débitos, perder essas cotas significaria mais um duro golpe nos clubes. Ainda mais porque receitas como bilheteria (14% da arrecadação bruta) e venda de jogadores (23% da arrecadação bruta) estariam comprometidas nesse momento de pandemia. Na verdade, é possível dizer que os clubes não tiveram muita opção de escolha pelo formato. Os imperativos do mercado e a situação financeira deles não possibilitaram margem de manobra razoável para escolher.

O ponto principal é a reflexão sobre a responsabilidade que cada agente dentro desse campo deveria ter tido para que os atletas e profissionais envolvidos no espetáculo não se expusessem aos riscos de uma volta precoce e nos formatos pré-pandemia. Emissoras, empresas, patrocinadores e investidores do futebol deveriam ter pensado “qual parte me cabe nessa pandemia?”. Obviamente a pergunta seguinte a ser feita seria: O que poderia ser feito por esses agentes? Eles poderiam manter os valores a serem pagos esse ano pelos formatos antigos, mesmo implantando um novo formato de exceção. No futuro negociava-se a restituição desses valores parcelada. Poderia ter sido criado um fundo de ajuda aos clubes por parte da CBF ou criação de um sistema de empréstimos a juros baixos junto aos clubes, mas fixado as cotas de patrocínio e televisão do futuro.

Todas essas propostas são possibilidades e especulações, mas reforçadas por uma certeza: a principal conta da pandemia no futebol recaiu sobre os clubes e os atletas. Ao mesmo tempo, parte da mídia esportiva construiu uma narrativa que “vilanizou” as agremiações esportivas e seus dirigentes, sem, no entanto, refletir sobre a parte de esforço que cabia a outros agentes do futebol para proteger os atletas e os profissionais envolvidos no espetáculo. Se todos – empresas, emissoras, clubes, jogadores, investidores – tivessem socializado parte das perdas, abrindo mão de algum quinhão dos seus recursos, talvez não tivéssemos que impor aos clubes uma “escolha de Sofia” que aumenta o risco de todos ao contágio. Às emissoras caberia ultrapassar o limite do discurso de preocupação com a volta do esporte e agir ativamente para apoiar os clubes para que eles não precisassem voltar agora, e aos comentaristas debater o todo do problema e não somente uma fração dele.

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Mercado esportivo mundial e sua influência na formação de atletas brasileiros

O mercado esportivo deve ser pensado como ambiente social ou virtual propício às condições para a troca de bens, serviços e performances atléticas com vista a transformação desses em produtos econômicos (PRONI, 2000: 98). O mercado esportivo se caracteriza pela inserção de atletas profissionalizados de alto rendimento em um ambiente competitivo caracterizado por competições regulares e estáveis que cada vez mais se associam com o capital econômico para transformar o esporte em um produto de consumo e retorno financeiro para seus patrocinadores e investidores através da exposição midiática, do marketing e da publicidade.

O mercado esportivo é parte integrante de um mercado econômico global mais amplo de produção de bens e entretenimento. Por isso, o mercado esportivo é em determinadas características correlato ao mercado econômico mundial, possuindo também seus centros e suas periferias, seus fornecedores de commodities e os de produtos industrializados, bem como seus polos atrativos de mão-de-obra qualificada.

No tocante ao futebol, os países europeus como Inglaterra, Itália, Portugal, Espanha e Alemanha compõem o núcleo (centro do mercado), pois possuem os campeonatos mais valorizados, as melhores possibilidades de exposição midiática, o maior poder econômico e são o grande destino dos trabalhadores migrantes do futebol. Ao redor desse centro, existem as periferias mais próximas como é o caso da América do Sul e Central (sendo o Brasil parte dela) e as periferias mais distantes como o continente africano, a Ásia, a América do Norte e a Oceania respectivamente.

O funcionamento desse circuito faz com que muitos atletas brasileiros saiam do país rumo a Europa e que os clubes brasileiros se tornem fornecedores de pés-de-obra para esse mercado. Segundo dados do site da FIFA, o número de jogadores brasileiros que saíram do país em 2017 chegou a 806 e até o meio do ano de 2018 o dispositivo TMS já havia registrado 412 saídas de atletas para o exterior. Ainda segundo essas informações 397 tinham ido para a Europa ingressar nas ligas dos mais diversos tipos e apelos econômicos evidenciando que o mercado europeu ainda é o principal polo de migração dos jogadores brasileiros.

Fica claro que nesse mercado esportivo o Brasil ocupa papel homólogo ao seu no mercado econômico: exportador de matérias-primas. Essas matérias-primas no caso são os jogadores de futebol que servirão aos campeonatos mais valorizados. Essa exportação regular de jogadores de futebol, não se dá apenas pela discrepância entre os poderes econômicos dos clubes e o valor de suas ligas, mas também pela necessidade de muitos clubes brasileiros equacionarem dívidas e equilibrarem suas finanças. Depois das cotas de televisão e mais recentemente o valor dos patrocínios, a venda de jogadores ainda é o terceiro maior meio de obtenção de recursos financeiros como mostra o gráfico.

(Dados retirados de globoesporte)

O sucesso nas transferências se torna no futebol brasileiro condição básica para tentativa de equilíbrio das finanças dos clubes. Cabe lembrar que nesse mercado esportivo mundial, os atletas são mercadorias, ou seja, produtos e como em qualquer mercado o produto é mais valorizado à medida que engloba mais características valorizadas naquele circuito. Desse modo, No Brasil há um processo de formação calcado num número muito maior de horas e preparação porque desde pequenos esses atletas são encarados como possíveis produtos de exportação. Esse modelo brasileiro foi descrito por Damo, no seu livro “Do Dom a Profissão” como formação “à brasileira” e nele os clubes direcionam quase que exclusivamente o tempo dos atletas para as atividades físicas e internalizações de disposições futebolísticas renegando qualquer outra atividade para segundo plano.

O tempo de treino é então privilegiado e isso se reflete na alta carga horária de treinos e atividades relacionadas a prática esportiva tais como competições e deslocamentos. Estudos realizados por Melo (2010), Correia (2014) e Rocha (2017) expõem dados que mostram que o tempo semanal médio destinado ao futebol é em torno de 18 horas e 26 minutos. Esses números são referentes ao Rio de Janeiro como um todo.

O treinamento dos atletas brasileiros evidencia uma formação futebolística híbrida no Brasil, ou seja, uma formação que busca abastecer o mercado interno (produção endógena), mas que conforme conveniência do mercado privilegia sua exportação para outros países dos integrantes do mercado esportivo. Nesse cenário, os jovens brasileiros, desde muito cedo são submetidos a treinamentos diários – cinco vezes na semana – com carga horária muito semelhante àquela encontrada nos treinamentos dos atletas profissionais.

No processo de estruturação dessa jornada de treinamento, muitos atletas possuem dificuldades de construção de caminhos alternativos ao futebol, pois essa atividade demanda deles uma dedicação quase em tempo integral. Ao se dedicarem desde muito cedo a profissionalização no futebol e durante muitas horas ao dia, esses jovens acabam tendo dificultadas as chances de obtenção de outras credenciais formativas para além do esporte, como por exemplo, a escola. Diante disso, caso não consigam se profissionalizar, uma reconversão profissional para o mercado de trabalho ordinário passa a ser mais difícil e precarizada.

No Brasil a legislação para proteção dos jovens nos centros de formação foi aprovada somente no ano de 2011, com a responsabilização dos clubes sobre a formação esportiva e educacional desses atletas. Todavia não há qualquer regulamentação do Estado sobre os limites de carga horária dos treinos e sobre as estratégias de reforço na escolarização desses indivíduos. Dessa forma, a lei foi criada, mas ela pouco normatiza quais são os comportamentos necessários para os clubes respeitarem.

Diante desse cenário, os clubes tensionam os dispositivos legais e agem dentro das diversas interpretações existentes na legislação para que possam continuar exercendo suas atividades com vista a maximizar os resultados dos treinos e aumentar o valor de mercado dos seus atletas. Num cenário esportivo pautado principalmente por um viés econômico de lucro, os clubes tendem a privilegiar seus investimentos e patrimônios com a anuência das leis pouco específicas e dos legisladores pouco observadores do que acontece dentro dos centros de treinamento.

No caso do futebol a comparação do Brasil com outros países pode ajudar na compreensão das especificidades da formação dos futebolistas brasileiros e sua relação com a escola, bem como explicitar outros modelos de formação pelo mundo.

 

Referências

CORREIA, C. A. J. Entre a Profissionalização e a Escolarização: Projetos e Campo de Possibilidades em jovens atletas do Colégio Vasco da Gama. 2014. Dissertação (Mestrado em Educação) – Programa de Pós-graduação em Educação, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2014.

DAMO, A. S. Do Dom a Profissão: formação de futebolistas no Brasil e na França. São Paulo: Aderaldo e Rothschild Editora, Anpocs, 2007.

MELO, L. B. S. Formação e escolarização de jogadores de futebol do estado do Rio de Janeiro. Dissertação (Mestrado em Educação Física) – Universidade Gama Filho, Programa de Pós-Graduação em Educação Física. Rio de Janeiro, 2010.

 

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Novas dinâmicas na circulação de futebolistas brasileiros entre a Europa e o nosso país

Hoje em dia o futebol é o esporte mais popular e mais consumido de todo o planeta. Ele e suas variadas matrizes se apresentam atualmente como uma linguagem uníssona, atravessando segmentações e fronteiras. Conhecidamente marcado pelas paixões e pelas disputas identitárias, o futebol cada vez mais se torna um filão da indústria do entretenimento e… Continuar lendo Novas dinâmicas na circulação de futebolistas brasileiros entre a Europa e o nosso país

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