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Novas dinâmicas na circulação de futebolistas brasileiros entre a Europa e o nosso país

Hoje em dia o futebol é o esporte mais popular e mais consumido de todo o planeta. Ele e suas variadas matrizes se apresentam atualmente como uma linguagem uníssona, atravessando segmentações e fronteiras. Conhecidamente marcado pelas paixões e pelas disputas identitárias, o futebol cada vez mais se torna um filão da indústria do entretenimento e ponto central de inúmeros agentes econômicos que utilizam-no como instrumento para vender tudo que for possível. Dessa forma, o funcionamento do futebol encontra-se cada vez mais atrelado as dinâmicas do capitalismo e as configurações da globalização mundial.

Fonte: gabrieldantas-futebol.blogspot.com

O aumento dos fluxos de capitais, da transnacionalização das marcas/empresas, das relações de trabalho e das tecnologias de comunicação também influenciaram a (re)organização dos clubes e das ligas de futebol ao longo da segunda metade do século XX e início do século XXI.

O avanço do campo econômico sobre o campo futebolístico pode ser visto na paulatina migração desse das páginas esportivas para os cadernos de economia. Além da crescente preocupação dos analistas e cronistas em comentar aspectos financeiros e mercadológicos dos clubes, tais como balancetes e arrecadações. Diante disso, muitas vezes achamos que estamos lendo um encarte econômico com notícias sobre compra, venda, balanços de fluxo de caixa, contratos, projeções financeiras e lucros líquidos.

O futebol tornou-se uma mercadoria global interpenetrada cada vez mais pelo capitalismo neoliberal. Os investimentos do capital privado aumentaram significativamente, a partir da década de 1970, com o esforço da FIFA, através de seu presidente João Havelange (1974-1998), para potencializar a capacidade mercantil do futebol (ROCHA, 2013). Nessa nova lógica entre campo esportivo e campo econômico tornou-se cada vez mais comum a entrada de investidores privados nos clubes de futebol, principalmente na Europa e Estados Unidos, e em muito menor número na América do Sul. Os exemplos mais extremos desse processo são aqueles em que tradicionais clubes são comprados por investidores estrangeiros ou por empresas, como é o caso do Chelsea na Inglaterra ou até mesmo o Bragantino no futebol brasileiro.

A aproximação cada vez maior entre economia e futebol, permite com que as estruturas econômicas que funcionam no mercado global, passem a influenciar o funcionamento das relações dentro desse esporte. Isso pode ser visto no aparecimento de “clubes-globais”, que assim como as cidades-globais, são aquelas extrapolam suas fronteiras enquanto cidades, regiões e até mesmo países.

Fonte: gazetaesportiva

Os clubes-globais são nódulos de fluxos econômicos, humanos, midiáticos e simbólicos globais. São clubes que tem torcedores espalhados pelo planeta, jogadores provenientes de diferentes lugares do mundo, que estão presentes na mídia em diferentes países, que concentram capital que circula globalmente, que atingem a imaginação de uma população planetária. Dentro desta lógica que podemos entender a transformação de alguns grandes clubes do mundo em “marcas globais”.

A nova lógica do futebol, marcada pelo aprofundamento da sua mercantilização aumentou enormemente a circulação dos jogadores entre os clubes, e fez com que estruturas do campo econômico fossem apropriadas no campo futebolístico, tais como as relações entre centro e periferia na divisão internacional do trabalho (DIT). Dessa forma, a periferia do mercado capitalista global, localizada principalmente nos países do hemisfério Sul e produtora basicamente de commodities para os países centrais do hemisfério norte, também se vê presente nas relações comerciais do futebol internacional.

Nessa relação centro-periferia do futebol, os países europeus com destaque para Inglaterra, Espanha, França, Alemanha, Itália e Portugal seriam o centro, ou seja, donos das principais ligas do mundo, com maior poder aquisitivo e visibilidade, tendo a necessidade de obter boa matéria-prima para manutenção dos seus campeonatos. Em compensação, à periferia, marcada principalmente pelos países latino-americanos e pelos países africanos caberia o fornecimento de boas matérias-primas de jogadores para abastecer as melhores ligas. Temos, então no Brasil, a formação de um exército de jogadores (“pés-de-obra”) voltados para abastecer as ligas da Europa, fazendo com que os clubes passem a atuar numa lógica próxima a de empresas capitalistas. Como consequência desse processo temos o surgimento de clubes cujo objetivo central é o lucro econômico, auferido com a venda de jogadores, e não as vitórias em campeonatos.

A transferência de jogadores brasileiros para o exterior, no entanto, não surgiu apenas com o aprofundamento da mercantilização do futebol. Durante todo desenvolvimento desse esporte no Brasil, ocorreu a migração de atletas para outros países. Autores como Rial (2009), Agostino (2002), Alvito (2006) e Damo (2007) evidenciam desde 1920 a saída de atletas brasileiros para países como Itália, Espanha, Argentina e Uruguai. Vários motivos são listados para essa saída, entre os quais podemos citar: A possibilidade de auferir ganhos financeiros como o futebol diante de novos mercados nos quais o futebol já era profissionalizado. Além disso, as relações de descendência de alguns jogadores brasileiros com a Itália e a Espanha também facilitavam essa migração.

Os autores também evidenciaram que apesar de casos emblemáticos como a ida de Domingos da Guia, Fausto e Zizinho para outros mercadores do futebol, o período entre 1920 e 1960 não mostrou uma saída massiva de atletas do futebol do país. Esse êxodo de brasileiros começa a ocorrer principalmente a partir da década de 1980, quando as principais ligas nacionais na Europa, iniciam uma reestruturação e profissionalização, a reboque das mudanças produzidas por João Havelange na FIFA a partir década de 1970.

Com campeonatos mais organizados, maiores patrocínios e melhores salários, o que se verifica é a saída em massa de atletas do Brasil para a Europa. Ainda mais se lembrarmos que durante a década de 1980, o futebol brasileiro se encontrava numa grave crise de organização, investimentos e gestão, que culminaria com a ameaça de não realização do campeonato nacional de 1987 (HELAL, 1997).

Fonte: telam.com.ar

Entre as décadas de 1980, 1990 e os anos 2000, o número de jogadores profissionais que saíram do país rumos aos mais diversos mercados internacionais ultrapassou a marca de 15 mil indivíduos, sendo que desde 1998 até o ano de 2018, esse número mantinha-se crescente de um ano para o outro (ALVITO 2006; FIFA; 2018). Entre os principais destinos de brasileiros para o exterior temos a liga portuguesa em primeiro lugar, seguida da liga Ucraniana, e depois as ligas italiana e espanhola.

Cabe ressaltar que a lei Bosman de 1995 ajudou no aumento das transferências de brasileiros para o exterior, especificamente a Europa, pois permitiu a absorção de uma demanda reprimida por atletas de fora da Europa. Através dessa lei, todo jogador de futebol nascido na Europa dentro das fronteiras da União Europeia passou a ser considerados trabalhador comunitário. Isso fez com que esses indivíduos não fossem mais considerados aos olhos das federações nacionais como estrangeiros. Dessa forma, as vagas para extracomunitários puderam ser ocupadas com outros atletas provenientes principalmente da América do Sul e da África.

Dentro desse universo de aumento da saída de jogadores durante as décadas de 1980 e 1990, podemos perceber que aquelas que movimentavam mais dinheiro e chamavam mais atenção da mídia nacional e internacional eram daqueles jogadores considerados consagrados no futebol brasileiro. Nesse esteio temos a saída de Zico para Udinese, Leovegildo Júnior para o Pescara, Falcão para a Roma e tantos outros na década de 1980, assim como as saídas de Edmundo para a Fiorentina, de Romário e Ronaldo Fenômeno para o PSV da Holanda na década de 1990.

As saídas de jogadores brasileiros nessas duas décadas possuem algumas características em comum, como, por exemplo, a idade normalmente entre 20 e 26 anos de idade, a projeção que esses atletas possuíam no cenário nacional e os valores pagos para adquiri-los, normalmente muito mais baixos do que os atuais, mesmo descontando a inflação. Segundo dados da FIFA sobre as transferências de jogadores nas décadas de 1980 e 1990, a média de idade dos atletas que saiam do país era de 25,4 anos de idade (FIFA, 2007).

A dinâmica de transferências de atletas nessas duas décadas parece se basear principalmente na qualidade enxergada pelos clubes, especificamente os europeus sobre a técnica e a habilidade dos jogadores, sendo a idade um elemento secundário. Diante disso, entre a crônica esportiva dos anos 1990 e 2000, verificou-se que o futebol brasileiro perdia substancialmente seus melhores atletas para o futebol europeu e esses jogadores muitas vezes regressavam apenas em idade mais avançada, após os 30 anos para encerrarem suas carreiras no Brasil.

O funcionamento do mercado de pés-de-obra, no entanto, vem demonstrando uma significativa mudança nos padrões de transferências e no desejo dos grandes clubes europeus pelos atletas brasileiros, a saber, a contratação de jogadores cada vez mais jovens e por cifras cada vez maiores. As saídas recentes de Reinier, Vinícius Júnior, Lucas Paquetá, Bruno Guimarães, Paulinho, Arthur refletem uma tendência que a própria FIFA já vem identificando no mercado de transferências entre Brasil e Europa, que é a saída cada vez maior de atletas com menos de 20 anos de idade. Segundo dados da entidade máxima do futebol, entre 2011 e 2017 a média de idade dos jogadores de futebol que saíram do Brasil foi de 22,8 anos de idade. Quando comparamos essa média com aquela existente entre as décadas de 1980 e 1990, podemos verificar uma queda de quase 3 anos de idade.

A diminuição da média de idade dos atletas que saem do país, evidencia também uma outra tendência pontuada pelo aumento do número de atletas com menos de 20 anos que saíram do país. Segundo os dados da FIFA o número de saídas nessa situação teve um aumento de 192%, pulando de 151 em 2011 para 290 em 2017 (FIFA, 2018). Diante desse fato, percebe-se que o monitoramento dos principais clubes europeus passou a ser prioritariamente nas categorias de base e criando um cenário no qual os principais talentos vão direto para o exterior ou, na melhor das hipóteses, jogam poucos jogos nos seus clubes brasileiros antes de se transferirem.

 

Fonte: df.superesportes.com.br

Entre os principais argumentos utilizados pelos clubes europeus para a compra de jogadores cada vez mais jovens, está a preocupação com a finalização da formação desses atletas na Europa e segundo a filosofia de futebol desses clubes nos quais são contratados. Além disso, em alguns casos é citada a formação tática deficiente realizada em geral pelos clubes brasileiros nas suas categorias de base.

A preferência dos clubes europeus por um nicho cada vez mais jovem de atletas e o cenário de antecipação etária da venda de jogadores brasileiros traz à tona uma nova realidade no futebol nacional caracterizada pelos “veteranos de 24 anos”. Esses atletas, apesar de ainda terem de pouca idade, já não são vistos como atraentes para os grandes clubes europeus. Nessa nova dinâmica do mercado de transferências, a despeito de temporadas eloquentes no futebol brasileiro, não lhes resta muitas alternativas que não sejam a permanência no futebol nacional, ou a ida para mercados alternativos como o asiático, o oriente médio ou clubes periféricos da Europa.

Atualmente 4 casos que exemplificam bem esse cenário são aqueles dos jogadores Dudu do Palmeiras, Everton “Cebolinha” do Grêmio e de Gabriel Barbosa e Bruno Henrique do Flamengo. Esses atletas mesmo com temporadas contundentes nos últimos 3 anos, não receberam propostas dos principais clubes do futebol Europeu. Um dado que os une é o fato de todos possuem entre 23 e 29 anos de idade.

A nova configuração do mercado, com a escolha dos grandes clubes europeus pela compra dos jogadores ainda nas categorias de base das equipes brasileiras suscita debates sobre a dificuldades de manter os jovens talentos no Brasil, com um plano de carreira esportiva atraente e a possibilidade de jogar campeonatos de alto nível durante o ano inteiro. Esse cenário também externa uma preocupação com a identificação cada vez menor que esses jogadores mantem com seus clubes formadores e que a torcida mantém com eles. No entanto, o interesse europeu pelos atletas menores de 20 anos e, consequentemente, sua saída mais precoce para o exterior também vem criando um cenário novo no Brasil, pontuado pela permanência de atletas de alto nível, que sem ofertas atrativas do mercado europeu preferiram continuar no país. A esses casos se juntam aqueles, nos quais jovens promessas foram para o velho continente muito cedo, mas sem corresponder as expectativas acabaram voltando ao Brasil com idade inferior aos 25 anos e com performances boas ao longo das temporadas, como é o caso do jogador Gabriel Barbosa, Gerson, entre outros.

A nova realidade no mercado de transferências foi compreendida por alguns clubes brasileiros que passaram a priorizar investimentos nas categorias de base e a vender suas jovens promessas cada vez mais cedo e por valores vultuosos ao mesmo tempo em que procuram repatriar jogadores brasileiros com idades inferiores a 30 anos de idade. Se durante as décadas de 1980, 1990 e 2000, esses clubes vendiam para a Europa principalmente seus jogadores de destaque ainda na faixa dos 26 anos para contratar brasileiros veteranos que vinham encerrar suas carreiras no Brasil, hoje a dinâmica não é mais primordialmente essa conforme mostram os dados de transferências da FIFA (2018).

A partir dessas observações podemos compreender que as demandas do mercado europeu por jogadores brasileiros mudaram das décadas de 1980, 1990 e 2000, quando comparadas com os números posteriores a 2010. Nesse processo, alguns clubes brasileiros entenderam o novo funcionamento do mercado e procuraram se adaptar a nova realidade, vendendo seus atletas mais jovens e buscando novos jogadores brasileiros na Europa com idades inferiores a 30 anos de idade. Como consequência, podemos verificar a também uma mudança no perfil dos jogadores que regressam do exterior.

Referências:

AGOSTINO, Gilberto. Vencer ou morrer: futebol, geopolítica e identidade nacional. Rio de Janeiro: Mauad, 2002.

ALVITO, M. A parte que te cabe neste latifúndio: o futebol brasileiro e a globalização, IN:Revista do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, v. 41, p.451-474, 2006.

DAMO, Arlei Sander. Do dom à profissão: a formação de futebolistas no Brasil e na França. São Paulo: Aderaldo&Rithschild Ed./Anpocs, 2007.

FIFA. Market Insights: Brasil protagonista del mercado de fichajesinternacionales. Julio de 2018. Disponível em: http://financefootball.com/2018/08/01/fifa-tms-market-insights-big-5-mid-summer-report/

FIFA. Transfers of athletes in the 1980s and 1990 to Europe. 2007 Disponível em: https://resources.fifa.com/image/upload/global-transfer-market-report-1980-1990 men.pdf.

HELAL, R. Passes e Impasses: futebol e cultura de massa no Brasil. Rio de Janeiro: Vozes, 1997.

RIAL, C. S. “Por que todos os ‘rebeldes’ falam português?” A circulação de jogadores brasileiros/sul-americanos na Europa, ontem e hoje. Antropologia em Primeira Mão, Florianópolis, n. 110, 2009.

ROCHA, L.G.B.S.P. No coração de Havelange: Memória, biografia e narrativa simbólica de um livro sobre o maior dirigente de futebol do século XX. Esporte e Sociedade. Niterói, n 21, p.1-33,2013.

 

 

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