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Vamos falar mesmo sobre uma efetiva democratização do futebol?

A campanha de clubes brasileiros para que o mandante da partida seja o único possuidor do direito de arena vem sendo marcada por reuniões com o presidente da República, mas também por tuitaços e campanhas conjuntas nas mídias sociais. Dentre elas, em 19 de agosto, uma faixa foi colocada nas arquibancadas da Arena da Baixada informando que Athletico e Palmeiras, que se enfrentavam no gramado, estavam juntos pela “lei do mandante” e pela “democratização do futebol”. Na hora me veio à mente: será que entendem o mesmo que eu sobre democracia no futebol?

Desde a promulgação da Medida Provisória 984, em 18 de junho, que venho falando muito sobre os direitos de transmissão do futebol brasileiro, tema de pesquisa já há 10 anos, quando formulei o projeto para o mestrado, e que teve como resultado, além da dissertação, o livro “Os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro de Futebol” (Appris, 2019).

Print do canal de Youtue do Esporte Interativo

Publicada após uma reunião do presidente do Flamengo, Rodolfo Landim, com o atual presidente da República, a MP criou imbróglios jurídicos, com liminares para diferentes partes mudando em cima da hora a transmissão de partidas, mas tem apoio da maior parte dos clubes das Séries A e B do Campeonato Brasileiro de Futebol (35 em 40) para ser transformada em lei no Congresso Nacional.

Os manifestos dos clubes, fossem os das Séries A e B ou da Liga do Nordeste usam “democratização da transmissão do futebol”, mas, numa rápida busca, além da faixa da Arena da Baixada, pelo menos Flamengo, Bahia e Athletico utilizaram “democratização do futebol”. Temos neste recorte três modelos distintos de democracia interna e de como a democracia, de forma geral, é entendida.

Deles, o Bahia vem desde 2013 num processo de maior participação torcedora e tem sua atual gestão muito bem marcada pelas suas ações sociais, com destaque para a criação do Núcleo de Ações Afirmativas – escrevi sobre a #BahiaClubedoPovo em artigo científico publicado no ano passado (SANTOS, 2019).

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Já os rubro-negros carioca e paranaense não são modelos de participação torcedora nas suas instâncias internas e suas diretorias atuais não escondem o apoio ao atual grupo político no poder presidencial, assumidamente de extrema-direita.

Não me aprofundarei nas especificidades, mas para conhecimento do quão parece ser contraditória a frase no Athletico, veja artigo de André Pugliese na Gazeta do Povo, publicado no dia seguinte à partida contra o Palmeiras.

Pugliesi não se aprofunda no mérito da MP 984, que até considera “que não há nada de errado na campanha athleticana”, mas questiona: “se virá uma nova política, de ingressos populares em setores ociosos e planos variados de associação. Ou ‘democratização do futebol’ é só no bolso dos outros?”.

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Elementos democráticos

Ampliar o acesso da torcida a uma forma de entretenimento marcada por relações de afeto e sentimento de comunidade, caso do futebol, é algo fundamental para a sociedade. Trabalho na tese, em andamento, com o conceito de “conteúdos de interesse social” como proposta básica para garantir que algumas partidas de futebol possam ter a garantia de acesso amplo e gratuito, seguindo o que países como Argentina, Uruguai e México colocaram em mudanças de leis sobre os meios de comunicação neste século.

Assim, independentemente da minha avaliação pessimista sobre o que consta neste momento no Art. 42 da Lei Pelé, com as modificações da MP 984, não posso ser contrário a um entendimento que destaque a importância da ampliação do acesso aos jogos transmitidos por uma plataforma audiovisual.

Entretanto, isso pode significar apenas “democratização das transmissões esportivas”. E, mesmo assim, é preciso considerar algo que os próprios clubes destacaram numa série “fato e fake” nas mídias sociais – com alguns problemas, começando pela linguagem que faz tratar divergências como “fake” (news): “cabe a TV decidir”. A Turner, por exemplo, decidiu não exibir em TV fechada Fortaleza X Athletico na primeira rodada da Série A deste ano por “escolha da programadora”, que preferia transmitir Palmeiras X Vasco – utilizando-se de uma interpretação da MP, mas que acabou não ocorrendo porque o jogo foi adiado.

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Além disso, como bem aponta Pugliese (2020) sobre o Athletico, quando for possível frequentar estádios de futebol é preciso saber se teremos ingressos com valor que possibilite que diferentes pessoas possam entrar nos estádios ou se seguiremos com a lógica arenizada de públicos que precisam pagar caro para apoiar seu time. Fora outro limite que está se espalhando: presença da torcida visitante.

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É importante sempre lembrar que:

O “público família” mais pobre não está contemplado no novo projeto de futebol que abrange as arenas multiuso, apesar de terem sido poucos os momentos históricos que ele esteve. Os torcedores mais pobres sempre foram obrigados a se amontoar em espaços ditos “populares”, ainda que pouco tenham se queixado. Agora, como ocorreu na Europa, parece estar sendo encaminhando à intermediação de um meio de comunicação. A maior presença do broadcasting nas receitas dos clubes tende a aumentar com mais possibilidades de transmissão do audiovisual – caso dos aparelhos móveis (A. SANTOS; I. SANTOS, 2019, p. 35).

Da mesma forma, é preciso saber se a liberdade de se expressar dentro do estádio será permitida ou o Estatuto de Defesa do Torcedor seguirá sendo usado contra nós, torcedoras e torcedores, quando queremos torcer com instrumentos musicais e bandeiras ou quando nos vemos no direito de protestar contra organizadoras de torneios – para não falar contra decisões de agentes do Estado que interferem diretamente nas nossas vidas.

Ampliar a possibilidade de acesso também nas instâncias decisórias dos clubes é tão importante quanto, refletindo ainda em melhoria nas relações de transparência para a torcida de tudo o que ocorre, com processos político-eleitorais mais amplos. Além de permitir que a “comunidade” seja mais do que um sentimento, abrindo mais os espaços do clube para a presença da torcida, não só o estádio.

Isso que ainda não pretendemos prolongar esse texto para questionar as perspectivas gerais sobre democracia, pensando na reversão de relações de exploração e de subalternização de classes sociais, o que, no meu entender, também envolve o devido posicionamento pelos agentes do futebol, considerando este esporte de “interesse social”, como disse mais acima.

Esqueci de algum outro elemento? Coloca aqui nos comentários. O Brasil atual nos mostra o quanto é importante ponderar sobre esses diferentes modelos democráticos que anunciam.

Referências Bibliográficas

PUGLIESI, A. O Athletico, clube mais elitista do país, fala agora em “democratização do futebol”. Gazeta do Povo, Curitiba, 19 ago. 2020. Disponível em: <https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/andre-pugliesi/athletico-lei-do-mandante-democratizacao-do-futebol-elitista/&gt;. Acesso em: 01 set. 2020.

SANTOS, A. D. G. dos. #BahiaClubedoPovo: A diversidade em campanhas de um time de futebol brasileiro. Dispositiva, v. 8, p. 100-117, 2019.

SANTOS, A.D. G. dos. Os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro de Futebol. Curitiba: Appris, 2019.

SANTOS, A. D. G.; SANTOS, I. S. da C. História do espectador dos jogos de futebol no Brasil: da elitização amadora às novas formas de exclusão das Arenas Multiuso. In: SANTOS, V.; MOTTA, J. S. M.; MARTINS, B. T. de S. (Org.). XIII Seminário OBSCOM/CEPOS e I Fórum Regional ALAIC Cone Sul: Compilação de trabalhos apresentados. São Cristóvão; São Paulo: OBSCOM/CEPOS/ALAIC, 2015. p. 28-41.

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A estruturação do futebol mostrada em The English Game

Com a necessária parada do entretenimento ao vivo, o consumo de jogos antigos, mas também de séries e filmes sobre futebol nos ajudam a dirimir um pouco da saudade das partidas. Aqui, tratarei de The English Game, série da Netflix lançada este ano, do ponto de vista de alguns conceitos adaptados dos estudos de Crítica à Economia Política.

Fonte: Netflix

Aviso de antemão que neste texto eu não irei avaliar a série do ponto de vista cinematográfico (roteiro, fotografia etc.), nem verificar os problemas de representação histórica. Para ambos objetivos, sugiro que acompanhe a live do podcast Na Bancada que tratou muito bem dessas questões.

Em 2014, publiquei o artigo “Os três pontos de entrada da Economia Política no futebol” (SANTOS, 2014), em que adapto “os pontos de entrada da Economia Política” apontados por Mosco (2009) – mercantilização/comodificação, espacialização e estruturação –, enquanto categorias conceituais para análise do futebol profissional ao longo do tempo, entendendo aí as transformações histórico-dialéticas, logo, na perspectiva da totalidade social, para estudar esse esporte.

Fonte: Cena da série The English Game.

“Deixamos o jogo civilizado”

Até pelo período histórico recortado na série, final do século XIX, aqui nos interessará especificamente a estruturação – ainda que a mercantilização também começasse a se fazer presente. Sobre ela, Mosco (2009, p. 311) afirma que:

Especificamente, a estruturação equilibra a tendência na análise político-econômica ao apresentar as estruturas, normalmente as instituições empresariais e governamentais, estudando e incorporando as ideias de ação, de relações sociais, do processo social e da prática social. Ao mesmo tempo, […] rechaça como extrema a ideia de que se pode analisar a ação em ausência de estruturas. Isto se explica porque a estrutura proporciona o meio a partir do qual a ação atua.

A partir disso, eu inicio o artigo apontando a importância de estruturas formais para normatizar o futebol da maneira que temos até hoje, com destaque para as escolas no momento da diferenciação entre as práticas, que definem valores liberais básicos, com a competitividade sendo limitada pelo conjunto de regras, o que diminuiria a violência, mas também geraria algum nível de igualdade na disputa.

Mascarenhas (2014, p. 68) indica que em diversas regiões do mundo a prática ruidosa de uma partida deixou de ser vista como distúrbio apenas “adicionando ao jogo um conjunto de sentidos e significados nobres, trabalho cultural realizado por bacharéis, educadores laicos e missionários”.

The English Game trata, de forma romantizada, de 1879 ao início da década seguinte, com a transição da exclusividade da prática do jogo pelas pessoas de elite para trabalhadores, contando já ali com times de operários das fábricas inglesas, com os primeiros jogadores sendo “contratados”, mas apenas para jogar nos clubes, que assim podiam concorrer com os aristocráticos. A cada nova FA Cup aproximam-se do título, o que gera revolta nos controladores e participantes do jogo, que buscam usar o seu poder como barreira de atuação de outros jogadores e clubes.

Ainda que apareça de forma clara nas discussões sobre os problemas referentes à participação de determinados clubes, esse modelo de decisão é o que será aplicado na formação das entidades em caráter internacional. Assim, “por mais que a habilidade e a técnica estejam com os jogadores, o ordenamento da lei e a organização institucional e corporativa convergem numa grande entidade paraestatal” (SANTOS, 2014, p. 564), que no caso do filme é a FA (Football Association).

Fonte: Cena da série The English Game

“Mas também precisam do futebol”

Mesmo com a possibilidade da participação de operários jogando ou, como ocorre com Fergie, enquanto trabalhadores, logo podendo negociar a sua força de trabalho para um patrão, este segue detendo a posse dos meios de produção necessários para que a prática profissional ocorra.

Na série, vemos greves e outras formas de manifestação da classe operária e também o papel do futebol como forma de diversão, mas cuja gestão estrutural era garantida financeiramente pelos patrões.. Mascarenhas (2014, p. 91) afirma sobre isso que os capitalistas estavam preocupados com o movimento sindical do período, assim, “o trabalhador vestindo a camisa da empresa para jogar futebol significaria, muito mais que fazer sua propaganda, assumi-la como ‘sua’ instituição, um grau inequívoco de pertencimento”. Isso faz com que não seja estranho que alguns clubes tenham surgido a partir da gerência industrial, que tornava ainda eficiente certa “‘pedagogia da fábrica’: trabalho em equipe, obediência às regras, especialização nas tarefas, submissão ao cronômetro etc.” (idem, p. 91).

A estrutura de classes se estabelece naquele momento, com a elite político-econômica de dada localidade deixando aos poucos a atuação nos gramados para passar ao comando gerencial do futebol, caminhando já ali para uma prática lucrativa. Enquanto isso, cabia às classes populares o acesso ao jogo enquanto trabalhador ou, quando consegue pagar a entrada, como assistente. Nesse processo é que aparece a construção dos espaços de hegemonia. Como afirma Bolaño (1999, p. 53), “há um processo de edificação de uma ordem esportiva que, partindo do mundo da vida, sobrepõe-se a ele e o coloniza”.

Importante ainda dialogar com Mascarenhas quando ele faz uma relação direta com a organização taylorista do trabalho, que também passa a ocorrer nas fábricas naquele momento histórico. O saudoso pesquisador brasileiro salienta a especialização individual que passa a ser necessária para quem atuará profissionalmente no esporte: “Um jogador de futebol assume determinadas funções relacionadas à sua posição no time e no campo de jogo, e deve nela se especializar, tal qual o operário numa linha de montagem” (MASCARENHAS, 2014, p. 91).

***

Dado o limite da proposta deste espaço, pararemos por aqui. Vejam que não só não me aprofundei nas claras questões sobre a mercantilização, mas também não avancei na espacialização do jogo e como determinados aspectos estruturais hão de se repetir em outros países, como o Brasil. Creio que as referências específicas sobre futebol aqui utilizadas podem jogar luz sobre outras questões, da mesma forma que a série vem instigando outras reflexões para os estudos sobre o futebol.

Referências

BOLAÑO, C. R. S. A capoeira e as artes marciais orientais. Candeeiro, Aracaju, v. 3, p. 51-56, out. 1999.

MASCARENHAS, G. Entradas e bandeiras: a conquista do Brasil pelo futebol. Rio de Janeiro: Eduerj, 2014.

MOSCO, V. La Economía Política de la Comunicación. Barcelona: Bosch, 2009.

SANTOS, A. D. G. dos. Os três pontos de entrada da Economia Política no Futebol. Revista Brasileira de Ciências do Esporte, v. 36, n. 2, p. 561-575, abr.-jun. 2014.

THE ENGLISH Game. Direção: Birgitte Stærmose e Tim Fywell. Produção: Jorge Ramos de Andrade. Londres: Netflix, 2020. Streaming (série com 6 episódios).

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