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Anotações sobre a transmissão dos Jogos Paralímpicos Tóquio 2020

Os Jogos Paralímpicos de Tóquio 2020 foram realizados de 24 de agosto a 5 de setembro de 2021. Em meio à melhor campanha brasileira, com mais ouros (22) e que igualou o total de medalhas (72) e a melhor classificação (7º), pretendo aqui trazer algumas observações da minha experiência enquanto espectador desta Paralimpíada de Verão.

Falha minha, apesar de lembrar de atletas paralímpicos de diferentes momentos, desde Adria Santos (atletismo) e Clodoaldo Silva (natação) a Daniel Dias (natação) e Petrúcio Ferreira (atletismo), além do histórico da multicampeã seleção do Futebol de 5, nunca tinha acompanhado os Jogos Paralímpicos com o mínimo de atenção que dou às Olimpíadas de Verão.

Neste ano mesmo, minha ideia era seguir acompanhando como em edições anteriores, ou seja, lendo e vendo notícias e reportagens audiovisuais. Até por estar na reta final da escrita da tese, após a imersão numa edição olímpica com competições do final da noite ao início da manhã, optei por sair das mídias sociais para focar no trabalho docente na universidade, em momento final de semestre letivo, e na pesquisa.

Mas bastou uma noite no terceiro ou quarto dia das Paralimpíadas para mudar de ideia. Ia assistir a um filme, mas acabei colocando no SporTV2 e estava passando as competições de atletismo, com comentários da Verônica Hipólito. Dali em diante, virei espectador quase tão assíduo quanto fui nos Jogos Olímpicos. Não avancei tanto nas madrugadas, com exceção dos jogos finais do Futebol de 5, mas também as opções de canais sobre isso não eram tão amplas.

Assim, com esse contexto, a escolha por “anotações” no título é para tratar aqui de coisas que me chamaram a atenção enquanto pesquisador, mas que, dado o fato de não ter sido meu objeto de estudo anterior, não seria honesto da minha parte usar referências e deixar reflexões formadas adequadamente.

Quem transmitiu?

Há um comentário em comum ao se avaliar a supremacia do futebol para o interesse popular e da cobertura esportiva no Brasil: o esporte do país é o futebol, o segundo é o que tiver brasileira ou brasileiro ganhando. Ainda que por pesquisas de torcida já dê para pensar até na primeira frase, o caso da Paralimpíada é interessante porque há muitas vitórias brasileiras, logo, era para haver muita vontade em transmitir.

Entretanto, entre o final do encerramento dos Jogos Olímpicos e a abertura dos Paralímpicos, havia uma dúvida sobre quem iria transmitir. Na semana de iniciar, confirmou-se que a TV Brasil (da Empresa Brasil de Comunicação, público-estatal) e o SporTV, normalmente no segundo canal, iriam exibir a competição. Além deles, o site internacional do evento também fazia a exibição com acesso gratuito.

A novidade da edição no Brasil, ao menos do que eu lembro das anteriores, foi um boletim noturno diário e a transmissão dos jogos eliminatórios do Futebol de 5 sendo transmitidos pela Rede Globo. Aposta, por sinal, tranquila: era futebol e que ganhou todas as edições paralímpicas sem perder um jogo sequer!

Fonte: Perfil da CPB no Twitter

Detalhes sobre a transmissão

Aproveitei a (cara) assinatura do pacote TV fechada + internet para assistir pelo SporTV 2. A opção do Grupo Globo foi por ter narradores mais novos, casos de Luiz Felipe Prota, Natália Lara e Sergio Arenillas. Nos comentários, atletas ou ex-atletas paralímpicos, com destaque (e afeto) para a dupla Verônica Hipólito (atletismo) e Clodoaldo Silva (natação).

Em todas as situações houve uma preocupação em seguir um jornalismo anticapacitista[1], que não seguissem, por um lado, o senso comum das histórias de superação, ainda que a “jornada de herói/heroína” façam parte da cobertura esportiva; e, por outro, de entender que o público contava com Pessoas com Deficiência (PcD), o que gerava momentos de audiodescrição e a preocupação em explicar bem quais os motivos de categorias para provas semelhantes, com correções quando necessário.

Confesso ainda que só tentei ver a TV Brasil no dia 4 de setembro, durante a final do Futebol de 5. Pareceu-me que a imagem tinha qualidade inferior do SporTV2, como se o sinal fosse reproduzido do site dos Jogos. Voltei ao canal horas depois, quando havia a exibição de outros eventos das Paralimpíadas, e a impressão foi a mesma.

Mas a transmissão do SporTV2 também teve suas limitações. Em alguns momentos, especialmente no atletismo, as provas de “campo” eram apresentadas como se fossem ao vivo, inclusive ficava o “ao vivo” na tela. Como eu estava acompanhando em paralelo no minuto a minuto do Ge.globo, sabia que determinado arremesso já havia sido realizado e, até, que a competição tinha terminado com certo resultado.

Nesse caso, o problema ainda é da geradora do sinal. O Comitê Paralímpico Internacional (CPI) não tem a mesma capacidade do seu referente olímpico para produzir e enviar ao vivo as imagens de todas as competições ao mesmo tempo. Mesmo no caso do atletismo, o sinal era apenas para uma prova por vez. Tendo competição na pista, prioridade, saia-se do campo.

Esse problema ficou ainda mais claro em competições em que só foram liberados posteriormente os vídeos, caso da canoagem, e trechos da bocha. Em alguns esportes, como o taekwondo, só havia foto ou vídeo do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) postados nos perfis das mídias sociais, que eram utilizados na transmissão do SporTV2 – e nas reportagens da Rede Globo.

Fonte: Site dos Jogos Paralímpicos

Na expectativa da 73ª medalha brasileira, entrei no site do CPI antes de dormir no dia 4 de setembro para saber o resultado da semifinal do badminton, com Vitor Tavares. Mas não havia transmissão, tive que acompanhar pelo minuto a minuto do Ge.globo, que também não tinha muita possibilidade de atualização, e então tive que esperar acabar o jogo para saber do resultado

Por curiosidade, fui ver o perfil do CPB no Twitter[2]. No dia 4, a programação de atuação de atletas brasileiras e brasileiros contava com a “transmissão”, mas sinalizando apenas Rede Globo e SporTV 2 ou espaços vagos. Voltando alguns dias no perfil, havia programação com indicações e dias que não havia.

Aguardemos que o aumento do interesse a cada edição dos Jogos Paralímpicos amplie as formas de transmissão daqui a três anos em Paris.


[1] Ainda que eu tenha prometido não colocar referências, Silva (2021) tratou disso num texto do Ludopédio, vale a leitura. Disponível em: https://ludopedio.org.br/arquibancada/paralimpiadas-de-toquio-e-a-caminhada-por-um-jornalismo-inclusivo/. Acesso em: 21 set. 2021.

[2] Disponível em: twitter.com/cpboficial. Acesso em: 21 set. 2021.

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As limitações da cobertura esportiva da Globo em campeonatos não transmitidos

No início deste mês, escrevi para a coluna da ReNEme (Rede Nordestina de Estudos em Mídia e Esporte) no Ludopédio sobre o fato de o Fantástico não ter dado a música para o atacante Gilberto, do Bahia, após ter feito 4 gols contra o Altos, em partida válida pela Copa do Nordeste.

Naquele texto optei por focar nas opções de transmissão da Liga do Nordeste para o torneio regional nos últimos anos, que não passava pela Globo. Neste, tratarei exclusivamente da cobertura esportiva do conglomerado comunicacional.

Fonte: Perfil da Copa do Nordeste no Instagram

Critérios de noticiabilidade

Quando se fala em “critérios de noticiabilidade” ao estudar ao que leva à transformação de determinado fato em acontecimento jornalístico, logo, sob mediação de profissionais, sintetizamos que não é notícia se “um cachorro morde um homem”, por ser algo corriqueiro. Apenas será se fugir do que deveria ser natural, ou seja, “quando um homem morde um cachorro”.

Mas também é necessário lembrar que, mesmo na segunda possibilidade, depende de quem era o homem, quem era o dono do cachorro e qual o local em que ocorreu. Dependendo ainda do nível de poder das pessoas envolvidas, até mesmo o como e o porquê podem ter versões a se apresentarem de formas diferentes – se é que só isso não baste para que o fato não se torne notícia.

A discussão sobre o entretenimento na cobertura esportiva é bastante realizada, mas é necessário destacar que as opções editoriais do jornalismo (esportivo) também passam por questões político-econômicas, com maior ou menor efeito no que é difundido.

Fonte: O Planeta TV – A Globo foi patrocinadora dos Jogos Rio 2016

Os negócios na transmissão de eventos esportivos

O século XXI é o que consolida no Brasil os efeitos da liderança do Grupo Globo na transmissão de eventos esportivos muitas vezes de forma isolada na TV aberta, gratuita, ou em plataformas midiáticas sob pagamento (Sportv e Premiere).

A forma incisiva de atuar no mercado ficou marcada especialmente no Campeonato Brasileiro da Série A. Além da construção das barreiras para transmiti-lo, a possibilidade de concorrência via licitação a partir do torneio de 2012 abriu espaço para um modelo de negociação individual, acabando com a “União dos Grandes Clubes do Brasil”, o Clube dos 13 – ver mais em Santos (2019).

Este processo não ocorreu sem estratégias de concorrentes para trazer para si o potencial de audiência deste tipo de programa. A Record tentou enfrentar a líder de mercado e, se não conseguiu sucesso com torneios de futebol importantes no final da década de 2000, adquiriu exclusividade para transmissão de Jogos Pan-Americanos e Jogos Olímpicos.

Anos mais tarde, o então Esporte Interativo, atual TNT Sports, conseguiu fechar contrato com alguns clubes para transmissão de jogos da Série A, em TV fechada, a partir da edição de 2019. Isso gerou alguns jogos sem transmissão e mudanças nas possibilidades de transmissões pelas plataformas do Grupo Globo.

Mas o que a Globo faz na sua cobertura esportiva, seja nos programas específicos (Globo Esporte e Esporte Espetacular) ou nos telejornalísticos gerais, para tratar de torneios que estão sendo transmitidos por concorrentes?

Sem veto, mas sem grande atenção

Eu me recordo de num Globo Esporte gerado de São Paulo no início da década de 2010, ainda apresentado por Thiago Leifert, de ele comentar que era opção editorial da Globo não tratar de eventos esportivos com direitos de outras emissoras – acredito que possa ter sido sobre vitória de piloto brasileiro nas 500 Milhas de Indianápolis, da Fórmula Indy, que tinha transmissão da Band.

A lógica era simples: não chamar a atenção para um produto que poderia levar a audiência da Globo, líder, para a outra emissora. Podemos dizer que um dos critérios de noticiabilidade para a cobertura esportiva era a difusão de conteúdo de propriedade da rede.

A venda de qualquer pacote de publicidade para torneios esportivos sempre contou com entrega da emissora em telejornalísticos generalistas. Os gols da rodada têm destaque, por exemplo, no Jornal Nacional e no Fantástico, mas com a vinheta do pacote “Futebol 2021” passando antes do bloco.

Enquanto líder, com audiência maior em outros momentos que na transmissão do jogo em si, por muito tempo isso foi uma barreira importante no mercado de TV: maior visibilidade das marcas envolvidas – ainda que com o contrapeso de não abrir espaço para as específicas de torneios, especialmente se concorrentes das parceiras do pacote.

Segundo Bolaño (2000), a mercadoria audiência é o foco da empresa de TV por ser principal fonte geradora de receitas, pois é ela que é vendida aos anunciantes a partir da publicidade. Assim, na concorrência com outros grupos econômicos, isso é considerado para a linha editorial.

O cenário mudou nos últimos anos. Por um lado, houve a necessidade de flexibilizar nas negociações com clubes pelos direitos da Série A a partir da edição de 2018, com concorrência numa das mídias.

Além disso, há alteração no perfil do conglomerado, seguindo para ser uma mediatech, com redução de custos e direcionamento melhor de investimentos – caso das mudanças de contratos com seu corpo de artistas. A pandemia da Covid-19 acentuou o processo de mudança, com a perda de transmissão de torneios para concorrentes.

Fonte: Reprodução do site RD1

Casos de 2021

Com toda a disputa do Flamengo com a Globo, os efeitos da Medida Provisória 984/2020 do governo federal sobre a transmissão do Campeonato Carioca fizeram com que a emissora deixasse de transmitir o estadual, que foi para a Record TV. Além disso, Flamengo e Fluminense também estão na Libertadores, torneio que passou ao SBT.

Tratarei aqui da minha experiência de quem recebe o Globo Esporte produzido para a rede a partir do Rio de Janeiro, após um primeiro bloco local (de Alagoas).

A cobertura sobre os times do estado segue no mesmo formato do mesmo período do ano passado, com reportagens sobre a preparação para os jogos do Carioca e da Libertadores e a repercussão deles. O que mudou é a logomarca de uma das concorrentes na tela ao tratar dos resultados – ainda que no Carioca a Globo tenha tentado usar apenas o crédito da agência responsável pelo torneio, a Sportsview.

Reproduziu em escala nacional o que acontece no local, com a cobertura esportiva seguindo de acordo com a atuação dos times do estado, independente se tem ou não o direito de transmitir os jogos ao vivo.

No caso da rede, ainda teve o percalço da paralisação do Campeonato Paulista por algumas semanas, ou seja, sem conteúdo considerado “nacional” de torneios que o grupo ou alguma de suas afiliadas podem transmitir – além dele, Catarinense, Gaúcho, Goiano, Mato-grossense, Mineiro e Pernambucano.

O que mudou foi na estratégia de programação para concorrer com os jogos ao vivo, ainda que as concorrentes tenham fugido dos horários tradicionais da Globo (quarta à noite e domingo à tarde).

Seguindo a definição de 5 tipos de estratégias de programação de TV elaborada por Brittos (2001), a Globo atuou com “contra-programação”. “A efetivação desta estratégia implica também em desprogramação, no sentido de alterar o horário e o conteúdo em si previamente anunciado, conforme as ações dos demais agentes” (BRITTOS, 2001, p. 158). Assim, a emissora buscou superar a concorrente com conteúdo de grande audiência, casos do reality-show Big Brother Brasil e da novela das 21h.

Enquanto isso, a Copa do Nordeste só apareceu, creio eu, para tratar do título do Bahia contra o Ceará. Por isso, escrevi no Ludopédio que “não há surpresa de um jogo de primeira fase da Copa do Nordeste, especialmente, não ter os gols reproduzidos”. Por isso também destaquei o “local”, mais acima, como um dos critérios, pois está presente no jornalismo que tem difusão nacional – e que merece bastante crítica.

Observar como os critérios de noticiabilidade são definidos é algo bastante interessante para quem se interessa em estudar a cobertura esportiva, considerando ainda que críticas mais diretas a torneios que determinada emissora transmite, mesmo nos telejornais generalistas, podem interferir no interesse do público em determinada competição e trazer prejuízos comerciais ao conglomerado comunicacional.

A atenção a possíveis limitações no que é, porque é e como é demonstrado, especialmente considerando as questões político-econômicas, é importante para não nos surpreendermos com omissões em coberturas midiáticas.

Referências

BOLAÑO, C. R. S. Indústria Cultural, Informação e Capitalismo. São Paulo: HUCITEC, 2000.

BRITTOS, V. C. Capitalismo contemporâneo, mercado brasileiro de televisão por assinatura e expansão transnacional. 2001. 425f. Tese (Doutorado) – Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Culturas Contemporâneas, Universidade Federal da Bahia – UFBA, Salvador, BA, 2001.

SANTOS, A. D. G. dos. A visibilidade midiática buscada e conquistada pela Copa do Nordeste. Ludopédio, São Paulo, v. 143, n. 7, 2021.

SANTOS, A. D. G. dos. Os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro de Futebol. Curitiba: Appris, 2019.

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O fim da marca “Esporte Interativo” como expansão da Warner Media na América Latina

Em 8 de janeiro, Rodrigo Mattos informou em sua coluna do UOL: “Warner faz mudanças e troca marca Esporte Interativo por TNT Sports”. Por um lado, isso fecha a história de uma proposta inovadora para transmitir esportes e interagir com o público. Por outro, demonstra diferentes movimentos de mercado, em expansão para outros países, mas com poucos agentes na disputa.

No final de 2016, publiquei um artigo com César Bolaño na Revista Chasqui em que apresentamos o histórico do Esporte Interativo a partir de duas estratégias: a aposta em conteúdos regionalizados, com grande destaque para a volta da Copa do Nordeste, em 2013; e a captação de recursos com agentes estrangeiros, com uma parceria inicial de conteúdo com o Yahoo! e a posterior venda para a Turner, completada em 2015 e tendo como marco a aquisição dos direitos de transmissão da Uefa Champions League.

Fonte: Meio e Mensagem

Naquele momento, indicamos que para ser um forte agente na TV fechada era necessário ter mais recursos para disputar os direitos de transmissão de outros torneios e isso só poderia ocorrer com grande captação de recursos que só se daria a partir de uma venda para conglomerado estrangeiro. Para a Turner, foi uma forma de “entrar no mercado brasileiro com uma estrutura já pronta, ainda que por ser melhorada, e com uma marca já conhecida pelo público” (SANTOS; BOLAÑO, 2016-2017, p. 293).

Criado em 2004 a partir de uma empresa que atuava com futebol desde 1999 (a Top Sports), o Esporte Interativo era até então um agente periférico do mercado de TV fechada, sem estar nas duas principais distribuidoras (Net e Sky) – mas com captação satelital –, que apostava em torneios que não recebiam interesse dos concorrentes principais e em mecanismos de aquisição de recursos em novas aplicações tecnológicas de interação com o público – do SMS num clube de pontuação ao aplicativo de streaming EI+Plus.

A Turner já colocou naquele momento algumas partidas do torneio europeu em seus canais TNT e Space, com presença nos pacotes básicos de TV fechada. Em 2016 o EI conseguiria entrar nas distribuidoras líderes de mercado. Além disso, o segundo ano de aquisição marcava a disputa com o Grupo Globo pela transmissão em TV fechada do Campeonato Brasileiro, aproveitando a negociação individual, para transmitir alguns jogos da Série A a partir de 2019. No final do ano, a aquisição da Time Warner pela AT&T, empresa de telecomunicações, com mudança de nome para Warner Media, sinalizava possíveis alterações de atuação – inclusive por limitações regulatórias, pois a empresa estadunidense de telecomunicações é uma das proprietárias da Sky, o que configuraria propriedade cruzada (SANTOS; BOLAÑO, 2016-2017).

Fonte: tntsports.com.ar

Enquanto isso, a Turner ampliou a atuação na América Latina. Em 2017, adquiriu com a Disney (Fox Sports) os direitos de transmissão do Campeonato Argentino e da Supercopa Argentina, criando o canal TNT Sports, que transmitiria também a Copa do Mundo FIFA Rússia 2018. No final daquele ano, adquiriria ainda o “Canal del Fútbol” (CDF), canal de TV fechado existente desde 2003 no Chile, podendo transmitir os torneios organizados pela associação de futebol do país.

Como a marca Esporte Interativo foi mudando

Em termos de formato utilizado, os canais Esporte Interativo mantiveram o padrão tecnoestético que o diferenciava no mercado, com narração que tentava ser mais emocionante – o que gerou o apelido de “Esporte Interagrito” – e diferentes tentativas de interação com o público, com grande atuação nas mídias sociais, fazendo a primeira transmissão pelo Facebook. No conteúdo, a aposta passou a ser a UEFA Champions League, considerado como premium, enquanto Copa do Nordeste, Copa Verde, campeonatos estaduais nordestinos e Séries C e D do Brasileiro seguiam no pacote, mas com menos atenção que outrora.

Mudança mais significativa se deu a partir de agosto de 2018, quando foi anunciado o fim dos canais Esporte Interativo, em que pequena parte do conteúdo esportivo migraria para a TNT, canal dedicado a filmes da Turner. Sobreviveu apenas o conteúdo premium, UEFA Champions League e o Campeonato Brasileiro a partir de 2019 e programas pós-jogos, gerando demissão em massa e diminuindo a quantidade de agentes no mercado – com a fusão do Fox Sports com a Disney acentuando isso.

Ainda que o formato de conteúdo seguisse o que foi construído ao longo da marca Esporte Interativo, desde as transmissões alugadas em canais de TV aberta no início dos anos 2000, particularmente eu já estranhava que mantivessem o símbolo do eI ao lado da TNT, além da sua manutenção nas mídias sociais – com alguns programas que tinham migrado para o Youtube com o tempo se tornando canais à parte na plataforma.

Fonte: Meio e Mensagem

Segundo Mattos (2021), a nova marca TNT Sports surge no Brasil dentro de uma proposta panregional, a partir da criação da Warner Media Latin America. Além do Esporte Interativo, o CDF, no Chile, também mudará para o nome em comum. Ainda que tenha se dado agora, repete-se uma estratégia de canais como ESPN e Fox Sports, cujas marcas são unificadas para todos os países em que as empresas atuam.

Cenário de mercado

Se a TV fechada no Brasil viveu um aumento de assinantes do final dos anos 2000 até 2014, de lá para cá os números só apresentaram queda. O cenário econômico no país, com número considerável de pessoas desempregadas, é uma das justificativas mais claras. Por outro lado, o aumento de oferta de blocos de conteúdo audiovisual em separado, gera diferentes prioridades de consumo, para quem pode pagar. Acentua-se isso com a autorização, desde julho de 2020, para a oferta de canais da TV fechada de forma separada na internet, a partir do caso do Fox+ – ver mais em Amaral (2020).

A venda de conteúdo pago pela internet teve crescimento com a quarentena causada pela Covid-19. Sem a possibilidade de público nos estádios, a transmissão audiovisual por um veículo de comunicação torna-se a única forma de acesso possível ao conteúdo esportivo. Ou seja, o momento de oferta de conteúdo audiovisual poderia ser o mais favorável, dadas as restrições à oferta presencial de entretenimento.

Entretanto, isso não deve desconsiderar os problemas econômicos individuais – como mostra o recuo na venda de pay-per-view pela Premier League em novembro do ano passado; e os problemas econômicos agravados com a pandemia, que fizeram com que Globo (Copa do Mundo, Libertadores e Fórmula 1) e Record (Jogos Panamericanos) reconsiderassem contratos de transmissão por causa do valor do dólar; e DAZN (campeonatos europeus de futebol e reestruturação global) e Mediapro (campeonato francês) diminuíssem a atuação em vários mercados, interrompendo acordos.

Neste mesmo blog, em outubro de 2019, apontei que vivíamos um processo de mudança no mercado e que era difícil ver o final disto. A pandemia colocou mais problemas para os agentes em disputa, amplificando até a quantidade de empresas a ofertarem conteúdo gratuito, mas com a centralização de alguns mercados sob pagamento (casos da TV fechada e da oferta pela internet), com a Amazon surgindo por duas frentes ainda em fases iniciais: Prime Video e Twitch (com a transmissão de Athletico X Vasco no Brasileirão).

Com redução das limitações da transmissão ao vivo com a internet 5G e um cenário de recuperação econômica pós-pandemia ainda distantes, a vantagem de guiar o mercado de transmissão de futebol seguirá, em curto prazo, com grandes agentes em termos de potencial financeiro e com os líderes de mercado.

Referências

AMARAL, Bruno do. Anatel decide que canais lineares pela Internet são SVA. Teletime, Brasília, 9 set. 2020. Disponível em: <https://teletime.com.br/09/09/2020/anatel-decide-que-canais-lineares-pela-internet-sao-sva/&gt;. Acesso em: 11 jan. 2021.

MÁQUINA DO ESPORTE. Premier League desiste de pay-per-view e jogos voltam para a BBC e Amazon. Máquina do Esporte, São Paulo, 13 nov. 2021. Disponível em: <https://maquinadoesporte.com.br/futebol/premier-league-desiste-de-pay-per-view-e-jogos-voltam-para-a-bbc-e-amazon&gt;. Acesso em: 11 jan. 2021.

MATTOS, Rodrigo. Warner faz mudanças e troca marca Esporte Interativo por TNT Sports. UOL, São Paulo, 8 jan. 2021. Disponível em: <https://www.uol.com.br/esporte/futebol/colunas/rodrigo-mattos/2021/01/08/warner-acaba-com-marca-esporte-interativo-canal-se-chamara-tnt-sports.htm&gt;. Acesso em: 11 jan. 2021.

SANTOS, Anderson. Qual o estágio das transmissões de futebol no Brasil? Comunicação, Esporte e Cultura, Rio de Janeiro, 17 out. 2019. Disponível em: <https://comunicacaoeesporte.com/2019/10/17/qual-o-estagio-das-transmissoes-de-futebol-no-brasil/&gt;. Acesso em: 11 jan. 2021.

SANTOS, Anderson David Gomes dos; BOLAÑO, César Ricardo Siqueira. Las estrategias de mercado de Esporte Interativo: regionalización y capital extranjero en la televisión brasileña. Chasqui, Revista Latinoamericana de Comunicación, n. 133, p. 283-296, dez. 2016-mar. 2017.

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Vamos falar mesmo sobre uma efetiva democratização do futebol?

A campanha de clubes brasileiros para que o mandante da partida seja o único possuidor do direito de arena vem sendo marcada por reuniões com o presidente da República, mas também por tuitaços e campanhas conjuntas nas mídias sociais. Dentre elas, em 19 de agosto, uma faixa foi colocada nas arquibancadas da Arena da Baixada informando que Athletico e Palmeiras, que se enfrentavam no gramado, estavam juntos pela “lei do mandante” e pela “democratização do futebol”. Na hora me veio à mente: será que entendem o mesmo que eu sobre democracia no futebol?

Desde a promulgação da Medida Provisória 984, em 18 de junho, que venho falando muito sobre os direitos de transmissão do futebol brasileiro, tema de pesquisa já há 10 anos, quando formulei o projeto para o mestrado, e que teve como resultado, além da dissertação, o livro “Os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro de Futebol” (Appris, 2019).

Print do canal de Youtue do Esporte Interativo

Publicada após uma reunião do presidente do Flamengo, Rodolfo Landim, com o atual presidente da República, a MP criou imbróglios jurídicos, com liminares para diferentes partes mudando em cima da hora a transmissão de partidas, mas tem apoio da maior parte dos clubes das Séries A e B do Campeonato Brasileiro de Futebol (35 em 40) para ser transformada em lei no Congresso Nacional.

Os manifestos dos clubes, fossem os das Séries A e B ou da Liga do Nordeste usam “democratização da transmissão do futebol”, mas, numa rápida busca, além da faixa da Arena da Baixada, pelo menos Flamengo, Bahia e Athletico utilizaram “democratização do futebol”. Temos neste recorte três modelos distintos de democracia interna e de como a democracia, de forma geral, é entendida.

Deles, o Bahia vem desde 2013 num processo de maior participação torcedora e tem sua atual gestão muito bem marcada pelas suas ações sociais, com destaque para a criação do Núcleo de Ações Afirmativas – escrevi sobre a #BahiaClubedoPovo em artigo científico publicado no ano passado (SANTOS, 2019).

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Já os rubro-negros carioca e paranaense não são modelos de participação torcedora nas suas instâncias internas e suas diretorias atuais não escondem o apoio ao atual grupo político no poder presidencial, assumidamente de extrema-direita.

Não me aprofundarei nas especificidades, mas para conhecimento do quão parece ser contraditória a frase no Athletico, veja artigo de André Pugliese na Gazeta do Povo, publicado no dia seguinte à partida contra o Palmeiras.

Pugliesi não se aprofunda no mérito da MP 984, que até considera “que não há nada de errado na campanha athleticana”, mas questiona: “se virá uma nova política, de ingressos populares em setores ociosos e planos variados de associação. Ou ‘democratização do futebol’ é só no bolso dos outros?”.

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Elementos democráticos

Ampliar o acesso da torcida a uma forma de entretenimento marcada por relações de afeto e sentimento de comunidade, caso do futebol, é algo fundamental para a sociedade. Trabalho na tese, em andamento, com o conceito de “conteúdos de interesse social” como proposta básica para garantir que algumas partidas de futebol possam ter a garantia de acesso amplo e gratuito, seguindo o que países como Argentina, Uruguai e México colocaram em mudanças de leis sobre os meios de comunicação neste século.

Assim, independentemente da minha avaliação pessimista sobre o que consta neste momento no Art. 42 da Lei Pelé, com as modificações da MP 984, não posso ser contrário a um entendimento que destaque a importância da ampliação do acesso aos jogos transmitidos por uma plataforma audiovisual.

Entretanto, isso pode significar apenas “democratização das transmissões esportivas”. E, mesmo assim, é preciso considerar algo que os próprios clubes destacaram numa série “fato e fake” nas mídias sociais – com alguns problemas, começando pela linguagem que faz tratar divergências como “fake” (news): “cabe a TV decidir”. A Turner, por exemplo, decidiu não exibir em TV fechada Fortaleza X Athletico na primeira rodada da Série A deste ano por “escolha da programadora”, que preferia transmitir Palmeiras X Vasco – utilizando-se de uma interpretação da MP, mas que acabou não ocorrendo porque o jogo foi adiado.

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Além disso, como bem aponta Pugliese (2020) sobre o Athletico, quando for possível frequentar estádios de futebol é preciso saber se teremos ingressos com valor que possibilite que diferentes pessoas possam entrar nos estádios ou se seguiremos com a lógica arenizada de públicos que precisam pagar caro para apoiar seu time. Fora outro limite que está se espalhando: presença da torcida visitante.

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É importante sempre lembrar que:

O “público família” mais pobre não está contemplado no novo projeto de futebol que abrange as arenas multiuso, apesar de terem sido poucos os momentos históricos que ele esteve. Os torcedores mais pobres sempre foram obrigados a se amontoar em espaços ditos “populares”, ainda que pouco tenham se queixado. Agora, como ocorreu na Europa, parece estar sendo encaminhando à intermediação de um meio de comunicação. A maior presença do broadcasting nas receitas dos clubes tende a aumentar com mais possibilidades de transmissão do audiovisual – caso dos aparelhos móveis (A. SANTOS; I. SANTOS, 2019, p. 35).

Da mesma forma, é preciso saber se a liberdade de se expressar dentro do estádio será permitida ou o Estatuto de Defesa do Torcedor seguirá sendo usado contra nós, torcedoras e torcedores, quando queremos torcer com instrumentos musicais e bandeiras ou quando nos vemos no direito de protestar contra organizadoras de torneios – para não falar contra decisões de agentes do Estado que interferem diretamente nas nossas vidas.

Ampliar a possibilidade de acesso também nas instâncias decisórias dos clubes é tão importante quanto, refletindo ainda em melhoria nas relações de transparência para a torcida de tudo o que ocorre, com processos político-eleitorais mais amplos. Além de permitir que a “comunidade” seja mais do que um sentimento, abrindo mais os espaços do clube para a presença da torcida, não só o estádio.

Isso que ainda não pretendemos prolongar esse texto para questionar as perspectivas gerais sobre democracia, pensando na reversão de relações de exploração e de subalternização de classes sociais, o que, no meu entender, também envolve o devido posicionamento pelos agentes do futebol, considerando este esporte de “interesse social”, como disse mais acima.

Esqueci de algum outro elemento? Coloca aqui nos comentários. O Brasil atual nos mostra o quanto é importante ponderar sobre esses diferentes modelos democráticos que anunciam.

Referências Bibliográficas

PUGLIESI, A. O Athletico, clube mais elitista do país, fala agora em “democratização do futebol”. Gazeta do Povo, Curitiba, 19 ago. 2020. Disponível em: <https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/andre-pugliesi/athletico-lei-do-mandante-democratizacao-do-futebol-elitista/&gt;. Acesso em: 01 set. 2020.

SANTOS, A. D. G. dos. #BahiaClubedoPovo: A diversidade em campanhas de um time de futebol brasileiro. Dispositiva, v. 8, p. 100-117, 2019.

SANTOS, A.D. G. dos. Os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro de Futebol. Curitiba: Appris, 2019.

SANTOS, A. D. G.; SANTOS, I. S. da C. História do espectador dos jogos de futebol no Brasil: da elitização amadora às novas formas de exclusão das Arenas Multiuso. In: SANTOS, V.; MOTTA, J. S. M.; MARTINS, B. T. de S. (Org.). XIII Seminário OBSCOM/CEPOS e I Fórum Regional ALAIC Cone Sul: Compilação de trabalhos apresentados. São Cristóvão; São Paulo: OBSCOM/CEPOS/ALAIC, 2015. p. 28-41.

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A estruturação do futebol mostrada em The English Game

Com a necessária parada do entretenimento ao vivo, o consumo de jogos antigos, mas também de séries e filmes sobre futebol nos ajudam a dirimir um pouco da saudade das partidas. Aqui, tratarei de The English Game, série da Netflix lançada este ano, do ponto de vista de alguns conceitos adaptados dos estudos de Crítica à Economia Política.

Fonte: Netflix

Aviso de antemão que neste texto eu não irei avaliar a série do ponto de vista cinematográfico (roteiro, fotografia etc.), nem verificar os problemas de representação histórica. Para ambos objetivos, sugiro que acompanhe a live do podcast Na Bancada que tratou muito bem dessas questões.

Em 2014, publiquei o artigo “Os três pontos de entrada da Economia Política no futebol” (SANTOS, 2014), em que adapto “os pontos de entrada da Economia Política” apontados por Mosco (2009) – mercantilização/comodificação, espacialização e estruturação –, enquanto categorias conceituais para análise do futebol profissional ao longo do tempo, entendendo aí as transformações histórico-dialéticas, logo, na perspectiva da totalidade social, para estudar esse esporte.

Fonte: Cena da série The English Game.

“Deixamos o jogo civilizado”

Até pelo período histórico recortado na série, final do século XIX, aqui nos interessará especificamente a estruturação – ainda que a mercantilização também começasse a se fazer presente. Sobre ela, Mosco (2009, p. 311) afirma que:

Especificamente, a estruturação equilibra a tendência na análise político-econômica ao apresentar as estruturas, normalmente as instituições empresariais e governamentais, estudando e incorporando as ideias de ação, de relações sociais, do processo social e da prática social. Ao mesmo tempo, […] rechaça como extrema a ideia de que se pode analisar a ação em ausência de estruturas. Isto se explica porque a estrutura proporciona o meio a partir do qual a ação atua.

A partir disso, eu inicio o artigo apontando a importância de estruturas formais para normatizar o futebol da maneira que temos até hoje, com destaque para as escolas no momento da diferenciação entre as práticas, que definem valores liberais básicos, com a competitividade sendo limitada pelo conjunto de regras, o que diminuiria a violência, mas também geraria algum nível de igualdade na disputa.

Mascarenhas (2014, p. 68) indica que em diversas regiões do mundo a prática ruidosa de uma partida deixou de ser vista como distúrbio apenas “adicionando ao jogo um conjunto de sentidos e significados nobres, trabalho cultural realizado por bacharéis, educadores laicos e missionários”.

The English Game trata, de forma romantizada, de 1879 ao início da década seguinte, com a transição da exclusividade da prática do jogo pelas pessoas de elite para trabalhadores, contando já ali com times de operários das fábricas inglesas, com os primeiros jogadores sendo “contratados”, mas apenas para jogar nos clubes, que assim podiam concorrer com os aristocráticos. A cada nova FA Cup aproximam-se do título, o que gera revolta nos controladores e participantes do jogo, que buscam usar o seu poder como barreira de atuação de outros jogadores e clubes.

Ainda que apareça de forma clara nas discussões sobre os problemas referentes à participação de determinados clubes, esse modelo de decisão é o que será aplicado na formação das entidades em caráter internacional. Assim, “por mais que a habilidade e a técnica estejam com os jogadores, o ordenamento da lei e a organização institucional e corporativa convergem numa grande entidade paraestatal” (SANTOS, 2014, p. 564), que no caso do filme é a FA (Football Association).

Fonte: Cena da série The English Game

“Mas também precisam do futebol”

Mesmo com a possibilidade da participação de operários jogando ou, como ocorre com Fergie, enquanto trabalhadores, logo podendo negociar a sua força de trabalho para um patrão, este segue detendo a posse dos meios de produção necessários para que a prática profissional ocorra.

Na série, vemos greves e outras formas de manifestação da classe operária e também o papel do futebol como forma de diversão, mas cuja gestão estrutural era garantida financeiramente pelos patrões.. Mascarenhas (2014, p. 91) afirma sobre isso que os capitalistas estavam preocupados com o movimento sindical do período, assim, “o trabalhador vestindo a camisa da empresa para jogar futebol significaria, muito mais que fazer sua propaganda, assumi-la como ‘sua’ instituição, um grau inequívoco de pertencimento”. Isso faz com que não seja estranho que alguns clubes tenham surgido a partir da gerência industrial, que tornava ainda eficiente certa “‘pedagogia da fábrica’: trabalho em equipe, obediência às regras, especialização nas tarefas, submissão ao cronômetro etc.” (idem, p. 91).

A estrutura de classes se estabelece naquele momento, com a elite político-econômica de dada localidade deixando aos poucos a atuação nos gramados para passar ao comando gerencial do futebol, caminhando já ali para uma prática lucrativa. Enquanto isso, cabia às classes populares o acesso ao jogo enquanto trabalhador ou, quando consegue pagar a entrada, como assistente. Nesse processo é que aparece a construção dos espaços de hegemonia. Como afirma Bolaño (1999, p. 53), “há um processo de edificação de uma ordem esportiva que, partindo do mundo da vida, sobrepõe-se a ele e o coloniza”.

Importante ainda dialogar com Mascarenhas quando ele faz uma relação direta com a organização taylorista do trabalho, que também passa a ocorrer nas fábricas naquele momento histórico. O saudoso pesquisador brasileiro salienta a especialização individual que passa a ser necessária para quem atuará profissionalmente no esporte: “Um jogador de futebol assume determinadas funções relacionadas à sua posição no time e no campo de jogo, e deve nela se especializar, tal qual o operário numa linha de montagem” (MASCARENHAS, 2014, p. 91).

***

Dado o limite da proposta deste espaço, pararemos por aqui. Vejam que não só não me aprofundei nas claras questões sobre a mercantilização, mas também não avancei na espacialização do jogo e como determinados aspectos estruturais hão de se repetir em outros países, como o Brasil. Creio que as referências específicas sobre futebol aqui utilizadas podem jogar luz sobre outras questões, da mesma forma que a série vem instigando outras reflexões para os estudos sobre o futebol.

Referências

BOLAÑO, C. R. S. A capoeira e as artes marciais orientais. Candeeiro, Aracaju, v. 3, p. 51-56, out. 1999.

MASCARENHAS, G. Entradas e bandeiras: a conquista do Brasil pelo futebol. Rio de Janeiro: Eduerj, 2014.

MOSCO, V. La Economía Política de la Comunicación. Barcelona: Bosch, 2009.

SANTOS, A. D. G. dos. Os três pontos de entrada da Economia Política no Futebol. Revista Brasileira de Ciências do Esporte, v. 36, n. 2, p. 561-575, abr.-jun. 2014.

THE ENGLISH Game. Direção: Birgitte Stærmose e Tim Fywell. Produção: Jorge Ramos de Andrade. Londres: Netflix, 2020. Streaming (série com 6 episódios).

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