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A guerra, o esporte de alto rendimento, e a sociedade competitiva. Os limites do esporte como prática saudável.

Nasci em 1971. Cresci ouvindo em todo canto que esporte é saúde. De fato, para o atleta recreacional que respeita os seus limites, esporte é não só saúde física, pois, comprovadamente, a atividade física é profilaxia de um sem número de doenças: diabetes, infarto, obesidade, câncer, entre outras; mas também é saúde mental, uma vez que a atividade física carreada pela prática esportiva secreta um conjunto de agentes bioquímicos que impacta diretamente em fatores que, sabemos, são importantes para a boa saúde da mente, tais como o humor, a sensação de prazer fisiopsicológica, e a gratificação pessoal, além do aumento da autoestima pela sensação do atleta de ter sido capaz de, meritoriamente, cumprir a sua tarefa.

O famoso dístico clássico, originário da Grécia pré-cristã, “corpo são, mente sã”, nunca encontrou tanto acolhimento e ratificação como nas conquistas das pesquisas médicas das últimas décadas. Não é sem razão que a maioria dos pais com bom nível instrucional anseie pôr o seu filho, desde cedo, para praticar alguma atividade esportiva. Até aqui, ok. Nada de novo. Sim, esporte é saúde. Sempre. Será?

Desde tempos imemoriais o homo sapiens se organiza, coletivamente, para realizar atividades que envolviam uma competição com regras bem estatuídas. Essas primeiras práticas que hoje chamaríamos de esportes – ou de algo correlato ao sentido moderno dessa palavra – envolviam várias dimensões da vida, como o lúdico, a interação com o outro para distender o espírito; o simbólico, que diz respeito às representações coletivas, e também de cada um, em uma dada comunidade; e o competitivo, onde impõe-se saber quem é o mais forte, o mais rápido, de melhor engendramento de estratégias ou com mais presteza de raciocínio sob pressão. O esporte constituía assim uma dimensão importante na geração de conhecimento sobre cada um em uma dada comunidade de pessoas aldeadas. Em decorrência de tudo isso, o esporte preparava, também, para a guerra. Precisávamos conhecer cada membro da nossa sociedade, a fim de saber como melhor poderíamos aproveitá-lo em combate. De forma curiosa, esporte e guerra sempre estiveram ligados – entendam, não como um vínculo direto e necessário, mas como algo que é dado pela nossa historicidade, como ocidentais.

Fonte: infoescola.com

O capitalismo, nos ensina o eminente historiador Fernand Braudel, se inicia, em sua forma comercial, ainda na baixa Idade Média, e avança através da relação da Europa com outros continentes a partir do século XV, aprofundando esse movimento nos três séculos seguintes. Durante esse período, designado como Idade Moderna, o capitalismo comercial, em sua fase mercantilista, teve como característica a vinculação da guerra à atividade econômica. Assim se deram as diversas conquistas dos povos Europeus nas mais diversas regiões do Globo, tais como as Américas, a Península indiana, o litoral chinês e o Sudeste da Ásia, entre outras. Mesmo no capitalismo industrial da Idade Contemporânea – a grosso modo, século XIX adiante – não faltaram guerras e invasões territoriais motivadas pelos imperativos desse sistema, do que dão farta nota as guerras imperialistas ocorridas na África e na Ásia desde o século XIX, atravessando o século XX em sua maior parte, a I Guerra Mundial, fortemente vinculada às disputas territoriais na África e na Ásia, a II Guerra Mundial, detonada pela invasão territorial da Polônia, e expandindo para a conquista de diversos territórios intra e extra-europeus, já que Hitler se orientava pela teoria do espaço vital do geógrafo alemão Friedrich Ratzel, pois reputava que a conquista territorial era um elemento indispensável na atividade guerreira. Os séculos XX e XXI mantiveram a guerra atrelada aos interesses da economia capitalista, como nos indicam as invasões norte-americanas ao Iraque neste século, vinculadas diretamente aos negócios do petróleo com o qual a família Bush e toda a alta camarilha do seu governo estavam profundamente e diretamente envolvidos.

Notem que não pretendo fazer aqui um inventário, que seria bastante vasto, das guerras e invasões territoriais motivadas pelos interesses capitalistas na Era Contemporânea. O que pretendo com esse breve excurso é mostrar como, desde o século XV, a guerra sempre esteve presente como um elemento inseparável da economia capitalista após o “desencravamento planetário”, para usar um termo do também historiador francês Pierre Chaunu, que indica o início da interação entre as diversas regiões do globo através da chave do capitalismo em sua fase de expansão territorial mercantilista. Isso supôs uma presença da guerra em nosso cotidiano. Ou porque invadíamos, ou porque éramos invadidos em nosso território. Não obstante, nos mostra o sociólogo estudioso da violência, Michel Misse, os séculos XIX e XX foram os mais pacíficos do Ocidente, se vistos como aqueles com menor incidência de guerras. Nada mais dentro do novo momento do capitalismo pós Revolução Industrial, e que superou o paradigma do capitalismo comercial mercantilista, o que o permitiu ser menos dependente da conquista territorial para o seu desenvolvimento. Com o passar do tempo, a guerra passou a ser vista como algo inconveniente por grande parte das elites econômica e política, para não falar, claro, do conjunto das populações de cada país. Não sem razão, foi no contexto desse movimento de diminuição de ocorrência de guerras, próprias de uma nova fase do capitalismo, que surgiu a febre da prática esportiva, no século XIX. Não queremos aqui explicar as razões do surgimento da voga da prática esportiva no Oitocentos, mas apenas notar que foi nele que ela surgiu. Essa voga do esporte se traduziu em grandes eventos internacionais, iniciados desde fins do século XIX, do que dá nota o início dos Jogos Olímpicos modernos, em 1896. O século seguinte aprofundou a realização de grandes eventos esportivos internacionais, como o agigantamento progressivo dos Jogos Olímpicos, o surgimento e agigantamento progressivo da Copa do Mundo de Futebol, entre diversos outros grandes eventos esportivos pelo mundo.

Fonte: ebc.com.br

Tomando por base esse desenrolar das coisas no Ocidente, alguns antropólogos desenvolveram a ideia de que a voga da prática esportiva na Idade Contemporânea e das grandes e pequenas competições que se disseminaram nela seriam representações da guerra e, muitas vezes, das guerras de conquista do território do inimigo. Nem todo esporte envolve conquista territorial, como são os casos do atletismo, natação, vela, ciclismo, ginásticas, entre outros; mas vale notar que entre os dez esportes mais populares do mundo somente dois não envolvem a conquista do território, sendo que entre os três mais populares, todos envolvem conquista territorial. O esporte mais popular do mundo, e que envolve a maior competição esportiva internacional, a Copa do Mundo, é claramente um esporte de domínio e conquista territorial, além, claro, no caso desse esporte, de defesa do seu território contra o “inimigo”. Os Estados Unidos, a nação mais rica e poderosa do mundo desde os últimos cem anos, também tem entre os seus esportes prediletos, esportes dessa natureza, como o basquete, o beisebol e o futebol americano. Com o avançar do século XX, o esporte foi se vinculando cada vez mais, e com um peso cada vez maior, à ideia de conquista. Ao que parece, o esporte seguiu a lógica do capitalismo de sua época, cada vez mais ligado a ideia de competitividade e de conquista sobre o outro, com regras, e sem derramamento de sangue.

Fonte: diarioav.com.br

Para alguns antropólogos, os esportes de conquista territorial seriam uma representação da guerra, sua tradução civilizada, com regras bem sedimentadas e, quase que totalmente, sem mortes. Mas a ideia de embate/combate ficou bem preservada, do que dão nota os jargões esportivos, como “A batalha dos Aflitos”, para indicar um jogo disputado e emocionante, ou o “matador”, para aludir a um centroavante goleador, que também é conhecido como “artilheiro”, ou mesmo a ideia de “tiro”, para indicar a cobrança de uma falta no futebol, tiro livre direto ou indireto, ou o “tiro” de três (pontos) no basquete. A própria palavra gol, se percebermos bem, vem do inglês goal, e designa objetivo, ou seja, conseguir executar um objetivo previamente estabelecido, algo inerente às estratégias de guerra. No basquete, os pivôs são as “torres de defesa” e, nos EUA, encontramos o toque de sopro de cavalaria em estádios e ginásios, em alguns jogos desses esportes. Na América do Sul e na Europa, infelizmente, as chamadas torcidas uniformizadas (está aí mais um elemento da atividade militar, o uniforme que nos distingue do outro), entoam funestos cantos de guerra, afirmando que vão matar os fulanos, do time adversário. Algumas torcidas organizadas cantam hinos de caráter político ou religioso, como no futebol escocês, onde aparecem as disputas entre católicos e protestantes, históricas nesse país. No Brasil, algumas torcidas organizadas se subdividem fazendo uso de termos militares, como pelotão ou falange, entre outros. E é impossível não lembrar como o conflito físico direto entre as torcidas de futebol e basquete se fazem presentes no Brasil e em outras partes do mundo, não raro levando alguns de seus torcedores a óbito.

Fiz todo esse excurso histórico e evidenciei a associação entre alguns dos esportes mais populares e a guerra, para falar da evolução do esporte no mundo, cada vez mais, em direção ao chamado esporte de alto rendimento, e eu acrescentaria, de alta competitividade. Esse primeiro movimento teve o fito de preparar o terreno para respondermos aquela primeira pergunta, que fiz no início desse artigo, a saber: esporte é saúde sempre?

Ora, para além dessa presença estrutural do signo da guerra nos esportes mais populares, cabe notar que, conforme o esporte foi se imbricando com o capitalismo, a fim de ser mais um produto para consumo apropriado por esse, ele foi absorvendo o ethos de alta competitividade dessa ordem econômica, pois aparecem mais as marcas vencedoras, porquanto são elas as mais exibidas sob as luzes dos holofotes dos mass media, e vinculadas a uma emoção de vitória. Os estudos neurolinguísticos mostram a importância da associação da marca com uma experiência de emoção intensa positiva. Não é sem razão que nos estádios e ginásios esportivos os anúncios pagos mais caros estão postados em setores em que há a maior probabilidade do jogador passar ostentando diversas marcas em seu corpo após realizar um gol, cesta, touch down ou êxito que o valha em outro esporte qualquer.

Fonte: si.com

Os atletas nunca se esfalfaram tanto em rotinas de treinamentos de dar inveja no treinamento e exigências físicas de muitos militares, quando não chegam às raias da obsessão, compulsão e excesso, como dão nota os casos de Cristiano Ronaldo no futebol, de Michael Phelps, na natação e de Novak Jokovic, no tênis. Mesmo um ídolo nacional associado à caridade e à figura do “bom moço”, como foi Airton Senna, treinava se esganiçando com o Prof. Nuno Cobra, sempre com a perspectiva exauriente de superação dos próprios limites.

Todo atleta competitivo que disputa os grandes certames internacionais necessita hoje de uma camarilha de fisiologistas, médicos, fisioterapeutas, nutricionistas, especialistas em preparação física e, mais do que nunca, psicólogos. A competitividade chegou a um limite tal que ficou impossível triunfar em grandes competições sem esse staff de apoio. A relação entre as trocas iônicas entre sódio e potássio devem estar ajustadas para o seu ponto optimum durante a competição, dado o desgaste físico descomunal a que é submetido o atleta de hoje, tempos de estupenda competitividade do capitalismo neoliberal globalizado. Rotinas de dietas e exercícios físicos escorchantes, seja para aquisição de mais massa muscular ou resistência e treinamentos técnicos intensos, fazem parte de anos, por vezes de décadas de trabalho duro e sacrificante por parte do atleta de alto rendimento. O atleta de hoje não pode ser um homem, deve ser um super-homem programado para o triunfo sobre o adversário, tal como vivemos hoje em nossa competitividade junto ao mercado de trabalho ou no empreendedorismo. Temos todos que ser fluentes em inglês e espanhol. Logo será a vez do chinês mandarim. Temos que ter o terceiro grau completo, mas com pós-graduação, que fique bem claro, de preferência uma MBA, além de dominarmos diversas linguagens de informática e estarmos up to date com as inovações advindas da tecnologia, e um grande preparo físico e mental para corrermos para lá e para cá e respondermos a qualquer hora do dia, ou dia da semana, as nossas mensagens de whatsapp, e-mail, messenger do facebook, além, é claro, do LinkedIn. E ai de quem esquecer qualquer desses detalhes! Será que é só a arte que imita a vida?

Fonte: br.jetss.com

O resultado dessa roda viva literalmente insana que tomou de assalto a nossa vida diária e a prática esportiva de alto rendimento é um invariável comprometimento de nosso bem-estar, de nossa saúde, física, mental e psíquica. Não é pequeno o número de ex atletas de alto rendimento que passaram a necessitar de acompanhamento médico por toda a vida. Problemas nos joelhos, púbis, tornozelo, ombro e ligamentos os mais diversos são chagas que esses atletas carregam, por vezes, por uma vida inteira, para não falar das privações emocionais próprias de quem deve se isolar em concentração para jogos e/ou por longas competições inteiras. Recentemente, muitos puderam ver em seus smartphones o vídeo de um técnico de basquete europeu, questionado em sua conduta profissional por um repórter, que achou equivocada a liberação de um jogador de basquete – por um acaso um brasileiro, Augusto Lima – para viajar ao Brasil, a fim de ver o nascimento de seu filho. Não pode. O jogador deve se sacrificar pelo time como o funcionário de hoje deve fazê-lo pela competitividade da empresa, ou o soldado pelo seu exército na guerra.

O que pode pagar um pai impedido de ver o seu filho nascer? Ou de estar ao lado de sua mãe ou pai em seu leito de morte? O que pode pagar as dores crônicas, consequência de um estresse do organismo pelo excesso de solicitação física? O que paga a subtração do atleta do meio de afeto familiar e dos amigos? A fome pelo controle do peso associado a super doses de exercícios físicos? O que paga o estresse, a ansiedade e a angústia de se viver em competição, viver para competir ?

Viver em competição é viver em estado de guerra constante, não somente na vida esportiva, como na vida social ou afetiva. Quem vive no constante e frenético movimento da competitividade para superar o outro não pode viver em boa saúde, em situação de bem-estar. Esta requer ciclos equilibrados de atividade laboral e descanso, de foco no trabalho e fruição dos afetos de familiares e de amigos, entre a boa conduta alimentar e momentos de celebração da vida, onde, reparem, a comida está sempre presente e pede distensão da regra em nome da celebração da vida.

Fonte: youtube.com

Esporte e trabalho regulamentado fazem bem à saúde. Já o esporte de alto rendimento e alta competitividade assim como o trabalho constante e competitivo, cheio de metas e conceitos desumanos de produtividade, não só não fazem bem algum, como, para aqueles mais críticos, põem em causa a própria razão e sentido de fazermos as atividades que fazemos. Ser campeão é a única maneira de cada um ser feliz? Só há lugar de reconhecimento para aqueles poucos que sobem ao podium? Essa é uma pergunta que deve balizar as nossas reflexões sobre o sentido do emprego cotidiano de nossas energias, sejam elas consumidas no esporte, ou em qualquer outra atividade humana, como no trabalho ou na qualidade das relações que entabulamos com outras pessoas.

Talvez a aquisição incessante de competitividade, a busca do triunfo a qualquer custo como valor maior orientador do que fazemos, não seja o melhor caminho para o ideal grego antigo de “corpo são, mente sã”. Talvez a consecução desse ideal não passe por esses conceitos, mas por outros, como perseverança, senso coletivo, solidariedade, colaboração, constância, autocuidado e afinidade. O movimento de tudo o que se pretende produtivo e competitivo, ou sequioso de triunfar sobre o outro, é antagônico a nossa presença de fato em todas as diversas dimensões constitutivas da vida, que nos engrandecem. Nesse caso, repensar os rumos que os esportes andaram assumindo nas últimas décadas seja repensar o próprio fundamento daquilo que nos engrandece. Algo que une atletas e não atletas, fãs e gente distante do esporte: a nossa condição humana, onde o jogo está para além dos enquadramentos dos esportes de alta competitividade e das práticas sociais hegemônicas. Repensar o esporte e os valores a serem cultivados na vida em sociedade deve ser uma marca da tomada de consciência de que a vida humana em seu conjunto é onde o jogo é para valer.