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Futebol, você bem me quer ou mal me quer?

Recentemente, em um seminário, tive a oportunidade de escutar pela primeira vez um trecho do livro “Fome de Bola”, de Nick Hornby. Confesso que a existência da obra não me era desconhecida, eu apenas não tinha tomado a iniciativa de procurá-la ainda, contudo, de repente, ela felizmente se colocou em meu caminho. O livro, que age como um relato autobiográfico, reúne as experiências do autor com o futebol e, também, mostra as suas vivências com o Arsenal, time inglês por quem é fanático desde a infância. 

No trecho que me inspirou a redigir este trabalho, ou, melhor definindo, este relato, o autor nos conta sobre uma lembrança de sua infância. O trecho se passa em 1967, quando, em um jogo do Arsenal, Hornby percebeu pela primeira vez a imersão emocional e os sentimentos irracionais provocados pelo futebol:

Eu já tinha ido a espetáculos públicos antes, claro; tinha ido ao cinema e a peças de Natal, e visto minha mãe cantar no coral do White Horse Inn, no Salão Municipal. Mas aquilo era diferente. As plateias das quais eu havia feito parte até então pagavam o ingresso pra se divertir e, embora aqui e ali se pudesse flagrar uma criança impaciente ou o bocejo de um adulto, nunca antes eu vira rostos como aqueles, contorcidos de ódio, desespero e frustração. O sofrimento como entretenimento era uma ideia completamente nova pra mim, e parecia ser alguma coisa pela qual eu estava esperando.” 

(HORNBY, 2000, p. 19 – 20).

Diferente de Nick Hornby, sou mulher, brasileira e flamenguista, mas, mesmo em um continente distinto, com uma cultura completamente diferente do autor, eu consegui entender plenamente o que ele dizia. E, mais do que apenas me promover uma identificação, a citação acima fez com que os seguintes questionamentos passassem pela minha cabeça: por que eu sofro tanto pelo futebol? E quando foi que esse sentimento começou?

Durante a infância e adolescência, cresci em uma casa com dois torcedores fanáticos por futebol: o primeiro, o meu avô José Mário, tricolor ávido pelo Fluminense, cadastrando-se até no plano de sócio torcedor do time e, o segundo, o meu irmão mais velho, Alessandro, um dos flamenguistas mais emotivos e incontidos que eu já conheci na vida. Diferente do que o cenário sugere, o clima em dia de jogo era de paz e poucas brincadeiras fomentadas pela rivalidade aconteciam. Inclusive, quando meu irmão ainda não podia andar sozinho, o meu avô se encarregava prontamente de levá-lo de trem aos jogos do Flamengo no Maracanã.  

Fonte da imagem: Fla Resenha.

Em meio a essa dualidade, a famosa influência exercida pelos irmãos mais velhos venceu e, logo na infância, passei a me identificar como flamenguista. Na época, eu não percebi, mas acho que foi uma das primeiras grandes escolhas que eu fiz na vida. Digo isso, porque eu não escolhi o país em que nasci, não opinei sobre o meu nome e nem agendei a data do meu aniversário, mas eu pude escolher o meu time e, entre todas as opções, entre todas as histórias, eu escolhi o Clube de Regatas do Flamengo.

Acredito que ao abraçar um time, não estamos tomando uma decisão passageira, mas sim, uma decisão definitiva e agora, na fase adulta, vejo que o meu eu da infância fez uma escolha que me definiria para o resto da vida. Acho válido informar aos leitores deste relato que, para o azar do meu avô, apenas um de seus seis netos fez a escolha de ser tricolor e, enquanto isso, todos os outros cinco escolheram ser flamenguistas.

Fonte da imagem: Torcedores.

Bom, mas cadê o sofrimento como entretenimento que Hornby menciona? Devo dizer que antes de escolher o meu time, eu não entendia porque o meu irmão chorava nas derrotas do Flamengo, eu achava engraçado e só conseguia pensar que bastava ganhar no próximo jogo, o mundo não tinha acabado. Quero dizer, aparentemente não tinha, mas, um tempo depois, as lágrimas passaram a fazer sentido pra mim e, as rachaduras responsáveis por destruir o planeta terra, que o levariam a se tornar pó, passaram a ser visíveis aos meus olhos.

Desse modo, a nova questão que surgiu em minha mente foi: por que o meu irmão via esse mundo acabar todas as vezes e, mesmo assim, não parava de ser flamenguista, não parava de torcer, não desistia do time e nem deixava de ir aos jogos, por que continuava lá? Porque o futebol é incerto e, onde existem as derrotas, também existem as vitórias, os grandes momentos de glória, as viradas sofridas aos 45 do segundo tempo, os tão sonhados títulos, existe a torcida e toda a sua emoção, existe de tudo.

E, por mais que a tristeza, a raiva, o ódio e o sofrimento fossem indissociáveis do futebol, também era possível ter esperança e fé de que a glória e a alegria poderiam surgir em qualquer momento. Acredito até que a imprevisibilidade é um dos grandes atrativos do esporte, pois, por mais que ela seja extremamente sofrida, é o que faz a gente ansiar pela vitória e isso não tem preço. Quero dizer, caso a dor de cabeça, o nervosismo e o choro já não sejam considerados um bom pagamento.

Em fevereiro deste ano fui ao Maracanã assistir ao jogo do Flamengo contra o Independiente Del Valle, pela taça da Recopa Sul-Americana. Cinco horas antes do jogo, eu estava no estágio e ainda não tinha o ingresso, mas recebi uma mensagem tentadora da minha prima, Larissa, perguntando se eu iria com ela caso a gente encontrasse um vendedor de última hora. Eu só não sabia que, cinco minutos depois, eu encontraria esse vendedor e, para nossa euforia, ele não teria só dois, mas três ingressos, permitindo que meu primo Felipe também fosse incluído nesta travessia ao grande Maracanã.

Fonte da imagem: Fla Resenha.

O jogo foi angustiante e durante o primeiro tempo, nenhum time marcou gols, contudo, o Independiente Del Valle já tinha um gol no jogo de ida e o 0x0 lhes dava a vitória. Desse modo, o jogo parecia correr cada vez mais rápido, o fim parecia cada vez mais próximo e a angústia só crescia, porém, já nos acréscimos do segundo tempo, levando os torcedores ao delírio e o Flamengo a prorrogação, Arrascaeta marcou um gol com a assistência de Everton Cebolinha.

Neste jogo em específico, não haviam torcedores visitantes, apenas Flamenguistas e a emoção de ver aquele gol tão esperado em um “Maraca” lotado, com todo mundo cantando e torcendo pelo mesmo time, foi emocionante. A prorrogação seguiu sem gols e a final da Recopa seguiu para a decisão de pênaltis. Diferente da explosão e do tremor provocados pelo gol de Arrascaeta, o resultado da disputa de pênaltis promoveu um silêncio “ensurdecedor” no Maracanã e, por 5×4, o Flamengo perdeu a disputa e o Independiente Del Valle levou a Recopa.

A tristeza e a melancolia após o final do jogo foram inevitáveis, parecia que o gol do Arrascaeta, que tinha nos dado tanta esperança, havia acontecido há semanas atrás. A alegria estonteante, responsável por dominar a torcida, foi substituída bruscamente por um vazio coletivo e a primeira pergunta que surgiu em minha cabeça, foi: por que eu vim?

Eu sabia que o resultado poderia ser ruim e que eu poderia presenciar o Flamengo perdendo uma disputa de pênaltis ao vivo, mas, ao mesmo tempo, tinha o conhecimento de que poderia ver o time conquistando mais um título, fazendo história e, bom, por isso eu fui e, por esse motivo, eu não me arrependo.

Acho, então, que é exatamente por essa razão que eu sofro pelo futebol, pois, no fim dos resultados, sendo eles bons ou ruins, o time que eu tanto amo ainda estará ali, à minha espreita. Não é possível ignorá-lo, não terei paz se fizer isso, estarei negando uma parte de mim, estarei fechando os olhos para algo que me representa e que, muitas vezes, é a fonte da minha alegria.

 A relação com o time não é puramente devoção, é, também, uma relação onde você quer saber o que o outro faz, como anda, se está bem e eu quero continuar sabendo do Flamengo para sempre, mesmo que as novidades sejam desanimadoras e me façam repensar escolhas que eu não posso controlar. Escolhas que, na verdade, eu não tenho.

No final de 2016, o meu amado avô tricolor faleceu e, no dia de seu enterro, eu e meu irmão vestimos camisas do Fluminense com muito orgulho. E sabe por que com orgulho? Porque, no fim das contas, aquela camisa era sobre ele, o Fluminense representava o meu avô, era uma parte inesquecível de sua personalidade que eu vou lembrar pra sempre, assim como as outras pessoas também vão. E acho que esse amor é maior do que qualquer decepção futebolística.

Fonte da imagem: Fluminense Football Club.

Hornby e minha família me fizeram concluir que, vestir as camisas de nosso time e torcer sem impedimentos é a melhor solução, pois, a escolha pelo sofrimento já está feita, não se tem mais como voltar atrás. Por isso, chorem livremente nas derrotas, mas também não deixem de liberar urros de muita alegria nas vitórias, pois, a jornada com o nosso time é longa, mas, os resultados ainda estão incertos.

Desse modo, vamos viver com orgulho nessa incerteza eterna do futebol, pois não há muito que possamos fazer, já fomos os escolhidos. E que sorte a nossa!

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

HORNBY, Nick. Febre de bola. RJ: Rocco, 2000.

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Idolatria de mitos do futebol brasileiro é construída pela mídia

Determinadas características consolidam os heróis no imaginário popular

Por Anabella Léccas e Paula Freitas

Zico, Romário e Ronaldo Fenômeno são notadamente reconhecidos como heróis do futebol mundial. Ao longo das suas carreiras, os atletas receberam grande atenção da mídia e, como consequência, conquistaram o apreço popular. Um conjunto de artigos produzidos pelo professor titular da Faculdade Comunicação Social da UERJ, Ronaldo Helal, procura investigar a forma como a imprensa futebolística atuou na construção das narrativas de idolatria que envolvem os três jogadores cariocas. 

Para isso, o pesquisador do CNPq utilizou como base a análise de jornais da Copa de 1994, na qual Romário se firmou como um grande herói e salvador do futebol brasileiro; de jornais da Copa de 1998, que marcou a provação de Ronaldo como mito após a derrota da seleção; e das biografias Zico: uma lição de vida e Zico conta a sua história, em que a trajetória de vida de Arthur Coimbra mostra a presença de certos requisitos para a construção da sua imagem como ídolo.

De acordo com Helal, os entraves futebolísticos, representados nas disputas em campo, proporcionam “um terreno fértil para a produção de mitos e ritos relevantes para a comunidade” (HELAL, p. 1, 2003). Em conjunto, características pré-definidas pelo público e acordadas com a mídia complementam a figura do herói, como é o caso da “genialidade”, do “improviso” e da “malandragem” (HELAL, 2003). O professor relata também que apesar da imprensa hegemônica valorizar o talento inato frente a dedicação, existem exceções, como a de Zico.

Em um aspecto mais amplo da idolatria, a infância dos ídolos tende a funcionar como uma ferramenta para a identificação do público. No caso de Zico, não é diferente. Nascido no subúrbio do Rio de Janeiro e caçula entre cinco irmãos, Arthur faz parte de uma série de atletas que tem um passado simples, sem muitas regalias. Essa questão aproxima o herói Zico do homem comum, porque demonstra um ponto de familiaridade entre a infância dos torcedores e a do consagrado mito.

Fonte da imagem: Globo Esporte.

Além disso, a determinação e o foco no treino são pontos que Zico considera essenciais para a consolidação de uma carreira de sucesso. Desse modo, o jogador destaca esses pontos como fatores imprescindíveis no fortalecimento da sua condição de herói, sendo este mais um passo para o desenvolvimento da sua afinidade com o público.

O intenso esforço de Zico e o constante acompanhamento médico o renderam o apelido de “craque de laboratório” (HELAL, p. 23, 1999). No entanto, “[…] à época a alcunha ‘craque de laboratório’ era utilizada, muitas vezes, de forma pejorativa, significando um craque não genuíno, fugindo das características “artísticas”, “espontâneas” e “criativas” do nosso futebol” (HELAL, p. 23, 2003).

Fervorosamente criticado pela imprensa e por seus opositores, o jogador do Flamengo, que ainda ocupava o banco de reservas, também passou por algumas decepções antes de se tornar um craque do time rubro-negro. Além das contestações dos jornalistas, a ausência da convocação para as Olimpíadas de 1972 soma-se aos percalços enfrentados pelo ídolo, que relata essa derrota pessoal e profissional como fonte de motivação para um treino ainda mais vigoroso.

Ao se elevar como jogador titular do Flamengo e, em seguida, conquistar a camisa dez rubro-negra, Zico se firma como um herói inegável pela imprensa e pelos apaixonados por futebol. Helal reflete, ainda, que a idolatria em torno de Arthur Coimbra se difere dos outros ídolos do futebol brasileiro e da visão clássica da mídia que privilegia a malandragem frente ao esforço e à dedicação.

Um exemplo de ídolo exaltado pela mídia por personificar a malandragem e o talento inato é o jogador Romário. Durante a sua carreira, o atleta se envolveu em inúmeras polêmicas e discussões, sendo caracterizado por uma matéria do jornal “O Globo” como: “quase uma bomba que tem pernas”, “parece o dono do mundo” e “abusado” (O Globo, 13/09/1993). Ao mesmo passo, o jornal o definia como um “artilheiro” e “craque” que “faz gol como quem brinca” (O Globo, 13/09/1993).

Essa dualidade, por mais paradoxal que seja, acaba definindo Romário como o “marrento” favorito do Brasil. A construção da narrativa do jogador carioca é “muito mais próxima do modelo “Malasartes” e “Macunaíma”, exaustivamente analisado por Roberto Da Matta (1979) que, inclusive, traz para o discurso acadêmico a narrativa do “malandro” como uma vertente tipicamente brasileira, corroborando, assim, a postura adotada por parte da mídia” (HELAL, p. 22, 2003).

Fonte da imagem: GQ – Globo

A Copa de 1994, sediada nos Estados Unidos, reforçou ainda mais o paradoxo que envolve a carreira de Romário. O atleta era visto como uma figura “difícil”, mas, ao mesmo tempo, necessária para que a seleção brasileira vencesse o grande torneio de futebol da FIFA. Durante as eliminatórias da competição, Romário já era visto como uma ferramenta imprescindível e extremamente decisiva para que o Brasil pudesse, de fato, chegar até a Copa do Mundo. Na partida contra o Uruguai, o jogador “abusado” fez dois gols e levou o time a vitória, reafirmando os seus discursos prévios de que iria, certamente, fazer uma boa atuação e ganhar a partida. Em um dos artigos, ao analisar essa questão, o pesquisador Ronaldo Helal relaciona o jogador à jornada do herói de Joseph Campbell. 

A ciência que Romário tem de seu papel assemelha-se ao início da saga clássica do herói que atende ao chamado e parte em busca da missão redentora (Campbell, 1995 e Brandão, 1993). Porém, Romário age com uma boa dose de picardia ao tratar da missão como algo fácil e encarar os adversários com ar de deboche (…) (HELAL, p. 29, 2003).

Ao longo da Copa do Mundo, o atleta segue com essa “picardia” e “deboche”, mas, ao mesmo tempo, cumpre com as suas declarações e se mantém como um grande mito durante toda a competição, garantindo a conquista do tetracampeonato para o Brasil e compondo o quadro da galeria dos heróis.

Outro fator-chave para fortificar a construção da idolatria é a necessidade da sociedade em encontrar no herói qualidades para se inspirar e defeitos para se identificar. Ronaldo, alcunhado de  Fenômeno, incorpora esses dois polos. Às vésperas da Copa de 1998, o jovem de 21 anos e jogador do Grêmio já enfrentava duras críticas da mídia. O peso, problemas no joelho e crise no relacionamento eram os pontos principais apontados pela imprensa. Ao mesmo tempo, Ronaldo era também definido por suas qualidades: era humilde, maduro e tranquilo. O herói parecia estar pronto para todo e qualquer desafio que fosse imposto.

O seu desempenho na final do torneio acabou decepcionando o público. Na disputa contra a França pelo título, a seleção foi derrotada e a atuação do Fenômeno foi malvista pelos fãs de futebol. No entanto, a grande mídia, rapidamente, aproveitou o descontentamento para justificar as falhas do ídolo. Em uma edição do Jornal do Brasil, Ronaldo era visto como humano e, portanto, passível de erros.

A batalha contra questões neurovegetativas, o fator emocional e o período de reclusão criam um contraponto com a sua imagem de herói perfeito. O jogador não é imbatível e “(…) na “queda” do ídolo, presenciamos a sua “humanização”. Ao invés do super-homem Ronaldinho, “descobrimos” Ronaldo, o homem, o mortal. Os fãs se familiarizam com ele e muitos querem lhe dar colo” (HELAL, p. 5-6, 1999).

Fonte da imagem: Pipeline – Globo

Todos eram homens, mas, não necessariamente, todos seriam ídolos e, mesmo assim, os três conseguiram alcançar esse posto, evidenciando que, em determinados casos, a construção dos mitos apresenta especificidades que são perpetuadas através do uso da mídia. O projeto “Meios de Comunicação, Idolatria e Cultura Popular no Brasil”, desenvolvido nos artigos do professor Ronaldo Helal, propõe uma série de reflexões sobre a construção das narrativas de idolatria e contribui para o campo da comunicação, o que mostra que a formação da figura dos heróis acontece de modos distintos. 

O cuidado ao analisar essa questão deve ser imprescindível, pois, nem toda característica tornaria um indivíduo comum em um herói, não existe uma “forma” certeira para essa mitificação, apenas suposições recorrentes.  Por exemplo, se Zico fosse “malandro”, Romário fosse um jogador “humilde” e Ronaldo “imaturo”, será que teriam conquistado tanto sucesso? Para Helal, as características de cada um desses atletas adicionadas ao contexto midiático, social e futebolístico da época criaram um terreno fértil para a consolidação do heroísmo que compôs as suas carreiras. Ou seja, eles tinham a personalidade certa no momento certo.

Assim, Helal atua como um precursor no debate acerca da idolatria no futebol nacional e reforça o poder da mídia enquanto criadora de histórias mesmo que apenas parcialmente verdadeiras. Entende também o papel dos meios de comunicação, em consenso com a população, no estabelecimento dos pré-requisitos necessários para a gênese de um novo herói. Por fim, o pesquisador compreende a existência de múltiplas narrativas que permeiam o imaginário do público, seja através da ética anglo-saxônica na trajetória de Zico, seja por meio do ideal de “Macunaíma” na de Romário. 

A última é privilegiada pela imprensa brasileira, que tem um apreço peculiar pela malandragem e pelo talento inato, como indica o professor. Ronaldo Fenômeno pode ser interpretado como o melhor dos dois mundos, uma união entre a ludicidade, a sagacidade e a maturidade. Helal acende uma faísca para calcular o que, no futuro, será necessário para a formação de novos mitos no futebol. É possível concluir, portanto, que a presença de ídolos perpassa a sociedade e “(…) de uma forma ou de outra, todos os grupos humanos “fabricam” os seus heróis” (HELAL, p. 5, 1998). 

Artigos científicos

HELAL, Ronaldo. A construção de narrativas de idolatria no futebol brasileiro. Revista Alceu 4.7, p. 19-36, 2003. 

HELAL, Ronaldo. Cultura e idolatria: ilusão, consumo e fantasia. Cultura e Imaginário. 1ed. Rio de Janeiro: Mauad, 1998.

HELAL, Ronaldo. Mídia, ídolos e heróis do futebol. Revista Comunicação, Movimento e Mídia na Educação Física, v. 2, n. 03, p. 32-52, 1999.

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Papai-Noel não deixou o meu presente de Natal.

Pense em uma criança de oito anos, quase nove que, sem querer, acabou descobrindo que o Papai Noel não existe. Os seus parentes contaram uma história extremamente convincente sobre um homem do Polo Norte, que, milagrosamente, com a ajuda de seus elfos mirabolantes e suas majestosas renas, conseguia distribuir presentes para todas as crianças do mundo em apenas uma noite. Era muito bem contado, a criança não teve culpa, mas, mesmo assim, ela se sente culpada, enganada, sua confiança foi traída, Papai Noel era uma fantasia e não uma figura mágica e admirável, aqueles que a criança mais admirava mentiram pra ela. Como ela poderia confiar em alguém de novo? 

Nessa história, Lance Armstrong assumiria o papel dos “pais”, que elaboraram a história falsa, já a sua figura de ídolo do ciclismo assumiria o papel do “Papai Noel”, pois, infelizmente, Lance não era um ídolo de verdade.  Já os “elfos” e as “renas” representavam os anabolizantes e remédios consumidos pelo atleta, que o ajudaram a realizar grandes feitos fraudulentos de carreira e, a “criança”, bom, essa representaria todos os grandes fãs do ciclista, que foram enganados e ludibriados por Lance ao serem convencidos de que ele era um herói, quando, na verdade, esse herói não existia. 

Fonte da imagem: UOL

Essa questão se liga diretamente à idolatria, pois, a partir do momento em que determinados indivíduos passam a ser vistos como atletas brilhantes, incorruptíveis e inigualáveis, eles acabam atingindo uma posição de intocabilidade onde passam a ser tratados como seres perfeitos, que não cometem deslizes técnicos nas competições e que, também, nunca apresentam uma má índole. Contudo, não é bem assim, pois os ídolos ainda são humanos e estes não estão nem um pouco perto desse hiper-idealizada  perfeição. 

Lance Armstrong, o nosso “Papai-Noel”, era uma figura quase religiosa para os fãs do ciclismo. O  atleta ganhou o Tour de France sete vezes seguidas de 1999 até 2005, depois de se recuperar de um câncer muito agressivo, consagrando-se como o atleta mais vitorioso da competição francesa. Anos depois, em 2012, para a infelicidade e decepção dos fãs, foi comprovado que o atleta fazia uso de substâncias ilícitas desde 1995 e, com isso, Lance foi expulso do ciclismo por doping e teve que devolver todos os seus troféus do Tour de France. Contudo, mesmo com a confirmação do uso de substâncias ilícitas, o atleta só admitiu o doping em 2013, durante uma entrevista.

Agora, tente mensurar o espanto dos fãs de Lance Armstrong ao descobrirem que o seu ídolo, um homem que lutou contra uma doença devastadora e que recuperou o seu lugar no ciclismo, era,  na verdade, um indivíduo que ignorava as principais regras do esporte  para ter um melhor rendimento e sucesso? Surge um arrependimento, um sentimento amargo que desmotiva o fã a admirar o esporte, mas que não deveria ser assim. Não é um problema ter ídolos, eles motivam os espectadores, são fontes de inspiração, o problema é quando se confia neles sem precedentes, sem levar em conta que são humanos e que podem vir a cometer erros extremamente decepcionantes como qualquer outro indivíduo. 

Em uma cena do filme de comédia “Com a bola toda”, de 2004, dirigido por Rawson Marshall Thurber, Peter, personagem principal interpretado por Vince Vaughn, decide não jogar a final de um torneio de Dodgeball e abandona o seu time inesperadamente. A escolha acaba deixando Peter muito pensativo e, com o intuito de se distrair e se desestressar, ele decide ir a um bar, porém, para a surpresa do personagem e do espectador, uma visita desinteressante à um bar acaba se tornando em um  encontro inesperado e inspirador, pois, bem ao lado de Peter, surge Lance Armstrong, o “herói” do ciclismo. 

Na cena, Lance afirma ser um grande fã do time de Peter, deixando o personagem muito surpreso e lisonjeado pelo carinho. Contudo, ao descobrir sobre a desistência, Lance se mostra muito decepcionado e faz de sua história de superação e reinserção no esporte um artifício para convencer Peter a não abandonar o torneio, afirmando que a desistência dura para sempre. O argumento acaba deixando o homem muito mexido e, após se despedir do ciclista, Peter sai do bar, vai em direção a partida, volta para o seu time e conquista a final do torneio de Dodgeball. E, tudo isso, devido à ajuda do grande ídolo do esporte Lance Armstrong.

 Ao pesquisar, encontrei essa cena em um canal do Youtube e identifiquei alguns comentários que chamaram a minha atenção. Um deles foi publicado em 2011, – antes da farsa do ciclista ser descoberta – por um usuário chamado “LuisTrivelatto”. Em primeiro lugar, o usuário começa reproduzindo uma frase de Lance: “Dor é temporária. Desistência é para sempre” e, em seguida, ele faz uma afirmação sobre o ciclista: “Que herói, um exemplo de pessoa. Vai Lance!!”.

Fonte da imagem: YouTube

 Já em um outro comentário do vídeo, publicado pelo usuário “Liga DQ”, em 2018 – já após toda a fraude ter sido descoberta – , contém a seguinte afirmação: “Conselho legal da maior fraude da história do esporte americano”.

Fonte da imagem: YouTube

 Esses comentários sintetizam muito bem a frase “envelheceu mal”, pois, devido à descoberta da trapaça, pôde-se notar uma alta quebra de expectativa em torno de Lance Armstrong. A sua imagem foi desconstruída e, a mensagem que ele passava sobre superação e perseverança, passou a ser interpretada como a representação da fraude, da farsa e da desonestidade. 

Dentre os comentários da publicação, uma postagem foi responsável por chamar a minha atenção, fazendo com que a “criança” da história de “Papai-Noel” pudesse ser  enxergada com outros olhos. O comentário em questão foi postado por “DangerNoodle”, em 2012 – ano em que Lance foi acusado de doping – e reproduz a seguinte frase: “Nunca foi provado, ele nunca falhou em um teste. São apenas outros competidores e seus apoiadores lançando acusações contra ele porque são péssimos perdedores. Pelo menos, essa deve ser a razão, já que, como eu disse, ele nunca falhou em nenhum teste de drogas.”

Fonte da imagem: YouTube

Esse comentário fez com que eu calculasse um novo cenário: a da “criança teimosa”. E, se por um acaso, a criança ouvisse que o Papai Noel não existe, mas, mesmo assim, escolhesse se prender à mentira e fechasse os olhos para a verdade? Existem provas, existem explicações que mostram a veracidade dos fatos, mas é como se isso tudo não importasse, para a criança, o herói existe e ponto final. Infelizmente, no mundo dos ídolos, isso é muito recorrente. Muitos pseudo-ídolos não mereciam mais o título que um dia lhes parecia cabível, mas, mesmo assim, para alguns indivíduos, o heroísmo não se dissolve, para eles, o gosto da mentira parece ser mais tentador do que a verdade. Às vezes acaba sendo muito difícil dizer adeus.

Lance não era merecedor dos títulos, mas, para o fã do comentário que o defendeu, as provas de nada bastavam. E a farsa? Bom, para ele, Lance não era um farsante e seus inimigos invejosos e calculistas, apenas criaram toda uma história. Mas então, como resolver esse problema, como abrir os olhos daqueles que não querem olhar para o rosto que está atrás da máscara? Como quebrar idolatrias fajutas? Sobre isso, não há muito o que se fazer além de, SEMPRE, reforçar a verdade. Independente do número de prêmios, independente da fama e da glória injustamente conquistados,  devemos sempre expor os farsantes, tanto do esporte, quanto de outras esferas sociais, temos de educar as crianças teimosas e fazê-las entender o que é real e o que é fantasia.

Pode-se afirmar então que, a partir do momento em que os erros são vistos como uma  possibilidade, será levado em conta o fato de que, sim, é possível ter ídolos, não é necessário estabelecer iconoclastias severas, contudo, é preciso  entender que a idolatria tem um limite e que os grandes heróis de hoje, podem ser os grandes vilões de amanhã. Além disso, é preciso prestar atenção no fato de que podemos ser as próximas crianças a descobrir que o Papai-Noel não existe, ou, infelizmente, podemos ser as crianças teimosas que não querem acreditar. E, justamente por isso, devemos estar sempre prontos, pois não sabemos quando a magia pode acabar.

REFERÊNCIAS:

AGNESLECOACHING. “Quitting” in Dodgeball – Lance Armstrong. YouTube, 25 de fev. de 2010. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=jGtfpzT4Lqw&t=1s. Acesso em: 27 out. 2022.

COM A BOLA TODA; Direção: Rawson Marshall Thurber. Produção: Red Hour Films. Estados Unidos: 20th Century Fox, 2004. 1 DVD (92 min.).

ROAN, Dan. Banido do ciclismo por doping, Lance Armstrong diz: ‘Faria tudo de novo. Disponível em:       https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/01/150126_lance_armstrong_entrevista_rm.  Acesso em: 28 out. 2022.

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Da Idolatria ao racismo: como o preconceito se disfarça de decepção

Em seu artigo “Foot-ball mulato”, Gilberto Freyre destaca as qualidades individuais dos jogadores negros, propondo que eles seriam influenciados por uma dança dionisíaca, responsável por uma forma de jogo única, mais coreografada e improvisada, inspirada pela capoeira, um patrimônio que estava no cerne da negritude brasileira. Essas qualidades seriam responsáveis por destacar a figura do indivíduo negro no futebol e por dar a ele uma espécie de vantagem contra os adversários, que, sem essas características, estariam prejudicados. Pensando nessa observação, a questão é: até que ponto essas “características” integram o jogador negro enquanto cidadão na sociedade brasileira?

Bom, em 1950, no Brasil, era realizada a quarta edição da Copa do Mundo. A seleção brasileira, anfitriã do evento, era a favorita para ganhar o torneio da FIFA, devido ao seu grande elenco composto por Bigode, Ademir de Menezes, Juvenal, Nilton Santos e pelo goleiro Barbosa. Com bons resultados na competição, o time conseguiu chegar à final do torneio no Maracanã, disputada contra a seleção uruguaia de Ghiggia e Obdulio Varela.

O estádio estava lotado, com quase 180 mil telespectadores ansiosos para ver o Brasil ser campeão do mundo; contudo, para desagrado da torcida brasileira, Ghiggia fez um gol de desempate no segundo tempo, conquistando o título para o Uruguai com uma vitória de 2 a 1. Além de dar ao Brasil um inédito, ainda que melancólico, segundo lugar, essa competição também nos ofereceu uma análise muito interessante acerca da visão sobre a negritude no futebol brasileiro

Após a derrota, um jogador da seleção brasileira foi alvo principal de críticas e de acusações da torcida canarinho. Não existia mais um time, e sim um culpado, um carrasco, um homem responsável pela desgraça de toda uma nação: o goleiro Moacir Barbosa. Enquanto Barbosa fazia defesas mirabolantes e difíceis, a torcida demonstrava toda a sua devoção e admiração por ele. O goleiro era um ídolo do povo brasileiro: ninguém podia negar seu talento individual nem o seu lado dionisíaco.

Fonte: Terceiro Tempo (UOL)

No entanto, esse lado dionisíaco também traz um fardo muito grande: o jogador que detém habilidades individuais ajuda a todos e favorece o time, mas, quando esse mesmo jogador falha, ele falha e sofre sozinho. E, geralmente, o sujeito detentor dessas características e que é acusado sem pudor é o indivíduo negro, visto como uma espécie de animal exótico, do qual se pode esperar tudo, pois, ainda que admirável em alguns momentos, é incerto e não se pode confiar

Por isso, quando Barbosa leva o fatídico gol contra o Uruguai, mesmo já tendo feito outras inúmeras defesas brilhantes, a sua carreira e a sua integridade pessoal foram postas à prova; é como se ele tivesse até então assumido um comportamento de fachada e, a partir do momento em que errou, a partir do momento em que a bola de Ghiggia entrou na rede do Maracanã, o goleiro mostrou a sua verdadeira face e a máscara de bom jogador de Barbosa caiu. Essa ideia tem uma forte relação com a análise de Irving Goffman sobre o indivíduo desacreditado e o indivíduo desacreditável: enquanto o primeiro já é estigmatizado desde o primeiro contato com outrem, o segundo não possui um atributo estigmatizante aparente, mas que eventualmente pode ser “revelado”. No caso de Barbosa, ele se torna “desacreditável” quando a cor de sua pele passa a ser um elemento definidor de sua qualidade enquanto goleiro. 

Além de Barbosa, outros jogadores negros daquela equipe, como Juvenal e Bigode, também sofreram com atos racistas e acusatórios após a derrota. Era como se tivesse faltado aos jogadores negros espírito coletivo, característica essencialmente apolínia e que seria decisiva para a vitória. Com isso, além de sofrerem pela derrota dentro de campo, esses jogadores também sofriam fora dele, devido simplesmente a sua origem étnico-racial.

Mais recentemente, outro caso para pensarmos a negritude no futebol foi a final da Eurocopa de 2021, disputada entre Inglaterra e Itália, no estádio de Wembley. A final do campeonato chegou à disputa de pênaltis, terminando em 3 a 2 para a Itália, que se consagrou campeã.  Na seleção inglesa, foram escolhidos três jogadores negros para bater os pênaltis; entre eles, estavam Marcus Rashford, Bukayo Saka e Jadon Sancho. Infelizmente, nenhum dos três jogadores converteu a cobrança.

Como esperado, a reação da torcida inglesa foi hostil e extremamente injusta, atribuindo, sem pudor, a culpa aos três jogadores. Marcus Rashford foi responsável por realizar em um projeto contra a fome no Reino Unido em 2020, em meio à pandemia da COVID-19, ajudando inúmeras famílias e suprindo a negligência do governo nessa questão. Entretanto, isso não foi levado em consideração pela torcida na hora de avaliar o caráter do jogador, posto que, a partir do momento em que Rashford errou um pênalti, prejudicando a equipe, ele se tornou uma figura desprezível. Essa situação se assemelha muito ao tratamento desprezível e racista sofrido por Barbosa, Bigode e Juvenal, evidenciando que o racismo após a derrota já se tornou algo corriqueiro no mundo futebolístico.

Ao analisar essa questão, nota-se que, talvez, seja o momento de eliminar “Dionísios” e “Apolos” no futebol para que, no lugar deles, tenhamos times que joguem juntos e percam juntos e não indivíduos que sofram devido à sua origem étnica racial.

Referências:

FREYRE, Gilberto. Foot-ball mulato. Diário de Pernambuco, Recife, 17 jun. 1938, p. 4.

MUYLAERT, Roberto. Barbosa: Um gol silencia o Brasil. Editora SESI-SP; 1ª edição, 12 novembro 2018.