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É fracasso voltar jovem da Europa?  Nosso caminho é o sul

Por Jorge Santana.

Na temporada nacional do futebol brasileiro a bola ainda não rolou, mas já temos debates profundos e que movem paixões a partir do movimentado mercado da bola. O retorno do meia Gérson ao Flamengo e a chegada do uruguaio Luis Suaréz ao Grêmio, com milhares de torcedores na Arena Grêmio apontam que a temporada vindoura será  de emoção. Pelos menos é o que mostra até agora algumas contratações do mundo da bola. Veremos se os campeonatos nacionais serão disputados, quebrando a hegemonia protagonizada por Palmeiras e Flamengo nos últimos dois anos.

Em especial, o retorno de Gerson Santos da Silva, com então 25 anos para o Flamengo, após 1 ano e meio no Olympique de Marselha produziu uma série de análises e discussões  as quais  pretendo tratar aqui. Em geral, as opiniões dos comentaristas de futebol versaram que significava um “fracasso” a prematura volta do jovem volante para as canchas tupiniquins. O portal Placar estampou como manchete: “Após fracassos na Europa, Gerson retorna ao Fla como 2º mais caro do clube”[1], evidenciando um suposto insucesso. Segundo este, a volta para cá era significado de que não deu certo na Europa ou não vingou no centro do futebol mundial. 

Aqui estou reduzindo um pouco as análises, pois alguns comentaristas defenderam também que o meia revelado pelo Fluminense Football Clube configura um excelente reforço para o rubro-negro carioca. Contudo, no que tange à sua carreira pessoal, o segundo retorno da Europa, em apenas 8 anos de carreira, seria um atestado de  fiasco. Futebol este que foi fundamental para o Flamengo conquistar a taça  Liberadores de 2019, os campeonatos brasileiros de 2019 e 2020 e os campeonatos cariocas  de 2020 e 2021, porém insuficiente no centro do futebol do mundo

Esses dois anos de  um futebol versátil, moderno e sólido levaram o meia a vestir a camisa da seleção brasileira e fizeram com que o técnico  Jorge Sampaoli pedisse a sua contratação para o time do Sul da França. Apesar de alguns apontarem como fracasso, o Coringa, como é chamado pela torcida do Flamengo, fez a sua melhor temporada na França, com 13 tentos marcados e 10 assistências. Após a saída do técnico argentino, o jogador acabou indo para o banco, após uma discussão com o novo professor. O que contribuiu para o seu retorno para o Ninho do Urubu. 

O que fomenta esse artigo é um complexo de vira-latas de nós, brasileiros.   Pois consideramos que o retorno de um jogador jovem da Europa é um atestado de fracasso, no velho continente. E fracassar lá  significa,  partir da premissa de que há uma linha evolutiva inconteste no futebol, em que todos os  bons jogadores têm as ligas europeias como destino final. E  para receber o  selo europeu só devem voltar para seus países natais a partir de  33 ou 34 anos, para encerrar de preferência no clube que os revelou na terra de Vera Cruz. Essa linha evolutiva estabelece que o jogador nasce na América do Sul, cresce e se desenvolve na Europa e volta aqui apenas para morrer. No caso morrer, como metáfora de aposentar como profissional do futebol.

Nessa linha evolutiva, o futebolista brasileiro só aprende ao chegar na Europa, a famosa “educação tática”, pois aqui praticamos um futebol da desordem, da informalidade e do jeitinho brasileiro indomável que urge ser catequizado. Parece-me um erro tal como o cometido por  historiadores e antropólogos no século passado. Quando estes concebiam que o português colonizava o índio, sem adquirir nenhum traço da cultura dos povos originários que viviam aqui. O conceito de aculturação estabelece que apenas o indígena adquiriu a cultura do conquistador Uma revisão  avançou para o conceito de transculturação, no encontro do europeu com os dois foram impactados. 

No poema do modernista  Oswald de Andrade, “ Erro de português” de 1925, o autor  argumenta que na chegada dos portugueses chovia, portanto, o europeu colocou a roupa no índio. Se fosse um dia de sol, o índio teria despido o português. Aqui completaria o poema de Andrade, adicionando que no dia seguinte fez um sol dos trópicos e o índio ensinou os lusitanos a tomar banho todo dia e a ficar nu. Portanto,  os jogadores brasileiros aprendem jogando na Europa, assim como o velho continente aprende com os brazucas. Não é uma via de mão única, ela é sempre relacional e influencia as duas culturas envolvidas em uma interação, não poderia ser diferente com o futebol.  Ronaldinho Gaúcho ensinou a eles como bater falta por baixo da barreira e eles ensinaram Vinicius Junior que atacante também tem de recompor a defesa.

Essa linha evolutiva estabelece a Europa como Norte, a evolução só pode ser atestada lá, pois aquele que não vai a Meca não pode ser consagrado, e quem volta cedo de Meca também, tal como o Coringa.  Na década de 1940, o artista uruguaio Joaquín Torres Garcia (1874-1949) produziu uma arte que hoje constitui símbolo de Nuestra América ou Abya Yala (nome da nação Kuna para nosso continente). A arte intitulada “ América Invertida”, de 1943,  é uma crítica de Garcia Torres à dependência artística dos latinos americanos da produção artística europeia. Na época, os artistas  do Sul tinham que ir para lá aprender, Tarsila do Amaral, Di Cavalcanti, Portinari e muitos outros fizeram essa  passagem pelo Norte. De maneira maestral, Garcia Torres desenhou um mapa da América do Sul de cabeça para baixo, dessa forma provocando e colocando o Sul no lugar do Norte. Apontando por meio da arte e do lúdico que nosso caminho é o Sul.

“América Invertida” do artista Joaquín Torres García, retirada do site Socialista Morena.

A genialidade da arte  do uruguaio fez  com que a mesma torna-se um símbolo das lutas sul-americanas. Aproveitando essa arte me questiono por que precisamos do atestado europeu para ratificar o nosso talento no velho esporte bretão?  Quantas vezes, jornalistas não advogaram que Edmundo foi o melhor do mundo moralmente, em 1997. E só não foi eleito como tal pela FIFA por jogar no Brasil. Naquela temporada, o Animal marcou no brasileiro 29 vezes, em 42 partidas, sendo 42% dos gols do Vasco, que foi campeão do Brasileirão. 

 E Romário, que como melhor jogador do mundo, campeão do mundo, campeão espanhol retornou ao Brasil, em 1995. Ele retornou fracassado  ou sua escolha foi permeada por outros desejos que não só estar no centro do futebol.  Por último, exemplo, o lateral Hermano.  Juan Pablo Sorín. Quando uma jovem promessa do River Plate foi jogar na Velha Senhora (Juventus), após dois anos voltou para o time que o revelou com apenas 26 anos (apenas um ano mais velho que Gerson).  Pouco tempo depois, veio para o Cruzeiro e simplesmente jogou muita bola no time celeste mineiro, que conquistou a tríplice coroa em 2003. O retorno de Sorín foi  um insucesso?

 Não serei aqui idealista em defender que o futebol brasileiro ou sul-americano é melhor do que o europeu. Lá estão as melhores ligas, os melhores jogadores e os melhores salários. Essa é a realidade. Contudo, não se pode atestar que para ser um grande jogador é preciso estar na Europa e, muito menos, quem retorna na casa dos 20 anos é um fracassado. Há mais coisas entre essa simplória definição evolutiva do futebol do que a Europa como  uma única régua para atestar qualidade ou sucesso. O fato de Gérson retornar, sendo a contratação mais cara do nosso futebol, demonstra que não foi um insucesso. 

 Aqui busco dizer que está longe, mas que todos nós sonhamos e desejamos o caminho do Sul. Chamo de caminho do Sul o que vos falo é uma liga brasileira forte, moderna, organizada e sólida. Quando chegarmos nesse caminho do Sul, nossos clubes gozarão de viabilidade econômica para manter nossos jovens craques em terras tupiniquins. E será que quando chegarmos nesse Eldorado do futebol brasileiro e quiçá sul-americano continuaremos a dizer que se o jogador não for consagrado na Europa é um fracasso?  Essa resposta só o tempo irá dizer.  Pensar em um futebol brasileiro forte e competitivo financeiramente e desportivamente é ter um futebol que passaremos a ser o centro e que talvez essa discussão seja coisa do passado. Tomemos o caminho do Sul assim como  nos apontou há 80 anos, o saudoso Garcia Torres. 

Jorge Santana é professor de História, doutorando em Ciências Sociais (PPCIS/UERJ), autor do romance “Desculpa, meu ídolo Barbosa” e torcedor do Fluminense.

Referências

Redação. Após fracassos na Europa, Gerson retorna ao Fla como 2º mais caro do clube. Placar, Brasil 5 jan. de 2023.

Imagem é uma reprodução da obra “América Invertida” do artista Joaquín Torres García, retirada do site Socialista Morena.

Disponível em: < https://www.socialistamorena.com.br/nosso-norte-e-o-sul/>.  Acesso em 18 jan. de 2023.


[1] Disponível em: < https://placar.abril.com.br/placar/apos-fracasso-na-franca-gerson-retorna-ao-fla-como-2o-mais-caro-do-clube/> Acesso em 18 jan. de 2023.

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